quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O amor nasce nos neurônios






Marcus Vinicius Batista

Não sentia, há algum tempo, uma sensação contraditória diante de um livro. Acabei de ler Sempre em Movimento, autobiografia do neurologista Oliver Sacks. Ganhei a obra de aniversário e passeei pelas 350 páginas em menos de uma semana. Ao longo do trajeto, sentia uma necessidade de avançar na leitura – o livro foi meu companheiro de insônia e de ônibus, entre outros intervalos -, ao mesmo tempo que me incomodava o fato do final do texto se aproximar de mim.

O livro foi publicado no Brasil pouco antes da morte de Sacks, em agosto de 2015, vítima de câncer, aos 82 anos. Ele publicou uma carta tocante falando da própria morte, em fevereiro, no jornal The New York Times.

Conheci o médico por meio do cinema, quando assisti à Tempo de Despertar, filme estrelado por Robin Willians e Robert de Niro, em 1990. O primeiro interpretava Sacks, enquanto De Niro fazia um sujeito que acorda da catatonia depois de mais de 30 anos. Nos anos 70, houve um documentário de mesmo nome, exibido na TV somente uma vez, a pedido dos pacientes.

A história, publicada em livro escrito pelo neurologista, foi ignorada inicialmente pela comunidade médica. Sacks conseguiu por meio do uso de L-Dopa tirar dezenas de pacientes do estado catatônico, num hospital em Boston, e dar a eles, por meses, uma vida ativa.

É evidente que uma autobiografia carrega a tendência em esconder certos aspectos da vida do autor ou ir ao outro extremo, aumentando os feitos da mesma pessoa. Apenas posso dizer que Sacks, além de escrever bem, fato comprovado em uma dúzia de livros com relatos médicos e de pacientes, como Um antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, teve uma trajetória bastante interessante e, ao mesmo tempo, solitária.

Nascido na Inglaterra, Oliver Sacks enfrentou a reação negativa da mãe – e a omissão do pai – diante da homossexualidade. A mãe chegou a dizer que o filho era “uma abominação”. O tema sempre foi difícil para ele. Primeiro, porque a Inglaterra, até os anos 80, considerava crime a relação homossexual.

Segundo, pelos poucos relacionamentos e a opção por uma vida sozinho. Sacks chegou a ficar 35 anos – entre os 40 e 75 anos – sem um relacionamento amoroso.

Os problemas familiares incluíam a relação difícil com um dos irmãos, Michael, que sofria de esquizofrenia. O pacote familiar o fez se mudar para os Estados Unidos assim que se formou em Medicina, na Universidade de Oxford. Uma culpa que Oliver Sacks tentaria equacionar mais maduro.

O livro também traz a face cosmopolita do médico, inicialmente um pesquisador de má qualidade, depois um clínico sensível e defensor da aproximação entre psiquiatria e neurologia. Sacks, um sujeito apaixonado por motocicletas, encontrou seu caminho na Califórnia e depois em Nova Iorque.

Sempre em Movimento também me interessou por trazer os bastidores dos livros que o consagraram como escritor. Sacks era obcecado por escrever, a ponto de possuir centenas de cadernos que serviram como diários, seja de viagens, do cotidiano, do processo criativo e das relações com os pacientes.

Independentemente das várias faces de Sacks, o que mais admirava nele era a capacidade de se inquietar. Ele foi capaz de reconhecer erros, de procurar novas saídas para tratamentos, de rever sempre o olhar humano sobre os pacientes e, principalmente, sobre a prática da medicina. Compartilhava experiências com outros médicos, poetas, artistas e cientistas de outras áreas. Todos, na visão do neurologista, poderiam ajudá-lo a entender os porquês das ações de seus pacientes.

Oliver Sacks era, como os melhores costumam ser, um homem multidisciplinar e interdisciplinar. Mesclava arte e ciência com naturalidade. Percebia e defendia a necessidade de se associar biologia e comportamento para a compreensão de uma enfermidade neurológica. Transitava entre a literatura científica e de divulgação para o grande público, em jornais, revistas e – claro – nos livros. A autobiografia dele é o 13º obra publicada no Brasil.

Sempre em Movimento talvez seja o melhor livro que devorei em 2015. Um texto com fluidez incomum, que dá a sensação de estar sentado ao lado do autor, ouvindo-o relatar mais um caso médico como se fosse um romance.

No momento, estou lendo Um antropólogo em Marte. Quem sabe o julgamento mude ainda este ano?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Amor por amor, dente por dente




Marcus Vinicius Batista

Era a primeira viagem do casal. Se considerarmos que ele trabalhava em São Paulo e ela morava em Santo André e que tinham se conhecido em Ouro Preto numa turma, o final de semana na pousada de São Roque era o primeiro momento juntos.

Para ele, a viagem significava “vai ou racha”. Ele estava apaixonado e pretendia impressioná-la, uma mulher centrada, tão lutadora quanto o anfitrião. Dali tinha que sair um namoro. Ele sonhava até com casamento.

Chegaram numa sexta-feira à noite, descansaram um pouco, deram uma volta para conhecer o lugar, num clima romântico cercado por natureza, silêncio e o ar anti-paulistano. Mais tarde, viria o jantar, com vinho e aquela massinha pré-noite de amor.

Enquanto bebericavam o vinho, comiam a salada com lentidão. Tinham sempre muito o que conversar, marca desde que se conheceram no interior de Minas e no primeiro encontro, em São Paulo. Os diálogos reforçavam as afinidades, relativizavam quaisquer diferenças e construíam um relacionamento com sentimentos múltiplos e recíprocos.

Antes do prato principal, ele se preparou para sorrir. Aquela preparação que consiste no caminho da língua por todos os espaços da boca, o improviso na ausência do fio dental, na indiscrição do palito.

Quando passou a língua nos dentes da frente, sentiu uma diferença. Resto de alface? Um pedaço de tomate? O vinho tinha reduzido a sensibilidade, o que confundia a percepção sobre qual alimento insistira em resistir ao destino da digestão.

Os dois conversaram sobre amenidades e ele procurava descobrir o que o incomodava, o que permanecia grudado nos dentes da frente. Era essencial, decifrar o enigma, já que impedia um sorriso, uma gargalhada, todas as manifestações de humor numa conversa sempre divertida.

Ele não aguentou, pediu arrego a si mesmo e perguntou pra ela: “Tem alguma coisa no meu dente?”

Ela respondeu sem pensar: “Então, não tem.”

“Como assim, não tem?”

“Não tem nada, não tem dente.”

Metade de um dos dentes da frente tinha desaparecido. Ele passou a mão na boca e descobriu: era o dente remendado, fruto de uma pedrada que levara do irmão mais velho quando era criança. O dente – ou parte dele – sumira.

Ele procurou de novo com a língua. O pedaço de dente poderia estar em algum canto. Nada. Então, caíra no prato, na mesa ou ao lado. Olhou em todos os lugares, até embaixo da mesa. Sem sinal do amigo. Olhou para ela e deduziu que poderia ter engolido.

Os dois caíram na gargalhada. Riam tão alto que o maître, ao trazer o jantar, perguntou se havia algum problema. O rapaz explicou e, ao explicar, mostrou a prova, desmaterializada em um buraco na frente.

O maître, sensibilizado, sugeriu procurar um dentista que fizesse o conserto. Ele olhou para ela, que não parava de rir, e respondeu: “Olha, deixe pra lá. O final de semana ainda tá começando e já tô sem dente. Se ela ficar comigo depois dessa, nessa pousada, a gente se casa.”

Não sei onde ele procurou um dentista e como foi o resto daquele final de semana, em São Roque. Sei que foi procurar ajuda na volta da viagem. Dois anos depois, os dois se casaram, tiveram um filho – hoje com quatro anos -, mudaram de cidade, abriram um comércio e vivem com tranquilidade.

O dente novo, se ele não me contasse a história, seguiria imperceptível e sem provocar risadas.

Obs.: Texto publicado no site Jornalirismo, em 24 de novembro de 2016.

Casei-me com o Sesc. Ela é testemunha



Marcus Vinicius Batista

Depois de um ano morando juntos, decidimos que era o momento de nos casarmos. Não havia desejo de festa e tampouco tínhamos dinheiro para tal capricho. A preferência era resolver no cartório. Assinar a união estável e oficializar o relacionamento.

Nada que já não ocorresse. Seria somente papel. Contas e tarefas da casa já eram divididas. As dívidas e parte dos sonhos, compartilhados. O dinheiro da festa – que não existia – poderia vir a qualquer momento, o que nos permitiria viajar, esse talvez o único item do protocolo matrimonial, o mais próximo possível de uma lua de mel.

A união estável mudaria, na prática, um ponto em nossas vidas. Eu poderia ser seu dependente no Sesc Santos. Acompanhá-la na piscina, enquanto Beth praticava natação. Almoçar pagando o mesmo preço. O mesmo valor de ingresso para peças e shows. Passar o dia no Sesc Bertioga.

O Sesc ficava a duas quadras de casa e era visto como nosso quintal. Eu deixara de ser sócio alguns anos antes, quando uma das empresas onde trabalho mudou de status e encerrou o convênio.

Duas amigas, Larissa e Marúcia, nos deram a dica. Se vocês moram juntos, por que não oficializar? Não há nada errado nisso, explicaram. Basta fazer uma declaração de próprio punho e ratificar no cartório onde vocês têm firma reconhecida. Aí, Beth poderá lhe incluir no Sesc.

Levantamos mais informações e descobrimos que eram necessárias duas testemunhas. Minha mulher pensou: “Vou chamar minha colega de trabalho. Saímos para almoçar e resolvemos de uma vez.”

