sábado, 31 de março de 2012

O luto e o escudo


Rubens absorveu, como brasa nas costas, a ira das viúvas que exigiam dele ocupar o lugar do morto. Rubens assimilou o sarcasmo dos arrogantes que consideram o segundo lugar uma humilhação. Rubens se acomodou à sombra do semi-deus que insistia em colocá-lo no papel de escudeiro servil ao senhor. Rubens sambava e sorria sob os olhares petulantes de quem escorraça os que dançam fora do protocolo.

Rubens suportou ironias de quem, ao poder do microfone, reivindica por falso patriotismo como resposta ao desespero do vazio de ídolos. Hoje, Rubens escuta, com o sorriso amarelo, o discreto pedido de desculpas de quem o classificou como o bobo da corte por anos de vida no circo.

Todos os Rubens compõem Barrichello, um dos ícones esportivos mais injustiçados em um país que ainda se defende desordenadamente da síndrome de vira-lata, descrita pelo cronista rodriguiano. Barrichello é o goleiro Barbosa de capacete, o sujeito que se tornou responsável por um período de entressafra às vésperas da maioridade. Um Maracanazzo levemente anestesiado por dois vice-campeonatos, 11 vitórias, 14 poles, 17 voltas mais rápidas e recorde de provas, incapazes de amenizar o luto pela morte prematura de quem conduzia a singularidade na Fórmula 1.

Rubens Barrichello era o menino-prodígio precocemente amadurecido e destinado a suprir a ausência forçada do ídolo. Um bom piloto alçado à missão impossível da excelência.

Barrichello não conseguiu – por imagem e semelhança – nos ensinar a decência da derrota reconhecida. O choro era de raiva, sem rastro de racionalidade para levar à compreensão da vitória improvável. A cada justificativa de insucesso diante do melhor piloto dos últimos 20 anos, Rubens sofria com a jocosidade dos arrogantes.

O alemão, que massacrava a todos, parecia – no recalque inadmissível do fracasso – surrar somente o colega brasileiro. Para nós, Rubens jamais seria o Gerard Berger de Ayrton Senna. Era o barbeiro japonês que dava humor às vitórias alemãs.

O recorde de provas disputadas, o carimbo de longevidade que marcaria a resistência pela competência, teve efeito reverso. A durabilidade se metamorfoseou em insistência, resposta esquizofrênica sem lugar em outras culturas. Suportar 19 anos na elite não representou o casco endurecido e cicatrizado de quem apresentava resultados no limite das expectativas. Quase 20 anos significaram, para os ufanistas do cinismo, um martírio da impossibilidade utópica do topo contínuo.

Até a sinceridade em prestar contas como figura pública se transformava em deboche. Os adversários, fechados em seus reinos de soberba, ganhavam a simpatia como personagens que se alimentam do distanciamento impregnado de orgulho por fingir independência de seus seguidores.

Rubens só conseguiu reconhecimento quando fechou a porta e entregou a chave da velha casa. Ao mudar de endereço, Barrichello despertou novamente a submissão dos arrogantes ao verdadeiro senhor. Ao pisar em solo americano, o piloto foi tratado com as honras de quem navegou por 19 anos em águas onde a irregularidade é inerente à sobrevivência.

Quando reverenciado pelos americanos, Barrichello ressuscitou sua cotação no pregão do automobilismo. Se Tio Sam o aclamou, por que os escravos do estrangeirismo saxão o rejeitariam? Mas a petulância não suporta as desculpas. A presunção das viúvas se manifesta pela minimização das agressões. O “não era bem assim” saiu de cena e deu lugar ao “deixa pra lá”.

Barrichello não foi apenas o escudeiro de um alemão fora de série. Rubens foi o escudo de uma dúzia de brasileiros que passaram ou ainda frequentam a Fórmula 1. O escudo que amparou a pressão de acalmar o luto de negação e voracidade de viúvas que jamais compreenderam que o filho preferido não voltaria mais, nem reencarnado no corpo do sobrinho promissor.

Barrichello protegeu, mesmo sem querer, gente como Pedro Paulo Diniz, Ricardo Zonta, Tarso Marques, Luciano Burti, Antonio Pizzonia, Felipe Massa, Bruno Senna e Nelsinho Piquet. Sem ele, a jornada desta turma na elite seria bem mais curta e dolorosa. Nos Estados Unidos, Barrichello é mais um no grid. Longe de casa. Distante do fanatismo raso dos patriotas de domingo pela manhã.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mulheres à esquerda


A decisão de Cassandra Maroni em não concorrer a outro mandato para vereadora sinaliza mais do que o sonho dela em se tornar prefeita de Santos. A aposentadoria legislativa da principal vereadora de oposição na cidade simboliza como a política ainda é uma atividade masculina por excelência.

Cassandra é hoje a única representante feminina na Câmara Municipal. E a presença das mulheres, a partir do próximo ano, dependerá quase exclusivamente da vontade das veteranas Maria Lúcia Prandi e Mariângela Duarte em concorrer, assim como fez Telma de Souza na última eleição.

A preocupação é consistente, inclusive por bases históricas. Nenhum partido conseguiu até hoje atingir a cota de 30% de mulheres na lista total de candidatos. A média oscila entre 15 e 18%. Com mandatos, as mulheres representam – historicamente – 10% das bancadas.

Neste sentido, olhar para a presença feminina no Poder Executivo – principalmente na Presidência da República – é um ato de covardia. É iludir os tolos ao transformar o raro em corriqueiro. Unir Dilma Roussef com Angela Merkel, da Alemanha, e Cristina Kichner, da Argentina, seria fingir um fenômeno global que mascara particularidades, contextos específicos.

A presença feminina na política brasileira e na política regional se assemelha ao menos em um ponto. As mulheres se destacam dentro das siglas mais alinhadas à esquerda. Elas estão ou passaram por partidos que tiveram - em algum momento – uma linha ideológica com afinidades socialistas.

Muitos destes partidos – inclusive o PT – aderiram ao pragmatismo de centro, postura comprovável pelas atitudes de governo como também pela afinidade com programas de adversários ditos mais conservadores.

Dilma Rousseff participou da luta armada e começou na política partidária do PDT brizolista, antes de se filiar ao PT. Marina Silva foi a grande surpresa na última campanha, com 20 milhões de votos. Marina estava filiada ao PV, que a abrigou na ocasião após saída conturbada do PT. Na eleição presidencial quatro anos antes, a pedra no sapato foi Heloisa Helena, do PSOL, que nasceu como dissidência petista.

