terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As perdas

Alice tem 50 anos, é psicóloga-pesquisadora na Universidade de Harvard, no Estados Unidos. Casou-se com um cientista, com quem teve três filhos. Vive entre aulas, viagens internacionais para conferências e elaboração de textos científicos. È conhecida, no meio acadêmico, não apenas pela qualidade de suas pesquisas, mas também pela memória infalível para citar dados e trabalhos na sua área.

Joan Didion também é norte-americana. Escritora renomada, é casada com outro autor literário, com quem teve uma filha, hoje na casa dos 30 anos, como os filhos de Alice. Possui uma vida estável, que permite a ela escrever em tempo integral, sem se preocupar com outras atividades profissionais.

Alice começou a ter problemas de esquecimento. Não se lembrava onde deixara o carregador de celular. Ao correr no parque, não conseguiu – por alguns minutos – organizar o caminho de volta para casa. Perdeu uma viagem de avião. Entrou em sala de aula e não sabia qual conteúdo dar aos estudantes, o tema que havia preparado até uma hora antes.

Joan e o marido passaram a frequentar hospitais. A filha, Quintana, teve um choque séptico e estava em coma. Antes, teve pneumonia. Uma rotina desagradável de visita e de incertezas diante da recuperação da filha.

Alice enfrentou uma série de exames que, inicialmente, não apontaram problemas neurológicos. Os lapsos de memória se tornaram mais frequentes, fato que escondia da família e dos amigos. Após dois meses, o diagnóstico médico: Mal de Alzheimer, em nível precoce para uma mulher de 50 anos.

Joan retornou uma noite com o marido do hospital. A filha ainda inconsciente. Enquanto preparava o jantar, John permanecia na sala. Conversavam. Ela comentou algo. Ele se calou. Um ataque cardíaco matou John, aos 71 anos, naquela noite, de maneira fulminante.

A psicóloga com Alzheimer é o personagem principal do romance “Para Sempre Alice” (Ed. Nova Fronteira), livro de estréia da neurologista norte-americana Lisa Genova (na foto abaixo).




Joan Didion não é uma personagem. Ele é a autora do livro “O ano do pensamento mágico”(Ed.Nova Fronteira), em que relata o ano posterior à morte do marido.

Ambas as obras falam sobre perdas e mudanças provocadas por essa situação. Por que temos dificuldades para lidar com as perdas definitivas, não apenas a morte? No romance, Alice precisa se reinventar e compreender que não poderia mais fazer planos de longo prazo. Seria obrigada a vivenciar o presente, aproveitar os detalhes de cada encontro, de cada ocasião, com a consciência de que se perderiam na ausência gradativa de memória recente.

Alice – e seus familiares – e temiam perdê-la, perdê-la pelo fim da identidade. Como ela poderia ser Alice se se tornaria alguém incapaz do auto-reconhecimento? Como os outros conseguiriam absorver a ideia de que Alice se transformaria em uma caricatura de si mesma, temor em forma de negação do marido dela? Ou seria uma nova Alice, com a essência original?

Joan (na foto abaixo) teve a pior das perdas, medo que permeia todas as culturas: a morte do mais próximo. Como se lida com ela? Como descobrir o momento em que se cai a ficha, na expressão popular? Como reconstruir o cotidiano sem alguém que te acompanhou por três décadas? Como encarar a si mesmo e enfrentar os sentimentos que restaram, sem o outro para recebê-los?




A maneira de se encarar uma perda é absolutamente individual. Depende do ritmo próprio da pessoa, como ela absorve o fato, por quanto tempo negará a frustração extrema. Penso que superamos a perda somente quando temos claramente uma perspectiva de vida. Ou quando a retomamos. Algo a ser planejado, visto, desejado, mesmo que somente para o dia seguinte, para o próximo final de semana.



A perda nos retira o desejo. Desejo de ver o outro e a si, de conviver, de cumprir as convenções sociais, de transgredí-las. Perder nos retira a referência, arranca certos pontos de apoio para acompanhar uma rotina. É necessário tempo para se erguer novos alicerces sentimentais, sociais, afetivos. Tempo sem cronômetro, sem hora marcada. Tempo que sabemos que passou apenas … quando passou.

Talvez aí esteja a maior questão. Os tempos atuais exigem velocidade em todos os níveis. Velocidade para deixar algo ou alguém para trás, mesmo que o assunto ainda não esteja solucionado ou digerido. A pressão se manifesta por meio da falsa necessidade – muitas vezes distorcida como desejo alheio – de parecer feliz, de aparentar um estado de auto-estima elevada.

Alguns teóricos do mundo contemporâneo chamam este comportamento de felicidade full-time. Ou seria a ilusória morte da melancolia? Isso significa que o sujeito não pode ter o tempo próprio da absorção, da transformação e da superação da perda.

