segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Qual é a minha verdade?


Júnior Landim

Certa vez, no momento de fechar a loja num dia de aula particular de minha esposa, esqueci na mureta lateral, do lado de fora, uma lasanha bolonhesa artesanal (congelada) e um saco com alguns pães. A lasanha seria meu jantar e os pães, o café da manhã da minha família.

Naquela agitação de fechar as portas o mais rápido possível para a professora chegar no horário e lecionar para o aluno que mora em outra cidade, a refeição foi banida da minha memória em questão de minutos. Só daria conta uma hora mais tarde, quando já estava em casa e a lasanha surgiu no meu pensamento com sabor e aroma.

Pensei: "Já era! Alguém se deu bem hoje: lasanha artesanal e pão para chuchar no molho natural. Dormir e sonhar com a lasanha foi o que me restou naquela noite.

Dia seguinte, rotina. Acordar, preparar para sairmos, esposa lecionar, filho estudar e eu abrir a loja para mais um dia de muito trabalho. Por volta das 9 horas, estou levantando a segunda porta quando surge atrás de mim uma voz: "Acho que isso te pertence!"

Viro por instinto e me deparo com um senhor baixinho, cabelos brancos e um rosto marcado pela passagem do tempo. Mais de 70 anos, com certeza. Eu respondo:

"Bom dia, pode entrar!"

"Essa lasanha e esses pães são seus?"

Minha mente tirou a lasanha e os pães do esquecimento. Meus olhos vazaram e fiz com a cabeça que sim.

Seu Nelson, com muita simplicidade, se aproximou, me entregou as sacolas e disse:

"Guardei a lasanha no congelador. Pode comer que está boa."

Virou-se e não deu tempo de lhe oferecer um café. Partiu firme em passos curtos. Que profunda verdade naquele homem idoso, de chinelos de dedo e roupas surradas. Verdade de Cavaleiro Medieval, em armadura de Honra e Glória. Fazer o que é certo, e não o que é fácil.

Que sensação boa a de ter contato com essa essência tão pura, tão nobre. Com essa verdade!

No final do dia, sentei-me à mesa para, enfim, degustar a lasanha e refletir sobre o contato com o Seu Nelson. Um Cavaleiro Medieval, disfarçado de vovô de cidade do interior que me permitiu mergulhar numa reflexão profunda sobre:

Qual é a minha verdade?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Como ser um mano?


Júnior Landim

De onde venho, a palavra mano nos é apresentada ainda muito crianças. Ela aparece em situações como: "Ajude seu mano caçula a amarrar os sapatos. Frase dita por nossa mãe ou avó.

Com o passar dos anos, a palavra continua a aparecer com frequência, agora em situações onde o sangue não é o laço mais forte. Amigos da escola, da rua, mas um amigo próximo, querido do peito. Às vezes, chamado até de primo.

A gíria demonstra que aquele amigo é de fato da família. Hoje, a palavra mano foi absorvida em gíria urbana, está em trechos de Rap, literalmente na boca da moçada. É moderna. Mano, sinônimo de irmão.

Um belo dia, percebo dentro da palavra Humano o mesmo mano de tantas outras ocasiões. Aquilo me atordoa. Irmão, humano, mano, tudo junto e girando na minha cachola. Então, chego à conclusão que, lá atrás, quando aprendi o significado da palavra mano, ainda não tinha a maturidade para entender que a lição a se aprender era a de como Ser Humano.

Ser Humano no respeito e amor ao próximo. Ser Humano em zelar pelo bem estar daqueles que o cercam. E percebo como está cada vez mais raro estarmos com esse Ser Humano. O que me resta é perguntar:

"Mano, como ser humano?"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Escalando o Everest por empréstimo


Marcus Vinicius Batista

Passava o dia com Mariana, um bebê de seis meses, na sala do retiro, em Nazaré Paulista. À noite, dormíamos no Instituto Ipê, do outro lado da estrada de terra. Quando ela descansava durante a tarde, eu aproveitava para arrumar alguma distração, ali mesmo pela casa principal.

