sábado, 31 de dezembro de 2011

Esperando Daniel ...

Sentei-me em um banquinho, pedi uma garrafa d’água e me fiz esperar. Ele estava atrasado, me disse José Luiz, por conta de um compromisso de família. Como também tenho filhos, sei o quanto nós nos atrasamos por eles e, principalmente, para ficar um pouco mais com eles.

Havia feito a lição de casa, obrigação de qualquer jornalista. Li a obra que motivava o encontro, a biografia de Machado de Assis. Na verdade, a conversa seria mais específica, uma sub-paixão do amor original dele por Machado de Assis. A reportagem seria sobre o teatro do escritor, uma faceta menos valorizada por críticos, quase ignorada pelo público. O texto faria parte de um site que, infelizmente, não decolaria além da página 2.

A livraria Realejo, no coração do Gonzaga, em Santos, estava lotada em um sábado à tarde. Calorenta pela quantidade de pessoas que por ali passavam. José Luiz, de tempos em tempos, me pedia paciência, mas exalava mais ansiedade, pois dependia da chegada dele para manter aquele movimento de final de tarde.

Depois de uma hora, Daniel Piza apareceu. O sorriso era tímido e discreto, de quem parecia se impressionar com o alvoroço, ainda mais em torno dele. Percebi que teria pouco tempo para conversar com Daniel. Haveria um bate-papo com leitores no andar superior da livraria, como a cereja do bolo de autógrafos de sua obra.

Tanto eu quanto Daniel sabíamos que o pedido de 15 minutos de conversa seria desrespeitado. Como jornalistas, adoramos quebrar as regras para arrancar declarações a mais do entrevistado. E, em minha pretensão, pretendia abordar pelo menos 20 temas diferentes, ligados ou não ao teatro machadiano. Exclusividade não brota todo dia.

Ele se sentou no banquinho ao lado. Com muita gente em volta e a distância reduzida a um metro e meio, a primeira decisão foi deixar o gravador onde estava, descansando na mochila. Seria no bloquinho e na canetinha, além do esforço de memória para absorver e guardar tantas referências e muitos minutos de resposta – aula? - para cada pergunta.

No início, Daniel Piza parecia resistente e incomodado com tantas interrupções de leitores. Para mim, era a ocasião possível. Ou cercava o homem ali, no aperto no canto entre a escadaria e o balcão do cafezinho, ou ficaria sem entrevista. Com paciência, pedia que retomasse o raciocínio a cada parada marcada por elogios e comentários sobre a obra dele. Ou sobre a última coluna no Caderno 2.

Lá pela quinta pergunta, percebi que Daniel entendera como seria a conversa. Tentava fazer as coisas ao mesmo tempo. Ou melhor: conversar com duas ou três pessoas de forma simultânea. Eu que me virasse para entender quando se referia ao teatro de Machado de Assis, às influências literárias e ao cenário dramatúrgico atual, enquanto tecia comentários sobre a política brasileira, uma crônica específica, as impressões sobre Santos.

Minutos depois, chega Vivian, a fotógrafa que me acompanharia na reportagem. Com dificuldades para estacionar o carro e vinda de outra matéria, ela entrou esbaforida, com o dedo no clique como se estivesse pronta para eternizar o flagrante. Ambos mal foram apresentados e a conversa continuou até que os leitores demonstravam certa impaciência com aquela entrevista. A exclusividade relativa se desenhava como exclusão coletiva.

Como Daniel começava a se mexer em demasia no banquinho, percebi que a última carta precisa cair na mesa. Ou no colo dele. Perguntei sobre futebol. Era a senha para o relaxamento. Ao falar do assunto, Daniel visivelmente se sentia mais sereno. Adorava escrever sobre o tema e, ao que me parecia naquele momento, comentar sobre times e jogadores como se estivesse na mesa de boteco, sem maiores amarras ou pudores.

O papo ganhou uma sobrevida de cinco minutos. Daí em diante, era a hora dele discorrer com propriedade sobre a literatura e as artes no Brasil para um público de aproximadamente 50 pessoas. Mais uma hora de boas palavras.

O episódio acima foi uma das entrevistas que fiz com o jornalista Daniel Piza, vítima de um acidente vascular cerebral neste final de ano. Um dos profissionais mais brilhantes do jornalismo atual, Daniel tinha apenas 41 anos. Passou pela imprensa de São Paulo, onde fez escola como representante do mais profundo e comprometido jornalismo cultural.

Confesso que, quando li a notícia na Internet, pensei que fosse mentira, uma dessas brincadeiras de virada de ano. 41 anos? Tanto ainda a produzir artística e jornalisticamente! Tanto a refletir e testemunhar! Só entendi o impacto quando li a reportagem do Estadão, veículo onde Daniel trabalhava.

Sem virar as costas para o comercial e sem arrotar falsa paixão pelo alternativo, Daniel Piza sabia da importância do conflito de ideias como forma de crescimento próprio e de seus leitores. Era um daqueles jornalistas à moda antiga, que se recusava a viver da especialização e do instantâneo e se envolvia em diversos assuntos, firme nas opiniões, preocupado em mantê-las com informação.

Daniel era defensor do jornalismo cultural de qualidade, independente de agenda e outros instrumentos do marketing e do entretenimento. Essa foi uma das razões pelas quais me tornei leitor assíduo de sua coluna no Estadão todos os domingos. A leitura sempre caminhava pela surpresa, pois me provocava de indignação ao sorriso de concordância.

Daniel Piza era seguidor – mesmo quando não desejava – de Paulo Francis. Dava-se o direito de mudar de opinião, mesmo que fosse a 180 graus. Por vezes, andava pelo conservadorismo de posições, principalmente quando discorria sobre política. Mas não se pode acusá-lo de leviandade ou obscurantismo. Daniel Piza era erudito o suficiente para duvidar de si próprio. Outra justificativa para ouvi-lo sem atrasos.

Como leitor, só me restou homenageá-lo – diante de tamanha trapaça da vida – com palavras, as quais ele valorizava como um artesão, um escravo delas. E lamentar pelo empobrecimento inoportuno do jornalismo cultural brasileiro. Ah, a reportagem sobre o teatro de Machado de Assis jamais foi publicada.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O livro do santo



Os livros sobre futebol estão na moda. Integram uma parcela secundária do universo de negócios dos clubes. São versões apaixonadas de torcedores ilustres, encomendas com caráter bajulatório ou revisões históricas. Até o mundo acadêmico, em parte ainda preconceituoso com o esporte, resolveu tolerar estudos e teses sobre o tema. Poucas são as obras produzidas com independência, à margem dos contratos de marketing e alheias ao controle de assessores que se comportam como leões de chácara.

“São Marcos de Palestra Itália”, de Celso de Campos Jr., se encaixa no último critério. O livro, idealizado em 2003, quando Marcos recusou oferta do Arsenal, da Inglaterra, para jogar a série B do Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras, é fruto de mais de um ano de pesquisas, principalmente em arquivos da imprensa paulista e carioca.

Editado pela Realejo, a obra já esgotou a primeira edição, virou alvo de resenhas até da mídia não especializada e aguçou o provincianismo que acompanha as últimas gestões palmeirenses. O clube se recusa a aceitar o livro sobre a vida de um de seus maiores ídolos e chegou a enviar uma notificação extra-judicial à editora, localizada em Santos, no litoral de São Paulo.

“São Marcos de Palestra Itália” não traz a palavra do goleiro. Pelo menos, dita ao autor do livro. As declarações do jogador foram extraídas da imprensa. Neste sentido, a obra ganha em detalhes documentais, mas perde em bastidores de episódios na perspectiva do goleiro pentacampeão. Aliás, Marcos segue em silêncio. Embora a obra não o desabone, pelo contrário, o goleiro não se manifestou sobre o trabalho.

O livro acompanha a vida do ídolo palmeirense da infância até o final de temporada de 2011. O início da carreira do goleiro compõe a melhor parte e as principais novidades do texto. Para muitos, o goleiro nasceu milagroso e de primeiro nível. No livro, Celso retrata o início no interior de São Paulo, onde jogava em terrão com traves pintadas em muros, a dispensa do Corinthians e os avanços e retrocessos no Palmeiras, até a titularidade no time profissional.

Neste período, Marcos teria sido trocado por 12 pares de chuteiras com o Lençoense, equipe de Lençóis Paulistas, no interior de São Paulo. Mais uma das lendas que envolvem o santo, exímio contador de “causos”.

À margem da biografia de Marcos, o livro possui também o mérito de detalhar a construção e o desenvolvimento da escola de goleiros que se tornou o Palmeiras. O autor sustenta com propriedade o papel de Valdir Joaquim de Moraes e Carlos Pracidelli na formação de camisas 1 nos últimos 20 anos do clube, além de fazer um histórico da posição no Parque Antártica. O livro explora, em paralelo á trajetória do biografado, os caminhos percorridos por Velloso, Ivan, Sérgio e Diego Cavalieri, entre outros goleiros formados ali.

Celso de Campos Jr., também autor de “Adoniran, uma biografia”, sobre o compositor paulista Adoniran Barbosa, imprimiu o ritmo jornalístico à narrativa. Não há arroubos literários ou poesia sobre os milagres do goleiro, comuns na crônica esportiva. O texto é seco, nem por isso mais pobre. É informação sobre informação. O autor evita se colocar ou se posicionar na maioria das situações. Por vezes, deixa escapar um ou outro adjetivo, mas sem se omitir diante dos fracassos e dos erros cometidos pelo biografado.

A leitura, aliás, é bastante agradável. Li o livro em dois dias. Isso não acontecia comigo diante de um livro sobre futebol desde “Estrela solitária, um brasileiro chamado Garrincha”, biografia escrita pelo jornalista Ruy Castro. Os percalços, ressurreições e glórias do maior ídolo do Palmeiras desde Ademir da Guia garantem a virada de página, mesmo que o leitor saiba o resultado final do jogo ou do campeonato.

“São Marcos de Palestra Itália” caiu como uma luva (com o perdão do trocadilho) no mercado editorial, pois chega às livrarias em um momento de dúvida: Marcos volta para a temporada de 2012? O jogador tinha um acordo informal com a diretoria, que previa o término da carreira no final deste ano. Depois, Marcos assumiria um cargo – ainda não definido – na comissão técnica do clube.

A decisão só deve ser anunciada no início de janeiro, quando o time retorna das férias. De qualquer modo, o goleiro-santo foi eternizado em palavras escritas, ainda que sua igreja e sua religião ameacem excomungar o escriba e sua obra.

Procura-se o Natal


As festas natalinas parecem conceder uma autorização especial. Um passe para que se sofra de amnésia das mágoas inexistentes do resto do ano. Um acordo para que se finja tolerar o outro, símbolo do insuportável quando a normalidade é reinstalada.