Na Baixada Santista, Telma de Souza, Maria Lúcia Prandi e Mariângela Duarte ocupam ou ocuparam cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal, até no mesmo mandato. As duas primeiras permanecem no PT. Mariângela migrou para o PSB, mas permanece coerente com o passado quando se manifesta publicamente. Entre as três prefeitas na região, duas tem ligações históricas com o PT. Marcia Rosa, de Cubatão, ainda está no partido. Maria Antonieta de Brito, de Guarujá, é filiada ao PMDB, mas passou anos entre os quadros da sigla de Lula.

Na última eleição para a Prefeitura de Santos, eram três mulheres entre os cinco candidatos. Além de Mariângela e Maria Lúcia, Eneida Khoury (PSOL) concorreu ao Poder Executivo. Ex-vereadoras como Sueli Maia, Luzia Neófiti (já falecida) e Sueli Morgado também surgiram do mesmo endereço.

A desistência de Cassandra tem que fomentar a necessidade de renovação na esquerda, embora a mudança esteja condicionada em parte ao desejo político de Maria Lúcia e Mariângela. O fato é que as mulheres não promoveram a revolução feminina na política, mundo controlado pelos homens.

As mulheres são artigo raro, por exemplo, entre os tucanos. Nos partidos à direita e até entre os nanicos, mulheres são sinônimo de silêncio político, salvo exceções que nem cutucam a superfície do problema. Se as próprias representantes atuais são figurinhas carimbadas, a perspectiva indica que outubro será outra vitória por goleada dos ternos e das gravatas.

A ponte do verbo presente



O diretor Eric Steel e sua equipe acompanharam, durante um ano, a movimentação de pessoas na Golden Gate, em São Francisco, nos Estados Unidos. Daí nasceu o filme “A Ponte”, um documentário desconcertante, não apenas por discutir um tema silencioso na sociedade contemporânea.

A Golden Gate é o local público onde mais acontecem suicídios no mundo. No período da gravação, entre 2004 e 2005, ocorreram 24 mortes. O recorde é de 500 mortes em um ano. A equipe de filmagem registrou vários suicídios. Houve também o testemunho de diversos salvamentos. Quando alguém se jogava na água, a equipe de produção do filme avisava a polícia pelo rádio e chegou a ajudar no resgate dos corpos.

A partir das imagens, o diretor e a equipe de produção procuraram familiares e amigos para que falassem sobre o assunto. Os depoimentos são mais chocantes e perturbadores do que os flagrantes das mortes. E o filme segue por esta trilha, com o olhar centrado na relação entre os suicidas e aqueles que ficaram imersos em luto, saudades, raiva e outros sentimentos.

Quem se joga da ponte cai a uma velocidade de 200 quilômetros por hora. O salto acontece a 69 metros de altura. A queda dura, em média, quatro segundos. A chance de sobrevivência beira zero.

A Golden Gate é o local público mais visitado do país. São oito milhões de visitantes por ano. A ponte é um ponto tradicional de romantismo, onde casais se reúnem para marcar casamentos ou celebrar datas de relacionamentos. Um clássico cartão postal pelo tamanho e pelas lendas.

Os entrevistados, em sua maioria, procuram uma explicação racional para a perda. Lutam para entender os reais motivos que as levaram à impotência diante da morte do outro. A morte que sempre surpreende, mesmo que anunciada, declarada, agendada. Todos trazem, em seus depoimentos, a demonstração de esperança de que o suicídio poderia ser evitado. Falam, muitas vezes, como se seus parentes e amigos estivessem vivos, para chegar a qualquer hora. Os verbos são conjugados no presente.

A raiva marca os que ficaram. Culpam-se por não poder ajudar, sentem-se inúteis por não agirem, queixam-se que o suicida não pediu auxílio no momento certo. Mas apontam direções diferentes para enumerar os responsáveis. Um rapaz que perdeu a irmã encontra respostas na religião. Para ele, a garota foi induzida à morte. Haveria um assassino, pois suicídio é inconcebível na doutrina que comunga. A doença dela, esquizofrenia, é ignorada.

Outro depoimento comovente é o de um estudante universitário, único que sobreviveu à queda no período das gravações. O rapaz é portador de Transtorno Bipolar, problema reconhecido pelo pai somente após a tentativa de suicídio.

Um dos entrevistados ensina poesia, sabedoria e serenidade diante do inevitável. Trata-se de uma senhora sexagenária, que perdeu um amigo, Gene, com 26 anos. O rapaz, que aparece em vários momentos do filme, era o típico fã de rock pesado. Sem relação com os estereótipos simplistas, ele falava com freqüência em se matar. Sofreu com os relacionamentos amorosos fracassados. Perdeu a mãe, a única parente. Entrou em processo de autocombustão.

Quando a senhora percebeu que não poderia corrigir a rota do amigo, disse a ele por telefone: - Ao decidir se matar, me ligue e se despeça. Coloque seu nome e endereço num papel e o proteja com saco plástico. Quero encontrar seu corpo!

Escuto sempre que o suicídio é um ato de fraqueza. Como se o suicida fosse um sujeito egoísta que, quando se mata, não pensa no sofrimento que causará aos próximos. Um dos amigos de Gene se sente magoado, traído pela morte dele. O amigo promete cobrar um pedido de desculpas quando encontrar Gene outra vez.

O respeito à atitude do outro deveria ser inerente numa situação-limite como o suicídio. Assim como é necessário compreender as reações de quem sofre uma perda sem explicações. Todos os casos são únicos, indefiníveis ainda que pensemos em inúmeras variáveis. Pode-se, contudo, alimentar-se de suposições e teorias, que servem de ancoradouros.

O filme reforçou minha posição diante do tema. O suicídio é, acima de tudo, um ato de coragem. Um ato de doação, em certas circunstâncias, mesmo que aparente o descontrole emocional. Tenho a impressão, ao ver o filme, que muitos dos suicidas preferiram machucar a si em vez de ferir pessoas próximas, seja pela doença, seja pelo deslocamento de mundo.

O suicida pode gritar por socorro, mas também pode emitir um grunhido surdo, voltado para o próprio interior, sem efeito, sem resposta, sem ressonância. A questão é que, quem fica, tem o direito de tentar entender. È uma decisão louvável, parte do luto. Quem fica precisa se reposicionar, cobrir a perda, amenizar a falta.

Talvez o principal mérito deste documentário seja escapar da tentação de cultuar a morte ou aprisioná-la via parentes e amigos. As acusações de sensacionalismo me pareceram naturais, diante de uma controvérsia superficial de mídia. Acima de tudo, “A Ponte” respeita o luto e transfere aos espectadores a responsabilidade de pensar ou relembrar o tema. Sem jamais cultivar a presunção de explicá-lo.
 

Obs.: Este texto foi publicado originalmente no site Cinezen

segunda-feira, 26 de março de 2012

Apanho, logo existo



Por Lia Heck*

Hoje, desejei ser, por um momento, homem.

