segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Amor e paixão


Obs.: Este texto foi publicado na última página da revista Rubro Verde - TCC em Jornalismo/Unisanta (2017)

Marcus Vinicius Batista

Quando um relacionamento é forte, estamos preocupados em vivê-lo. Não damos importância às palavras que poderiam defini-lo para outras pessoas, para o mundo. Apenas queremos repeti-lo, renová-lo, transpirá-lo a cada vivência, adiando as despedidas diárias, na esperança de transformar os reencontros em encontros estendidos.

Olhando para você, com a distância devida do tempo, sinto que passamos por paixão e amor, como dois períodos distintos, e complementares, de um mesmo jogo. A paixão adolescente que nos faz atrair o futuro para o presente, que nos estimula a desejar um caminho juntos, de muitos anos, com a ilusão da mesma intensidade emocional.

A paixão vem carregada de arroubos juvenis, que enterram defeitos, que descartam as imperfeições da competitividade inerente à sua biografia, à nossa história, de vitórias, derrotas, quedas e ressurreições, vistas por milhares de pessoas que te seguem em devoção.

Nunca foi necessário dizer, na nossa história, "Eu te amo". O amor se construiu sem que notássemos. A convivência era a resposta para um silêncio seu. Seu porque confesso que - de vez em quando - me capturo falando as três palavras que traduzem a estabilidade, a profundidade, o singelo e a agressividade de um sentimento que jamais se torna igual entre as partes. E jamais precisa ser, não porque seja impossível de se medir, mas pelo fato de que amar não exige retribuição idêntica.

Convivemos há mais de 30 anos. Nunca comemoramos datas, evitamos alardes e propagandas rasteiras para rascunhar nosso percurso. Olhares mútuos, quando visito sua casa, resolvem minha saudade. Às vezes, estar ao lado é o remédio que alivia os sintomas de uma doença que te rebaixou. Te ver levantar é redundância das curvas da história.

Digerimos nossas mágoas recíprocas, chutamos os medos e driblamos as angústias e ansiedades que podem nos tirar da linha. Hoje, celebrar a nova idade é renovar votos, sem a encenação de que há garantias de êxito. Vamos vivendo, ano a ano, estação por estação, temporada por temporada. Vivendo.

Uma paixão nos modifica, mas dura - para os enfeitiçados - 100 dias. Um amor nos fortalece e persiste, resiste, insiste - definitivamente - por 100 anos. Portuguesa Santista, nossos sentimentos mais profundos vão testemunhar mais um século de vida briosa.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Guerreiro Menino (De Profundis #2)






Beth Soares


Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
Tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sono
Que os torne perfeitos
É triste ver meu homem
Guerreiro menino
Com a barra do seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que tem no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz.

Gonzaguinha, 1983.


Eu queria ter escrito essa música. Ela se encaixa tão bem no que temos vivido. Ela fala tanto do que tenho visto em você. É sob medida. Acho que infelizmente.

Queria que nestes 25 anos de jornalismo, completados hoje, sua história atual pudesse ter relação com uma música bem mais alegre. É triste ver a profissão que você escolheu cada vez mais distante. Triste ver seus conhecimentos descartados, desrespeitados tantas e tantas vezes. Mesmo para um soldado incansável, as cenas diárias de crueldade são difíceis de superar, eu sei.

Mas hoje, só por hoje, lembre-se que foi o jornalismo que te fez descobrir a sensação de dever cumprido no fim do dia. Foi ele que te deu frio na barriga tantas vezes antes de uma entrevista importante ou antes da publicação de um texto polêmico. 

O jornalismo trouxe à sua vida tantos colegas, chefes, subordinados e alunos que se tornaram amigos leais... Já vi tantos te cumprimentarem com admiração e respeito. Já li e ouvi declarações belíssimas de vários deles, sobre o que você representou e representa na caminhada de cada um.