Esta autorização especial seria uma espécie de concessão de princípios antes abandonados. Seríamos transformados em cobaias temporárias de valores que ocupariam prateleiras de artefatos arqueológicos. Mas o Natal talvez esteja divorciado deste passaporte ecumênico. O Natal talvez esteja flertando com outra data, o Carnaval, quando tudo pode, quando tudo é permitido desde que se enterrem as transgressões na quarta-feira de Cinzas.

Natal e Carnaval são primos irreconciliáveis. São de naturezas e origens diferentes. A incompatibilidade de gênios se reforça quando importamos, como um Frankstein esquizofrênico, os exageros da folia para o Natal. As festas de final de ano viraram um Carnaval de consumo, período em que comprar se constitui – mais do que em outras datas – obrigação social.

Comprar e exagerar para ostentar? Comprar para se encaixar nos modelos cobiçados e sutilmente descartar sob cínica vergonha. Provar para si e, principalmente, para os outros que se pode avançar o semáforo quando quiser e retornar ao ponto de origem sem danos ou sanções. Neste sentido, endividar-se se traduz como efeito colateral para quem se desespera em pertencer, às vezes, a qualquer grupo.

A autorização especial, marcada por valores, mudou-se para o campo abstrato das cifras. Para torná-las palpáveis, sacamos - na velocidade do revólver de um cowboy – armas como cartões de crédito, talões de cheque, carnês e boletos bancários. O sucesso desta tática se multiplica na quantidade de sacolas e seus símbolos impressos de prazer momentâneo, mesmo que não haja meio de carregá-las ou suportar suas conseqüências financeiras.

Vejo, por exemplo, motoristas em estado de selvageria, obcecados por buzinas e xingamentos, com pressa para alcançar uma vaga no templo shopping center. Testemunho adultos na fronteira da neurose, quase saindo no tapa como crianças, em guarda pelo último brinquedo exibido na TV. Para muitos pais, a chance de evitar o “não” que magoará filhos mimados, ávidos por mais uma peça no quarto-parque de diversões, a ser descartada antes do Papai Noel sair de férias.

Vivencio falsos momentos de fome e sede, no auto-engano que compactua com a comilança a nos transportar para as orgias gastronômicas romanas. Como paliativo, as promessas de dieta do Ano Novo (por coincidência, cai na segunda-feira) ou as pílulas coloridas, de um arco-íris farmacêutico milagroso.

O laço de fita do pacote natalino ata o nó de cinismo nos discursos dos templos que nos vendem da última novidade em tecnologia ao passaporte de encontro a Deus. Profetas gastam saliva e suor com recomendações de amor ao outro, como se expurgassem a guerra por rebanhos e o preconceito disparado contra o vizinho, de fé diferente no resto do ano.

As festas natalinas poderiam seguir o exemplo, à sua maneira, das lojas de departamentos. Depois da euforia de consumo, fecham para balanço. Descer do trem desgovernado e pensar porque entramos nele talvez nos autorize a se aproximar do que realmente pode ser o Natal, sem que se adie a compra da passagem para o dia 2 de janeiro.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O inglês que perdeu o Natal

Enquanto aproveitava a velhice tranqüila, ele transformou sua propriedade. Ali, plantava frutas e verduras, além de criar várias espécies de animais, alheio à cidade que avançava sobre ele. Mantinha uma vida quase rural, em convivência com o progresso da Santos que se urbanizava rumo à orla da praia, de acordo com o desenvolvimento econômico via Porto e produção cafeeira.

Antes de morrer, deixou como legado a divisão da propriedade em vários lotes. Contemplava os familiares, antes que as mudanças urbanas pulassem a cerca e batessem palmas como se tocassem a campainha. O inglês sentia o cheiro da modernidade, mas jamais imaginaria que o progresso engoliria sua área, beijando a faixa de areia. E que o cotidiano bucólico do interior da Europa seria perpetuado em nome de rua. Ao lado, outra rua eternizaria suas origens.

Robert Sandall (hoje se chama Roberto, na versão aportuguesada) ficaria famoso por outra transformação. A metamorfose ocorre anualmente, com dois meses de duração. A novo visual começa a ser desenhado em novembro, quando um exército de homens e mulheres se armam de escadas, fios e lâmpadas coloridas. É um trabalho de formigas amadoras, remuneradas para outras funções, que resulta em uma alameda onde as luzes assombram de admiração àqueles que perguntam quem foram os designers adeptos da humanidade natalina.

A cada ano, novos cenários e coreografias esculpem as calçadas e fachadas do lugar que, mais de 60 anos atrás, amanhecia ao cantar do galo e atravessava o dia sob a sinfonia de porcos, galinhas e outros bichos. Ali, nada é para sempre. Tudo se adapta, ainda que o tema da obra seja inflexível.

A rua Roberto Sandall, homenagem ao antigo dono do terreno, é uma via comum durante o dia, uma passagem entre duas avenidas na Ponta da Praia, em Santos. Ao anoitecer, vira um microcosmo do horário do rush. A rua fica congestionada pela procissão de carros e motos em baixa velocidade, que transportam motoristas e passageiros boquiabertos pela beleza das luzes dos 14 prédios a compor o bosque de Natal.

A decoração, tradicional há mais de 20 anos, rendeu prêmios simbólicos para a rua. A Roberto Sandall também foi retratada com poesia pela falecida cronista Lydia Federici, em 1994. É um ponto turístico informal, circunstancial, fora dos catálogos oficiais, que surpreende turistas e moradores da cidade, satisfeitos em repetir o trajeto de 300 metros todos os anos. Eles buscam elementos novos, nas árvores, nas pilastras ou nas janelas. Muitos refazem o percurso como anfitriões de convidados de primeira viagem e apontam, com orgulho, os detalhes do patrimônio cultural em transição.

Desconheço como eram os Natais de Robert Sandall. Apenas imagino o breu que deveria dominar as áreas mais periféricas da chácara do inglês. Por mais que iluminasse ou enfeitasse sua casa, Robert provavelmente ficaria de queixo caído ao ver a renovação de seu pedaço de chão caiçara.

Em tempos de festas com exageros de múltiplas ordens, olhar para as luzes da rua Roberto Sandall permite que, por 300 metros, seja possível lembrar o que significam os símbolos que fazem o Natal. Sem custo, sem consumo neurótico, no único congestionamento prazeroso de uma cidade que atropelaria mais uma vez o nobre inglês e sua chácara (hoje) imaginária.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Santos de todos nós


Senti compaixão pelo Santos. Fiquei paralisado diante da TV, sem pensar em ir à janela gritar em espanhol. Não fiz brincadeiras com amigos e parentes. Estava boquiaberto ao testemunhar um jogo que derrubava minhas esperanças de mudança. A derrota do Santos assassinou a última ilusão de ufanismo sobre o futebol brasileiro. Prevaleceu a frieza da racionalidade, traduzida na irritante e paciente troca de passes até o bote catalão.

O Santos é o melhor time do país, mas significa pouco diante da selva além das fronteiras nacionais. O jogo de hoje poderia servir como a exceção que não confirma, mas mascara a regra. Se houvesse equilíbrio, o auto-engano seria perpetuado.

O Santos nos iludiu com a promessa de que seria possível apagar todos os sinais de alerta, todos os recados que nos foram dados ao longo da temporada. Perder para o Barcelona era previsível, independentemente das opiniões amenas de comentaristas que servem à manutenção da audiência. Sofrer com a base da seleção espanhola era carta marcada, mesmo que a paixão selvagem tentasse encobrir defeitos evidentes desde o início do ano.

O Santos refletiu, de maneira cristalina, que classificar o futebol brasileiro como o melhor do mundo é agir de má fé, mentir sem pudor. Fingimos indignação e desqualificamos o ranking da Fifa quando o Brasil deixa de estar entre as cinco melhores seleções. Buscamos desculpas para justificar a saída contínua de atletas que enfraquecem os times “grandes”, endividados até a alma e cínicos quando repatriam ex-jogadores ou mão-de-obra de segundo escalão.

Aceitamos a conversa de que amanhã será diferente porque um jogador diferente talvez permaneça mais tempo por aqui. Minimizamos a lista de titulares e reservas que quebram contratos como crianças mimadas descartam um brinquedo novo.

As mensagens estavam disponíveis para todos. Na Copa Libertadores, nenhum time brasileiro fez campanha memorável. O Santos foi a exceção, embora tenha se classificado com a porta quase fechada. Os demais candidatos se arrastaram pelo caminho, recolhendo os próprios pedaços em vexames sucessivos. O Corinthians que o diga, vencedor do Campeonato Brasileiro, torneio tão festejado quanto equilibrado na pobreza!

A Copa Sul-Americana reforçou a fragilidade do futebol atual. Apenas o Vasco chegou às semifinais, quando foi derrotado pela Universidade do Chile, invicta há 35 partidas. O campeão havia atropelado também o Flamengo, sem sofrimento ou dúvida.

A seleção brasileira, que falseia uma renovação organizada, não incomodou na Copa América. Nos amistosos contra equipes européias de primeiro nível, apenas derrotas ou empates de rodapé. Para aliviar a culpa, levar ao palco o teatro com galinhas mortas, surrando times de importância restrita ou discutível.

Festejamos quando Neymar e Daniel Alves aparecem entre os 23 melhores jogadores da temporada. Cinco anos atrás, o Brasil apresentava dois atletas entre os cinco melhores. Hoje, parte dos titulares da camisa amarela gasta os quadris no banco de reservas nas grandes equipes da Europa.

A seleção deposita as esperanças de vitória na Copa do Mundo em casa nas costas de um garoto de 19 anos, como o trunfo que derrubará a banca por estas bandas. Enquanto isso, o técnico de fala mansa troca as demais peças do time como se o início de história estivesse congelado em replay. Quase 100 jogadores, muitos deles em destino ignorado após duas convocações e um contrato milionário do outro lado do oceano.

Ver o Santos tomar uma goleada do Barcelona não dá prazer algum. Mais do que fortalecer a consciência de que os espanhóis mandam na floresta e o leão tem rosto de argentino e cheiro catalão, é notar que o bosque por aqui pega fogo, enquanto as hienas pulam Carnaval com a crença presunçosa de que tudo se encaixará nos próximos três anos.

Em tempo: o Santos não precisava se curvar diante da melhor equipe da atualidade. Nas expressões de alguns jogadores, a ressurreição do Complexo de Vira-lata, de Nelson Rodrigues. Parecia uma fusão de admiração e medo que se refletia no excesso de fair play, nos pedidos efusivos de desculpas, inexistentes por aqui. Ser servil no futebol é dar o primeiro passo para a goleada do adversário.

O otimismo, ao menos, se agarra nas palavras de Neymar, que disse entender a noite em Yokohama como aprendizado, ao contrário de muitos, que caçam defeitos microscópicos em quem pode nos mostrar como reverter uma entressafra, aliada à previsão de falta de chuvas na próxima colheita.