Caminhava para o trabalho, pela manhã, quando vi uma mulher ser lançada na calçada e um homem pular em cima dela dando-lhe socos e chutes. Minha primeira ação foi atravessar a rua e, assustada, olhar para a cena. 

Vi a mulher tentar se erguer, gritando, com a boca ensangüentada. Olhei a minha volta e todos, na rua, ignoravam a cena. Pessoas mantinham o ritmo da caminhada. Moradores conversavam nas portas de suas casas. Todos como se nada estivesse acontecendo. 

Sem saber o que fazer, continuei a andar e, a cada passo, olhava para trás. Ambos pareciam ser moradores de rua e estavam visivelmente sob efeito de drogas. Fiquei tão atordoada com a cena, mas não tinha como tomar alguma atitude.

Antes de virar a esquina e olhar para trás pela última vez, ouvi dois homens sentados num banco. Um deles dizia: “Ah, tá tão chapada de droga que é por isso que ele deve ter batido nela mais uma vez”.

Pela primeira vez na minha vida desejei ser homem. E bem forte. E atravessar a rua e esmurrar aquele sujeito até ver sangue jorrar da cara dele.

Liguei para o 190 assim que cheguei ao serviço. Descrevi a cena ao policial e ele disse que uma viatura iria até o local.

Ainda atordoada, recebi um “feliz dia das mulheres” de uma colega de trabalho, e foi aí que me lembrei do dia de hoje. E a imagem da mulher estirada no chão com a boca cheia de sangue se repetia em minha mente. Essa imagem povoou meus pensamentos durante todo o dia.

Dentre tantos “parabéns” que recebi pelo “meu dia”, pensei em várias mulheres que rodeiam minha vida: minhas amigas queridas, minha mãe, avós, madastra, irmãs... Pensei também em mulheres famosas,brilhantes, e as que estiveram muito à frente da época em que viveram e que, por isso, pagaram alto preço.

Lembrei até das fúteis e suas taças de champanhe. Lembrei de Maria, e sua dor ao ver O Filho pregado numa cruz. E dentre todos esses pensamentos, lembrei-me da cena vista logo pela manhã. Chorei.

De nada adiantaria ser homem, nem por um momento, e socar aquele agressor tal como ele fez àquela mulher. Além de fazer pior do que ele, não seria pela força que eu mudaria sua consciência. Creio que os dois são vítimas.

Eu vi uma mulher ser agredida. Mas não a considero um gênero, classe, raça ou credo. Poderia ser outro ser humano. Desejei que tudo fosse diferente. Não apenas na situação dela, mas na de outras mulheres, crianças, homens, velhos, negros, índios, gays...

* Lia Heck é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA)

Obs.: No Brasil, dez mulheres são assassinadas todos os dias. A maioria dos agressores são pessoas próximas às vítimas. Pais, irmãos, maridos, namorados, vizinhos, tios, muitos deles livres e impunes.

sábado, 24 de março de 2012

Um homem (in)coerente


Celso Lago é um cantor que teima em ser incoerente. Ao vê-lo pela primeira vez, é compreensível confundi-lo com um soul man ou com um sujeito adepto de repertório mais agressivo, de voz que exige timbres mais altos no limiar do barulho. Um cantor perfeito para os fiéis de baladas onde se é impossível conversar. No máximo, aderir à competição de berros ao pé do ouvido entre frases dispersas.

Com quase um metro e 90 de altura e o corpo de quem faria a segurança do próprio show, Celso Lago interrompe as conversas de mesas de bar quando abre a primeira música. De um homem predestinado a se impor pela força, ele exala a delicadeza dos sábios. Quem o acompanha pelos botecos, restaurantes, casas de shows, teatros e até navios de cruzeiros se silencia para compreender o paradoxo com o microfone em mãos.

Revi Celso Lago em seu território. Só o conheço ali, no palco. Pompa e circunstância não existem. Como um operário musical, basta um banco, uma pasta com partituras e um músico ao lado, seja ao piano de um navio ou ao violão de Bheto Alves, parceiro de vida noturna em boteco. Ao fundo, um cenário imaginário que se transforma após os aplausos de continue, por favor.

Como muitos seguidores, sai de casa para assisti-lo. Seu território, um boteco na esquina de duas vias de trânsito intenso, numa quinta-feira qualquer. A voz de Celso calou – para prazer de seus ouvintes em coro e olhares fixos – o ruído linear da vida moderna entrecortada por semáforos.

O cantor, reconhecido no microcosmo do palco que aproxima público e voz e anula o bate-papo paralelo das mesas, parece carregar a música popular brasileira nos ombros. Talvez sejam as costas largas de quem sangra a fragilidade de Djavan e transpira a delicadeza de Emílio Santiago na potência corporal de Tony Tornado.

Celso Lago é um craque discreto. Reverencia quem o agradece pela poesia em voz alta e engata uma conversa pós-show com quem se chega perto dele para dizer obrigado. A riqueza de repertório permanece latente nas análises musicais e nas escolhas e pedidos atendidos em mais uma noite única.

A discrição do craque mora na habilidade do crooner. Em navios de cruzeiro, Celso sabe que está a serviço da música. Contentar-se, mesmo que provisoriamente, com o anonimato é a compreensão mais profunda do papel do artista. Nos navios, a impressão é de que o cantor pode prescindir de si para que a música de outro, em absoluto, prenda a respiração de quem o ouve.

A postura é inabalável também em estúdio. No CD Prisma, lançado no ano passado, Celso divide a interpretação com Larissa Finocchiaro, mais a participação de Renato Braz. Em Prisma, Celso é feito de vidro, no limite da ruptura em cacos, dando vida ào lirismo de Bruno Conde. É um trabalho que reivindica ser ouvido várias vezes, para que possa ser honesto com as múltiplas leituras possíveis, na voz, na letra, na melodia, e no casamento coletivo entre elas.

Em Santos, Celso está proibido de ser mais um. Nos botecos e outras praças, seus pares, amigos e ouvintes ocasionais descobrem – cedo ou no final da noite – que a casa está sempre aberta a versatilidade da MPB. O motivo é que o intérprete, capaz de dar às escolhas alheias variações que jamais comprometeriam a versão original, ao mesmo tempo que nunca soariam como imitações clonadas ou histriônicas.

Celso Lago nos enganará mais uma vez neste sábado, dia 24 de março. Fingirá ocupar o palco do Teatro Guarany com a estampa física para preenchê-lo com a suavidade que mascara a força de sua voz. Celso se apresentará ao lado de Nadja Soares no show “Chico Buarque em três tempos – mulheres, crônicas e política”.

Infelizmente, Chico não encontrará Celso. Não vai testemunhar um intérprete alcançar as flores na violência da ditadura. Mas poderia ver o cantor de aparência improvável enriquecer seus clássicos com a coerência de quem sempre consegue parir, sem dor, uma nova via musical.


