segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O beijo "fora de hora"

          
Imagem ilustrativa

Luiz Carlos Peres*

Os casais namoram nas mesas dos bares na avenida da praia. Ou deveriam. A paisagem é linda. O movimento na calçada, os atletas na praia, a alegria e futilidade de um fim de tarde em Santos.

Decido ficar também, beber uma boa cerveja sem pressa, sem culpa por estar sozinho. Escolho a melhor mesa, com vista perfeita da avenida e de todo o bar. O garçom demora, mas vem. Faço o pedido quase me desculpando. Ele nem responde, fecha a cara.

Acho que invadi sozinho uma mesa que ele queria cheia, esperando um consumo maior. Mais chance de gorjeta. Eu também a queria cheia, por motivo diferente, é sempre melhor beber com alguém. Mas hoje só quero olhar a paisagem, ver como vai isso que chamam de mundo. 

Na calçada, as pessoas passam ligeiras, saem do trabalho, vão para a noite. Vão com a pressa de quem vive na cidade onde nada começa na hora. Nas mesas, grupos de jovens. Selfies, provocações, assobios e gritos entre risadas soltas. Estão à vontade, habituados ao lugar.

Metade das mesas são casais. Neles, a atmosfera é outra, pouca conversa, olhares revezados entre a rua e o celular. Sentam-se próximos, mas relaxados demais, como namoro velho, desgastado, de quem perdeu o suspense pela resposta do outro, a tensão, a insegurança, a hesitação, a paixão de olhar no olho. Casais que perderam o melhor e cumprem religiosamente o ritual de ficarem juntos sem terem o que dizer um ao outro.

Bebo a cerveja e, no terceiro gole, quase derrubo o copo quando ela passa correndo fugindo de um dos garçons, ligeira até a calçada. Passa por trás de mim, bem rente, me toca. Sinto forte seu cheiro de chorume, de lixo, de esgoto.

Da calçada, a três metros de onde estou, já fora do território do bar, ela desafia o garçom, rebola, levanta os braços, aponta e ri. Negra, magra, musculosa, imunda, quase desnuda em trapos sujos. E ri, ri muito, ria alto, de um jeito alegre, feliz, um jeito agudo de bruxa de desenho animado.

O garçom, irritado, tenta agarrá-la, ela se esquiva. Furioso, vai agredi-la, mas desiste, contido pelo aviso dos colegas de que os jovens estavam gravando.

A atenção do bar era toda dela. Olhares disfarçados, de fingida indiferença, olhares indignados. A mendiga era uma personagem fora de hora, fora de lugar, que desmancha o cenário esperado, a tarde planejada, o lazer comprado. Não deveria estar ali naquele cenário lindo de fim de tarde.

Ela não mostrava sofrimento, não se ressentia de sua miséria, não lamentava o que não tinha. Como arlequim de uma comédia inspirada, apreciava nosso ridículo espetáculo de tristes pagantes de uma cadeira que se finge plateia, que se quer palco, onde ostentamos nossa forjada felicidade, nossa pretensa superioridade.

A alegria dela insultava as pessoas do bar, mesmo que elas não soubessem, mesmo as que insistiam na falsa indiferença. Dançava, ameaçava baixar as calças, ria alto, em êxtase, debochava.

Como apoteose, como insulto, o companheiro dela aproximou-se, ainda mais sujo, bêbado e maltrapilho. Abraçou-a forte, envolveu-a nos braços e, para que todos vissem, ali na calçada em frente ao bar, numa pose que reconheci de um quadro de museu, beijou-a apaixonadamente, de língua, com vontade, com violenta e carinhosa paixão que as namoradas nas mesas, diante de seus copos de vinho e petiscos caros, de boca aberta, invejaram.

Era a hora certa. Pedi a conta e fui pra casa.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Como viver sem ela?



Armando Cândido*

Eu mesmo já tive algumas famílias. A que nasci, a do meu primeiro casamento, a do segundo e a do terceiro também. Algumas outras não tinham vinculo sanguíneo ou afetivo. Eram famílias compostas de amigos que, de tão sincronizados, representavam minha família sim!