O sono dos japoneses


Depois de muito tempo, teria uma manhã de folga. Poderia dormir sem depender do despertador ou da janela aberta para indicar o início do dia. Mas havia, no meio do caminho, a estréia do Santos no Mundial Interclubes. A partida contra os japoneses – sei que não representam o país, mas a presunção nos leva a chamá-los assim – começaria ao cantar do galo. Oito e meia da manhã era quase madrugada para quem pretendia zerar o cheque especial do sono atrasado.

Resolvi dar voz ao corpo cansado e ignorar a partida do Santos. Mas, como jogador em final de carreira, que insiste em dar o comando ao cérebro em detrimento das pernas, acordei mais cedo, no piloto automático. Precisamente, às 8h23, sete minutos antes do jogo. O mínimo de lucidez indicava que virar para o lado e continuar o processo de recuperação da máquina gasta e surrada.

Com a decisão tomada, o controle durou poucos minutos. A explosão de fogos de artifício não entrava na conta do desagradável, até porque havia me acostumado com o som desde a noite anterior. O problema é que as janelas vizinhas abrigavam diversos locutores que gozavam ao atualizar o placar eletrônico. Acompanharia o jogo mesmo com a janela fechada, com áudio ao vivo mais informações básicas da partida.

— Dá-lhe, Santos! Neymar, Neymar, Neymar.

O dá-lhe não era coisa de velho. A expressão antiga renascia na boca de um jovem, que gastava o verbo com o primeiro gol do Santos. Era a voz que se destacava no coral, pouco perceptível para alguém bêbado ... de sono.

Com o Santos na frente, imaginei que o time reduziria o ritmo e poderia dormir um pouco mais. Quem sabe 1 a 0 encerrava a folia? Minutos depois, outro sobressalto com Borges. Vários gritos, fogos, batucada, tudo ao mesmo tempo. Parecia alarme de incêndio às três da manhã, dentro do quarto! Sabia que o placar aumentara, mas – desta vez - desconhecia o autor do gol. Indignado com a informação fragmentada, pensei:

— Quando acordar, leio na Internet e acompanho os programas esportivos do almoço na TV!

Daí para frente, o Santos realmente tirou o pé do acelerador e colaborou com meu descanso. O gol japonês calou a torcida da vizinhança. Só não imaginava que a pressão dos adversários deixasse a turma muda por mais de uma hora.

Ou será que o Santos me venceu pelo cansaço? Não escutei o gol de Danilo. A animação murchou? Duvido, os japoneses continuavam correndo. O exausto era eu. Soube do resultado final apenas hora do almoço. Acreditava em 2 a 0 pelo ouvido em recesso e pelos vizinhos bipolares.

O domingo implica em regime de exceção. Acordar cedo para assistir à partida mais importante do ano. Seja para quem ama, seja para quem seca. Um resultado é definitivo: a insônia vai prevalecer, ainda que tenha que fugir do exame anti-doping.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Casa de velhos

Estive, nos últimos dias, numa clínica para idosos, para a elaboração de um relatório sobre pacientes com Mal de Alzheimer ou senilidade. Na verdade, enfermidades muito parecidas, mas a primeira entrou no jargão popular como sinônimo de esquecimento, das mais variadas intensidades. O nome, quem sabe pela origem alemã, dá maior valor à falha da memória.

A clínica, pela riqueza das histórias de vida espremidas em quartos e em pátios de recreação, indica – em seu pequeno universo – como a cidade caminha para o envelhecimento. Confesso que me sinto profundamente tentado a utilizar a palavra asilo, termo execrado pelo politicamente correto e por aqueles que acreditam que o vocabulário alivia a dor do isolamento, ainda que junto de outras pessoas em condições similares.

Somos uma sociedade rumo à velhice. Nada de idosos ou outras expressões. Santos é, em parte, uma cidade de velhos, e não se trata de usar a palavra com desdém ou de forma pejorativa. Apenas entendo que ela pode desnudar certas questões ainda mascaradas no convívio social.

Enquanto o Brasil tem 9% da população acima de 60 anos, Santos conta com 20%. Isso significa mais de 80 mil habitantes. A cidade atrai muitas pessoas, essencialmente de classe média, dispostas a vivenciar uma aposentadoria com conforto e serenidade. O município criou, ao longo das últimas duas décadas, condições boas para uma velhice saudável.

O problema reside quando a velhice não se torna tão tranqüila quanto o mar que visita a baía diariamente. Ser velho, estar doente e não possuir condições financeiras é sintoma de uma vida que assassina o descanso como recompensa. A República de Idosos, por exemplo, é um projeto pioneiro no país. Possui 42 vagas. Destas, 31 estão ocupadas. Dos quatro imóveis, três se encontram lotados. A casa da rua Silva Jardim abriga só três pessoas. As demais vagas não podem ser preenchidas por problemas de estrutura no imóvel.

Santos registrou o crescimento, nos últimos anos, no número de clínicas residenciais. Hoje, 33 estão cadastradas oficialmente na Prefeitura. Somente três têm convênios com a administração municipal e recebem pessoas de baixa renda, ou seja, até dois salários mínimos mensais. As mensalidades nas clínicas variam de R$ 1500 a R$ 4500 por mês, valores impensáveis para quem sobrevive de aposentadoria – quase uma gorjeta – do Governo Federal.

A previsão, para os próximos 20 anos, é de aumento acelerado na população acima de 60 anos. O Brasil atingirá a marca de 20% de idosos. E Santos, como ficará se já alcançou tal índice? A expectativa de vida, por sua vez, chegou aos 74 anos no país. A implicação imediata é a velhice e a aposentadoria prolongadas. Se não houver planejamento, a classe média continuará sorrindo nos filmes institucionais, enquanto os escravos da Previdência vão mendigar por vagas em instituições.

Independentemente das políticas públicas, é fundamental redimensionar a relação da nossa cultura com os mais velhos. Mantê-los ativos em sociedade significa assegurar a última etapa da vida com humanidade. Para isso, é preciso reler a ideia de descartar pessoas como objetos. Esquecer o outro pode ocorrer com luxo ou como um latão de lixo na calçada.

Uma observação: o título deste texto é “emprestado” da reportagem de mesmo nome, publicada pela jornalista Eliane Brum, na revista Época. Compartilho da ideia de que nomes bonitos e leves não amenizam a dor e o sofrimento de quem viverá internado até o final da vida.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Um time equilibrado

Ganhar o Campeonato Brasileiro não fornece ao Corinthians o cargo de melhor time do país na atualidade. Talvez seja o mais equilibrado, aquele que consegue se adaptar melhor ao modo de jogar predominante por aqui e extrair com eficiência de seus jogadores a disciplina de grupo, além de mascarar a pobreza técnica que permeia o futebol brasileiro, salvo as exceções desgastadas pela repetição.

O time campeão de 2011 lembra outro grupo corintiano que venceu o Brasileirão, mas não deixou um rastro de troféus. As semelhanças entre a equipe de hoje e o elenco de 1990 estão mais vivas na qualidade individual dos jogadores, basicamente atletas medianos que vestiram a camisa no auge de suas carreiras, e no espírito de um time que fez jus literalmente à esta palavra.

A grande diferença, porém, está desenhada no mesmo aspecto. O time de 1990, que derrotou o São Paulo por 1 a 0, gol de Tupãzinho, tinha goleiro em nível de seleção brasileira. Ronaldo foi titular por uma década e só não foi convocado mais vezes em parte pelo temperamento explosivo, em parte porque nasceu na geração errada. Como concorrer com Taffarel e Zetti, por exemplo?



Tupãzinho - ontem e hoje
Julio Cesar foi o menos vazado da edição deste ano, mas isso se deve mais à solidez defensiva do que às qualidades do goleiro. O clube e parte da torcida não confiam nele. Tanto que o Corinthians contratou Renan, revelação do Avaí, e especula sobre Cassio, ex-Grêmio e seleção sub-20.

A maior distinção reside, no entanto, na camisa 10. O ano de 1990 foi o ápice da carreira de Neto, um dos maiores meias dos últimos 20 anos em terras brasileiras. A camisa 10 atual está órfã, ocupada de maneira transitória como símbolo. Danilo sobrevive à custa de instabilidade, mesma sina de Alex, que poderia ocupar o espaço. Quem diria que Douglas, hoje no Grêmio, deixaria saudades? Na verdade, Adriano poderia ser o “diferente”, mas jogou o ano – e provavelmente a carreira - na caixa de areia.

No restante, os dois times eram a síntese de uma engrenagem bem lubrificada. Sem outros destaques, as duas equipes mantinham defesas sólidas, protegidas por volantes que mordiam até a exaustão. O time atual é mais rico no setor, com Paulinho e Ralf entre os melhores da posição. Em 1990, Marcio carregava o piano e possuía como auxiliar Wilson Mano, o coringa-operário daquele grupo.


Corinthians - 1990

O restante do meio-campo não era memorável, principalmente entre os meias. O time de 1990 dependia de Neto. O de hoje se equilibra no revezamento de vários nomes e na chegada dos volantes ao ataque. Paulinho marcou oito gols no torneio, mas - em breve - deverá voar para a Europa.

O ataque era o ponto frágil de ambas as equipes. Poucos gols, poucas possibilidades de artilharia. A exceção é que o time atual possui Liédson, que esteve machucado em parte da temporada. Mesmo assim, marcou 12 gols. Em 1990, Tupãzinho e Fabinho tiveram seu ponto máximo com o título nacional. Não prosperaram em outras bandas. E Viola ainda iniciava a carreira.

Outra semelhança ocupava o banco de reservas. Tite e Nelsinho Baptista eram técnicos em busca do convite para integrar a elite nacional da categoria. O desejo é figurar nas listas de sucessão do técnico da seleção nacional.

Nelsinho Baptista, nestes últimos 20 anos, ganhou vários campeonatos, mas nunca fez parte da ala vip. Hoje, está no Japão na disputa do Mundial interclubes. Tite, que havia vencido vários estaduais, depende do próximo passo: continuar ganhando em clubes de ponta. A Libertadores é a chance de ouro, mas depende de mudanças no elenco atual.

O time de 1990 teve o mérito de abrir a porta. Faturar o primeiro campeonato durante um período de entressafra do futebol brasileiro. Ídolos em final de carreira, revelações queimando etapas de desenvolvimento, seleção brasileira com a credibilidade em dúvida. Daí em diante, o cenário paulista ficou nas mãos do São Paulo, que levou o Mundial duas vezes, e do Palmeiras-Parmalat. Ambos ajudaram a compor a seleção brasileira campeã do mundo em 1994.



