quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

[REC] - o terror espanhol

Depois de uma infantil desconfiança, resolvi assistir esta semana ao filme espanhol [REC], dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza. Despretensioso, o filme poderia se perder na infinidade de tramas de terror, maioria norte-americanas, cada vez mais parecidas com um ou outro sucesso de bilheteria.

[REC] – produzido em 2007 - seria mais uma história de cinema-verdade? Seria mais um filhote de “A Bruxa de Blair”? [REC] reforça a tradição dos filmes de terror produzidos na Espanha, com criatividade, baixo orçamento e investimento no roteiro, nos diálogos e na construção do clima de medo.

A indústria cinematográfica dos Estados Unidos reagiu ao sucesso de [REC] no mercado internacional da mesma forma que fez com as produções japonesas, como “O Chamado” e “O Grito”. Um estúdio compra os direitos e refilma a história, com adaptações à cultura globalizante. No caso de [REC], surgiu a cópia Quarentena, de qualidade inferior. Sugiro que o leitor fique com o original europeu.



[REC] valoriza o chamado cinema-verdade, sem parodiá-lo de modo grosseiro. Presente ao longo da história do gênero terror, o cinema-verdade simula cenário, personagens e roteiro, como se todos os acontecimentos fossem realistas. O sucesso mais recente do modelo foi “Atividade Paranormal”, bastante comparado “À Bruxa de Blair”, inclusive pela estratégia de marketing via Internet.

[REC] não possui abertura ou créditos iniciais. Aparece a repórter Ângela Vidal (interpretada por Manuela Velasco), que trabalha em um programa chamado “Enquanto Você Dorme”. Acompanhada pelo cinegrafista Pablo – que representa pelas lentes da câmera o olhar da história -, a repórter vai acompanhar a rotina do Corpo de Bombeiros de Barcelona. Aliás, Pablo nunca aparece, ao contrário da cópia “Quarentena”, no qual um ator se filma várias vezes. Pablo é interpretado por Pablo Rosso, cinegrafista da equipe de produção, com dublagem de Pepe Sais.



Os primeiros minutos da trama se mostram entediantes, simbolizados pela expressão de tédio da repórter diante de uma noite morta (com o perdão do trocadilho). Até que os bombeiros recebem uma chamada para resgatar uma senhora que teria passado mal em casa. A repórter e o cinegrafista embarcam na viatura com os bombeiros Manu (Ferraz Teraza) e Alex (David Vert).

Quando chegam ao prédio, são acompanhados por um policial. Vários moradores se encontram no saguão do edifício, de aparência interna decadente. Ao entrarem no apartamento da senhora Izquierdo, o grupo a vê desorientada e com muito sangue. Os bombeiros tentam iniciar os primeiros socorros, mas a senhora ataca o policial.



A senhora é nocauteada por um dos bombeiros e o policial ferido, retirado do apartamento. Antes que todos pudessem sair do edifício, o local é lacrado pela Vigilância Sanitária, sem explicações. Com todos dentro do prédio, começa o jogo de gato e rato entre vítimas e zumbis.

A história é contada pelas lentes de Pablo, com os stops e recs da rotina de gravação de uma equipe de TV. A repórter sente que tem uma grande matéria nas mãos e tenta, em princípio, acompanhar todos os fatos de perto. O sobe e desce das escadarias do prédio, o corre-corre com vítimas, as discussões entre policiais e moradores e a chegada de um representante da Vigilância Sanitária – que esclarecerá o motivo dos ataques, ao menos de forma parcial – são registrados pelo cinegrafista. Pablo, por vezes, deixa a câmera cair ou a balança conforme corre atrás dos fatos ou em fuga.



[REC] tem vários ingredientes de um excelente filme de terror. A trama gera medo, e não sustos eventuais. É daquelas histórias que poucos espectadores assistiriam sozinhos no quarto escuro. O sangue está à serviço do roteiro bem amarrado, e não o contrário, como ocorre na grande parte das fitas do gênero.

O filme sabe esconder as informações do público. O roteiro fornece as causas do fenômeno no edifício a conta-gotas e deixa personagens e público no mesmo patamar, até pelo fato de que acompanhamos a história pelo olhar de um personagem.

Outro ponto importante é o final, que foge dos clichês do gênero nos Estados Unidos e garante a reviravolta em torno das causas da presença de zumbis no prédio em Barcelona.

Os diretores Balagueró e Plaza, com algumas produções de terror no currículo, também conseguem misturar entretenimento com certa dose de crítica política. Parte dos moradores espanhóis acusa a família de imigrantes chineses, residentes no edifício, de ser a responsável pela praga que atacou o grupo. O filme, mesmo que de maneira tangencial, dá visibilidade ao problema da imigração e o preconceito decorrente em muitos países europeus.



Este terror de origem espanhola é parte de uma safra de filmes que começam a ser descobertos graças às brechas (ou pacotes de distribuição, como queiram chamar) do processo de globalização do cinema. São poucas produções ainda nas locadoras. Mais raras ainda as exibições nas salas de cinema (foi o caso de [REC], uma exceção).

[REC] – assim como outra excelente produção espanhola, O Orfanato - indica que é necessário e interessante que observemos outros olhares sobre o gênero terror. É interessante como forma de respiração para o nosso olhar cinematográfico. E necessário para escaparmos da padronização massacrante da produção industrial.

Esqueça os filmes-clichês de zumbis. [REC] faz coro a excelentes histórias de mortos-vivos, como o inglês Extermínio e as produções politizadas de George Romero, o mestre deste tipo de filmes. A diferença é que [REC] não se conecta à ideia de caos generalizado ou mundo apocalíptico. Apenas implanta o terror absoluto dentro de um microcosmo qualquer, quase cotidiano.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Universidade ou shopping center?

Este texto foi publicado há oito anos, na extinta revista eletrônica O Caiçara. Relendo depois deste tempo, percebi o quanto é atual, salvo apenas os nomes do personagens envolvidos.

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O Brasil nunca teve tanta gente estudando! O Ministério da Educação dá pulos de alegria e tem pressa em divulgar seus índices. Mais de 90% das crianças frequentando o ensino fundamental. Cerca de 13 milhões de estudantes matriculados no ensino médio. E mais de 2,5 milhões de universitários nos bancos escolares (hoje é o dobro!). Números que, à princípio, assustam e nos transmitem a sensação de que a educação brasileira segue o rumo correto.

Faço minhas as palavras do (então) presidente da República, Fernando Henrique Cardoso: "A educação brasileira cresceu em quantidade, mas ainda falta qualidade."

Os números realmente são relativos. No caso dos sistemas de ensino fundamental e médio, as estatísticas mostram que o desempenho dos estudantes é inferior a 1995, quando o Governo Federal - com apoio de Estados e Municípios - entrou de cabeça em campanhas para levar todas as crianças à escola. A queda de desempenho atinge todas as disciplinas envolvidas: português, matemática e ciências (biologia para o ensino médio); atinge tanto as escolas públicas e privadas; atinge Estados ricos como São Paulo e Rio Grande do Sul e Estados pobres como Acre e Alagoas. As exceções ficam por conta do Rio de Janeiro e de Roraima.

Para a (então) secretária de Educação de São Paulo, Rose Neubauer, os dados refletem o grande número de crianças pobres que tiveram acesso às salas de aula. Como se elas tivessem obrigação de estarem prontas para estudar! Sem falar no preconceito de classe.

No entanto, não pretendo me estender muito em análises sobre o ensino fundamental e médio, pois pretendo enfocar a universidade brasileira nesse artigo. São 5 milhões de universitários (índice atual). E daí? Em números proporcionais, temos a metade do corpo discente das universidades dos Estados Unidos. O provão - mecanismo de avaliação criado pelo Ministério da Educação - indica que a maioria das universidades brasileiras oferece um ensino regular ou ruim. (O atual ENADE não alterou a configuração).

Sabe quantas faculdades foram fechadas por causa da má qualidade de ensino, conforme prometeu o (então) ministro Paulo Renato de Souza? Nenhuma. (O tabu permanece no governo Lula) Não é surpreendente, pois muitos integrantes do Conselho Nacional de Educação, órgão fiscalizador das universidades, trabalham nessas instituições.

O Ministério da Educação não fornece quaisquer sinais de que vai mudar a situação. Antes do governo FHC, havia cerca de 500 faculdades e universidades no Brasil. Hoje, o número é três vezes maior.(Hoje, quase cinco vezes mais. Lula manteve o ritmo de criação de cursos)

Ao invés de fechar as faculdades de esquina, o Ministério autoriza mais e mais aberturas de instituições de ensino superior. Muitas delas administradas por pessoas com ligações diretas ou indiretas com o Ministério. A promiscuidade da relação chega ao ponto de notas serem descaradamente alteradas em reavaliações duvidosas. Como o caso de uma faculdade de medicina de Minas Gerais, que teve autorização para se adequar às normas por mais dois anos, quando são indicadas duas saídas: prazo de seis meses ou fechamento.

A consequência começa a emergir. O excesso de faculdades criou um clima de competição para atrair o estudante. O que seria ótimo se não fossem as armas adotadas. Em São Paulo, por exemplo, universidades como a Nove de Julho e a Bandeirante investiram em praças de alimentação, lojas de griffe e outros badulaques para chamar a atenção dos clientes, ou melhor, dos alunos.

Os próprios estudantes já desconfiam dos investimentos, conforme apontou reportagem de O Estado de São Paulo. Será que o dinheiro também está sendo empregado em qualificação do corpo docente, reforma e construção de laboratórios, ampliação de bibliotecas? Os resultados nas avaliações do Ministério não são animadores.

O Ministério da Educação precisa avaliar essas estratégias que enchem as salas de alunos, que os distraem durante os intervalos e que depois os dão a sensação de que estudar é SOMENTE um grande passeio, uma grande diversão. É preciso cobrar qualidade, pois esses estudantes serão enviados quatro, cinco anos depois para o mercado de trabalho que, aliás, já está atento a isso. Não é à toa que grandes empresas implantaram programas de treinamento, visando adequar os alunos ao mercado. Ação complicada, do ponto de vista ideológico.

Caso contrário, é melhor que os universitários assistam às suas aulas no shopping center, pois o cenário será o mesmo, com a diferença que serão somente consumidores, e jamais cidadãos.

A merda em que se vive

O político estava sem gravata. Queria parecer informal, amigo da comunidade (palavra da moda, do politicamente correto). Mas a calça social, a cara camisa de botões e o bando de puxa-sacos em volta dele denunciavam o grau de autoridade. As câmeras de TV davam o ar solene no encontro com os moradores. O sorriso transformou-se na arma de aproximação. Sorriso para amenizar a desgraça alheia e esconder a própria negligência.

