domingo, 4 de dezembro de 2016

Mudança de casa



Marcus Vinicius Batista

Estamos em endereço novo há três meses. Estamos porque, claro, não me mudei sozinho. Estamos porque, claro, uma mudança de endereço não é apenas um novo CEP, novas chaves, novos vizinhos. Mudança é, sem escolha, balanço. Mudança é abandonar um pedaço, agarrar outro, incorporar uma terceira fatia.

Quando deixamos um lugar, carregamos o trecho da narrativa que nos interessa. Escolhemos a melhor forma de contar a história, bem editada, dependendo do abraço que damos às queixas ou do afago nas lembranças sorridentes.

A limpeza auxilia no caminho a seguir. Por qual porta sairemos? Mudança representa enxugar espaços, dispensar tralhas, redescobrir fantasmas impregnados em objetos. Arrastamos aqueles móveis que viraram monumentos e descobrimos, como arqueólogos, o passado de coisas que um dia mereceram o status de essenciais. Como nunca o foram, resta o sepultamento em uma lata de lixo, sem direito à ritual. É mais honesto do que a mentira-promessa de que um dia vamos usar.

Fingimos acreditar que os objetos são parte de nossa identidade e, por conveniência, esquecemos de mencionar a parte de que seriam. Se estivessem em nosso cotidiano, jamais morariam no fundo da gaveta de um criado-mudo qualquer.

Mudar de casa também permite revalorizar os sobreviventes. Aquelas roupas, livros, esculturas, os que nos acompanham se materializam como filtros de quem merecia ocupar uma menção no livro daquela etapa da vida. Essa revalorização integra a nossa própria purificação, a esperança em melhorar aspectos internos – mais até do que redecorar a casa.

Antes de sairmos, avaliamos quem fomos, projetamos quem seremos, prometemos mudar mais do que trocar de apartamento. A antiga moradia nos entregou, como despedida, a conta com nossos erros, com nossos sucessos.

Optar por uma das trajetórias? Interpretar que ambos se completam? Mentir para nós mesmos e zerar o caixa? Sair para uma morada inédita e compreender que o carreto e as caixas carregam uma vida editada sim, porém com a oportunidade de reescrever a trilha.

Em três meses, deixamos a casa nova como queríamos. Gastamos o que não podíamos. Adaptamos o que sonhávamos. Reorganizamos o que eram falhas e, com novas janelas, viraram virtudes. Admitimos que tudo é processual.

Um endereço novo traz a motivação de jamais engolir a ilusão de que a mudança começa quando se tranca a porta nova pela primeira vez. Não se apaga um velho imóvel. Apenas o insere – com o devido valor – no mundo novo.

Até que se demarque o território, somos gatos em vida transitória. Mudar é procurar o essencial, enxugar as gorduras que abraçamos pelo conforto, pela preguiça, pelo desespero de ser amado. Muda-se para ser outro, dentro dos limites do outro que nos faz cúmplice.

Eu e Beth somos unânimes no quórum de duas pessoas, duas crianças... e dois gatos. Esta é, pela primeira vez, a nossa casa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Olhando em silêncio (Conversas com Beth # 31)



Marcus Vinicius Batista

O ritual se força em mim cada vez que você dorme mais cedo. Se desmaio primeiro, sigo em paz por cinco, seis horas. Se você descansa antes, não consigo evitar: sou testemunha da minha própria preocupação.

Não existe um motivo aparente para me preocupar. Ou um motivo que seja diferente das preocupações quando estamos ambos acordados. As preocupações nascem das reações de seu corpo, da rotina dos remédios, do prazer mais limitado em qualquer treino na piscina. A preocupação persiste porque o passado não foi enterrado. A lúpus adora fingir sonolência. Eu a conheci e nunca sairei da luz amarela.

Minhas visitas ao quarto funcionam quase como o relógio da estação de trem. Meia hora quase religiosa, como badaladas do sino para avisar o início da missa, feito as três campainhas para o início da peça. Atravesso o corredor descalço, em silêncio, no escuro. Ignoro o primeiro interruptor para acender a luz do corredor no segundo, às vésperas de entrar no quarto.