Falar desse assunto pode ser doloroso quando sentimos saudade. Da saudade que terei da filha que ganhei no meu último casamento. Quando ele acabou, por força das circunstâncias, ela veio morar comigo. Isso foi um alento pra mim! Diminuiu a solidão.

Todos os dias pela manhã, ela vinha me dar bom dia e pedir seu café. À noite, quando eu chegava do trabalho, ela me esperava na janela. Vinha correndo me contar todas as fofocas do dia. Na hora de dormir, deitávamos juntinhos, ela vinha me pedir carinho.

Nem tudo era um mar de rosas; às vezes, ela fazia as malcriações dela, tirava minha paciência com o excesso de energia e a bagunça que fazia quase o tempo todo. Aí eu tinha que ser enérgico e dar umas broncas. Mas logo minha irritação passava.

Ontem à noite, eu deixei meu prato em cima da pia antes de jantar, enquanto resolvia umas coisas. Quando fui pegar o prato, a danadinha tinha roubado um pedaço do meu frango! Fiquei muito bravo, fiquei sim, mas passou.

Hoje, enquanto escrevo essa crônica, a mãe dela está arrumando o apartamento novo. Mais tarde, ela vai me chamar para que eu leve nossa filha, que voltará a morar com a mãe.

Então me pergunto: como viver sem ela? Sem rir dela caçando mosquitos, rolando no chão com o arame da embalagem de pão, sem tropeçar nela enquanto se esfrega em minha pernas pedindo carinho, seus miados constantes de felicidade, pedindo comida ou reclamando de algo.

Qual seria a exata definição de família?

Papai, mamãe e filhinha? Será que uma família pode ter dois pais e nenhuma mãe, ou duas mães sem pai? Para os Titãs, ela pode incluir o cachorro, o gato e até uma galinha! Por que não?

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Meu lugar, 24 horas



Felipe Caldeira*


Todo mundo tem um lugar. O lugar. Aquele. O seu lugar. Seja lá onde for, onde está, dentro ou fora de casa, quem ainda não o encontrou há de encontrar. Um lugar que nunca deixará de ser especial quando dele você lembrar.

O que seria de um dia de gloria sem um cenário encomendado? Sem o lugar adequado? Eu sei que você consegue visualizar algum se tentar... Todos nós temos boas histórias de lugares para contar.

Na minha cidade, a praia de Santos se encaixa exatamente aí. Sete quilômetros. Terreno plano. Clima tropical. E temperatura média de 22ºC anual.

Caiçara que sou, é claro que foi lá que montei o meu escritório. Ou melhor: o meu observatório.

A praia de Santos é um lugar do caralho. Sabendo procurar, podemos encontrar de tudo por lá. Você pode se perder na escuridão à beira-mar depois que os faróis se apagarem. Ou, como de praxe, pode farofar até se cansar. Só não vá esquecer que o lixo também tem o seu lugar. Desculpa se eu moro onde você vem passar suas férias.

De dia, o protetor será necessário. A praia de Santos é um lugar perfeito para você fazer aquela bagunça com a família, sendo pai ou ainda apenas um moleque mimado. Para caminhar sentindo os pés tocando o mar. Pegar uma cor. Se exercitar. Jogar o sagrado futebol de final de semana.

De dia, caia no mar para se refrescar. Pegue uma onda. Caia para pelo menos tentar tirar a zica. Capture fotos bem coloridas. Leve a sua responsa para aprender a andar sem rodinhas. Sinta a brisa.

O pôr do sol é lindo. Vale a pena esperar para sentir na sua retina.

De noite, será necessário se proteger. Se proteger da malandragem. De pessoas que estão em busca de uma oportunidade. Sempre há uns gatos pingados dessa qualidade. E com aqueles-que-não-devem-ser-nomeados, fique ligado. Ainda mais se você estiver tramando algo particular. Eu respeito profundamente os demônios internos de cada ser humano. A velha história do anjo bom e do ruim. O mundo gira assim.

