terça-feira, 23 de maio de 2017

Na montanha fria de Vargem Alta

Na entrada do alojamento, em Vargem Alta
Eliana Greco

Na manhã fria de um domingo, o ônibus saiu de Vila Velha para percorrer mais de 121 km até Vargem Alta, no Espírito Santo. Fui uma das primeiras a descer, pois estava fotografando tudo. As malas tomavam conta da calçada sem asfalto coberta de grama, diante do Centro de Convivência do Idoso. O portão de madeira azul, aberto, convida a entrar.

Amarelo, vou chamar o local assim, pois as paredes amarelas combinavam com nossos uniformes do Projeto Rondon. Um a um, entramos timidamente, olhando, carregando as malas uns dos outros, pegando os colchões e cobertores que previamente estavam arrumados num dos cômodos para nós.

A outra equipe, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, aos poucos se misturava com a nossa e não sabíamos que lá na frente nos tornaríamos grandes amigos.

À tarde, as duas equipes de alunos e professores pela primeira vez tomaram café juntos, um chimarrão compartilhado entre todos da roda formada no salão amarelo. Uma voz interrompe o silêncio toda vez que alguém pega na cuia: “Não se esqueça de tomar o chimarrão totalmente, fazendo a cuia roncar". Ainda escuto mentalmente essa voz típica e suave.


O salão amarelo, base do Projeto Rondon
Hora de dormir, hora de acordar, cada um pronto e ansioso para fazer a sua parte, deixar na cidade, nas comunidades o que a faculdade e o treinamento nos prepararam para essa operação Itapemirim.

Durante as semanas entre a névoa que caía todas as manhãs e as noites frias, desempenhamos o nosso mais amoroso papel: capacitar e deixar a semente. Confiança e credibilidade já criavam raízes entre moradores, professores, feirantes e funcionários do local.

As comunidades distantes, cercadas por enormes montanhas de mármore bruto e frio, eram os endereços de pessoas simples, esperançosas e com curiosidade de aprender.

Levei em minha mala, além de roupas e objetos pessoais, histórias para contar, e contei várias vezes até ficar sem voz. No olhar, nas caras e bocas ouvindo as histórias, escutando sobre um rei que sentia vergonha por nascer sem as orelhas, um menino que maltratava os animais, a linda joaninha que perdeu as pintinhas, percebi que ali também tinham pessoas que nasceram com algo que as incomodava muito. Meninos entre a platéia que faziam algo de ruim com animais, como na história da joaninha. Dei-me conta que meu melhor papel era esse: “falar sério brincando”.

Eliana Greco, em Vargem Alta (ES)

Sabia que teria que deixar tudo isso, mas dentro de mim algo ecoava que não estava ali por um acaso do destino. Não poderia partir sem ter a certeza do que foi dito, feito e indicado surtiria efeito lá na frente. Na tarde e noite do dia anterior, duas pessoas me disseram: “não vá embora, precisamos de você aqui, aprendi muito com as suas histórias”. Chorei.

Depois de 15 dias longe da família, é chegada a hora de partir, cada um em seu canto, arrumando as malas. Parei e, por alguns instantes, percebi que eu não só guardava minhas roupas e objetos, mas enchia minha mala de histórias de vida, histórias de anulação, histórias de esperança, histórias de discriminação e de violência infantil.

Rondon é assim mesmo: muitas vezes entregamos e levamos de volta o que imaginávamos buscar!

Obs.: Este texto é fruto do curso "Crônicas: o amor pela vida cotidiana", dado por Marcus Vinicius Batista. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Jogo do Desapego

Beth Soares


Volta e meia a questão do desapego volta à pauta de destaque entre os milhares de assuntos que se intrincam na minha mente. Passei longos dias inconscientemente bolando um discurso no qual eu era, ao mesmo tempo, oradora, ouvinte e personagem desapegada.

Reuni provas, testemunhos, dediquei meus ouvidos analíticos a histórias sobre mim que legitimavam essa ideia, ainda que quem as contasse fosse eu mesma, do alto do meu posto de observadora profundamente parcial.

Eu, desapegada, doei tantas roupas, sapatos, móveis, ao longo da vida emprestei tantos livros que não foram devolvidos e nunca mais fiz questão deles. Doei tanto à caridade, seja em forma de dinheiro, comida, ouvidos atentos ou trabalhos não-remunerados. Não é este um grande exemplo de desapego ao presente?