Eu sei, é difícil lembrar dessas coisas quando a mente não colabora, só aponta para as decepções, para o lado dos que te olham, medem e julgam pela superfície. Você paga um preço alto por guardar no peito o menino que carrega o peso de um tempo que não oferece lugar para ele. Um tempo que não abre espaço para as palavras impregnadas de sentimentos, de verdades profundas. Foi justamente o profundo que te traiu. Lançar luz sobre as mazelas humanas te fez encarar as suas próprias, sem tempo para a adaptação das pupilas. Mas sabe, amor, mil vezes essa dor a viver uma vida na caverna. Conhecer o melhor e o pior das pessoas - e de nós mesmos - é um privilégio.

Hoje, o que desejo é que nessas profundezas, nesse abismo para o qual você está olhando no momento, você encontre toda a verdade possível sobre si mesmo, sobre todos os homens. Tenho certeza que nada vai te impedir de seguir. Eu sei que nossos caminhos apontam para um horizonte cada vez mais distante do jornalismo. A cada dia ele fica mais parecido com uma miragem, não só para a gente, para todos os nossos amigos jornalistas de verdade.

Mas só por hoje quero que você se lembre: foi o jornalismo que nos uniu. Foi essa a desculpa que a vida, rainha de tantos desencontros nas nossas histórias, arranjou para nos colocar frente a frente. Ela sabia que só assim eu me tornaria uma pessoa melhor. Capaz de te dar colo, carinho, ternura e - quem sabe um dia - minhas palavras amenas.

Só por hoje eu tentei.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Olá, amiga! (De Profundis # 01)



Marcus Vinicius Batista

É impossível precisar quando começou. Eu tenho uma data de nascimento, 31 de janeiro, consciente de que é uma baliza frágil, apenas simbólica, para marcar o início do estado depressivo.

Cada vez que consigo refletir sobre o passado recente, descubro novas referências, outros episódios que poderiam ter servido de gatilho, outros sentimentos que inflamaram uma enfermidade que se aproxima em silêncio, corrói por etapas, brinca com suas resistências, finge se render para renovar forças, alterar táticas, começar tudo outra vez.

Estado depressivo é depressão em andamento. Estado é uma palavra que ameniza o problema, que nos conforta que talvez não seja tão grave assim. Estado me dá a ideia de transitório, de possibilidade, de um processo sem força para ser, apenas está. Portanto, desaparecerá na próxima curva, na próxima experiência de alegria.

Escrever sobre minha condição é indicar que estou no caminho da luz. Significa movimento, um soco na paralisia que muitas vezes me impediu de me levantar pela manhã e sair de casa. A dor física e o cansaço que foram tirados do contexto para não reconhecer que a nova amiga tinha subido em meus ombros, forçando que os joelhos encostassem no chão.

Decidi escrever porque a depressão me impediu de fazê-lo. Ela conseguiu me proibir de colocar para o mundo além da janela o que me mantém saudável. Aprendi com um amigo e peguei para mim a melhor razão para escrever: manter-se são, de corpo e de espírito.

Ela me roubou o prazer e – mais do que isso – sequestrou a necessidade de escrever. Escrever é a maneira que encontrei para me expressar até as profundezas. Ganho para falar, mas o faço como quem psicografa o pensamento alheio, um instrumento real quando se está professor ou se é jornalista.

Por isso, resolvi conversar sobre depressão pela palavra impressa. A exposição pode ser um mal necessário, capaz de conviver e dar a mão para a obrigatoriedade de desacelerar e refletir sobre minha própria condição. Trocar experiências, compartilhar vitórias, relevar derrotas. Sozinho é utopia. A saída de fresta única é o acolhimento, o apoio, a compreensão e a palavra do outro. Só deste modo meus ombros subiram um pouco.

Quando inicio o que espero ser uma série de testemunhos e reflexões, tento não apenas me dividir, mas também derrubá-la passo a passo, assim como ela fez comigo. Não é vingança, pois ela não merece tamanha importância além dos estragos e das feridas que abriu. É, infelizmente, a única chance de deixá-la ir, sem que perceba que saiu até que a porta esteja trancada e sem maçaneta.

Esta amiga se instala em doses homeopáticas, até que passou a morar comigo e comandar a casa. Resisti sozinho, compartilhei com quem amo os sinais até que não sentia os movimentos. Somente seguia, iludido pela fraude de quem escolhia o que fazer enquanto não notava que o leque de opções se encolhia.