No dia seguinte, fui ao cartório e, alguns minutos depois, minha mulher apareceu com Celi. Decidimos chegar no cartório e procurar por outra testemunha. Outra dica das duas amigas: basta pedir, pois sempre tem alguém lá para assinar. É só para formalizar.

Antes do cartório, o banco ao lado. Era necessário retirar dinheiro para pagar a união estável. Entramos na agência e fomos ao caixa eletrônico. Quando acabei de fazer a transação, ela entrou no banco. Parou em outro caixa e não nos viu. Abriu a bolsa, retirou o cartão e foi cuidar da vida, concentrada na tela.

Indiquei para Beth que ela estava lá. Pensei em me aproximar para cumprimentá-la. Mariza é mãe de um grande amigo, o André, e seria uma deselegância passar direto porta afora. Costumávamos nos encontrar nos eventos e ela sempre fora simpática, sempre com boa conversa, geralmente sobre literatura.

Dei um passo à frente e veio o estalo: em vez de tentar a loteria dentro do cartório, por que não convidá-la para ser nossa testemunha número 2? O máximo que poderia acontecer era uma resposta negativa, nada que afetasse a conversa cordial.

Beth e Celi me olharam com a resposta na retina: por que não? Aproximei-me de Mariza e a cumprimentei. Ela me respondeu com simpatia, perguntou o que fazíamos por ali. Respondi que nos casaríamos em minutos no cartório. Ela mal deu os parabéns e eu perguntei: “Você não quer ser nossa testemunha? Precisamos de outra pessoa.”

Mariza sequer respirou: “Claro, estou livre! Vamos lá!”

Entramos os quatro no cartório, retirei a senha, que resultaria numa espera de quase meia hora. O cartório fica cheio na hora do almoço, pela obviedade não prevista de que muitos usam a hora do almoço para resolver seus problemas burocráticos.

Enquanto eu escrevia o texto que sacramentava a união, Beth, Celi e Mariza trocavam figurinhas. Aí começaram as afinidades. Beth e Mariza eram assistentes sociais, de formação e profissão. Ambas trabalhavam na prefeitura. Ambas compartilhavam de problemas similares no trabalho. Beth já tinha passado pelo setor de Saúde. Mariza se aposentara na área. E outra coincidência: Mariza também tinha firma aberta naquele cartório.

Depois de destrinchar a burocracia, a funcionária nos chamou. Firma reconhecida. Assinaturas válidas. Testemunhas de acordo. União estável oficializada. Agradecemos às duas testemunhas. Não haveria festa. Beth e Celi precisavam retornar ao trabalho. Mariza se despediu e seguiu para outra direção. Tinha supermercado. Eu voltei a pé para casa para trabalhar. Daria aula mais tarde.

Nas poucas vezes que nos encontramos, só chamei Mariza de testemunha uma única ocasião. Ela é, antes de mais nada, mãe de um grande amigo. Sinto-me com vergonha em exagerar na brincadeira. Ainda mais na frente de outras testemunhas.

Eu e Beth só fomos trocar alianças um ano e meio depois, num café em Londres. Surpresa minha. Lágrimas dela. Desta vez, quem estava perto não nos conhecia e não precisava assinar papel algum. Mesmo que tivessem, estavam distraídos à espera da próxima sessão de cinema e sequer nos ouviram. E olha que o pedido foi feito em inglês.

Não somos, por enquanto, mais sócios do Sesc. O processo de renovação cozinha, há mais de três meses, na prefeitura.

Obs.: Texto publicado no blog da Global Editora, em 22 de novembro de 2016.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

As palavras para todos

O escritor André Rittes (à direita) conversa com leitores no
projeto Outras Palavras, no Café Teatro Rolidei

Marcus Vinicius Batista

O isolamento da sinfonia urbana nos dá a concentração para pensar nas palavras. A cortina preta que separa o terceiro piso do prédio do Teatro Municipal e o Café Teatro Rolidei conduz substantivos, verbos, adjetivos e advérbios ao palco. Um palco onde plateia e atores se fundem. Um palco onde não há comando de vozes. Prevalecem os poliglotas literários e seus textos.

Numa roda de cadeiras e poltronas, uma dúzia de leitores - e escritores incorporados nas mesmas pessoas - discutem, refletem, se divertem, divergem, convivem, abusam o quanto podem do poder de sinônimos, antônimos, metáforas, ironias, aberturas e desfechos de romances, novelas, crônicas e poesias.

As poetisas Regina Alonso e Maria Teresa Teixeira Pinto organizam a bagunça do vocabulário em encontros semanais de leitura dirigida. Essas reuniões transgressoras em tempos ditatoriais de senso comum se chamam "Outras Palavras". Sempre às quartas-feiras, às 16 horas quase em ponto.

Estive lá para acompanhar meu irmão, o jornalista e escritor André Rittes, que lançou os livros "Os Caranguejos" (contos), "Viração" (contos também) e "Como fazer um telejornal". É a segunda vez que participo. A primeira foi por causa do meu livro "Quando os Mudos Conversam". Um diálogo que passeou por forma de criação, relações com os livros, Jornalismo, leitura fora dali, autores que influenciam. Eles sabatinaram com carinho o André. Até porque todos são cúmplices no mesmo crime: ler e escrever com paixão.

O cenário do projeto inspira pela cor, pela atmosfera que denuncia gente que pensa, sente e é fiel a si mesmo. Nas paredes, a diversidade da decoração comprova o discurso que nasce ali, no Rolidei. São tickets de bagagem, camisas de times de futebol, bonecas, fotos, desenhos, a multiplicidade da cultura humana como pano de fundo para a difusão do amor pela leitura e escrita. E também pelo teatro, pela dança, pelas artes. O palco do Rolidei é ecumênico, quase - por ironia - um dogma religioso.

Cada vez que entro lá, descubro alguma coisa nova pendurada ou pregada naquelas paredes. E, inconsciente, esqueço de anotar para ter que ver aqueles objetos como se fosse a primeira vez.

O menu é de restaurante cinco estrelas, em guia internacional. De Raul Bopp a Mia Couto. A liturgia das múltiplas vozes. Além de Regina e Teresa, gente de todos tipos, normalidades e idades. Todos leem, todos creem na literatura-Deus, todos escrevem seus testemunhos de fé.

Cada encontro dura uma hora e 15 minutos. No confessionário, admito que pequei pela perda da noção de tempo. Conversa boa, o relógio endoidece. No final, trocas de presentes óbvios: livros. Intercâmbio de impressões, novos rumos para refletir sobre literatura.

"Outras Palavras" é diferente daqueles cultos que vimos na TV. Ali, as curas acontecem, de verdade. Gente que mantinha distância dos livros hoje está casada com eles. E feliz! Gente que escreve e tinha vergonha de dividir. Hoje, traz a eloquência dos oradores de plenário. Gente que não acreditava ser possível despejar palavras e arrumá-las em papel (ou em tela de computador) o faz atualmente como andar e respirar. Escreve ... e bem!

No ano passado, o projeto "Outras Palavras" estudou 15 autores. Como tradição, os participantes produziram seus textos a partir das suas interpretações de cada autor estudado. Em dezembro, o presente de Natal; a publicação do livro "Outras Palavras", singelo na forma, mar profundo em seu conteúdo. Coerência com o que se defende o resto do ano.

Ganhei no ano passado a edição número 5 do livro. Na última quarta-feira, levei para casa a edição número 6. Não os mantenho aqui comigo não, em cárcere privado. Livros nasceram para percorrer outras estantes, outras mãos, outros olhos.

Depois de lê-los, emprestei para duas pessoas que tenho certeza de que os tratarão como merecem. É a Bíblia que espalha a palavra do "Outras Palavras", ressuscitada semanalmente atrás das cortinas e dentro do palco do Café Teatro Rolidei.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 18 de abril de 2016.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Cinemas de Santos - um filme sem reprise


Cine Iporanga - Foto: Novo Milênio/Cine Mafalda


Marcus Vinicius Batista

O garoto de dez anos atravessou a avenida Ana Costa com ansiedade. Olhou para trás depois de passar pelo canteiro central e chegar seguro do outro lado da avenida. Precisava confirmar que a avó estava na janela do quinto andar, no mesmo prédio onde fica o Beduíno. Diante da certeza, entrou no Cine Iporanga para ver, pela primeira vez, um filme sozinho, prática que retomaria depois dos 30. Era Superman 3.

Na mesma época, passeava com a mãe, fascinado pelos cartazes que ocupavam as duas paredes de acesso à bilheteria do Cine Atlântico, hoje uma lanchonete de comida rápida e viciante. Não se lembra de ter visto filmes naquele endereço, apenas gostava de percorrer o corredor e imaginar algumas tramas, nascidas da beleza dos cartazes.

Dois anos antes, nunca viu tanta gente junta no Cine Roxy. Descobriu, quando adulto, que eram mais de 800 pessoas, dedução pela capacidade do lugar. O filme, ET - o Extraterrestre, foi visto novamente na adolescência. Naquele dia, a aventura era assistir a ele sentado no chão, ao lado dos pais, roubando a pipoca de um e o refrigerante do outro.

O refrigerante, claro, era concessão de dia de domingo. E pela manhã. Inúmeras sessões Coca-Cola. Saco de pipoca pré-apocalipse de manteiga, simples como o papel que sustentava a doce ou salgada, simples como as conversas com o pipoqueiro. Dos filmes, ele pouco se lembra. Do cardápio metódico, o sorriso de canto de boca materializa a lembrança; nada de combos e quantidades para times de futebol..

Nos tempos da primeira faculdade, retomou o hábito de ir ao cinema com a mãe. Naquela segunda-feira, convidou o amigo Christiano, irmão desde a infância. Os três eram os únicos espectadores de "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci. O Alhambra era, na sessão das 13 horas, a sala de casa ampliada e redecorada.