À meia luz, driblo o ventilador e a cômoda para me aproximar. Respiro um pouco mais forte. Apanho-me elevando a respiração, nada programado, hoje acostumado. A respiração indicará, com honestidade, se você dorme. O silêncio exala a certeza, o som que você me devolve confirma a teoria.

Não sei porque entrei no quarto meia hora atrás. Não sei por que o fiz segundos antes de abrir este texto. Sinto a necessidade de assegurar o óbvio. Você está bem. Eu dormirei menos, de novo. A insônia me arrastará e vai me algemar ao computador, à escrita, à leitura por mais meia hora. Não me queixo, é entorpecente para me convencer de que sou capaz de te proteger.

Olho para o gato que, animal de hábitos, usufrui da quentura do edredon que esconde um de seus pés. O outro se mostra lindo, como sempre, para avisar do corpo de lado. Às vezes, o gato me olha de volta, única parte do corpo que se libertou da preguiça paralisante. Contorno a cama pelo lado esquerdo. Preciso ver mais de perto. Confirmar a paz que quebra o silêncio apenas para os que transgrediram a fronteira do armário do quarto.

Nunca subo na cama. Exploro minha envergadura para chegar a menos de meio metro. O alívio de te ver bem, a resposta de quem temeu pelo pior há um ano e meio. A evidência redundante que reforça a obviedade travestida de novo. Você está bem. Melhor do que o enjoo de algumas horas, da dor de cabeça que rebolava desde o final da tarde, do cansaço de quem nadou para ser indiferente ao mundo.

Viro as costas com a cautela de andar nas pontas dos pés. Hora de sair. Somente eu quebro o silêncio do quarto. Somente eu tenho o dever de ouvir o atrito que não acorda o gato. Sair do quarto e apagar a luz do corredor são o ponto do vigilante que fará uma ronda em breve, como em todas as noites que você dorme mais cedo.

Não avalio o ritual. Eu o cumpro e não o enxergo como tal. Ver como você está ganhou este nome porque precisava de uma palavra para denominar minhas visitas. Posso até vê-lo como um, se pensar na segurança que te ver me dá. De te ver bem, autossuficiente como todos os dias desde que este tratamento começou.

A cozinha, hoje, é minha plataforma de redação. Os dez metros que serão percorridos em meia hora, logo após o ponto final desta crônica. Levantarei da cadeira e repetirei a caminhada até nosso quarto.

Caso esteja acordada, teremos o beijo que sela a tranquilidade. Caso esteja em outro lugar, em sonho, terá minha admiração e amor, como em todas as visitas. Até a hora que me deitar ao seu lado. Aí, te acordo de forma involuntariamente e ganho o beijo que compartilha a nossa paz por cinco, seis horas.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Entre ondas e histórias


Thomas Rittscher, o primeiro a surfar no Brasil

Marcus Vinicius Batista

O filme “Tábua Santista”, dirigido por Júnior Faria e Roberta Caprile, é um documentário sobre surf. Mas também não é um documentário sobre surf. Aí reside o maior mérito dele. Muita conversa – das boas! – e mar rarefeito não é o que se espera de um filme deste tipo.

“Tábua Santista” conta a história da primeira prancha de surf construída no Brasil. A prancha foi criada por Thomas Rittscher, na metade da década de 30, a partir de um protótipo publicado numa revista norte-americana, em 1933.

O filme retrata a saga do engenheiro Soren Knudsen, que concebeu a ideia de reconstruir a prancha, Fábio Fornasaro, marceneiro que a construiu, e Alexandre Wolthers, surfista que a colocou na água. Um projeto que durou mais de um ano e meio.

O próprio Soren definiu o filme antes de vê-lo. Para ele, não importa quem surfou pela primeira vez. Se foi Thomas ou se foi Osmar Gonçalves. O que deve prevalecer é a história que cimenta uma cultura. “Caso contrário, seria mais uma onda … e outra onda … e outra onda.”

