sexta-feira, 2 de março de 2012
E o mendigo?
O Ministério Público Federal manteve acesa a história de agressão ao universitário Victor Soares Cunha quando denunciou os cinco jovens por tentativa de homicídio qualificado e pediu a prisão preventiva deles no Rio de Janeiro. O caso aconteceu no início de fevereiro e Victor, que sofreu cirurgia para reconstrução do rosto, se transformou numa espécie de herói por ter defendido um mendigo, vítima inicial dos selvagens.
Neste enredo com cenas repetitivas, quase todo o elenco foi identificado. Promotores de justiça, os agressores (inclusive com apelidos), Victor e o amigo que serviu como testemunha. Até o soldado da Aeronáutica Yuri Ribeiro ganhou um papel de coadjuvante pela truculência na Internet. Pode ser expulso da Força Aérea Brasileira pelo surto de virilidade e valentia no mundo virtual.
Mas e a origem desta história? Neste caso clássico da sociedade do espetáculo, quase todos ganharam minutos no noticiário, fizeram parte da leitura maniqueísta dos fatos e ocuparam os devidos papéis de mocinhos e vilões. Só que há uma exceção, anônima, vista como rodapé de página das reportagens. Quem seria o mendigo?
Ora chamado apenas de mendigo, ora identificado somente como morador de rua, a primeira vítima se tornou uma figurante, sem rosto, nome, passado, opiniões, aparentemente irrelevante para a construção desta salada policial. Às vezes, para se evitar repetições linguísticas, ele é chamado de homem. Nada mais vago, impessoal e genérico.
Os hipócritas poderiam dizer que o lado bom se apoia no fato de que, ao chamá-lo de homem, evita-se classificá-lo entre as prateleiras da marginalidade. Na prática, o que as palavras mudam para alguém que não pode se alimentar delas?
Victor é tratado como um herói. Ele o é, mas este ato heróico deu ao estudante exclusividade no posto de vítima. Na superficialidade dos olhares e discursos, não existe lugar para parceiras ou divisões. Logo, o mendigo teria que desaparecer na página 2.
Desviar das convenções sociais implica em pagar o imposto da insignificância. Ao mendigo, é negado o elemento mais rudimentar da identidade. Ele não tem nome. Por que nomear quem não deveria estar entre nós? É um morador de rua, a quem a história renega, ou é forçada a renegar por conta dos outros sujeitos que a compõem.
Ao mendigo e seus semelhantes, serve como esmola a insistência do cotidiano traçado pelos indiferentes. Desviamos nas calçadas, nos incomodamos com o aspecto animalesco deles. Eles representam a podridão que desejamos jamais alcançar. É a negação por natureza.
Por conta disso, não lhes oferecemos a voz ou o espaço para manifestação. Até a condição de vítima lhe é retirada quando o mendigo se torna apenas uma palavra que se perde no noticiário massificado.
Nem o mundo jurídico, povoado por letras idealizadas, se interessa por ele. A investigação policial se preocupou em localizá-lo? O que ele teria a dizer? Seria mais um ator no processo judicial? Uma testemunha ocular? Ele se tornou dispensável quando vítima (herói) e vilões foram alçados a seus papéis por terceiros. Os eleitos não precisam de concorrência. Quem sabe até não atrapalhasse na condução da estratégia da acusação?
Sabemos que, quanto mais próximo da base da pirâmide social estiver o sujeito, mais invisível ele se torna. Ignorado por instituições, ignorado pelos “cidadãos de bem”, corre o risco de não ser visto sequer pelos próprios pares. Para muita gente, o mendigo não merece a palavra porque não seria capaz de usar com dignidade. Não seria digno da espécie. Não seria da mesma espécie.
Nesta balança adulterada de civilidade, o mendigo não sofreu um ato de violência tão grave quanto o do estudante. Qual o estado de saúde dele? Ele precisou ser hospitalizado? Talvez se tivesse sido incinerado como um indígena ou se fosse tratado como mula, com direito a corda no pescoço, como aconteceu no interior de SP, o mendigo conseguisse participar do noticiário no horário nobre. Ainda assim, pela qualificação social padronizada: mendigo ou morador de rua.
No saldo da tragédia humana, o tratamento dado pelos agressores ao morador de rua se parece com a visão da imprensa. Por que dar voz a alguém que não se encaixa nos padrões, que não possui status suficiente para merecer uma identificação?