Além disso, não sinto essa tal saudade do passado, que observo permear a vida de tantas pessoas. Não tenho interesse em querer revivê-lo, como tantos tentam. Para dizer a verdade, acho mesmo é triste que as pessoas se esforcem por tentar voltar a um tempo que, muitas vezes, foi construído, senão totalmente, em parte significante apenas na fantasia. Este é meu testemunho de desapego ao que passou.

Desapegada que sou até de mim, não temo a morte. Sentei-me com ela na mesma mesa. Dividimos a conta – metade para ela, metade para mim. Todos ganham, todos perdem. Não tenho nela uma inimiga. Ela pode vir quando quiser. Qual prova de desapego ao futuro pode ser mais explícita?

Tentei me convencer que a questão do apego estava praticamente resolvida nesta minha existência. Mas a mente é capaz de desmentir os planos mais sofisticados, rasgar em segundos o roteiro que escrevemos por meses, destruir com um sopro a trama que estruturamos por anos. Ela finge que aceita, para, em seguida, nos expor sem nenhuma possibilidade de contra argumentação.

Não posso por isso ser injusta e dizer que minha mente é cruel. Pelo menos não sempre. Às vezes ela é sutil. No meu caso, para revelar minhas tentativas contundentes de autoengano, ela se aproveita do momento em que não estou alerta. Quando não há preocupações práticas imediatas, nem aparências pelas quais zelar, tampouco barreiras carentes de uma demão de verniz social.

Foi assim esta noite. Me vi numa casa antiga do centro de Santos. Lá estava uma grande amiga, me esperando. Mônica tem estado sempre por perto quando preciso. Se tento esconder problemas, ela cava, cava, até que eu deixe uma pontinha à mostra, suficiente para que ela deduza todo o resto, e me ajude a fazê-lo desaparecer. É alguém com grande capacidade de organização e senso estético e, por isso mesmo, estranhei a presença dela naquele ambiente. Estava uma bagunça ensandecedora até para mim, típica geminiana de mil fases e humores num só dia.

Cheguei perto e reconheci alguns objetos. Mais perto, reconheci todos. Todos, sem exceção, eram meus. Uma cômoda com algumas gavetas era tudo que eu tinha para tentar organizá-los. Mônica dobrava algumas roupas sem parar, e me olhava sorrindo. Eu sabia que elas estavam indo para doação. Me senti compelida a começar a arrumação, muito a contragosto, por culpa de uma sempre presente preguiça-para-determinados-tipos-de-trabalho. Mas no fundo era simples – achei: bastaria me livrar do excesso. Isso significava seleção entre o que realmente é necessário e o que pode ser deixado para trás, como troféu do meu esplendoroso desapego. Abri uma das gavetas da cômoda e comecei o trabalho.

Logo de cara, vi minha nécessaire da natação, com todos os meus apetrechos. Óculos, spray desembaçador, a touca nova superconfortável, três frascos pequenos nos quais ponho shampoo, condicionador e creme sem enxágue. Todos ricos em vitaminas, proteínas e sais minerais, com seus nomes-códigos impronunciáveis, próprios para cabelos danificados pela ação da piscina, do mar e do efeito estufa. Amo nadar. Impossível deixar tudo aquilo para trás. Ok, ok. Vou deixar a gaveta da natação para depois. Penso melhor e, então, volto nela. Vamos para outra gaveta. 

Vi nas minhas mãos minha nécessaire de maquiagens. Meu batom novo. Vermelho mate. Demorei para encontrar o tom que eu queria. Assim como o pó compacto e o blush. Também demorei para encontrar os pincéis certos para cada coisa. Um deles foi a própria Mônica que me deu: para fazer aquele truque da sombra, o côncavo, sabe? Aprendemos juntas. Desse não posso me desfazer. Motivos emocionais. Melhor deixar essa para depois, também. Qual é a próxima gaveta? 

Me virei para olhar o que mais tinha de importante para guardar e percebi que havia uma TV ligada o tempo todo. Não assisto programas de TV aberta ou a cabo há muito tempo (viva a Netflix!), mas me chamou a atenção uma notícia esquisita:

“Saiu o prêmio do Desapego! Um milhão de reais para o vencedor!”

