domingo, 21 de agosto de 2016

Somos todos quarto lugar!

Caio Bonfim, ao final da Marcha Atlética

Marcus Vinicius Batista

Caio Bonfim me fez pensar sobre o espírito olímpico. O atleta da marcha atlética ficou em quarto lugar, a cinco segundos do terceiro colocado e, portanto, da medalha de bronze. Conte até cinco, caro leitor, e entenda como uma Olimpíada pode ser cruel e gloriosa numa linha de chegada.

Se ainda tiver dúvidas sobre o que é cheirar, mas não tocar no pódio, pense em Darlan Romani, do arremesso de peso. Ele terminou em 5º lugar, com 21,02 metros, melhor desempenho da vida dele. A distância da medalha de bronze: 34 centímetros. Uma palma e meia, nas mãos da minha mulher. Menos que a largura do teclado onde escrevi este texto.

É injusto e para não dizer insano dividir a vida de alguém e quatro anos de preparação, em cinco segundos ou 34 centímetros. Bonfim, por exemplo, também sofre a carga de preconceito, pelo gingado de quadril da marcha, que leva os estúpidos a chamá-lo de viado. Um xingamento que desapareceria na hipocrisia do ufanismo quando a medalha vem.

O quarto lugar é paradoxal. A posição que nos aponta a insuficiência do esporte de alto nível pode nos mostrar o quanto um atleta se aproxima - e se inclui - entre os melhores do mundo. Só há três sujeitos melhores do que você no planeta!

O quarto lugar é visto - ou ignorado - como um sinal de derrota, de reflexo da falha, mas pode ser a vitória de quem nunca chegou tão longe. O quarto lugar pode ratificar o fracasso de um favorito, mas também ser o sucesso de uma surpresa, de uma promessa, da maturidade que vai desabrochar em quatro anos.

O quarto lugar tortura quem entende a medalha como a única razão possível para o esporte de nome competição. O quarto lugar acaricia quem vê o esporte como aproximação, como diversão, como o sabor de estar numa festa sem a pressão por resultados imediatos. Bastou estar lá!

Os Jogos Olímpicos colocam para fora todas as nossas neuroses e complexos. Saímos da arrogância à subserviência na velocidade de Usain Bolt. Alteramos o curso dos julgamentos feito as velas que conduzem Martine Grael e Kahena Kunze às vitórias.

Desejamos estar lado a lado com norte-americanos, chineses, ingleses, alemães e japoneses, por exemplo, enquanto criticamos muitos atletas que viraram militares para que o soldo lhes dê uma vida confortável. Aí, misturamos a continência de gratidão com os torturadores da ditadura militar, numa babel de informações mais desencontradas do que os depoimentos de nadadores norte-americanos à polícia carioca.

Se estivermos ao lado das potências, como nos esportes coletivos, podemos anestesiar as dores do colonizado, ganhar o ticket para o parque de diversões da civilização.

Caio Bonfim é nosso César Castro, nono colocado nos saltos ornamentais, repetindo o melhor desempenho da história. César Castro é Fernando Reis, que terminou em quinto no levantamento de peso, assim como Flávia Saraiva na ginástica. Ou Luiz Alberto de Araújo, décimo no decathlon, uma conjunção numérica que representa o melhor desempenho da biografia dele, na modalidade que forma super-homens.

As Olimpíadas extraem as nossas contradições. Cada competição que vencemos nos ilude com a premissa de que somos o país do futuro. Quando perdemos, o mesmo Brasil sangra pela falta de apoio ao esporte, pelo desconhecimento do que é ser atleta no país, dos sacrifícios que fazem e - por que não? - das humilhações sofridas.

O esporte olímpico representa, por um lado, nosso fio de esperança por dias melhores. A torcida por heróis de todos os tempos da última semana. O saltador Thiago Braz, um anônimo até dez minutos que antecederam a medalha de ouro. O Davi que enfrentou e esmagou o estrangeiro colonizador e recordista do mundo.