Cine Roxy - década de 80

Aos 23 anos, a experiência de um cinema lotado veio como flashback no Cine Indaiá. Ele teve que se sentar no corredor central para ver Titanic; aliás, o recordista de permanência nas salas de cinema de Santos. As dores musculares são lembranças mais vivas do que um filme com instantes dolorosos.

O Indaiá era também o passo anterior à uma visita gastronômica, para o estômago adolescente disk-entulho. Sair do cinema e parar no trailer que ficava na esquina da avenida Ana Costa com a rua Luiz de Faria, hoje um imóvel de uma empresa de plano de saúde. Em meados da década de 80, o receituário só indicava um remédio para inanição pós-filme: x-salada e Coca-Cola. Um amigo, o Gian, deixava os olhos arregalados do balconista a cada pedido. "X-salada, por favor. Mas sem alface e tomate." Melhor do que o molho rosa do Sumatra.

No mês passado, voltei aos cinemas do Gonzaga. Quase o ano todo de abstinência. O ritual completo, da pipoca até a última fileira, ressuscitou memórias sobre um bairro onde vivi até os seis anos, trabalhei por quase uma década e que está associado, em parte, aos cinemas que não existem mais ou se modificaram para sobreviver a tempos de padronização globalizante.

Sinto-me deslocado quando atravesso corredores repletos de etiquetas, OFF por cento alguma coisa e outros termos em inglês para me vender o que não preciso comprar. O calvário pré-filme. Este trajeto de corredores poloneses de tortura consumista ainda me faz pensar sobre o ato de ir ao cinema.

O Cine Roxy, com sua entrada em rampa, os cartazes enormes do lado direito e o pequeno café antes da escada e da bilheteria é o último moicano que me conta em silêncio sobre a época que cinema era um programa semanal. Hoje, compete com adversários desleais, dentro de minha casa, morando em meu computador. São a preguiça em forma de episódios.

Ir ao cinema, no Gonzaga, virou daqueles passeios de família, que acontecem de vez em quando, com roupa de missa. A vestimenta não é tão religiosa assim, mas a liturgia ainda está na alma. E, neste caso, não há shopping perto de casa, hoje no Embaré, que consiga derrubar meus dogmas. Eu o visito, eventualmente, mas me sinto cansado em saber que as luzes apenas se apagam e a tela branca se preenche depois de 20 minutos de trailers e publicidade.

Obs.: Texto publicado no site Juicy Santos, em 24 de novembro de 2015.


As dores de Rosinha

Teatro Rosinha Mastrângelo - Foto: Matheus Tagé (DL/Arquivo)

Marcus Vinicius Batista


Nessa estrada que um dia foi florida
e onde subsiste hoje somente a mágoa,
nasceu-me um dia uma emoção sentida
que me deixou os olhos rasos d’água.

Aos poucos, em minh’alma dolorida,
essa angústia surgiu cinzenta e vaga
e hoje, pairando qual nuvem pressaga,
há um silêncio de dor na minha vida.

Fitando a triste escuridão de agora,
min’alma lembra ainda do passado
e sonha com uma nova primavera!

Eu sei que é tudo em vão… Ah! mas quem dera,
a este meu coração amargurado,
hoje florir como floriu outrora!
(Aspiração - poema de Rosinha Mastrângelo)


Penso em Rosinha cada vez que passo em frente ao Teatro Municipal de Santos. São quase 30 anos de sua morte e imagino como ela se sentiria se soubesse o que fizeram com seu nome. Se testemunhasse no que se transformou o teatro de arena, símbolo de uma arte de pensamento crítico, de consciência e resistência política pela palavra, pela dramaturgia.

O destino atual do Teatro Rosinha Mastrângelo é a ponta da linha de uma escalada de (ausência) de importância. A pasta da Cultura é aquele filho mais pobre, que sempre ouve promessas dos pais e acaba com a mesada mais magra. Entre os pobres de orçamento, o teatro costuma ser visto como o amigo postiço, faminto e miserável do filho mais pobre. Aquele que come de favor à mesa.

O Teatro Rosinha Mastrângelo está abandonado há seis anos, conforme denunciou duas vezes o jornal Diário do Litoral. O calvário é digno das novelas radiofônicas que Rosinha escreveu por quatro décadas para as rádios Cacique e Atlântica. Não há poesia ou crônica da própria autora que amenize a escuridão e a mudez às sextas, sábados e domingos à noite, antes recheadas com espetáculos de diversas correntes e influências teatrais.

O "sacrifício pela arte" incluiu a retirada das arquibancadas que aproximavam as pessoas de si mesmas e dos atores em cena, além das cabines de som e de luz. O desconforto das arquibancadas de madeira que permitiam ver os olhos de um ator, as imperfeições de sua maquiagem como se estivesse em cena na sala de casa.

Hoje, não há sinais de um teatro. Não há vozes que gritam textos clássicos ou contemporâneos. Há o silêncio espiritual de um espaço repleto de infiltrações. O Teatro Rosinha Mastrângelo se afoga no cenário de uma peça inacabada e segue a tradição de sofrimento dos espaços teatrais de Santos.

O Coliseu sangrou por quatro gestões até ser reinaugurado incompleto para ser reformado depois. O Municipal só entrou em reforma quando os riscos do palco chegaram no limite da (in)segurança e da ditadura dos cupins. E o Guarany, hoje pomposo, não se esquece das décadas em que era uma carcaça a céu aberto, no Centro de Santos.

Como a Prefeitura de Santos não sabe o que fazer com o Teatro Rosinha Mastrângelo, optou, por enquanto, em não fazer nada. Dá as desculpas de praxe, como a promessa de iniciar obras em 2016. As justificativas incluem a realização de estudos para a reforma, mas sem previsão orçamentária, prazo de início e de término e como seria feita a execução do trabalho.

Os políticos têm a péssima mania de dar nomes de lugares públicos para agradar àqueles que morreram e fazer média com aqueles que ficaram. Mal sabem os homenageados que, muitas vezes, serão abandonados como se seus legados fossem as obras públicas. Como não podem reclamar ...

P.S.: Caro leitor, o poema simboliza as dores de Rosinha? Ou não?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Gratidão - a sabedoria em viver



Marcus Vinicius Batista

Achei o livro sem querer, fuçando prateleiras numa livraria de Santos. Não pretendia comprar nada - havia esgotado minha cota -, mas mudei de ideia quando Gratidão, de Oliver Sacks, caiu em mãos. Desconhecia o lançamento.

A capa, totalmente branca, me transmitiu paz e leveza sem saber exatamente o porquê. Uma ilustração de fundo azul como falsa capa completava a sensação de simplicidade marítima, adequada à forma de escrever do autor.

Gratidão é um livro póstumo. Sacks morreu em agosto de 2015, vítima de câncer, aos 82 anos. Foi um dos mais famosos neurologistas do planeta, relevante também pelo seu papel como divulgador científico. A obra reúne quatro textos publicados por Sacks no jornal The New York Times nos dois anos anteriores à sua morte.

O livro é quase do tamanho bolso, com 64 páginas, mas bem mais denso do que muitos tijolos de centenas de folhas. A densidade não está no jeito de se expressar; pelo contrário, a linguagem é direta, como se Sacks conversasse conosco. A profundidade se encontra na maneira como se expõe, sem parecer exibicionista, e como fala da vida e da morte, tão caras numa sociedade que finge driblar o tabu da finitude com (aparente) felicidade full-time.

O título da obra é essencial. Sacks reconhece que teme a morte, mas não a transforma em cavalo de batalha. As consequências do câncer perdem importância - ou talvez estejam em seus devidos lugares - para um homem que prefere agradecer pela vida que teve, registrada com emoção, doçura e sinceridade no livro de memórias Sempre em Movimento.

Sacks não faz pensar sobre a necessidade desesperada de acertar as contas quando o final se aproxima. Pedimos por uma redenção quase inútil, que costuma se traduzir na retórica do perdão, e não nas atitudes que justificariam uma mudança de fato. Até seria louvável, mas - dependendo do sujeito - soa como pavor pelo que virá depois da curva, como um esparadrapo para um barco cheio d'água.

O neurologista inglês nos ensina pelo avesso. Suas reflexões estão longe de parecerem aflitas. "Não creio (nem desejo) uma existência após a morte, exceto na memória dos amigos e na esperança de que alguns dos meus livros ainda possam 'falar' às pessoas depois que eu morrer", escreveu em "Mercúrio", um dos quatro textos do livro. 




Sacks têm consciência da caminhada rumo à morte e reflete sobre suas paixões, seus hábitos e sobre alterações de pensamento ocorridas nos últimos anos. Ele não tenta retocar a própria imagem, aposta na autocrítica como processo de avaliação. "Embora tenha tido amores e amizades e nenhuma verdadeira inimizade, não posso dizer (e ninguém que me conhece dirá) que sou homem de índole branda. Ao contrário, sou um homem de temperamento tempestuoso, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em todas as minhas paixões", refletiu em My Own Life, o mais famoso dos quatro textos, em que Sacks fala abertamente do câncer incurável no fígado.

Além de "Mercúrio", o texto "Minha Tabela Periódica" reforça a paixão do neurologista pelas ciências físicas. Apaixonado pela tabela de elementos químicos, Sacks presenteava a si mesmo e a amigos com amostras, relacionando a idade ao número do elemento. Para ele, as ciências físicas o ajudavam a reorganizar a mente no mundo das ciências humanas.

O texto que completa o livro se chama "Shabat" e relata uma cerimônia judaica de respeito aos sábados. É um olhar saudosista sobre religião, a relação com os pais e o reconhecimento da homossexualidade e o encontro com os rituais de suas origens.

