domingo, 27 de julho de 2008

A lei seca e a cultura

Artigo publicado no jornal A Tribuna (Santos/SP), em 26 de julho de 2008, página A-15

Descontando o exagero da linguagem, o redator publicitário foi cirúrgico: todo brasileiro é apaixonado por carro. E muitos deles adoram uma cerveja ou um chopp. A chamada Lei Seca, ao tornar rigorosa a punição para aqueles que relacionam volante e álcool, cutucou com vara curta valores culturais enraizados na sociedade brasileira.

Como tais valores são concepções abstratas, a manifestação deles se dá por meio de situações concretas, ou seja, através do julgamento da legislação em si e, principalmente, de exemplos – positivos ou não – do próprio indivíduo e de pessoas de relacionamento próximo.

No lado perverso desta moeda, é a busca do sujeito em se eximir de responsabilidade perante os demais, o que implica falha de comportamento ético ao colocar o cidadão acima da relação social. A auto-defesa mantém intocado o próprio comportamento do indivíduo.

Não é incomum conhecermos motoristas que se consideram bons “pilotos” de automóvel. Também bebem com gosto e orgulho. Asseguram ter capacidade de se controlar perante o volante de um carro, inclusive quando mal conseguem permanecer em pé.

O rigor da lei mexe, inicialmente, com tal comportamento. Obriga o sujeito – por medo do calor da fiscalização ou da multa pesada no bolso – a alterar formas de se relacionar socialmente, abdicando de um dos dois ingredientes. Permanecerá sóbrio e motorizado ou virará um bêbado a pé?

Um dos paradoxos do comportamento cultural aguçado pela Lei Seca é a exigência de rigor, desde que seja para os outros. Afinal, muitos sujeitos julgam-se capazes de controlar as próprias funções motoras ao volante. São os mesmos indivíduos que comentam sobre a irresponsabilidade de motoristas que, alcoolizados, se envolvem acidentes de trânsito ou matam, independente da intenção. E, à frente da TV ou na mesa de bar, pedem punições mais severas para os infratores.

A Lei Seca também recebe, equivocadamente, o ônus de responsabilidade pela postura dos agentes públicos e pela podridão de um sistema jurídico lento e injusto. A legislação é apontada como causa da corrupção de policiais no momento de uma fiscalização. Molhar a mão do guarda ou ser extorquido por ele se constituem em atos anteriores à lei, entranhados nas relações entre Estado e cidadãos.

Ao mesmo tempo, a sensação de impunidade alimenta a idéia – debatida no cotidiano – de que a Lei Seca não deverá alcançar os mais ricos. Esta perspectiva também se fortaleceu antes da mudança. Sentir que poder representa sinônimo de impunidade nos acompanha desde o início da História. O sentimento é corriqueiro na atualidade não só pelos exemplos vistos nos três Poderes, como ainda na pequena corrupção cotidiana, que ocorre em filas de banco, repartições públicas, instituições de ensino e assim por diante.

Modificar comportamentos é, acima de tudo, interferir em valores culturais – em tese – cristalizados. Esta alteração é dolorosa ao balançar concepções vistas como dogmáticas. No entanto, a cultura é – por essência – mutante, adaptando-se ao tempo e espaço. O ideal é que a mutação cultural ocorresse por meio do diálogo, da negociação. Infelizmente, a lei – e talvez aí esteja caracterizado um problema – nasce de cima para baixo, mas o peso no bolso (ou as sanções) não depende dela, e sim dos sujeitos que a aplicam. Corrupção e impunidade, neste caso, sempre se relacionaram com álcool e volante.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O salário a fundo perdido

Pronunciar a palavra planejamento é prerrogativa dos profissionais de educação. Organizar um curso, aperfeiçoar um projeto pedagógico ou arrumar a escola para o início das aulas consistem em medidas básicas para o andamento razoável de qualquer processo educacional. Para os que fazem política com a educação, falar em planejamento é garantia de discursos inflamados, quando não de propostas demagógicas, nascidas sem resultados no horizonte.