O esporte olímpico aponta, por outro, nosso patriotismo de ocasião, marcado pela ignorância, de saída, sobre como é um ato heroico alcançar uma Olimpíada. Idolatramos os medalhistas. Destinamos os derrotados ao pé de página do noticiário.

O quarto lugar sempre me interessou. Não é a posição que liga ao masoquismo do quase, mas a certeza de que o quarto, quinto, sexto e assim por diante colocados têm histórias interessantes para serem contadas. Somos nós com nossos erros e acertos personificados.

Os perdedores me atraem. Perdem pelo resultado. Saem dos holofotes. Desaparecem mais rápido do noticiário. E vencem ao carregar com eles as (pequenas) grandes histórias olímpicas, muitas vezes as que melhor contam o que define e perpetua um atleta olímpico.

Obs.: Texto publicado no site Jornalirismo, em 19 de agosto de 2016.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A conversa que tempera nhoques e lasanhas



Marcus Vinicius Batista

Não sou metódico. Pelo contrário, prefiro uma dose de improvisação e aproveito as oportunidades quando o convite é para comer. Se envolver bom papo em volta de uma mesa e experimentar comida diferente, chego a balançar se pagarei a conta sozinho. Balançar e recuar diante da anemia da carteira.

Com algumas restrições, como rúcula, acelga e jiló, não costumo recusar nada no prato. Minha esposa, Beth, adora dizer que sou a cobaia perfeita para viagens e comida de rua. Em outras palavras, um avestruz de mala, passaporte na mão e estômago de pedra.

Só me torno uma criatura de hábitos quando vamos a um restaurante, em Santos. A Cantina di Lucca é onde eu e Beth costumamos comemorar as pequenas grandes vitórias, de aniversários a novos trabalhos, e levar pessoas queridas, como filhos e amigos.

Uma única vez, pedimos frango. Por sinal, de inesquecível recheio de presunto e queijo. Nas outras ocasiões, a mesa acaba preenchida pelo aroma de nhoque ou de lasanha. O primeiro é diversificado. Experimentamos quase todos os molhos da casa. A Cantina di Lucca tem o melhor nhoque da cidade, já escrevi neste site, numa crônica sobre os restaurantes da rua Tolentino Filgueiras, no Gonzaga.

No caso da lasanha, eu e Beth ficamos com a exclusividade, a monogamia gastronômica, que reforça o caráter metódico das visitas. Nunca comemos nada além de lasanha a firenze. Lasanha de camarão com molho de tomate e queijo derretido. Talvez seja comer como criança, que repete, repete até enjoar, estágio de distância ainda quilométrica.

O ambiente da cantina é tradicional, nas cores, na decoração, no uniforme impecável e na simpatia dos garçons. Só falta o italiano como língua mater e o nhoque da sorte, todo dia 29, para atar o laço de origens com a bota europeia.

Penso que um restaurante não pode existir apenas pela boa comida e pelo cenário que acolhe o prato. Um restaurante tem que ser feito de gente interessante, de histórias de vida, de quem trabalha nele ou de quem o frequenta.

Na Cantina di Lucca, a visita inclui duas entradas. Há o couvert com azeitonas pretas de Itu (pelo tamanho), tomate seco, sardela e acompanhamentos. A segunda entrada é a conversa com Marcelo Saraiva, um dos donos. Nós nos conhecemos desde o começo da década de 90, quando ele namorava Erika Rodriguez, minha colega de sala de universidade.

Os dois se casaram, trocaram de ofício e tocam o restaurante ao lado do pai dela. Sempre encontro Marcelo no restaurante, o que resulta num diálogo rico, com histórias da cantina e lembranças de quando nossos cabelos brancos eram profecias de distante concretização.

Desconfio que a conversa acaba quando, de forma simultânea, o prato chega à mesa e Marcelo, lorde inglês com raízes caiçaras, se cansa de ficar em pé no mesmo lugar.

Em um desses encontros, Marcelo me elegeu o sujeito certo para cobaia de uma nova sobremesa. O tradicional petit gateau, bolo de chocolate com sorvete de creme, ganhou uma versão alternativa: bolo de coco, recheado com goiabada. Impossível descrever em detalhes numa crônica. Cheiro e sabor precisam de testemunhas oculares para serem compreendidos nesta existência terrena.