A diferença é que os agressores, coerentes com a própria estupidez, optaram por eliminá-lo à força. Os jornalistas o eliminaram com a sutileza das entrelinhas.
Qualquer um sabe que a condição financeira é elemento que diferencia o interesse pelos fatos jornalísticos. Victor é um estudante universitário e sua história ganhou amplitude também por isso. A mesma lógica prevalece no caso dos agressores, bem nascidos, o que se supõe ser uma premissa de civilização e de comportamento adequado. Nada diferente da gélida expressão de horror quando crimes são cometidos por gente de classe média. Dinheiro e caráter, neste sentido, seriam irmãos gêmeos.
Torná-lo inexistente é apenas uma nova forma de agressão, que nos ilude por se negar ofensiva. Engrossa a fileira de violência, de variadas ordens, que endurecem a casca desta vítima obscura.
Agredir com indiferença é eliminar o sujeito em vida, na crueldade do silêncio. Atitude que um humano jamais se acostuma, ao contrário do que os indiferentes creem. O desfecho é a metamorfose do mendigo em figura abstrata, um alívio para a consciência dos espectadores.
A infância perdida
Três estudos publicados na revista norte-americana “Pediatrics” sacudiram as concepções de infância em parte da comunidade médica. Os trabalhos, produzidos pela equipe do Hospital Pediátrico de Boston, afirmam que uma em cada 10 mil crianças acredita ter nascido no corpo errado e, por conta disso, desejaria mudar de sexo. Nos últimos 20 anos, o hospital teria registrado aumento de 300% no número de atendimentos deste tipo.
Um dos médicos, em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, utiliza como exemplo uma menina de oito anos, nascida em Los Angeles. A garota, com 18 meses de idade, teria sido categórica: “Sou menino.” Segundo o médico, os pais – de início – levaram na brincadeira e hoje, seis anos e meio depois, estão crentes de que sua filha deverá passar por tratamento hormonal assim que entrar na puberdade.
Para justificar a decisão de aplicar injeções de hormônios em pessoas na faixa de 11, 12 anos, os médicos alegam que elas sofrem de “distúrbio de identidade de gênero”. Dentre todos os absurdos que cercam esta história, os médicos contrários ao tratamento hormonal alegam que estas crianças estariam sendo classificadas como doentes mentais para driblar o debate ético.
A infância, assim como as demais etapas do desenvolvimento humano, é composta por elementos biológicos, psicológicos e culturais. Como é possível acreditar que uma criança, com um ano e meio de idade, que mal consegue falar e, principalmente, mal consegue se sustentar em termos psicológicos, pode estar insatisfeita com sua sexualidade ou com seu gênero? A criança sequer conhece seus órgãos genitais e suas funções, só para arranhar a superfície deste assunto.
Optei por me estender um pouco neste episódio, que rasga códigos de ética, porque estamos rodeados por sinais que indicam alterações na concepção de infância. Na prática, elementos sociais que aceleram, queimam etapas tanto biológicas quanto culturais, que podem implicar em conseqüências psicológicas numa faixa etária de absorção feito esponjas.
No Brasil, uma das grandes novidades da indústria infantil do vestuário foi o lançamento dos sutiãs com bojo. Um produto vendido para crianças de quatro a seis anos. Numa loja de departamentos, os sutiãs foram campeões de vendas no setor de roupas infantis. Clínicas de estética – o nome envernizado dos salões de beleza – oferecem dias de princesa e de príncipes para crianças. Entre os serviços, maquiagem definitiva e limpeza de pele.
Por que crianças necessitam reproduzir, em miniatura, a vida de adultos? Uma amiga psicóloga me disse – certa vez, em tom de “brincadeira” – que trocou as crianças pelos adultos como pacientes porque os problemas derivaram de gente grande.
Vivemos numa sociedade em que muitos adultos depositam, em vários níveis, suas expectativas, seus desejos, seus sentimentos em seu filhos, sobrinhos, enteados. E, com isso, crianças carregam responsabilidades além do compatível, atreladas a cobranças e pressões que representam um passaporte para o mundo adulto bem antes do tempo.