Os colegas só se encontravam para as refeições, numa cozinha comunitária, vegetariana, onde me acabei de comer carne de soja. Mais tarde, depois das 22 horas, professores de Educação Física contrabandeavam guaraná sem gelo para suprir as carências da cidade grande.

Descobri a biblioteca no andar de cima, uma espécie de marquise, durante um dos cochilos da Mari. Passei pelas estantes e achei uma preciosidade: “No ar rarefeito”, escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer.

Ele é um dos melhores repórteres da atualidade. Preciso, meticuloso, preocupado com o humano em suas narrativas. Krakauer é autor de “Na Natureza Selvagem”, que virou filme sob a direção de Sean Penn e concorreu a dois Oscars. No ano passado, ele publicou “Missoula”, nome de uma cidade nos Estados Unidos que simboliza a cultura do estupro e sua impunidade.

Comecei a ler “No ar rarefeito” na mesma hora. Aproveitava todos os sonos da Mari para devorar a história da expedição ao Everest, que resultou em 12 mortes, no caminho de volta, após alcançar o topo. Krakauer é um jornalista especializado em montanhismo, escreve para publicações como a revista Go Outside e, (in)felizmente), estava na expedição, contratado para escrever sobre a mercantilização das escaladas. O livro dele se tornou um clássico da literatura de aventura.

Por isso, o repórter pôde contar, com riqueza de detalhes, as disputas, as fragilidades, as fraquezas, a generosidade, a solidariedade e os medos dos alpinistas, todos vítimas – fatais ou não – de uma tempestade.

No domingo, a visita acabou e eu não tinha terminado o livro. O que deveria fazer? Devolver “No ar rarefeito” à biblioteca comunitária, administrada por todos, sem funcionários e viva pela confiança de seus frequentadores? Poderia levar o livro pra casa? Como devolver depois, se nunca mais voltaria à Nazaré Paulista, o que de fato aconteceu? Ou esperar para comprar a obra em Santos, com o risco de não encontrá-la? Essa história faz 14 anos, e não havia o hábito ou a estrutura para compras pela Internet.

Tentei localizar um responsável pela biblioteca, mas o espaço pertencia a todos, foi a explicação que ouvi. Não tinha com quem justificar o arrendamento literário. Escolhi o silêncio e tomei uma decisão.

Entre a curiosidade sobre o restante da história e o empréstimo sem autorização, entre o amor aos livros e a irritação de quem soube do sumiço, entre a promessa de achar um jeito de devolvê-lo e a acusação de furto, preferi levar o livro comigo. Coloquei na mala e, no dia seguinte, retomei a leitura sem remorso, culpa ou dúvida.

A reportagem de Krakauer é brilhante. Não me arrependo. Conclui a leitura em mais dois dias. Fui ao Gonzaga para tirar a prova de consciência. Nenhuma das três livrarias tinha o livro no estoque. Uma encomenda poderia levar mais um mês.

Resolvi devolver o livro pelo Correio. Colocá-lo numa caixa e despachá-lo seria impessoal, grosseiro, contrário aos princípios de igualdade e respeito pregados pelo retiro em Nazaré Paulista. Tinha certeza de que não perceberam o sequestro, mas ficaria com a consciência pesada. Sempre cuidei muito bem dos livros emprestados, assim como reclamo de quem desaparece com obras minhas.

Escrevi uma carta para o pessoal do retiro. Não sabia a quem endereçar, mas procurava explicar a situação. Agradeci pelo empréstimo, disse que me senti acolhido naquele final de semana, pedi desculpas pela falta de aviso prévio e descrevi, sem delongas, minhas impressões sobre o livro, que recomendava com veemência.

Dobrei a carta, envelopei e coloquei dentro da caixa de Sedex. Mandei o pacote para o retiro e esperei. Recebi o aviso de envio e esperei. Confirmei a entrega e esperei. Esperei.

Sempre tive curiosidade de saber se “No ar rarefeito” escalou a serra e as estantes do retiro, em Nazaré Paulista. Assim como eles nunca me responderam, eu nunca voltei lá.