Gratidão é um tratado sobre viver, com a serenidade de quem olha para o que desconhece com curiosidade, jamais com pavor, intolerância ou agressividade. Saber agradecer é um minúsculo gesto de sabedoria. 


E Sacks soube o que fazer quando percebeu, como relata em My Own Life, que era hora de limpar a casa. "Sinto uma repentina clareza de enfoque e perspectiva. Não há tempo para o que não é essencial. Devo me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não assistirei mais ao noticiário toda noite. Não vou mais prestar atenção em política ou em discussões sobre o aquecimento global. (...) Ainda me sensibilizo, (...) mas não é mais da minha conta; pertencem ao futuro."

Sacks foi um homem que gostaria de ter conhecido. Sinto, em seus escritos, que consigo manter alguma forma de diálogo com ele. Tenho metade de seus 14 livros publicados no Brasil. É o canal para aprender com alguém que, mais do que relatar casos de pacientes, conseguiu enxergar a vida e as relações humanas como poucos.

Gratidão é um pequeno frasco químico, complexo de emoções e sentimentos, impregnado de valores e ideias de um homem que morreu na idade do chumbo. Nada mais sólido, nada mais forte, nada mais sugestivo. 


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Tempos com frestas de luz


Marcus Vinicius Batista

A Segunda Guerra Mundial é a mais cinematográfica de todas. É a maior em número de envolvidos, maior em alcance territorial, maior em vítimas – embora números oficiais em guerras sejam duvidosos -, maior em registros audiovisuais e fonte inesgotável de seriados, minisséries, documentários e adaptações ficcionais.

Quando fui professor de História, sempre me incomodou uma das consequências paradoxais da grande quantidade de material sobre o conflito. Enquanto enfatizava a disposição de um arsenal sobre o assunto, me incomodava ver a glaumorização de batalhas, a glorificação ou vilanização de líderes e oficiais e, por vezes, a desumanização daqueles que sofreram na carne e na psique os efeitos nocivos da selvageria.

Por causa disso, me afastei por alguns anos do contato com o tema. Sentia-me aborrecido com a pirotecnia dos produtos culturais sobre a guerra e a aproximação de uma leitura perigosa – e por que não? – fraudulenta: a de que o Eixo era a exclusividade do mal e os Aliados representavam os ícones da liberdade.

Uma guerra faz, como primeira vítima, a verdade. Depois, tenta-se reescrevê-la com contornos novelísticos, com personagens lineares. É parte da construção da propaganda de guerra, na qual se mostra obrigatório lapidar objetos de culto e de desprezo.

No ano passado, caíram em minhas mãos dois livros que conseguiram apontar caminhos duros, mas de profunda humanização da Segunda Guerra Mundial. Ambos narram trajetórias de homens que viveram o horror dentro de um campo de concentração. No primeiro semestre, li “É Isto um Homem?”, do italiano Primo Levi. A obra conta a experiência de Levi como prisioneiro, sem nos poupar nem dar caráter hollywoodiano à rotina mais intestina da guerra.

O outro livro está mais próximo de nós, seja pelo conteúdo, seja pelo autor, seja pela urgência e ineditismo de suas páginas. O historiador santista Gabriel Davi Pierin me concedeu a honra de editar “Uma Estrela na Escuridão”, livro sobre a vida de Andor Stern, o único brasileiro vivo, na atualidade, e sobrevivente do holocausto. 




O livro contextualiza a Segunda Guerra Mundial, junto com as memórias de Andor, que passou parte da adolescência em Auschwitz, o mais famoso dos campos de concentração.

Em “Uma Estrela na Escuridão”, é possível compreender como a condição humana é tão contraditória quanto incompreensível e fascinante em sua plenitude. Mesmo no pior dos cenários, o homem – como testemunha Andor, um senhor de 88 anos impregnado de otimismo em suas palestras – tem a arrogância de repetir a solidariedade e a mesquinharia, o amor ao próximo e a animalidade, a poesia e a crueldade.

Em 2015, tinha dúvidas se deveríamos comemorar os 70 anos do final da Guerra. Digo comemorar no sentido de celebração. A data é vital para refletirmos sobre a natureza do conflito e as lições que fingirmos esquecer. São cerca de 15 guerras – a maioria civis – no mundo de hoje. A maioria, quando ocupa espaço, está no rodapé dos noticiários.

Falar em guerra é celebrar, sim, as pessoas que sobreviveram e que são joias vivas do que o humano é capaz de fazer. Para quaisquer direções.


domingo, 20 de novembro de 2016

O exercício ilegal da escrita




Marcus Vinicius Batista

Não sou escritor. Não peco pela falsa modéstia, não me coloco como vítima ou espero que baldes de confetes caiam na minha cabeça. Ser escritor, neste início de raciocínio, é entendê-lo como ofício autossustentável, que exija horas de dedicação diária com remuneração compatível para que outras atividades profissionais sejam dispensadas.

Sou jornalista, o que pode levar à conclusão precipitada de que escrevo sempre. Jornalistas e escritores são bichos bem diferentes. A primeira é quase uma subespécie da segunda, ávida por subir um degrau darwiniano. Jornalistas, quando publicam livros-reportagem, pedem o cartão verde para mudar de posição social, para ingerir o verniz de criador literário.

Escrever, como pintura, escultura e arte cênica, não é para qualquer sujeito. Digo isso no sentido de que não basta acreditar na falsa promessa de inspiração ou nas limitações do talento. Acredito cegamente de que trabalho reduz a distância entre um texto qualquer e o texto. Ainda assim, não há garantias, somente riscos, hipóteses, tentativa e erro.

Escrever, assim como quaisquer outras manifestações artísticas, é técnica e estudo. Estudo diário, como um pianista que gasta os dedos nas teclas. Ainda me assusto ao ver aventureiros e outras criaturas famintas por glamour se chamando de escritores porque misturaram palavras em um rascunho.

É óbvio que, como lembrou George Orwell, a escrita é um ato de pessoas vaidosas, que necessitam de leitores para perpetuar suas ideias. Só que faltam outros elementos essenciais para que se possa avançar literariamente e, por conceito, não caio na armadilha subjetiva de estabelecer qualidade ou estilo “adequados”.


Por outro lado, o autor de “1984” defende que escrever é uma ação política, mesmo que a criação seja superficial. A teoria é, acima de tudo, coerente com a obra dele. A superficialidade deveria ser vista como possibilidade política, uma escolha que depende da proposta e dos objetivos do autor; neste caso, ideologia e contexto seriam outros ingredientes para outros diálogos. Mas fico na dúvida: até que ponto somos superficiais por consciência? Ou vestimos o manto da aparência e arrotamos profundidade de castelo de areia?

Ray Bradbury escreveu um livro que, à primeira vista, parece simpático, mas esconde camadas demasiado sérias para quem anseia escrever. Em “O zen e a arte da escrita”, ele nos fala que escrever envolve entusiasmo e prazer. Eu acrescentaria, sem pretensões de assinar documentos definitivos, que a escrita deve carregar consigo uma dose de indignação, além da inerente experiência de quem a pratica.

Não há como escrever, com capacidade de proporcionar identificação e estranhamento do leitor, sem sentimentos. As palavras são honestas, inclusive quando denunciam o uso leviano de um autor. As entrelinhas entregam o falsário. Os parágrafos gritam para desmascarar um estelionatário.

Escrever pode gerar injustiças, mas – no momento em que um texto nasce – o autor foi honesto com o próprio erro de exagerar nas letras. Pode se arrepender depois e, com franqueza, reparar – nas limitações que um segundo texto carrega – o escorregão.

Escrever com indignação, raiva ou irritação nos permite mastigar melhor as reais intenções de quem cria. Não poupar o leitor é convidá-lo para uma dança com regras claras sobre o horário de término da música. Não há lugar para a retórica vazia, que se revela no tom das primeiras frases.

Escrever bem tem como uma das premissas acreditar no que se diz. Na literatura, a descrença se revela no estilo artificial, nas palavras que representam a pose, no egoísmo do autor que se esconde do leitor na arrogância de não ser entendido ou de acusar que foi mal interpretado por completo. No Jornalismo, a descrença se cristaliza nas reportagens que transferem responsabilidades, que padronizam um estilo meramente técnico, que despersonaliza o autor, seus sentimentos, sua sensibilidade para convencer o leitor de que aquela história merece mais do que ser um intervalo entre pedaços de pizza. 




Escrever é um trabalho artesanal, de esculpir, desmanchar (em parte ou o todo) e esculpir novamente. Quem escreve deveria ser eternamente insatisfeito, ignorar os elogios bajuladores, analisar as críticas e nunca, jamais considerar que um texto publicado não precisa, não implora por ser reescrito. É claro que um texto exige, para saúde mental de seu criador, momentos de abandono. Textos são egoístas e não merecem exclusividade criativa.

A insatisfação do escritor garante que ele, ao menos, terá o direito de tentar subir um degrau em seu ofício. Nada assegura que seus filhos serão esbeltos e saudáveis. Mas a insatisfação com suas criações depende, definitivamente, de trabalho contínuo e estudo incessante. Caso contrário, escritores se transformam em repetidores de palavras sem significado real. E, ironicamente, escritores morrem quando viram reprodutores de si mesmos. Clones de um texto que, com o tempo, não se suporta como estrutura literária.

Tento evitar escrever sobre escrever. Temo a sensação de que estou enrolando leitores ou de que posso sofrer de ausência de assunto. Como escreveu Virginia Wolff, escritores não costumam escrever sobre o ato de escrever porque estão ocupados escrevendo.

Ao não me classificar como tal no início de texto, senti-me autorizado ao exercício ilegal da divagação e ao desejo eventual de exorcizar o que tento fazer quase todos os dias. Simplesmente, o parto aconteceu. Pensando sobre o que faço, talvez um dia melhore.