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, olhou para uma das moradoras do Jardim Pantanal e disse: - Olhe nos meus olhos. Você não confia em mim?

Diante das câmeras, jornalistas e assessores do prefeito, resta a ela – pressionada -dar uma resposta evasiva, do tipo “vamos esperar para ver”. O prefeito, cheio de pose, tenta esquecer 10 dias de bairro alagado, três ordens inócuas em 72 horas, e as imagens de milhares de adultos e crianças na rotina de andar e brincar nas águas repletas de esgoto.

Quatro dias depois da visita, outra notícia no bairro: a morte de um garoto de seis anos, que pode ter contraído leptospirose, doença transmitida por ratos. Outros dez moradores do Jardim Pantanal estão com a mesma suspeita.



Na semana retrasada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou em tirar os brasileiros da merda. É interessante perceber como a palavra dita pelo presidente adquiriu tom profético, pelo menos ao manter o tema em pauta. Na verdade, ele foi apenas redundante diante do principal problema estrutural do país.

Lula falou merda há duas semanas durante o lançamento de um programa sobre saneamento básico no Nordeste. Provocou chilique na oposição, que procura qualquer coisa para se agarrar e desviar o debate sobre assunto mais sérios. Em tempos de corrupção por câmeras escondidas, cuecas e meias, quando se atira merda no ventilador, todas as facções acabam sujas de lama.

O frenesi político também auxiliou o governo com a estratégia de sempre. Lula improvisou no discurso, puxou o foco para si, abafou as trapalhadas da própria gestão e, com palavras populistas, elevou a própria popularidade. Falar merda reduziu, por exemplo, o foco sobre os verdes de boutique, aqueles membros do governo federal que posam de ambientalistas, mas – se pudessem – concretavam a Floresta Amazônica. Os cinzas – verdadeira cor desta gente – se sentiram aliviados e puderam se multiplicar diante da mídia na Dinamarca. Ninguém disposto a avançar; todos agarrados no impasse.

A merda na boca do presidente horrorizou a classe média, sempre a postos para exercitar o preconceito de classe e apontar o dedo para dizer como aquele sujeito não poderia ocupar o cargo. Lula não teria modos para isso. A classe média – coitada – engole e reproduz a hipocrisia de medir o outro pelo que diz e pelo status.

Os intelectuais ficaram excitados. Tinham mais combustível para teorizar sobre o presidente que não conseguem entender. Distantes do mundo lá fora, os intelectuais são por vezes incapazes de ler o cotidiano a partir daqueles para quem Lula discursa, pela TV, e se torna popular. Assim, tornou-se maior que o Partido dos Trabalhadores e é capaz de decidir uma eleição somente com frases de efeito. Isso quando não abafa as crises de corrupção, a instabilidade em diversos programas de infra-estrutura, a pífia política ambiental e as contradições de uma política externa, com faro midiático de resultados imediatos.

O que a classe média nem os intelectuais admitem é que alguém possa obter certos conhecimentos sem precisar dos bancos escolares. E chegar ao topo em qualquer atividade. É a velha ideia de que a única forma possível de adquirir saber está simbolizada em um diploma.

Não defendo o presidente nem o abandono da escola. Lula é um excelente ator, sobrevivente há mais de três décadas na política. Decepcionou quando ocupou o poder. Mas sabe escolher as palavras e quando utilizá-las, mesmo quando um palavrão gera a ilusão de uma fala improvisada e temerosa. É muito mais eficaz na oratória do que inúmeros doutores honoris causa, tão incompetentes quanto Lula nas ações.

Lula é fruto de seu tempo, assim como Gilberto Kassab. Tempo de muitas palavras ao vento e poucas ações. No fundo, uma postura tradicional do jogo político, com a diferença de que o mundo mídia leva as palavras a distâncias maiores e em períodos mais curtos. Palavras que ajudam a compor uma imagem, um personagem que pode nos enganar por anos.

Quando as palavras são inadequadas, o mundo mídia – quando bem explorado – nos assegura que as discussões fiquem nas próprias palavras em si e se encarrega de enterrá-las na mesma velocidade de divulgação. Manter-se distante dos problemas reais é a ordem. Criar cortinas de fumaça para escondê-los é a estratégia.

Para os moradores do Jardim Pantanal e centenas de bairros de periferia, chover é assistir à merda chegar ao batente da porta, mostrar-se pelo cheiro e, dependendo do lugar, pela água no joelho. A piscina de muitas crianças como nova e única área de lazer.

A moradora confiou em Kassab? Os filmes institucionais da Prefeitura dizem, na TV, que ele é transparente. Transparente, no caso, significa invisível, pois a moradora não terá a chance de vê-lo tão cedo, pelas ruas do bairro, olhar nos olhos dele e dizer: - Continuamos na merda!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As perdas

Alice tem 50 anos, é psicóloga-pesquisadora na Universidade de Harvard, no Estados Unidos. Casou-se com um cientista, com quem teve três filhos. Vive entre aulas, viagens internacionais para conferências e elaboração de textos científicos. È conhecida, no meio acadêmico, não apenas pela qualidade de suas pesquisas, mas também pela memória infalível para citar dados e trabalhos na sua área.

Joan Didion também é norte-americana. Escritora renomada, é casada com outro autor literário, com quem teve uma filha, hoje na casa dos 30 anos, como os filhos de Alice. Possui uma vida estável, que permite a ela escrever em tempo integral, sem se preocupar com outras atividades profissionais.

Alice começou a ter problemas de esquecimento. Não se lembrava onde deixara o carregador de celular. Ao correr no parque, não conseguiu – por alguns minutos – organizar o caminho de volta para casa. Perdeu uma viagem de avião. Entrou em sala de aula e não sabia qual conteúdo dar aos estudantes, o tema que havia preparado até uma hora antes.

Joan e o marido passaram a frequentar hospitais. A filha, Quintana, teve um choque séptico e estava em coma. Antes, teve pneumonia. Uma rotina desagradável de visita e de incertezas diante da recuperação da filha.

Alice enfrentou uma série de exames que, inicialmente, não apontaram problemas neurológicos. Os lapsos de memória se tornaram mais frequentes, fato que escondia da família e dos amigos. Após dois meses, o diagnóstico médico: Mal de Alzheimer, em nível precoce para uma mulher de 50 anos.

Joan retornou uma noite com o marido do hospital. A filha ainda inconsciente. Enquanto preparava o jantar, John permanecia na sala. Conversavam. Ela comentou algo. Ele se calou. Um ataque cardíaco matou John, aos 71 anos, naquela noite, de maneira fulminante.

A psicóloga com Alzheimer é o personagem principal do romance “Para Sempre Alice” (Ed. Nova Fronteira), livro de estréia da neurologista norte-americana Lisa Genova (na foto abaixo).




Joan Didion não é uma personagem. Ele é a autora do livro “O ano do pensamento mágico”(Ed.Nova Fronteira), em que relata o ano posterior à morte do marido.

Ambas as obras falam sobre perdas e mudanças provocadas por essa situação. Por que temos dificuldades para lidar com as perdas definitivas, não apenas a morte? No romance, Alice precisa se reinventar e compreender que não poderia mais fazer planos de longo prazo. Seria obrigada a vivenciar o presente, aproveitar os detalhes de cada encontro, de cada ocasião, com a consciência de que se perderiam na ausência gradativa de memória recente.

Alice – e seus familiares – e temiam perdê-la, perdê-la pelo fim da identidade. Como ela poderia ser Alice se se tornaria alguém incapaz do auto-reconhecimento? Como os outros conseguiriam absorver a ideia de que Alice se transformaria em uma caricatura de si mesma, temor em forma de negação do marido dela? Ou seria uma nova Alice, com a essência original?

Joan (na foto abaixo) teve a pior das perdas, medo que permeia todas as culturas: a morte do mais próximo. Como se lida com ela? Como descobrir o momento em que se cai a ficha, na expressão popular? Como reconstruir o cotidiano sem alguém que te acompanhou por três décadas? Como encarar a si mesmo e enfrentar os sentimentos que restaram, sem o outro para recebê-los?




A maneira de se encarar uma perda é absolutamente individual. Depende do ritmo próprio da pessoa, como ela absorve o fato, por quanto tempo negará a frustração extrema. Penso que superamos a perda somente quando temos claramente uma perspectiva de vida. Ou quando a retomamos. Algo a ser planejado, visto, desejado, mesmo que somente para o dia seguinte, para o próximo final de semana.



A perda nos retira o desejo. Desejo de ver o outro e a si, de conviver, de cumprir as convenções sociais, de transgredí-las. Perder nos retira a referência, arranca certos pontos de apoio para acompanhar uma rotina. É necessário tempo para se erguer novos alicerces sentimentais, sociais, afetivos. Tempo sem cronômetro, sem hora marcada. Tempo que sabemos que passou apenas … quando passou.

Talvez aí esteja a maior questão. Os tempos atuais exigem velocidade em todos os níveis. Velocidade para deixar algo ou alguém para trás, mesmo que o assunto ainda não esteja solucionado ou digerido. A pressão se manifesta por meio da falsa necessidade – muitas vezes distorcida como desejo alheio – de parecer feliz, de aparentar um estado de auto-estima elevada.

Alguns teóricos do mundo contemporâneo chamam este comportamento de felicidade full-time. Ou seria a ilusória morte da melancolia? Isso significa que o sujeito não pode ter o tempo próprio da absorção, da transformação e da superação da perda.

Neste sentido, amigos, colegas, conhecidos em geral – diria involuntariamente – criam mecanismos, que viram cobranças, para que o sujeito supere a perda. Uma amiga minha, por exemplo, levou cinco meses para superar a morte do pai. Além da dor inerente ao fato, ela tinha que administrar a insistência e a agressividade de amigos e parentes que desejavam tirá-la de casa a qualquer custo. Um cinema ou uma mesa de bar, a revelia de quem sofre, servem para apagar a frustração extrema da morte?

O tempo próprio para entender uma perda é soberano. A tendência é que se criem instrumentos seus – e apenas seus – de entendimento do processo e sobre como ultrapassá-lo (aliás, fator que não surge no momento posterior à perda de alguém ou de si, como a personagem Alice).

Só que o tempo atual não é o tempo individual. É o tempo do coletivo circunstancial, em que as relações sociais esmagam, atropelam a vida individual – principalmente norteadas pelo mundo do trabalho (somos medidos pelas nossas profissões ou empregos). Pode parecer contraditório – e é – em uma época de prevalência do individualismo, da valorização do eu mesmo.

A contradição aparente se desnuda quando pensamos na perda. É neste momento que o individual indica a vontade de se fazer visível e reconhecido pelo coletivo. Este mesmo coletivo que nos garante segurança e posição social no cotidiano. Tenho a sensação de que o tempo individual – com a tendência de destoar da reação coletiva, sem conexão direta com a perda – ganha contornos de empecilho para os relacionamentos.