Para manter de pé uma sociedade que cultua aparências no altar, que se alimenta da forma em detrimento do conteúdo, escolhemos fundir faixas etárias, ignorar diferenças culturais ao nível da padronização e minimizar a importância de alterações biológicas. Um sinal vivo nos adultos que se comportam como crianças ou que perseguem a juventude como uma fase de vida inteira. Esta postura tem falhas que cobrarão seu preço, inclusive monetário para bancar as consultas aos especialistas.
quinta-feira, 1 de março de 2012
O mal-entendido
Vencer a Bósnia por 2 a 1, com um gol contra, aos 45 minutos do segundo tempo, não altera a irrelevância do jogo antes da realização dele. O Brasil venceu os cinco últimos amistosos, o que poderia reforçar o cinismo dos pragmáticos de resultados. Antes da Bósnia, a seleção brasileira ganhou de Costa Rica, México, Gabão e Egito. Nenhuma das vitórias se deu por goleada.
Os jogos seriam parte da preparação para a Copa do Mundo, daqui a dois anos e meio. Se usarmos a competição como parâmetro, confirmaremos o estelionato. Qual dos cinco chegaria, por exemplo, às quartas-de-final? Só o México, desde que jogasse em casa. Qual dos cinco chegaria às oitavas-de-final? A Costa Rica alcançou esta fase uma vez, há 22 anos. Aliás, perdeu para o Brasil por 1 a 0, aquele time comandado por Sebastião Lazaroni.
Podemos enfileirar argumentos que retratem estas partidas como absolutamente inúteis. O próprio coordenador de seleções, André Sanchez, deu o recado: os testes acabaram. É hora de montar um time. Uma leitura mais apressada poderia indicar que o diagnóstico é irreversível e, em duas frases, de fácil tratamento.
Mas o problema é que a seleção atirou um ano e meio na lata de lixo. Padecemos de inércia coletiva. O Brasil estacionou em 2010, na eliminação da Copa do Mundo, sem se reinventar. A renovação prometida é de nomes, mas não de linguagem ou de estética. Os pontos fortes permanecem sólidos. As deficiências se esfregam vivas em nossos rostos.
O goleiro é Júlio César e, apesar da mudança dos reservas, a posição permanece estável. O mesmo acontece nas laterais. Na direita, Maicon e Daniel Alves seguem entre os melhores do mundo, assim como Marcelo no lado esquerdo. No meio da defesa, a situação é idêntica. Lùcio foi aposentado, mas a seleção tem – para Tostão, por exemplo – o melhor zagueiro do planeta: Thiago Silva. O companheiro de zaga, David Luiz, atua por uma das principais equipes da Europa, o Chelsea. Os reservas também estão em nível semelhante.
As fraquezas do meio-campo e do ataque são enredo conhecido, independentemente ou não das convocações de Mano Menezes. O time ainda cultua o luto, a viuvez de Ronaldo. Não o trocou por ninguém. Neymar é obrigado a saltar degraus para protagonizar o setor. Seu parceiro de frente muda a cada amistoso caça-níqueis. Nenhum se firma. Nenhum provoca cócegas ou temor nos adversários. Tanto que Robinho, execrado pela irregularidade, virou farol de esperança diante da boa fase no Milan.
O meio-campo não preferiu outros caminhos. E, neste setor, fica explícita a pobreza tática. Pobreza porque não existem variações. O Brasil é previsível para os adversários. O Barcelona também é, mas a diferença reside na versatilidade que permeia um esquema único, conectada umbilicalmente no talento e na troca contínua de posições dentro do campo.
O Brasil se fantasia de paquiderme, no qual cada jogador tem atribuição específica e basta pela arrogância. Um volante destruidor, outro volante que joga um pouco mais adiantado e finge ser meia. Os outros dois seriam responsáveis por levar a bola ao ataque. Um deles seria mais criativo e o outro, necessariamente para carregar o piano. Como se fosse uma heresia dois craques na criação de jogadas.
Sempre considerei um contra-senso, uma perversidade do futebol a demissão de técnicos por conta de meia dúzia de maus resultados. Responsabilizar um único profissional em um esporte coletivo, ainda mais aquele que mal teve tempo para construir e direcionar um grupo, é a maneira mais promíscua de implantar a política do bode expiatório.
Após um ano e meio e 21 partidas, a seleção brasileira apresenta o mesmo perfil. Queda no ranking da Fifa, disputas políticas, escândalos de corrupção complementam o conjunto de nuvens negras. O fato é que o Brasil, mesmo protegido pela empáfia traduzida na hipocrisia dos melhores do mundo, se tornou um time comum.