O filme se prende a uma estética visual dos canais segmentados, como o Canal OFF. No entanto, não apresenta uma overdose de tubos, aéreos e outras manobras comuns aos produtos do gênero. As ondas, aquelas tranquilas das praias de Santos, só aparecem no último quinto do filme. Mesmo assim, tão tranquilas quanto marolas.

O espectador não percebe a ausência delas, diante dos depoimentos e da sequência de montagem da prancha, que pode chegar a 90 quilos, quando cheia d’água. É como se a história caminhasse feito making of de si mesma. Nas palavras de Fábio Fornasaro: “Um homem sem passado é um homem sem vida.”

A dupla de diretores também parece, quando os vemos pela lupa, improvável. Júnior competiu dos 10 aos 25 anos. Chegou ao top 50 do mundo. Hoje, é freesurfer profissional, figura de voz ativa em filmes do gênero. Hóspede anual de North Shore, no Havaí.

Roberta Caprile nunca pegou onda, o que – talvez de forma inconsciente – sirva como arma para relativizar o poder das ondas em vez da força histórica. Júnior tem o biotipo do surfista. Roberta, de quem olha um swell com admiração à distância.

Recontar a história da primeira prancha está acima de se prender aos fatos ou às polêmicas sobre os donos do pioneirismo. A primeira prancha é o Santo Graal de uma cultura litorânea, capaz de explicar o relacionamento quase religioso com o mar, e muitas vezes relegada aos guetos e à ilusória segmentação diminutiva.

O filme esbarra, numa interpretação livre, no totem de que todos precisamos preservar. A ausência de ondas, em termos simbólicos, nos aponta que não precisamos saber surfar. Não precisamos deslizar sobre pranchas para compreender que esta cultura também nos faz ratos de praia.

Thomas ou Osmar, santistas ou cariocas, prancha de madeira ou de resina, o surf é uma ferramenta cultural tão sólida e pesada quanto o protótipo número zero. O surf é um pedaço nevrálgico para compreensão da evolução da cidade de Santos e de seus habitantes. Da urbanização na primeira metade do século XX que avança rumo à praia ao desenvolvimento da indústria da moda local, passando por gírias, alimentação e profissionalização do esporte, entre outros exemplos.

O curta-metragem de 15 minutos foi apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em Jornalismo, na Universidade Santa Cecília. Depois, foi premiado na categoria Melhor Documentário Nacional, no Mimpi – 5º Festival de Filmes de Surf e Skate, no Rio de Janeiro.

Sendo honesto, prêmios – não significa diminuí-los – são mais uma onda daquelas que valem o final de semana. Mas, antes delas, “Tábua Santista” representa a maré na qual a história é o tubo perfeito.


Obs.: Assista ao filme AQUI!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O amor nasce nos neurônios






Marcus Vinicius Batista

Não sentia, há algum tempo, uma sensação contraditória diante de um livro. Acabei de ler Sempre em Movimento, autobiografia do neurologista Oliver Sacks. Ganhei a obra de aniversário e passeei pelas 350 páginas em menos de uma semana. Ao longo do trajeto, sentia uma necessidade de avançar na leitura – o livro foi meu companheiro de insônia e de ônibus, entre outros intervalos -, ao mesmo tempo que me incomodava o fato do final do texto se aproximar de mim.

O livro foi publicado no Brasil pouco antes da morte de Sacks, em agosto de 2015, vítima de câncer, aos 82 anos. Ele publicou uma carta tocante falando da própria morte, em fevereiro, no jornal The New York Times.

Conheci o médico por meio do cinema, quando assisti à Tempo de Despertar, filme estrelado por Robin Willians e Robert de Niro, em 1990. O primeiro interpretava Sacks, enquanto De Niro fazia um sujeito que acorda da catatonia depois de mais de 30 anos. Nos anos 70, houve um documentário de mesmo nome, exibido na TV somente uma vez, a pedido dos pacientes.

A história, publicada em livro escrito pelo neurologista, foi ignorada inicialmente pela comunidade médica. Sacks conseguiu por meio do uso de L-Dopa tirar dezenas de pacientes do estado catatônico, num hospital em Boston, e dar a eles, por meses, uma vida ativa.

