terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Malucos-beleza


O elenco de "A Terra pode ser chamada de chão"
Foto: Rafaella Martinez

O texto abaixo foi escrito, em 2014. Optei por republicar na íntegra, sem alterações. 

++++++++

O projeto Tam Tam completa 25 anos, com estreia de peça, reativação de programa de rádio e trabalhos com dança e literatura. Um quarto de século para um projeto que começou na extinta Casa de Saúde Anchieta, um manicômio conhecido como Casa dos Horrores. Este é o sexto e último texto da série sobre o projeto.


Marcus Vinicius Batista


O Teatro do Sesc, em Santos, estava lotado. Cerca de 800 pessoas, de políticos a jornalistas, de familiares a simpatizantes, assistiram à estreia da peça “A Terra pode ser chamada de chão.” Era o primeiro capítulo de uma série de eventos que comemoram 25 anos do projeto Tam Tam, trabalho que nasceu nos corredores da extinta Casa de Saúde Anchieta, o famoso manicômio do litoral de São Paulo, pelas mãos do arte-educador Renato di Renzo.

Durante uma hora, o palco foi preenchido por cerca de 60 atores e atrizes, entre pessoas ditas normais e deficientes das mais variadas origens. Depois de seis meses entre concepção da peça e ensaios, todos se misturavam para denunciar os problemas sociais e ambientais que nos envolvem no mundo contemporâneo.

Di Renzo nunca dirigiu tanta gente ao mesmo tempo, assim como o projeto Tam Tam jamais havia recebido tantos recursos para colocar um espetáculo em cartaz. Foram R$ 60 mil por meio da Secretaria do Estado da Cultura. A peça será reapresentada, em 16 de julho, no mesmo teatro.

O casamento de Renato com a arte começou na década de 60. Na família di Renzo, é famosa a história de que, quando tinha três anos, Renato se recusou a vestir uma roupa de festa junina porque a calça era formada de retalhos.

A relação com a saúde mental veio por meio de uma profecia. Ainda criança, ele morava na Vila Belmiro e brincava perto da Casa de Saúde Anchieta, quando ouviu de um dos colegas: “se você continuar desse jeito, vai acabar aí dentro.”

A profecia levaria cerca de 25 anos para se concretizar. Antes, Renato teve que sair da cidade. Em 1969, ele se mudou para São Paulo a fim de estudar artes. Primeiro, se matriculou no extinto Instituto de Artes e Decoração (IAD). Teve de aulas com Naum Alves de Souza e com o arquiteto Ruy Othake, entre outros craques da área cultural.

Depois, Renato se formou em Artes Plásticas, na Faap. Durante o curso, ele se aproximou da discussão em torno das políticas de saúde mental, período em que brotava uma visão antimanicomial e que predominavam os manicômios como depósitos de gente. Pessoas eram internadas por doenças mentais, mas também por alcoolismo, consumo de maconha e outros comportamentos considerados socialmente desviantes. Uma perspectiva que remete ao século XIX, quando D. Pedro II inaugura, em 1850, o primeiro hospício, no Rio de Janeiro.

Além de se envolver no debate sobre o assunto, Renato fez várias visitas ao Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, em 1971, com um amigo que trabalhava na Editora Abril. O local abrigava aproximadamente quatro mil internos. Quando desceu a Serra do Mar em definitivo, o então arte-educador percebeu que a Casa de Saúde Anchieta era o palco para intervenções sociais e artísticas.

Renato confessa que não tinha ideia do que poderia fazer quando entrou pela primeira vez no Anchieta, em 25 de agosto de 1989. O hospital era um caldeirão por conta da superlotação, mas também pela iminente intervenção da Prefeitura de Santos, que fecharia o lugar e descentralizaria o atendimento aos pacientes de saúde mental por meio dos Núcleos de Apoio Psicossocial (Naps). O Anchieta tinha capacidade para 180 internos, mas abrigava 700 pacientes.

Ao entrar no Anchieta, ele viu o mundo cinza. Paredes, corredores, profissionais de saúde no piloto automático de uma instituição que agonizava. Lonas separavam pacientes de visitantes. Aliás, lonas que seriam transformadas menos de dois meses depois em material para peças teatrais.

Sala onde aconteciam as oficinas

Renato se aproximou dos pacientes, que não reagiam. Até que um jovem negro, de quase 1,90 metros, perguntou a ele o que fazia ali. Renato respondeu: “ teatro”. “O que é isso?”, perguntou Ercílio, hoje funcionário do programa municipal de reciclagem de lixo, o Lixo Limpo.

Segundo Renato, “ele ficou me olhando com cara de quem não tinha entendido. Aí, vi uma TV e disse: vim fazer novela.” Todos compreenderam e daí nasceram os primeiros personagens.