Ao ler os novos livros do Krakauer ou reler “Na Natureza Selvagem”, penso na devolução pelo Correio. Outro dia, vi um exemplar numa livraria do Gonzaga. Deu vontade de comprá-lo.

Em tempo: ganhei de minha mulher, Beth, o livro de presente, na antevéspera do Dia dos Pais. A releitura, desta vez, durou uma semana.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Uma crônica para o século XXI


"Podemos estar errados, o interlocutor pode estar tão errado quanto nós, mas, de qualquer forma, o fato de supor que o interlocutor tem razão é um bom prelúdio para o diálogo". (Jorge Luis Borges)

Alessandro Atanes


Em suas entrevistas para a Rádio Municipal de Buenos Aires nos anos 80, Jorge Luis Borges creditava o valor do diálogo à presunção de que o outro possa ter razão. Tempos de gritaria como os de hoje só mostram o quanto estamos afastados desta prática tão antiga da humanidade.

Essa dificuldade para o diálogo foi assumida no título do livro do jornalista, historiador e professor universitário Marcus Vinicius Batista “Quando os mudos conversam” (Realejo Edições), lançado em fevereiro. Quem são esses mudos do título? O próprio livro responde nos títulos das três seções em que estão organizadas as crônicas: EU, TU e ELES. Se há NÓS, o pronome que reúne a todos, ele surge mais como uma esperança do que uma realidade. Essa busca por NÓS – que reconhece a importância do diálogo – é que conduz a obra.

A primeira seção, EU, reúne experiências pessoais do autor: um velório, uma viagem de trem, testemunhos de cenas cotidianas, e parece ter um duplo sentido: de um lado, é o espaço da crônica canônica. Sem comparar as qualidades deste ou daquele texto de Marcus Vinícius Batista com os mestres brasileiros da crônica do século passado, ele se põe aqui como herdeiro dessa tradição literária brasileira marcada pela atuação de escritores no Jornalismo, cuja principal referência talvez seja a “Flor de maio”, de Rubem Braga, a crônica das crônicas.

Mas o que teria ainda a dizer esse gênero típico do século XX, ligado à experiência individual do escritor frente ao mundo, quando, na pós-modernidade do século XXI, tudo é experiência individual, quando qualquer um pode dizer o que quiser e todos os discursos se equivalem, que tudo é relativo?

Aí surge o outro aspecto do duplo sentido, ao nomear de “EU” essa primeira parte, o autor também limita este mesmo “EU”. Intuitiva ou reflexiva – tal divisão não mais importa –, essa limitação do “EU” libera o autor para sair de si mesmo e, a partir da segunda parte, TU, buscar refletir sobre a experiência do outro mais do que expressar a experiência individual. Ainda estamos próximos à crônica canônica, mas já em outro registro, a serviço da reflexão sobre a sociedade.

Mas esse TU não é apenas a pessoa com quem se fala na língua portuguesa, é uma marca local da fala santista (sem esquecer que de outros lugares também, pois não devemos alimentar o bairrismo): aqui fala-se “tu vai”, “tu viu”. Então, além de ser um direcionamento ao outro, a 2ª pessoa do singular, esse “TU” da segunda seção é também um indício geográfico, uma pista do território que passa a ser tratado nas crônicas, como explica o próprio autor na apresentação do livro: “A segunda parte, intitulada Tu, envolve personagens da minha cidade e de outras regiões. Personagens, leiam-se, gente e lugares, todos eles com alguma afetividade, seja por memória, seja por atualidade”.

E o afeto pelas coisas da cidade não significa exatamente um olhar doce, pelo contrário. Crônica após crônica, Marcus Vinicius Batista vai apontando mazelas próprias da cidade e as articula com as mazelas próprias dos tempos atuais como a especulação imobiliária e o trânsito infernal.

A cidade engarrafada no tráfego é tema da crônica “O filho do trânsito”, sobre um amigo motorista: “Os Homo trafegus não dirigem apenas táxis. Seria uma injustiça generalizar o olhar particular. Estes espécimes conduzem ônibus em jornadas semiescravas de trabalho. Pilotam motocicletas castigadas com entregas multiplicadas pelo tempo curto. Arrotam status quando passeiam com seus carrões de novos ricos nas portas das escolas. Um ecossistema rico em diversidade e perversidade, pronto para estudos científicos”.