A partir deste mês, as conversas tendem a rarear. Beth entrou numa dieta brava, visando combater os efeitos dos corticoides, presentes no principal medicamento para o tratamento da lúpus.

Eu, como retenho gordura faz tempo, uns 20 anos, resolvi acompanhá-la (não tão bravo assim) para não atrapalhar e, vá lá, cuidar da saúde também. No meu caso, são os efeitos literais de coxinhas, bolinhas de queijo, maravilhas, refrigerantes, pizzas e outras drogas lícitas.

O que me resta é escrever com o aroma na memória e a boca alagando de saliva. E o desejo de voltar lá, para o pedaço da Itália com conversa bem brasileira, assim que a exceção assinar a alforria alimentar.

Obs.: Texto publicado no site Juicy Santos, em 15 de agosto de 2016.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Meus traços são vulgares



Marcus Vinicius Batista

Sou um traço de comportamento. A cada síndrome, transtorno ou doença, posso me identificar. A cada nova pílula de milagre colorido a brilhar no balcão, evito me drogar dentro da lei e das expectativas alheias.

A cada diagnóstico de novo nome, escapo pela porta da normalidade.

Estar cansado me livra do stress. Quando desconcentrado, driblo o Transtorno de Déficit de Atenção. A desorganização cotidiana não me apresenta a Hiperatividade.

A melancolia de uma frustração ou ausência não me impõe um protocolo Depressivo. Os medos há que se temer, e não transformá-los em fobias.

Se a vida me dá euforia após um passado recente de derrota, adio a visita da Bipolaridade. Diante de preocupações que se repetem porque a rotina se faz presente, não consigo reconhecer a chegada do Neurótico.

Se me sinto seguro com os rituais que nos desenham filhos da cultura, sou incapaz de cruzar com as manias. Quando ouço minha imaginação e dialogo com minha criatividade, concedo férias permanentes para a Esquizofrenia.

Se espero por algo ou alguém, dou voz à paciência, que não fala em crise de Ansiedade, trabalha com expectativas.

Na encruzilhada que deixa de ser horizonte e se monta em pé à minha frente, adormeço o Pânico pelo caminhar que anestesia quaisquer paralisias.

Se vasculho a memória para metamorfosear informação em conhecimento, dispenso Aspenger e suspendo o recrutamento do Autismo.

Quando a mesma memória se torna volúvel, embaça, vai e talvez demore a voltar, esqueço todos os rastros fotográficos do médico alemão e seu Mal descoberto.

Cultivo meus traços, que se respeitam, mas evitam se confraternizar como quadro clínico.

Traços não flertam com pílulas. Traços nos estigmatizam como normais, tão vulgares quanto únicos.

domingo, 14 de agosto de 2016

Carta à filha

Marizica, uma menina de olho no horizonte

Marcus Vinicius Batista

Quando um texto é difícil de atravessar a fronteira entre o sentimento que o originou e a racionalidade que o levará ao papel, minhas reações se resumem a uma palavra: enrolação. Estou a duas semanas para te escrever. 15 dias maturando ideias que morrem e ressuscitam para falecer outra vez. Tombam de inanição, de anemia por isolamento, de covardia por expor o que se sente com tamanha profundidade.

A pressão do prazo, algo que estou acostumado como jornalista, prevaleceu como o empurrão para escrever. Os sentimentos tem que sair pelos poros, pelas lágrimas ou pela ponta dos dedos. Não sei se acabarei por repetir o que te disse numa carta manuscrita e entregue como presente pelo seu aniversário, pela ausência que se aproximava como o maior dos escândalos.

A ausência não é mais barulhenta. A saudade vem quieta, em passos de difícil percepção e se aninha na cama na hora em que vou dormir. Fico sem saída, com algemas invisíveis que me mantém deitado. Durante o dia, preencho a cabeça com o trabalho, a arte, as pessoas, as experiências mínimas do cotidiano. Pedalo, ando, lavo louça, os exercícios mecânicos que levam minha mente para longe.