Não foram necessários 15 minutos de conversa para que Ercílio escolhesse ser um papa. Outro paciente, tão branco quanto a roupa de um médico, queria ser um pirata. Surgia a primeira peça, na qual um papa se aliava a piratas para roubar o Vaticano e dividir o produto do assalto meio a meio.

Um mês depois, em setembro de 1989, o trabalho já se estendia a outros pacientes, e Renato passava vários dias da semana dentro do Anchieta. Numa reunião com eles, apareceu a ideia de se criar um nome. Tam Tam, doidões, malucos-beleza, pirados; a lista girava em torno de expressões associadas, é claro, à loucura.

O grupo fechou em torno do nome TamTam. Renato explicou que o nome representava um gongo chinês, que ecoa para todos os lados. Daí, bastava entrar um médico ou enfermeiro para que os pacientes perguntassem o significado da expressão TamTam. Diante da resposta óbvia, associada à loucura, os internos retrucavam com a definição dada pelo arte-educador.

Intervenção cênica - rádio TamTam

O teatro se expandiu para o rádio. O programa TamTam nasceu em 1990 dentro do Anchieta, a partir de um aparelho de som 3 em 1, fornecido pela Prefeitura. 32 caixas de som espalhavam o programa pelas dependências do hospital psiquiátrico. Todos trabalhavam sob pseudônimos. O slogan resumia a ideia: “um programa do tamanho da sua loucura.”

Depois, o programa foi para a rádio Cacique AM e cresceu com a criação do jornal TamTam. Quando passou para a rádio Universal, a duração se fixou em meia hora por semana. Dois telefones não davam conta de atender aos ouvintes. A última parada foi na extinta Rádio Clube, também em Santos. No total, foram oito anos no ar.

Uma das propostas do aniversário de 25 anos é a retomada do programa de rádio. Ainda faltam definir o formato e acertar com uma emissora. Veicular o programa via Internet é também uma possibilidade.

Em 1990, Renato e Claudia Alonso se conheceram em uma das salas da Casa de Saúde Anchieta. Claudia era recém-formada em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Dançarina de formação clássica, ela dirigia uma escola de dança, mas nunca se sentira totalmente encaixada entre barras e sapatilhas. O motivo era que Claudia não atendia aos rígidos padrões estéticos que cercam as bailarinas.

Com o Trabalho de Conclusão de Curso embaixo do braço, ela conseguiu uma audiência com o então secretário de Saúde David Capistrano. Ele folheou o projeto e foi taxativo: “vá procurar o Renato di Renzo.”

Claudia nunca havia visitado uma instituição psiquiátrica. “Achava que louco babava e mordia.” Ela se lembra até da hora em que entrou no Anchieta: “Dez e meia da manhã”. Apavorada, atravessou corredores e entrou numa sala com paredes coloridas e pacientes em diversas atividades artísticas. Ela teve a sensação de que Renato a julgara como uma nova paciente, pois foi incorporada ao trabalho sem apresentações. “Ele beijou a todos. Ele pensou que eu era uma louca nova.”

Cláudia não suportou o ambiente, foi ao banheiro e vomitou. Na volta, conversou com Renato. Naquela época, o arte-educador já era funcionário da Prefeitura e trabalhava diariamente na instituição. No final da conversa, ele fez a pergunta que mudou os rumos da vida profissional de Claudia. “O que é mais importante para você? A dança ou a psicologia?”

Cláudia Alonso (à esquerda), em uma das edições da rádio TamTam

Ao se envolver com os pacientes do Anchieta, Claudia não poderia imaginar que seu grupo de dança, o Orgone, se transformaria, em 1993, em um grupo de teatro. Ela fechou a academia de dança e prestou concurso para a Prefeitura, onde trabalha até hoje com deficientes na Secretaria de Assistência Social.

A mudança de trajeto do Orgone foi um salto artístico hoje simbolizado em mais de cem prêmios e 20 espetáculos. O nome não seria mais apropriado. Orgone é a união das palavras orgon (órgão) e one (energia, pulsão, vida). O grupo teve mais de 5 mil alunos desde a fundação.

O projeto TamTam saiu dos corredores da Casa de Saúde Anchieta e ganhou outros palcos a partir de 1993. É quando Renato di Renzo dirige o primeiro espetáculo para o grupo: “Na sala de espera do Dr. Sigmund”. O espetáculo, que unia teatro e dança, faturou prêmios e bagunçou as definições em torno do trabalho deles. Para uns, teatro-dança. Para outros, dança-teatro. Estas categorias não existiam nos festivais, na época. Uma terceira via os classificava como teatro físico.

No mesmo ano, os trabalhos dos pacientes – inclusive o programa de rádio – foram expostos no Sesc, em Santos. Era o começo de um caminho que os levou a programas como Jô Soares Onze e Meia (o nome na época) e a reportagens de jornais e revistas do país e do exterior, como o The New York Times. Um ano antes, em 1992, o projeto se transformara na ONG Associação Projeto TamTam e se estendia a outros projetos de inclusão social. 