A tradução seria – de maneira involuntária – colocar o sujeito no rumo anterior, de busca pela felicidade, ignorando o tempo próprio de luto dele, de digestão do desfecho de uma história sem novos episódios.



Alice e Joan criaram, na ficção e no relato, formas próprias de superar derrotas e de criar estratégias de mudança. Cada qual a seu tempo, cada qual independente – mas com a colaboração dos que compreenderam. Ambas perceberam e me ensinaram que a perda é a hora da avaliação, o momento de se adaptar ao novo, trocando pouco a pouco a lamentação pela perspectiva de uma janela nova, com outros valores, outras contradições, outros sentimentos, outras pessoas.

Avaliar, nas entrelinhas dos dois livros, não é corrigir. Somente corrigir pode paralisar, pois não representa garantia de outra trajetória. Não assegura evolução. Não aponta o caminho correto, do livre arbítrio. Avaliar é entender. Compreender o que precisa ser deixado para trás – e lembrado eventualmente com afeto – e o que se desenha como investimento de uma nova rotina, de novos desejos e até de novas perdas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Irmãs sem fronteiras

O sol ainda não nasceu e é possível avistar duas sombras, em passos ritmados e determinados, a caminhar por um dos calçadões das praias de Santos. Andam lado a lado, conversam pouco, observam demais. São cinco quilômetros de passadas todos os dias. O que começou como recomendação médica transformou-se em prazer e programação matinal.

A convivência solidificou uma amizade iniciada pela religião, que envolveu duas pessoas de lugares diferentes, mas tão semelhantes. Fisicamente, parecem-se apenas na altura. Meros dois centímetros diferenciam as duas caminhantes. As feições denotam a separação étnica de dois continentes. Mas, se uma fala sobre a outra, parece congelada diante de um espelho.

A caminhada termina quando se inicia um novo exercício: a visita diária ao supermercado. Ambas adoram buscar ofertas. Vibram quando o preço da picanha cai, por exemplo. A lata de azeite a R$ 10 vale a fila enorme e a impaciência da caixa. Fazem festa quando verduras e legumes estão mais baratos, telefonam para as amigas, mas jamais fazem um grande estoque. Como ficaria o prazer de procurar novidades nas prateleiras todos os dias?

A relação entre ambas inclui também as aulas de tai-chi chuan duas vezes na semana. Vale mais a higiene mental do que a rivalidade histórica entre chineses e japoneses que talvez impedisse a prática da arte marcial. Deve ser coisa de quem se prende à História! Aliás, isso nem passou pela cabeça delas, pois mais brasileira do que a professora.

Uma ensinou a outra a costurar. A outra mostrou à primeira como fazer a receita de esfiha. Mas é fundamental salientar um ritual. A troca de receitas jamais envolve experimentar o que a amiga cozinha. Ou melhor: nas raríssimas ocasiões em que isso aconteceu, as críticas foram veladas; publicamente, elogios de parte a parte.

Maria Eugênia tem 61 anos, nasceu no Rio Grande do Norte. Migrou para Santos aos 20 e poucos. Trabalhou, casou, teve uma filha, tornou-se avó na cidade. Quer morrer por aqui. Os traços indicam uma típica brasileira, mestiça, que mistura expressões idiomáticas de várias regiões.

Mitio é cinco anos mais velha. Filha de japoneses imigrantes, casou-se, ficou viúva, teve dois filhos, trabalhou e se aposentou em Santos. Morou no Japão no início da década, naquelas viagens de excessivo trabalho para juntar dinheiro e retornar ao Brasil. Um dos filhos, atualmente, mora por lá. O outro, infelizmente, faleceu de rara doença há cinco anos. Ela também pretende ser sepultada na cidade que adotou para caminhar.

Mitio andou com a ideia de retornar à terra de seus pais. Eugênia contra-argumentava com a solidão de uma vida explorada pelo trabalho. Falava para o espelho? Ir ao Rio Grande do Norte? Apenas como visita, como ocorreu há quatro meses.

Felizmente, Mitio abandonou a idéia. De poucas palavras, sabe-se que desistiu de uma questão quando emudece ou desconversa discretamente.

Se não fosse pela aparência, os nomes poderiam ser trocados. Comportamentos e personalidades parecidas. Disciplinadas, teimosas e rigorosas moralmente, ambas são lembradas pela generosidade, pelo convívio terno com parentes e amigos. Valorizam os outros ao mesmo tempo que pouco contam de si, como a rotina delas fosse deveras desinteressante. Jamais pecam pela omissão, mesmo que escolher um lado resulte em críticas ou inimizades duradouras.

Confesso que admiro as duas pela rotina matinal, exceto pelo supermercado. Caminhar antes do sol nascer requer demasiada motivação. É assunto secundário.

Em tempos de relacionamentos líquidos, a amizade de Mitio e Maria Eugênia simboliza a interação entre culturas aparentemente distantes, mas que se complementam e funcionam por pontos de intersecção. Estes pontos, com o tempo, fundem-se e fazem com que a aparência e a origem geográfica não sejam apagadas, mas germinem uma terceira via, como a fusão de duas sombras – diariamente, às seis horas da manhã.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O palhaço transgressor

O Teatro Municipal de Santos estava lotado. Era noite de estréia, com presença do autor da peça. A ocasião se tornara mais importante porque o texto em questão, “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, havia sido proibido. A encenação fora proibida de estrear na cidade natal do autor, caso que ganhou espaço na grande imprensa.

Plinio Marcos sorria para todos, mas parecia cansado. Andava lentamente e reagiu de maneira serena à homenagem, antes da apresentação do espetáculo. Falou um pouco para a platéia, que o aplaudia a cada respiração mais longa do dramaturgo. O discurso era motivador, como se esperava dele. Plinio reforçava como os artistas deveriam ser questionadores, como o público deveria rejeitar fórmulas prontas.

Alguns palavrões no meio da fala acendiam parte da platéia, mas o tocante era a coerência na retórica, sem poupar os adversários, ainda mais àquela altura da vida, com 60 anos. Havia força nas palavras, como sempre, mas a agressividade nos gestos tornara-se pose comedida. Sentar e ver um espetáculo, um orgulho.

Foi a única vez que o vi. Havia me interessado pela obra dele anos antes, não me lembro exatamente o porquê. A crueza e a acidez eram as qualidades que permeavam os textos. Naquele período, respirava teatro e não perdia uma encenação de peças escritas por ele. Podia ser encenação profissional ou estudantil.

Além de ver aquele texto duro no palco, era a única maneira de adquirir os livros de Plínio. Ninguém os editava. Eram obras que não circulavam em livrarias e tampouco apareciam nas bibliotecas. Havia me transformado em leitor ávido de suas crônicas no Jornal da Orla, última publicação para quem escreveu, entrevistas e textos teatrais.



Dois anos depois, em novembro de 1999, Plinio Marcos faleceu em São Paulo, de falência múltipla dos órgãos. Tinha 64 anos. Cursava o segundo ano de História e, assim que ele faleceu, me lembrei do escritor Ruy Castro, que dizia: para uma boa biografia, o biografado deve estar morto. Castro se referia ao risco de manipulação da palavra e das fontes de informação. Era a oportunidade de me aproximar dele em forma de texto. Dois anos depois, escrevi um grande ensaio como Trabalho de Conclusão de Curso. Curiosamente, até hoje é o único estudo sobre ele naquela universidade.

Plinio Marcos, infelizmente, é um daqueles autores que tiveram que morrer para serem reconhecidos. É claro que sua obra sempre foi valorizada, mas estava presa à classe artística e aos intelectuais. As editoras só publicaram algumas de suas obras nesta década. A imprensa, salvo os jornalistas especializados, o tratava, em vida, como figura exótica do cenário cultural.

Em 2002, produzi – ao lado do colega Gustavo Zanarolli – uma reportagem especial sobre o dramaturgo. A matéria, exibida pela Rede Record, foi feita por Chrystianne Leite e mostrava que, naquele ano, seis peças diferentes dele eram encenadas ao mesmo tempo em São Paulo, fora as apresentações em outras quatro capitais. Eram mais encenações do que no auge da carreira do dramaturgo, antes de ser enterrado pela censura política.

Plinio Marcos foi um dos alvos preferidos da censura. Os diálogos fortes, os personagens marginais, os cenários degradantes expunham a desigualdade e a violência do meio urbano. Eram temas que derrubavam de nervoso qualquer quepe de milico. Dizia-se que o universo teatral de Plinio era um “atentado à moral e aos bons costumes”, clichê vomitado pelos retrógrados.

A venda de livros nas ruas foi o meio encontrado para sobreviver por não conseguir emprego. Plinio foi derrubado em todas as redações, desapareceu da TV, evaporou das salas teatrais.

Pior do que a postura governamental, previsível na estupidez, foi a censura moral. Muitos textos dele deixaram de ser encenados por causa da agressividade das relações entre os personagens. Os mais apressados e ignorantes queriam associá-lo a um mero escritor de palavrões.



O moralismo esteve presente na proibição da peça “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, em 1996. E não falo somente da história ocorrida em Santos. Vários veículos de imprensa, quando se referiam à peça, encurtavam o nome dela. Apontavam o dedo para a censura em Santos, mas escreviam somente “O Assassinato do Anão”. O palavrão como instrumento herege, que talvez chocasse os leitores.

Plinio Marcos foi comparado por críticos a Nelson Rodrigues. Enquanto o carioca expunha a hipocrisia da classe média, o autor santista esfregava na mesma classe média as contradições e sofrimentos da marginalidade. Plinio é um dos poucos autores que escreveu como viveu, na maior parte da vida. É possível estabelecer um paralelo entre as fases de sua biografia e os períodos como autor teatral.

Há o Plinio Marcos do Macuco, do Mercado de Santos, dos trabalhadores infelizes, da cafetinagem, das prostitutas e vigaristas em geral. Existe também o Plinio Marcos místico, transcendental, ligado às questões metafísicas, principalmente a partir dos anos 80. É o Plinio das cartas de tarô, cujas leituras pagaram muitas vezes a refeição de fim de noite.

A obra do dramaturgo também permite, pelas crônicas, identificar o relacionamento com o futebol. Ele tentou ser jogador, mas contribuiu muito mais com o Jabaquara (hoje na quarta divisão de São Paulo) quando desfilava com a camisa em programas de TV, por exemplo. Ou quando desfilava causos nas colunas semanais.

O Plinio do circo e dos trabalhos temporários (como camelô) se expõe nas peças. “O Assassinato do Anão do Caralho Grande” é uma homenagem satírica ao mundo que frequentou na adolescência, antes de ser descoberto por Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz como ator e autor.