É evidente que uma autobiografia carrega a tendência em esconder certos aspectos da vida do autor ou ir ao outro extremo, aumentando os feitos da mesma pessoa. Apenas posso dizer que Sacks, além de escrever bem, fato comprovado em uma dúzia de livros com relatos médicos e de pacientes, como Um antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, teve uma trajetória bastante interessante e, ao mesmo tempo, solitária.

Nascido na Inglaterra, Oliver Sacks enfrentou a reação negativa da mãe – e a omissão do pai – diante da homossexualidade. A mãe chegou a dizer que o filho era “uma abominação”. O tema sempre foi difícil para ele. Primeiro, porque a Inglaterra, até os anos 80, considerava crime a relação homossexual.

Segundo, pelos poucos relacionamentos e a opção por uma vida sozinho. Sacks chegou a ficar 35 anos – entre os 40 e 75 anos – sem um relacionamento amoroso.

Os problemas familiares incluíam a relação difícil com um dos irmãos, Michael, que sofria de esquizofrenia. O pacote familiar o fez se mudar para os Estados Unidos assim que se formou em Medicina, na Universidade de Oxford. Uma culpa que Oliver Sacks tentaria equacionar mais maduro.

O livro também traz a face cosmopolita do médico, inicialmente um pesquisador de má qualidade, depois um clínico sensível e defensor da aproximação entre psiquiatria e neurologia. Sacks, um sujeito apaixonado por motocicletas, encontrou seu caminho na Califórnia e depois em Nova Iorque.

Sempre em Movimento também me interessou por trazer os bastidores dos livros que o consagraram como escritor. Sacks era obcecado por escrever, a ponto de possuir centenas de cadernos que serviram como diários, seja de viagens, do cotidiano, do processo criativo e das relações com os pacientes.

Independentemente das várias faces de Sacks, o que mais admirava nele era a capacidade de se inquietar. Ele foi capaz de reconhecer erros, de procurar novas saídas para tratamentos, de rever sempre o olhar humano sobre os pacientes e, principalmente, sobre a prática da medicina. Compartilhava experiências com outros médicos, poetas, artistas e cientistas de outras áreas. Todos, na visão do neurologista, poderiam ajudá-lo a entender os porquês das ações de seus pacientes.

Oliver Sacks era, como os melhores costumam ser, um homem multidisciplinar e interdisciplinar. Mesclava arte e ciência com naturalidade. Percebia e defendia a necessidade de se associar biologia e comportamento para a compreensão de uma enfermidade neurológica. Transitava entre a literatura científica e de divulgação para o grande público, em jornais, revistas e – claro – nos livros. A autobiografia dele é o 13º obra publicada no Brasil.

Sempre em Movimento talvez seja o melhor livro que devorei em 2015. Um texto com fluidez incomum, que dá a sensação de estar sentado ao lado do autor, ouvindo-o relatar mais um caso médico como se fosse um romance.

No momento, estou lendo Um antropólogo em Marte. Quem sabe o julgamento mude ainda este ano?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Amor por amor, dente por dente




Marcus Vinicius Batista

Era a primeira viagem do casal. Se considerarmos que ele trabalhava em São Paulo e ela morava em Santo André e que tinham se conhecido em Ouro Preto numa turma, o final de semana na pousada de São Roque era o primeiro momento juntos.

Para ele, a viagem significava “vai ou racha”. Ele estava apaixonado e pretendia impressioná-la, uma mulher centrada, tão lutadora quanto o anfitrião. Dali tinha que sair um namoro. Ele sonhava até com casamento.

Chegaram numa sexta-feira à noite, descansaram um pouco, deram uma volta para conhecer o lugar, num clima romântico cercado por natureza, silêncio e o ar anti-paulistano. Mais tarde, viria o jantar, com vinho e aquela massinha pré-noite de amor.

Enquanto bebericavam o vinho, comiam a salada com lentidão. Tinham sempre muito o que conversar, marca desde que se conheceram no interior de Minas e no primeiro encontro, em São Paulo. Os diálogos reforçavam as afinidades, relativizavam quaisquer diferenças e construíam um relacionamento com sentimentos múltiplos e recíprocos.