Bastidores da gravação com Renato di Renzo, no programa
Jô Soares Onze e Meia 

Em 1996, o TamTam se desmembra em dois outros filhos. A Rádio Moleke era um programa semanal que envolvia crianças e adolescentes de abrigos municipais. E o Zazah´Bar, que ocupava o terceiro andar do Teatro Municipal de Santos. “Todo teatro precisa de um bar”, explica Renato.

A partir de 1997, com o término da gestão David Capistrano, vieram as vacas magras. O TamTam perdeu espaço na administração Beto Mansur. Foram dois anos de vida itinerante. Os ensaios e demais projetos sociais aconteciam em casas antigas emprestadas por simpatizantes e amigos.

O trabalho também aconteceu em galpões e, em 1999, o Orgone passou a ensaiar no Colégio Universitas, na Ponta da Praia. Foi nesta fase que di Renzo solidificou o que atores chamam de “Pedagogia diRenziana”.

O grupo permaneceu no Universitas até 2003, quando o foyer (terceiro andar) do Teatro Municipal foi devolvido ao projeto. Nascia o Café Teatro Rolidei, hoje sede de todos os trabalhos que envolvem o TamTam.

Parte dos cenários vem de doações

Logo na entrada, o Café Teatro Rolidei parece um picadeiro. À esquerda, uma arquibancada com três degraus, usada para debates, espetáculos e aulas. À direita, um espaço que serve de palco e de cenário para a exibição de filmes. O Café abriga, todos os anos, o Ciclo de Cinema de Saúde Mental.

As paredes são uma bagunça organizada. A decoração é fruto de cenários abandonados no fosso do Teatro Municipal, além de doações e objetos encontrados pelos integrantes do grupo nas ruas de Santos.

O segundo ambiente, após uma cortina vermelha, tem o balcão do bar, uma biblioteca com dois mil títulos, outra minibiblioteca sobre rodas para crianças, com 200 exemplares, e uma infinidade de quinquilharias, como chapéus antigos e brinquedos, que transforma o espaço em um cenário múltiplo, a ser reconstruído pela imaginação do visitante.

Nos fundos, fica o banheiro, com três cabines, uma cadeira de barbeiro, azulejos em preto e branco e uma exposição de fotos pelas paredes com a história do projeto TamTam. O banheiro é chamado de bissexual. “Mas as cabines são individuais”, ressalta Claudia. Na janela, uma foto que simula a vista da cidade de São Paulo.

Duas vezes por mês, em média, acontece uma balada no Café Teatro Rolidei. A balada, por segurança, tem hora para acabar: duas horas da manhã. Nos variados espaços, famílias – inclusive com crianças – dançam, pois há sempre uma banda convidada, assistem a performances teatrais, leem e comem petiscos. Houve até celebração de noivado no local.

Ao final de cada balada, todos são convidados a limpar a casa. “É uma forma de cultivar pertencimento, cidadania. O bar é um lugar terapêutico”, afirma Claudia Alonso. Os frequentadores podem deixar mensagens em um dos cadernos do Café. Ao total, são 100 volumes. Uma das mensagens que indicam o espírito das baladas, deixada por um visitante. “Adeus Prozac. Olá, Rolidei.”

Cenário - Café Rolidei
Thays Ayres, de 33 anos, representa os braços direito e esquerdo de Renato e Claudia e conhece o Café Teatro Rolidei desde o trabalho de parto. Ela produz espetáculos, cuida da parte administrativa, do relacionamento com a imprensa, trabalha como assistente de direção e preparadora de elenco e, duas vezes por semana, dá aulas de teatro. Nas baladas do Café Rolidei, fica no caixa e interpreta uma detetive.

Ao simbolizar a versatilidade dos integrantes do grupo, Thays acredita que o teatro praticado pelo Orgone é alimento para o dia a dia. “O teatro serve para desmontar, sair do eixo.” Ela conheceu o projeto quando tinha 17 anos e fazia teatro no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. As aulas eram dadas por Renato di Renzo. Ela o seguiu para o Colégio Universitas e injetou a arte em definitivo na vida ao entrar para o Grupo Orgone.

Thays se formou em Psicologia e chegou a passar em concurso no Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, mas preferiu a arte. Ela entende que o teatro a permitiu não apenas aplicar o que aprende no mundo acadêmico, mas também a sobreviver como alguém que decidiu caminhar fora dos padrões.

Depois de 16 anos, a família, embora acompanhe os espetáculos, ainda torce o nariz para a troca do consultório pelo palco. “Não sou rica, não tenho carro e minha casa, mas tenho outros ganhos. É um investimento maior, um pouco do que deveria ter em cada escola. Eu fui escolhida pelo teatro.”