Assim tem sido a era Mano Menezes. Prometendo renovação, ele nos entregou mais do mesmo. Falando em mudanças, maquiou o estado de coisas. Elogiado como adepto de novos ares, mostrou-se fiel aos velhos vícios do cargo. Infelizmente, o técnico atual mantém a seleção brasileira no purgatório, posição perigosa para quem sediará o próximo Mundial. Mano Menezes, salvo uma virada do avesso, parece ser um mal-entendido.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
O golpe verde
Passadas três semanas, ficou mais cristalino perceber quanto os consumidores foram lesados pelo discurso de preservação ambiental pregado pelas redes de supermercados. Um estelionato social que se manifesta a cada ocasião que um cliente encosta a barriga no caixa e se vê diante da ausência de possibilidades para embalar as compras. O acordo entre as redes e o Ministério Público, na prática, não amenizou o problema. Representou mais um elemento que solidifica a imagem das empresas que lutam, a qualquer preço, por um objetivo: vender e algemar consumidores pela fidelidade cega.
Os supermercados fizeram jogo de cena ao prometerem criar alternativas às sacolinhas plásticas. Quando propuseram uma mudança à ditadura do plástico, fingiram sensibilidade aos problemas ambientais. Utilizaram, levianamente, estatísticas e frases feitas. É claro que somente o consumidor mais ingênuo poderia apostar que as redes não pretendiam lucrar com a linguagem verde, e não me refiro ao custo embutido nas mercadorias, mas à construção de uma imagem cidadã, a ilusão da responsabilidade social.
Trocar as sacolinhas mal arranha a superfície da ferida. Vivemos sob a segurança e a estética das embalagens. Todo o supermercado é um grande invólucro. Há alimentos congelados, por exemplo, que estão cobertos por até três camadas de papel e plástico. Não se compra mercadoria alguma sem a presença destes dois materiais. As embalagens ocupam um lugar coerente com a sociedade que idolatra a aparência. Compramos pelas cores, pelo tipo de letra, por uma frase acolhedora impressa no papel. Embalagens apontam para a sofisticação. Viraram sinônimo de qualidade que se reflete no preço.
É neste ponto que reside uma das contradições do projeto de substituição das sacolinhas. Em Santos, as duas maiores redes destinaram áreas para a retirada de caixas de papelão. A reposição é lenta e, normalmente, não há caixas nos suportes. Os supermercados reiteram a falha quando oferecem caixas de segunda mão, que acondicionaram outros produtos – perigosos para a saúde, eventualmente – sem levar em conta a trajetória destas caixas e, principalmente, as condições de higiene delas.
Muitos consumidores perceberam que podem garantir sua cota de sacolas. Basta ter um chilique na boca do caixa. Na última semana, testemunhei um sujeito esbravejar porque não achava correto misturar alimentos e produtos de limpeza no carrinho. O funcionário caiu na armadilha de oferecer as sacolas de R$ 2, o que aumentou a indignação do cliente e atraiu gente por conta dos gritos e do silêncio da gerência.
Cinco minutos depois, as sacolas plásticas – escondidas em um armário atrás do balcão de notas fiscais – apareceram não só para o consumidor que reclamava de seus direitos como também para os papagaios de pirata, que saíram sorrindo com suas mercadorias embaladas “à moda antiga”.
A medida também despertou a atenção dos concorrentes menores. Em Santos, mercados de bairro mantém a distribuição de sacolas como forma de agradar aos consumidores que resolveram fazer compras de última hora. Em São Paulo, há casos de redes que estamparam placas publicitárias nas quais as sacolas são trabalhadas como diferencial de serviço.
Suspender a entrega de sacolas plásticas sustenta que consciência ambiental ainda é um bibelô de boutique. Entender que o meio ambiente é questão central hoje exige noção de coletividade e buscar tal postura no consumo – marcado pelo individualismo – soa como piada de mau gosto. E os supermercados vão apanhar mais enquanto continuarem petulantes em não assumir que desejam ganhar dinheiro com o egoísmo dos consumidores.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A negação pelo invisível
Ao contrário do discurso que se jura inocente na TV, o esporte não é mera brincadeira ou entretenimento. Além do negócio de bilhões de dólares, os esportes profissionais representam – acima de tudo – um termômetro cultural, que concentra formas de pensar, valores, sentimentos, inclusive os perversos, que pareciam (ou deveriam) hibernar nas entranhas de torcedores, atletas e dirigentes.
O racismo é um destes rastros de selvageria cultural que insistem em permanecer nas quadras e campos como reflexo das sociedades que o praticam e, em parte, lutam para combatê-lo; em parte, para negá-lo com feições cínicas de horror.