A transgressão não é o motivo para torná-lo importante. Ele levou a sério o papel do artista em pensar e repensar – e criticar quando necessário – o mundo em que vivia. Ele sofreu por compreender a função do artista em ser questionador do poder, alguém que desconfia da hipocrisia de muitas convenções sociais.

Plinio Marcos não deixou herdeiros. Digo, herdeiros teatrais. Dez anos após a morte dele, falta quem remexa no mundo dos invisíveis. Falta quem leve a arte crua considerada lixo pelo poder ao universo cultural além dos guetos. Sem plásticos ou vernizes. É um trabalho difícil, numa época de liberdade política e amarras econômicas e morais, quando prevalece o politicamente correto. Alguém se arrisca, sabendo do preço que o próprio Plinio Marcos pagou por quatro décadas?

Como disse recentemente um editor da Playboy, as entrevistas da revista perderam fôlego porque ninguém mais diz o que pensa no meio cultural. Apenas um exemplo de como se teme perder (dinheiro, status etc) com a patrulha dos moralistas. Poucos tiram a máscara para pensar na estrutura que se realimenta. Para a patrulha, a vantagem está na polêmica vazia, veloz, natimorta em tempos de celebridades e vida privada como pública.

A sorte é que a obra se perpetua além da finitude do artista. È obrigatório manter os textos de Plinio Marcos em movimento, nas praças, telas e palcos. Significa mais do que uma homenagem ao palhaço transgressor. É colocar na vitrine as feridas de grupos sociais falsamente democráticos. Ser descontente com o mundo em volta, como se espera – pelo menos de vez em quando – de todo artista.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O muro e os filhotes

Os 20 anos da queda do Muro de Berlim provocaram – como é natural em datas comemorativas – o clima de balanço, com foco entre o capitalismo e o modelo comunista. As análises mais comuns, e apressadas, caíram no maniqueísmo digno dos tempos de Guerra Fria. O discurso da vitória do capitalismo (e consequente derrota do adversário) foi tão recorrente quanto falso, em detrimento de um olhar mais ponderado, que implicasse no contexto histórico correto, com a deterioração natural do mundo vermelho, a inclusão do processo globalizatório e da crise econômica contemporânea (fenômeno cíclico, é bom que se diga).




Independente do blábláblá geopolítico, a questão é que o muro não caiu. Não caiu como símbolo em si, que representa separação, exclusão. O muro não caiu como sintoma de intolerância, de esforço em se ratificar e salientar diferenças entre grupos, por razões múltiplas.

Erguer um muro é ato inerente de decisão de poder. Quem o ergue se interessa pelo outro à distância. Se é que o observa. O muro mantém seus construtores afastados do perigo que se julga iminente e reforça que o outro não merece estar nos mesmos círculos de relações. Aquele que levanta a barreira deixa transparente sua condição de superioridade, estabelece o julgamento moral (ou moralista) de que o vizinho não está à altura de pular ou ultrapassar o obstáculo construído.

O muro pode ter caído em Berlim, mas se multiplicou em diversos endereços. A primeira década do século XXI, como escreveu o falecido sociólogo Octavio Ianni, seria marcada – direta ou indiretamente – pelas diferenças de fundo étnico. Se combinarmos com religião ou economia, teremos o “milagre da multiplicação dos muros”.

A xenofobia se traduz pela parede entre Israel e Palestina ou pelo obra entre os Estados Unidos e o México (veja foto abaixo). As razões não são semelhantes, mas envolve o afastamento explícito do “inimigo”, sem possibilidades de conversa entre as partes. Eventualmente, sinais de fumaça servem como jogo-de-cena na fragilidade e na incoerência dos discursos dos líderes. A conversa acontece somente quando o dono do muro deseja que o vizinho o sirva.




O muro é mais nocivo quando mascarado de medida “sócio-educativa”, acoplado a uma proposta de melhoria na infra-estrutura. Vocês se lembram quando o governo do Rio de Janeiro aventou com a ideia de cercar por muros a Rocinha? A desculpa seria de caráter ambiental e parte da política de urbanização do bairro. Proteger quem? De quem? No mês seguinte, diante da imagem negativa, o Governo alterou a proposta para uma mureta de 60 centímetros.




O muro está em nós, principalmente quando passa a ser visto como natural. Como um elemento inerente à paisagem. Como algo necessário para compor o pacote de valores, com conforto, segurança e tranquilidade, palavrinhas recorrentes nos encartes publicitários das casas e prédios em condomínios fechados.

Em Santos, onde resido, um muro separa dois morros. Um deles abriga mansões. O outro morro é um dos bairros mais populares da cidade. O muro virou ponto natural da paisagem.

O muro nunca está sozinho. Ele vem acompanhando de grades, trancas e câmeras. Traz consigo sujeitos uniformizados, com feições sérias e leituras superficiais dos forasteiros, geralmente construídas a partir de rótulos, mesmo que ele seja a reprodução do que foi treinado para rejeitar. Ou barrar pelo muro.

A multiplicação do muro não pode ser explicada apenas pela segurança pública. O muro é símbolo do status, da ostentação, da diferenciação social pela conta bancária.

Quanto mais badulaques eletrônicos estiverem associados a um muro, maior a expectativa de desejo e curiosidade a respeito do que esconde atrás dele. È a lógica dos condomínios fechados. Ali, a ilusão do exclusivo e do individual se reforça com a barreira para o outro. A dificuldade de acesso valoriza o que há atrás da parede de tijolos ou concreto. Uma nova sociedade com vizinhos quase sempre desinteressados pelo morador ao lado, mas que se constitui pela similaridade de renda, de desejos de consumo e de um muro que os protege dos “diferentes”.

O muro nos domestica. Fortalece a imagem de separação, nos prepara para entender que nossos pares devem estar do nosso lado da parede. O muro restringe o diálogo, o interesse pelos valores, pelos comportamentos, pelos rituais de quem não consigo ver. O muro é capaz de cegar, de estigmatizar, de gerar a falsa visão de que somos o centro das atenções. Um exercício contínuo de egocentrismo coletivo, no qual prevalecem a auto-valorização excessiva e a ignorância por outras formas de relação.

No Brasil, o muro como reprodução do olhar repressor e de repulsa ao outro, ao diferente também é característica do local que deveria combater ou repensar tais posturas. As escolas parecem ter sido projetadas pelo mesmo arquiteto que desenhou presídios. São repletas de grades e trancas, que se combinam com as paredes cinzentas que as cercam. A conversa segue pela estrada da proteção: é necessário preservar os equipamentos públicos e as pessoas do mundo lá fora. Mas o mundo lá fora não é parte da escola?

É mais fácil segregar do que buscar o diálogo. Conversar com o outro significa ouvi-lo, tentar entendê-lo, rever posições e valores. Numa sociedade que se vangloria da exclusividade e reage com individualismo, sobrevive a cegueira e a surdez diante daquilo que não se parece comigo. Se há alguma chance de vê-lo ou escutá-lo, coloque uma parede no meio. A ignorância responde como o melhor remédio para se manter aonde está.

Os homens constróem muros desde a Idade Antiga. As razões para erguer uma parede mudaram ao longo da história. O que não se altera é a essência da obra: exercitar poder por meio de um símbolo visível a todos. Não importa o lado do sujeito.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O poeta ficou cego

O poeta pensa seriamente em desistir. A praia de Copacabana é um de seus lugares preferidos no Rio de Janeiro. É lá que toma sol, sente a chuva na cabeça, a brisa intermitente no rosto, o cheiro de maresia. Em Copacabana, o poeta pode conversar com moradores e turistas. Ouvi-los seria mais apropriado. Deixar-se fotografar como parte do cartão postal.

Na praia, o poeta se aproxima sem vergonha ou timidez de mulheres de todos os tipos e idiomas. Apenas para admirá-las. Sem pressa. Sem sair do lugar. O descanso eterno (ou bastante duradouro) é a garantia de um relacionamento rápido, sem exigências.
Ser alvo da violência no Rio de Janeiro o fez pensar. Não é a violência do crime organizado, com as balas perdidas e os corpos abandonados nas vias públicas. É um tipo diferente de violência direta e intransferível. Parece pessoal. Talvez um trauma que provocou a ideia de mudar de endereço. Uma reflexão hoje concreta, insistente. Quem sabe procurar outro lugar para descansar sem que seja atacado?

Carlos Drummond de Andrade já foi assaltado oito vezes, no mesmo lugar. E roubaram a mesma coisa. Em todas as ocasiões, deixaram-no cego. Os ladrões levaram seus óculos, um dos principais instrumentos de trabalho e de sobrevivência. Um poeta vive de ler, antes de pensar em escrever. A sensibilidade poética depende da clareza ao enxergar aquilo que poucos ou ninguém vê, mesmo diante dos olhos.

Da última vez, os sujeitos – além do empréstimo definitivo dos óculos – machucaram o braço direito de Drummond. Deixaram como saldo uma rachadura, sinal de tentaram amputar o braço do poeta.

O oitavo ataque contra a estátua de bronze de Carlos Drummond de Andrade aconteceu no último final de semana. Requer um conserto que só ficará pronto em 21 de dezembro.



Esta história me faz lembrar de outra estátua, a de João Otávio dos Santos, que fica em frente ao Escolástica Rosa, na praia da Aparecida, na cidade de Santos. Em 2005, não levaram os óculos de João. Até porque dizem que ele enxergava bem e não precisava gastar dinheiro com isso. Os vândalos optaram pelo pacote completo. Arrancaram a cabeça dele. O menino ao lado ficou sem uma das mãos. A restauração, concluída há quatro anos, custou R$ 5 mil.

Sempre me perguntei: o que alguém faria com a cabeça de João Otávio? Colocaria na mesa de centro da sala? Decoração na estante? Tentaria transformá-la em bola para quebrar o galho na praia ali ao lado? Talvez um jogo de beisebol, a cabeça como bola e a mão do garoto como luva?

Estátuas são, para muitos, manchas na paisagem. Poucos prestam atenção nelas. Uma raridade o indivíduo que para e lê os dizeres nas placas em anexo. Muitas delas representam sujeitos que não deveriam ser lembrados, quanto mais imortalizados em praça pública.

Só que a questão não é a preferência por este ou aquele indivíduo sisudo que geralmente nos olha com ar de superioridade. Será que estamos prontos para entender a concepção de patrimônio público? A impressão é que prevalecem dois pensamentos paradoxais em relação ao que seria de todos. E passa a ser de todos quando se paga a conta pelos reparos. O paradoxo vive na ideia de que uma estátua ou qualquer outro objeto público pertence a todos, mas não pertence a ninguém. Seria a autorização para me apropriar dela?