À noite, o ritmo do pensamento se altera, perde velocidade e se torna único quando minha cabeça se projeta em direção ao travesseiro. A falta que sinto de você, filha, ao longo do dia, se transforma em melancolia naqueles minutos que antecedem o sono.

A intensidade varia de acordo com o estado físico, mas não é incomum resultar em insônia. Curo a saudade com um livro ou uma crônica de próprio punho. Sou grato aos livros e aos escritos pela missão de me manter saudável.

A saudade, filha, tem dois lados. Ela pode ser benéfica quando o reencontro se avizinha. Ela se mistura com ansiedade, com a alegria em construção, com as horas que pulam em direção ao desejo do tempo. O resultado final é o abraço aperto que apaga os espinhos da trilha.

A saudade, por outro lado, é remoer o sofrimento da falta, quando a pessoa que nós amamos está longe e assim permanecerá por mais algum tempo. A saudade é implacável com a imobilidade que a vida pode nos proporcionar. Deitado na cama, me sinto imóvel, mais do que fisicamente, me sinto imóvel porque a falta se repetirá no dia seguinte. Não conviver é impossível de definir.

Não consigo me acostumar e descartei qualquer hipótese de que isso aconteça algum dia. O tempo que passamos juntos, filha, é tão intenso que contradiz as experiências sem você. Como observar você dormindo? Como acompanhar suas leituras, seus jogos, suas amizades? Como testemunho seus acertos e erros? A tecnologia ameniza a distância, mas materializa a edição do contato.

Escrever para você não é se lamentar. Não me entenda mal. Escrever é exorcizar o que sinto, de dentro para fora. É traduzir o que muitos esquecem ou não veem. Você me ensinou pilhas de lições, mas uma delas me transmitiu à revelia, de modo involuntário.

As melhores vivências são as cotidianas, as que se acredita serem insignificantes ou mínimas. Te levar no inglês e esperar na praça ou no banco da igreja. Almoçar num restaurante qualquer e compartilhar o que aconteceu pela manhã. Te levar ao futebol e assistir ao treino (o único momento em que corrigir provas é um ato prazeroso). Conversar contigo enquanto caminhamos por quadras e quadras. Ouvir seus relatos adolescentes da escola, um mundo que tinha ficado para mim no século passado.

Eu cultivo e rego as situações que vivemos juntos para podar as que não posso acompanhar. Não sofro pelo que não posso viver. Procuro domar a saudade pelo desejo de repetir as páginas que convivemos. Ser seu pai é difícil de descrever quando os olhos inundados embaçam a tela do computador.

Ser seu pai é aprender via Skype, whatsapp, celular e ao vivo. É o entendimento de que, por mais que existam degraus funcionais entre pai e filha, a escada representa um caminho flexível, de subida e de descida para que estejamos no mesmo patamar.

Passei a entender que o Dia dos Pais não é data para ganhar presentes (claro que você pode me mandar uma lembrancinha!). Não é ato consciente, é o desaparecimento desta ideia como parte da celebração. Deixei de pensar no que desejaria ganhar. Já ganhei você e seu irmão. Isso se tornou absoluto depois da mudança de vocês.

Ganho a cada vez que você e Vini se lembram de mim. Que destinam alguns segundos para responder uma mensagem. Quando perguntam se está tudo bem, o que ando fazendo. O trivial mudou de figura. A sensibilidade recebeu outra denominação. Minha vida mudou tão rápido que se fez obrigatória e perceptível. 

Um homem, aos 4 anos, na estica ... e bravo

Filha, este texto precisa ser concluído. Não porque as palavras pedem final. Tenho muito a dizer a vocês, sempre. E ouvir. E aprender. E dividir. Este texto, ao contrário da maioria dos meus escritos, está nascendo aos solavancos, aos saltos, com intervalos para olhar os gatos, a válvula de escape mais à mão, ou para usar encharcar o guardanapo do café da manhã como lenço de emergência.

Filha, saiba que - não posso explicar como - estarei sempre ao lado, como um espírito que flutua em vida. Quando se lembrar de mim, olhe para o lado, para frente ou para trás. Estarei ali, no afeto da memória, contente pela experiência que vivemos juntos. A distância, e tem que ser assim como conforto, significa circunstância.