- Desapego? Você sabe o que é isso, Mônica? Um novo jogo, tipo Mega Sena?

- Não faço ideia – ela disse, sem deixar de sorrir e dobrar roupas.

- Preciso aprender como se joga. Já pensou, ficar milionária com esse tal de desapego? Viajaria o mundo todo. Adoraria fotografar o mundo... 

Abri a próxima gaveta e lá estava minha Nikon. Adoro minha câmera... Pensei nela e ela foi sozinha lá pra dentro! Estava entendendo onde minha mente queria chegar, mas tentei fingir que não.

Já irritada, fui para a próxima gaveta. Fotos de família. Olhei para elas e lembrei do contexto de cada um daqueles momentos. À medida que folheava o álbum, as fotos dos meus pais ficavam mais recentes: os cabelos mais brancos, as linhas mais profundas. Eles estão envelhecendo e, se eu continuar viva por mais alguns anos, vou vê-los partir. É natural. Mas também é muito triste. Não quero. Não quero ter que me despedir deles. E se algum dos meus irmãos também for antes de mim? Não! Fechei rápido essa gaveta. Próxima!


Fotos do Marcus, meu marido. O mesmo se repetiu. Cabelos foram ficando grisalhos... Lembrei do corpo que não fica em silêncio mais de 24 horas – sempre há uma dor para reclamar. A gente sempre brinca, um tentando provar para o outro que tem mais possibilidades de ir embora primeiro. Falamos das dívidas e do perdão delas, de acordo com o que nos reservar o destino. Sempre rimos. Um riso que dissimula o medo. Ninguém quer ficar por último. 

Minha amiga não dizia nada – o que comecei a achar estranho! Mas será que precisava? Permaneci olhando para ela um pouco mais. Não quero que ela deixe de estar na minha vida. Não quero que nenhum dos meus amigos deixem de estar na minha vida. Nem os antigos, nem os novos nem os que farei nos próximos anos. Morro de saudades dos que somem (ou fui eu quem sumiu?), mesmo que não os procure com frequência.

Acordei antes de descobrir em qual gaveta estava o maldito desapego que eu jurava que tinha. Ele era meu. Só meu. E valia tanto...

Tá bom, vai... entendi. Esse tal de jogo do desapego não é para iniciantes. Só aposta nele quem é muito, muito sábio. 

Ou muito, muito burro.

sábado, 22 de abril de 2017

A goleada de 0 a 0


Marcus Vinicius Batista

Naquela manhã de sábado, os jogadores de Brasil e Alemanha estavam perfilados. Não havia clima de batalha campal ou jogo decisivo. Era um amistoso, uma troca de gentilezas bem pensadas, refletidas em crônicas esculpidas com semanas de antecedência. A cada alemão que estufava os ouvidos da plateia com a relação entre infância e futebol, um brasileiro acertava o cantinho dos corações dos ouvintes, ora com lirismo, ora com bom humor.

Um mês antes dos 7 a 1, aquela disputa entre alemães e brasileiros tinha prognóstico único: o empate. Na verdade, acabou num 7 a 7 que compartilhava experiências de vida e amor pelo esporte. Quatorze escritores driblaram inibição e frio para preencher, com histórias, o auditório do Sesc-Interlagos, em São Paulo. 

Escritores brasileiros e alemães, abraçados por Seo Pepe

No final da peleja literária, um dos alemães fez surgir uma bola, réplica da Copa do Mundo, mas em tamanho menor. Os escritores iniciaram a troca de passes, ainda sentados, até que um dos alemães engrossou o caldo. Ou se rendeu àquela que não se permite dominar pelos comuns.

A bola, desviada para a frente do palco, caiu na primeira fila da plateia. A bola deslizou, mansamente, e parou no pé esquerdo de quem até então ouvia em silêncio. A bola descansou no pé esquerdo de Seo José Macia, o Pepe, que a ninou como só os pais de vocação e ofício sabem fazer.

Beth, minha mulher, antes que os próprios escribas notassem e aplaudissem, me sacudiu e disse:

— Olha quem a bola procurou!