Em “A rua que divide o tempo”, as transformações promovidas pelo avanço imobiliário sobre o território da cidade são vistas a partir da perspectiva de uma pequena rua da Ponta da Praia, a Francisco Hayden, que separa dois terrenos vinculados a clubes históricos da cidade: de um lado, o terreno vazio onde um dia esteve o Clube de Regatas Santista, demolido recentemente; do outro, o Clube Internacional de Regatas, com muros de tijolos vermelhos, ainda em pé.

“… O grupo que abriu a porteira para a boiada de concreto e ferro tem na rua Francisco Heyden um cartão postal macabro que escancara o estrago, fruto da ansiedade por progresso. Do outro lado, o gigante vermelho deve se preparar para a própria pequenez. Para a luz que será trocada por uma parede de dezenas de andares. Para entender que o morador de hoje é um sujeito com outras formas de lazer em mente. Sujeito que pode desejar o velho clube Internacional, mas que flerta com outros espaços fechados, com vitrines, praças de alimentação e outros atrativos à base de cifrões.”

Em “Os escombros da Pompéia”, o cronista trata da demolição sintomática dos prédios das faculdades de Comunicação e de Filosofia, Ciências e Letras na Rua Euclides da Cunha, cujo território muda de função de local de produção de conhecimento para moradia de alta renda:

“Os prédios morreram pelas mãos do crescimento imobiliário paranoico. Tornaram-se peças descartáveis. No lugar, serão três torres, de 42 andares. Os edifícios, um dia imponentes, eram apenas formigas diante dos elefantes que se aproximam. O passado enterrado deu vez à ilusão dos que se julgam mais próximos do céu.”

Ex-aluno e também professor da Universidade Católica de Santos, o autor não esconde a tristeza pessoal, mas, além dela, busca traçar a perda coletiva: “Parte da história da Pompéia são escombros, prestes a encher as caçambas de caminhões. As experiências são entulhos de um passado que merecia melhor valor. A nova história, por enquanto, é reescrita pelas máquinas pesadas, nascidas para desconstruir, borrachas que eliminam símbolos da cultura local, gravados nas paredes que abrigaram milhares de estudantes, visitantes e funcionários”.

“Escombros” e “entulhos do passado” apontam para uma cidade de ruínas geridas pela especulação imobiliária, cuja sanha transformadora atinge até mesmo um pequeno farol a dezenas de metros da praia na altura do Canal 6, já sem valor de navegação, mas ponto de mergulho de centenas de crianças e jovens ao longo das últimas décadas. E acabou derrubado mesmo sem que nada possa ser construído em seu lugar: “O farol tem destino traçado, o da insignificância coletiva, o da ausência de vontade política de quem administra dinheiro público”, escreveu antes da demolição programada.

Sem comparar os talentos do autor e de um clássico como Rubem Braga, tomo “A morte do farol” como a “Flor de maio” do livro. Nela, a voz individual e a voz coletiva (EU, TU e ELES) imbricam-se em torno de uma pequena construção, quase insignificante, metáfora para as ruínas de toda a cidade.

Reflexo do impacto das transformações urbanas na vida de todos, o tema da especulação avança da seção TU, voltada para Santos, e se instala também na seção ELES, em que descreve uma visita a uma destas torres-godzila que vêm sendo construídas pela cidade:

“O edifício era uma fortaleza. Para alcançar o elevador, três portões e a identificação junto a dois funcionários. Imaginei que, em instantes, pediriam carteira de identidade, CPF e comprovante de residência. O nome das torres misturava idiomas, mezzo francês, mezzo inglês. […] O apartamento segue a tendência: possui limite de capacidade humana, como os elevadores. De tão pequeno, o apartamento lota com meia dúzia de testemunhas. Mas o dono garante que a piscina e a pista de skate foram atrações que pesaram na compra. A piscina permanece como sonho de consumo. Por enquanto, só água quente de chuveiro. E o filho, este não é fã de esportes radicais.”