Abaixei a bandeira, mas não estendi a branca. Pedi ajuda, fui acolhido e dei nome e sobrenome a quem me machucava sem emitir sons. Precisamos conversar, minha amiga depressão. Se for formal, posso te chamar de estado depressivo.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O beijo "fora de hora"

          
Imagem ilustrativa

Luiz Carlos Peres*

Os casais namoram nas mesas dos bares na avenida da praia. Ou deveriam. A paisagem é linda. O movimento na calçada, os atletas na praia, a alegria e futilidade de um fim de tarde em Santos.

Decido ficar também, beber uma boa cerveja sem pressa, sem culpa por estar sozinho. Escolho a melhor mesa, com vista perfeita da avenida e de todo o bar. O garçom demora, mas vem. Faço o pedido quase me desculpando. Ele nem responde, fecha a cara.

Acho que invadi sozinho uma mesa que ele queria cheia, esperando um consumo maior. Mais chance de gorjeta. Eu também a queria cheia, por motivo diferente, é sempre melhor beber com alguém. Mas hoje só quero olhar a paisagem, ver como vai isso que chamam de mundo. 

Na calçada, as pessoas passam ligeiras, saem do trabalho, vão para a noite. Vão com a pressa de quem vive na cidade onde nada começa na hora. Nas mesas, grupos de jovens. Selfies, provocações, assobios e gritos entre risadas soltas. Estão à vontade, habituados ao lugar.

Metade das mesas são casais. Neles, a atmosfera é outra, pouca conversa, olhares revezados entre a rua e o celular. Sentam-se próximos, mas relaxados demais, como namoro velho, desgastado, de quem perdeu o suspense pela resposta do outro, a tensão, a insegurança, a hesitação, a paixão de olhar no olho. Casais que perderam o melhor e cumprem religiosamente o ritual de ficarem juntos sem terem o que dizer um ao outro.

Bebo a cerveja e, no terceiro gole, quase derrubo o copo quando ela passa correndo fugindo de um dos garçons, ligeira até a calçada. Passa por trás de mim, bem rente, me toca. Sinto forte seu cheiro de chorume, de lixo, de esgoto.

Da calçada, a três metros de onde estou, já fora do território do bar, ela desafia o garçom, rebola, levanta os braços, aponta e ri. Negra, magra, musculosa, imunda, quase desnuda em trapos sujos. E ri, ri muito, ria alto, de um jeito alegre, feliz, um jeito agudo de bruxa de desenho animado.

O garçom, irritado, tenta agarrá-la, ela se esquiva. Furioso, vai agredi-la, mas desiste, contido pelo aviso dos colegas de que os jovens estavam gravando.

A atenção do bar era toda dela. Olhares disfarçados, de fingida indiferença, olhares indignados. A mendiga era uma personagem fora de hora, fora de lugar, que desmancha o cenário esperado, a tarde planejada, o lazer comprado. Não deveria estar ali naquele cenário lindo de fim de tarde.

Ela não mostrava sofrimento, não se ressentia de sua miséria, não lamentava o que não tinha. Como arlequim de uma comédia inspirada, apreciava nosso ridículo espetáculo de tristes pagantes de uma cadeira que se finge plateia, que se quer palco, onde ostentamos nossa forjada felicidade, nossa pretensa superioridade.

A alegria dela insultava as pessoas do bar, mesmo que elas não soubessem, mesmo as que insistiam na falsa indiferença. Dançava, ameaçava baixar as calças, ria alto, em êxtase, debochava.

Como apoteose, como insulto, o companheiro dela aproximou-se, ainda mais sujo, bêbado e maltrapilho. Abraçou-a forte, envolveu-a nos braços e, para que todos vissem, ali na calçada em frente ao bar, numa pose que reconheci de um quadro de museu, beijou-a apaixonadamente, de língua, com vontade, com violenta e carinhosa paixão que as namoradas nas mesas, diante de seus copos de vinho e petiscos caros, de boca aberta, invejaram.