Apenas o amor esmaga a saudade, mesmo que como remédio temporário. Fique bem. Te amo muito. Beijoca, Marizica. Seu pai!

sábado, 13 de agosto de 2016

Uma (pequena) história olímpica

"O importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas fazer parte.
O essencial na vida não é conquistar, mas lutar bem"
(Barão de Coubertin)

Marcus Vinicius Batista

Eu esperava do lado de fora da loja de bijuterias. Beth procurava por uma tiara e, como a loja estava cheia, preferi ficar com as sacolas. O segurança acompanhava a entrada e saída de clientes, enquanto uma mulher loira, com cerca de 1,80 metros, passava entre nós.

Ela vestia um agasalho branco. O emblema no lado esquerdo do peito atraiu meus olhos. Não consegui decifrar a sigla da entidade esportiva. Quando ela passou por mim, eu pude ler nas costas: Karatê - São Paulo.

Ela carregava na mão direita um pote marrom, apenas a base do recipiente que um dia abrigou achocolatado em pó. Ao caminhar, a atleta chacoalhava o pote, que provocava o choque das moedas dentro dele.

A mulher se juntou a uma colega de agasalho azul. Conversaram em voz baixa. No agasalho da colega, o mesmo emblema, a mesma explicação nas costas. Nas mãos, o mesmo modelo de pote improvisado. A outra moça era morena, uns dez centímetros mais baixa, mas também tinha o cabelo preso num rabo de cavalo.

O semáforo na esquina da rua Floriano Peixoto com Praça da Independência ficou vermelho. Eram pouco mais de seis horas da tarde. Muita gente apressada na calçada, normal pelo horário, necessário talvez pela sexta-feira que acabava para uns, começava para outros. Muitos carros num trânsito congestionado até depois da rua Pereira Barreto.

As duas caratecas se dividiam. Cada uma ficava com uma fileira de automóveis. Passavam o pote, explicando o motivo da coleta: competir fora de Santos. As moedas bancariam viagem e hospedagem. Era uma explicação breve, de três segundos, uma espécie de golpe final para o tudo ou nada.

A atleta morena conseguiu três moedas, que escorreram da mão esquerda do motorista sorridente. Ela mal pôde explicar a razão para pedir dinheiro. Ele parecia pouco disposto a ouvir. O próximo carro era a luta mais urgente.

Enquanto as duas caratecas pediam ajuda para praticar esporte, muitos se espremiam para assistir às disputas pela TV em dois restaurantes, um em cada esquina.
As atletas não eram crianças, como testemunhei outras vezes em semáforos da avenida Ana Costa. Tinham mais de 25 anos, pelo menos.

Depois que o semáforo abriu, elas se entreolharam. Uma delas, constrangida disse: "estou cansada. Não vou pedir mais para aqueles que não descem o vidro." Ouviu como resposta um "tudo bem" e se aproximaram da faixa de pedestres. Ambas se misturavam com as pessoas que esperavam para atravessar a rua.

Eu as observava encostado na parede ao lado da loja. O semáforo fecha. As duas vão para as respectivas filas e retomam os pedidos. Quando retornam pela calçada, consigo ouvir as moedas outra vez, barulho logo sufocado pelos gritos de torcida nos restaurantes. Vitória! Medalha! Eu acredito!

Dez minutos antes, em outra loja do Gonzaga, vi - pela TV - Rafael Silva receber a medalha de bronze no judô. Perdeu apenas para um francês, invicto há mais de 110 lutas. Lutou com dignidade.

Quando Beth saiu da loja, as duas estavam em meio às pessoas que desejavam atravessar a rua. Não vi o semáforo fechar novamente. Virei a esquina e ouvi os gritos por um desempenho que não tenho coragem de exigir.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Visitando Geraldo, levando Moacyr

Museu dos Escravos - São Vicente (Foto: Beth Soares)

Marcus Vinicius Batista

Quando o músico e fotógrafo Cid Marcos Lima me convidou para visitar o Parque Ecológico Voturuá, em São Vicente, pensei no Museu dos Escravos (desde janeiro do ano passado, se chama Casa de Cultura Afro-brasileira, mas me permita usar o nome antigo, por afetividade). O lugar abrigou um dos mais simbólicos restaurantes da região, com culinária nacional, centrada nos alimentos da matriz africana e indígena.