Antes do prato principal, ele se preparou para sorrir. Aquela preparação que consiste no caminho da língua por todos os espaços da boca, o improviso na ausência do fio dental, na indiscrição do palito.

Quando passou a língua nos dentes da frente, sentiu uma diferença. Resto de alface? Um pedaço de tomate? O vinho tinha reduzido a sensibilidade, o que confundia a percepção sobre qual alimento insistira em resistir ao destino da digestão.

Os dois conversaram sobre amenidades e ele procurava descobrir o que o incomodava, o que permanecia grudado nos dentes da frente. Era essencial, decifrar o enigma, já que impedia um sorriso, uma gargalhada, todas as manifestações de humor numa conversa sempre divertida.

Ele não aguentou, pediu arrego a si mesmo e perguntou pra ela: “Tem alguma coisa no meu dente?”

Ela respondeu sem pensar: “Então, não tem.”

“Como assim, não tem?”

“Não tem nada, não tem dente.”

Metade de um dos dentes da frente tinha desaparecido. Ele passou a mão na boca e descobriu: era o dente remendado, fruto de uma pedrada que levara do irmão mais velho quando era criança. O dente – ou parte dele – sumira.

Ele procurou de novo com a língua. O pedaço de dente poderia estar em algum canto. Nada. Então, caíra no prato, na mesa ou ao lado. Olhou em todos os lugares, até embaixo da mesa. Sem sinal do amigo. Olhou para ela e deduziu que poderia ter engolido.

Os dois caíram na gargalhada. Riam tão alto que o maître, ao trazer o jantar, perguntou se havia algum problema. O rapaz explicou e, ao explicar, mostrou a prova, desmaterializada em um buraco na frente.

O maître, sensibilizado, sugeriu procurar um dentista que fizesse o conserto. Ele olhou para ela, que não parava de rir, e respondeu: “Olha, deixe pra lá. O final de semana ainda tá começando e já tô sem dente. Se ela ficar comigo depois dessa, nessa pousada, a gente se casa.”

Não sei onde ele procurou um dentista e como foi o resto daquele final de semana, em São Roque. Sei que foi procurar ajuda na volta da viagem. Dois anos depois, os dois se casaram, tiveram um filho – hoje com quatro anos -, mudaram de cidade, abriram um comércio e vivem com tranquilidade.

O dente novo, se ele não me contasse a história, seguiria imperceptível e sem provocar risadas.

Obs.: Texto publicado no site Jornalirismo, em 24 de novembro de 2016.

Casei-me com o Sesc. Ela é testemunha



Marcus Vinicius Batista

Depois de um ano morando juntos, decidimos que era o momento de nos casarmos. Não havia desejo de festa e tampouco tínhamos dinheiro para tal capricho. A preferência era resolver no cartório. Assinar a união estável e oficializar o relacionamento.

Nada que já não ocorresse. Seria somente papel. Contas e tarefas da casa já eram divididas. As dívidas e parte dos sonhos, compartilhados. O dinheiro da festa – que não existia – poderia vir a qualquer momento, o que nos permitiria viajar, esse talvez o único item do protocolo matrimonial, o mais próximo possível de uma lua de mel.

A união estável mudaria, na prática, um ponto em nossas vidas. Eu poderia ser seu dependente no Sesc Santos. Acompanhá-la na piscina, enquanto Beth praticava natação. Almoçar pagando o mesmo preço. O mesmo valor de ingresso para peças e shows. Passar o dia no Sesc Bertioga.

O Sesc ficava a duas quadras de casa e era visto como nosso quintal. Eu deixara de ser sócio alguns anos antes, quando uma das empresas onde trabalho mudou de status e encerrou o convênio.

Duas amigas, Larissa e Marúcia, nos deram a dica. Se vocês moram juntos, por que não oficializar? Não há nada errado nisso, explicaram. Basta fazer uma declaração de próprio punho e ratificar no cartório onde vocês têm firma reconhecida. Aí, Beth poderá lhe incluir no Sesc.