Fotos: Beth Soares
Felipe Domingues, por sua vez, está há cinco anos no grupo. Entrou com 16 anos e hoje é o garçom, um dos personagens que compõem as performances nas baladas do Café Rolidei. Disléxico, ele atua como voluntário cinco noites na semana. “Eu sou ótima pessoa e péssimo aluno. Ninguém me entendia.” Além disso, ele foi diagnosticado com hiperatividade. A terapia são as múltiplas atividades que exerce na rotina do Café Rolidei. De jardinagem à limpeza do espaço.

Felipe é formado em Gastronomia e com pós-graduação em Gestão de Negócios da Alimentação. (Felipe mora, atualmente, na Irlanda) No Rolidei, Felipe intepreta Adolf, um garçom alemão que chegou no Brasil em um porão de navio e que aprendeu português com um argentino. “Hoje, consigo ficar concentrado. A questão não é inserir pessoas diferentes na sociedade, mas que todos possam conviver juntos”. 

O projeto TamTam, depois de 25 anos, conta com 185 alunos e dezenas de voluntários. As baladas recebem mil pessoas por mês. A casa está sempre lotada, com filas na porta. Na prática, todos ali rezam a mesma cartilha, do teatro e da arte como libertação. Como ensina di Renzo, parafraseando Grotowski, “o trabalho destrói o cansaço, destrói o corpo cheio de máscaras, corpo pré-estabelecido.”

Assim é desde 25 de agosto de 1989, quando ele atravessou pela primeira vez o portão da Casa de Saúde Anchieta, a “Casa dos Horrores”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Psicose: salvo pelo Hitchcock





Marcus Vinicius Batista

Costumamos acreditar que livros, quando nos permitem abrir mão do sono madrugada adentro, são bons. A história seria envolvente a tal ponto que a curiosidade é o remédio preventivo para as dores físicas do dia seguinte.

Pensei que isso aconteceria comigo enquanto lia Psicose, de Robert Bloch (editora Darkside). Devorei a obra em 24 horas, como há muitos anos não o fazia. Mas a curiosidade não se traduziu em excelência literária.

O romance policial ficou conhecido depois que se transformou em um dos clássicos do cinema, sob a direção de Alfred Hitchcock, além de marcar a carreira de Anthony Perkins, como intérprete do assassino Norman Bates.

O livro é de 1959 e foi comprado pelo diretor no mesmo ano. O filme saiu em 1960. Hitchcock arriscou a reputação para adaptar a história do homem solitário e dono de um motel de beira de estrada. O diretor chegou a comprar – anonimamente - a tiragem completa, com 3 mil exemplares, para evitar que a história fosse divulgada.

Ele também brigou com o estúdio com quem tinha contrato e chegou a hipotecar a própria casa durante a produção. O resultado foi a bilheteria de US$ 50 milhões, diante de um investimento de US$ 800 mil e a solidificação da alcunha de mestre do suspense.

O filme deu a visibilidade que o livro e o autor precisavam. Robert Bloch entrou na indústria do cinema e ficou mais conhecido como roteirista, embora tivesse sido pupilo de H.P. Lovecraft e publicado dezenas de contos em revistas de horror e fantasia. Escreveu dez episódios para o programa Alfred Hitchcock Apresenta, no ar entre 1962 e 1965, e roteirizou três filmes da série Star Trek, na mesma década.

O livro Psicose é superestimado por causa do filme. Na prática, a obra atende ao que se propõe: um romance daqueles de papel barato (os pulp fictions), com uma história de fácil digestão, regada a pitadas de suspense. Não há arroubos psicológicos ou maiores aprofundamentos da psiquê de Norman Bates ou um grande mistério a ser resolvido. O Norman da literatura, por sinal, é o oposto fisicamente do ator Anthony Perkins, magro e alto.

As semelhanças com o filme são grandes. Hitchcock foi bem fiel à obra, o que justifica a ansiedade em sumir com o romance do mercado norte-americano. Mas há uma diferença essencial: a cena do chuveiro, em que Norman Bates mata Jane. No livro, o assassinato é bem mais selvagem e rápido. A cena é descrita em apenas três parágrafos.

A diferença se explica pelos bastidores. Hitchcock sofreu pressões da censura – os Estados Unidos atravessavam uma fase de profundo conservadorismo, vide a segregação e o McCarthismo – e teve que mascarar a sequência para que o filme fosse aprovado. A trilha sonora, decidida após a primeira montagem, deu o toque que faltava ao assassinato mais famoso da história do cinema. E olha que, inicialmente, o diretor era contra a música incidental.

Psicose foi lançado no mercado editorial brasileiro em 1959 e em 1964. Ficou quase 50 anos na geladeira até que a editora DarkSide o recolocou nas prateleiras há dois anos. A edição é muito cuidadosa – há a versão capa dura - e valoriza o livro como relíquia histórica e ícone da cultura pop.