Brasileiro/2011 - Vitória de 2 a 1 sobre o Grêmio
O Corinthians de 2012 precisa dobrar a curva para não repetir o desfecho da biografia de 1990. Com o elenco atual, são pequenas as chances de assassinar as brincadeiras alheias sobre o deserto de conquistas além das fronteiras nacionais. O ano de 2011 deu vários sinais para o futebol local. Apenas o Santos teve excelente desempenho. Na Copa Sul-americana, apenas o Vasco alcançou as semifinais. Os demais brasileiros caíram nas fases iniciais.

O próprio Corinthians amenizou, de certa forma, o vexame da pré-Libertadores. Terá a oportunidade de enterrar o fantasma. Mas é fundamental enterrar também parte do grupo que conquistou o Campeonato Brasileiro, com sofrimento, na última rodada, sob o risco de reviver o Tolima com outras cores de camisa.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O doutor que receitava política





Quando você tem oito anos e é capaz de perceber que o vírus do futebol corre em seu sangue, é fundamental escolher uma doença para sofrer, se recuperar, se tratar, sofrer novamente, em um círculo de prazer e dor para o resto da vida. Esta doença te marca em brasa com um símbolo que, por coincidência, aparece estampado em camisetas, shorts e outros elementos de um uniforme.

Para ficar adoentado de vez, temos que localizar outros da mesma espécie que demonstrem padecer dos mesmos sintomas. É claro que a doença pode ser alarme falso, de manifestação momentânea, uma epidemia de verão, detectável em um exame simples. O paciente, se beijou o símbolo do clube em público, é como aquela criança que finge febre para faltar à escola. O amor cristaliza em prazos mais longos e atitudes, muitas vezes, reprováveis.

Com oito anos, vivi – com inocência infantil – a democracia corintiana. E o maior ícone daquele período era um homem esguio, que corria ereto, fingindo ignorar a bola grudada em seus pés, na falsa arrogância de olhar por cima dos oponentes e enxergar no limite do horizonte, entrelaçado nas redes do gol adversário.

Sócrates e outros, como Wladimir, Zenon, Biro-biro, Alfinete, Solito, Ataliba e Casagrande, me fizeram escolher a doença dos mais pobres, a doença tropical que exige médicos sanitaristas e quarentenas para conter a multiplicação inevitável e fatalista.

Qualquer criança sempre escolhe o time que vence. E este foi o critério para aceitar ser inoculado pelo vírus corintiano em 1982. O Brasil estava infestado de grandes equipes. O São Paulo, de Valdir Peres a Serginho Chulapa. O Flamengo, de Andrade, Adílio e Zico. O Vasco, de Roberto Dinamite. Mas o Corinthians estava mais próximo, jogava sempre de maneira mais doída. Na cabeça de uma criança, um enredo de aventuras, com surpresas e reviravoltas, mas (quase) sempre com final feliz.


O ano de 1982 também reservava minha primeira lembrança efetiva de uma Copa do Mundo. A melhor seleção brasileira que vi jogar. Sócrates não apenas fazia parte do time. Era o capitão! E produziu uma lembrança vívida no gol em Dino Zoff, na derrota para a Itália. Poucos tinham o privilégio (dom?) de vencer o goleiro italiano, um monstro aos 40 anos.

O envelhecimento te dá outras leituras dos mesmos fatos. E passei a admirar Sócrates ainda mais. A formação política, a postura dentro de campo, a recusa em ser politicamente correto e a rejeição às palavras mecânicas nas entrevistas inertes representam elementos que compuseram um ex-jogador que entendia seu papel social.

Limitar a visão política de Sócrates à participação no movimento Diretas Já é reduzi-lo ao personagem que morre no primeiro capítulo. Ele sempre se envolveu e manteve posição consistentes, concordássemos ou não, sem se envolver com as negociatas do esporte ou as disputas políticas viciadas da cartolagem.

O distanciamento seguro permitia a ele olhar com mais clareza a estrutura que cerca o futebol e, desta forma, escrever e refletir sobre o que a maioria dos jornalistas se recusa a observar. Sócrates dava a impressão de se entediar com a pontualidade dos jogos, os resultados e o craque de final de semana. Interessava a ele o futebol como instrumento de explicação e análise sobre a cultura brasileira e suas implicações no cenário da política, esportiva e/ou partidária.

O cinismo de Sócrates também era admirável. O sarcasmo de brincar com sua própria condição de atleta era o contraponto à ditadura da hipocrisia que afeta jogadores, seres que devem se comportar como monges isolados no monastério mais elevado da montanha. Sócrates fumava, bebia, casou várias vezes e rasgou todas as cartilhas que normalmente habitam as mesas de seus colegas de profissão. Sabia dos próprios demônios e convivia com eles.


 

O programa Cartão Verde, da TV Cultura, abrigou Sócrates nos últimos anos. Certa vez, discutia-se uma partida da seleção brasileira, e a tela mostrava um jogador sendo substituído. Nos caracteres, a indicação de que havia corrido nove quilômetros. O jornalista Vladir Lemos, apresentador do programa, perguntou como seria se o aparelho existisse nos anos 80, quando Sócrates era jogador profissional. Ele sorriu e respondeu:

— Ainda bem que não existia. Eu corria dois quilômetros, no máximo.

Depois das gargalhadas, ele explicou que, quando jogava no Botafogo, de Ribeirão Preto, cursava a faculdade de Medicina ao mesmo tempo e mal tinha tempo para treinar. Isso significava que ele tinha que arrebentar no primeiro tempo. No segundo tempo, fugia para a sombra e só distribuía bolas, até porque muitos jogos aconteciam pela manhã, embaixo de sol forte.

Da arquibancada, o pai dele gritava:

— Tira o oito da sombra! (referindo-se ao número da camisa do filho)

O passe de calcanhar, a maior herança de Sócrates, foi um recurso para acelerar a velocidade da bola sem grandes gastos de energia. A inteligência dos diferentes, conhecedores dos atalhos que levam à grande área sem escalas.

Fora de campo, Sócrates também deixará saudades, ainda mais em tempos de despolitização, seja ou não no universo esportivo, tese reforçada por atletas transformados em celebridades.

Sócrates, involuntariamente, deu seu último passe recheado de ironia. O “doutor” resolveu dar alta a seus pacientes corintianos justamente no dia em que tomaram nova dose do vírus, extintas as chances de produção de anti-corpos. O médico-jogador resolveu se aposentar e assistiu, de longe, a conquista de outro campeonato, com um time operário, desejo implícito daqueles que sonharam aproximar o futebol e a política como instrumentos de leitura de mundo, e não de proliferação de confrarias.

Agradeço ao braço erguido daquele que fundiu os Panteras Negras e o futebol, entre outras causas políticas que alimentaram a utopia de que este esporte significa mais do que somente entretenimento numa tarde de domingo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Guardas armados

A Guarda Municipal de Santos colocou esta semana, nas ruas, 18 homens munidos de armas de eletrochoque. A decisão, mais do que de segurança pública, é de caráter político e ameniza um desejo antigo da categoria. Parte da Guarda Municipal defende o uso de armas de fogo há anos. 


Será que a corporação, acusada de violência contra moradores de rua e usuários de crack, está preparada para a utilização de armamentos? Aliás, nenhum dos acusados foi punido. 


Em 26 de agosto, quando a Guarda Municipal anunciou a compra dos equipamentos e o início do treinamento de seus homens, escrevi sobre o assunto. Leia aqui.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A resposta silenciosa, na cidade (quase) dividida

Após a conquista do Campeonato Brasileiro, aconteceu o óbvio. Os corintianos foram para a rua. Buzinaço, celebração em praça, sons estéreo repetindo o hino do clube à exaustão, faixas nas janelas e bandeiras nos carros conduzidos por motoristas ainda sorridentes.

Caminhando pela cidade logo após o jogo, percebi que o óbvio não era tão redundante assim. Os corintianos em festa encararam mais um adversário de força, que colocou o time em campo, mas sem deixar claro que desejava novo apito inicial. Era uma partida, com outras regras, a ser disputada. Um desafio em perspectiva, que enterrou a tática da seca coletiva anti-Corinthians, claramente inócua, pelo menos neste final de semana.

Os santistas resolveram provocar em silêncio. A estratégia, sem organização prévia, consistia em deixar claro que o Campeonato Brasileiro acabou. O silêncio como antídoto contra a alegria do maior rival. Para diluir a vitória dele, é fundamental lembrá-lo de que o Santos, na próxima semana, disputará o torneio mais importante desde os anos 60.

Assim que o jogo terminou, os corintianos – barulhentos como manda o ritual pós-conquista - enfrentaram uma horda de soldados santistas. Homens e mulheres dispersos, como um batalhão às avessas, mas dispostos a demarcar o território do ufanismo.

No Marapé, por exemplo, uma mulher pregava – como se cumprisse uma tarefa sacra – a faixa “Santos rumo ao Japão”. No meio da faixa, o símbolo da bandeira japonesa. No Campo Grande, motoristas e motociclistas desfilavam com bandeiras e símbolos do clube, como se a comemoração do título fosse deles. Ninguém buzinava. Era a resposta com respeito ao rival, mas uma réplica, a indicação de que o momento deles acabaria logo, que seria deslocado para o passado e anteciparia a semana seguinte no Oriente.


Torcedores de várias idades andavam pelas calçadas com uniformes do Santos, como o dia seguinte de um título ainda não conquistado. A provocação da ausência de palavras, sintetizado em cores idênticas de camisa, porém símbolos que instituem caminhadas distintas. A tentativa de retomar o terreno que fora invadido sem decisão judicial ou escrituras.

O silêncio é pontual e em vão. O protesto não apaga a festa alheia. As vozes de um hino cantado em coro permanecerão na cabeça, grudadas como o sucesso da semana na mais popular rádio FM. Santistas e corintianos precisam conviver no mesmo lote de terras. O nome da cidade não garante a exclusividade ao clube homônimo. O futebol somente reforça as evidências – e quem sabe a vocação? - de que Santos não consegue se aproximar da unanimidade.

Por mais que se negue, até porque soaria como ofensa, o Santos não possui a hegemonia absoluta de torcedores. Os corintianos se multiplicaram, por razões que transitam da migração ou aquisição de campeonatos nas últimas décadas, enquanto o adversário engolia a entressafra. Os são-paulinos, por motivos particulares, também cresceram, mas em menor ritmo.

Os santistas ainda lideram em número de fanáticos, mas os corintianos estão em seus calcanhares. É neste ponto que reside a unanimidade. E este é o menor dos males, ou melhor, das divisões.



O futebol é a cereja do bolo que representa uma cidade dividida. Às vezes, quase rachada pelas estatísticas, mas – na prática – os números são ignorados pelos cortes na vida cotidiana. Na política, a cidade segue aquela expressão do futebol do bairro: PT contra rapa! Os resultados das zonas eleitorais indicam onde os petistas dominam e onde os demais partidos se lambuzam pelas derrotas da estrela vermelha.