Obs.: Texto publicado originalmente no site Culturalmente santista.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O tabu de FHC

FHC e Dráuzio Varela no Complexo do Carandiru, em SP

Assisti esta semana ao documentário “Quebrando o tabu”, dirigido por Fernando Grostein Andrade. E este filme ratifica a condição de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se tornou uma espécie de Al Gore brasileiro quando comprou uma causa polêmica. E não há mal algum nisso.

Ao apoiar a descriminalização da maconha e defender programas de redução de danos, FHC confessa um erro cometido durante sua gestão. Ele assume que, ao seguir a política de tolerância zero dos EUA, o Brasil se manteve atrasado no olhar sobre os usuários. O país ainda enxerga o uso de drogas – diferente do tráfico e do crime organizado – como uma questão de segurança pública, e não como um problema de saúde pública.

O documentário, disponível para locação, foi abafado em muitos setores da sociedade brasileira por desnudar a ineficiência do modelo norte-americano – e seus braços na América Latina, principalmente no México e na Colômbia -, implantado pelo então presidente Richard Nixon, no início da década de 70.

O documentário indica que FHC não está sozinho. Ex-presidentes do México e da Colômbia assumem os equívocos na política de combate ao tráfico. Bill Clinton engrossa o grupo, assim como o médico Dráuzio Varella e o escritor Paulo Coelho, apenas para mencionar às personalidades famosas.

Antes que as vozes adeptas da limpeza social gritem em protesto, é fundamental salientar que ninguém no documentário faz apologia ao consumo de drogas (expressão recorrente do politicamente correto). Não há defesa pela legalização das drogas. O que acontece é uma ponderação sobre as políticas atuais, diante da insistência em um modelo inerte em conter o avanço do tráfico e a multiplicação de usuários.

Os personagens do filme, mediados por FHC, sugerem a necessidade de se separar claramente consumidor de traficante. E compreender o consumidor como um sujeito que, dependendo das circunstâncias, necessita de auxílio do sistema de saúde, e não de uma jaula, onde permanecerá enterrado no vício. Como reforça Dráuzio Varella, há mais de 20 anos atendendo presos e presas no Carandiru, “onde há cadeia, há drogas.”

“Quebrando o tabu” expõe experiências de sucesso em países como Portugal, Espanha, República Tcheca e Holanda na redução do impacto de drogas mais pesadas, como cocaína, crack e heroína. Em todos estes endereços, o índice de contaminação por HIV, por exemplo, caiu mais de 50%. Em 16 estados norte-americanos, a maconha foi aprovada para uso medicinal, o que auxilia no tratamento de certos tipos de câncer e dores crônicas.

Separar demanda de oferta é uma questão social urgente. Testemunhamos a fragilidade da Prefeitura de São Paulo e do Governo do Estado na abordagem dos moradores e freqüentadores da cracolândia. Tratá-los como bandidos reforça o quanto parte da sociedade crê – por desinformação, preconceito e arrogância – que dependentes de drogas representam uma sub-espécie a ser varrida de suas vistas. Ou reunida em guetos cercados por muros e grades.

Santos, que foi pioneira em discutir e aplicar projetos de redução de danos, hoje reproduz o modelo de repressão. No ano passado, parte da classe política tentou negar – a todo custo – a chegada do ox (versão mais agressiva do crack) em pontos de consumo na região. A cidade que abriga pelo menos seis lugares de consumo público de crack não pode virar as costas para o problema como se não fosse com ela. E aí não adianta se esconder no shopping ou na orla da praia para vendar os olhos.

“Quebrando o tabu” nos auxilia a enxergar melhor nossa mania de grandeza, antes que a vida real deixe de rondar a vizinhança e bata à porta, se é que não ignoramos o som grave da mão que soca, em desespero, a madeira.

domingo, 18 de março de 2012

O barulho que machuca o ritual


Voltei a ir ao cinema com bastante frequência. De início, pensei que se tratava da diversidade de filmes por conta do Oscar. Mas percebi que, por trás da necessidade de acompanhar os melhores do ano, estava a redescoberta de um prazer único, enterrado provisoriamente por mídias distraídas como a TV e por suportes tecnológicos que individualizamos como DVD e computador.

Ir ao cinema é um ritual. Ainda que a decisão tenha sido tomada de sopetão, na porta da sala que atravessou o caminho, ninguém passa ileso ao cerimonial que cerca a tela branca. Escolher o filme e o horário da sessão. Convidar alguém (bom, ver um filme sozinho, por vezes, é um alívio para o espírito e para o relacionamento) e se preparar para o programa como se vestíssemos a roupa da missa. Até uma camiseta, bermuda e o par de chinelos de dedo ganham religiosidade diante da liturgia cinematográfica.

A barriga pode estar inchada depois do almoço, dos pedaços de pizza ou do rodízio de carne, mas mastigar a pipoca e rebatê-la com refrigerante soam como obrigação logo na fase dos trailers. Pipoca é como um prato de comida que antecede e estimula a fome pela obra-prima.

Definir onde se sentar também integra o protocolo. Espectadores são como alunos na sala de aula: adoram ficar no mesmo lugar. A perspectiva metódica dá a sensação simultânea de propriedade e segurança. Prefiro sempre sentar no fundo da sala, nas três últimas fileiras. Ver um filme no gargarejo me causa a impressão de que algo está deslocado no meu roteiro.

O cinema, hoje, se aproxima – infelizmente – daquilo que o diretor Jorge Furtado chamou de “mídia dos dispersivos”. Furtado se referia à TV como mais um elemento que competia com a atenção do espectador na sala de casa ou no quarto. O cinema foi engolido pela cultura do exagero, que permeia o comportamento consumista, e ganhou feições televisivas.

O balcão de doces, salgados e tranqueiras afins, de cara, é um exagero monetário, mas o que me assusta são os combos, capazes de alimentar um bando de soldados pós-guerra, sintetizados em um único espectador. O rosto do sujeito que transporta o contêiner de comida, muitas vezes, não pode ser identificado, pois se esconde à revelia atrás do balde de pipoca e do tonel de um litro de óleo negro temperado com açúcar.

A torneira de onde jorra a manteiga pré-enfarto representa uma visão de embrulhar o estômago. O líquido viscoso faz com que a torneira se pareça com uma bomba de combustível, que abastecerá o tanque ávido por gordura.

Cada vez que testemunho uma cena como esta, sinto saudades do carrinho de pipoca com seus tímidos saquinhos de papel do século XX. Outro dia, encontrei um deles – não era na frente do cinema – e imaginei que fosse uma peça museológica, guardada por um arqueólogo sorridente.