Discutir se o filme é melhor do que o livro e vice-versa funciona como tempero para a pizza ou como aperitivo para a cerveja no boteco. Nada mais estéril comparar bananas com maçãs, ainda que a semente venha da mesma lavoura. No caso de Psicose, Robert Bloch deveria agradecer por ter plantado ideias na horta do mestre do suspense.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O livro-surpresa


Marcus Vinicius Batista

Devorei "O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, em dois dias. Para ser honesto, em um dia e meio. Utilizei todos os intervalos, dormi menos para chegar ao final da história de Christopher Boone, adolescente de 15 anos com Síndrome de Aspenger, uma forma de autismo.

O livro caiu nas minhas mãos no domingo, no final da tarde. Estava na casa do meu amigo André e conversávamos sobre literatura diante da estante de livros dele. Num instante da conversa, ele pegou o livro, me deu e disse: "Você vai gostar!" Levei emprestado mais um quadrinho do Demolidor e não questionei a decisão. É quase um pacto entre leitores-irmãos. De uma recomendação, não se duvida. Cumpre-se!

Resolvi olhar o livro assim que cheguei em casa. Que achado! A história é narrada pelo personagem principal. Não que o autor, Mark Haddon, tenha essa idade ou sofra da síndrome. O maior mérito da obra dele é fazer com que acreditemos que o narrador é realmente um adolescente de 15 anos, com Aspenger.

O garoto é incapaz de demonstrar emoções, domina matemática como poucos adultos, não pode ser tocado, conhece todas as capitais de todos os países do mundo e adora números primos, mas não compreende simbolismos, como metáforas. E, por causa disso, jamais mente.

Esse mosaico comportamental, vamos dizer assim, torna difícil a relação do personagem com seus pais, vizinhos, professores e colegas da escola especial em que frequenta numa pequena cidade da Inglaterra.

Christopher Boone é fã das histórias de Sherlock Holmes. E resolve aplicar os ensinamentos do detetive-mestre ao descobrir que Wellington, o cachorro da vizinha, foi assassinado no jardim com um forcado. E escrever um livro a partir das investigação, esta aí "O estranho caso do cachorro livro". Será que Christopher entenderia o significado de metalinguagem?

O adolescente, com o método sherlockiano, descobrirá não apenas o assassino do cachorro, como uma série de fatos que envolvem todas as pessoas próximas a ele, de maneira a levá-lo a ações inimagináveis para alguém que sempre dispensou "pensar sobre aquilo que não aconteceu".

Acompanhar as reações de Christopher é um exercício de controle da angústia. Ele sofre, física e mentalmente, com as relações humanas, suas sutilezas, seus jogos, suas aborrecidas previsibilidades da vida ordinária. A força do narrador te arrasta para o sofrimento contínuo de quem não consegue entender o que acontece em volta, assim como ninguém sabe lidar com ele e com a doença. O que varia são os níveis de paciência.

Christopher toma decisões definitivas num mundo de humanos transitórios, incompletos, abstratos como são os sentimentos e emoções. Christopher tem, a seu lado, somente a matemática e a física, áreas inábeis para diagnosticar as contradições psicológicas de qualquer humano, inclusive o adolescente, que sofre ainda mais por não enxergar a si mesmo em situações-limite daquele universo de difícil controle. Fechar-se e isolar-se seriam soluções, por exemplo, em uma estação de metrô lotada?

"O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, aponta com clareza como a maioria das pessoas não sabem como lidar com quem apresenta diferenças de comportamento, ainda mais se não apresentam sinais do ponto de vista físico. No reino da incompreensão, Christopher funciona com um imã, que coloca todos a volta dele, mas pela incapacidade de ser igual, os fazem acreditar que ele seria incapaz também de ver os outros.

Christopher percebe os comportamentos que optamos por tornar menos importantes, camuflados por vernizes que banharam as máscaras sociais. E ele sofre com isso, justamente pelo rigor que o impede de ser flexível no contato das pequenas (ou grandes, para ele sem diferença) mentiras e dos perdões silenciosos (para ele, sempre seria um grito). Ora, as armas que também usamos para levar a vida adiante.

"O estranho caso do cachorro morto" caminhou comigo na segunda-feira. Cheguei a me perguntar por que não conhecia o livro, por que nunca tinha ouvido falar dele. À noite, encontrei com André no trabalho e comentei: "Sensacional o livro. Estou quase no final."

Ele me disse: "Também achei. E acredita a surpresa? Achei esse livro na rua."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Game over literário

Marcus Vinicius Batista

Não jogo videogames. Minha história com eles começou aos 13 anos, quando ganhei um Atari do meu pai e terminou aos 17, quando arriscava cestas de três pontos na NBA, no Master System de um amigo, o Alfredo. Preferia os campeonatos de botão ou tentar ser jogador de futebol mesmo.

Daí em diante, tornei-me um espectador eventual e um leitor sobre o assunto. O espectador se manifesta quando estou na casa do amigo André Rittes. Lá, meus filhos e os filhos dele se juntam para disputar horas de batalhas. Hoje, como pai, e como pai, jogo algumas fases em versões diferentes de Lego, com Vini, meu filho de sete anos.