É evidente que muitas estátuas são homenagens bajulatórias para alguém que pouco fez por uma coletividade. Também o são nomes de ruas, de praças, de escolas, de salas em instituições e assim por diante. Normalmente, as homenagens vem das casas políticas, atendem a interesses mal explicados e rendem votos em certos currais eleitorais. Isso serve de justificativa para a destruição gratuita? Será que alguém, quando levou a cabeça ou os óculos de uma estátua, o fez em forma de protesto? Esqueceu-se de que a conta sempre volta para nós.

O bronze da estátua de Drummond pode render algum dinheiro, o que não invalida a questão de pertencimento. Penso, por exemplo, nas escolas. Por que elas parecem prisões? Para proteger-nos de quem está lá dentro? Ou para protegê-los de quem ficou aqui fora? São comuns as queixas de que as escolas estão em péssimas condições, muito por responsabilidade das frágeis políticas públicas. Mas não se pode isentar os envolvidos de certas ações destrutivas. E é mais fácil instalar correntes, muros e grades do que mudar uma mentalidade. O mínimo esforço acoplado ao gasto repetitivo.



A Prefeitura do Rio de Janeiro pagou pelo conserto dos óculos de Drummond seis vezes. Em cada uma delas, desembolsou R$ 3 mil. Desde agosto, a estátua passou aos cuidados de uma empresa privada, fabricante de lentes. A empresa pagará o próximo conserto, como também vai instalar uma câmera de segurança para monitorar o poeta.

O escritor se sentirá vigiado? Protegido? Turistas e moradores serão filmados ao lado de um dos maiores poetas brasileiros pelas razões erradas. A ironia além da sensibilidade do mineiro: uma câmera para vigiar alguém que nunca vai sair dali. Ato falho: para protegê-lo de nós.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O torcedor ideal



Raphael, estudante universitário de comunicação, entrou de camisa verde na sala de aula. Era o uniforme do Palmeiras. Um dos professores, palmeirense roxo, só notou a camisa ao final das atividades.

Ele se aproximou do aluno para comentar a vitória do clube no dia anterior. Ouviu como resposta:

- Sou são-paulino.

- O quê? Então, tire já este manto sagrado, brincou surpreso.

Raphael devolveu o sorriso como quem alcançou seu objetivo. E resolveu explicar a dúvida óbvia: por que um são-paulino vestia a camisa do Palmeiras? Promessa? Aposta perdida?

- Eu tenho camisas de vários clubes. E adoro vestir todas.

Raphael jura fidelidade ao time de coração, mas ama mais o futebol. E se diverte com as provocações entre os torcedores.

- Quando o Corinthians perde, saio na rua com a camisa do clube apenas para ver se as pessoas tiram sarro, comentam o jogo. Uma vez, apareci na TV porque jogava bola na praia com shorts do Corinthians, camisa do Santos e faixa na cabeça do São Paulo.

Sem saber, o estudante universitário seria a personificação daquelas campanhas, normalmente inócuas, organizadas pela paz nos estádios. Raphael ignora o teatro do fair play, promovido por entidades incapazes de cumprir a legislação, mas promíscuas nas relações com bárbaros que sobrevivem da intolerância.

O estudante entende, à maneira dele, que o futebol ultrapassa os limites do tribalismo selvagem. Ver um drible e gritar um gol são atos demasiado humanos para as facções que suam ódio e se armam para batalhas nos acessos às arenas esportivas (no sentido romano, faltando somente os leões).

Ele é o torcedor ideal, a lembrança poética de uma crônica rodriguiana. Vestir a camisa de outro time é o poeta que reage à tragédia. É a simplicidade única numa ação anônima. A resistência quase juvenil contra a mutação do esporte em cifrões. O torcedor que incorpora espiritualmente a idolatria por um jogo de broncos que – aos soluços de saudade - chamamos de arte.

Com cinismo, não vou publicar o sobrenome do torcedor para protegê-lo. A paixão pelo futebol pode cegar e transfigurar o mais pacato espectador de uma partida. Torcedor de futebol, quando ama, quer exclusividade. E não perdoa o que considera traição.
Raphael, obcecado pelo futebol como religião ecumênica, corre o risco de alcançar o que nem os juízes conseguem: a fúria de todas as torcidas, ao mesmo tempo.

A "puta", a escola e as imagens

Conversava com uma amiga sobre o caso da estudante de turismo da Uniban. Diante da selvageria dos estudantes e da omissão inicial da universidade, ela me disse: - Acho que chegamos ao fundo do poço.

Sem pensar, respondi: - Sempre pode ficar pior.

A história da aluna e seu micro-vestido, com contornos de dramaturgia, ganhou novos episódios – é óbvio – que indicam como uma sociedade autoritária e moralista lida com as questões públicas. Era uma novela que, se escrita por autores profissionais, colocaria uma carreira em risco. A do próprio autor, sob a acusação de excessiva fantasia.

Nas rodas de conversas, comecei ter a impressão de que a garota não importava mais. Ela havia virado uma imagem, personagem moldada conforme os argumentos (ou achismos) de quem falava.

O roteiro da estudante e do vestido dela se transformou numa sucessão de imagens, que podem ser vistas de vários ângulos. Podem, inclusive, ser recombinadas, reeditadas ao gosto do freguês. Somos tão escravos delas que nos esquecemos do ser humano que originou a história.

Pensando, por exemplo, no ângulo dos agressores. O que fazem autoritários e moralistas? Vendem, apontam e vomitam imagens que os demais devem atender para serem aceitos.

Não conheço um autoritário ou moralista que se veja desta forma. Um indivíduo que se encaixa nestes adjetivos constrói uma imagem superior diante dos outros. Aponta o dedo com o orgulho e a vaidade do conhecimento de causa. Ataca antes de ser atacado. E dita regras pelo fato de estar preocupado com a imagem que os outros farão dele. E esta imagem tem que refletir o próprio sujeito.

Uma imagem nunca é retrato fiel da realidade. Limita-se a ser recorte dela. É versão mal acabada de quem a captou. A imagem, sozinha, sofre de superficialidade, mal se sustenta em pé sem a interpretação, o contexto, a análise. Imagem não possui consistência sem pensamento, sem diálogo, nem que seja consigo mesmo. Mas sobrevive. E se perpetua como vazio.

O caso de Geisy Arruda transborda imagens. Frágeis como o debate raso que cerca o tema. Insossas como os argumentos das mulheres que rasgaram as conquistas feministas. São imagens que apontam para a crueldade de quem poda a diversidade, o diferente, o desejo próprio do feminino. Mulher como imagem de mercadoria, digna dos programas populares de TV. Jamais uma mulher que pode desejar ou ser desejada, no dicionário da moral e dos bons costumes. Não passamos esta fase?

A imagem, quando perversa, vira rótulo. Transforma-se no carimbo sem cartilha explicativa. Sacode a lógica. Ou melhor: inverte-a para que a vítima suba no banco dos réus e se explique para o júri. Ou o Conselho Universitário, que acendeu a fogueira para a bruxa!

A estudante recebeu um rótulo de presente: “puta”. Roupas que autorizavam o estupro e a execração pública. E assinados por uma instituição de ensino, pela responsabilidade educacional, como publicou em anúncio na grande imprensa. Alguém – como repetem mulheres “independentes” – que não se deu ao respeito. Por trás do discurso, o dedo aponta a “meretriz” que deveria ser punida.

A Uniban também pensou na própria imagem, só que duas vezes: quando expulsou a aluna e quando revogou a medida. A universidade agiu sob efeito dos holofotes da mídia, reprodutora e construtora de imagens. Alegou conduta moralmente inadequada, sem explicar o significado do termo.

Diante da ressonância negativa do caso, inclusive com reportagens na imprensa internacional, a universidade voltou atrás. Não deu maiores explicações. Apenas tentou salvar a própria imagem. Confirmou o retrato do ambiente escolar.

Qual é a imagem da escola? A escola, na prática, está longe de ser democrática, embora se agarre no manto da pluralidade e da diversidade. Retórica bonita do pedagoguês! A escola é, em linhas gerais, conduzida com autoritarismo dentro e fora da sala de aula. Equipes pedagógicas que mal escutam professores, que ignoram os desejos dos alunos. Políticas públicas unilaterais que engolem a todos. As regras do jogo sempre caem no colo – ou na cabeça – de quem está embaixo. E cumpra-se!!!

O problema não é exclusivo dela. A escola está inserida de um modelo social, impregnado por preconceitos múltiplos. Vivemos sob a busca do padrão, a valorização dos iguais. Para os demais, a exclusão, velada em palavras doces ou na ponta de um cassetete.

A Uniban fez o que muitas instituições fariam. Isso não a exime de responsabilidade. Somente indica que a instituição tenta sobreviver e apagar a imagem de intolerância. E vai sobreviver, com a benção de um Ministério que lambe a própria imagem de fiscalizador.

Os autoritários e moralistas se escondem em seus próprios espelhos. Escondem-se na multidão, certos de que a imagem de comuns passará ilesa. A camuflagem permite que transitem em silêncio. Nas sombras, riscam o fósforo da fogueira que incinera o opositor. Falam baixo e fogem da luz. São covardes. Sofrem de pavor paralisante!! Autoritários temem que a imagem de correção se dilua em um choque público.

Recentemente, em sala de aula, discutíamos mídia. Em um determinado momento, o diálogo caminhou para o tratamento que prostitutas recebiam em certos programas de TV. Eu disse que muitos apresentadores – e suas macacas de auditório - não as tratavam como seres humanos. Ouvi, em seguida, uma frase, em tom quase inaudível, que poderia passar por envergonhado.

- E elas são?

O autor da pergunta olha para o chão e se fecha em silêncio. Quase uma imagem sacra de quem nada fez!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A japonesa e a Ponte Preta

Este texto foi premiado no concurso literário MULHER JAPONESA IMIGRANTE - 100 ANOS, promovido pela Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos, em 2008.

A primeira vez que a vi foi na universidade, quando começávamos o curso de Jornalismo no início dos anos 90. Imediatamente, ao vê-la vestida com um exótico uniforme de time de futebol, pensei em três perguntas, nenhuma delas genial, somente óbvias e fruto de curiosidade dos mais próximos. Na verdade, nunca as fiz, mas o tempo me deu a resposta para uma delas.

Como poderia uma pessoa –nascida em Santos - torcer para a Ponte Preta, sem jamais ter conhecido a cidade de Campinas? Como poderia uma mulher, sem se relacionar com ninguém que torcia para o mesmo time, se apaixonar pela Macaca campineira? Como poderia uma mulher, descendente de japoneses, se interessar por um time sem quaisquer vínculos com a colônia ou com a região onde reside?