Na política educacional, o mundo real da escola parece um idioma incompreensível, uma prática utópica e desnecessária. A educação escolar – vista exageradamente como o remédio para uma enormidade de males - se transformou numa gangorra na qual fórmulas são vendidas como milagrosas e posteriormente retiradas à francesa das prateleiras. Os danos se potencializam quando se aproxima uma eleição.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, com pompa, que o piso salarial dos professores brasileiros será de R$ 950. No entanto, a medida valerá somente para os docentes que trabalham 40 horas-semanais e a partir de 2009. Cerca de 800 mil professores brasileiros ganham menos do que isso. As justificativas são a Lei de Responsabilidade Fiscal – que limita as despesas com folha de pagamento – e a legislação eleitoral, que proíbe reajustes salariais a partir de junho por causa das eleições municipais.

A pergunta: se há a limitação em lei, por que anunciar a criação de um piso neste momento?

Os governos poderão se adequar até 2010. Ou seja: aumento anunciado, sem entrega garantida. Não é difícil perceber como a decisão do Governo Federal é inócua. Todas as redes estaduais já pagam acima deste valor para professores com 40 horas de trabalho semanais.

Na média, há redes municipais, em 12 Estados, com valores inferiores. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (INEP), o pior quadro se encontra em Tocantins, onde a média salarial é de R$ 792.

A pergunta: é possível um professor viver dignamente com este salário?

De acordo com o Ministério da Educação, o aumento vai beneficiar professores em início de carreira e das séries iniciais.

A pergunta: será que o piso salarial vai atingir realmente tais docentes?

Boa parte dos professores brasileiros acumula empregos para ter um salário razoável. Isso implica em jornadas desgastantes, locomoção, falta de tempo para preparação de aulas e de reciclagem profissional. As 40 horas semanais não incluem também o tempo gasto com elaboração e correção de provas e trabalhos, por exemplo.

A pergunta: com R$ 950 de piso salarial, será que os professores poderão se dedicar à própria capacitação profissional, além de consumo com bens culturais, como teatro, cinema e livros, fundamentais para elevar a qualidade do profissional de educação?

Na verdade, não é preciso curso de clarividência para se perceber que as jornadas de trabalho continuarão exaustivas; o nível cultural, baixo; o processo de ensino-aprendizagem, deficiente; e o bolso, vazio.

Quando a decisão governamental é demagógica, sobram perguntas para uma medida repleta de inconsistências, mas todos têm pleno conhecimento das respostas.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Maldita cartilha!

Artigo publicado no Jornal Metrópole (Baixada Santista), edição n.163, em 19 de julho de 2008.

Com a definição da corrida eleitoral, Santos escapou – em tese – de um plebiscito para a Prefeitura. Efetivamente, a eleição para a maior cidade da Baixada traz apenas duas novidades. A primeira se refere à presença da ex-prefeita Telma de Souza como candidata à vereadora. Pela reação dos parlamentares, a candidatura sacudiu a Câmara Municipal. Muitos vereadores de carreira aceleraram o ritmo de trabalho, pois sabem que Telma deverá provocar aumento da bancada do PT.

A outra mudança é que Santos adotou o jeito vicentino de se fazer política-eleitoral. Isso significa o embarque numeroso de partidos na coligação do candidato da situação e favorito para a vitória. São 17 partidos em torno do prefeito João Paulo Tavares Papa. Nada ilegal, porém imoral para a pluralidade do processo democrático, que consistiria em diversos projetos para a cidade.

A disputa para o Poder Executivo ainda é pouco atraente. Não há candidatos que possam surpreender o eleitor, nem pelo exotismo ou pela postura ideológica (hoje, um artigo museológico). Papa nada em águas calmas, com popularidade alta e presença constante na mídia (o que inclui certo exagero de veículos tradicionalmente servis).