Da última vez que estive lá, comi tutu de feijão, baião de dois, mandioca frita, fora o cheiro de feijoada que ocupava o ambiente. O restaurante ficava dentro de uma casa com telhado cru e paredes que remetem ao período colonial, com os batentes das janelas de madeira, com meia dúzia de centímetros de espessura. 

Foto: Cid Marcos Lima
Museu e restaurante eram o casamento ideal para preservação da cultura, numa cidade que sempre teve, ao longo dos séculos, dificuldades para conservar sua história. A primeira vila onde os políticos desfiam suas mentiras no slogan-falácia de "primeira cidade do Brasil", enquanto deixam o mato crescer no porto da naus ou inventam rotas fluviais que jamais saíram do papel.

Na primeira volta pelo Horto - também nome antigo do parque -, não tive tempo de me decepcionar com o museu fechado. Meu grupo queria rodar pelo lugar e fotografar o leão e as leoas, o hipopótamo Ramón, os macacos e as aves.

Na segunda volta, uma hora e meia depois, o museu estava aberto. Na porta, um senhor agradável recepcionava os visitantes. A dois metros dele, uma carranca o auxiliava a afastar os maus espíritos, afugentava o olho gordo que não para de piscar em tempo de eleição. A carranca reacendeu o desejo de ter uma parecida na porta de casa.

Sabia que o restaurante estava fechado. Tinha a curiosidade de rever o museu; na prática, seria como a primeira vez depois de uma década, inclusive pela renovação do acervo. Um canto simples, num imóvel histórico e belo, a evidência física de que São Vicente não precisa de megalomania para expor suas origens. Basta decência política.

O museu mantém hoje dezenas de esculturas de Geraldo Albertini, quase todas negras, na cor e na forma, para marcar as diversas facetas da escravidão, seja nos papéis sociais, seja nos ofícios cotidianos da Casa Grande e da lavoura.

Geraldo Albertini nasceu em Capivari, região de Campinas, em 1933. Morreu em São Vicente, quase na virada do século, aos 66 anos, em 1999. Começou a esculpir em meados da década de 50, quando trabalhava em usina de açúcar. Suas obras estão acompanhadas de trabalhos de dois aprendizes, Irineu Beck e Ademir dos Santos. 

Esculturas de Geraldo Albertini

Geraldo, artista que o museu não permite esfarelar pelo tempo dos brancos, não viajou o mundo, mas suas esculturas o representaram em países como África do Sul, Alemanha, Argentina, Estados Unidos, França, Itália, Inglaterra e Portugal.

No canto esquerdo, logo na entrada, um baú guardava uns 30 livros. É um projeto de troca de obras literárias e estímulo à leitura. Como livros têm poder magnético, revirei o baú. Na arqueologia de preciosidades, coloquei debaixo do braço "O Imaginário Cotidiano", do falecido médico gaúcho Moacyr Scliar. 

Moacyr Scliar, falecido escritor gaúcho

O livro reúne uma série de crônicas que Scliar escreveu para o jornal Folha de S.Paulo, sempre às segundas-feiras. As crônicas obedeciam uma regra única: tomar como base uma notícia curiosa.

De uns dias pra cá, devoro uma ou duas crônicas ao dia, em doses homeopáticas, geralmente antes de dormir. Para justificar à volta ao Museu dos Escravos, para realizar o sonho de ver o restaurante reaberto, prometo cumprir o acordo com o baú: retirou um livro, deposite outro.

Quem sabe o mesmo livro, a ser saboreado numa mesa, com os cheiros de uma feijoada ou de um baião de dois?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Meu casamento acabou!