Dois casos recentes de discriminação resultaram em sanções pontuais, porém incapazes de alterar o estado de coisas, de interferir no esporte como segmento de mercado. Na NBA, a liga de basquete profissional dos EUA, a vítima foi o armador Jeremy Lin, filho de imigrantes de Taiwan. Lin, economista formado por Harvard, é uma das sensações da atual temporada.
Na última sexta-feira, o time do armador, o New York Knicks, perdeu para o New Orleans. Na versão para celulares e tablets, a ESPN – rede norte-americana de notícias esportivas – publicou a manchete: “Chink in the Armor”. Traduzindo: fissura na armadura. Mas o termo “chink” também é utilizado para humilhar imigrantes chineses.
A emissora, depois de criticada, pediu desculpas ao jogador, demitiu um funcionário e suspendeu um de seus âncoras. Outro funcionário, do braço radiofônico, está sob avaliação.
Na Europa, Liverpool e Manchester United disputaram mais uma partida pelo Campeonato Inglês de futebol, na semana passada. O uruguaio Luiz Suaréz, atacante do Liverpool, se recusou a cumprimentar o zagueiro francês Evra, do Manchester. O zagueiro Rio Ferdinand, em solidariedade ao colega, não deu a mão ao uruguaio.
Suaréz havia sido suspenso por oito jogos por ofensas racistas a Evra, chamado de negrito. Por ironia, Evra marcou um dos gols na vitória do Manchester e comemorou em frente ao jogador uruguaio. O técnico do Manchester, Alex Ferguson, afirmou que Suaréz envergonhava o Liverpool. Pressionado ou não, o uruguaio se viu obrigado a pedir desculpas em público no dia seguinte.
Ambos os casos são recentes, estão frescos no noticiário. Mas qualquer pesquisa mais apurada apontaria dúzias de exemplos, inclusive aqui no Brasil. A maioria deles é marcada por punições brandas ou vistas grossas, quando não prevalece a negação das atitudes. Muitas delas são sustentadas na falácia da democracia racial ou na conveniência de um país miscigenado.
No primeiro episódio do Campeonato Inglês, o que provocou a suspensão, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, tentou negar a prática de racismo ao afirmar que tais diálogos são comuns dentro de campo e que não são o que parecem. Seriam carinhos? Gesto de lordes, já que aconteceu em terras britânicas? Blatter acertou em um ponto: infelizmente, são comportamentos recorrentes no futebol.
O dirigente somente se esqueceu de que a entidade na qual preside nunca combateu com veemência situações de racismo, que se acumulam em países como Espanha, Rússia, Polônia, Itália, apenas para se limitar a endereços onde brasileiros foram chamados de macacos.
Virar as costas para a discriminação racial funciona como a estratégia mais eficiente dos agressores. Campanhas publicitárias eximem os omissos se deslocadas de punições contundentes.
Nestas duas histórias, a resposta se deu de maneira imediata por conta da ressonância elevada na mídia. Os agressores foram expostos até porque vomitaram publicamente seus preconceitos, talvez crentes na impunidade ou cegos pela ilusão da naturalidade de seus atos.
O esporte também se vê de mãos atadas diante de um problema que nasceu e cresceu fora dele. O racismo é uma chaga cultural que se faz presente, por exemplo, em todos os conflitos bélicos de hoje. Direta ou indiretamente, age silenciosamente nas relações sociais. Um estádio ou um ginásio catalisam este comportamento que traduz a intolerância e a dificuldade de lidar, compreender, respeitar e conviver com quem pensa ou simplesmente é diferente no tom da pele, na condição social ou na origem geográfica.
O esporte profissional, quando se transforma em palco de manifestações racistas, além de se eximir das próprias responsabilidades, se solidifica como motor que renova forças para quem não vê a discriminação como uma violência.
Negar o racismo é perpetuar as algemas nos pulsos de quem é visto como ameaça, como inferior na capacidade física ou intelectual ou como usurpador de empregos em tempos de globalização das equipes e dos torneios.
Pensar no esporte profissional como uma brincadeira é desejar a transformação do lúdico em máscara para a agressividade humana. O esporte como mercado é demasiado exposto para não se enxergar como referência para a observação de atos e discursos criminosos.