Neste sentido, amigos, colegas, conhecidos em geral – diria involuntariamente – criam mecanismos, que viram cobranças, para que o sujeito supere a perda. Uma amiga minha, por exemplo, levou cinco meses para superar a morte do pai. Além da dor inerente ao fato, ela tinha que administrar a insistência e a agressividade de amigos e parentes que desejavam tirá-la de casa a qualquer custo. Um cinema ou uma mesa de bar, a revelia de quem sofre, servem para apagar a frustração extrema da morte?

O tempo próprio para entender uma perda é soberano. A tendência é que se criem instrumentos seus – e apenas seus – de entendimento do processo e sobre como ultrapassá-lo (aliás, fator que não surge no momento posterior à perda de alguém ou de si, como a personagem Alice).

Só que o tempo atual não é o tempo individual. É o tempo do coletivo circunstancial, em que as relações sociais esmagam, atropelam a vida individual – principalmente norteadas pelo mundo do trabalho (somos medidos pelas nossas profissões ou empregos). Pode parecer contraditório – e é – em uma época de prevalência do individualismo, da valorização do eu mesmo.

A contradição aparente se desnuda quando pensamos na perda. É neste momento que o individual indica a vontade de se fazer visível e reconhecido pelo coletivo. Este mesmo coletivo que nos garante segurança e posição social no cotidiano. Tenho a sensação de que o tempo individual – com a tendência de destoar da reação coletiva, sem conexão direta com a perda – ganha contornos de empecilho para os relacionamentos.

A tradução seria – de maneira involuntária – colocar o sujeito no rumo anterior, de busca pela felicidade, ignorando o tempo próprio de luto dele, de digestão do desfecho de uma história sem novos episódios.



Alice e Joan criaram, na ficção e no relato, formas próprias de superar derrotas e de criar estratégias de mudança. Cada qual a seu tempo, cada qual independente – mas com a colaboração dos que compreenderam. Ambas perceberam e me ensinaram que a perda é a hora da avaliação, o momento de se adaptar ao novo, trocando pouco a pouco a lamentação pela perspectiva de uma janela nova, com outros valores, outras contradições, outros sentimentos, outras pessoas.

Avaliar, nas entrelinhas dos dois livros, não é corrigir. Somente corrigir pode paralisar, pois não representa garantia de outra trajetória. Não assegura evolução. Não aponta o caminho correto, do livre arbítrio. Avaliar é entender. Compreender o que precisa ser deixado para trás – e lembrado eventualmente com afeto – e o que se desenha como investimento de uma nova rotina, de novos desejos e até de novas perdas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Irmãs sem fronteiras

O sol ainda não nasceu e é possível avistar duas sombras, em passos ritmados e determinados, a caminhar por um dos calçadões das praias de Santos. Andam lado a lado, conversam pouco, observam demais. São cinco quilômetros de passadas todos os dias. O que começou como recomendação médica transformou-se em prazer e programação matinal.

A convivência solidificou uma amizade iniciada pela religião, que envolveu duas pessoas de lugares diferentes, mas tão semelhantes. Fisicamente, parecem-se apenas na altura. Meros dois centímetros diferenciam as duas caminhantes. As feições denotam a separação étnica de dois continentes. Mas, se uma fala sobre a outra, parece congelada diante de um espelho.

A caminhada termina quando se inicia um novo exercício: a visita diária ao supermercado. Ambas adoram buscar ofertas. Vibram quando o preço da picanha cai, por exemplo. A lata de azeite a R$ 10 vale a fila enorme e a impaciência da caixa. Fazem festa quando verduras e legumes estão mais baratos, telefonam para as amigas, mas jamais fazem um grande estoque. Como ficaria o prazer de procurar novidades nas prateleiras todos os dias?

A relação entre ambas inclui também as aulas de tai-chi chuan duas vezes na semana. Vale mais a higiene mental do que a rivalidade histórica entre chineses e japoneses que talvez impedisse a prática da arte marcial. Deve ser coisa de quem se prende à História! Aliás, isso nem passou pela cabeça delas, pois mais brasileira do que a professora.

Uma ensinou a outra a costurar. A outra mostrou à primeira como fazer a receita de esfiha. Mas é fundamental salientar um ritual. A troca de receitas jamais envolve experimentar o que a amiga cozinha. Ou melhor: nas raríssimas ocasiões em que isso aconteceu, as críticas foram veladas; publicamente, elogios de parte a parte.

Maria Eugênia tem 61 anos, nasceu no Rio Grande do Norte. Migrou para Santos aos 20 e poucos. Trabalhou, casou, teve uma filha, tornou-se avó na cidade. Quer morrer por aqui. Os traços indicam uma típica brasileira, mestiça, que mistura expressões idiomáticas de várias regiões.