Levantamos mais informações e descobrimos que eram necessárias duas testemunhas. Minha mulher pensou: “Vou chamar minha colega de trabalho. Saímos para almoçar e resolvemos de uma vez.”

No dia seguinte, fui ao cartório e, alguns minutos depois, minha mulher apareceu com Celi. Decidimos chegar no cartório e procurar por outra testemunha. Outra dica das duas amigas: basta pedir, pois sempre tem alguém lá para assinar. É só para formalizar.

Antes do cartório, o banco ao lado. Era necessário retirar dinheiro para pagar a união estável. Entramos na agência e fomos ao caixa eletrônico. Quando acabei de fazer a transação, ela entrou no banco. Parou em outro caixa e não nos viu. Abriu a bolsa, retirou o cartão e foi cuidar da vida, concentrada na tela.

Indiquei para Beth que ela estava lá. Pensei em me aproximar para cumprimentá-la. Mariza é mãe de um grande amigo, o André, e seria uma deselegância passar direto porta afora. Costumávamos nos encontrar nos eventos e ela sempre fora simpática, sempre com boa conversa, geralmente sobre literatura.

Dei um passo à frente e veio o estalo: em vez de tentar a loteria dentro do cartório, por que não convidá-la para ser nossa testemunha número 2? O máximo que poderia acontecer era uma resposta negativa, nada que afetasse a conversa cordial.

Beth e Celi me olharam com a resposta na retina: por que não? Aproximei-me de Mariza e a cumprimentei. Ela me respondeu com simpatia, perguntou o que fazíamos por ali. Respondi que nos casaríamos em minutos no cartório. Ela mal deu os parabéns e eu perguntei: “Você não quer ser nossa testemunha? Precisamos de outra pessoa.”

Mariza sequer respirou: “Claro, estou livre! Vamos lá!”

Entramos os quatro no cartório, retirei a senha, que resultaria numa espera de quase meia hora. O cartório fica cheio na hora do almoço, pela obviedade não prevista de que muitos usam a hora do almoço para resolver seus problemas burocráticos.

Enquanto eu escrevia o texto que sacramentava a união, Beth, Celi e Mariza trocavam figurinhas. Aí começaram as afinidades. Beth e Mariza eram assistentes sociais, de formação e profissão. Ambas trabalhavam na prefeitura. Ambas compartilhavam de problemas similares no trabalho. Beth já tinha passado pelo setor de Saúde. Mariza se aposentara na área. E outra coincidência: Mariza também tinha firma aberta naquele cartório.

Depois de destrinchar a burocracia, a funcionária nos chamou. Firma reconhecida. Assinaturas válidas. Testemunhas de acordo. União estável oficializada. Agradecemos às duas testemunhas. Não haveria festa. Beth e Celi precisavam retornar ao trabalho. Mariza se despediu e seguiu para outra direção. Tinha supermercado. Eu voltei a pé para casa para trabalhar. Daria aula mais tarde.

Nas poucas vezes que nos encontramos, só chamei Mariza de testemunha uma única ocasião. Ela é, antes de mais nada, mãe de um grande amigo. Sinto-me com vergonha em exagerar na brincadeira. Ainda mais na frente de outras testemunhas.

Eu e Beth só fomos trocar alianças um ano e meio depois, num café em Londres. Surpresa minha. Lágrimas dela. Desta vez, quem estava perto não nos conhecia e não precisava assinar papel algum. Mesmo que tivessem, estavam distraídos à espera da próxima sessão de cinema e sequer nos ouviram. E olha que o pedido foi feito em inglês.

Não somos, por enquanto, mais sócios do Sesc. O processo de renovação cozinha, há mais de três meses, na prefeitura.

Obs.: Texto publicado no blog da Global Editora, em 22 de novembro de 2016.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

As palavras para todos

O escritor André Rittes (à direita) conversa com leitores no
projeto Outras Palavras, no Café Teatro Rolidei

Marcus Vinicius Batista

O isolamento da sinfonia urbana nos dá a concentração para pensar nas palavras. A cortina preta que separa o terceiro piso do prédio do Teatro Municipal e o Café Teatro Rolidei conduz substantivos, verbos, adjetivos e advérbios ao palco. Um palco onde plateia e atores se fundem. Um palco onde não há comando de vozes. Prevalecem os poliglotas literários e seus textos.