À tarde, me aproximei de Pepe, com a tarefa de acompanhá-lo discretamente juntos com outros atletas do Pindorama, time nacional de escritores, que enfrentaria a Alemanha no dia seguinte. Pepe é o técnico de honra da equipe brasileira.

Com a frágil esperteza dos jogadores medíocres, encostei no braço dele, o cumprimentei e perguntei:
Brasileiros e alemães pouco antes do amistoso

— Seo Pepe, este é o pior time que o senhor dirigiu?

Ele olhou para mim, fechou a cara e pensou. Um segundo depois, sorriu e disparou, como se a frase a seguir fosse a bola diante da canhota dele.

— Sem a menor sombra de dúvida!

Às gargalhadas, pediu licença para um café. Nós nos encontraríamos meia hora depois, prontos para tomar o ônibus de volta ao hotel. Tentei uma nova abordagem, um drible que o surpreendesse:

— Seo Pepe, tenho que te agradecer. O senhor dirigiu meu time favorito na última grande conquista. Muito obrigado!

— Qual time, garoto? O São Paulo?

Eu conseguira driblá-lo. Um drible curto, sem muito avanço no campo, mas um gingado eficaz.

— Não, Seo Pepe, o senhor acertou o adversário. O senhor levou a minha Portuguesa Santista às semifinais do Paulistão, em 2003. Perdemos para o São Paulo, lá no Morumbi. Hoje, a Briosa tá na quarta divisão.

— Puxa, é mesmo! Sensacional aquele time. Montamos um timaço! De quem você se lembra, garoto?

— Do Rico, do Souza e do Adriano, que foram jogar no próprio São Paulo.

— O goleiro era o Maurício. Excelente rapaz, excelente goleiro.

— Ele jogou no Corinthians, Seo Pepe.

— Ele mesmo, garoto. Você se lembra da escalação?

Daí para frente, veio o baile, o chocolate, o sacode, a surra. Bola por baixo das pernas, drible da vaca, lençol e chapéu. Seo Pepe tinha a escalação de cor, mais o banco de reservas. Jogadores que eu havia me esquecido, nomes que me fizeram ficar em silêncio, seguido de causos daquele time que venceu o Palmeiras do goleiro Marcos e alcançou a melhor posição de sua história no estadual. A chegada ao ônibus interrompeu a aula.

O time brasileiro de escritores, depois do bravo empate

No dia seguinte, encontrei Seo Pepe pouco antes da partida contra a seleção de escritores alemães. Depois da solenidade de abertura, me sentei ao lado dele no banco. Sereno, Seo Pepe cedia com educação às dezenas de pedidos de fotografias de visitantes, torcedores, parentes de funcionários, jornalistas, mais insistentes do que os zagueiros que um dia o perseguiram.

Joguei o segundo tempo do amistoso, enquanto Seo Pepe permaneceu tranquilo no banco, sem se abalar com os maus tratos que a bola sofrera de lado a lado. Provavelmente, a bola o olhava ali fora e entendia que tinha que sofrer por ele, para ele.

Nós, brasileiros, aguentamos o 0 a 0, igualdade comemorada como vitória, em face dos 9 a 1 sofridos na Alemanha, em 2013. Pude colaborar com cinco defesas, que geraram agradecimentos de vários colegas-escritores-jogadores.

Depois dos cumprimentos e abraços em amigos e adversários, andei até à beira do campo. Seo Pepe estava lá, em pé, paciente e com um sorriso de canto de boca. Quando passei por ele, bateu no meu braço esquerdo e disse: “Muito bem, garoto, muito bem.”

Aquele 0 a 0 foi a maior goleada que apliquei nos últimos anos. E em cima da Alemanha!

terça-feira, 18 de abril de 2017

A goleada



Não gosto de goleadas. Não entenda como a frase definitiva de um despeitado, de alguém que resolveu esbravejar de cabeça inchada, de um sujeito que não sabe perder ou de um torcedor que decidiu fugir dos defeitos do time do coração.

Goleadas tiram o prazer do futebol. Representam um ato de violência contra este jogo, que – por essência – necessita do equilíbrio, das reviravoltas, das viradas no placar, da possibilidade de dar ao pequeno a real esperança de derrubar o gigante.