A economia aponta para uma cidade cada vez mais desigual. Enquanto os prédios sobem em ritmo de ostentação, as calçadas de bairros não tão afastados viraram conjuntos habitacionais sem teto e paredes, mas com crescimento populacional de invisíveis.

A geografia realça o relevo cultural das várias Santos. Zona Leste e Zona Noroeste, dependendo do bairro, parecem pertencer a municípios diferentes, seja na arquitetura, seja em outros valores culturais, como expressões de idioma.

Santos poderia ser dilacerada em outros critérios, independentemente do grupo que os analisa. O futebol costuma explicar a evolução, as características e as selvagerias das culturas, mas – no caso da cidade de Santos – as provocações, silenciosas ou extrovertidas, após o Campeonato Brasileiro representam somente alegorias de um lugar onde as rivalidades alcançam níveis mais subterrâneos e nada esportivos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O tempo é hoje!


A velhice jamais bate à porta de surpresa. Manda ofícios, fala com intermediários, dá pequenos avisos. É tentador pensar que a velhice se resume às dores musculares do dia seguinte a qualquer exercício, à ausência de respostas do corpo para os desejos da mente ou aos encontros mais freqüentes com os homens de branco em salas higienizadas.

Os sinais físicos de velhice rompem com as palavras politicamente corretas que teimam em mascarar a vida rumo ao poente. Não se trata de entregar os pontos, sentar-se e esperar pelo homem de capuz negro e foice na mão. A velhice – derivada do adjetivo velho, mesmo! – não representa a melhor idade. É, no máximo, tão boa quanto às outras etapas da vida, se descontados os percalços e adaptados os recursos para absorver às experiências a seguir.

Preocupo-me com a velhice que não está algemada com a idade biológica ou com a deterioração física. A velhice de digestão quase invisível reside em expressões como “no meu tempo...”, “na minha época...” É a velhice em simbiose com o choque de gerações.

Utilizar tempos passados como argumento pode nos iludir como sinal de experiência, de olhar para trás como apego à saudade. Na verdade, um ar de arrogância, em que se pressupõe o acontecido e o narrador da história como melhores que a situação do tempo presente.

A comparação flerta com o cinismo porque o defensor de tempos mortos se desloca do próprio exemplo, embora o defenda, como alguém que não faz parte ou não tem responsabilidade alguma sobre o que acontece nos dias de hoje. A ideia de ressuscitar o tempo morto também implica em amnésia adequada ao momento presente, já que o autor da comparação se esquece que viveu ou enfrentou etapas que os mais jovens encaram agora.

Por conveniência, “no meu tempo” serve para retirar fatos e personagens do contexto. É um paralelo tão atraente quanto oco. Os cenários são razoavelmente diferentes. As causas e efeitos também tendem a ser distintas. É o momento em que o olhar intransigente ou radical prevalece.

— Os jovens de hoje não possuem valores!

                                    


A frase acima é bastante comum como papel coadjuvante que fortalece a tese de que o passado sempre se caracteriza por mais sofisticação, ética, comportamentos socialmente aceitos. Diferença não é inexistência. O “esquecimento” – outro sintoma da velhice que se avizinha – empurra para dentro do armário conceitos como amadurecimento, mudanças de vida, novas histórias, entre outros elementos que poderiam indicar que certas exigências não podem ser aplicadas a quem não percorreu certas faixas do caminho.

É evidente que hoje muitos jovens se sentam sobre o berço esplêndido e abrem o leque de direitos, materiais ou emocionais. Mas nada que justifique enterrar o presente, onde todos estamos de maneira redundante incluídos, para se agarrar no pretérito editado pela memória.

“No meu tempo” é enganar-se como ator capaz de refazer a história. É correr para trás da cortina, apavorado em assumir as falas da encenação em curso. O “homem daquele tempo” ocupa o papel de capítulo exibido, confortável na imobilidade, bêbado pela condição de vítima.

Quando as expressões se repetem com freqüência, é possível pensar em dois caminhos. Ou nos tornamos escravos da nostalgia, implorando por tempos com pouca probabilidade de ressurreição ou paralisamos diante da expectativa da morte em vida. Como remédio para ambos os males, prefiro me agarrar na frase de Paulinho da Viola: “Meu tempo é hoje!”

domingo, 27 de novembro de 2011

O ferro em brasa

Para mudar de assunto – e fugir do tradicional exercício de esculachar alunos -, dois professores resolveram debater a importância do próximo feriado, o Dia Nacional da Consciência Negra. Um dos docentes estava mais exaltado e expunha toda a politização de boutique. Travestido de cidadão indignado com o que considerava uma injustiça, o professor rugia:

— Para que este dia? Por que não temos dia dos brancos, dos amarelos, dos vermelhos? O Dia da Consciência Negra é um ato de racismo.

Como o diploma não traz sabedoria, é possível compreender que tais argumentos beiram um simplismo infantil. Datas comemorativas jamais representam os grupos dominantes. Mesmo que politicamente corretas, estas datas reforçam que ainda vivemos sob o teto do preconceito e da desigualdade, sejam mulheres, negros, índios e outros grupos que não se encaixem no padrão estabelecido como desejável para exercício do poder.

Sempre enxerguei estas datas como um paradoxo. Embora signifiquem bandeira de resistência contra o controle majoritário, elas também mascaram o comodismo de quem finge que um dia desata todos os nós. Ao menos uma vez por ano, retirariam milhões de homens e mulheres do manto da invisibilidade.

Esta semana, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse que não havia racismo no futebol. Diante da saia justa, desculpou-se, o que não apaga a demonstração de cinismo (no mínimo, alienação) da declaração anterior. Assim como Blatter, muitos por aqui se sentam sobre o mito da democracia racial para defender a ideia de que o Brasil não é uma nação racista, ao contrário de quaisquer dados sócio-econômicos. Viram as costas para as relações mais cotidianas, como o mundo do trabalho ou o sistema educacional.

Vamos pensar só nas crianças, que talvez possam usufruir algum dia de novas relações sociais brasileiras. De acordo com a Unicef, apenas 43% das grávidas negras têm acesso a sete consultas pré-natais, o mínimo aceitável. Entre as brancas, 72,4%. De cada 100 crianças brasileiras, 45 são de família pobre. No total, seriam aproximadamente 26 milhões de crianças. Deste total, 17 milhões são negras. Um bebê negro tem 25% mais chances de morrer antes de completar um ano do que uma criança branca.

O Brasil apresenta, evidentemente, particularidades nas relações raciais. Seria distorção cultural comparar como gêmeos o racismo praticado aqui com o norte-americano ou ainda com o sul-africano. O fato é que o país se esconde do problema quando o torna elemento secundário no debate público sobre as desigualdades brasileiras.

A tendência de desaparecer com o tema se manifesta por dois caminhos. O primeiro é amenizar a situação, como se racismo não fosse violência, seja pontual, seja estrutural, com o aval de governos e políticas públicas. O segundo é acusar os negros de discriminação, como se tal postura os igualasse aos brancos e retirasse o peso da violência cometida no cotidiano.

A ironia reside na exposição dos argumentos contrários. Antes designado ao silêncio absoluto, o racismo no país entrou na pauta de intelectuais e parte da imprensa, que dão ressonância para vozes que negam a discriminação racial. Para esses, 20 de novembro é mais do que uma ofensa. É o ferro em brasa que agora, simbolicamente, marca as costas quase transparentes.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Obrigação

Na última semana, recebi dois presentes de uma aluna da Universidade Aberta da Terceira Idade. Ela me deu um livro do escritor Rubem Alves. E me presenteou também com um recorte de jornal. Era a crônica Despedida, a última do mesmo Rubem Alves na Folha de S. Paulo.

No texto, ele – aos 78 anos – alega cansaço para escrever. Diz que tem cada vez mais dificuldades para encontrar algo a falar para seus leitores. E que uma crônica semanal acabou se tornando uma obrigação. “Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.”

Muitos cronistas escrevem sobre o ato de escrever quando não querem denunciar a falta de assunto. Não é o caso de Rubem Alves nem o caso deste colunista. O texto publicado na Folha me fez pensar a partir de uma frase: “A obrigação: é isso que pesa.”

A vida atual nos consome em obrigações. São compromissos, tarefas, acertos, ordens e outras determinações que, muitas vezes, nos tiram a capacidade de refletir sobre o que estamos fazendo. É como se nos transformássemos em hamsters que correm eternamente na rodinha de metal.

Corremos em círculos, o que nos faz perder a sensação de caminhada contínua, evolutiva, com um traçado definido, mas aberto a mudanças na estrada. Novas curvas, novos obstáculos, novos roteiros, passamos por eles sem que os entendamos como tais, como mudança à vista.

A ironia se esconde no fato de que as obrigações nos tornaram exigentes compulsivos. O que mais vejo são pessoas que reivindicam o tempo todo. A ideia é pedir sempre, sentar-se na condição de cliente e esbravejar, reclamar, se queixar. Neste sentido, as verdadeiras batalhas se misturam às mesquinharias das exigências pequenas do cotidiano. Tudo parece ganhar o mesmo peso, que afasta o diálogo e, principalmente, repele a reflexão adequada e serena sobre o que nos envolve.

Tenho consciência de que sempre cumprirei obrigações. Não me refiro às prazerosas. Estas situações não se desenham como fardo. Pelo contrário, representam oásis no deserto de pedidos alheios. Um exemplo é o tempo que passo com meus dois filhos. Tempo intenso, porém curto. Tempo que gera horas de pensamentos posteriores, que vão de lembranças a novas portas a serem abertas neste relacionamento.

O que pesa, para mim, são as obrigações impostas, burocráticas, desnecessárias e travestidas de compromissos inadiáveis e emergenciais. Estes supostos deveres me atingem nas mais variadas esferas sociais, não apenas no trabalho, como muitos desejam responsabilidade. O trabalho nos dá pequenas vitórias e é delas que me alimento para prosseguir.

Sonho com menos obrigações. Desejo uma vida com maior liberdade, com o direito de decidir sobre os deveres a cumprir. Mas, acima de tudo, fantasio com a vitória da poesia, que muitas obrigações insistem em ordenar a morte dela.

domingo, 30 de outubro de 2011

A falta de cabelos brancos

O jornalista Ricardo Kotscho, autor de 20 livros, defende a reportagem como caminho para o Jornalismo de qualidade*
Para aborrecer Ricardo Kotscho, a receita não é falar mal do São Paulo, seu time de coração, ou do governo Lula, de quem foi secretário de Imprensa e mantém um misto de visão crítica e amizade. O jornalista de 64 anos eleva a voz quando alguém questiona se a reportagem está morta, em coma por questões financeiras ou restrita a poucos veículos de comunicação.