De noite, é hora de azarar. Chamar a rapaziada. Convocar a mina que está no alvo para um rolê descompromissado. Tem lanches caprichados para todos os lados. Aroma de vodca com energético no ar. Aqueles vinhos baratinhos também são famosos. Aqueles traiçoeiros. Recomendo que traga sua caixa de som. Edite aquela playlist para agradar os gregos e os troianos. Deixe alta. Dance. Ninguém vai te criminalizar por rebolar até o chão. Nem achar estranho se de repente aparecer uma guitarra imaginária em suas mãos.

Se você já exagerou na noite anterior mesmo, espere mais um pouco. Coloque um Floyd para acompanhar. Vale a pena esperar para sentir a luz invadindo a sua retina.

Ah, a praia de Santos... Quantas memórias... Quantas histórias...

Ah, a praia de Santos...É bom aproveitar.Sei lá se algum dia ela será tomada pelo mar...Ou se eu serei tomado desse lugar...

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Sábio

Imagem ilustrativa

Márcio Valente*


A multidão, espremida na orla marítima, se agitou quando Demóstenes Peixoto, “O sábio”, saiu do mar vagarosamente em direção à praia. 


Com água na altura dos joelhos, ele cambaleou. Parecia tonto. Parado, mas ainda meio desequilibrado, "O Sábio" retirou os óculos de natação e a touca que estampava nas laterais a vírgula característica do patrocinador. Sem os acessórios, firmou a marcha.

Todos respiraram aliviados e confirmaram: era ele! Aquele que ninguém conhecia direito, mas por algum motivo também desconhecido era chamado de “O Sábio”.

Olhos cerrados, barba longa e grisalha, pele e osso se deslocavam em direção à enorme estrutura montada para recebê-lo.

Ao pisar na areia, "O Sábio" foi recebido por dois staffs. Um deles, de imediato, colocou em uma de suas mãos o energético alado promotor do evento, enquanto o outro o cobria com uma toalha totalmente branca. Detalhe: alguns diziam que se tratava de uma das muitas condições impostas por ele, toalhas brancas.

Após  10 minutos sob flashes e muito empurra-empurra, “O Sábio” chegou ao local da entrevista coletiva onde todos os mistérios sobre ele e quiçá sobre o mundo seriam desvendados. Era essa a expectativa.

Veio a primeira pergunta:

— Quem verdadeiramente é o senhor?

— Eu sou eu.

— De onde veio ou melhor de onde viemos?

— Viemos de vários lugares. Uns de lá, outros de cá, outros de acolá.

— Mas o senhor tem como ser mais claro...mais específico?

— Sim, claro.

— E então, de onde?

— Viemos de um todo divisível de todas as direções.

— Existe vida após a morte?

— Isso eu não sei. Sei que existe morte após a vida.

Um jornalista especialista em celebridades teve a ideia de propor aquele formato de suscitar palavras e o entrevistado dizer o que vem a cabeça.

— Direita ou Esquerda?

— Centro.

— Violência?

— Agressão.

— Saúde?

— Saudável.

— Educação?

— Obrigado.

A imprecisão começou a despertar a fúria de muitos. Gritos: Pilantra! Um sete um! Salafrário! Picareta! Que merda... começavam a ecoar na multidão.

— Cor?

— Transparente.

Objetos voadores variados aterrissavam cada vez mais perto de onde “o Sábio” estava. Até que uma tosse forte e ininterrupta, seguida de uma falta abrupta de ar, fez com que “o Sábio” arregalasse os olhos, ficasse vermelho, roxo e...desabasse no chão.

Naquele instante, o sentimento de revolta se transformou em consternação. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Choro e gritos, mas agora lamentação era a única coisa que se ouvia.

No dia seguinte, Demóstenes Peixoto deixou de ser “o Sábio” e virou “o Mito”, além de nome de Rua, Praça, Escola e Hospital.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.



segunda-feira, 31 de julho de 2017

O condomínio dos meus sonhos


Um desejo de longo prazo (Foto: Prefeitura da Praia Grande)

Maria Bernadete Bernardo*

O anseio de ter a casa própria me castigou por muitos anos. Era como a sombra que persegue o corpo e basta uma luz, e ela se mostra.