Na conversa de vestiário e de boteco, a goleada começa com 4 a 0. É o placar que serve de fronteira entre a luta e a surra. A partir daí, não testemunhamos uma partida, e sim um apedrejamento em praça pública, um espancamento torpe, sem a chance de defesa, ainda que seja ilegítima.

As goleadas evidenciam a solidão de quem vence. Dar um chocolate não significa adocicar a derrota do oponente, mas fornecer a ele uma overdose de glicose, quando o índice de diabetes já se encontra acima de 300. Quem goleia não se sente odiado, amado ou admirado. Do outro lado do campo, só se vê vergonha de si mesmo, paralisia diante do inesperado ou a resignação perante o que se sabia na véspera.

Goleadas não servem como treinamento. É vencer sem sofrimento, dor ou taquicardia. Quem goleia enrola os próprios defeitos nas redes adversárias. Quem perde fica sem saber se ainda possui alguma qualidade que mereça ser explorada no próximo jogo. Pior: se ali existe um time capaz de correr amanhã, capaz de perder de pouco ou até de empatar.

Golear é abdicar de preceitos religiosos, da moralidade cristã. É a conquista sem penitência, a glória sem sacrifícios, que dispensa as orações, o pedido ao desconhecido, a vitória concedida aos escolhidos. O time goleado, que deveria ser o símbolo do pecado, transfere a culpa ao vencedor, incapaz de ser misericordioso, sem piedade diante de homens caídos.

As goleadas provocam relaxamento dos torcedores, tanto nas arquibancadas como nos sofás. Não há surpresas. Não há suor, gula, consumo excessivo de qualquer substância legal ou proibida. A narrativa vai permanecer linear como história mal contada. Os personagens seguirão suas vidas, naquele jogo, sem sobressaltos. Vilões e heróis serão os mesmos.

Quando um time goleia, ele lacra a porteira das emoções. Morrem o medo, a fé, a ansiedade, a angústia e a raiva. Se um time perde por 5, 6, 7 a 0, o torcedor constrói uma couraça para sustentar a dor. Não há o que falar, a digestão será tão lenta quanto um almoço de três horas.

Se meu time vence, perco a atenção e a vigilância sobre a partida. Sem riscos, o torcedor não poderá se servir do ópio. Os problemas de amanhã tocam a campainha sem que o jogo tenha terminado. O futebol perde o encanto, torna-se previsível como uma noite de casados no trio elétrico. Talvez se toque no assunto no dia seguinte, mas aí a ausência de calor racionaliza e pasteuriza as opiniões. Os absurdos dos palpiteiros dão lugar aos comentaristas de gravata.

Entre dois times grandes, a goleada se equilibra na corda entre dois edifícios, cuja queda beira o desrespeito. Quem vence se vê na obrigação de respeitar a história alheia, talvez pensando em si próprio, talvez no temor da mínima chance de ressurreição do derrotado. É um código de honra entre leões, no qual se morre com glórias, mata-se com compaixão.

Não deixe de ver futebol por causa de goleadas. Elas permitem uma exceção. A goleada só vale contra o rival histórico. Neste caso, o sangue tem gosto de doce de criança, gulosa pela repetição até passar mal. Vencer o maior rival é o gozo da vingança porque quem hoje goleia já sentiu as marcas dos pneus em dia de atropelamento.

Em goleadas, Brasil e Alemanha jamais será como Santos e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Real Madrid e Barcelona, o time da minha rua contra o da rua ao lado. Nestes jogos, golear é missão, humilhar é dádiva, ganhar é ter o que dizer para sempre, mesmo que dure até a próxima partida, mesmo que seja por 1 a 0.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Um jogador argentino na praia





Marcus Vinicius Batista

As negociações duraram um mês. Parecia caso de necessidade e, por isso, acertar todas as bases do acordo provaria que a contratação era de suma importância, a ponto de ressuscitar o defunto depois de dez anos. Só mesmo meu cunhado para me retirar de uma aposentadoria confortável, sem dores musculares ou promessas de vitória.

O nepotismo partiu dele. Fernando me garantiu, sem ter visto partida alguma, que eu resolveria parte dos problemas defensivos do time argentino. Como seria recebido como estrangeiro? Como seria recebido por jogadores com a metade da minha idade, muitos deles com corpo e aparência para serem meus filhos?