Era a hora certa. Pedi a conta e fui pra casa.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Como viver sem ela?



Armando Cândido*

Eu mesmo já tive algumas famílias. A que nasci, a do meu primeiro casamento, a do segundo e a do terceiro também. Algumas outras não tinham vinculo sanguíneo ou afetivo. Eram famílias compostas de amigos que, de tão sincronizados, representavam minha família sim!

Falar desse assunto pode ser doloroso quando sentimos saudade. Da saudade que terei da filha que ganhei no meu último casamento. Quando ele acabou, por força das circunstâncias, ela veio morar comigo. Isso foi um alento pra mim! Diminuiu a solidão.

Todos os dias pela manhã, ela vinha me dar bom dia e pedir seu café. À noite, quando eu chegava do trabalho, ela me esperava na janela. Vinha correndo me contar todas as fofocas do dia. Na hora de dormir, deitávamos juntinhos, ela vinha me pedir carinho.

Nem tudo era um mar de rosas; às vezes, ela fazia as malcriações dela, tirava minha paciência com o excesso de energia e a bagunça que fazia quase o tempo todo. Aí eu tinha que ser enérgico e dar umas broncas. Mas logo minha irritação passava.

Ontem à noite, eu deixei meu prato em cima da pia antes de jantar, enquanto resolvia umas coisas. Quando fui pegar o prato, a danadinha tinha roubado um pedaço do meu frango! Fiquei muito bravo, fiquei sim, mas passou.

Hoje, enquanto escrevo essa crônica, a mãe dela está arrumando o apartamento novo. Mais tarde, ela vai me chamar para que eu leve nossa filha, que voltará a morar com a mãe.

Então me pergunto: como viver sem ela? Sem rir dela caçando mosquitos, rolando no chão com o arame da embalagem de pão, sem tropeçar nela enquanto se esfrega em minha pernas pedindo carinho, seus miados constantes de felicidade, pedindo comida ou reclamando de algo.

Qual seria a exata definição de família?

Papai, mamãe e filhinha? Será que uma família pode ter dois pais e nenhuma mãe, ou duas mães sem pai? Para os Titãs, ela pode incluir o cachorro, o gato e até uma galinha! Por que não?

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Meu lugar, 24 horas



Felipe Caldeira*


Todo mundo tem um lugar. O lugar. Aquele. O seu lugar. Seja lá onde for, onde está, dentro ou fora de casa, quem ainda não o encontrou há de encontrar. Um lugar que nunca deixará de ser especial quando dele você lembrar.

O que seria de um dia de gloria sem um cenário encomendado? Sem o lugar adequado? Eu sei que você consegue visualizar algum se tentar... Todos nós temos boas histórias de lugares para contar.

Na minha cidade, a praia de Santos se encaixa exatamente aí. Sete quilômetros. Terreno plano. Clima tropical. E temperatura média de 22ºC anual.

Caiçara que sou, é claro que foi lá que montei o meu escritório. Ou melhor: o meu observatório.

A praia de Santos é um lugar do caralho. Sabendo procurar, podemos encontrar de tudo por lá. Você pode se perder na escuridão à beira-mar depois que os faróis se apagarem. Ou, como de praxe, pode farofar até se cansar. Só não vá esquecer que o lixo também tem o seu lugar. Desculpa se eu moro onde você vem passar suas férias.

De dia, o protetor será necessário. A praia de Santos é um lugar perfeito para você fazer aquela bagunça com a família, sendo pai ou ainda apenas um moleque mimado. Para caminhar sentindo os pés tocando o mar. Pegar uma cor. Se exercitar. Jogar o sagrado futebol de final de semana.

De dia, caia no mar para se refrescar. Pegue uma onda. Caia para pelo menos tentar tirar a zica. Capture fotos bem coloridas. Leve a sua responsa para aprender a andar sem rodinhas. Sinta a brisa.

O pôr do sol é lindo. Vale a pena esperar para sentir na sua retina.