Entre as análises apresentadas, a principal expõe que a presença da ex-deputada federal Mariângela Duarte seria benéfica para o prefeito. As duas mulheres brigariam por fatias parecidas de eleitorado, o que facilitaria uma vitória de Papa no primeiro turno. Se ocorrer, é uma crueldade com o processo político. Segundo turno é salutar para a democracia para se estabelecer balizas ideológicas, em tese, e para permitir uma exposição mais nítida dos programas de governo, de como se planeja a cidade para os próximos quatro anos.

A coligação, liderada pelo PMDB de Papa, significa a construção de uma casta política interessada nas benesses do poder. Há, inclusive, partidos tradicionais, como o PSDB, capaz de produzir candidato próprio, mas que se mostrou tímido na renovação das fileiras, pois produziu novas lideranças legislativas, mas implodiu na construção de um candidato para o Poder Executivo.

A situação da política santista é o mais claro exemplo da cartilha eleitoral publicada há dois meses pelo prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. Com 31 itens, a cartilha ensina como o candidato deve nortear suas ações para vencer uma eleição. Entre as pérolas, a idéia de que o eleitor crê em confiança, pois possui uma visão tanto distorcida de honestidade.

Os ensinamentos envolvem também evitar a vulgaridade nos ataques aos adversários e como esvaziar o conteúdo ideológico do processo eleitoral. Em outras palavras, o mais óbvio mandamento dos marqueteiros: encarar o eleitor como consumidor e moldar a candidatura conforme os desejos daqueles que poderiam engolir um produto bem embalado. Uma das lições do kit-Maia indica, por exemplo, que o candidato deve partir do centro e rumar conforme as indicações da maré.

Nada mais pragmático e ilusório! A cartilha de Maia é pontual, mas um escândalo em termos de moralidade. Parece que ele olha para a eleição em Santos. Na verdade, Sucupira nunca esteve morta na política brasileira. Facetas da democracia!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A resistência plástica

Artigo publicado no Jornal A Tribuna (Santos/SP), em 19 de julho de 2008.

A quarta visita ao supermercado confirmou a hipótese: a campanha era inócua junto à maioria dos consumidores. Se a distribuição de espaço neste segmento da economia é fundamental para o sucesso de marcas e produtos, imagine para uma mensagem cidadã, sem a mesma capacidade de sedução.

O cartaz que sugeria a troca de sacolas plásticas por caixas de papelão atraía o olhar, porém estava localizado numa área estéril do supermercado. Ali ficam os últimos caixas, sem passagem para as prateleiras ou outros pontos de circulação de pessoas. Ou seja: o cliente não retiraria uma caixa de papelão por acaso, somente com intenção.

O exemplo indica como se tornou difícil colocar idéias em prática que visem mudar comportamentos de consumidores. O assunto meio ambiente transita por discursos e moralismos, porém pode-se testemunhar poucas alterações efetivas nas relações sociais. Sobram jogos-de-cena e faltam ações cotidianas, individualizadas.

O Brasil é o campeão mundial de reciclagem de alumínio, metal valioso na cadeia de coleta e distribuição, mas não sabe o que fazer com tanto plástico. São 18 bilhões de sacolas consumidas por ano. Em muitos supermercados, estas embalagens são frágeis, que obrigam o cliente a utilizar duas ou três sobressalentes para evitar um acidente no meio da rua.

O governo inglês, por exemplo, iniciou uma campanha contra as garrafas de água mineral ao perceber como é nocivo o processo de fabricação da embalagem. São necessários 40 litros de água para fabricar a garrafa que armazenará um litro do mesmo líquido.

As embalagens se transformaram em fetiches da sociedade de consumo. Reforçam a estética, simbolizam segurança e limpeza, escondem possíveis imperfeições dos produtos. Tudo é acondicionado. A embalagem – a maioria de plástico – também eleva o status da marca e fortalece a relação de afetividade com o consumidor.

Pensando em questões econômicas, ambientais e – por que não? – de imagem, as maiores redes de supermercados do país prometeram reduzir o desperdício com as sacolas plásticas. Isso implica treinamento de funcionários e a troca das embalagens por outras mais resistentes. Os fabricantes não perderiam dinheiro, pois as sacolas mais grossas compensariam a redução de unidades.