O tom e o texto

Esses textos fazem parte de um projeto (ou de uma esperança) de valorização da escrita jornalística no qual o exercício da crônica exerce uma resistência contra a pausterização do texto. Encontramos por todo o livro sentenças – como os trechos acima que tratam da pequena rua, das torres em construção ou dos escombros – que provavelmente não leríamos nas páginas de notícias, conformadas em textos concisos, telegráficos e escritos com o intuito de hierarquizar os assuntos de maneira que qualquer parágrafo possa ser descartado para que o texto caiba no espaço que restou na página após a aprovação do anúncio.

Essa aposta do autor no jornalismo com texto de qualidade chega a seus melhores momentos quando é estimulada pela revolta do autor contra a naturalidade com que são tomadas as ações mais abjetas contra as pessoas, sintomas de uma sociedade “doente”, com “instituições apodrecidas”. O bom texto a serviço da revolta e da indignação, como em “A Rosa sem nome”, da seção “ELES”, sobre uma adolescente presa há alguns anos pelo Poder Judiciário do Pará em uma cela junto com homens:

“A garota, fragilizada fisicamente, deteriorada na própria autoestima, caiu na teia do processo inquisitório. Julgamento foi peça ficcional. A punição foi rápída e, certamente, com danos definitivos para a ré-vítima.

No entanto, a menina de corpo franzino, marginal e miserável não foi ‘curada’ de seus males na fogueira acesa antes do amanhecer. Seu destino foi uma cela de prisão, dividida com 20 homens por 24 dias. As labaredas não eram extintas assim que o corpo se queimava. As chamas se realimentavam a cada refeição, ressuscitavam a cada violência contra um corpo feminino que insistia em permanecer incomodando o sistema medieval.

[…]

Como no universo totalitário, as autoridades jamais têm ou podem assumir responsabilidades. A culpa é da adolescente de 15 anos, pecadora por ser menor, transgressora por ter retardamento mental, segundo o ex-delegado-geral do Pará. A responsabilidade dela se eleva se considerarmos que a adolescente provocava sexualmente os presos, conforme a constatação da corregedora da Polícia Civil do Pará, Liane Paulino, afastada da investigação por essa ‘conclusão civilizada’.”

Ao final do texto, uma nota em itálico informa sobre o destino das investigações durante o intervalo entre a crônica original e sua publicação em livro, o que faz indagar se não seria mais proveitoso que houvesse a data original de cada crônica ao fim de cada uma, não apenas como utilidade, porém como mais um estímulo (a lembrança de uma data) para o leitor entrar na conversa.

Marcus Vinicius Batista não está sozinho nessa empreitada de valorização do texto jornalístico, como mostram sites como o Jornalirismo e a própria multiplicação de cronistas na grande imprensa, sites e blogs. A grande questão é: esses espaços ficarão como ilhas em meio a notícias sem graça e sem vigor como os tópicos de uma apresentação de power point ou terão força para levar o bom texto de volta para o noticiário?

Minha desilusão com a atividade jornalística me faz pender para o primeiro cenário; minha leitura de “Quando os mudos conversam” me faz ter um fundinho de esperança no segundo.

Referências

BATISTA, Marcus Vinicius. Quando os mudos conversam. Santos: Realejo Livros, 2015.

BORGES, Jorge Luiz. Sobre a filosofia e outros diálogos. Organização e tradução: John O’Kuinghttons. São Paulo: Hedra, 2009.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Há braços!



Júnior Landim

É difícil traduzir para o papel o significado de um abraço. Acredito ser um gesto tão antigo quanto sorrir ou chorar. É a intenção mais pura de dizer ao outro o quanto gostamos dele ou o quanto sentimos sua falta ou iremos sentir.

Em vários momentos da vida, tudo o que precisamos ou queremos é um demorado abraço. Mas nem sempre nos permitimos pedi-lo. O ato, se avaliado com razão e frieza, é um tanto estranho. Dois corpos que se encontram e se apertam por alguns segundos.