De noite, será necessário se proteger. Se proteger da malandragem. De pessoas que estão em busca de uma oportunidade. Sempre há uns gatos pingados dessa qualidade. E com aqueles-que-não-devem-ser-nomeados, fique ligado. Ainda mais se você estiver tramando algo particular. Eu respeito profundamente os demônios internos de cada ser humano. A velha história do anjo bom e do ruim. O mundo gira assim.

De noite, é hora de azarar. Chamar a rapaziada. Convocar a mina que está no alvo para um rolê descompromissado. Tem lanches caprichados para todos os lados. Aroma de vodca com energético no ar. Aqueles vinhos baratinhos também são famosos. Aqueles traiçoeiros. Recomendo que traga sua caixa de som. Edite aquela playlist para agradar os gregos e os troianos. Deixe alta. Dance. Ninguém vai te criminalizar por rebolar até o chão. Nem achar estranho se de repente aparecer uma guitarra imaginária em suas mãos.

Se você já exagerou na noite anterior mesmo, espere mais um pouco. Coloque um Floyd para acompanhar. Vale a pena esperar para sentir a luz invadindo a sua retina.

Ah, a praia de Santos... Quantas memórias... Quantas histórias...

Ah, a praia de Santos...É bom aproveitar.Sei lá se algum dia ela será tomada pelo mar...Ou se eu serei tomado desse lugar...

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Sábio

Imagem ilustrativa

Márcio Valente*


A multidão, espremida na orla marítima, se agitou quando Demóstenes Peixoto, “O sábio”, saiu do mar vagarosamente em direção à praia. 


Com água na altura dos joelhos, ele cambaleou. Parecia tonto. Parado, mas ainda meio desequilibrado, "O Sábio" retirou os óculos de natação e a touca que estampava nas laterais a vírgula característica do patrocinador. Sem os acessórios, firmou a marcha.

Todos respiraram aliviados e confirmaram: era ele! Aquele que ninguém conhecia direito, mas por algum motivo também desconhecido era chamado de “O Sábio”.

Olhos cerrados, barba longa e grisalha, pele e osso se deslocavam em direção à enorme estrutura montada para recebê-lo.

Ao pisar na areia, "O Sábio" foi recebido por dois staffs. Um deles, de imediato, colocou em uma de suas mãos o energético alado promotor do evento, enquanto o outro o cobria com uma toalha totalmente branca. Detalhe: alguns diziam que se tratava de uma das muitas condições impostas por ele, toalhas brancas.

Após  10 minutos sob flashes e muito empurra-empurra, “O Sábio” chegou ao local da entrevista coletiva onde todos os mistérios sobre ele e quiçá sobre o mundo seriam desvendados. Era essa a expectativa.

Veio a primeira pergunta:

— Quem verdadeiramente é o senhor?

— Eu sou eu.

— De onde veio ou melhor de onde viemos?

— Viemos de vários lugares. Uns de lá, outros de cá, outros de acolá.

— Mas o senhor tem como ser mais claro...mais específico?

— Sim, claro.

— E então, de onde?

— Viemos de um todo divisível de todas as direções.

— Existe vida após a morte?

— Isso eu não sei. Sei que existe morte após a vida.

Um jornalista especialista em celebridades teve a ideia de propor aquele formato de suscitar palavras e o entrevistado dizer o que vem a cabeça.

— Direita ou Esquerda?

— Centro.

— Violência?

— Agressão.

— Saúde?

— Saudável.

— Educação?

— Obrigado.

A imprecisão começou a despertar a fúria de muitos. Gritos: Pilantra! Um sete um! Salafrário! Picareta! Que merda... começavam a ecoar na multidão.

— Cor?

— Transparente.

Objetos voadores variados aterrissavam cada vez mais perto de onde “o Sábio” estava. Até que uma tosse forte e ininterrupta, seguida de uma falta abrupta de ar, fez com que “o Sábio” arregalasse os olhos, ficasse vermelho, roxo e...desabasse no chão.

Naquele instante, o sentimento de revolta se transformou em consternação. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Choro e gritos, mas agora lamentação era a única coisa que se ouvia.

No dia seguinte, Demóstenes Peixoto deixou de ser “o Sábio” e virou “o Mito”, além de nome de Rua, Praça, Escola e Hospital.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.