Mitio é cinco anos mais velha. Filha de japoneses imigrantes, casou-se, ficou viúva, teve dois filhos, trabalhou e se aposentou em Santos. Morou no Japão no início da década, naquelas viagens de excessivo trabalho para juntar dinheiro e retornar ao Brasil. Um dos filhos, atualmente, mora por lá. O outro, infelizmente, faleceu de rara doença há cinco anos. Ela também pretende ser sepultada na cidade que adotou para caminhar.

Mitio andou com a ideia de retornar à terra de seus pais. Eugênia contra-argumentava com a solidão de uma vida explorada pelo trabalho. Falava para o espelho? Ir ao Rio Grande do Norte? Apenas como visita, como ocorreu há quatro meses.

Felizmente, Mitio abandonou a idéia. De poucas palavras, sabe-se que desistiu de uma questão quando emudece ou desconversa discretamente.

Se não fosse pela aparência, os nomes poderiam ser trocados. Comportamentos e personalidades parecidas. Disciplinadas, teimosas e rigorosas moralmente, ambas são lembradas pela generosidade, pelo convívio terno com parentes e amigos. Valorizam os outros ao mesmo tempo que pouco contam de si, como a rotina delas fosse deveras desinteressante. Jamais pecam pela omissão, mesmo que escolher um lado resulte em críticas ou inimizades duradouras.

Confesso que admiro as duas pela rotina matinal, exceto pelo supermercado. Caminhar antes do sol nascer requer demasiada motivação. É assunto secundário.

Em tempos de relacionamentos líquidos, a amizade de Mitio e Maria Eugênia simboliza a interação entre culturas aparentemente distantes, mas que se complementam e funcionam por pontos de intersecção. Estes pontos, com o tempo, fundem-se e fazem com que a aparência e a origem geográfica não sejam apagadas, mas germinem uma terceira via, como a fusão de duas sombras – diariamente, às seis horas da manhã.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O palhaço transgressor

O Teatro Municipal de Santos estava lotado. Era noite de estréia, com presença do autor da peça. A ocasião se tornara mais importante porque o texto em questão, “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, havia sido proibido. A encenação fora proibida de estrear na cidade natal do autor, caso que ganhou espaço na grande imprensa.

Plinio Marcos sorria para todos, mas parecia cansado. Andava lentamente e reagiu de maneira serena à homenagem, antes da apresentação do espetáculo. Falou um pouco para a platéia, que o aplaudia a cada respiração mais longa do dramaturgo. O discurso era motivador, como se esperava dele. Plinio reforçava como os artistas deveriam ser questionadores, como o público deveria rejeitar fórmulas prontas.

Alguns palavrões no meio da fala acendiam parte da platéia, mas o tocante era a coerência na retórica, sem poupar os adversários, ainda mais àquela altura da vida, com 60 anos. Havia força nas palavras, como sempre, mas a agressividade nos gestos tornara-se pose comedida. Sentar e ver um espetáculo, um orgulho.

Foi a única vez que o vi. Havia me interessado pela obra dele anos antes, não me lembro exatamente o porquê. A crueza e a acidez eram as qualidades que permeavam os textos. Naquele período, respirava teatro e não perdia uma encenação de peças escritas por ele. Podia ser encenação profissional ou estudantil.

Além de ver aquele texto duro no palco, era a única maneira de adquirir os livros de Plínio. Ninguém os editava. Eram obras que não circulavam em livrarias e tampouco apareciam nas bibliotecas. Havia me transformado em leitor ávido de suas crônicas no Jornal da Orla, última publicação para quem escreveu, entrevistas e textos teatrais.



Dois anos depois, em novembro de 1999, Plinio Marcos faleceu em São Paulo, de falência múltipla dos órgãos. Tinha 64 anos. Cursava o segundo ano de História e, assim que ele faleceu, me lembrei do escritor Ruy Castro, que dizia: para uma boa biografia, o biografado deve estar morto. Castro se referia ao risco de manipulação da palavra e das fontes de informação. Era a oportunidade de me aproximar dele em forma de texto. Dois anos depois, escrevi um grande ensaio como Trabalho de Conclusão de Curso. Curiosamente, até hoje é o único estudo sobre ele naquela universidade.

Plinio Marcos, infelizmente, é um daqueles autores que tiveram que morrer para serem reconhecidos. É claro que sua obra sempre foi valorizada, mas estava presa à classe artística e aos intelectuais. As editoras só publicaram algumas de suas obras nesta década. A imprensa, salvo os jornalistas especializados, o tratava, em vida, como figura exótica do cenário cultural.