A doceria Brunella era a referência geográfica para os jogos, não o patrocinador. Os recursos vieram de outra empresa do ramo alimentício, o Bar do Maneco, que bancou parte do jogo de camisas e das traves. Um time com origem internacional tinha que evoluir do gol caixote para as traves grandes. E essa evolução implicava na contratação de um goleiro. Aí entro eu, aos 41 anos!

Além do patrocínio, o Bar do Maneco tinha mais vínculos afetivos com os jogadores. O estabelecimento tem sua matriz às margens do BNH, na Aparecida. É ali que residem a maioria dos atletas, muitos fregueses de refrigerantes e outras bebidas.

O time é um apanhado de garotos com passagens por clubes gringos; na verdade, equipes de praia que homenageiam as preferências dos jogadores da geração videogame. Para eles, melhor se apropriar do alemão Schalke 04 e o espanhol Real Madrid do que Cruzeiro ou Corinthinhas (no diminutivo mesmo!), clubes que enfrentei quando tinha 12, 13 anos, em campeonatos regionais de futsal.

As cláusulas contratuais verbais indicavam que eu não poderia treinar. A meninada estuda de manhã e treina à noite, na praia. Eu trabalho durante o dia e dou aulas à noite. Jogaria apenas nos finais de semana. Ótima saída para quem precisa de dois, três dias de recuperação após cada pelada. Se treinasse durante a semana, seria ausência na certa no sábado ou no domingo.

Nos últimos 10 anos, havia me tornado um jogador de futebol society. Campo menor, mais gente de cabelo branco e joelhos operados, menos tempo de corrida, mais cerveja, petiscos e conversa sobre futebol, trabalho e filhos. Definitivamente, outro esporte.

Voltar ao futebol de praia reviveu parte da minha cultura litorânea. A dinâmica do jogo reacendeu as memórias de quem era uma ratazana da faixa de areia. Jogos quase todos os dias, com o filé mignon aos sábados e domingos à tarde. Os clássicos entre Roberto Sandall e Trabulsi, duas ruas na Ponta da Praia, que muitas vezes resultaram em correria para não apanhar e amnésia sobre o resultado da partida.

Os contras, como são chamados os jogos (nada) amistosos, envolviam adversários como o pessoal do Colégio Carmo, muitos deles hoje parceiros de futebol society, cerveja, resenhas e tal. Havia os festivais, com diversos jogos ao longo do dia. Eu atuava até no time dos zeladores da minha rua, um jeito arretado de jogar futebol, mas jamais violento ou desleal.

No começo do mês passado, fiz minha estreia pelo River Praiano, outra celebração de uma equipe estrangeira, talvez sintomático pela forma aguerrida de jogar. Como resumiu meu cunhado, "só pegaria". A partida era fora de casa - em frente à Pinacoteca Benedito Calixto -, e o adversário também tinha nome gringo, mais voltado para o futebol americano: Bull Dogs. Perguntei três vezes para ter certeza da nomenclatura surreal. Para o primeiro jogo, nada de sustos. 3 a 0.

Na semana seguinte, novo convite. Oponente com nome de seleção europeia: Montenegro. A caminhada de um quilômetro entre minha casa e a faixa de praia onde aconteceria a partida, além de aquecer o corpo, esquentou a nostalgia. Um campo depois do outro, no final da tarde de sábado, muitos deles ligados às barracas, outros improvisados com pedaços de pau como traves.

Passei a adolescência toda jogando na areia dura, perto do canal 6. Fora a molecada da rua Roberto Sandall, os amigos de praia, sujeitos que não precisávamos conhecer passado, família, profissão, escolaridade, comprovante de residência e CPF, rezavam pelo mesmo código de Ética, de partidas que acabavam ao anoitecer e cujo resultado seria esquecido antes do encontro da semana seguinte. Gente como Arakem (não o showman que saltitava na Globo em época de Copa do Mundo), Mineiro, o falecido Índio e Salvador, o único que sabíamos a profissão: professor de Geografia.

O River Praiano venceu novamente: 3 a 2 sobre Montenegro. Era a hora, acreditava-se, de enfrentar o carrasco dos últimos meses. A diferença não era somente técnica, o nome era exclusivamente nacional. O Águia Negra havia sapecado 7 a 2 em setembro. Desfalques, me disseram alguns, para justificar a goleada.