A única resposta que obtive foi que a paixão pela Ponte Preta nascera naquele momento em que toda criança – por volta dos seis aos oito anos – começa a entender um pouco a dinâmica do futebol. Isso acontecera na passagem dos anos 70 para a década seguinte. E como normalmente a criança escolhe o time que ganha bastante ou sempre chega às finais, ela passou a gostar da equipe do interior do Estado.

A amizade cristalizou ao longo da universidade e depois viemos a trabalhar juntos. Numa segunda-feira, o clima na mesa de trabalho dela era de velório. Pensei: - Um parente morreu!

Ao me aproximar e olhar para ela, percebi de imediato a dor e conectei com uma das páginas do Caderno de Esportes, aberta sobre a mesa. A Ponte Preta havia sido rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Foram dias de luto e de silêncio.

A ansiedade diante de um quadro que não se alterava me fez tomar uma decisão. Encostei à mesa de trabalho dela e fiz a promessa: - Não importa aonde, mas nós estaremos no estádio no dia em que a Ponte Preta retornar à Primeira Divisão! A reação foi discreta, um sorriso de canto de boca, típico da cultura trazida de navio por seus avós, oriundos de Okinawa, na primeira metade do século.

Dois anos depois, a Ponte Preta chegou às finais do campeonato. O jogo decisivo seria em Campinas. O adversário, o Náutico, de Recife (PE). Saímos logo cedo, comigo ao volante do automóvel Gol. Como nunca tínhamos ido à Campinas, calculamos mal o tempo de viagem, obrigando-me a acelerar além da conta na rodovia Anhanguera. Os momentos de piloto ocasionaram a chegada de uma correspondência indesejável dois meses depois da partida: uma multa por excesso de velocidade. Preço mínimo pelo que testemunharíamos.

Que sofrimento! Partida equilibrada, muitas discussões, embora fosse jogo de uma torcida só. Ficamos em pé, pois se tornara impossível ver alguma coisa se sentássemos na arquibancada, além do risco de queimaduras diante de uma temperatura de 35 graus que cozinhava o cimento.

O goleiro da Ponte Preta, de nome Fabiano, fez vários milagres e um gol a cinco minutos do final – esqueci-me do autor - selou o resultado em 2 a 2. O empate era suficiente para o retorno à elite do futebol nacional e para provocar histeria generalizada no estádio.

Não a reconheci mais. Pulava como criança, abraçava torcedores e torcedoras que jamais havia visto, queria invadir o campo para apanhar um pedaço de grama como lembrança. Quase nos perdemos. Na volta pela rodovia Anhanguera, ela dormiu sorrindo, extasiada pelo que considerava a maior demonstração de amor que poderia dar pelo time. Para mim, a concretização de uma promessa que selaria definitivamente a amizade.

Faz três anos que não nos encontramos. Quase duas décadas de convivência me ensinaram que a leitura das aparências pouco importa – ou melhor, fortalece preconceitos – diante de uma teia ininterrupta de relações sociais em uma cultura miscigenada e em constante mutação. Outro ensinamento, talvez o mais pragmático de todos, consiste em concluir que não há torcedora mais apaixonada por futebol. Corrigindo: é a torcedora brasileira mais apaixonada de quem poderia sonhar em ser amigo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"A Puta da Uniban"

O título acima foi escrito com a missão de nos provocar, caro leitor. E não é de minha autoria. Confesso que havia pensado em alguma bobagem intelectualizada, como “Vestido para os perversos”, mas o nome de um dos vídeos postados no You Tube resolveu a questão. Nada mais direto. Nada mais hipócrita. Nada mais perverso.

Da história da universitária Geysa Arruda, de 20 anos, não me interessa a cor do vestido, se era minissaia ou micro-vestido, os motivos que a levaram a usar a roupa ou onde ela pretendia ir depois da faculdade. O que me assusta são o ambiente acadêmico, o tal reduto do saber no imaginário popular, num plano secundário, mas principalmente o comportamento dos espectadores, como o próprio nome se impõe, de “nível superior”.

Os alunos, funcionários e professores exercitaram a perversidade que assina manifestações de ódio e intolerância em grupo. A moça escapava aos padrões morais. Ela era ou estava diferente daquilo que moralmente deveria ser, na mentalidade dos perversos. E permitia o distanciamento que conforta, mascara e torna a crueldade impessoal: muitos sabiam que a garota estudava lá, mas a maioria não convivia diretamente com ela.



A reação não é nova ou original: humilhação pública contra aquele que representa o que me escapa ao controle moral. Não há entendimento, somente repúdio. A estudante, na visão dos que a chamaram de puta, simbolizava a vulgaridade da mulher-objeto, trazia outro ambiente para o “purismo” do centro do saber. O rótulo de objeto a aproximava de outra marca, que machuca os olhos dos seres humanos ditos normais: a prostituta.

Como puta, não deveria estar ali. Inferior, ela deveria ser confinada aos guetos, aos lares de luz vermelha. Pela transgressão, o carimbo do estigma a ser carregado na face, se quiser permanecer ali, na universidade. Os cruéis reforçam a limpeza da própria consciência.

A violência dos colegas – e mesmo dos desconhecidos, o que não alivia a perversidade – me faz lembrar casos em que inferiorizar ou desumanizar o outro chega às vias de fato. Só que violência psicológica é, normalmente, mais eficiente e danosa do que ataques físicos. Deixa rastros difíceis de detectar. A dor é carregada por dentro, sem que os demais a percebam, a não ser vítima e carrasco.

Qual a diferença entre os estudantes que ameaçaram Geysa de estupro porque acharam que ela parecia uma puta dos também estudantes que espancaram uma empregada doméstica no ponto de ônibus? Eles haviam confundido a moça com uma prostituta e se sentiram no direito de puni-la. Ou queriam reforçar sua superioridade como espécie? Mendigos, prostitutas, índios são invisíveis, ocupam outro patamar de existência. Como ousam conviver, diriam os ícones da perversidade moral?



É neste momento que a lógica da agressão se inverte. A vítima merece ser punida porque transgrediu códigos de conduta. Se não, deve haver algo no passado que a condena à revelia. Quem criou as tais de normas de última hora? Quem as perpetuou? É o caso de um representante da universidade, que ironizou o fato de que as roupas da estudante justificavam a reação violenta em cadeia. A forma como uma pessoa se veste dá o direito às outras de a ameaçarem de agressão ou de submetê-la ao escárnio público? Que tal puxá-la pelos cabelos e arrastá-la para a caverna?

Em sociedades autoritárias, esse direito se estabelece por meio dos que tem poder ou entre os que o rodeiam, submissos por migalhas e isentos de responsabilidade como recompensa. O que se viu na Uniban foi um exemplo de selvageria, com um verniz de autoritarismo, onde se reproduziram valores sem a menor dimensão de suas conseqüências. O alvo, neste sentido, é nada. Ou quase nada, pois se arriscou a desafiar as regras, os padrões estabelecidos – o que nem é o caso. Todos estavam cobertos dos pés à cabeça?

Estigmatizar, carimbar um rótulo na universitária reforça outros dois aspectos. O primeiro é a voracidade do universo masculino. O machismo, inclusive, repetido por mulheres incapazes de ver nela uma semelhante. Falsamente protegidas pelo pensamento de que jamais serão foco da mesma violência. Julgam-se melhores? Ou padecem da tola ingenuidade?



Na perspectiva do macho não-evoluído, a garota com uma roupa provocante é sinônimo de alguém que está disposta a relações sexuais. Como macho, o sujeito se julga no direito de possuir aquilo que entende como sua propriedade, mesmo que provisória. A mulher é um objeto que, portanto, posso pegar quando desejar. Tomar à força, se não puder pagar pela mercadoria. Nada diferente das milhares de mulheres que apanham dos maridos, ou daquelas que morrem nas mãos – ou pelas armas – do que não suportam perder seus brinquedos.

A história de Geysa se completa com o triste papel de segmentos da mídia. Pode ser como instrumento tecnológico involuntário, como os vídeos do episódio no You Tube. Pode ser como caixa de ressonância do caso. A universitária freqüentou programas de TV e deu diversas entrevistas. O que se viu – salvo exceções – foi um debate raso sobre o tamanho de um vestido que uma mulher pode usar. Novamente, o autoritarismo travestido de opinião descompromissada. Quem tem o direito de ditar o tamanho da roupa de alguém? O que se ditará a seguir?

Perdeu-se – como era previsto – a oportunidade de se aprofundar o diálogo sobre comportamentos sociais e valores que permearam esta história. Ficamos apenas na superfície da questão. Como espetáculo de mídia, Geysa Arruda é perfeita. Servirá como vítima e será esquecida em 15 dias.

Os responsáveis se colocarão também como vítimas. Provavelmente, eles vão expelir – cínica ou cegamente – o olhar de quem não fez algo errado. Apenas puniram o diferente, o sujeito que não é imagem e semelhança. Pior: a pessoa que escancara aquilo que muitos desejariam ser ou que não tem coragem de fazer.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O hino dos autoritários

Quando era criança, tive aulas de duas disciplinas, marcadas como símbolos da interferência do regime militar na educação: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB). As matérias, como a maioria das humanas, não eram atraentes para os alunos. Exigiam memorização, pouco se conectavam com a realidade contemporânea e eram apresentadas em uma linguagem rebuscada demais para que um moleque de 12,13 anos pudesse compreender.

Ao pensar em conexão com a realidade, não me refiro a esta visão utilitarista que permeia as relações educacionais de hoje, onde tudo tem que servir para algo, imediatamente. Tudo tem que ser medido de forma quantitativa, como um caixa de supermercado. Alunos e professores perdem seu lado humano e passam a vomitar informações que cheiram a um idioma incompreensível, principalmente para os próprios.

Seríamos ratos de laboratório ou corpos mecânicos desprovidos de sentimentos e de sensações, incapazes de absorver conceitos abstratos, valores que – às vezes – só se manifestam de longo prazo?

Além destas aulas, havia outra forma de disciplinar os estudantes, dar a eles – na ótica da escola – valores para toda a vida. Uma delas era cantar o Hino Nacional no pátio, pelo menos uma vez por semana. Assim, os alunos dariam valor à Pátria mãe gentil, seriam melhores cidadãos, seres humanos dignos diante de um futuro melhor (todos os clichês reunidos numa frase só!!!).



Nunca se pensou em trabalhar o significado das palavras – de outra época – presentes na letra musical. Nunca se pensou em debater o contexto no qual o Hino foi escrito e musicado. Nunca se pensou em situar para os alunos quem foram os autores e assim por diante. Cobrava-se disciplina na fila e a letra na ponta da língua. Ah, e a mão direita no peito, como símbolo de amor ao Brasil.