Em 2002, produzi – ao lado do colega Gustavo Zanarolli – uma reportagem especial sobre o dramaturgo. A matéria, exibida pela Rede Record, foi feita por Chrystianne Leite e mostrava que, naquele ano, seis peças diferentes dele eram encenadas ao mesmo tempo em São Paulo, fora as apresentações em outras quatro capitais. Eram mais encenações do que no auge da carreira do dramaturgo, antes de ser enterrado pela censura política.

Plinio Marcos foi um dos alvos preferidos da censura. Os diálogos fortes, os personagens marginais, os cenários degradantes expunham a desigualdade e a violência do meio urbano. Eram temas que derrubavam de nervoso qualquer quepe de milico. Dizia-se que o universo teatral de Plinio era um “atentado à moral e aos bons costumes”, clichê vomitado pelos retrógrados.

A venda de livros nas ruas foi o meio encontrado para sobreviver por não conseguir emprego. Plinio foi derrubado em todas as redações, desapareceu da TV, evaporou das salas teatrais.

Pior do que a postura governamental, previsível na estupidez, foi a censura moral. Muitos textos dele deixaram de ser encenados por causa da agressividade das relações entre os personagens. Os mais apressados e ignorantes queriam associá-lo a um mero escritor de palavrões.



O moralismo esteve presente na proibição da peça “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, em 1996. E não falo somente da história ocorrida em Santos. Vários veículos de imprensa, quando se referiam à peça, encurtavam o nome dela. Apontavam o dedo para a censura em Santos, mas escreviam somente “O Assassinato do Anão”. O palavrão como instrumento herege, que talvez chocasse os leitores.

Plinio Marcos foi comparado por críticos a Nelson Rodrigues. Enquanto o carioca expunha a hipocrisia da classe média, o autor santista esfregava na mesma classe média as contradições e sofrimentos da marginalidade. Plinio é um dos poucos autores que escreveu como viveu, na maior parte da vida. É possível estabelecer um paralelo entre as fases de sua biografia e os períodos como autor teatral.

Há o Plinio Marcos do Macuco, do Mercado de Santos, dos trabalhadores infelizes, da cafetinagem, das prostitutas e vigaristas em geral. Existe também o Plinio Marcos místico, transcendental, ligado às questões metafísicas, principalmente a partir dos anos 80. É o Plinio das cartas de tarô, cujas leituras pagaram muitas vezes a refeição de fim de noite.

A obra do dramaturgo também permite, pelas crônicas, identificar o relacionamento com o futebol. Ele tentou ser jogador, mas contribuiu muito mais com o Jabaquara (hoje na quarta divisão de São Paulo) quando desfilava com a camisa em programas de TV, por exemplo. Ou quando desfilava causos nas colunas semanais.

O Plinio do circo e dos trabalhos temporários (como camelô) se expõe nas peças. “O Assassinato do Anão do Caralho Grande” é uma homenagem satírica ao mundo que frequentou na adolescência, antes de ser descoberto por Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz como ator e autor.



A transgressão não é o motivo para torná-lo importante. Ele levou a sério o papel do artista em pensar e repensar – e criticar quando necessário – o mundo em que vivia. Ele sofreu por compreender a função do artista em ser questionador do poder, alguém que desconfia da hipocrisia de muitas convenções sociais.

Plinio Marcos não deixou herdeiros. Digo, herdeiros teatrais. Dez anos após a morte dele, falta quem remexa no mundo dos invisíveis. Falta quem leve a arte crua considerada lixo pelo poder ao universo cultural além dos guetos. Sem plásticos ou vernizes. É um trabalho difícil, numa época de liberdade política e amarras econômicas e morais, quando prevalece o politicamente correto. Alguém se arrisca, sabendo do preço que o próprio Plinio Marcos pagou por quatro décadas?

Como disse recentemente um editor da Playboy, as entrevistas da revista perderam fôlego porque ninguém mais diz o que pensa no meio cultural. Apenas um exemplo de como se teme perder (dinheiro, status etc) com a patrulha dos moralistas. Poucos tiram a máscara para pensar na estrutura que se realimenta. Para a patrulha, a vantagem está na polêmica vazia, veloz, natimorta em tempos de celebridades e vida privada como pública.

A sorte é que a obra se perpetua além da finitude do artista. È obrigatório manter os textos de Plinio Marcos em movimento, nas praças, telas e palcos. Significa mais do que uma homenagem ao palhaço transgressor. É colocar na vitrine as feridas de grupos sociais falsamente democráticos. Ser descontente com o mundo em volta, como se espera – pelo menos de vez em quando – de todo artista.