Numa roda de cadeiras e poltronas, uma dúzia de leitores - e escritores incorporados nas mesmas pessoas - discutem, refletem, se divertem, divergem, convivem, abusam o quanto podem do poder de sinônimos, antônimos, metáforas, ironias, aberturas e desfechos de romances, novelas, crônicas e poesias.

As poetisas Regina Alonso e Maria Teresa Teixeira Pinto organizam a bagunça do vocabulário em encontros semanais de leitura dirigida. Essas reuniões transgressoras em tempos ditatoriais de senso comum se chamam "Outras Palavras". Sempre às quartas-feiras, às 16 horas quase em ponto.

Estive lá para acompanhar meu irmão, o jornalista e escritor André Rittes, que lançou os livros "Os Caranguejos" (contos), "Viração" (contos também) e "Como fazer um telejornal". É a segunda vez que participo. A primeira foi por causa do meu livro "Quando os Mudos Conversam". Um diálogo que passeou por forma de criação, relações com os livros, Jornalismo, leitura fora dali, autores que influenciam. Eles sabatinaram com carinho o André. Até porque todos são cúmplices no mesmo crime: ler e escrever com paixão.

O cenário do projeto inspira pela cor, pela atmosfera que denuncia gente que pensa, sente e é fiel a si mesmo. Nas paredes, a diversidade da decoração comprova o discurso que nasce ali, no Rolidei. São tickets de bagagem, camisas de times de futebol, bonecas, fotos, desenhos, a multiplicidade da cultura humana como pano de fundo para a difusão do amor pela leitura e escrita. E também pelo teatro, pela dança, pelas artes. O palco do Rolidei é ecumênico, quase - por ironia - um dogma religioso.

Cada vez que entro lá, descubro alguma coisa nova pendurada ou pregada naquelas paredes. E, inconsciente, esqueço de anotar para ter que ver aqueles objetos como se fosse a primeira vez.

O menu é de restaurante cinco estrelas, em guia internacional. De Raul Bopp a Mia Couto. A liturgia das múltiplas vozes. Além de Regina e Teresa, gente de todos tipos, normalidades e idades. Todos leem, todos creem na literatura-Deus, todos escrevem seus testemunhos de fé.

Cada encontro dura uma hora e 15 minutos. No confessionário, admito que pequei pela perda da noção de tempo. Conversa boa, o relógio endoidece. No final, trocas de presentes óbvios: livros. Intercâmbio de impressões, novos rumos para refletir sobre literatura.

"Outras Palavras" é diferente daqueles cultos que vimos na TV. Ali, as curas acontecem, de verdade. Gente que mantinha distância dos livros hoje está casada com eles. E feliz! Gente que escreve e tinha vergonha de dividir. Hoje, traz a eloquência dos oradores de plenário. Gente que não acreditava ser possível despejar palavras e arrumá-las em papel (ou em tela de computador) o faz atualmente como andar e respirar. Escreve ... e bem!

No ano passado, o projeto "Outras Palavras" estudou 15 autores. Como tradição, os participantes produziram seus textos a partir das suas interpretações de cada autor estudado. Em dezembro, o presente de Natal; a publicação do livro "Outras Palavras", singelo na forma, mar profundo em seu conteúdo. Coerência com o que se defende o resto do ano.

Ganhei no ano passado a edição número 5 do livro. Na última quarta-feira, levei para casa a edição número 6. Não os mantenho aqui comigo não, em cárcere privado. Livros nasceram para percorrer outras estantes, outras mãos, outros olhos.

Depois de lê-los, emprestei para duas pessoas que tenho certeza de que os tratarão como merecem. É a Bíblia que espalha a palavra do "Outras Palavras", ressuscitada semanalmente atrás das cortinas e dentro do palco do Café Teatro Rolidei.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 18 de abril de 2016.