Para acalmá-lo, basta deixá-lo contar sobre a próxima reportagem a ser publicada. Nem precisa perguntar. A voz se torna serena, escapam palavrões, o velho repórter abandona a formalidade. Renasce o contador de causos.

Kotscho narrou, com detalhes, os bastidores de uma viagem a Barretos, no interior de São Paulo. Sete horas de carro para acompanhar a Festa do Peão daquela cidade, a mais famosa do país. A matéria ainda não foi publicada pela revista Brasileiros, onde é repórter especial. Sairá na edição de outubro.

De um ideia inicial sobre a vida dos milionários ruralistas, Kotscho retornou à São Paulo com a história de Henrique Prata, pecuarista que estudou até os 15 anos e que hoje administra o Hospital do Câncer de Barretos, referência nacional em pesquisa e tratamento da doença.

A história foi contada em um dos auditórios da Universidade Santa Cecília. Kotscho veio a Santos para dividir uma mesa de debates sobre os desafios da profissão com os colegas Armando Pereira Filho (UOL) e Zé Gonzalez (Globoesporte.com), sob os olhares de uma plateia de 150 estudantes de Jornalismo. O encontro abriu a Semana Ceciliana de Artes e Comunicação, que integra o programa de 50 anos da instituição de ensino.

Aos 47 anos de carreira, o jornalista Ricardo Kostcho nunca ganhou tão bem. E trabalhou tão solto. Mas, para que chegasse neste ponto, ele virou comentarista da Record News, escreve para a revista que ajudou a fundar há quatro anos e é blogueiro, hoje no portal R7. “Virei multimídia por necessidade.”

A velha sola de sapato - Além disso, o jornalista está lançando o 20º livro, “A Vida que segue”, coletânea de crônicas publicadas nos últimos três anos na Internet. É a sua segunda obra do gênero. Migrar para o mundo virtual simbolizou a mudança na profissão, que resultou em mais tempo com a família, ausência de vínculos empregatícios e até o abandono da rotina motorizada.

Kotscho trocou helicópteros e aviões na capital federal por andar a pé na capital paulista. Assumiu-se como pedestre de carteirinha, tanto que vendeu o carro na semana passada e não pretende comprar outro automóvel. Promessa publicada no seu próprio balaio, na Internet.

A mudança de vida pós-Brasília, uma cidade que se alimenta de crises, segundo ele, o reaproximou da reportagem, mas não alterou a visão sobre a prática do Jornalismo. “Os novos desafios são os velhos de sempre. Mudam apenas os meios e as terminologias. Não importam o suporte e a plataforma. Sem tesão e vontade, os novos meios (de comunicação) ficam sem função.”

Ricardo Kostcho defende, com veemência, que exerce o Jornalismo da mesma maneira, desde o primeiro dia em que pisou numa redação, no jornal O Estado de S. Paulo, em 1964. Naquele dia, produziu uma matéria sobre vestibular. “A reportagem diferencia um veículo do outro. Jornalismo é descobrir, apurar e contar bem uma história.”

Homens grisalhos - Como leitor, o jornalista se sente incomodado. Para ele, o noticiário peca pela padronização de assuntos. “A impressão que me dá, como consumidor, é que aquela notícia é velha. Mesmo sendo nova, a sensação é de que a li em algum lugar.” É a forma do velho repórter dizer que o jornal só sobreviverá se for “gênero de primeira necessidade”. Palavras dele.

Ricardo Kostcho desconfia – e explica para a plateia composta na maioria por jovens jornalistas na casa dos 20 anos – que as redações redescobriram os homens grisalhos. Muitos portais – uma das razões para o bom salário – resolveram contratar profissionais mais experientes que, segundo ele, podem escrever mais do que 10 linhas ou 140 caracteres. “É fundamental mesclar velhos e novos. Nas redações, faltam cabelos brancos.”

Cego e surdo - Adepto da reportagem como essência da profissão, o velho repórter não demoniza ou crucifica as novas tecnologias. Ele as defende como espaço para matérias mais elaboradas, em convivência harmônica com a notícia mais urgente e curta.

O que o irrita é usar a tecnologia para prender o repórter nas redações, longe das ruas. “É vagabundagem. É impossível fazer pelo telefone. Checar uma informação de última hora, tudo bem. Mas eu preciso ver de perto porque sou meio cego. Preciso ouvir de perto porque sou meio surdo. As deficiências físicas ajudam no trabalho.”

Como argumento, Ricardo Kotscho cita várias vezes o colega José Hamilton Ribeiro, repórter do Globo Rural. Um exemplo: a reunião dos dois para discutir a morte da reportagem, há 30 anos, na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro. Por coincidência, ambos se encontraram, no ano passado, na PUC-SP, para conversar sobre o tema.

Kostcho se diverte parafraseando José Hamilton, para justificar que, enquanto se gasta saliva com o falecimento alheio, ambos sobreviveram ao intervalo de três décadas com o mesmo trabalho. E ainda vivem disso. Kotscho, aliás, com maior salário em 47 anos de histórias bem contadas.

* Matéria publicada no Jornal Boqnews (Santos/SP), edição nº860, em 1º de outubro de 2011.

O parque mal assombrado

Tenho dois filhos. Mariana tem nove anos e não se lembra de tê-lo visitado. Vinicius, com quase dois, está proibido de colocar os pés no lugar. Riscaram, sem saber, o parque do mapa. Adaptaram-se em outros espaços abertos da cidade, como o Jardim Botânico e a Fonte do Sapo.

Um amigo, também com dois filhos, tinha o hábito de levá-los lá quase todos os finais de semana. Passeio que incluía o relaxamento dos pais e a pipoca no cair da tarde. O Orquidário Municipal caminhou rumo ao saudosismo e rastejou para a lista de obras com a máscara de lenda urbana.

Fechado desde 2009, o Orquidário é um mausoléu verde, enegrecido pela escuridão, não apenas de noite. O parque é vítima da negligência administrativa. Basta ver a quantidade de adiamentos da conclusão da reforma e do milagre da multiplicação dos cifrões, que encarecem o trabalho e perpetuam o fechamento do parque. Enquanto isso, os burocratas transferem responsabilidades e tiram a culpa das próprias costas.

Agora, me entristece saber que o Orquidário não pode descansar em paz. Nem o coma induzido é respeitado, tanto por quem o profana como por quem deveria zelar por ele. Qualquer morador com o mínimo de senso sabe onde ficam os pontos de venda e consumo de drogas nos arredores do parque. Ali, existem, ao menos, dois locais que conectam usuários de crack, um na linha do trem e o outro à beira da imagem de Nossa Senhora de Lourdes.

De vez em quando, o comércio é suspenso com a prontidão da Polícia Militar ou com a visita amigável dos guardas municipais. Dependentes de crack são tratados como questão de segurança, e não de saúde pública, ao contrário dos debates mais recentes em âmbito internacional.

O que o Orquidário tem a ver com isso? O parque se transformou em alvo para quem troca qualquer objeto por drogas. A reportagem de Bruno Lima, no jornal A Tribuna, retrata as reclamações dos moradores que testemunham, por exemplo, o roubo de fios e barras de ferro. A única “dificuldade” é pular o muro que perdeu a função de proteger o parque.

Se os moradores conhecem a rotina de depredação, por que a Guarda Municipal, cujo papel inicial é resguardar o patrimônio público, ainda não tomou providências? Por que só agora a Prefeitura Municipal resolveu instalar alambrados de três metros para evitar que o Orquidário não se torne uma carcaça sem acabamento? Ou a doação de parte do material a fundo perdido de mãos alheias é parte da reforma?

A ironia do purgatório que aprisiona o Orquidário é o discurso de desenvolvimento que ilude a cidade. Clichês como qualidade de vida, sustentabilidade e preservação ambiental ganham peso na boca dos engravatados, de olhos vidrados no falso progresso de concreto em forma de espigão e sonhos voltados para as profundezas do mar à frente, onde reside o ouro negro, o Godot que a Baixada Santista tanto espera como um personagem de Beckett.

Enquanto isso, o Orquidário permanece sob a administração de corsários e piratas terrestres, dando a impressão de que acompanhará o destino que amaldiçoou o Teatro Coliseu, irmão nos anos de agonia e filho de uma obra feita às pressas, com as feridas escancaradas para quem o visita no Centro. Pelo menos, meus filhos – e filhos de outrem – puderam ver o teatro antes de se tornarem adultos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A volta do chicote

Plenários são lugares sem eco, quase sempre. Políticos vão até lá para falar sobre assuntos que, muitas vezes, os colegas não estão interessados em ouvir. A plateia – quantos flagrantes de TV – utiliza as cadeiras confortáveis para tirar o sono atrasado ou exercitar a sesta da tarde.

Diante da indiferença, muitos parlamentares se apóiam na estratégia de utilizar palavras fortes, o que inclui ataques aos adversários, para alcançarem algum grau de ressonância. Obter espaço na imprensa. O plenário é o caixote do pregador na praça. Pregador que gasta saliva ao vento.

O senador Reditario Cassol (PP-RO) deu a impressão de que estava em alguma praça pública do seu estado de origem, Rondônia. Entendeu que poderia falar o que bem entendesse. O senador defendia seu projeto de lei, que altera o Código Penal. O projeto “revoga ou restringe diversos benefícios concedidos a condenados a pena privativa de liberdade.” Enquanto se esgoelava no plenário, Cassol resolveu estabelecer um paralelo sociológico entre os trabalhadores e os presidiários e explicitou o que pensa sobre o sistema prisional brasileiro.



Nesta análise profunda, o senador defendeu o uso de chicote para os presos que se recusassem a trabalhar nas cadeias. Imagino que o senador se referia ao período da escravidão, encerrado – ao menos juridicamente – há mais de 120 anos. O que Cassol não parece perceber é que declarações estapafúrdias esvaziam a discussão do próprio projeto pelo qual lutava no plenário. A seriedade se transforma, no mínimo, em bravata digna de piada.

Além do discurso fora de lugar, Reditario Cassol não deveria estar ali. Ele ocupa uma vaga na bancada do Senado por causa de uma daquelas brechas estúpidas do sistema político brasileiro. Reditario está no Senado sem ter votos. É suplente do filho Ivo Cassol, atualmente licenciado. Uma espécie de nepotismo via urnas. O indivíduo perde o cargo, a família garante o poder.

O exemplo do senador confirma o que se vê nos programas humorísticos da TV. Parlamentares pouco ou nada informados sobre questões nacionais, mais preocupados em cristalizar e levantar bandeiras de valores intolerantes e preconceituosos.

Reditario Cassol perdeu a oportunidade de colocar na pauta problemas que sobrevivem na essência do sistema prisional. Deputados e senadores, por interesses diretos ou indiretos, evitam tocar em feridas como a disseminação de celulares nas prisões, o déficit de vagas em presídios e cadeias, a aplicação restrita de penas alternativas para delitos leves e a própria distribuição de presos nas unidades, onde convivem o ladrão de galinhas e o gângster.