O muro e os filhotes

Os 20 anos da queda do Muro de Berlim provocaram – como é natural em datas comemorativas – o clima de balanço, com foco entre o capitalismo e o modelo comunista. As análises mais comuns, e apressadas, caíram no maniqueísmo digno dos tempos de Guerra Fria. O discurso da vitória do capitalismo (e consequente derrota do adversário) foi tão recorrente quanto falso, em detrimento de um olhar mais ponderado, que implicasse no contexto histórico correto, com a deterioração natural do mundo vermelho, a inclusão do processo globalizatório e da crise econômica contemporânea (fenômeno cíclico, é bom que se diga).




Independente do blábláblá geopolítico, a questão é que o muro não caiu. Não caiu como símbolo em si, que representa separação, exclusão. O muro não caiu como sintoma de intolerância, de esforço em se ratificar e salientar diferenças entre grupos, por razões múltiplas.

Erguer um muro é ato inerente de decisão de poder. Quem o ergue se interessa pelo outro à distância. Se é que o observa. O muro mantém seus construtores afastados do perigo que se julga iminente e reforça que o outro não merece estar nos mesmos círculos de relações. Aquele que levanta a barreira deixa transparente sua condição de superioridade, estabelece o julgamento moral (ou moralista) de que o vizinho não está à altura de pular ou ultrapassar o obstáculo construído.

O muro pode ter caído em Berlim, mas se multiplicou em diversos endereços. A primeira década do século XXI, como escreveu o falecido sociólogo Octavio Ianni, seria marcada – direta ou indiretamente – pelas diferenças de fundo étnico. Se combinarmos com religião ou economia, teremos o “milagre da multiplicação dos muros”.

A xenofobia se traduz pela parede entre Israel e Palestina ou pelo obra entre os Estados Unidos e o México (veja foto abaixo). As razões não são semelhantes, mas envolve o afastamento explícito do “inimigo”, sem possibilidades de conversa entre as partes. Eventualmente, sinais de fumaça servem como jogo-de-cena na fragilidade e na incoerência dos discursos dos líderes. A conversa acontece somente quando o dono do muro deseja que o vizinho o sirva.




O muro é mais nocivo quando mascarado de medida “sócio-educativa”, acoplado a uma proposta de melhoria na infra-estrutura. Vocês se lembram quando o governo do Rio de Janeiro aventou com a ideia de cercar por muros a Rocinha? A desculpa seria de caráter ambiental e parte da política de urbanização do bairro. Proteger quem? De quem? No mês seguinte, diante da imagem negativa, o Governo alterou a proposta para uma mureta de 60 centímetros.




O muro está em nós, principalmente quando passa a ser visto como natural. Como um elemento inerente à paisagem. Como algo necessário para compor o pacote de valores, com conforto, segurança e tranquilidade, palavrinhas recorrentes nos encartes publicitários das casas e prédios em condomínios fechados.

Em Santos, onde resido, um muro separa dois morros. Um deles abriga mansões. O outro morro é um dos bairros mais populares da cidade. O muro virou ponto natural da paisagem.

O muro nunca está sozinho. Ele vem acompanhando de grades, trancas e câmeras. Traz consigo sujeitos uniformizados, com feições sérias e leituras superficiais dos forasteiros, geralmente construídas a partir de rótulos, mesmo que ele seja a reprodução do que foi treinado para rejeitar. Ou barrar pelo muro.

A multiplicação do muro não pode ser explicada apenas pela segurança pública. O muro é símbolo do status, da ostentação, da diferenciação social pela conta bancária.

Quanto mais badulaques eletrônicos estiverem associados a um muro, maior a expectativa de desejo e curiosidade a respeito do que esconde atrás dele. È a lógica dos condomínios fechados. Ali, a ilusão do exclusivo e do individual se reforça com a barreira para o outro. A dificuldade de acesso valoriza o que há atrás da parede de tijolos ou concreto. Uma nova sociedade com vizinhos quase sempre desinteressados pelo morador ao lado, mas que se constitui pela similaridade de renda, de desejos de consumo e de um muro que os protege dos “diferentes”.

O muro nos domestica. Fortalece a imagem de separação, nos prepara para entender que nossos pares devem estar do nosso lado da parede. O muro restringe o diálogo, o interesse pelos valores, pelos comportamentos, pelos rituais de quem não consigo ver. O muro é capaz de cegar, de estigmatizar, de gerar a falsa visão de que somos o centro das atenções. Um exercício contínuo de egocentrismo coletivo, no qual prevalecem a auto-valorização excessiva e a ignorância por outras formas de relação.

No Brasil, o muro como reprodução do olhar repressor e de repulsa ao outro, ao diferente também é característica do local que deveria combater ou repensar tais posturas. As escolas parecem ter sido projetadas pelo mesmo arquiteto que desenhou presídios. São repletas de grades e trancas, que se combinam com as paredes cinzentas que as cercam. A conversa segue pela estrada da proteção: é necessário preservar os equipamentos públicos e as pessoas do mundo lá fora. Mas o mundo lá fora não é parte da escola?