Leio sobre videogames por ser professor da área de Comunicação. É obrigatório me informar sobre as novidades de um mercado maior do que o de cinema. Os exemplos deste universo também ajudam a demonstrar a aplicabilidade de teorias e estudos sobre o impacto da mídia no cotidiano.

O preâmbulo sobre games tem o objetivo de explicar que ler um livro baseado neles me parece ser uma vantagem para quem não é fã do jogo, para quem está isento do purismo que normalmente ataca os crentes, por vezes mais preocupados com a fidelidade do que com a criatividade em torno de uma adaptação.

Terminei de ler, nos últimos dias, o livro Renascença, de Oliver Bowden. Quem me emprestou a obra me garantiu que não havia uma necessidade umbilical de ter lido as demais histórias da série Assassin’s Creed. Ele tinha razão. O maior mérito do texto – escrito por um historiador sob pseudônimo – é possibilitar uma trama fechada, de fácil passeio para leigos e diversão para os iniciados.

Por outro lado, o livro sofre do mais grave sintoma para as franquias que se alimentam de seguidas adaptações, em diversas mídias. A prisão ao modelo original, seja a história, seja o suporte tecnológico, limita o desenvolvimento de características da obra-filhote, que não consegue andar com a própria linguagem.

No caso de Renascença, sobrou aventura, faltou literatura. A impressão é que a trajetória de Enzo Auditore, a entrada dele na facção de Assassinos e a perseguição religiosa funcionam como uma introdução ao universo do jogo eletrônico. Esta estratégia me soa arriscada demais, pois a perda de qualidade de uma linguagem não significa o sucesso de outra, ainda mais a original, consolidada como marca neste mercado.

O livro caminha como se fosse a máscara de um roteiro de jogo. Talvez seja mesmo a função dele, preparar o espectador-leitor para o produto principal. Neste caso, personagens são descartados como moscas, cenários ficam para trás em descrições simples, e falta profundidade psicológica ao grupo principal de personagens.

A pesquisa histórica funciona como cortina de fumaça para as deficiências (ou a pressa) literária. Cortina de fumaça porque explora personagens históricos, mas não os fatos. Leonardo Da Vinci, Nicolau Maquiavel e Salvanarola são elementos importantes na construção da narrativa. Os dois primeiros, a serviços dos mocinhos.

O maniqueísmo, por sinal, é sintoma decisivo para que as últimas 50 páginas transmitam a sensação de que Renascença poderia ser menor. Como num videogame, lutas e mais lutas se repetem, com trocas de cenários, mas o mesmo objetivo de justiça e execução pelas próprias mãos.

Devolvi o livro ao meu amigo e, com gosto, comprei a ele mais uma obra da série, como presente de aniversário. É preciso respeitar o prazer dele, tanto com o console como com as páginas nas mãos. Para mim, ficou a sensação de passar de fase. E para outro jogo literário!

domingo, 15 de janeiro de 2017

Andando pelo Jaú

Fotos: Fabiana Honorato/Juicy Santos

Marcus Vinicius Batista

Quando eu era adolescente, olhava o Conjunto Habitacional Martins Fontes, o Jaú, dos campos de várzea do BNH. Ali, o goleiro do Canto da Vila, time onde jogava, observava os prédios coloridos sem interesse. Um segundo de distração para romper com a partida monótona.

Aos 30 anos, entrei num dos apartamentos para visitar um colega. Foi visita de médico, suficiente para me admirar com o tamanho do imóvel recém-reformado. Tempos depois, descobri que o sujeito não era confiável e me afastei dele e de lá.

Com quase 40, morava na rua Vergueiro Steidel e tangenciava o conjunto habitacional quando visitava o Sesc ou seguia para o shopping Praiamar. Shopping que enterrou os campos de várzea.

Uma amiga apelidou o Jaú de Bronks, bairro nova-iorquino com fama de violento. O apelido era mais por deboche do que por senso de justiça. Ela só sai dali para morar fora do país.

Passei a caminhar pelas ruas do Jaú, ao me mudar de endereço há três meses. Voltando do trabalho, cortando caminho para o mesmo shopping e, principalmente, para encontrar um casal de amigos, Thaís e Marcos. Descobri um pedaço de interior dentro da minha cidade, uma fronteira sem muros a uma quadra de casa.

Caminhar pelas ruas que cercam os 33 prédios virou um hábito. Consigo sentir tranquilidade por escapar do barulho do trânsito que circunda o conjunto, nas ruas Alexandre Martins e Frei Francisco Sampaio, dois corredores de transporte durante 12 horas ao dia.

As cenas são triviais quanto belas. Gente com cadeiras nas portas dos prédios, com conversa ao vento, somente presente em um ou outro bairro da Zona Noroeste e da Área Continental ou na orla da praia no pico do verão.