O maestro



Marcus Vinicius Batista

Vivemos numa era em que obra e criação se misturam. Existem personagens de vidas supostamente interessantes, que mascaram a mediocridade do próprio autor. Por outro lado, podemos ter a sensação de proximidade de pessoas coerentes e tão ricas como suas obras, unidas numa só perspectiva.

Penso em coerência e força quando reflito sobre Gilberto Mendes, falecido em janeiro. Seria presunção minha repetir adjetivos sobre a genialidade do maestro, bem melhor descrita por quem conviveu com ele ou que se tornou especialista em suas composições. Lia com muita atenção o que ele escrevia, usualmente reflexões contaminantes ou aulas sobre cultura.

Tive duas aulas com Gilberto Mendes, nenhuma delas formal, ambas inesquecíveis. A primeira aconteceu há cerca de 20 anos. Eu era um estudante de Jornalismo e estagiário numa emissora de TV. Mal entrei na redação e recebi a notícia do meu chefe: "Tom Jobim morreu! Precisamos entrevistar músicos importantes."

Decidimos ouvir Gil Nuno Vaz e Gilberto Mendes. Comecei pela casa do Gil Nuno, que se tornou meu professor na universidade e depois colega. No final da entrevista, ele reiterou que eu precisava conversar com o maestro. Na mesma tarde, fui ao apartamento dele. Nervoso, acreditava que ele descobriria rápido minha falta de conhecimento sobre música erudita. Tentaria camuflar pela MPB. E ouvir. Ouvir.

O apartamento de Gilberto Mendes me deixou embasbacado. Uma diversidade cultural que compunha a singeleza capaz de demolir o falso glamour que se constrói - muitas vezes à revelia deles - em torno dos grandes mestres. O maestro era um sábio, não pelas centenas de quilômetros de informações, experiências e histórias, mas pela habilidade em dispensar supérfluos, irrelevâncias. 

Foi uma conversa agradável de uma hora, com relatos de encontros com Tom e explicações detalhadas sobre a força dele no universo musical. Gilberto Mendes, claro, foi educado o suficiente para fingir que não conversava com um garoto curioso, mas despreparado.

A segunda aula aconteceu 20 anos depois. Teatro Guarani lotado. Umas 200 testemunhas que - sem querer - provocaram uma ansiedade acima da média no mediador do encontro entre Gilberto Mendes e José Miguel Wisnik. Era uma mesa da Tarrafa Literária, dedicada à literatura e música.

Estudei por uma semana. Textos, essencialmente. Tinha que ser como juiz de futebol, sujeito que só aparece quando atrapalha. A missão era estimular uma conversa entre os dois, tarefa fácil diante dos interlocutores. A tarde, pelo que ouvi, correu bem.

Sempre encontrava Gilberto Mendes em eventos culturais, de lançamentos de revistas a palestras. Sempre mantive distância, com a sensação de que poderia incomodá-lo ou falar alguma bobagem. Ficava por perto para ouvi-lo. Era mais inteligente, sem falsa modéstia.

O curioso é que levei tempo para me dar conta de um detalhe. Ouvir Gilberto Mendes, no camarim e no palco do Teatro Guarani, foi um presente. Ainda mais porque era meu aniversário de 40 anos naquele 25 de setembro de 2014. Maestro, obrigado e siga em paz!!!

sábado, 19 de novembro de 2016

Porra, Parra!






Marcus Vinicius Batista

Não sou muito de dançar. Poderia alegar falta de tempo, dificuldades econômicas ou quaisquer outras desculpas de ordem social ou até biológica (pés tortos, por exemplo). Finjo na pista de dança em casamentos, bodas de ouro e outras comemorações onde é possível se esconder no meio da multidão, dos óculos luminosos e dos vestidos que se usam uma vez na vida.

Mesmo sabendo disso, saí de casa com minha mulher Beth na noite daquela terça-feira. Mais do que ir a um bar com música ao vivo, eu retornaria ao Torto depois uma década, um endereço que me marcou em brasa durante a época como estudante universitário.

Mais do que entrar no Torto e dançar, todos poderíamos admirar – embasbacados – as escolhas musicais da Vitrolada, projeto de ressurreição e preservação musical do DJ Wagner Parra. Além de ouvir a música latino-americana, com temperos africanos, de Parra, todos participaríamos, em comunhão, da festa com o amigo Chico Marques, o convidado daquela noite.

A Vitrolada era assim. Comunitária, compartilhada, ideia eternamente em construção e improvisada, como devem ser os processos criativos. Wagner Parra sabia, na concepção e por princípios, que música é um ato coletivo. Acima de tudo, produzir música, difundi-la e pensá-la é um grito político, no qual a cultura dá o tom das cordas vocais.

Lembrar-me da Vitrolada é, ao mesmo tempo, prazer e melancolia. O prazer descrito nas linhas acima se mistura com a tristeza de quem vê uma cidade perder, pouco a pouco, pessoas relevantes. Não relevantes pelo poder político, eleitoral ou econômico. Importantes pelo que podem dizer, essenciais pela qualidade do que dizem, pouco me interessa a linguagem.

Wagner Parra era um sobrevivente cultural. Enfrentou as tempestades que efervesceram numa Santos mais politizada e se descobrindo pop. Percorreu a caatinga da miséria dos apoios aos produtores e fomentadores da cultura num município que sempre espera por uma galinha com ovos, só mudam as cores, do ouro verde em cifras ao petróleo sem gosto de sal.

Parra era um artista no limite da definição do termo. Eclético, mas de posições políticas públicas. Muitas vezes, não concordava com suas opiniões, mas o admirava pela capacidade de expô-las. Ele me transmitia a contradição que engrandece o humano, as ambiguidades que nos fazem possíveis.

Parra, de vez em quando, me soava impulsivo e até desorganizado. Isso acontecia quando eu assistia a seus vídeos, o Porra, Parra! Ali, era uma câmera nas mãos e ideias borbulhantes na cabeça, com o perdão do clichê.

Na Vitrolada, observava o músico centrado, disciplinado, de poucas concessões à indústria cultural mais selvagem e rasteira. O foco estava na difusão e fusão de ritmos que poderiam nos fornecer, a conta-gotas e a contragosto (e que precisamos tomar), ingredientes de formação musical; o lado B mesmo!

Conheci Parra à distância. Digo no sentido de entendê-lo melhor, de compreender suas fases da vida, de ouvir sua versão biográfica. No ano retrasado, o amigo André Azenha me pediu que escrevesse uma longa entrevista com o DJ, feita por ele. Agradeço pela oportunidade, pois pude – numa madrugada – ler e reler as palavras de alguém que colocava a cultura da minha cidade sob os holofotes, sem efeitos visuais ou maquiagem. Esta entrevista, depois editada pelo próprio Azenha, talvez seja a mais longa disponível sobre Wagner Parra.

Ironicamente, Parra iniciou sua despedida em seu segundo reino, o território que abre as fronteiras depois das 22 horas. Não foi no primeiro condado, onde vivia cercado de poros culturais, a Disqueria, ponto que visitei algumas vezes, a Serra Pelada onde garimpei pepitas literárias. Parra optou por dar o primeiro aceno no Torto Bar, sua esquina noturna, local em que fazia discursos duros, consistentes, mas flexíveis e tolerantes pela diversidade musical. Ali, passou mal. Enfartou.

Wagner Parra, só tenho a agradecer por me fazer dançar. Eu e todos os outros que mexem os pés, reais ou imaginários. Muito obrigado!

A mulher sábia está em aula





Marcus Vinicius Batista

Ela acordava às cinco e meia da manhã. Só sabia disso - e me restava acreditar - por causa da credibilidade e da perseverança dela. Dona Norvina ligava a TV e partia para mais um capítulo do Telecurso Primeiro Grau. No colo, no sofá da sala, a apostila que vinha pelo Correio.

Na década de 80, a Internet estava na ficção científica. A TV a cabo era coisa de americano. O computador tinha o tamanho de salas inteiras, enquanto o PC era objeto de gente rica. Fazer curso à distância envolvia televisão aberta, madrugar e estudar em uma apostila com capa de papel reciclável. Talvez por herança mineira e dotes de costureira, ela amarrava as páginas com barbante branco, nada de espiral encadernado em loja fotocopiadora.

A engenhosidade dela me fascinava. Eu ficava ainda mais intrigado porque percebia que muito do que ela aprendia, eu também via na escola. Minha avó, velhinha na visão de uma criança, mesmo com menos de 60 anos, era uma mulher de coragem.

A coragem e a sabedoria não estavam nos livros do Telecurso, descobri depois. Suas qualidades estavam no passado, na força de largar a vida na roça do interior de Minas Gerais, sair de uma cidade chamada Luz, com cerca de 20 mil habitantes, e se mandar para São Paulo.

Além da pouca bagagem, uma filha adolescente, minha mãe, com 15 anos. O único conhecido por aqui era meu tio-avô Mozar, na época - início dos anos 60, um seminarista em formação.

Suas mãos de costureira pagaram as contas por anos. Ajudaram meus pais quando a vida financeira apertou. Cuidava, quando preciso, dos dois netos. E resolveu estudar por conta própria.

Além das aulas pela TV, eu via de vez em quando uns livros de capa preta, letras brancas e bordas em rosa. O papel era bem vagabundo. Os livros vendiam milhares de exemplares, pois traziam aulas técnicas das mais variadas profissões. Minha avó comprava os livros do Instituto Universal Brasileiro com aulas de costura. Descobri, recentemente, que meu sogro Lauro comprava os de elétrica.