É mais fácil segregar do que buscar o diálogo. Conversar com o outro significa ouvi-lo, tentar entendê-lo, rever posições e valores. Numa sociedade que se vangloria da exclusividade e reage com individualismo, sobrevive a cegueira e a surdez diante daquilo que não se parece comigo. Se há alguma chance de vê-lo ou escutá-lo, coloque uma parede no meio. A ignorância responde como o melhor remédio para se manter aonde está.

Os homens constróem muros desde a Idade Antiga. As razões para erguer uma parede mudaram ao longo da história. O que não se altera é a essência da obra: exercitar poder por meio de um símbolo visível a todos. Não importa o lado do sujeito.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O poeta ficou cego

O poeta pensa seriamente em desistir. A praia de Copacabana é um de seus lugares preferidos no Rio de Janeiro. É lá que toma sol, sente a chuva na cabeça, a brisa intermitente no rosto, o cheiro de maresia. Em Copacabana, o poeta pode conversar com moradores e turistas. Ouvi-los seria mais apropriado. Deixar-se fotografar como parte do cartão postal.

Na praia, o poeta se aproxima sem vergonha ou timidez de mulheres de todos os tipos e idiomas. Apenas para admirá-las. Sem pressa. Sem sair do lugar. O descanso eterno (ou bastante duradouro) é a garantia de um relacionamento rápido, sem exigências.
Ser alvo da violência no Rio de Janeiro o fez pensar. Não é a violência do crime organizado, com as balas perdidas e os corpos abandonados nas vias públicas. É um tipo diferente de violência direta e intransferível. Parece pessoal. Talvez um trauma que provocou a ideia de mudar de endereço. Uma reflexão hoje concreta, insistente. Quem sabe procurar outro lugar para descansar sem que seja atacado?

Carlos Drummond de Andrade já foi assaltado oito vezes, no mesmo lugar. E roubaram a mesma coisa. Em todas as ocasiões, deixaram-no cego. Os ladrões levaram seus óculos, um dos principais instrumentos de trabalho e de sobrevivência. Um poeta vive de ler, antes de pensar em escrever. A sensibilidade poética depende da clareza ao enxergar aquilo que poucos ou ninguém vê, mesmo diante dos olhos.

Da última vez, os sujeitos – além do empréstimo definitivo dos óculos – machucaram o braço direito de Drummond. Deixaram como saldo uma rachadura, sinal de tentaram amputar o braço do poeta.

O oitavo ataque contra a estátua de bronze de Carlos Drummond de Andrade aconteceu no último final de semana. Requer um conserto que só ficará pronto em 21 de dezembro.



Esta história me faz lembrar de outra estátua, a de João Otávio dos Santos, que fica em frente ao Escolástica Rosa, na praia da Aparecida, na cidade de Santos. Em 2005, não levaram os óculos de João. Até porque dizem que ele enxergava bem e não precisava gastar dinheiro com isso. Os vândalos optaram pelo pacote completo. Arrancaram a cabeça dele. O menino ao lado ficou sem uma das mãos. A restauração, concluída há quatro anos, custou R$ 5 mil.

Sempre me perguntei: o que alguém faria com a cabeça de João Otávio? Colocaria na mesa de centro da sala? Decoração na estante? Tentaria transformá-la em bola para quebrar o galho na praia ali ao lado? Talvez um jogo de beisebol, a cabeça como bola e a mão do garoto como luva?

Estátuas são, para muitos, manchas na paisagem. Poucos prestam atenção nelas. Uma raridade o indivíduo que para e lê os dizeres nas placas em anexo. Muitas delas representam sujeitos que não deveriam ser lembrados, quanto mais imortalizados em praça pública.

Só que a questão não é a preferência por este ou aquele indivíduo sisudo que geralmente nos olha com ar de superioridade. Será que estamos prontos para entender a concepção de patrimônio público? A impressão é que prevalecem dois pensamentos paradoxais em relação ao que seria de todos. E passa a ser de todos quando se paga a conta pelos reparos. O paradoxo vive na ideia de que uma estátua ou qualquer outro objeto público pertence a todos, mas não pertence a ninguém. Seria a autorização para me apropriar dela?

É evidente que muitas estátuas são homenagens bajulatórias para alguém que pouco fez por uma coletividade. Também o são nomes de ruas, de praças, de escolas, de salas em instituições e assim por diante. Normalmente, as homenagens vem das casas políticas, atendem a interesses mal explicados e rendem votos em certos currais eleitorais. Isso serve de justificativa para a destruição gratuita? Será que alguém, quando levou a cabeça ou os óculos de uma estátua, o fez em forma de protesto? Esqueceu-se de que a conta sempre volta para nós.