Na semana passada, novo encontro, dois dias antes do Dia de Finados. Em tese, relação alguma com o futebol. No primeiro tempo, suportamos o 1 a 0 até os 44 minutos, quando levamos o segundo gol. Uma "dura" no vestiário a céu aberto e quatro substituições. O massacre veio na segunda etapa. Gols espíritas (aqueles que nem o autor acredita e, por isso, credita a uma entidade), gol contra, falhas individuais e coletivas. 9 a 3 e silêncio.

Quando deu o relógio, veio o sinal de novos tempos. Goleada nas costas, eu só queria ir embora. Muitos insistiam em continuar, dos dois lados, pela diversão. Eu disse para um deles: "tenho mulher em casa. Preciso ir." Ele me respondeu sorrindo, na experiência de 16 anos de idade. "Eu não!".

Mais tarde, caminhando ao lado da mureta do canal, conversava com dois ou três jogadores. A derrota havia sido esquecida e a preocupação se dividia entre o primeiro emprego e o vestibular. Direito ou Educação Física? Entrar na Marinha ou continuar como estagiário?

Ali, percebi como é fascinante a cultura do futebol de praia. O resultado fica para trás, enquanto seguem vivas as angústias que possuía, aquelas que brotavam no começo da década de 90. Sugeri que marcássemos novamente com o Águia Negra, para se aprender com o adversário. Último conselho. Minha vida como goleiro de um time falsamente argentino terminou ali. Aposentado, outra vez.

Ao menos, na praia.

terça-feira, 21 de março de 2017

Entortando o tronco

Coleus, em casa, no Canal 5

A crônica abaixo nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", ministrado em março de 2017.

Júnior Landim

Recentemente, tenho cultivado uma fagulha de jardim em Santos, em frente ao Bistrô que conduzo com minha esposa Renata. Ali, tenho vários caixotes de madeira que serviram de morada para laranjas, transformadas em suco para matar a sede de amigos que frequentam o lugar.

Cada caixote serve de moldura para uma planta ou flor e, juntos, formam um mosaico verde que alegra meus olhos. Um dia, Renata chega com um vaso miúdo nas mãos, de onde apontava uma pequena plantinha. Ela me entregou, dizendo que fora presente de um aluno carinhoso. E lá se foi a Coleus ocupar um caixote ainda vago.

Muitas regadas e alguns meses depois, a danadinha cresceu muito, encorpou, tá feliz da vida que não cabe no caixote. Aí pensei: quero ver como ela resolve essa pendenga com o caixote.

Desde menino, desenvolvi uma relação muito próxima com animais e plantas. Isso se deve ao fato de ter vivido num sítio a vida toda e ter a imensidão de Mata Atlântica nativa como a extensão do meu quintal. Sempre dialoguei e observei muitos animais, flores e árvores ao meu redor e me impressionava muito com a inteligência natural desses seres silenciosos.

Eles sempre resolviam seus problemas de forma muito simples e eficaz. Por exemplo: o João de Barro constrói sua casa com uma arquitetura elegante e funcional. É construída de uma forma onde vento e chuva nunca incomodam os moradores.

Outro exemplo fabuloso é o das orquídeas selvagens que não se sabe como se hospedam em troncos de árvores maiores como jacarandá e em pontos estratégicos, onde o sol vara por alguns minutos do dia. É suficiente para que a explosão de cores aconteça.

Hoje, estou eu a observar a Coleus como nos tempos de menino. E ela, com uma inteligência natural, começou a driblar o caixote numa dança sutil, envergando o tronco e desviando do obstáculo rumo ao céu. Um espetáculo!

Assim, aprendo com a Coleus. Envergar o tronco, às vezes, é a saída que requer inteligência quando o óbvio seria confrontar o caixote.

terça-feira, 7 de março de 2017

O clássico violento



Marcus Vinicius Batista


Eu estava sem adversários. Passava as férias na casa da minha avó e levei comigo o estrelão – apelido do campo, da marca Estrela – e alguns times de futebol de botão.