Lia as publicações do Instituto com um misto de curiosidade e distanciamento. Mal conseguia compreender as informações técnicas. Por outro lado, pensava em como minha avó estudava. Eu a admirava pela capacidade de recuperar algo que a vida tentara tirar dela. E jamais reclamava da escola, pelo menos perto dela.

Com o tempo, notei que as apostilas do Telecurso se multiplicaram. A pilha crescia na sala do apartamento no Gonzaga, em Santos. Passei a ler, quando estava desocupado, algumas páginas de História, Geografia e folhear as apostilas de Português e Matemática.

Quando minha avó completou a oitava série, resolveu que era hora de parar. A sabedoria, e ela me demonstrou de inúmeras maneiras, não estava no diploma, nos livros com fórmulas e receitas a serem decoradas. Ela preferia a convivência com as freguesas, que a visitavam em seu ateliê, num dos quartos do mesmo apartamento.

Depois, com a invasão das lojas de departamentos e das roupas padronizadas, ela teve a sapiência de fazer outra coisa na vida. Não se localizava mais em Santos, uma cidade que crescera, onde as pessoas não se cumprimentavam mais nas ruas.

Aos poucos, mineiramente, ela voltou para Luz. Lá, costurava de vez em quando, só para as amigas ou parentes. As aulas passaram a ser os diálogos de final de tarde, no alpendre, com vizinhos e amigos. Eventualmente, os netos, a filha e o genro, que encaravam 830 quilômetros para matar a saudade.

Ela foi a mulher mais sábia que conheci. Na relação com os livros, na leitura das pessoas, no aprendizado da vida em ritmo mais lento, que nos ensina a ver, digerir, compreender e levar nas costas. Um ponto muito além do ensino mastigado em apostilas e acompanhado pela TV.

Sábia, Dona Norvina soube morrer em silêncio, sem dor, perto das pessoas mais queridas. Seu neto, por ironia, estava em sala de aula a ensinar.

Obs.: Texto publicado no blog da Global Editora, em 8 de novembro de 2016.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Saudades do trovador




Marcus Vinicius Batista

A morte de Zéllus Machado, aos 53 anos, em fevereiro de 2012, nocauteou, temporariamente, quem se sensibiliza com a cultura caiçara. Mais do que isso, com a cultura popular em Santos. Cantor, compositor, poeta e ator, Zéllus representava um dos maiores símbolos da arte como centro de contestação, como olhar inquieto das fragilidades sociais, como voz sincera que persiste em chocar os confortáveis, fragilizar as certezas, fortalecer as perguntas tão indecorosas quanto decisivas para o crescimento humano.

Quando me lembro de Zéllus Machado, vejo um violão em seus braços. Era a marca registrada do trovador, sempre a postos para outro verso, mais uma palavra sarcástica, um texto para balançar as convenções. A primeira vez que o vi foi na antessala do Teatro Municipal de Santos. Ele interpretava um cafetão numa cena que antecedia uma encenação de Plínio Marcos. Era um texto do teórico da comunicação Eugênio Trivinho.

O aperitivo foi mais indigesto do que o prato principal. Não que provocassem impactos diferentes, mas de Plínio Marcos todos sabiam o que esperar. A virulência do cafetão transcendia a violência e a opressão de mulheres. Zéllus incorporava o machismo como produto de exportação, cru a ponto de nos esquecermos de que era um cafetão quem nos dava os recados. 




Zéllus gostava da rua, da aproximação improvisada com o público. Não se escondia nas coxias e nos camarins. Como um menestrel, tinha na ponta da língua o discurso que se encaixaria na balança dos ouvintes, para desequilibrá-la, para acrescentar novos valores, para refazer suas medidas.

Zéllus fez parte de um grupo de artistas que se renovam como reação visceral aos males que os machucam, alheios ou não. Um grupo que flerta com a arte como política em essência, sem se render à primeira oferta comercial ou às tendências que transformam a cultura em bibelô da sala de estar.

Zéllus entendia a cultura como alimento único para a sobrevivência de uma sociedade. O violão era o antídoto para as leituras apressadas e consumistas das relações humanas. O humor apequenava a intolerância, o preconceito e a ostentação social que, por vezes, padronizam manifestações artísticas em embalagens de politicamente correto.

Não via Zéllus Machado há algum tempo. Conhecia o artista e, desta maneira, foi a última vez que o encontrei. Aliás, ele transpirava seu papel de artista de tal forma que o homem e seus obstáculos subjetivos permaneciam encolhidos, silenciosos em algum canto daquele corpo de personagem que ocupava espaços, com sede de protagonismo.

Foto: Adilson Félix
Quando o assisti pela última vez, carregava seu violão por diversos quartos de um antigo casarão da rua General Câmara, no Centro de Santos. Era uma peça composta por cenas independentes, cada uma delas coerente com os cômodos da casa-cenário. Zéllus transitiva pelos espaços para reiterar o ar rodriguiano que sufocava e aliviava o espetáculo.

A ausência de Zéllus Machado precisa servir de alerta diante da encruzilhada cultural desta cidade. A perda de um símbolo deve nos guiar para entendermos qual cidade-cultural desejamos abraçar.

Se formos inteligentes, perceberemos que a obra de Zéllus fala por si mesma como resposta. Mas temo que poucos enxerguem a melancolia entre os artistas, como resposta crítica e anônima aos incômodos, injustiças e infelicidades do cotidiano.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Toninho Dantas, o agitador cultural




Marcus Vinicius Batista

Plínio Marcos o chamava carinhosamente de “agitador cultural”, título reproduzido por muitas personalidades quando falavam dele. O produtor Toninho Dantas, um dos sujeitos mais importantes do cenário cultural da Baixada Santista, morreu em 14 de maio de 2010, aos 62 anos. 

Ele foi encontrado por dois amigos no próprio apartamento, às 19h30 de uma sexta-feira, depois de faltar a uma reunião do Festival Santista de Curtas-metragens, o Curta Santos. Toninho era o idealizador e coordenador do evento. Segundo depoimentos de amigos e colegas de trabalho, Toninho estava doente. Teria que fazer um transplante de fígado. 

Pouco conversei com ele. Fiz somente entrevistas breves. Conheci somente a figura pública e passei a admirá-lo por enfrentar preconceitos e insistir em produzir cultura numa região marcada pelo conservadorismo e pela ausência de políticas públicas profundas e de longo prazo para o setor.

Toninho sabia como lidar com as brechas do círculo vicioso da política e conseguia manter a coerência em organizar eventos de várias manifestações culturais. 

Toninho Dantas me pareceu diferente à primeira vista. Um sujeito de barba grisalha comprida, cabelos bagunçados, vestido sem grandes preocupações estéticas. Corria como um menino pelo Teatro Municipal para verificar cada detalhe do Festival Santista de Teatro Amador, tradicional reunião da classe teatral da cidade. 

Ele comandou o Festa por cinco anos, período em que encontrou as vacas gordas, mas – principalmente – conviveu com as magérrimas. O Festa só vivia com folgas em ano de eleição, época em que os caras-de-pau de paletó se lembram de que a cultura move e reflete o ser humano. E pode render votos. 



Toninho Dantas talvez fosse considerado um empreendedor pelo mundo corporativo se tivesse ares de intelectual e vestisse terno e gravata. Mas “agitador cultural” cabia melhor a ele. Ele se reinventava para sobreviver no meio. Usava de influência e experiência para manter o litoral no mapa, com recursos curtos e desinteresse de quem tem o dinheiro. 

Toninho era um artista múltiplo. Transitou por várias artes, sempre preocupado com o engajamento social. A mão dele acendia a chama do ser humano como animal político e cultural. Apoiava a arte como mecanismo de virada contra as convenções sociais, ainda que a seu modo, ainda que colecionasse desafetos. É possível não gostar dele – diriam muitos -, mas não se pode minimizar o papel que exerceu na cultura local contemporânea. 

Nascido em Guarujá, ele estudou na Escola de Arte Dramática, na USP, trabalhou em emissoras de TV. Como ator, participou do grupo teatral de Antunes Filho, em São Paulo. Depois, percebeu que sua área era a produção cultural. Além de cinema e teatro, Toninho produziu festivais de música. 

A morte dele empobreceu a cultura da região e, ao mesmo tempo, criou um peso para os profissionais do meio. Perdeu-se um sujeito que conviveu com visionários, absorveu ideias, fez a digestão adequada e as aplicou aqui, muitas vezes sem qualquer tipo de bônus. 

A ausência dele aumentou a responsabilidade sobre o Curta Santos, festival consolidado, atraente para várias gerações de amantes e produtores de cinema. A porta de entrada para muitos sonhos de garotos que ainda creem na velha máxima da “câmera na mão e uma ideia na cabeça”, mesmo que no sentido simbólico de romantismo. 

Toninho recebeu múltiplas homenagens, inclusive do próprio Curta Santos. O mais importante é que reconhecido por aqueles que ainda tem nas veias a esperança de que a cultura local pode ser disseminada em todos os espaços e para todas as classes sociais. 

Que o Curta Santos e o Festa vivam de forma alegre, pulsante, transgressora e contestadora. Assim seria o desejo (ou melhor, a prática) do velho agitador cultural, amigo e discípulo de Plínio Marcos. Claro que Toninho Dantas não prepararia uma festa para si mesmo, mas para a cultura caiçara.

Jesus é argentino. O gramofone, mineiro


Marcus Vinicius Batista

Adair Júnior tinha acabado de visitar um cliente, de final de expediente, na rua Lucas Fortunato. Se os pés estavam na Vila Mathias, a cabeça só pensava em voltar para casa quando passou por um cara barbudo e de cabelo comprido, sentado na esquina, ao lado de um gramofone. No equipamento, rodava um disco de tango. Em frente, a placa de papelão: "Vende-se".