No futebol, as confederações – via de regra – fingem se subestimar para não mexer numa ferida que poderia atrapalhar a expansão dos negócios. Antes de escondê-la com curativos, a ferida traz a cara da omissão, que significa mais do que uma falha no entendimento do racismo como um tumor. Significa cumplicidade diante de um entretenimento que forma e reproduz perspectivas de mundo, traduzidas em violência perpetrada por gente que integra, em definitivo, do espetáculo.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
O supermercado de homens
Sempre acreditei que a seleção brasileira de futebol deveria ser a terra dos melhores, dos jogadores – no mínimo – excelentes. É claro que, nos últimos 15 anos, fiz vistas grossas para convocações estranhas de atletas que seriam vendidos, a toque de caixa, para mercados igualmente esquisitos. Jogadores que nunca mais seriam lembrados, inclusive pelo técnico que os convocou e – involuntariamente? – entrou na cadeia alimentar do negócio.
A seleção brasileira atual se assumiu como armazém de secos e molhados. Os critérios estão longe da transparência, as explicações do técnico Mano Menezes seguem paradoxais, atletas esquecidos ganham mais destaque do que os convocados e o time-base não existe na imaginação do mais patriótico torcedor.
O próprio coordenador de seleções, Andrés Sanchez, pediu que Mano parasse a fase de testes após quase 100 nomes chamados para treinar, viajar e talvez jogar, em partidas caça-níqueis contra Gabão e Bósnia, por exemplo. Até a partida contra Portugal, com vitória por 6 a 2, ganhou caráter duvidoso ao escancarar as portas do escândalo de empresas fantasmas e superfaturamento de dinheiro.
Mas pensemos na última convocação, para o amistoso contra a Bósnia, no final do mês. É evidente que todo técnico tem suas preferências e que sempre haverá um ou outro nome em discussão. Em 1990, Sebastião Lazaroni levou Tita – em final de carreira – e Bismarck, somente um bom jogador de clube. Por outro lado, Luiz Felipe Scolari provou que estava certo em não chamar Romário para a Copa do Mundo de 2002.
Parreira fez o contrário e acertou ao convocá-lo nove anos antes. Dunga também assinalou a alternativa correta quando demonstrou que Ganso, por enquanto, ainda é um atleta de clube.
A sensação que me incomoda é o fato de Mano Menezes, em suas listas, reiterar a entressafra que acomete o futebol nacional. As convocações estão recheadas de jogadores de melhores momentos da rodada, reservas de clube de grande expressão na Europa ou titulares de centros de segunda linha. Não é possível perceber quem são os titulares do meio-campo e do ataque.
Apenas o goleiro e a defesa mantém a regularidade, o que – de certa forma – simboliza a época das vacas magras, em um futebol onde é tradição sobrar opções entre meias e atacantes.
O volante Sandro aparece na última convocação. Ele jogou somente 75 minutos pelo Tottenham na atual temporada inglesa. O lateral Adriano, do Barcelona, é figurinha carimbada do grupo atual. Adriano atuou em apenas oito jogos da temporada espanhola.
Outra dúvida é a relação “afetiva” entre Mano Menezes e o Shaktar Donestk, da Ucrânia. Sempre aparecem atletas deste clube, sem tradição no cenário europeu, entre os convocados. Antes, o meia Jádson, hoje no São Paulo, e esquecido pelo técnico. O volante Fernandinho é o “queridinho” da vez. Será que não temos volantes melhores?
Entre os meias, Mano Menezes justificou a ausência de Kaká, afirmando que o meia do Real Madrid não o havia agradado nas últimas partidas. E Ronaldinho Gaúcho, que se arrasta no Flamengo? O técnico da seleção acompanhou os últimos jogos do meia, contra times pequenos da elite carioca?
Ganso, embora tenha arrebentado neste final de semana no Campeonato Paulista, apresentou irregularidades no início da temporada. O jogador do Santos terá mais uma oportunidade, ainda mais contra um adversário frágil, para ser goleado. A impressão é de que a justificativa ignora os vários pesos e medidas das listas.
Entre os atacantes, o Brasil não possui, no futebol europeu, jogadores melhores do que Jonas, do Valência? Hulk, do Porto, só conseguiu mostrar boa vontade. Até Robinho, que entra e sai do Milan, não estaria melhor do que ambos?
A quantidade de exemplos – que não sustenta a subjetividade das convocações – ganha reforço quando não se observa o planejamento que envolveria a seleção olímpica, a meses dos jogos em Londres. Não há uma equipe-base, e sim atletas chamados para compor o banco ou jogar alguns minutos diante de adversários de qualidade duvidosa.