Funciona para tudo e com todos. Crianças com crianças. Adultos com crianças. Adultos com adultos. Homens com homens e mulheres com mulheres. É universal!

Abraço. Acontece com braços e o ponto alto é o coração com coração. Troca de energia ou reposição dela. Abraço, talvez um derivado de cuidar, bem querência.

Abraço, Para acontecer, precisa do fator mais importante, gente, ou não existe. Abraço, talvez a melhor maneira de dizer "eu te amo", em silêncio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A senhora pede respeito

Museu de Pesca, em Santos. Foto: Juicy Santos

Marcus Vinicius Batista

A senhora não passou da idade. É esbelta, bem conservada, pra frentex, como dizia minha avó. Com a experiência e a maturidade, ela parou de reclamar de qualquer coisa. Mas também não fica calada para que abusem da sua biografia. Ela tem suas manias provincianas, contradições em quem viveu sempre na fronteira entre o ar de cidade pequena e o mundo cosmopolita da capital.

A senhora Santos anda preocupada com o futuro. É um passo enorme, olhar para frente, sem se agarrar no saudosismo de quem poderia ter sido ou do que viu, em dimensões menores, pelo retrovisor. A preocupação - e ela se aborrece - renasce de tempos em tempos, fruto dos falsos profetas que tentam iludi-la com promessas de enriquecimento rápido, de glamour internacional.

A senhora, depois de uma certa fase da vida, cristalizou a ideia de que andar para frente significa caminhar em ritmo próprio, sem saltos megalomaníacos que não a tiram do lugar ou a derrubam no chão, com risco de fratura exposta. Ela não é mais criança para ignorar a noção do perigo.

Santos já ouviu os aventureiros que juravam vislumbrar o turismo de negócios como a salvação da maré. Depois, conheceu os gurus do desenvolvimento sustentável, vestidos de cinza, com sorriso verde, e palavras da moda que se anulam a cada livro de autoajuda.

Com paciência, a senhora teve contato com os astronautas do pré-sal, que prometiam oceanos de óleo negro e, como Midas, asseguravam que a cidade seria pintada de ouro.

A idade a obrigou a colocar os pés no chão. Caso contrário, queda e beijo no solo. O equilíbrio não é daqueles tempos. Lúcida, ela pede por sanidade. Dos outros. Dos meninos que resolveram prometer Barcelona antes de outubro.

Santos confidenciou que teme pelo dia de amanhã. Se ficar doente, não pode ir ao hospital. Ela pode ser barrada por uma porta fechada e salas ocas. Sentiu-se envergonhada em ver a inauguração dos Estivadores, que não tem condições de beneficiar as pessoas.

A senhora também se preocupa em sair de casa. Uma confusão no transporte coletivo. VLT a passos de tartaruga. Ônibus caro demais. Motoristas legais e ilegais que brigam por passageiros, exaustos por pagar muito e ter tão pouco. Andar a pé? O fôlego ficou preso nas fotos amareladas do álbum de família.

Quando pensa em sua história, aquele comportamento comum de quem faz aniversário, ela se encolhe com o que os homens de gravata fazem com partes de sua trajetória. A senhora, ao avaliar o passado recente, chora pela Cadeia Velha, que prendeu gente politizada e hoje deseja os políticos fora dela.

Quando se ultrapassa a barreira dos quatrocentões, aniversários deixam de ser exercícios de ufanismo, de bajulação da beleza. Aniversários, para uma senhora como Santos, mostram também as rugas, as cicatrizes, as marcas da travessia pela vida. Identidade também.

É o "parabéns" pelo ontem, o "obrigado" pelo hoje, o "cuidado comigo, por favor", para amanhã.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sexo combina com solidão




Marcus Vinicius Batista


Acabei de ler Parafilias (Editora Record), primeiro livro do contista Alexandre Marques Rodrigues. Eu o conheci há cerca de um mês, quando pudemos conversar dentro da Tarrafa Literária, festival anual que acontece em Santos, cidade onde ambos moramos.