Nessa época, fui trabalhar no Humaitá e morava em São Vicente. O único acesso para o meu trabalho era pela Praia Grande. Estou falando da década de 80, e as ruas eram de terra batida e esburacadas. Saia muito cedo de casa para pegar a condução, antes mesmo de o sol sair. Esse trajeto era feito quase numa penumbra.

Numas das primeiras idas, notei um portal majestoso com muros altos e imaginei ali um condomínio fechado, luxuoso, mesmo não sendo possível avistar as casas do lado de dentro por causa do muro alto. Minha imaginação viu jardins, floreiras nas janelas e até um parque para as crianças com gangorras e balanços.

Passei a ser uma admiradora daquela morada porque trazia na frente o nome do condomínio. Para mim, aquele nome carregava a conotação de paz e harmonia entre os moradores. Suspirava toda vez que passava em frente e pensava: Quem sabe um dia poderei comprar uma casa ali.

Depois de muitos anos, realizei meu sonho, e vim morar em Praia Grande; não naquele condomínio luxuoso, num outro bem mais simples. Para me familiarizar com a cidade, resolvi andar pelas ruas que estavam bem diferentes agora e fui até o tal condomínio fechado.

Avistei logo a bela fachada, notei que as árvores tinham crescido, estavam encopadas e muitos carros estacionados na rua, o que me levou a pensar ainda mais no luxo que era lá dentro. Ao me aproximar, notei um entra e sai de pessoas e uma sala para cada lado, ali mesmo, na entrada, com um amontoado de gente. Alguns conversavam naturalmente e outras choravam. Virei o olhar e avistei - próxima a parede dos fundos - um caixão.

Fiquei meio atordoada! Mas não tinha tempo para fricote e logo me refiz; foi aí que me dei conta que, na verdade, o condomínio fechado que trazia o nome “Morada da Grande Planície” é o cemitério da cidade de Praia Grande. Minha falta de atenção impediu de perceber isso.

Ontem, antes de entrar em casa, peguei na portaria a correspondência e havia um boleto do Plano da Assistência Funeral que pago há anos e aí pensei: não é que ainda vou morar naquele condomínio?

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", realizado em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 

Um amor português, há 21 anos


A festa depois do acesso à Primeira Divisão do Campeonato Paulista
(Foto: Silvio Luiz/Arquivo - A Tribuna)
Marcus Vinicius Batista



Acordei cedo naquele domingo de folga. Tinha um compromisso às 10 horas, a chance de presenciar um fenômeno único. A manhã nublada de 21 de julho de 1996 seria o dia em que meu time de coração (e quem defendi a camisa como goleiro amador por três anos e meio) poderia voltar à primeira divisão do Campeonato Paulista. 

A Portuguesa Santista enfrentaria o Ituano no Estádio Ulrico Mursa e um empate empurraria de novo para a elite do Estado, lugar que esperava ocupar desde 1978, quando foi rebaixada. 

Tomei o ônibus e desci perto do campo. Andei duas quadras e, pelo trajeto, percebi de longe o óbvio: a casa estaria cheia. Soube depois que eram oito mil pessoas. 

Como não cheguei tão cedo, as arquibancadas já estavam lotadas. Percorri a beira do alambrado, do lado do canal 1, passei pelas cabines de rádio e TV e consegui lugar, em pé, perto do gol oposto à entrada, gol que seria defendido por Claudinei (hoje Claudinei Oliveira, técnico) no segundo tempo. 

Assisti ao jogo com a barriga encostada na grade. Do meu lado, três amigos do tempo de faculdade: Ricardo Goya, o único ponte-pretano caiçara, Cláudia Castro, os dois meus colegas na extinta TV Mar; e André Argolo, hoje parceiro de aventuras literárias e, na época, repórter do Diário Popular. 

O jogo estava amarrado, típico da segunda divisão, coerente com uma vaga para o acesso. O time da Briosa era quase todo caiçara, com gente da terra, o que aproximava jogadores e torcida. Para mim, era um degrau acima na escada da afetividade. 