Creio que seria mais produtivo que ficasse claro quem é a seleção olímpica e quem é a seleção principal. Convivência com colegas mais experientes em hotéis, aeroportos e vestiários não forma uma equipe entrosada e que pretende ser definitiva. Neymar e mais 10 é muito pouco para quem deseja uma medalha.
O modo de trabalhar do atual técnico, infelizmente, consolida a seleção brasileira como um balcão de negócios, que cultiva a imagem blasé diante da Copa do Mundo em casa. Uma postura de quem pode ganhar quando e aonde quiser. Numa fase de pouco frutos, a árvore pode apodrecer e tombar mais rápido do que se espera, e dentro do próprio quintal.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
O animal político
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| Clooney, com Ryan Gosling, em Tudo pelo Poder |
George Clooney é um sobrevivente. Aos 50 anos, o ator consegue ser um dos poucos que produz e pensa política dentro da indústria cinematográfica. Ele o faz sem poupar adversários e, principalmente, sem duvidar das próprias crenças.
A estratégia, segundo o próprio ator e diretor, é mesclar roteiros comerciais – ainda assim inteligentes – com produções mais profundas e críticas, nas quais Clooney permite que a história fale por si mesma. O exemplo mais recente é “Tudo pelo Poder”, em que adota uma tática semelhante à primeira experiência política como cineasta, quando dirigiu “Boa Noite, Boa Sorte”, em 2005, pelo qual recebeu a indicação de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar.
As semelhanças são variadas. Ambas as temáticas são espinhosas para o passado recente dos Estados Unidos. “Tudo pelo poder” conta a história de um jornalista que se vê envolvido em intrigas quando é contratado para trabalhar nas prévias da campanha presidencial. O jornalista, interpretado por Ryan Gosling, um dos principais atores do cenário atual, assessora um governador que disputa as prévias do Partido Democrata.
A estratégia, segundo o próprio ator e diretor, é mesclar roteiros comerciais – ainda assim inteligentes – com produções mais profundas e críticas, nas quais Clooney permite que a história fale por si mesma. O exemplo mais recente é “Tudo pelo Poder”, em que adota uma tática semelhante à primeira experiência política como cineasta, quando dirigiu “Boa Noite, Boa Sorte”, em 2005, pelo qual recebeu a indicação de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar.
As semelhanças são variadas. Ambas as temáticas são espinhosas para o passado recente dos Estados Unidos. “Tudo pelo poder” conta a história de um jornalista que se vê envolvido em intrigas quando é contratado para trabalhar nas prévias da campanha presidencial. O jornalista, interpretado por Ryan Gosling, um dos principais atores do cenário atual, assessora um governador que disputa as prévias do Partido Democrata.
O filme, sólido em questionar os procedimentos do marketing político, não poupa os democratas ao aproximá-los dos republicanos em propostas, jogos de bastidores, negociatas por apoio e votos nas prévias. Clooney apóia o partido e levantou a bandeira de Barack Obama nas últimas eleições.
Outro mérito é que Clooney não se incomoda em servir de escada para colegas. Em “Boa Noite, Boa Sorte”, George Clooney se escondeu no papel de coadjuvante, investindo-se na construção de um personagem com as contradições e receios de um sujeito comum. Ele é o principal produtor do programa de notícias da CBS, que comprou uma briga com o senador Joseph Mc Carthy, no auge da caça às bruxas comunistas, na década de 50.
A trama, baseada em fatos reais, mudou a imagem do jornalismo de TV, fragilizou a paranóia em enxergar multidões de comunistas em todos os setores da indústria cultural e revelou o despreparo dos parlamentares envolvidos na investigação, em plena Guerra Fria.
Em “Tudo pelo poder”, Clooney também fica com o segundo posto, o do governador. Inicialmente, um personagem comprometido com a política, que se revela muito parecido com seus colegas engravatados que estamos acostumados a ver. Fora que possui um segredo da vida privada que poderia inviabilizar sua candidatura. Na cultura política norte-americana, o eleitor comum dá mais valor às ações de seus representantes entre quatro paredes do que para deslizes ou benfeitorias públicas. Bill Clinton é um ícone recente desta mentalidade.