A defesa de senhor de escravos contou com o silêncio dos colegas de Senado. Será que concordam com a posição de Cassol? Ou estavam com a cabeça em outros endereços? Ou batiam papos animados, como acontece com freqüência? Apenas uma voz se manifestou. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou que “compreendia a indignação” do colega parlamentar, mas que o chicote seria “a volta da Idade Média”.


Suplicy não precisava viajar tão longe na história. A ironia está no fato de que o pregador do caixote tem apoio de uma parte da sociedade brasileira, que não apenas usaria o chicote, como também apertaria o gatilho em um pelotão de fuzilamento.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Autoajuda para o guru

Quando visito uma livraria, fujo dos livros de autoajuda. Não quero conhecer o monge tampouco o executivo. Não desejo que mexam nas minhas coisas, quanto mais no meu queijo. Quero viver com alguém por amor e cumplicidade, critérios mínimos sem pensar em enriquecer com ela.

Concordo com a piada que diz: os livros de autoajuda só ajudam quem os escreve. A ficar mais rico. A produzir mais livros. A reproduzir mais clichês. Os livros de autoajuda são termômetros que indicam uma sociedade escrava de fórmulas, ávida por respostas rápidas e genéricas, adepta do individualismo e divorciada da reflexão e da crítica.

Os livros atendem à necessidade crua de felicidade com elementos exteriores ao indivíduo. É uma premissa contraditória. Materializar sentimentos como caminho único de salvação é tão ilusório como milagres vendidos pela TV por sujeitos carismáticos de terno, gravata e livro sagrado nas mãos. Aliás, multiplicados em vários canais por objetivos idênticos.

Como o ser humano fascina pelo contraditório, acabei possuído por aquilo que tanto critiquei. Em vez de exorcizar a entidade, resolvi pensar no que tinha a me dizer. Concluí que a autoajuda é um mal necessário. Com uma diferença: vou ajudar a mim mesmo.




Se você, leitor, quiser me tornar seu guru, fique por sua conta e risco. A vantagem é que este texto saiu de graça. A desvantagem é que não existe ainda um Procon metafísico ou de receitas empresariais. Daqui para a frente, enganação, enrolação, estelionato intelectual.

Percebi as maravilhas de viver com menos. Por culpa do Detran, abri mão do carro. Mais do que o cinismo de fingir esquecer o automóvel por um dia no ano, resolvi abandoná-lo. Na verdade, o vendi para cobrir despesas e me transformei em um sem-carta. Especulo se é viável montar uma ONG comprometida. Comprometida a explorar esse segmento.

A decisão de dispensar o modelo de transporte dominante (ou quase) foi saudável. Para melhorar minha saúde, comprei uma bicicleta. Ambientalmente correta como transporte. Tão rápida como o carro em várias horas do dia. A bicicleta é a dieta perfeita que prescinde de shakes, sopas, cogumelos, pílulas, fases da lua, entre outras promessas diuréticas, feitas para te acorrentar ao banheiro.

Viver com menos é também abrir mão das facilidades tecnológicas que fascinam as Amélias, os gourmets e os iludidos da nova classe média. Menos badulaques eletrônicos em casa é economia de energia e garantia de reprodução da filosofia do minimalismo.

Para manter a coerência do meu processo de autoajuda, escolhi viver sem fogão. Não tenho esse objeto há quase três anos. Em palestras e dinâmicas que enrolam funcionários, prometo defender a ideia de que extinguir o fogão simboliza o retorno à vida bucólica anticonsumista, entre outras expressões permeadas por frases engraçadas.

De perto, a picaretagem se revela. A ausência de fogão é compensada por forninho, sanduicheira e micro-ondas. O outro motivo de poupar energia é operacional: não sei cozinhar mesmo. Qualquer dificuldade é solucionada por pratos prontos, a descongelar em 15 minutos. Se enjoar, nada que o restaurante por quilo não resolva.

O único momento honesto da autoajuda pessoal (a redundância é ênfase!) são as caminhadas. Evito as academias. Elas fazem mal à liberdade. Qual é a lógica de percorrer quilômetros, indica o velocímetro, sem sair do lugar? Prefiro caminhar pela cidade. Para não fugir à regra do homem de hoje, ando com um propósito. O guru finge trabalhar, para não ter tempo de ficar sem dinheiro. A neurose urbana não permite caminhar sem rumo.



Metas e objetivos são parte do receituário da autoajuda. Como o guru diante do espelho, sugiro que faça como eu: ande para o trabalho. Assim, é mantido o equilíbrio entre a qualidade de vida (aqui, um clichê) e a vida proativa (outro termo do dicionário).

Se você, leitor, levar essa fórmula ao pé da letra, vai perceber que o mesmo caminho para o trabalho todos os dias é tão monótono quanto rastejar na esteira da academia. Faça o mesmo trajeto, mas olhe para os lados. Mover a cabeça e ativar os olhos te levará a novas leituras da mesma história.

Andar pelo bairro onde moro, hoje, me leva a novos endereços, ainda que o traçado seja igual. Descubro novas casas, outras arquiteturas, outra vegetação. Conheço pessoas e absorvo histórias inéditas, muitas delas fontes de novos textos aqui mesmo neste espaço.

Viver com menos é, na prática, observar e digerir detalhes. É enxergar a poesia que se renova na rotina da vida cinzenta. Ver não está nos livros nem nas palavras encaixadas pelos gurus e falsos mestres. Olhar para os lados e perceber ao rodapé da vida não pode ser ensinado. É isso que defino como autoajuda.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Manual do enrolador

Falta um ano para as eleições. É tempo de incertezas e de verdades absolutas. Promessas se multiplicam como milagre em porta de igreja. As gavetas dos gabinetes vomitam projetos, propostas, programas e ideias semelhantes, que continuarão condenados ao purgatório da eternidade.

Nos próximos 12 meses, você estará cercado de uma trupe que tentará transformar sua vida num circo. Mascarar o circo de horrores e colorir o picadeiro. O desejo deles é que nos levantemos da arquibancada, onde permanecemos inertes por quatro anos, entendamos que o centro do picadeiro é nosso. De brinde, o nariz vermelho. A piada com desfecho sem graça.

Para nos defendermos dos profetas de terno, dos curandeiros de políticas públicas e dos xamãs que beijam crianças e velhinhos na feira livre, foi lançado o Manual do Enrolador. O livro é um guia de auto-ajuda, com receitas para detectar e reagir diante do assédio dos caçadores de votos.

O primeiro passo é ter consciência de que os esqueletos vão sair do armário, com ou sem tranca. Não adianta novena, mesa branca ou galinha preta na esquina. Fantasmas reaparecem como se tivessem ressuscitado depois do descanso. Não se preocupe: para a assombração, o morto é você.

Depois de mapear e perceber por onde caminham as entidades, é fundamental compreender como se comportam para alcançar, seduzir e abocanhar a presa. Uma das estratégias mais comuns é o envolvimento em questões públicas. Não importa se são assuntos anteriormente desprezados. Alimentar a amnésia alheia é o coração da fraude.

As “lutas” serão escolhidas, exploradas, distorcidas e devolvidas a você a partir de critérios e interesses obscuros. Qualquer pergunta que você responder na rua indicará comprometimento. No mínimo, você virará estatística. A intenção de voto é, nesta lógica, certeza de vitória. Rejeitar um profeta não significa heresia ou garantia de desfecho na fogueira. É ser ignorado por quem não tem o menor interesse em saber o que você pensa.

Os temas eleitos para a pregação gratuita na TV – ou em debates que se multiplicam como coelhos – precisam ser legitimados. É o verniz que deixará brilhante a cara-de-pau. Esta espécie costuma se reunir em eventos. Seminários, por exemplo. Os pregadores falam, falam, falam, sem a menor disposição para sair do lugar. Gasta-se saliva como dinheiro público. Suor, por outro lado, é peça rara de antiquário.

Encontros assim nasceram para morrer. Servem para resgatar lendas urbanas, mesmo aquelas que entraram para a galeria do humor. Siglas e nomes pomposos compõem o cenário. Quanto menos compreensível, maiores as chances de parecer primordial e sinônimo de progresso. VLT, por exemplo. Você não sabe o que significam as três letras? O Manual te levará à luz.

Como última lição-aperitivo, jamais se esqueça de que o guru é versátil. Ele sempre estará acompanhado de uma corte, capaz de fazê-lo discorrer por horas – e com propriedade – sobre educação, meio ambiente, aborto e emprego. O guru vai de uma ponta a outra sem escalas, com números decorados e palavras que o libertam de qualquer saia justa.

A má notícia: o Manual do Enrolador não estará à venda. Talvez o livro fizesse sucesso no mercado. Mas a concorrência é dura. Os profetas nunca descansam em serviço, mesmo quando enganam para sobreviver.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Choque de gerações

O amistoso contra a Argentina, na última semana, ocorreu pelas razões erradas. Mais do que representar a conquista de um troféu sem relevância, a partida deveria servir para afunilar o processo de renovação da seleção brasileira e, principalmente, iniciar a definição do grupo de jogadores que disputarão as Olimpíadas, em 2012.

Ao convocar somente os atletas que atuam no país, o técnico Mano Menezes sucumbiu às pressões de variadas ordens – de empresários a clubes, da CBF à imprensa – e não conseguiu cumprir nenhuma das metas estabelecidas quando assumiu o cargo. Mano Menezes mal imprimiu uma trajetória de renovação, como também não compôs um time olímpico.

O calvário deve prosseguir contra a Costa Rica, o próximo amistoso. A vitória será óbvia e obrigatória. Mas o que poderá render para os próximos dois anos?

A culpa não deve ser creditada exclusivamente na conta do treinador. A seleção paga o preço da entressafra. O cenário atual indica, de fato, uma lacuna entre veteranos e revelações, o que provoca aposentadorias precoces e responsabilidades em excesso para quem mal saiu das fraldas.

O único setor que sobrevive, sem muitos ferimentos, à crise de identidade atual é a defesa. Ainda dependemos de Julio Cesar, mas na posição de goleiro renovar é um risco desnecessário. A experiência é pré-requisito para a função. O critério longevidade esconde, no entanto, a dificuldade em se localizar goleiros novos e de alta qualidade. Victor é uma exceção. Rafael, do Santos, uma promessa.

Entre os zagueiros, a situação se aproxima do ideal. Jogadores experientes, como Lúcio (aliás, ainda em plena forma e marcando gols), fazem parceira com atletas no auge da técnica e da força, como David Luiz e Thiago Silva. Todos defendem clubes de ponta e estão acostumados às pressões de jogos importantes. Entre os laterais, o lado direito tem dois soberanos (Maicon e Daniel Alves), enquanto na esquerda Marcelo precisa de uma sequência de partidas. Ele sofre a concorrência de Adriano, do Barcelona. Côrtes, do Botafogo, é tão desconhecido quanto festejado em excesso.