As ruas são todas arborizadas, formando corredores verdes que protegem do calor e seguram o vento a cutucar o peito. Nas beiras das calçadas, gramados cercados por concreto quadriculado dançam com as calçadas lisas, onde minha filha sonha em andar de skate, mas já as percorreu de bicicleta.


Na rua Alexandre Fleming, moradores de um dos edifícios adotaram uma solução simples para manter as calçadas limpas. Embora sempre veja gente passeando com cachorros armadas de sacos plásticos, imagino que a comunidade tenha se aborrecido com os selvagens que trocam de papel com as vítimas presas em coleiras.

Numa sequência de cinco árvores, os moradores cortaram a base de garrafas d’água de cinco litros, as prenderam nos caules, as preencheram com sacolas plásticas e pregaram um aviso: sorria, você está sendo filmado. Mais vale a educação do que a curiosidade de verificar a existência de câmeras.

Caminho pelo conjunto habitacional em diversas horas do dia. Sinto, entre as ruas e no bom dia de muitos moradores que nunca vi, uma paz que me aproxima do silêncio interiorano, prêmio que passei a perseguir há alguns anos.

As ruas do Jaú se parecem com a pequena varanda do meu apartamento, onde costumo sentar, mudo e com orelhas em posição de abano, durante a madrugada, para ler e observar uma árvore e seus habitantes de asas. O Jaú é minha varanda em movimento.

Nunca tive a intenção de abraçá-lo como oásis urbano. Apenas aconteceu, derivação de uma necessidade prática de locomoção, como chegar no horário ao encontro com Thaís e Marcos para tomar um lanche.

Levei meses para perceber que retornava ao mesmo trajeto sem a pressão do relógio ou a preguiça de economizar passos. Quando me dava conta, prestava atenção nas diferenças entre os edifícios, nos formatos de portões, na estrutura das janelas, nas imperfeições e nas quebras de padrão.

Andei no Jaú, pela última vez, no primeiro dia de 2017. De vez em quando, o ar interiorano recebe como reforço o tempo da cidade pequena. Tempo onde as pessoas acenam para você, perguntam tudo bem, ainda que sejamos estranhos em um município de 420 mil almas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

As chinelas (Crônicas além do quintal # 8)

Foto: Mari Amarante

Marcus Vinicius Batista

Calço número 44. Desde os 13 anos, estou acostumado a ter dificuldades para comprar qualquer coisa que se coloque nos pés. Quando penso em comprar um tênis, sapato, chuteira, desejo ter a coragem de Juca Chaves e andar o tempo todo descalço.

Aos 13 anos, a mudança aconteceu. Do dia pra noite. Numa madrugada. Havia comprado um tênis, no tempo em que bamba e kichute reinavam na classe média. Conga era para classe média baixa. Nike, para os ricos. Usei o tênis três vezes e dei de presente a um amigo. O pé virara 44.

Um dos meus desejos, não tenho tantos assim e não me mobilizo tanto por eles, era ter um par de chinelos de couro. Não se vende em lojas na cidade onde moro, Santos. O único lugar que encontrei foi numa dessas feiras de praça pública, em frente ao Sesc, na barraca de uma senhora migrante do Nordeste. Ela trazia os chinelos de lá.

Desisti do “sonho” e fiquei com minhas Havaianas (de outra marca) depois de meia dúzia de visitas. A senhora, em duas ocasiões, tentou me empurrar um par número 43, mas os calcanhares ficavam de fora. Diante da insistência, era educado e recusava a oferta. “Não tem saída”, ela sempre repetia.

O desejo dos chinelos de couro passou uns cinco anos adormecido. Até que aterrissei em Maceió para passar uma semana. Na primeira noite, tínhamos o aniversário da Syl, uma amiga que conhecemos em outra viagem. Quase no final da festa, um amigo dela se sentou do nosso lado. Ele estava com um par de chinelos de couro.

Pedi ao Leo, namorado da Syl, que me apresentasse o cara. Mal ele disse “muito prazer”, já perguntei sem enrolação: “muito legal esse chinelo, onde você comprou?”

Ele me agradeceu e disse que comprou numa feira de artesanato local, numa das praias. Avisei Beth, minha mulher, e o casal Syl e Leo que passaríamos por lá de qualquer jeito.

Não tinha o jogo ganho. Eu estava escaldado. Lembrei-me de quando comprei uma chuteira de futebol society, uns sete anos atrás. Foram nove lojas, em três bairros e dois shoppings. Na nona loja, depois de umas quatro horas de maratona, a vendedora me disse: “só tem um par. É esse aqui.”

“Não tem outra cor?”

“Não, só essa.”

Suportei duas semanas de piadas por jogar com uma chuteira branca e fios dourados, quase um gênio da lâmpada cujo desejo era ter uma chuteira preta, discreta, invisível.