No entanto, falta avisar o consumidor da necessidade de se envolver e se conscientizar do problema. O Ibope fez uma pesquisa no ano passado em 12 supermercados. Entre as conclusões importantes, seis em cada dez entrevistados utilizam menos da metade da capacidade das sacolas, com medo que rasguem. Cerca de 15% usam mais de uma embalagem para acondicionar as compras e 20% as reaproveitam para guardar lixo.

Na fila do supermercado, aquele decorado com o cartaz, o processo é mecânico, impessoal. Enquanto o funcionário passa as compras no leitor do código de barras, o consumidor corre para empacotar os produtos. Treinado para repetir como robô se o cliente deseja nota fiscal paulista, balinhas ou chocolates, o funcionário se cala diante da campanha de troca de sacolas por caixas de papelão.

O cartaz sobre os efeitos nocivos do plástico permanece ali, no canto do ponto-de-venda, como um estandarte de quem prega no deserto. Limita-se a ser mais um suporte que polui visualmente o ambiente.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Pai, não se esqueça das minhas compras!!!

Quando criança, uma das propagandas que me atraiam na televisão – aquela dos anos 80, de apenas seis emissoras e conteúdo transmitido por um aparelho com o barulhento seletor de canais – era a de uma marca de bicicleta. Nos filmes publicitários, geralmente a bicicleta era associada a dois conjuntos simbólicos, dependendo do modelo. As bicicross eram conectadas ao mundo de aventuras, de fantasias. Já as de passeio envolviam o ambiente familiar, a relação bucólica com a família. Em ambos os casos, os filmes terminavam com a frase:

- Pai, não se esqueça da minha Caloi!!!

A estratégia, atualmente, é considerada básica no mundo da propaganda. Como o produto é de alto preço, torna-se necessário falar também com pai para que o consumo ocorra. Proibiu-se, porém, o uso de verbos no imperativo, como se a peça publicitária ordenasse a compra do produto.

O consumo infantil cristalizou-se como excelente negócio. Calcula-se em aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Na TV a cabo, por exemplo, o canal Cartoon Network é líder em audiência em qualquer operadora. Outros dois canais aparecem entre os dez mais vistos. E lembrar que a avalanche começou em meados dos anos 80, quando todos os canais possuíam programação infantil nos períodos matutino e vespertino. A líder de audiência era uma loira gaúcha, hoje balzaquiana e última dos moicanos, que se esforça para alcançar novas fatias de público.

O negócio promissor de – por encanto e por estratégias minuciosas – potencializar a veia consumidora das crianças pode passar por restrições pelas quais o mercado anunciante jamais esperaria. A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara Federal aprovou na semana passada projeto de lei que proíbe – isso mesmo!!! – propagandas para crianças até 12 anos, além de estender os limites à publicidade para adolescentes (12 a 18 anos).

O projeto de lei veta publicidade com linguagem e músicas infantis, uso de celebridades, personagens de desenho e bonecos com apelo junto às crianças. A restrição excluiria os brinquedos, desde que comprovadamente de consumo adulto, como bonecos de seriados e filmes. As medidas envolvem TV, rádio e veículos impressos, além de embalagens dos produtos.

Canais de programação exclusiva para as crianças não poderão ter publicidade. Na TV aberta, comerciais para este segmento não podem ser veiculados 15 minutos antes e depois da exibição dos programas. No caso dos adolescentes, o principal ponto é a extinção do merchandising em produtos para esta faixa etária.

Será que os deputados federais se sentiram na Suécia? Trata-se do país mais rigoroso nas restrições à publicidade infantil. Lá, a proibição de mensagens publicitárias para crianças até 12 anos vale para todas as mídias. A vizinha Noruega segue pelo mesmo caminho. Doze países europeus apresentam alguma forma de controle sobre a publicidade infantil.