Júnior deu a volta no quarteirão, parou o carro e desceu. Músico nas horas vagas, de gaita à viola caipira, ele tinha um sonho de consumo, materializado ao lado daquele sujeito. O gramofone era a Ferrari dele.

Ele chegou perto do vendedor para ter certeza: o gramofone funcionava. E bem! Pensou que a lábia de vendedor profissional, de quem quebrava metas na empresa, servia para convencer o vendedor de ocasião. Começou um diálogo com o sujeito, que só falava espanhol. Era argentino e se chamava Jesus.

Em portunhol, Júnior queria fechar negócio. O argentino sonhava com sua própria viagem bíblica: chegar a Manaus, passar o reveillon se banhando nas águas do rio Amazonas. O preço exigia o milagre: US$ 1 mil.

Júnior tremia, não conseguia convencer o argentino a reduzir o preço. Correu para o carro, apanhou o celular e ligou para a mulher. Renata mal entendia as palavras do marido, que insistia que o gramofone era da RCA, de 1910, com as peças originais. Tempos em que a empresa americana tinha uma filial na América do Sul. Ele explicou que o argentino tinha pressa, encontraria uns amigos na Rodoviária de Santos, pegariam um ônibus para o Espírito Santo. Depois, sei lá.

A turma queria chegar no Amazonas. Trouxeram um monte de quinquilharias para fazer dinheiro e seguir viagem. O trabalho de Jesus era convencer um fiel de que o gramofone valia US$ 1 mil.

No meio da conversa com a esposa, Júnior viu um carro importado parar ao lado do argentino. "O motorista tinha cabeça branca." Só viu o carro dar partida e o argentino rasgar a placa de Vende-se. Largou o celular sem desligar e correu rumo ao gramofone.

O argentino tinha fechado negócio. O motorista iria até o banco buscar o equivalente em reais. Júnior enrolou o gringo em portunhol e conseguiu sequestrar os dois: Jesus e o gramofone. Resolveu levá-los de carro para casa.

Enquanto isso, Renata ouvia a conversa pelo celular. Júnior explicou a história de novo. "O argentino fedia. Estava f-e-d-i-d-o", falou umas três vezes.

Chegando em casa, a negociação. Jesus tinha que dar um testemunho de fé e ser solidário com ele. Nova conversa em portunhol, a pressão do casal, a pressa do argentino, sorrisos, água, cafézinho e um roteiro de pontos turísticos em Manaus.

Júnior e Renata tinham visitado a capital amazonense meses antes. Nada de banho ou refeição. O argentino precisava pegar o ônibus na rodoviária. Jesus, ao ver a coleção de discos de vinil e uma vitrola da década de 60, se sensibilizou: Júnior seguia mesmo a religião da música. Negócio fechado.

Júnior levou Jesus até o caminho do Amazonas, ainda que passasse pelo Espírito Santo. Deixou-o na rodoviária de Santos e conheceu a turma de peregrinos. Desejou boa viagem, enquanto só pensava em testar o gramofone.

O gramofone, até recentemente, descansava sobre uma máquina de costura, que pertenceu à mãe de Júnior, no bistrô e empório que ele administra com Renata. Na última ampliação da loja, o equipamento passou a hibernar numa sala anexa, à espera da próxima reforma, quando ganhará um suporte especial.

O argentino viajou feliz com uma máquina fotográfica Kodak, bem velhinha, conta Júnior. E mais US$ 150. Um gramofone a R$ 400, mais ou menos, em moeda da época.

De brinde, o disco de tango e outro causo do mineiro de Minduri que conheceu seu Jesus numa esquina da Vila Mathias, em Santos.

Obs.: Texto publicado no site da revista Mais Santos, em 9 de novembro de 2016. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Meu quintal de livros

Biblioteca do Sesc-Santos. Foto: Instituto Querô



Marcus Vinicius Batista

Enquanto minha esposa Beth estava internada, carregava Mari e Vini, para todos os cantos. Meus filhos estavam de férias e precisava aproveitar o tempo com eles, fora dos horários de visita ao hospital. A dupla se transformou em quarteto, com minha sobrinha Rafaella e a prima dela, Yasmin, engordando a trupe.

Num final de tarde chuvoso, entramos no Sesc, o meu Parque do Ibirapuera. Não é a mesma válvula de escape dos paulistanos, que provavelmente possuem outra compreensão da praia, lugar onde não preciso ir para senti-la. O Sesc e sua estrutura de concreto são a ironia em si. Uma armação que representa o mundo urbanoide para nos tirar dele assim que subimos a rampa ou as escadas da rua Vergueiro Steidel.

Não passo uma semana sem visitá-lo. O Sesc me acolhe para o almoço, com preços abaixo do mercado e comida mais saudável; me convida para peças nem sempre comerciais, mas tão ou mais profundas; me concede suas águas clorificadas para que eu e minha mulher nos esqueçamos da Somália caiçara; diverte meus filhos no parque ou nas quadras. Ali, encontro alunos, ex-alunos, colegas e minha amiga Larissa, que trabalha no teatro e nos acompanha em intervalos para um café e um pedaço de bolo.

Naquele dia chuvoso de julho, descobri – com o tempo que os livros merecem - um oásis dentro do verde acinzentado do Ibirapuera. A biblioteca que fica no primeiro piso hoje é meu quintal. É onde me divirto e me desligo do mundo. São quatro estantes no meio do andar e me causa estranheza ver pessoas passando pelos lados sem parar e observar os livros. Não consigo atravessar o andar sem que um imã me puxe para as estantes. Pouco importa se tenho um livro em mãos ou se já atingi o limite de duas obras por associado.

Naquele dia chuvoso de julho, vi o milagre da multiplicação das letras. Apenas vi, sem dizer palavra. Em cinco minutos, Mariana lia um livro. Rafaella e Yasmin folheavam e devoravam suas revistas. Vini, conhecendo as primeiras letras, imaginava-se junto com o Capitão América.

Olhava e sonhava com a repetição. Mais tarde, à noite, o segundo raio caiu, mas em outro endereço. Em casa, Rafaella me disse que tinha vontade de ler a série Harry Potter. Levou o primeiro emprestado. Yasmin perguntou se eu tinha “A Culpa é das Estrelas”, de John Green. O livro se mudou para a Praia Grande. Mariana me pediu ajuda para procurar na estante algo para ler. Devorou “Coraline”, de Neil Gaiman, em menos de 48 horas. E contei histórias do Batman para o Vinicius.

Desde então, a biblioteca recebe minha visita semanal, geralmente aos sábados. As poltronas e sofás no mesmo andar são os refrescos para as costas, as pernas e o zero no espaço-tempo que assegura a leitura. A biblioteca tem como guarda-costas uma prateleira com as principais revistas do mês e da semana, além dos jornais do dia.

Naquelas estantes, conheci mais a fundo o poeta Manoel de Barros e suas memórias inventadas da infância. Da época de criança, li crônicas de Antônio Prata, que estava “Nu, de botas”. Da ingenuidade saltei para a solidão do sexo de adultos por vezes infantilizados, nos contos de “Parafilias”, escrito pelo santista Alexandre Marques Rodrigues.

Ali, testemunhei “O homem diante da morte”, de Philippe Ariés, um calhamaço de 850 páginas que estudo em doses homeopáticas. O livro me espera na prateleira de História. A morte também se fez viva no policial quase trocadilho “O último caso da colecionadora de livros”, de John Dunning.

A biblioteca não é generosa somente pela retirada de livros. Suas estantes me permitem acesso direto ao prazer de folheá-los, descobrir novos títulos na mesma prateleira onde li duas vezes todas as lombadas, ler um trecho e aumentar a dúvida sobre quem seguirá comigo para casa.

Saio de lá com algum presente debaixo do braço, mesmo que a leitura não se complete, como “O Jogador”, de Dostoievski, que perambulou pela cabeceira da nossa cama, e retornou quase intacto ao Sesc, por conta da internação da minha mulher.

No próximo sábado, a biblioteca me espera. Tenho que devolver “Parafilias” e peregrinar pelas estantes para voltar com outro presente. Tenho uma pilha que grita pela minha leitura em casa, mas a biblioteca nunca me deixa sair de mãos abanando. Para qualquer criança, um quintal só existe se houver brinquedos.

O fofoqueiro



Marcus Vinicius Batista

Minha mulher adora dizer que sou fofoqueiro. Beth garante que, intencionalmente, escuto conversas em restaurantes, bares, filas de banco. Desisti de repetir argumentos como “as pessoas falam alto demais”, “a conversa entrou pelos meus ouvidos naquele instante em que estávamos em silêncio” ou “o que posso fazer se as pessoas falam do meu lado”. 

Às vezes, apelo para a nossa profissão: “jornalista deve sempre estar atento”. Soa simplista, reconheço.

Sou curioso. Engana-se se você acredita que me interesso pelas tagarelices alheias. Até que, de vez em quando, brota um ou outro papo que mereça minha atenção, mas nada se compara a descobrir qual é o livro que alguém está lendo em público.

Não posso ver uma pessoa lendo na rua, na praça, dentro do ônibus, que aparece a urticária literária. A coceira se traduz na necessidade (ou desejo?) de saber o que ele ou ela está lendo.

Hoje, por exemplo, cruzava o corredor do ônibus para descer no ponto seguinte, quando vi uma adolescente lendo à direita. Entre o tempo de perder o ponto e descobrir o que ela devorava, retardei o andar um segundo, focalizei no alto da página, mas estava com os óculos sobre a cabeça. Não havia como colocá-los em tempo de decifrar um código borrado. Desci do ônibus, fracassei na investigação, como um detetive particular de primeira viagem.