Em Maceió, passamos mais cinco dias, e eu de olho nos chinelos. Em qualquer passeio, se houvesse uma venda, uma quitanda, um supermercado, uma barraquinha de produtos artesanais locais, eu entrava atrás dos chinelos. Nada. O mundo acabava no número 42. Só balançava a cabeça negativamente, olhava para o vendedor, para meus pés, e seguia em frente.

A indicação do sujeito que conheci na festa ficou para a última noite. Um jantar, um sorvete, mais bate-papo e o relógio alertou: falta menos de uma hora para fechar a feira. Na verdade, duas, uma de cada lado da avenida da orla.

Começamos pela feira do lado da sorveteria. Meia dúzia de tentativas, compra de lembrança para sogro, de objetos para casa ... e o desejo murchando outra vez. Ali era a tortura psicológica que se reforçava. O mundo, nesta versão, tinha a última página no número 41.

Eu, Beth, Syl e Léo, atravessamos a avenida da praia e fomos nas demais barracas, desta vez no calçadão quase pé na areia. Última oportunidade, pois o avião de volta para São Paulo decolava ao amanhecer. As lojas fechavam em meia hora.

Entramos pelo lado direito. Sete ou oito lojas depois, estaca zero. Muitos comerciantes fechando o caixa, lojas baixando portas. A feira reforçava o carma de seguir no universo dos chinelos Havaianas (e as marcas semelhantes).

Saímos da feira pelo lado oposto. Beth me olhava como se perguntasse: “achou?” Balancei a cabeça dizendo que não.

Perto de nós, um dos comerciantes estava sentado do lado de fora. Ele estava numa cadeira de praia, com uma latinha de cerveja na mão. Esperava os cinco minutos finais para passar o cadeado e descansar.

Olhei para o sujeito, balancei a cabeça para cumprimentá-lo e olhei para a loja dele. Chinelos de couro. Percorrei a vitrine com os olhos sem procurar por algo em especial. Quando desviei o olhar para as prateleiras de estoque, li: “44”. Olhei de novo: “45”. Um monte de chinelos embalados em sacos plásticos.

Virei-me para o sujeito e perguntei: “você tem chinelo de couro número 44?” Ele me observou da cabeça aos pés e, com preguiça, mas sem ser grosseiro, respondeu: “tenho!”

O comerciante entrou na loja e me deu um par de chinelos 44. Olhei para o Léo, que sorriu e me perguntou: “servem?”

“Puxa, é mesmo, preciso experimentar.”

Tirei os tênis e as meias ali mesmo e calcei os chinelos. Ficaram curtos. Sobrava calcanhar. Virei-me para Beth e fiz sinal que não. Ela atirou: “pede o 45”.

“Posso experimentar o número 45?”, perguntei ao lojista.

“Tenho sim.”

Era o número perfeito. Coube com precisão. Os três sorriam para mim. O comerciante esperava o dinheiro. Paguei o sujeito, calcei os tênis, peguei a sacola. “Você não vai com eles?”, alguém sugeriu.

“Não, agora não”, era como retardar o final de um livro, para saborear ainda mais a expectativa de vitória.

Chegando no apartamento, coloquei novamente os chinelos de couro. O conforto em forma de artesanato. Beth me disse: “bonitas chinelas. Bonitas mesmo.” Desfilei pela sala, como se encerrasse a Maceió Fashion Week, versão particular.

Chinelas, repetimos até hoje, é como meu filho Vini as chama, no feminino, do jeito que se habituou a falar quando morou no Nordeste. Seja de couro, seja do Ben 10, como as que ele calça.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Vida que explode


Júnior Landim

E pensar que um dia fostes miúda. Quase invisível. Passaste bom tempo abaixo da superfície, trabalhando em silêncio, uma meditação oculta aos olhos. Onde água, terra, ar e fogo (este vindo do Sol) também trabalhavam em sincronia e silêncio para sua alma pudesse encarnar.

Minha mente ferve tentando imaginar quantas décadas levaste até atingir a maturidade. Quantas mudanças ao redor testemunhaste nessa jornada. Te conheci agora e me encantei com tua beleza natural e generosidade. E continua em silêncio. Quanta sabedoria!

Fazer tanto por tantos, sem emitir ruído algum ou esperar alguma retribuição ou honraria. Muitos passam por ti, de forma inconsciente, pois não conseguem visualizar sua base e, para lhe perceberem, teriam que olhar para o alto.

Em tempos de respirar com ajuda de aparelhos (celulares), poucos o fazem. De onde estou a te observar, percebo que é morada de inúmeras famílias que encantam a vizinhança com suas músicas singelas.

Ainda não sei seu nome, mas vou descobrir e, em breve, irei embora e levarei esse ensinamento que me deras. Silêncio e perseverança para cumprir nossa missão, mesmo que a pessoa que repouse sobre suas sombras não perceba que és tu que a refresca.

Grande árvore é a vida que explode sem dar um ruído.