O bronze da estátua de Drummond pode render algum dinheiro, o que não invalida a questão de pertencimento. Penso, por exemplo, nas escolas. Por que elas parecem prisões? Para proteger-nos de quem está lá dentro? Ou para protegê-los de quem ficou aqui fora? São comuns as queixas de que as escolas estão em péssimas condições, muito por responsabilidade das frágeis políticas públicas. Mas não se pode isentar os envolvidos de certas ações destrutivas. E é mais fácil instalar correntes, muros e grades do que mudar uma mentalidade. O mínimo esforço acoplado ao gasto repetitivo.



A Prefeitura do Rio de Janeiro pagou pelo conserto dos óculos de Drummond seis vezes. Em cada uma delas, desembolsou R$ 3 mil. Desde agosto, a estátua passou aos cuidados de uma empresa privada, fabricante de lentes. A empresa pagará o próximo conserto, como também vai instalar uma câmera de segurança para monitorar o poeta.

O escritor se sentirá vigiado? Protegido? Turistas e moradores serão filmados ao lado de um dos maiores poetas brasileiros pelas razões erradas. A ironia além da sensibilidade do mineiro: uma câmera para vigiar alguém que nunca vai sair dali. Ato falho: para protegê-lo de nós.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O torcedor ideal



Raphael, estudante universitário de comunicação, entrou de camisa verde na sala de aula. Era o uniforme do Palmeiras. Um dos professores, palmeirense roxo, só notou a camisa ao final das atividades.

Ele se aproximou do aluno para comentar a vitória do clube no dia anterior. Ouviu como resposta:

- Sou são-paulino.

- O quê? Então, tire já este manto sagrado, brincou surpreso.

Raphael devolveu o sorriso como quem alcançou seu objetivo. E resolveu explicar a dúvida óbvia: por que um são-paulino vestia a camisa do Palmeiras? Promessa? Aposta perdida?

- Eu tenho camisas de vários clubes. E adoro vestir todas.

Raphael jura fidelidade ao time de coração, mas ama mais o futebol. E se diverte com as provocações entre os torcedores.

- Quando o Corinthians perde, saio na rua com a camisa do clube apenas para ver se as pessoas tiram sarro, comentam o jogo. Uma vez, apareci na TV porque jogava bola na praia com shorts do Corinthians, camisa do Santos e faixa na cabeça do São Paulo.

Sem saber, o estudante universitário seria a personificação daquelas campanhas, normalmente inócuas, organizadas pela paz nos estádios. Raphael ignora o teatro do fair play, promovido por entidades incapazes de cumprir a legislação, mas promíscuas nas relações com bárbaros que sobrevivem da intolerância.

O estudante entende, à maneira dele, que o futebol ultrapassa os limites do tribalismo selvagem. Ver um drible e gritar um gol são atos demasiado humanos para as facções que suam ódio e se armam para batalhas nos acessos às arenas esportivas (no sentido romano, faltando somente os leões).

Ele é o torcedor ideal, a lembrança poética de uma crônica rodriguiana. Vestir a camisa de outro time é o poeta que reage à tragédia. É a simplicidade única numa ação anônima. A resistência quase juvenil contra a mutação do esporte em cifrões. O torcedor que incorpora espiritualmente a idolatria por um jogo de broncos que – aos soluços de saudade - chamamos de arte.

Com cinismo, não vou publicar o sobrenome do torcedor para protegê-lo. A paixão pelo futebol pode cegar e transfigurar o mais pacato espectador de uma partida. Torcedor de futebol, quando ama, quer exclusividade. E não perdoa o que considera traição.
Raphael, obcecado pelo futebol como religião ecumênica, corre o risco de alcançar o que nem os juízes conseguem: a fúria de todas as torcidas, ao mesmo tempo.

A "puta", a escola e as imagens

Conversava com uma amiga sobre o caso da estudante de turismo da Uniban. Diante da selvageria dos estudantes e da omissão inicial da universidade, ela me disse: - Acho que chegamos ao fundo do poço.

Sem pensar, respondi: - Sempre pode ficar pior.

A história da aluna e seu micro-vestido, com contornos de dramaturgia, ganhou novos episódios – é óbvio – que indicam como uma sociedade autoritária e moralista lida com as questões públicas. Era uma novela que, se escrita por autores profissionais, colocaria uma carreira em risco. A do próprio autor, sob a acusação de excessiva fantasia.

Nas rodas de conversas, comecei ter a impressão de que a garota não importava mais. Ela havia virado uma imagem, personagem moldada conforme os argumentos (ou achismos) de quem falava.