A legislação brasileira é muito próxima da norte-americana, no sentido de reduzir a participação do Estado e liberar o auto-controle por parte do mercado e dos indivíduos.

No entanto, o assunto requer uma análise além da simples relação Estado-mercado. As diferenças abrangem, basicamente, dois fatores: a construção histórica da TV – principal alvo de recursos publicitários – e a relação cultural com os meios de comunicação.

A essência da TV, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, é comercial. As emissoras nasceram privadas, oriundas do rádio e dependentes de dinheiro de anunciantes. Na Europa, até tempos recentes, as principais emissoras eram estatais ou públicas (neste caso, mantidas pelo público mesmo!). Isso implicou em uma trajetória rumo a uma programação educativa, com análises particularizadas dos conteúdos exibidos e, evidentemente, maiores facilidades para dispensar a publicidade, inclusive por força de lei.

Além disso, a TV compete culturalmente com outros suportes tecnológicos nos países europeus. As crianças européias – apesar do aumento da presença da TV e da Internet – também buscam informações e entretenimento em mídias impressas, principalmente revistas. As sociedades mais duras na legislação contra a publicidade infantil são exatamente as que registram os maiores índices de leitura do planeta.

Os governos da Europa se apóiam no argumento da fragilidade psicológica das crianças para resistir ao discurso sedutor da mídia, além de entenderem que o consumo exagerado leva, por exemplo, a problemas de saúde, como no caso da junkie food. No entanto, a resistência se enfraqueceu até pela mudança de hábitos no mundo contemporâneo, o que abrange desde a relação do cidadão com os meios de comunicação até as estratégias de exposição de mensagens em inúmeras mídias de forma simultânea, acoplando mercadorias a serviços ou produtos culturais como o cinema.

No Brasil, o projeto de lei vai percorrer o caminho das pedras no Congresso Nacional. O próximo passo será a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, em caso de aprovação, seguirá para o Senado, onde poderá sofrer modificações no texto. Aliás, é nessa estrada que o lobby das grandes agências publicitárias e da indústria alimentícia, principalmente, age sem perdão.

Pelo jeito, o esforço contra o projeto deverá ser moderado, se tomarmos como base as declarações do presidente da Comissão, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao jornal Folha de S.Paulo. O parlamentar vê inconstitucionalidade na matéria. Mas o que impressiona é o “profundo questionamento” dele:

- Como você tem um produto voltado para crianças menores de 12 anos e não faz propaganda para despertar a curiosidade?

A maior emissora do país e detentora de mais da metade dos recursos publicitários destinados às TVs já fala em cerceamento da liberdade de expressão, velha muleta contra qualquer lei que afete seus interesses.

O trunfo dos envolvidos é que, numa hipótese de aprovação, o ato de fiscalizar ficaria por conta do Ministério da Justiça, aquele que sonha em restringir a programação das emissoras de TV quando estabelece faixas de horário e – tradicionalmente – recua uma semana depois.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O recesso e a imagem

Artigo publicado no Diário do Litoral (Santos/SP), em 14 de julho de 2008, pág. 04

A imagem negativa beira a unanimidade. Ser político significa conviver com a associação generalizada aos benefícios excessivos, individualismo com as contas públicas e desmandos nas relações de poder. Em tempos de campanha, muitos candidatos precisam se conectar a profissionais de comunicação com o objetivo de reverter um quadro de desgaste, e não apenas se aproximar de potenciais eleitores com idéias ou propostas.

A crise institucional de imagem é permanente. Com os escândalos sucessivos, qualquer parlamentar se esforça para abandonar – em jogo-de-cena – o espírito de corpo. O que vale, no processo eleitoral, é explorar o caráter individual do voto, as necessidades e interesses pessoais do cidadão que apertará os botões da urna eletrônica. Isso significa desvincular-se da instituição política e criticá-la, se for o caso, de forma moderada, sem dar nome aos bois.