Não consigo explicar por que desejo desvendar este mistério inútil, mas as hipóteses transitam entre teorias conspiratórias e psicologia de boteco. A primeira pista é que, como leitor diário e voraz, sei detectar um exemplar raro da espécie Homo leitorus

Pareço o personagem caricato de desenho animado, que caminha silenciosamente com a rede para apanhar a borboleta que repousa na árvore, aquela que voará ao primeiro movimento de meus braços.

Seria como a Teoria do Espelho, o reconhecimento de outro mamífero capaz de ler e interpretar um texto. Só que a teoria se fragiliza, pois nem todos os mamíferos leem livros (há os que preferem colori-los) e ler não garante o entendimento ou a interpretação mínima do conteúdo.

Investigo porque gostaria de ser investigado. Esta segunda hipótese, de caráter narcísico-literária, se sustenta na ideia de que um dos meus maiores prazeres é ler durante as viagens de ônibus. Já digeri livros inteiros só dentro do coletivo, como a biografia do Stephen King.

Desenvolvi, sem saber direito, a capacidade de ler durante o sacode do itinerário, aos 35 anos. Não conseguia ler até então porque sentia enjoo. Um dia, simplesmente consegui. O problema desta teoria é que nunca ninguém me perguntou o que estava lendo, se o livro era bom, do que se tratava ou como conseguia ler dentro do ônibus. 

Leio até em pé. É melhor do que compartilhar, à revelia do passageiro pendurado mais próximo, o que ele escreve em seu celular.

Talvez tenha que copiar minha mãe ou um amigo cartunista. Ambos encapavam os livros que estavam lendo. Minha mãe embalava naquele papel rosa de papelaria do século passado. Meu amigo encapa com folhas de sulfite. Ela, para ir à praia. Ele, para carregar no ônibus para São Paulo. 

Em comum, detestam que perguntem sobre suas leituras. Sempre desconfiei, sem base cientifico-filosófica, que a capa improvisada aguçasse a curiosidade até dos que nunca tocaram naquele bicho de letras.

Ando sempre com um livro na mochila ou nas mãos. É o meu celular preferido. No ponto de ônibus, na fila do banco, na praia, na espera para iniciar uma aula, no intervalo do trabalho, almoçando sozinho em casa. No fundo, reside a esperança de que alguém possa se interessar e engrenar uma conversa sobre livros, leituras, autores, escrita, a vida por meio da literatura.

Ou talvez a teoria de minha mulher seja a mais óbvia e plausível: sou fofoqueiro mesmo! Duvido, porque nunca conto para ninguém o que o outro estava lendo, quanto mais qual livro estou lendo hoje. Só mudo de ideia se me perguntam, claro.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O palhaço transgressor



Marcus Vinicius Batista

O Teatro Municipal de Santos estava lotado. Era noite de estreia, com presença do autor da peça. A ocasião se tornara mais importante porque o texto, “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, havia sido proibido. A encenação fora proibida de estrear na cidade natal do autor, caso que ganhou espaço na grande imprensa.

Plinio Marcos sorria para todos, mas parecia cansado. Andava lentamente e reagiu de maneira serena à homenagem, antes da apresentação do espetáculo. Falou um pouco para a plateia, que o aplaudia a cada respiração mais longa do dramaturgo.

O discurso era motivador, como se esperava dele. Plinio reforçava como os artistas deveriam ser questionadores, como o público deveria rejeitar fórmulas prontas.

Alguns palavrões no meio da fala acendiam parte da plateia, mas o tocante era a coerência na retórica, sem poupar os adversários, ainda mais àquela altura da vida, com 60 anos. Havia força nas palavras, como sempre, mas a agressividade nos gestos tornara-se pose comedida. Sentar e ver um espetáculo, um orgulho. 

Foi a única vez que eu o vi, em 1997. Havia me interessado pela obra dele anos antes, não me lembro exatamente o porquê. A crueza e a acidez eram as qualidades que permeavam os textos. Naquele período, respirava teatro e não perdia uma encenação de peças escritas por ele. Podia ser encenação profissional ou estudantil.

Além de ver aquele texto duro no palco, era a única maneira de adquirir os livros de Plínio. Ninguém os editava. Eram obras que não circulavam em livrarias e tampouco apareciam nas bibliotecas. Havia me transformado em leitor ávido de suas crônicas no Jornal da Orla, última publicação para quem escreveu, além de entrevistas e textos teatrais.

Dois anos depois, em novembro de 1999, Plinio Marcos faleceu em São Paulo, de falência múltipla dos órgãos. Tinha 64 anos. Cursava o segundo ano de História e, assim que ele faleceu, me lembrei do escritor Ruy Castro, que dizia: para uma boa biografia, o biografado deve estar morto. Castro se referia ao risco de manipulação da palavra e das fontes de informação. Era a oportunidade de me aproximar dele em forma de texto. Dois anos depois, escrevi um grande ensaio como Trabalho de Conclusão de Curso. Curiosamente, até hoje é o único estudo sobre ele na Universidade Católica de Santos.

Plinio Marcos, infelizmente, é um daqueles autores que tiveram que morrer para serem reconhecidos. É claro que sua obra sempre foi valorizada, mas estava presa à classe artística e aos intelectuais. As editoras só publicaram algumas de suas obras neste século. A imprensa, salvo os jornalistas especializados, o tratava, em vida, como figura exótica do cenário cultural.

Em 2002, produzi – ao lado do colega Gustavo Zanarolli – uma reportagem especial sobre o dramaturgo. A matéria, exibida pela Rede Record, foi feita por Chrystianne Leite e mostrava que, naquele ano, seis peças diferentes dele eram encenadas ao mesmo tempo em São Paulo, fora as apresentações em outras quatro capitais. Eram mais encenações do que no auge da carreira do dramaturgo, no início da década de 60, antes de ser enterrado pela censura política. 



Plinio Marcos foi um dos alvos preferidos da censura. Os diálogos fortes, os personagens marginais, os cenários degradantes expunham a desigualdade e a violência do meio urbano. Eram temas que derrubavam de nervoso qualquer quepe de milico.

Dizia-se que o universo teatral de Plinio era um “atentado à moral e aos bons costumes”, clichê vomitado pelos retrógrados. A venda de livros nas ruas foi o meio encontrado para sobreviver por não conseguir emprego. Plinio foi derrubado em todas as redações, desapareceu da TV, evaporou das salas teatrais.

Pior do que a postura governamental, previsível na estupidez, foi a censura moral. Muitos textos dele deixaram de ser encenados por causa da agressividade das relações entre os personagens. Os mais apressados e ignorantes queriam associá-lo a um mero escritor de palavrões.

O moralismo esteve presente na proibição da peça “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, em 1996. E não falo somente da história ocorrida em Santos. Vários veículos de imprensa, quando se referiam à peça, encurtavam o nome dela. Apontavam o dedo para a censura em Santos, mas escreviam somente “O Assassinato do Anão”. O palavrão como instrumento herege, que talvez chocasse os leitores.

Plinio Marcos foi comparado por críticos a Nelson Rodrigues. Enquanto o carioca expunha a hipocrisia da classe média, o autor santista esfregava na mesma classe média as contradições e sofrimentos da marginalidade. 



Plinio é um dos poucos autores que escreveu como viveu, na maior parte da vida. É possível estabelecer um paralelo entre as fases de sua biografia e os períodos como autor teatral.

Há o Plinio Marcos do Macuco, do Mercado de Santos, dos trabalhadores infelizes, da cafetinagem, das prostitutas e vigaristas em geral. Existe também o Plinio Marcos místico, transcendental, ligado às questões metafísicas, principalmente a partir dos anos 80. É o Plinio das cartas de tarô, cujas leituras pagaram muitas vezes a refeição de fim de noite.

A obra do dramaturgo também permite, pelas crônicas, identificar o relacionamento com o futebol. Ele tentou ser jogador, mas contribuiu muito mais com o Jabaquara (hoje na quarta divisão de São Paulo) quando desfilava com a camisa em programas de TV, por exemplo. Ou quando desfilava causos nas colunas semanais.

O Plinio do circo e dos trabalhos temporários (como camelô) se expõe nas peças. “O Assassinato do Anão do Caralho Grande” é uma homenagem satírica ao mundo que frequentou na adolescência, antes de ser descoberto por Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz como ator e autor.

A transgressão não é o motivo para torná-lo importante. Ele levou a sério o papel do artista em pensar e repensar – e criticar quando necessário – o mundo em que vivia. Ele sofreu por compreender a função do artista em ser questionador do poder, alguém que desconfia da hipocrisia de muitas convenções sociais.

Plinio Marcos não deixou herdeiros. Digo, herdeiros teatrais. Dezessete anos após a morte dele, falta quem remexa no mundo dos invisíveis. Falta quem leve a arte crua considerada lixo pelo poder ao universo cultural além dos guetos. Sem plásticos ou vernizes. É um trabalho difícil, numa época de liberdade política e amarras econômicas e morais, quando prevalece o politicamente correto. Alguém se arrisca, sabendo do preço que o próprio Plinio Marcos pagou por quatro décadas?

Como disse recentemente um editor da Playboy, as entrevistas da revista perderam fôlego porque ninguém mais diz o que pensa no meio cultural. Apenas um exemplo de como se teme perder (dinheiro, status etc) com a patrulha dos moralistas. Poucos tiram a máscara para pensar na estrutura que se realimenta. Para a patrulha, a vantagem está na polêmica vazia, veloz, natimorta em tempos de celebridades e vida privada como pública.

A sorte é que a obra se perpetua além da finitude do artista. È obrigatório manter os textos de Plinio Marcos em movimento, nas praças, telas e palcos. Significa mais do que uma homenagem ao palhaço transgressor. É colocar na vitrine as feridas de grupos sociais falsamente democráticos. Ser descontente com o mundo em volta, como se espera – pelo menos de vez em quando – de todo artista.