A sala de cinema se transformou na extensão da sala de estar. Antes, durante e depois do filme, o cinema virou uma sinfonia de ruídos, que transitam da mastigação ao toque de celular com trilha do Jornal Nacional, dos sacos de comida que se rompem ao bate-papo sobre futilidades.

Para aumentar a renda, os cinemas passaram a exibir apresentações musicais, como óperas, orquestras e shows de rock. Mas a primazia pelo som costumava pertencer à tela. O cinema, de monastério ás escuras, passou à extensão da praça de alimentação, uma feira livre fast-food, com iluminação intermitente de telas pequenas de toque estridentes.

As recomendações de comportamento civilizado, antes da exibição, se limitam ao diálogo de surdos. Muitos espectadores preferem até chegar mais tarde para pular os “sermões” e sepultar qualquer tipo de culpa. Um comportamento de quem se julga soberano apenas porque pagou pelo serviço. Entre os infectados pela “síndrome de Lady Cate”, vale até levar pizzas inteiras para a sala de cinema e deixar o lixo nas cadeiras. Até porque, para eles, sempre haverá um escravo uniformizado para recolher os restos alheios.

Em muitos endereços, o cinema passou a ser um rascunho de ritual, uma caricatura perversa e compatível com a postura consumista do momento. Exagerar é se fazer visível, confrontar por atitudes vazias é se destacar por instantes na multidão. Atender ao celular e falar alto durante o filme é sonhar com o holofote numa sala onde escuridão iguala a todos ao papel de espectadores.

Reclamar dos excessos no cinema te coloca como paranóico, chato, intrometido e até censor. No ritual da omissão, permitem-se caras e bocas de descontentamento. Deixe para lá, uma hora o bicho se acalma.

A exceção é comentar, paradoxalmente, bem baixinho com a pessoa ao lado sobre a indelicadeza alheia. Como assim, levantar a voz e chiar com a barulheira da criatura que tagarela ao telefone? Seria uma falta de educação perturbar quem deseja ver um filme na paz do silêncio.


Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Cinezen.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O teto de vidro



Rosas vermelhas são um gesto cordial, talvez um presente entregue por reconhecimento momentâneo. O abraço e o beijo demonstrariam o afeto por ela, que está ao lado, mas que podem atender convenções sociais. Homenagear mulheres no dia 8 de março representa um ato de carinho, mas jamais poderiam mascarar comportamentos rotineiros nas relações de gênero.

As mulheres ainda não completaram o ciclo revolucionário. A revolução segue numa fase de transição que atropela os homens – incapazes de entendê-las -, embora também provoque deserções no universo feminino.

As vítimas não são apenas as mulheres que engrossam a pilha de boletins de ocorrência nas delegacias, números que – somados – nos indicam quanto o machismo se manifesta pelo olho roxo, pelos cortes, pelas marcas de queimaduras, pelos corpos que entopem geladeiras de institutos médicos.

Mulheres espancadas e mortas são a ponta mais cruel de um iceberg de sangue. Hoje, nada tão falso ou tão politicamente correto do que dizer que as mulheres conquistaram seu espaço. De que mulheres falamos? Qual foi o preço pago para a aceitação no clã masculino?

Um das taxas deste pacote tributário é a mudança de sexo. Não me refiro às cirurgias que geram novos desenhos orgânicos. A dor está na interpretação teatral de outro gênero para se sentir pertencente a um grupo. O mundo corporativo, por exemplo, transforma mulheres delicadas em machos selvagens por conta de um salário, ainda assim, inferior.

Numa grande construtora, em São Paulo, uma engenheira – para sobreviver na obra repleta de homens – passou a falar palavrões, beber em demasia nas reuniões semanais e, como máximo da aceitação, fazia movimentos com os quadris para simular que possuía um pênis. Outra engenheira, ao recusar estilo “viril” da colega, virou alvo de discriminação. Ser educada virou um defeito. Não beber era uma contravenção. O silêncio diante das piadas machistas a tornou pecadora.

Muitas mulheres optam por aceitar as condições dos homens para ganhar a carteirinha do clube deles. Entrar na associação não significa injetar em si os valores masculinos. Nem integrar a diretoria. É a melancolia de quem reproduz – sem a consciência disso – a forma machista de enxergar o mundo. A metamorfose que se completa nos julgamentos de outras mulheres, que deixam de ser semelhantes, mas como um pedaço de carne no açougue.

A revolução feminina, em curso desde o século passado, deve ser retomada de maneira coletiva. Não basta ser uma profissional que se nega a atender os desejos machistas. Desmantelar um exército de mulheres é a estratégia recorrente do mundo masculino. Fingir-se tolerante é tática utilitária contra o avanço das mulheres em territórios que pertenciam antes aos homens.

Na vida prática, os homens, algemados voluntariamente em valores arcaicos e selvagens, se unem e lutam para manter o estado de coisas. Aceitamos como natural a exposição do corpo feminino como mercadoria na TV. Replicamos suposições sexuais para as que ascenderam na empresa. Classificamos como mal amadas aquelas que mergulham no trabalho para dar conta de mais um papel social. Definimos a sensibilidade e a intuição, por ignorância ou inveja, como qualidades menores, doidos para tê-las.

A revolução feminina está incompleta. Não são rosas vermelhas, abraços ou outros gestos masculinos que carimbam a igualdade de gêneros. Um ato de carinho pode ser o crime perfeito, a dominação imperceptível do bruto. As mulheres precisam perceber que o teto está próximo, mas é feito de vidro. Ponham os homens de lado! Depende de vocês o fechamento do ciclo. 

Obs.: A imagem acima é a reprodução da foto de uma ex-catadora de materiais recicláveis no Aterro Controlado do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). A foto foi feita pelo artista plástico brasileiro Vik Muniz e depois vendida, junto com imagens de outros catadores, na Europa. O dinheiro foi revertido para projetos sociais no local. Esta história é contada no documentário Lixo Extraordinário, dirigido por Lucy Walker, com co-direção de João Jardim e Karen Harley. O filme foi indicado ao Oscar da categoria em 2011, venceu o Festival de Sundance e recebeu o prêmio do público no Festival de Paulínia.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Onde estão os negros?


Um grupo de universitários demonstrou surpresa quando, há duas semanas, a professora afirmou que havia racismo no Brasil. Os alunos, como elite educacional (e talvez também por este motivo), não enxergaram um problema que reside na essência da construção cultural brasileira. Os universitários acreditavam que a democracia racial era um fato consumado.

No final de fevereiro, por exemplo, a Superliga Masculina de Vôlei enfrentou pelo segundo ano consecutivo casos de racismo. Wallace, oposto do Cruzeiro, foi chamado de macaco quando se preparava para sacar durante a partida contra o Minas, em Belo Horizonte. Uma torcedora do Minas completou a agressão, dizendo que o atleta deveria voltar para o zoológico.