O livro de estreia cobriu Alexandre de responsabilidades como escritor. A publicação da obra é o resultado do Prêmio Sesc de Literatura, em 2014, concurso nacional voltado para autores estreantes. Depois do lançamento, Parafilias se tornou finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Oceanos (antigo Portugal Telecom).

A vida mudou, ao menos na literatura, para Alexandre. Ele ainda demonstra dificuldades em se adaptar ao mundo literário contemporâneo, marcado por sucessivos festivais, conversas semanais com leitores para quem entra no circuito, viagens e entrevistas.

Alexandre é tímido, fala baixo, pensa com cuidado nas respostas e reafirma que não possui carisma ou interesse sólido nas tertúlias da comunidade literária. É como se perguntasse: o que estou fazendo aqui? Vocês têm certeza?

Alexandre é um operário do texto, que compreende com clareza o ofício de escritor. Não há glamour, há trabalho e dedicação. Ele é formado em Psicologia, mas exerceu a profissão por poucos anos. Preferiu a segurança de um concurso público e se tornou bancário. Acorda diariamente às 6 horas para escrever. Trabalha no apartamento onde mora com a esposa, no bairro do Embaré. Lapida um texto à exaustão, até se sentir satisfeito.

Alexandre é sinônimo de discrição. Até a publicação de Parafilias, quase nenhum colega de trabalho sabia que ele era escritor. Chefes só o “descobriram” por conta dos pedidos de folgas para viagens, consequência de ter vencido o Prêmio Sesc de Literatura.

Parafilias trouxe uma segunda surpresa. Alexandre Marques Rodrigues passou a ser classificado como um autor de literatura erótica. Muitos dos convites são para falar sobre livros e sexo. Não há tema para deixá-lo mais envergonhado, tema para que ele reforce a ideia de que “é sem graça”. Mentira dele! Alexandre apenas é avesso ao mundo da eterna felicidade aparente que permeia – de vez em quase sempre – o mundo da literatura. Aquele mundo onde escritores escrevem para escritores e celebram os livros pelas vendas, e não pelos leitores.

A palavra Parafilias significa perversões, desvios sexuais. É um livro com 24 contos, todos eles com sexo como pano de fundo. No entanto, engana-se quem aposta que uma literatura que desfila posições sexuais ou que busca agradar mamães comportadas em 50 tons.

A obra dele é, categoricamente, sobre solidão. Defesa irredutível do próprio autor. Concordo, sem petulância. Sexo, neste caso, é dissociado de amor, e os personagens procuram, paliativamente, curar com parceiros sexuais suas próprias lacunas. O sexo, nos contos, preenche tempo, solidifica máscaras, esconde o vazio de um cotidiano fútil e – aí sim – sem graça.

A escolha de Alexandre me pareceu consistente ao esquadrinhar, com sutileza, pequenas e profundas histórias sobre indivíduos que se sentem deslocados no mundo, enquanto confundem muitas vezes relacionamento sexual com a concretude de um sentimento. É um olhar coerente com a atualidade, onde se fala de sexo como se come um sanduíche na padaria. Onde se mistura, do estelionato à ilusão, quantidade, qualidade e prática.

Outro engano é achar que, embora o livro seja sobre a solidão humana, Alexandre alivia no tom erótico da narrativa. Ele domina a linguagem literária. Sabe escrever sobre sexo, sem ser vulgar. Sabe camuflar o que é necessário, escapa da pieguice e consegue criar o ambiente onde os personagens ficarão nus, literal e simbolicamente. Isso acontece no conto Seios, em que órgãos sexuais masculinos e femininos se confundem na opção sexual de duas amantes.

Alexandre também aproveita para inserir o próprio ofício de escritor e a literatura em alguns dos contos. Em Livros, por exemplo, uma mulher procura excitação com o amante por meio dos livros da biblioteca do marido. Em Palavras, um escritor em bloqueio criativo sofre com um relacionamento sem amor.

Alexandre Marques Rodrigues é, num primeiro encontro, um sujeito discreto, que facilmente se misturaria à plateia. Mas sua imaginação o contradiz, ao expor com sabedoria o quanto público e privado são bem diferentes. Ao menos, na literatura.