A estupidez deste momento escolar me veio à lembrança quando li que a Câmara Municipal de Santos aprovou – em segunda discussão – projeto de lei que determina que os alunos da rede municipal de ensino cantem os hinos nacional e da cidade. A sessão “cívica” tem que acontecer uma vez por semana.

Em entrevista ao jornal A Tribuna, o vereador Antônio Carlos Banha Joaquim, autor do projeto, argumentou que cantar o hino “aprimora nossa cidadania.” Será que declamar duas letras musicais a cada sete dias nos torna cidadãos melhores?

O ato de cantar – incluindo os trechos que muitos não entendem - nos torna mais brasileiros? Ou mais patriotas? De que pátria falamos? Dos 11 jogadores perfilados em campo, vestidos de camisa amarela ou azul, balbuciando palavras antes de correr 90minutos atrás da bola? Ou falamos, por exemplo, dos vereadores que cantavam animados quando a Câmara Federal aprovou o aumento no número de vagas no Poder Legislativo local?



Sempre desconfiei do nosso patriotismo e da nossa capacidade de falar em cidadania. O patriotismo à brasileira se manifesta por competição. É latente nos esportes quando algum atleta brasileiro – milionário ou abnegado – entra na arena com chances de vitória, mesmo que a infra-estrutura que o apóie esteja fora daqui. Patriotismo que se esvazia na derrota, pela resignação e reclamação coletivas ou pelo linchamento público do atleta.

Surge também quando um filme brasileiro concorre ao Oscar, ainda que seja pouco visto e debatido, ou quando um ator faz filmes em Hollywood. É sinal de evolução. Precisamos da chancela externa para assinar o atestado de qualidade.
Por que, diferente de outras culturas, o patriotismo não se manifesta nas figuras políticas? O complexo de vira-latas esconde a distância entre o poder e os comuns ao longo da história nacional?

Os hinos nas escolas não alteram também o autoritarismo que permeia os processos educacionais. Só o reforçam, estabelecem hierarquia sem justificativa, reprimem sem explicar, estimulam a “decoreba” sem reflexão.

A escola, em linhas gerais, não forma para a cidadania, forma para o consumo. Reproduz – sem criticidade – a dinâmica social do mundo lá fora, rezando a cartilha mercadológica, se sequer pensar se esta postura tem pontos positivos.

Cantar os hinos na escola, após uma canetada legislativa, é um ato autoritário, travestido de proposta de cidadania. Obriga-se um sujeito a reproduzir uma ação sem que ele dimensione o ato. Alguém mais otimista poderia dizer: - Ainda bem que é só o hino! A História está repleta de casos de violência extrema com início em “propostas educacionais” para as crianças.



Novamente, o topo da pirâmide se senta sobre o livro da moralidade para assegurar que valores sejam reproduzidos, sem a liberdade de escolhê-los. Não se trata de educação, mas de doutrinar a mente e a alma do sujeito, de pouca idade e sem possibilidades de se proteger deste discurso.

Vamos supor que a lei venha carregada de boa intenção. Mas ainda me parece uma atitude desconectada da realidade dentro e fora das escolas. Se entrarmos na discussão relativista dos valores no universo escolar, os hinos pouco acrescentam, pois não faz cócegas no gesso que endurece e paralisa os métodos atuais de ensino, impregnados por volume de conteúdos e ausentes de interpretação sobre eles.

Cantar os hinos é outra mão de verniz no tradicionalismo que cerca o mundo da educação escolar. É o OSPB, em outra proporção, nos pátios de hoje.
È possível apostar que as escolas – até por ligações políticas do Poder Executivo – não questionarão a ideia. Seguirão a lei, sem debatê-la. Depende das equipes pedagógicas ignorá-la ou cumpri-la. Por estas bandas, também valem as leis que pegam e as que não pegam. Quem vai receber a visita de um fiscal da Prefeitura para verificar se os alunos cantaram os hinos naquela semana?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O muito e o pouco

Come-se muito. Nutre-se pouco.

Fazemos muito sexo. Fazemos pouco amor.

Ficamos muito. Namoramos pouco.

Julgamos muito. Compreendemos pouco.

Rezamos muito. Agimos pouco.

Falamos muito. Ouvimos pouco o outro.

Temos muitos colegas. Poucos são amigos.

Diagnosticamos muito. Intervimos pouco.

Cultuamos muito o corpo. Pensamos pouco sobre o mundo.

A aparência vale muito. A essência pouco importa.

Desprezamos muito os desconhecidos. Poucos nos cumprimentamos.

Exigimos muitos direitos. Exercitamos poucos deveres.

Vemos muita novela. Lemos poucos livros.

Corremos muito. Chegamos a poucos lugares.

Muitos se dizem pioneiros. Poucos são originais.

Conversamos muito na Internet. Dialogamos pouco ao vivo.

Somos muito dependentes da tecnologia. Poucos vivemos “in natura”.

Valorizamos muito o status. Poucos conhecemos os invisíveis.

Viajamos muito. Pouco absorvemos outras culturas.

Conectamos em muitas redes sociais. Poucas relações são coletivas.

Compramos muito. Oferecemos pouco.

Vivemos muito o presente. Pouco aprendemos com o passado ou planejamos o futuro.

Prometemos muito. Fazemos pouco.

Produzimos muito. Colhemos poucos frutos.

Engolimos muitas informações. Poucas são digeridas.

Vomitamos muitas informações. Poucas têm a dimensão adequada.

Tomamos muitos remédios. Pouco nos interessamos pela cura.

Vamos muito ao mágico-terapeuta. Pouco mudamos o estilo de vida.

Muito comentamos sobre políticos corruptos. Pouco lutamos contra a desonestidade privada.

Muito moralismo. Pouca ação ética.

Excluímos muito. Toleramos pouco o diferente.

Na balança, vivemos muito mais tempo. Sobrevivemos sempre. Morremos sem perceber.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Rio, um cheque em branco

As cenas de violência, com 22 mortos confirmados pela Polícia no último final de semana, causam aquele impacto momentâneo, o leve toque de surpresa numa rodinha de conversa entre amigos ou entre colegas de trabalho. Tempere com um comentário genérico sobre a violência no Rio de Janeiro.

Mas quem poderia se surpreender com disputas por territórios nos morros, tiroteios entre facções e policiais, com requintes hollywoodianos de helicóptero abatido e dois policiais carbonizados?

No cenário de caos revisitado, os engravatados – eleitos ou indicados - correram para amenizar o problema, abafar os danos que eles conhecem de antemão. São, em parte, os mesmos sujeitos que asseguram – de mãos e pés juntos como uma criança em frente ao sacerdote – que o Rio de Janeiro estará “limpo” em sete anos para os Jogos Olímpicos.

De que forma será feita a limpeza? Permanecerá a separação entre os dois Rios? A cidade do asfalto, de cartão postal, garota de Ipanema e Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, se repetirmos o trecho da letra musical? Ou o Rio de Janeiro dos morros, do Estado Independente e dos subúrbios sem infra-estrutura?

A cidade do samba, futebol, mulatas e caipirinha será trabalhada como clichê para levar brilho os olhos dos gringos em hotéis cinco estrelas? Quais políticas públicas foram anunciadas para o município e região? Como será empregado o dinheiro? E quem fiscalizará?



A preocupação atual, ouvindo o discurso dos cartolas-políticos e dos políticos-cartolas, é de esquecer a experiência dos Jogos Pan-Americanos, e não aprender com ela. O evento custou dez vezes mais do que o previsto (o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, justificou ao jornal Folha de S.Paulo que o projeto foi refeito), instalações estão abandonadas e as que seguem em uso não atendem padrões olímpicos internacionais.

Um repórter foi chamado de estraga-prazeres por um dirigente quando fez uma destas perguntas. No mesmo dia, outro político afrontou nossa inteligência quando afirmou que o Rio de Janeiro foi escolhido porque o povo brasileiro era alegre e feliz. Lamento pela melancolia excessiva dos moradores de Chicago, Madri e Tóquio. Vencemos a corrida da felicidade.

O pensamento único é ditatorial, intolerante. Ele se apóia, neste caso, no patriotismo de ocasião, latente somente em situações ligadas ao esporte, quando somos convidados a nos comportar como torcedores de arquibancada no domingo de clássico. E os bajuladores de microfone em punho reproduzem o ufanismo, o maniqueísmo de quem derrotou os Estados Unidos de Obama, somado aos rótulos da ausência de contexto.

Por que precisamos abrir mão de uma análise criteriosa apenas para carregar o título de primeira sede da América do Sul? O cheque em branco é uma assinatura insana ou uma possibilidade de segunda chance? Ou mera subserviência com olhar de mercado?

O bangue-bangue com elementos de cinema americano do último final de semana não é de surpreender até quem teve contato com a cidade na semana passada. Se um sujeito assim existir, viu a panela de pressão liberar fumaça com os problemas dos trens, fato também conhecido de todos. No começo do ano, funcionários da empresa concessionária foram gravados enquanto agrediam passageiros para que entrassem nos vagões.

Sardinhas – cidadãos vistos como animais – que se espremiam em latas sobre trilhos. Alguém foi punido diante de um fato indesculpável? Apenas os funcionários foram demitidos? E quem deu a ordem? A vida seguiu na Central do Brasil.

O Rio de Janeiro estará preparado para os Jogos Olímpicos? A competição não dá lucro financeiro. Mas costuma gerar dividendos em outros setores, como turismo, se houver planejamento antes, durante e depois da festa.

Há casos como Barcelona, que aproveitou o evento para reurbanizar a cidade e atrair milhões de turistas por ano. Mas há exemplos como Atenas, cujas instalações esportivas pouco são aproveitadas, e Pequim, onde a maior arena, o Ninho do Pássaro, só atrai mesmo aves ou outros bichos.



A violência no Rio não é apenas uma situação localizada. Não se trata somente de enfrentar traficantes naqueles duelos que cansamos de assistir no noticiário. Como lidar, por exemplo, com as milícias? É o comando azul, e não mais vermelho, como explicam os especialistas em segurança pública, que domina áreas da capital carioca.

Como explicou a antropóloga Alba Zaluar, em artigo recente, as milícias se aproximam do aeroporto e da Baía de Guanabara. Operam com base na política de controle de armas, mas também expulsam aqueles que pensam diferente.

Com a decisão irreversível dos engravatados, torço para que os sete anos sejam suficientes para redesenhar o Rio. Transporte, saúde pública (lembram dos hospitais lotados, sem médicos, no noticiário de tempos em tempos?) e violência são problemas estruturais de uma cidade que receberá milhões de pessoas em um período de 15 dias. O Rio de Janeiro estará pronto ou se manterá dividido em irmãos univitelinos?