As ofensas foram captadas pela emissora de TV que transmitia o jogo, mas a torcedora não foi identificada. O Minas, em comunicado oficial, tentou se eximir da responsabilidade, apesar de o Código Brasileiro de Justiça Desportiva estabelecer multa de até R$ 100 mil para o clube cuja torcida “praticar ato discriminatório relacionado a preconceito de origem étnica, raça ...”

Casos de discriminação pipocam pelo mundo globalizado, em várias modalidades esportivas. Um jornalista da ESPN foi demitido por ter usado termos pejorativos ao mencionar o jogador de basquete Jeremy Lin, filhos de imigrantes de Taiwan, após um jogo na NBA, liga profissional dos Estados Unidos. No futebol inglês, o episódio envolveu o zagueiro francês Evra, de ascendência senegalesa, e o atacante uruguaio Luiz Suaréz. O jogador sul-americano foi suspenso por oito partidas após proferir palavras racistas contra o adversário.

O esporte, pela amplitude de suas ações na mídia, permite interpretações rasteiras, ao se amenizar o problema, classificado como pontual ou “situação de jogo”. Pelo contrário, os esportes funcionam como tradutores e catalisadores de comportamentos culturais. É ali – nas arenas esportivas – que torcedores e atletas vomitam, com graus distintos de passionalidade, seus valores normalmente ocultos nas demais relações sociais.

A vantagem de se defender o mito da democracia racial, pensando nas particularidades brasileiras, é contar com a ausência de debate sobre o assunto. Por que conversar sobre algo que não existe? A inexistência se movimenta pela cegueira que mascara uma convivência perversa, na qual negros são aceitos quando assinam o contrato de embranquecimento. Nas entrelinhas do acordo, o passaporte financeiro.

É evidente que, no cenário atual, a discussão sobre discriminação racial tem que estar conectada com variáveis sócio-econômicas. A renda familiar, associada a outros elementos como escolaridade, colabora para reduzir – pelo menos – o grau explícito de segregação. A conta bancária mais gorda não ameniza ou apaga os rótulos que permanecem presentes no cotidiano. Os estereótipos ainda pulsam nos olhos do policial quando realiza uma blitz. A imagem-clichê escandinava ainda é padrão estético, cinicamente driblado pela linguagem em expressões como “boa aparência”.

Há cerca de 10 anos, um professor se mostrou chocado, durante um debate, ao ouvir que Santos não seria diferente em termos de discriminação racial. — Onde estão os negros na cidade?, ele perguntou. De início, pensei ser uma piada de mau gosto. Diante da insistência, percebi que ele engrossava o coro dos cegos. A ignorância era dolorosa porque não dava chance à má fé.

Este professor não está sozinho na bolha de plástico que sustenta e perpetua um olhar delirante sobre racismo. Dentro da bolha, negar sempre é a palavra de ordem, mesmo que soe infantil ou ingenuidade.

Xoxota e pau nas coxas


com Beth Soares

Na primeira viagem do casal, uma única promessa: submergir na cultura local, sem pudores, sem preconceitos. Experimentar era o verbo da vez. Fizeram um acordo tácito de conhecer tudo que fosse diferente. Tudo mesmo! Qualquer relutância ou deslize seriam enterrados no aeroporto de Salvador, antes do voo de volta.

Novas expressões, gente diferente, corpos de calendário à mostra em praias de cartão postal, iguarias que apimentariam a digestão e a relação; nenhuma vivência superaria a noite naquela praça, em Feira de Santana. O lugar estava lotado, “gente brotando do chão”, como diriam por aqueles lados.

Vendia-se de tudo que se pode imaginar – e também o que não se pode nas cartilhas das senhorinhas tradicionais. Quando viram o cartaz oferecendo o serviço, os olhos brilharam. Era a senha para desligar aquele botão do cérebro que nos limita a fazer apenas o que não vai chocar o outro, que nos traz a lembrança da mãe dizendo o que é feio, da vizinha dizendo o que é imoral, dos membros da família feliz dizendo que você destoou e, por isso, merece ser banido.

O casal, naquele momento, esqueceu a imagem samaritana. Não havia lugar para medo, hipocrisia, ciúme, sentimento de posse ou qualquer coisa parecida. A noite seria a dose perfeita para dois corpos calorentos e impacientes.

Antes de se mexer, perguntaram para amigos sobre a qualidade e a natureza do serviço. A turma se dividiu entre os surpresos e os ignorantes. Ninguém assumiu o consumo do produto.

Tímidos, os dois foram até o rapaz responsável pela oferta. Era muita cara-de-pau uma placa daquela em praça pública. Ou os dois, caiçaras paulistas, não estavam acostumados com tamanha naturalidade baiana. Ele nos atendeu como se vendesse doces às crianças. Acompanhado de duas mulheres, o homem sorridente tirou todas as dúvidas, típicas de quem nunca havia se permitido nada parecido. Era um profissional, sem distinção de tratamento aos turistas ou aos nativos.

Depois de um minuto de conversa, oscilando da vergonha à falsa neutralidade, o casal resolveu pedir, ali mesmo, na praça, uma xoxota e um pau nas coxas. A entrega aconteceria em dois minutos. O preço era irrecusável: R$ 2,50!

O casal olhou para os lados e conferiu as dependências do lugar. A higiene parecia adequada. O atendente usava luvas. As mercadorias estavam perfeitamente acondicionadas, sem indicação de riscos à saúde. Os dois balançaram a cabeça e confirmaram o sim. Iriam até o fim.

Com o relacionamento a salvo, acompanharam todos os passos daquele rapaz que, sem nenhuma cerimônia, aprontou tudo. Foram momentos deliciosamente doces. Como nunca pensaram em fazer algo assim, em casa mesmo?

Saíram de lá satisfeitos, alegres como a criança que faz uma travessura e não é descoberta. Agora, a vergonha não fazia sentido. Sabiam como fazer, poderiam repetir, convidar amigos para experimentar. Simples e barato. Se Feira de Santana oferecia o pacote completo, São Paulo – uma terra cosmopolita – providenciaria todos os ingredientes. Ficaria mais caro, claro, mas o prazer permaneceria intocável.

Depois de provar o produto e satisfeito com o atendimento, o casal retornou para a praça para reencontrar os amigos que acompanham um show de pagode. Ninguém acreditou que os dois levaram a curiosidade até o último tom. Ninguém quis experimentar. Poderia pegar mal para quem morava ali.

O casal não ofereceu três vezes. A primeira bastava como educação. A segunda, para fazer média. Tomaram as duas doses e ainda fizeram troca-troca. Ele ficou com a Xoxota, uma mistura de groselha, vodka, limão e leite condensado. Ela pagou pelo Pau nas Coxas, bebida muito parecida, bastava substituir o limão pelo abacaxi. Dois orgasmos etílicos memoráveis, como tudo na Bahia.