O time se torna normal quando o olhamos do meio-campo para frente. E é nestes setores que se pode notar o choque de gerações. Jogadores que deveriam ser titulares entraram em decadência muito antes do previsto. Adriano e Ronaldinho Gaúcho exemplificam o problema. Outros vivem entre contusões que, de certa maneira, abreviaram a carreira em alto nível. Kaká era o camisa 10 que, no momento, a seleção perdeu.

Esta turma não teve substitutos à altura. Não se pensou nesta hipótese. Parte do elenco da última Copa encerrou a história na seleção. Os herdeiros não tiveram oportunidades ou não possuem qualidade técnica para protagonizar a sequência da narrativa.

No meio-campo, Diego, do Atlético de Madri, não construiu uma carreira regular, nem na seleção, nem no futebol europeu. Teve bom início na Espanha e, com 26 anos, pode reaparecer nas listas de convocados. Ganso, do Santos, vive no estaleiro e, na seleção, não fez diferença alguma. Robinho é irregular e, na prática, não altera o estado de coisas.

Entre os atacantes, o técnico Mano Menezes girou a metralhadora. Não temos um centroavante desde Ronaldo. O treinador testa jogadores de clube, como Borges, revelações ainda cruas, como Lucas, e atacantes que nunca resolveram o problema, como Pato e Fred. De fato, o ataque não provoca tremedeiras em zagueiros das grandes seleções. Tanto que o Brasil mal marcou gols nos amistosos que realmente importam.

Formar uma seleção-base para os próximos três anos implica em regularidade nas convocações, nas escalações e na definição da forma de jogar, inclusive com variações. Ser simpático e eloqüente não basta. Agrada aos jornalistas-babões, mas eles serão os primeiros a mudar de lado, principalmente porque não enxergam além do jogo-a-jogo.

Mais do que testar, Mano Menezes transmite a impressão de que resolveu ignorar a si mesmo. Ignorou o discurso de boas-vindas. Jogadores entram na lista, participam de um jogo ou dois, ganham contratos no exterior e desaparecem das primeiras páginas. O treinador montou duas equipes para atender aos confrontos que enchem os cofres, mas não dão consistência ao time.

O Brasil só tem mais duas competições até a Copa do Mundo. Uma delas, os Jogos Olímpicos, soluciona parte do problema, o da molecada que precisa de estrada. A equação é mesclar duas gerações, que normalmente provoca a construção de uma equipe. Driblar a entressafra ou ressuscitar velhos personagens são os muros à frente. Mano Menezes poderá escalá-los?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O direito de Mario Fernandes

O lateral-direito do Grêmio, Mario Fernandes, cometeu um crime, passível de prisão perpétua. Passível porque a amnésia coletiva, somada ao cinismo que permeia o futebol, pode garantir o perdão e reverter a pena daqui a meses, ainda nesta temporada.

Mario Fernandes teria rejeitado a seleção brasileira, segundo o discurso ufanista da imprensa amiga da CBF. O jogador alegou problemas pessoais para não participar do amistoso caça-níqueis contra a Argentina. Problemas pessoais é argumento vago, claro. Mas ele tem o direito de ser evasivo.



O jogador também tem o direito de se recusar a atuar pela seleção brasileira. Ou rejeitar uma convocação. Nada mais hipócrita do que a ideia de que a seleção representa uma instituição sagrada. A seleção se prostituiu há anos. Virou balcão de negócios. O craque da semana é convocado e se transforma em expatriado na semana seguinte; e página virada, na convocação posterior. A lista de Mano Menezes está repleta de nomes assim.

Mario Fernandes foi acusado de antipatriótico. O cinismo, aliado ao simplismo do politicamente correto, se apressou em julgá-lo. O patriotismo brasileiro é único, mas também fragilizado. Resume-se aos esportes, numa demonstração esquizofrênica, que se manifesta pelo ódio e repulsa quando o primeiro lugar não é conquistado, embora não houvesse chances de vitória.

O patriotismo abre exceção quando se trata de artistas, mas prevalece o clima de competição. Patriotismo no Oscar de filme estrangeiro ou em prêmios musicais. Um ator que tenta carreira lá fora tem que começar por cima. Caso contrário, é visto como alguém que passou ridículo e fracassou.

O patriotismo que nos reúne no boteco para torcer pelo Brasil em Copa do Mundo se esvazia quando envolve política, história ou valores culturais. Aí transitamos da indiferença à valorização dos importados. A grama do vizinho é sempre mais verde.



Mario Fernandes foi comparado a outros “desertores”. Leandro, também lateral-direito, largou a seleção em solidariedade à Renato Gaúcho, cortado por Telê Santana às vésperas da Copa de 1986. Leandro chegou a ser acusado de ter um caso amoroso com o atacante. Dez anos depois, Arílson, então atacante do Grêmio, escapou da seleção em tempos de Zagallo. Nunca mais foi chamado, assim como Leandro.

Mario Fernandes sofreu uma patrulha nociva, em contraponto às festividades da torcida paraense com Neymar e Ronaldinho Gaúcho. Nas entrelinhas, o vilão que merece o ostracismo, alvo de um maniqueísmo em que os que estão lá seriam como pilotos-kamikazes, dispostos a morrer por uma causa. Os contratos milionários e a vida de rock star desmentem qualquer analogia rasteira com a guerra.

O lateral-direito não está condenado à morte. Passará pelo purgatório do espetáculo, mas contará com o esquecimento alheio. Uma convocação, uma boa partida basta como remédio para a superficialidade.



O lateral-esquerdo, Marcelo, do Real Madrid, é exemplo de como o cinismo sobrevive. Até hoje, a história do e-mail que vazou para a comissão técnica da CBF está mal contada. O fato é que, depois de alguns meses, Marcelo foi reconvocado por Mano Menezes e segue como titular.

Se Mario Fernandes não for chamado, o problema não foi a falta de patriotismo. Ele estará fora por causa da concorrência. Por hora, reinam Maicon e Daniel Alves. O lateral do Grêmio está apenas no começo. O resto é má fé.


Obs.: Este texto foi sugerido pelo estudante de Jornalismo Gustavo Pereira. Agradeço pela ideia!

domingo, 2 de outubro de 2011

O aniversário

Escrever sobre aniversários, ainda mais quando o motivo é o seu, representa o cúmulo da obviedade. Mas aí reside a primeira particularidade da data: em aniversários, você recebe uma espécie de carta de alforria, que te permite ser mais sincero do que o habitual e tomar certas atitudes. Atitudes que, se magoam, ganham perdão. A emoção do dia serve de desconto na nota fiscal, principalmente se não se faz o esperado, se não há exaltação ou euforia desmedida.

Se as ações beiram a vergonha ou ultrapassam a fronteira entre o bom senso e o ridículo, serão lembradas em tom de brincadeira, como conseqüência do vácuo espaço-tempo que se abriu diante do aniversariante. Ele não estava no domínio de suas faculdades mentais, como um surto temporário, inócuo e inofensivo.

Escrever sobre seu próprio aniversário tem, inclusive, uma justificativa técnica, tão formal quanto fraudulenta. A crônica rasteja entre a sensibilidade da percepção das entrelinhas e a redundância dos grandes temas. O cronista discorre sobre os mesmos temas e, no fundo, fala sobre si mesmo, o que vê e o que o cerca. Este texto é mero ato de coerência.

Mas olhar para o próprio aniversário é, acima de tudo, fugir das promessas. A superstição ordena que se corte o bolo e faça pedidos. Mais uma promessa do que uma solicitação. Prometer mudanças nesta data é o primeiro passo para esquecê-las no dia seguinte.

Aniversário e segunda-feira são irmãos gêmeos. Por coincidência, meu aniversário caiu no domingo, o que fortalece o quadro de amnésia. E prometer sob a coerção dos parabéns é apostar na prevalência da inércia. Até porque o pedido ocorre em silêncio, o que te isenta de cobranças e abre a porta para mentiras que atendem a audiência.

Olhar para o próprio aniversário é enxergar pelo retrovisor. De certa forma, fazemos um balanço daquele momento, daquele cenário. Não é exatamente como fechar a loja depois das festas de final de ano. É uma necessidade – pelo menos para mim – de refletir sobre os sentimentos e emoções que permearam os últimos tempos, sem prazos engessados. Impossível medir se os sentimentos brotaram e me machucaram há uma semana, um mês ou há duas horas.

Como sentimentos e emoções afetam outras pessoas, aniversário é pensar sobre elas, sobre como lapidar uma relação afetiva ou se uma sucessão de fatos implica em afastamento ou em distância segura. O contrário também merece diagnóstico: por que falhamos? Por que fomos negligentes? Por que fomos duros demais ou afetivos de menos?

Entendo o aniversário como uma pausa introspectiva. Não sei se é a idade, que traz consigo alguma rabugice, mas a cada ano me vicio mais em exercitar a solidão neste dia. Sempre há alguma festinha e seria grosseiro rejeitá-la, mas tais reuniões me soam protocolares. Uma maneira de agradar a quem demonstra amor por mim do que a exigência de suntuosos espetáculos individuais.

O aniversário é o intervalo da faxina interna. Neste ano, não consegui – por responsabilidade própria – repetir um ritual que simboliza minha limpeza interior. Os dois objetos, uma cadeira de praia e um livro, mais a própria areia compõem o bolo de aniversário ideal. O instante de egoísmo, como se o mar e a areia me pertencessem exclusivamente. Gente em volta, mas vazio absoluto para rechear a si mesmo outra vez.

Como contradição, comemorar aniversário é ter ciência de que brota o desejo de ter o outro a seu lado. Ouvir os parabéns, ganhar um abraço e um beijo superam qualquer presente e seu valor monetário. Não confunda com a festinha de ocasião ou com as mensagens de Facebook, muitas delas frias como as convenções sociais.

Fazer aniversário está além da contagem de tempo. Respeito quem esconde a idade, paralisa os relógios ou simplesmente evita tocar no assunto. Sempre me pareceu algo secundário, inclusive por ser uma derrota de goleada. É o uso indevido da matemática, pois o resultado adverso mascara contas abstratas, impossíveis de serem feitas na nossa própria história e, essencialmente, na relação com os outros personagens importantes para o enredo que construímos, em contextos imprevisíveis.

Aniversário é a parada desesperada em um posto sem-vergonha depois de horas de caminhada na estrada. É valorizar o que se tem, sem cobiçar o alheio. E, neste caso, o que se possui não pode ser comprado em shopping, supermercado ou na quitanda da esquina. Sequer está à venda. Para localizá-lo na prateleira, só olhando para a estrada percorrida e para as cicatrizes da viagem.