A trajetória cinematográfica de George Clooney mudou de rumo quando ele se associou ao diretor Steven Soderbergh na criação de uma produtora, em 2000. A partir daí, o ator passou a alternar produções comerciais tradicionais, como a série “Onze Homens e Um Segredo”, com filmes políticos. Levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor ator coadjuvante em 2006 por Syriana, excelente filme que cutuca as entranhas da indústria do petróleo.
Mesmo em produções aparentemente inofensivas, Clooney prova que as escolhas costumam ser acertadas. Aí, entra – em camadas mais profundas de percepção – o debate social, que pode ser travestido de comédia ou drama familiar. “Amor sem escalas”, por exemplo, finge ser uma comédia romântica, mas apresenta diálogos bem acima das demais obras do gênero. Coloca na pauta a solidão, os relacionamentos líquidos e as esquizofrenias do mundo corporativo. A coerência se mantém em “Os Descendentes”, que transita para construção idealizada de família e casamento, além da relação entre pais e filhos adolescentes.
George Clooney consegue fazer em Hollywood o que poucos arriscariam ou teriam competência em executar. Sean Penn e Clint Eastwood são dois outros casos de mentes criativas dispostas a desnudar a sociedade norte-americana, com seus conflitos, paradoxos, hipocrisias e desejos.
Clooney se junta a eles quando representa um oásis dentro de um deserto de padronização, superficialidade, escravidão comercial e desprezo pela inteligência do espectador. Em ano de eleições, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, “Tudo pelo poder” é uma análise profunda sobre a estrutura que cerca a disputa por votos. Uma reflexão que, por vezes, você não encontra no noticiário do horário nobre ou nas páginas de jornais.
Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen.
Outro mérito é que Clooney não se incomoda em servir de escada para colegas. Em “Boa Noite, Boa Sorte”, George Clooney se escondeu no papel de coadjuvante, investindo-se na construção de um personagem com as contradições e receios de um sujeito comum. Ele é o principal produtor do programa de notícias da CBS, que comprou uma briga com o senador Joseph Mc Carthy, no auge da caça às bruxas comunistas, na década de 50.
A trama, baseada em fatos reais, mudou a imagem do jornalismo de TV, fragilizou a paranóia em enxergar multidões de comunistas em todos os setores da indústria cultural e revelou o despreparo dos parlamentares envolvidos na investigação, em plena Guerra Fria.
Em “Tudo pelo poder”, Clooney também fica com o segundo posto, o do governador. Inicialmente, um personagem comprometido com a política, que se revela muito parecido com seus colegas engravatados que estamos acostumados a ver. Fora que possui um segredo da vida privada que poderia inviabilizar sua candidatura. Na cultura política norte-americana, o eleitor comum dá mais valor às ações de seus representantes entre quatro paredes do que para deslizes ou benfeitorias públicas. Bill Clinton é um ícone recente desta mentalidade.
A trajetória cinematográfica de George Clooney mudou de rumo quando ele se associou ao diretor Steven Soderbergh na criação de uma produtora, em 2000. A partir daí, o ator passou a alternar produções comerciais tradicionais, como a série “Onze Homens e Um Segredo”, com filmes políticos. Levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor ator coadjuvante em 2006 por Syriana, excelente filme que cutuca as entranhas da indústria do petróleo.
Mesmo em produções aparentemente inofensivas, Clooney prova que as escolhas costumam ser acertadas. Aí, entra – em camadas mais profundas de percepção – o debate social, que pode ser travestido de comédia ou drama familiar. “Amor sem escalas”, por exemplo, finge ser uma comédia romântica, mas apresenta diálogos bem acima das demais obras do gênero. Coloca na pauta a solidão, os relacionamentos líquidos e as esquizofrenias do mundo corporativo. A coerência se mantém em “Os Descendentes”, que transita para construção idealizada de família e casamento, além da relação entre pais e filhos adolescentes.
George Clooney consegue fazer em Hollywood o que poucos arriscariam ou teriam competência em executar. Sean Penn e Clint Eastwood são dois outros casos de mentes criativas dispostas a desnudar a sociedade norte-americana, com seus conflitos, paradoxos, hipocrisias e desejos.
Clooney se junta a eles quando representa um oásis dentro de um deserto de padronização, superficialidade, escravidão comercial e desprezo pela inteligência do espectador. Em ano de eleições, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, “Tudo pelo poder” é uma análise profunda sobre a estrutura que cerca a disputa por votos. Uma reflexão que, por vezes, você não encontra no noticiário do horário nobre ou nas páginas de jornais.
Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen.
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