O roteiro da estudante e do vestido dela se transformou numa sucessão de imagens, que podem ser vistas de vários ângulos. Podem, inclusive, ser recombinadas, reeditadas ao gosto do freguês. Somos tão escravos delas que nos esquecemos do ser humano que originou a história.

Pensando, por exemplo, no ângulo dos agressores. O que fazem autoritários e moralistas? Vendem, apontam e vomitam imagens que os demais devem atender para serem aceitos.

Não conheço um autoritário ou moralista que se veja desta forma. Um indivíduo que se encaixa nestes adjetivos constrói uma imagem superior diante dos outros. Aponta o dedo com o orgulho e a vaidade do conhecimento de causa. Ataca antes de ser atacado. E dita regras pelo fato de estar preocupado com a imagem que os outros farão dele. E esta imagem tem que refletir o próprio sujeito.

Uma imagem nunca é retrato fiel da realidade. Limita-se a ser recorte dela. É versão mal acabada de quem a captou. A imagem, sozinha, sofre de superficialidade, mal se sustenta em pé sem a interpretação, o contexto, a análise. Imagem não possui consistência sem pensamento, sem diálogo, nem que seja consigo mesmo. Mas sobrevive. E se perpetua como vazio.

O caso de Geisy Arruda transborda imagens. Frágeis como o debate raso que cerca o tema. Insossas como os argumentos das mulheres que rasgaram as conquistas feministas. São imagens que apontam para a crueldade de quem poda a diversidade, o diferente, o desejo próprio do feminino. Mulher como imagem de mercadoria, digna dos programas populares de TV. Jamais uma mulher que pode desejar ou ser desejada, no dicionário da moral e dos bons costumes. Não passamos esta fase?

A imagem, quando perversa, vira rótulo. Transforma-se no carimbo sem cartilha explicativa. Sacode a lógica. Ou melhor: inverte-a para que a vítima suba no banco dos réus e se explique para o júri. Ou o Conselho Universitário, que acendeu a fogueira para a bruxa!

A estudante recebeu um rótulo de presente: “puta”. Roupas que autorizavam o estupro e a execração pública. E assinados por uma instituição de ensino, pela responsabilidade educacional, como publicou em anúncio na grande imprensa. Alguém – como repetem mulheres “independentes” – que não se deu ao respeito. Por trás do discurso, o dedo aponta a “meretriz” que deveria ser punida.

A Uniban também pensou na própria imagem, só que duas vezes: quando expulsou a aluna e quando revogou a medida. A universidade agiu sob efeito dos holofotes da mídia, reprodutora e construtora de imagens. Alegou conduta moralmente inadequada, sem explicar o significado do termo.

Diante da ressonância negativa do caso, inclusive com reportagens na imprensa internacional, a universidade voltou atrás. Não deu maiores explicações. Apenas tentou salvar a própria imagem. Confirmou o retrato do ambiente escolar.

Qual é a imagem da escola? A escola, na prática, está longe de ser democrática, embora se agarre no manto da pluralidade e da diversidade. Retórica bonita do pedagoguês! A escola é, em linhas gerais, conduzida com autoritarismo dentro e fora da sala de aula. Equipes pedagógicas que mal escutam professores, que ignoram os desejos dos alunos. Políticas públicas unilaterais que engolem a todos. As regras do jogo sempre caem no colo – ou na cabeça – de quem está embaixo. E cumpra-se!!!

O problema não é exclusivo dela. A escola está inserida de um modelo social, impregnado por preconceitos múltiplos. Vivemos sob a busca do padrão, a valorização dos iguais. Para os demais, a exclusão, velada em palavras doces ou na ponta de um cassetete.

A Uniban fez o que muitas instituições fariam. Isso não a exime de responsabilidade. Somente indica que a instituição tenta sobreviver e apagar a imagem de intolerância. E vai sobreviver, com a benção de um Ministério que lambe a própria imagem de fiscalizador.

Os autoritários e moralistas se escondem em seus próprios espelhos. Escondem-se na multidão, certos de que a imagem de comuns passará ilesa. A camuflagem permite que transitem em silêncio. Nas sombras, riscam o fósforo da fogueira que incinera o opositor. Falam baixo e fogem da luz. São covardes. Sofrem de pavor paralisante!! Autoritários temem que a imagem de correção se dilua em um choque público.

Recentemente, em sala de aula, discutíamos mídia. Em um determinado momento, o diálogo caminhou para o tratamento que prostitutas recebiam em certos programas de TV. Eu disse que muitos apresentadores – e suas macacas de auditório - não as tratavam como seres humanos. Ouvi, em seguida, uma frase, em tom quase inaudível, que poderia passar por envergonhado.

- E elas são?

O autor da pergunta olha para o chão e se fecha em silêncio. Quase uma imagem sacra de quem nada fez!