O volante Léo, por exemplo, havia sido revelado pelo Santos. Fomos contemporâneos no curso de Jornalismo e treinamos juntos no clube da Vila Belmiro. Léo se profissionalizou, e eu virei jornalista. Hoje, jogamos futebol society de vez em quando. E conversamos sobre política, com afinidades ideológicas. 

O time também tinha o Beto e o Calazans, que se criaram no futebol de salão da cidade. E muitos veteranos, como Toninho Carlos, Fernando, Paulo Róbson e Márcio Fernandes, que foram revelados pelo Santos, mais Balu, que jogou no Cruzeiro e é nascido em São Vicente. 

Ah, e tem o Célio, que defendeu a Portuguesa de Desportos naquele time vice-campeão Paulista de 1985. Ele perdeu um pênalti no segundo tempo, defendido com os pés por Nilton. 

Do outro lado, no Ituano, só me lembro mesmo do goleiro Nilton. Ele era excelente goleiro, mas deu o azar de passar pelo Santos nos tempos de Rodolfo Rodriguez. Até Taffarel e Marcos, do Palmeiras, seriam reservas do uruguaio. Nilton era do tempo em que eu, moleque de 12, 13 anos, ia à Vila Belmiro para ver goleiros, principalmente o Rodolfo, mesmo sendo corintiano. 

O segundo tempo, não bastasse o pênalti perdido, parecia pior. Poucas chances de gol, o tempo nublado não ajudava o gramado, castigado por chuva no dia anterior. Muito barro no centro do campo e nas grandes áreas. Claudinei foi afastar uma bola recuada e a bola foi para trás. Um escanteio e quase gol. 

Aos 27 minutos do segundo tempo, um escanteio a favor da Briosa, no lado esquerdo do ataque, no sentido oposto ao que estávamos. Eu usava minha altura, esticava a cabeça para tentar ver o lance. O escanteio foi batido no primeiro pau. Um jogador da Briosa e outro do Ituano foram para a bola. Os dois furaram. 

A bola atravessou a pequena área, tirou Nilton do lance e sobrou para o zagueiro Otacílio que, de cabeça, sozinho, a dois metros do gol, marcou. 1 a 0. Primeira divisão à vista. A ironia é que Otacílio havia entrado no jogo pouco antes, em substituição ao Fernando, que se machucara. Fernando voltou ao futebol depois de 14 meses de aposentadoria para ajudar o time onde começou. 

Eu, Goya, André e Cláudia nos abraçávamos e pulávamos no espaço limitado e espremido do alambrado. Mal sabíamos que seriam 20 minutos de roer todas as unhas de ansiedade. A Portuguesa Santista fez o óbvio: encolheu-se na defesa para segurar o resultado. Segunda Divisão, meu amigo, é chute com o nariz apontado para o canal 1. 

Léo, que naquela manhã era o clássico volante camisa 5, corria por todos os lados. Não precisava de técnica. Precisava de disposição e vontade de destruir as jogadas do Ituano. Jogou como poucas vezes o vi atuar. 

Naqueles 20 minutos, a Briosa faz jus ao apelido. A cada chutão do Ituano para a grande área, a defesa aliviava, Claudinei segurava em um, dois, três tempos, se fosse necessário. O Ituano chegou a marcar um gol, anulado por falta no goleiro adversário. 

Vibramos e cantamos com outros torcedores depois que o juiz terminou o jogo. Não me lembro com exatidão sobre o que conversamos, se é falamos alguma coisa séria e digna de registro na memória. 

Sete anos depois, testemunhei pela TV a presença da Briosa contra o São Paulo, pelas semifinais do Campeonato Paulista. Pude, em 2014, relembrar daquela temporada com o técnico na ocasião, Seo Pepe. 

Outros sete anos depois, levei minha filha Mariana ao estádio Ulrico Mursa pela primeira vez. A Portuguesa empatou com o Força, num jogo horroroso também em um domingo pela manhã. Os dois morreram abraçados e caíram para a quarta divisão do Estado. 