Obs.: O texto foi publicado originalmente no site Jornalirismo

Ilustração de Kitty Yoshioka. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

E o mendigo?


O Ministério Público Federal manteve acesa a história de agressão ao universitário Victor Soares Cunha quando denunciou os cinco jovens por tentativa de homicídio qualificado e pediu a prisão preventiva deles no Rio de Janeiro. O caso aconteceu no início de fevereiro e Victor, que sofreu cirurgia para reconstrução do rosto, se transformou numa espécie de herói por ter defendido um mendigo, vítima inicial dos selvagens.

Neste enredo com cenas repetitivas, quase todo o elenco foi identificado. Promotores de justiça, os agressores (inclusive com apelidos), Victor e o amigo que serviu como testemunha. Até o soldado da Aeronáutica Yuri Ribeiro ganhou um papel de coadjuvante pela truculência na Internet. Pode ser expulso da Força Aérea Brasileira pelo surto de virilidade e valentia no mundo virtual.

Mas e a origem desta história? Neste caso clássico da sociedade do espetáculo, quase todos ganharam minutos no noticiário, fizeram parte da leitura maniqueísta dos fatos e ocuparam os devidos papéis de mocinhos e vilões. Só que há uma exceção, anônima, vista como rodapé de página das reportagens. Quem seria o mendigo?

Ora chamado apenas de mendigo, ora identificado somente como morador de rua, a primeira vítima se tornou uma figurante, sem rosto, nome, passado, opiniões, aparentemente irrelevante para a construção desta salada policial. Às vezes, para se evitar repetições linguísticas, ele é chamado de homem. Nada mais vago, impessoal e genérico.

Os hipócritas poderiam dizer que o lado bom se apoia no fato de que, ao chamá-lo de homem, evita-se classificá-lo entre as prateleiras da marginalidade. Na prática, o que as palavras mudam para alguém que não pode se alimentar delas?

Victor é tratado como um herói. Ele o é, mas este ato heróico deu ao estudante exclusividade no posto de vítima. Na superficialidade dos olhares e discursos, não existe lugar para parceiras ou divisões. Logo, o mendigo teria que desaparecer na página 2.

Desviar das convenções sociais implica em pagar o imposto da insignificância. Ao mendigo, é negado o elemento mais rudimentar da identidade. Ele não tem nome. Por que nomear quem não deveria estar entre nós? É um morador de rua, a quem a história renega, ou é forçada a renegar por conta dos outros sujeitos que a compõem.

Ao mendigo e seus semelhantes, serve como esmola a insistência do cotidiano traçado pelos indiferentes. Desviamos nas calçadas, nos incomodamos com o aspecto animalesco deles. Eles representam a podridão que desejamos jamais alcançar. É a negação por natureza.

Por conta disso, não lhes oferecemos a voz ou o espaço para manifestação. Até a condição de vítima lhe é retirada quando o mendigo se torna apenas uma palavra que se perde no noticiário massificado.

Nem o mundo jurídico, povoado por letras idealizadas, se interessa por ele. A investigação policial se preocupou em localizá-lo? O que ele teria a dizer? Seria mais um ator no processo judicial? Uma testemunha ocular? Ele se tornou dispensável quando vítima (herói) e vilões foram alçados a seus papéis por terceiros. Os eleitos não precisam de concorrência. Quem sabe até não atrapalhasse na condução da estratégia da acusação?

Sabemos que, quanto mais próximo da base da pirâmide social estiver o sujeito, mais invisível ele se torna. Ignorado por instituições, ignorado pelos “cidadãos de bem”, corre o risco de não ser visto sequer pelos próprios pares. Para muita gente, o mendigo não merece a palavra porque não seria capaz de usar com dignidade. Não seria digno da espécie. Não seria da mesma espécie.

Nesta balança adulterada de civilidade, o mendigo não sofreu um ato de violência tão grave quanto o do estudante. Qual o estado de saúde dele? Ele precisou ser hospitalizado? Talvez se tivesse sido incinerado como um indígena ou se fosse tratado como mula, com direito a corda no pescoço, como aconteceu no interior de SP, o mendigo conseguisse participar do noticiário no horário nobre. Ainda assim, pela qualificação social padronizada: mendigo ou morador de rua.

No saldo da tragédia humana, o tratamento dado pelos agressores ao morador de rua se parece com a visão da imprensa. Por que dar voz a alguém que não se encaixa nos padrões, que não possui status suficiente para merecer uma identificação?

A diferença é que os agressores, coerentes com a própria estupidez, optaram por eliminá-lo à força. Os jornalistas o eliminaram com a sutileza das entrelinhas.

Qualquer um sabe que a condição financeira é elemento que diferencia o interesse pelos fatos jornalísticos. Victor é um estudante universitário e sua história ganhou amplitude também por isso. A mesma lógica prevalece no caso dos agressores, bem nascidos, o que se supõe ser uma premissa de civilização e de comportamento adequado. Nada diferente da gélida expressão de horror quando crimes são cometidos por gente de classe média. Dinheiro e caráter, neste sentido, seriam irmãos gêmeos.

Torná-lo inexistente é apenas uma nova forma de agressão, que nos ilude por se negar ofensiva. Engrossa a fileira de violência, de variadas ordens, que endurecem a casca desta vítima obscura.

Agredir com indiferença é eliminar o sujeito em vida, na crueldade do silêncio. Atitude que um humano jamais se acostuma, ao contrário do que os indiferentes creem. O desfecho é a metamorfose do mendigo em figura abstrata, um alívio para a consciência dos espectadores.

A infância perdida


Três estudos publicados na revista norte-americana “Pediatrics” sacudiram as concepções de infância em parte da comunidade médica. Os trabalhos, produzidos pela equipe do Hospital Pediátrico de Boston, afirmam que uma em cada 10 mil crianças acredita ter nascido no corpo errado e, por conta disso, desejaria mudar de sexo. Nos últimos 20 anos, o hospital teria registrado aumento de 300% no número de atendimentos deste tipo.

Um dos médicos, em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, utiliza como exemplo uma menina de oito anos, nascida em Los Angeles. A garota, com 18 meses de idade, teria sido categórica: “Sou menino.” Segundo o médico, os pais – de início – levaram na brincadeira e hoje, seis anos e meio depois, estão crentes de que sua filha deverá passar por tratamento hormonal assim que entrar na puberdade.

Para justificar a decisão de aplicar injeções de hormônios em pessoas na faixa de 11, 12 anos, os médicos alegam que elas sofrem de “distúrbio de identidade de gênero”. Dentre todos os absurdos que cercam esta história, os médicos contrários ao tratamento hormonal alegam que estas crianças estariam sendo classificadas como doentes mentais para driblar o debate ético.