Ontem, Rosa Maria Barbosa estava revoltada com a perda do sobrinho, Edney Canazaro de Oliveira, de 29 anos. Ele era um dos ocupantes do helicóptero abatido no último final de semana na cidade. Rosa disse ao repórter Sérgio Torres, da Folha de S.Paulo. “Eles fazem o teatro deles e nós pagamos. Existe verba para a Copa, Olimpíada, mas para equipar a polícia não tem verba. Como mandam para a área de risco um helicóptero que não é blindado? Isso é palhaçada!”

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, não falou sobre o assunto. Apenas disse - com a obviedade dos alheios - que outros choques entre traficantes vão ocorrer.



Mesmo sabendo que as declarações da tia do PM foram feitas sob emoção da perda do sobrinho, como não pensar nas palavras dela? Aqueles que choraram para as câmeras após o anúncio dos Jogos Olímpicos mais seu círculo de bajuladores com histórico nocivo serão capazes de desmentir esta senhora? O talão de cheques está no nome deles.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O carnívoro ao volante

Conheci, ontem, o Mercado Municipal de São Paulo. Um passeio com jeitão familiar, que realizou desejo antigo, o de saborear o famoso sanduíche de mortadela. Mais importante do que o sonho gastronômico de classe média, a visita representou o ponto que faltava para o nascimento deste texto.

Logo na entrada, uma tenda do Greenpeace era o foco. Jovens ocupavam o corredor de camisas ou jalecos verdes, sorrisos no rosto e palavras na ponta da língua. Sempre fui simpático à entidade e às formas de protesto pelo (nos dois sentidos!) planeta. A questão ambiental é vista como oportunismo de retóricos de gravata ou como tema submisso à agenda econômico-financeira do universo corporativo.

Uma moça me atendeu educadamente e me explicou as batalhas atuais e os adversários (alimentos transgênicos, escassez de peixes e relação carne-desmatamento) com propriedade e didatismo. Um abaixo-assinado completava o discurso politizado e coerente daquele momento.



Meia hora depois, resolvi observar como as pessoas reagiam diante da abordagem dos jovens ambientalistas. A maioria evitava contato visual e seguia em frente, rumo aos desejos culinários e de consumo. Dos que paravam, alguns fingiam literalmente prestar atenção, loucos para seguir o destino do grupo anterior, enquanto outros engatavam uma boa conversa sobre questões pertinentes da agenda ambiental nacional e internacional.

Vale a pena uma tenda no Mercado Municipal de São Paulo? Qual será o impacto diante da vida das pessoas que apanharam o folheto com explicações sobre os problemas que envolvem o Greenpeace? Elas mudarão de atitude? Confirmarão teses? Pensarão a respeito do problema? Farão algo em seu cotidiano?

O trabalho dos camisas verdes é fundamental. O exercício de contestação com efeitos midiáticos mais a conversa miúda – individualizada – em locais públicos podem expor a agenda pública em torno do meio ambiente. Pode ser o combustível para ultrapassar as barreiras políticas, econômicas e eleitoreiras que empurram o tema para a rabeira das rodas de discussões. E não falo daquelas conversas de boutique, em que se vomitam medidas hipócritas para parecer moderninho ou descolado.

O problema, no entanto, passa pela ausência de atitude das figuras públicas. Eles são os donos da bola (ou seria um globo?) e das canetas que assinam o futuro próximo. Podemos perceber a inércia estatal, por exemplo, e de nós mesmos diante das campanhas que ocorreram em um passado recente. Pensei em duas delas: o Dia Mundial sem Carro e a Segunda-feira sem Carne.



No primeiro caso, uma terça-feira, o dia pareceu o mesmo. Com os mesmos problemas urbanos. O trânsito estava congestionado, com os motoristas traduzindo sua fúria e sua pressa nas buzinas e nos faróis altos. Os ônibus, carregados de gente espremida como bichos, usaram o tamanho para se impor em avenidas que encolhem a cada financiamento nas concessionárias.

No mundo movido a petróleo, o combustível orgânico via pedais não tem espaço. São manchas que alteram a paisagem. Incomodam porque não poluem. Perturbam porque não fazem barulho. Atrapalham porque são lentas perante a mentalidade do progresso.

Não parecia o Dia Mundial Sem Carro. Confesso que, inclusive por não ter automóvel, havia me esquecido da data. Mas me fez lembrar uma campanha realizada na cidade de Santos, onde moro. Era o Mutirão da Carona. Até a própria Companhia de Engenharia de Tráfego reconheceu o fracasso da iniciativa, pois os carros circulavam na mesma quantidade, velocidade e conduzidos pelos mesmos neuróticos, acompanhados de bancos vazios ou com objetos inanimados.



O protesto contra os automóveis é – obviamente - importante, assim como outras manifestações pela coletividade, como a Bicicletada, realizada em vários lugares do planeta. São instrumentos nos quais a sociedade civil retrata seu descontentamento com uma série de questões que envolvem políticas públicas.

O mundo é dos carros. Cada vez mais veículos unitários. Símbolos do consumo como prática individualizada e individualizante. Outro dia, conversava com um taxista, sujeito que vive do trânsito e para o trânsito. Para puxar conversa, basta criticar de leve um micro-congestionamento.

No alto da sabedoria rodoviária de quem passa 12, 14 horas diárias entre semáforos (mais de 300 na cidade) e passageiros com pressa sem destino definido, o motorista diagnosticou um dos sintomas da doença: mais carros, menos ocupantes. Veículos preocupados com conforto e espaço interno, para quem? Cachorros, sacolas, tranqueiras e afins. Se celular e computador são objetos individuais, por que os carros não seriam?

Às segundas, os carnívoros continuam no poder. A campanha pela redução do consumo de carne segue o mesmo caminho: permanecer restrita às entidades ambientais ou aos grupos anteriormente simpáticos à causa. A matriz alimentar atual são os produtos industrializados e, por influências culturais, nos tornamos ainda mais carnívoros. Seja uma carne saudável ou aquela que traz de brinde a lista de substâncias químicas para criar a aparência saudável!



A campanha não afeta nem os donos de churrascarias, pois a segunda-feira é o dia de folga, depois de um final de semana regado à picanha e maminha no alho.

Enquanto não houver representatividade política, dentro dos instrumentos de poder, sinto que veremos o discurso ambiental amarrado aos ambientalistas. É preciso entrar nas rodas de poder para alterar leis, influenciar grupos e ter instrumentos de pressão.

Como disse um cientista político na TV recentemente, o cidadão pobre é o fator de desequilíbrio numa eleição. Dá para convencer – até 2010 - alguém que mal come carne, precisa lutar pela próxima refeição e anda de ônibus que o problema ambiental é parte da vida dele?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Capítulos de uma aula decadente

Ao entrar na biblioteca da universidade, encontrei um ex-aluno. Recém-formado, ele é o típico caso de alguém que estava pronto para exercer sua profissão sem grandes problemas. Boa formação, ético, antenado em questões sociais, preocupado em se atualizar por meio dos estudos. Tanto que estava contente ao saber que, por ter diploma de ensino superior, não precisaria prestar vestibular (palavra meio em desuso, mas que simboliza a ausência de alterações nas políticas do setor). Bastava esperar pela sobra de vagas. O rapaz pretende fazer o curso de Direito, pois havia abandonado a sala de aula após seis meses como professor de escola pública.

A pergunta óbvia: - Por que largou?

A resposta imediata: - Desisti!!! Não dá para trabalhar à noite sob ameaças dos alunos.

Dois dias depois, uma aluna de Jornalismo veio me procurar para tirar dúvidas. Ela pretende fazer uma reportagem sobre Hiperatividade, doença da “moda” nos sistemas de ensino. Aqui vale uma explicação: uso a palavra moda por duas razões.

1) o termo foi banalizado. Muitos falam sobre a doença sem ter a menor ideia dos sintomas e do tratamento. Qualquer criança mais agitada, bagunceira ou que deseja um pouco mais de atenção pode ser classificada como hiperativa. O carimbo na testa que a tornará marginal na escola.

2) as escolas, além de não terem pessoas com formação – em muitos casos – para diagnosticar crianças com problemas de aprendizagem, não as encaminha para um profissional competente. Quando não ocorre o exercício da negação, por meio do acordo velado entre instituição e pais para preservar da imagem da escola.

A aluna estava com dificuldades de conversar com escolas privadas sobre o tema. As equipes pedagógicas relutavam em reconhecer que poderiam ter crianças com o problema em suas classes. Quando admitiam, transferiam a culpa para os pais. No beco sem saída, tocar no assunto significa automaticamente o estigma. Desconfio que o parecer talvez fosse exercício de auto-imagem.



Escolas públicas e privadas são irmãs gêmeas diante de um espelho. Podemos localizar diferenças nos acessórios, nas roupas e, principalmente, na maquiagem, mas ambas sofrem de males semelhantes, diagnosticados por médicos diferentes e com poses idênticas de vítimas.

- Tire esse bicho daí que o problema não é meu!

- O diagnóstico está errado. Vou procurar uma segunda opinião.

Neste sentido, a escola se manifesta pela rejeição ao diferente. Expulsa o sujeito que tenta lutar contra o estado de coisas. Repele quando esconde embaixo de suas carteiras, em seus armários, disfunções que poderiam servir de motor para uma reformulação estrutural.

Em ambos os casos, com mensalidades em caixa ou não, a escola é violenta. Enxota o professor e outros funcionários por se calar diante da violência verbal e física, interna e externa. Peca ao se calar diante de um problema de ordem médica para assegurar o status quo de instituição saudável. Omitir-se é um ato tão ou mais violento quanto assinar embaixo. Ou tomar posição com consciência do erro crasso.



O irônico da cegueira é a teimosia em fingir que enxerga. São muitos pecadores, mas poucos dispostos a se confessar ou se flagelar para “purificar” a escola. O sarcasmo, a acidez na provocação vem, por exemplo, do próprio Ministério da Educação, quando escancara na TV um filme institucional sobre o papel do professor. O tom alegre era previsível, assim como o falso simbolismo globalizante dos depoimentos em vários idiomas.

Descontando-se a falta de contexto ao se comparar lugares tão diferentes, o filme repete a velha ironia do professor como um herói, como alguém que se doa por altruísmo, por vocação em ajudar o próximo. No fundo, uma estratégia tímida para atrair pessoas dispostas a ensinar pela via escolar.

Ingênuos não são os que acreditaram no filme. Esses se encontram em estado vegetativo. Ingênuos são os que se surpreenderam quando o Ministério da Educação informou – em tom de cinismo – que faltam professores no país. O déficit de docentes tende a crescer.

Em outras palavras, professor não fica desempregado. Mas que não se meta a discutir condições de trabalho, seja com o gestor público ou com o patrão da escolinha do bairro. Pôxa, recebe todo mês para DAR aula!