Depois de alguns dias, eu estava cansado de jogar contra mim mesmo. É como jogar xadrez contra si próprio. A diferença – talvez – esteja no movimento do jogador. No xadrez, você roda o tabuleiro. No botão, você precisa dar a volta no campo, fácil quando ele mede menos de um metro de comprimento. A semelhança é que, com o tempo, a probabilidade de empate se torna real, diante do jogador que conhece bem os truques do adversário interno. Zero a zero é a morte em vida do futebol.

Eu jogava no quarto de costura da minha avó Norvina. Ali, conversávamos de vez em quando e o barulho da máquina me distraía. Às vezes, ela contava com a presença da Beatriz, a assistente uruguaia que era uma simpatia e educação únicas.

Numa das manhãs, minha avó deve ter percebido meu tédio diante do estrelão. Imagino eu, pois ela parou o serviço e se ofereceu para jogar uma partida comigo. Por que não, vó?

Escolhemos os times, com jogadores de plástico, comprados em banca de jornal. Eu tinha dezenas de equipes, pois trocava o adesivo original – em cartela – por decalques de uma papelaria. Ainda os guardo numa caixa de madeira, feita pelo meu pai, onde ficam os 12 grandes brasileiros, em um mini-armário para pregos, parafusos e afins, onde estão os times médios e pequenos brasileiros, e um pote de sorvete, onde permanecem os clubes estrangeiros.

Fiquei com o Corinthians. Minha avó – não me lembro o motivo – optou pelo Santos. Expliquei as regras básicas mais os movimentos com a palheta para usar os jogadores. No par ou ímpar, ganhei o direito de começar a partida.

Assim que dei a saída, parti para o ataque. Dois ou três toques na bola e estava na intermediária adversária. Pedi para chutar com o habitual “tá lá?”

Minha avó me olhou com espanto, como se perguntasse: “O quê?”

— Vó, tá lá significa que quero chutar. Arruma o goleiro e tenta defender.

Ela concordou com a cabeça, arrumou o goleiro e me deu autorização. Sócrates, um dos sujeitos que me fizeram escolher o Corinthians como time de coração, ajeitou o corpo e bateu, sem defesa para o goleiro do Santos, na época, Marola. 1 a 0.

Sorri com o gol marcado, mas não fiz festa. Na petulância de criança, enxergava minha avó como café com leite. A goleada era questão de tempo e, antes disso, não poderia me esquecer que estava ali para ensiná-la. Era uma companhia, claro, mas não me lembro se pensei neste fator motivacional para a realização do clássico.

Ajudei-a a arrumar os jogadores para dar a saída e reiniciar a partida. Ela pegou errado na palheta e corrigi o movimento. Repassei o que deveria ser feito e alertei para a dosagem da força. Um movimento forte e a bola – na verdade, um disco semelhante ao de hóquei – estaria perdida pela linha de fundo.

Minha avó tentou uma vez. O jogador do Santos não se mexeu. Pedi que ela fizesse de novo. Nada do sujeito sair do lugar. “Vó, outra vez. Tudo bem!”

Ela encostou a palheta novamente no atacante santista – cujo nome é melhor manter em segredo – e fez o movimento. A precisão e a força nos dedos de costureira foram fatais. Crac!!!! O jogador do Santos quebrou no meio. Partiu-se em dois. A bola permaneceu intacta.

Eu e minha avó nos olhamos sem saber o que fazer. Ambos surpresos. Ambos chocados diante da violência do futebol, que fizera a primeira vítima naquele apartamento do Gonzaga.

Eu não disse palavra. Ela se desculpou e se levantou. Deu uma justificativa qualquer para retornar ao trabalho. Eu aceitei, guardei os times, apanhei outros e voltei para meu próprio campeonato.

Minha avó me deu incontáveis times de botão na vida. Mas, como adversária, nós nunca nos demos a honra de um jogo de volta, ainda que o clássico entre Santos e Corinthians tenha durado um chute a gol e um atleta sem condições de voltar a campo.

Anos depois, o time do Santos foi substituído pelo São Paulo, de uniforme branco e adesivo novo. De vez em quando, o tricolor entra em campo para enfrentar o Santos, da minha filha Mariana. Até hoje, atua com um homem a menos. Anos atrás, preguiça de contratar alguém. Hoje, uma lembrança afetiva da oponente que nunca tive.