Marcus Vinicius Batista

Resolvi oficializar meu divórcio ontem à noite. É preciso algum bom senso para perceber que a hora de desistir chegou. Ou a hora de não resistir mais diante do óbvio: não há mais amor. O que existe é uma esperança de reviver um passado, que não se repetirá nem ao menos se aproximará dos nossos sentimentos, em intensidade, em ressurreição.

A relação começou a se desgastar a partir de 2010. Durante quatro anos, eu e ela optamos por enterrar nossos cadáveres e recomeçar. Não havia saída para colocar a derrota no devido lugar. Perdeu-se, só o caminho do recomeço.

Nunca foi mais a mesma coisa. Vivíamos como um vaso colado, mas que deixa visíveis as ranhuras de um passado que se partiu. Ela investiu na carreira, passou a valorizar ainda mais o dinheiro, quase no nível da exclusividade. Não estou culpando-a pela morte da nossa relação, apenas entendo que passei a observar novas perspectivas, outras possibilidades de vida.

Em 2014, renovamos nossas esperanças. O clima de euforia dominava pessoas próximas, todas com a certeza de que agora tudo iria se solidificar, tudo estaria na trajetória inevitável da felicidade. Ela comprou a ideia, vestiu a proposta, inalou o conceito como se eu não estivesse junto.

E eu não estava lá. Não como ela desejava, como os outros me pressionavam. Nunca reclamei ou levantei qualquer bandeira contrária. Segui no fluxo como um antropólogo mais rigoroso, que se esforça ao máximo para não se envolver. A consequência direta é que reprimi todas as emoções.

Não me entenda mal. Não me tornei frio. Era possível perceber, quando baixava a guarda, que talvez eu acreditasse numa mudança, na construção de um novo relacionamento, pela união de esforços para manter a vida pulsando perto e dentro de casa.

Aí veio a decepção. E veio como um maremoto capaz de devastar todos os resquícios de orgulho, toda a vaidade, toda a arrogância dela. Veio numa festa alemã, onde pude perceber quem era ela. Sem as máscaras escondidas por anos, sem a camuflagem que se traveste de amor incondicional na hora dos parabéns, dos confetes, das fotos, da vida editada para a sociedade.

Naquela noite, tudo acabou. Não encerrei o ciclo, não me pergunte o porquê. Acreditei que poderia haver um processo auto-curativo, no qual as cicatrizes ficariam adormecidas, sem cutucões ou rastro de dor.

Quem sabe o amor renascesse por geração espontânea? Quem sabe ela mudasse de comportamento, não à imagem que eu desejasse, mas de maneira que pudesse ser menos cínica, que abrisse mão da empáfia?

Os dois anos seguintes ratificaram o afastamento. A distância cresceu em silêncio, sem brigas, sem conflitos ou diferenças. Apenas fui me esquecendo dela, assumo a responsabilidade.

Comecei a perder compromissos, que descobria pelo pai dela ou pelo irmão quando os visitava. As datas importantes viraram um dia a mais. Não alterei minha rotina em nada. Não houve queixa do outro lado também, o que facilitava o cotidiano de cordialidade protocolar.

É preciso reconhecer que ela perdeu importância para mim. Não me identificava com ela. Tenho certeza de que a recíproca era cristalina. A pior morte de um relacionamento é a indiferença. Não é a raiva ou a mágoa. São sentimentos que podem ser transformados, com trabalho duro, dedicação, amor e respeito pelo próximo. Se você quiser sepultar alguém em vida, mate-a pela ausência, não física, mas emocional.

Ontem à noite, por respeito ao meu sogro e pela companhia do meu cunhado, regado pelo café da minha mulher Beth, voltei a assistir um jogo inteiro da seleção brasileira. Como se questionou um amigo na semana passada, por que insistir num relacionamento que se repete pelos mesmos problemas, pelo mesmo enredo?

Ao sair da casa dos meus sogros, percebi o óbvio: Seleção Brasileira de Futebol, eu quero o divórcio! Não tenho outra, apenas não me importo mais. No futuro, pode ser que eu repita a letra de Humberto Gessinger: "talvez eu diga, minha amiga, prazer em vê-la, até 
mais!"