Agora, a Portuguesa está na Série A-3, onde acabou entre os oito melhores. Em 2016, venceu o campeonato da quarta divisão, quando pude testemunhar o título, retornando ao Estádio Ulrico Mursa, seis anos depois. 

Repetir uma emoção - na verdade, fingir, porque é experiência única - seria uma renovação de amor. Só isso move, voluntariamente, alguém a ir a um estádio num domingo de manhã.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O purê de batatas e o mundo desajeitado



Leandro Marçal*

Morar em uma grande avenida é um suplício. Quando saio de carro, dou de cara com o trânsito sempre frenético, sem cerimônia. Meu vizinho, para piorar, estaciona seu velho carro vermelho colado ao término da nossa guia rebaixada, tampando a visão de uma subida chata onde os veículos surgem de repente, o que me obriga a apelar para uma ajuda do pai ou da mãe para não causar um acidente.

— Vai, eles gritam.

Saio de ré e manobro rumo a algum lugar em que a chegada por transporte coletivo é mais difícil ou quando vou chegar numa das madrugadas de antes de chegar aos 30 anos.

Não sou um grande fã de dirigir. Meu pai ama. Quando minha mãe está a seu lado, ele simula manobras arriscadas para rir de seus projetos de gritos de medo, que os faz lembrar um velho hábito de meu falecido avô taxista e brincalhão.

Os costumes automotivos são só uma das tantas manias diárias que os velhos usam para jogar na minha cara, com muita sutileza e lirismo, a minha completa inapetência para quase todas as tarefas humanas que envolvem coordenação motora.

Como o purê de batata e o painel. Não sei qual a mágica, toque especial ou dom que minha mãe tem para fazer de uma viscosidade - algo mais importante do que a mistura - o almoço de sábado. Mesmo dia em que meu pai se irritava, pois o montador de móveis não apareceu para tirar a TV da sala de cima do rack e montar logo o painel novo, comprado na segunda-feira. Não fossem as ameaças da minha mãe, ele teria montado aquele treco – palavras dele – em uma manhã sem futebol nesses canais de TV por assinatura, que transmitem tudo ao vivo.

Meu pai é daqueles que tem na caixa de ferramentas os instrumentos necessários para a criação de outro mundo, caso houvesse um replay do dilúvio. Ela é das que mantém cinco panelas no fogão de quatro bocas, enquanto atende um vendedor chato no portão e acha um par de meias perdido há três dias em questão de segundos.

Tenho o costume de espalhar fumaça quando frito um bife e não sou entusiasta de trabalhos braçais e manuais. Admiro quem possua esses dons por mim tão inalcançáveis quanto correr uma ultramaratona.

Sou do grupo de pessoas que andam dez metros e derrubam algo ou tropeçam em algum espírito invisível. Ao mínimo barulho estrondoso lá embaixo, minha mãe pergunta se estou bem e o que quebrei, enquanto meu pai dá risadas no sofá da sala, agora com painel e a TV na mesma parede da porta de entrada.

Eles dizem que se houvesse uma máquina semelhante à Matrix ou Avatar, eu seria o primeiro a comprar e a usaria nas tarefas desafiadoras aos desajeitados como o filho deles. Também falam que é melhor eu me dedicar a essas coisas que eu faço no computador, se não quiser morrer de fome.

Eu dizia sempre que era melhor eles aprenderem a diferença entre notebook e tablet para não ficarem tão atrasados, com um tom de sarcasmo.

Dia desses, perguntei o placar do jogo. Eles nem sabiam, de tão viciados que estavam no jogo de paciência. Cada um em um notebook diferente, enquanto os apitos no aplicativo de mensagens soavam e a mãe reclamava dessas correntes chatas.

Quando eles fecharam o portão para mais uma noitada com “se cuida, filho” e conselhos pedindo juízo, pensei nos tempos em que minha mãe não conseguia achar o botão de ligar o videocassete e meu pai não sabia a diferença entre e-mails e sites.

Eles aprenderam. Eu ainda não sei o ponto de um bom purê de batatas.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", realizado em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.