A infância, assim como as demais etapas do desenvolvimento humano, é composta por elementos biológicos, psicológicos e culturais. Como é possível acreditar que uma criança, com um ano e meio de idade, que mal consegue falar e, principalmente, mal consegue se sustentar em termos psicológicos, pode estar insatisfeita com sua sexualidade ou com seu gênero? A criança sequer conhece seus órgãos genitais e suas funções, só para arranhar a superfície deste assunto.

Optei por me estender um pouco neste episódio, que rasga códigos de ética, porque estamos rodeados por sinais que indicam alterações na concepção de infância. Na prática, elementos sociais que aceleram, queimam etapas tanto biológicas quanto culturais, que podem implicar em conseqüências psicológicas numa faixa etária de absorção feito esponjas.

No Brasil, uma das grandes novidades da indústria infantil do vestuário foi o lançamento dos sutiãs com bojo. Um produto vendido para crianças de quatro a seis anos. Numa loja de departamentos, os sutiãs foram campeões de vendas no setor de roupas infantis. Clínicas de estética – o nome envernizado dos salões de beleza – oferecem dias de princesa e de príncipes para crianças. Entre os serviços, maquiagem definitiva e limpeza de pele.

Por que crianças necessitam reproduzir, em miniatura, a vida de adultos? Uma amiga psicóloga me disse – certa vez, em tom de “brincadeira” – que trocou as crianças pelos adultos como pacientes porque os problemas derivaram de gente grande.

Vivemos numa sociedade em que muitos adultos depositam, em vários níveis, suas expectativas, seus desejos, seus sentimentos em seu filhos, sobrinhos, enteados. E, com isso, crianças carregam responsabilidades além do compatível, atreladas a cobranças e pressões que representam um passaporte para o mundo adulto bem antes do tempo.

Para manter de pé uma sociedade que cultua aparências no altar, que se alimenta da forma em detrimento do conteúdo, escolhemos fundir faixas etárias, ignorar diferenças culturais ao nível da padronização e minimizar a importância de alterações biológicas. Um sinal vivo nos adultos que se comportam como crianças ou que perseguem a juventude como uma fase de vida inteira. Esta postura tem falhas que cobrarão seu preço, inclusive monetário para bancar as consultas aos especialistas.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O mal-entendido



Vencer a Bósnia por 2 a 1, com um gol contra, aos 45 minutos do segundo tempo, não altera a irrelevância do jogo antes da realização dele. O Brasil venceu os cinco últimos amistosos, o que poderia reforçar o cinismo dos pragmáticos de resultados. Antes da Bósnia, a seleção brasileira ganhou de Costa Rica, México, Gabão e Egito. Nenhuma das vitórias se deu por goleada.

Os jogos seriam parte da preparação para a Copa do Mundo, daqui a dois anos e meio. Se usarmos a competição como parâmetro, confirmaremos o estelionato. Qual dos cinco chegaria, por exemplo, às quartas-de-final? Só o México, desde que jogasse em casa. Qual dos cinco chegaria às oitavas-de-final? A Costa Rica alcançou esta fase uma vez, há 22 anos. Aliás, perdeu para o Brasil por 1 a 0, aquele time comandado por Sebastião Lazaroni.

Podemos enfileirar argumentos que retratem estas partidas como absolutamente inúteis. O próprio coordenador de seleções, André Sanchez, deu o recado: os testes acabaram. É hora de montar um time. Uma leitura mais apressada poderia indicar que o diagnóstico é irreversível e, em duas frases, de fácil tratamento.

Mas o problema é que a seleção atirou um ano e meio na lata de lixo. Padecemos de inércia coletiva. O Brasil estacionou em 2010, na eliminação da Copa do Mundo, sem se reinventar. A renovação prometida é de nomes, mas não de linguagem ou de estética. Os pontos fortes permanecem sólidos. As deficiências se esfregam vivas em nossos rostos.

O goleiro é Júlio César e, apesar da mudança dos reservas, a posição permanece estável. O mesmo acontece nas laterais. Na direita, Maicon e Daniel Alves seguem entre os melhores do mundo, assim como Marcelo no lado esquerdo. No meio da defesa, a situação é idêntica. Lùcio foi aposentado, mas a seleção tem – para Tostão, por exemplo – o melhor zagueiro do planeta: Thiago Silva. O companheiro de zaga, David Luiz, atua por uma das principais equipes da Europa, o Chelsea. Os reservas também estão em nível semelhante.

As fraquezas do meio-campo e do ataque são enredo conhecido, independentemente ou não das convocações de Mano Menezes. O time ainda cultua o luto, a viuvez de Ronaldo. Não o trocou por ninguém. Neymar é obrigado a saltar degraus para protagonizar o setor. Seu parceiro de frente muda a cada amistoso caça-níqueis. Nenhum se firma. Nenhum provoca cócegas ou temor nos adversários. Tanto que Robinho, execrado pela irregularidade, virou farol de esperança diante da boa fase no Milan.

O meio-campo não preferiu outros caminhos. E, neste setor, fica explícita a pobreza tática. Pobreza porque não existem variações. O Brasil é previsível para os adversários. O Barcelona também é, mas a diferença reside na versatilidade que permeia um esquema único, conectada umbilicalmente no talento e na troca contínua de posições dentro do campo.

O Brasil se fantasia de paquiderme, no qual cada jogador tem atribuição específica e basta pela arrogância. Um volante destruidor, outro volante que joga um pouco mais adiantado e finge ser meia. Os outros dois seriam responsáveis por levar a bola ao ataque. Um deles seria mais criativo e o outro, necessariamente para carregar o piano. Como se fosse uma heresia dois craques na criação de jogadas.

Sempre considerei um contra-senso, uma perversidade do futebol a demissão de técnicos por conta de meia dúzia de maus resultados. Responsabilizar um único profissional em um esporte coletivo, ainda mais aquele que mal teve tempo para construir e direcionar um grupo, é a maneira mais promíscua de implantar a política do bode expiatório.

Após um ano e meio e 21 partidas, a seleção brasileira apresenta o mesmo perfil. Queda no ranking da Fifa, disputas políticas, escândalos de corrupção complementam o conjunto de nuvens negras. O fato é que o Brasil, mesmo protegido pela empáfia traduzida na hipocrisia dos melhores do mundo, se tornou um time comum. 

Assim tem sido a era Mano Menezes. Prometendo renovação, ele nos entregou mais do mesmo. Falando em mudanças, maquiou o estado de coisas. Elogiado como adepto de novos ares, mostrou-se fiel aos velhos vícios do cargo. Infelizmente, o técnico atual mantém a seleção brasileira no purgatório, posição perigosa para quem sediará o próximo Mundial. Mano Menezes, salvo uma virada do avesso, parece ser um mal-entendido.