É claro que as corridas para os Poderes Executivo e Legislativo são completamente diferentes. No caso da Câmara Municipal, as propostas são genéricas, com menos ressonância, pois – paradoxalmente – o eleitor faz as escolhas por questões comezinhas, específicas, inclusive por não prestar atenção nos discursos quase idênticos e descarregados de ideologia. As pesquisas mais recentes indicam o óbvio: a esta altura, dois terços estão indecisos em quem votar para o Legislativo.

Neste sentido, projetos polêmicos – e respostas na mesma moeda – reforçam a descrença no processo institucional da política. Por outro lado, fortalecem os parlamentares que conseguirem o distanciamento prudente das farpas resultantes de debates, agressões e declarações risíveis de muitos colegas.

O caso em questão é o projeto de lei da vereadora Cassandra Maroni (PT), que extingue o recesso parlamentar em julho. Atualmente, os vereadores paralisam as atividades duas vezes por ano, neste mês e em janeiro. A proposta, evidentemente, dividiu os vereadores, polarizando oposição e situação.

Na seqüência, os argumentos de ocasião apareceram, muitos deles discutíveis, para adotar uma palavra educada. Um exemplo é que, com o fim do recesso em julho, a Câmara de Santos teria um aumento de gastos. Ora, são 45 dias a mais de trabalho, ou dez sessões. Pense, leitor, se as empresas utilizassem esta lógica torta? Não se trabalha porque despesas serão geradas. A verdade é que poucos desejam, no Legislativo, abrir mão de benefícios, tão interessantes quanto a remuneração. É, literalmente, virar as costas para o eleitor, reiterando a imagem negativa dos parlamentares, em qualquer instância.

Os vereadores fizeram o que sabem ao aplicar as regras do jogo. Duas emendas foram apresentadas e o projeto ganhou caminho mais longo na Comissão de Justiça e Redação da Casa. O recesso começou e talvez ocorram sessões extraordinárias para votação de projetos de interesse do prefeito. O projeto que extingue o recesso, neste tempo, foi enterrado sem pompas ou velório. Na volta das “férias”, a campanha esquentará e qualquer ação – mesmo que anterior à corrida por votos – pode ser rotulada de eleitoreira.

A sorte dos vereadores-candidatos é que o eleitor-padrão ignora o processo político. Ele se mostra alheio – em linhas gerais – e tomará a decisão aos 44 minutos do segundo tempo, diante da pressão social de círculos próximos dele ou do próprio som da urna eletrônica que se aproxima no final da fila na sala de votação. A ausência de fiscalização é o cheque em branco que assegura a separação entre a Câmara Municipal e o mundo lá fora.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A liberdade do selvagem

A felicidade somente é real quando compartilhada. A frase talvez seja a última escrita pelo jovem Chris McCandless em um ônibus abandonado no extremo Alasca, nos Estados Unidos. A história de Chris é o retrato da busca mais elementar do ser humano: alcançar – sabendo ou não ser uma utopia – o estado permanente de liberdade.

Três anos da vida de McCandless são acompanhados pelas lentes de Sean Penn, no filme “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild, 2007). Chris era um jovem de classe média alta, recém-formado em uma escola respeitável e com provável ingresso na Universidade de Harvard. Possuía, inclusive, uma poupança que permitiria a ele custear parte dos estudos longe de casa.

Logo após a formatura, Chris doa a poupança a uma instituição e, sem avisar a família, segue em viagem pelos Estados Unidos em um velho carro. O veículo é abandonado e ele se transforma em um andarilho com uma meta definida: chegar ao Alasca e viver da natureza.

O que ele buscava? Quais motivações levaram o rapaz de 20 anos deixar o passado e todos os contatos sociais para trás? Chris se transformou em Alexander Supertramp, o que incluiu incinerar dinheiro e documentos.

A trajetória do jovem norte-americano no cinema é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito pelo jornalista Jon Krakauer. Ele é autor também de “No ar rarefeito”, sobre uma expedição mal sucedida ao Monte Everest, e “Pela Bandeira do Paraíso” (todos pela Companhia das Letras), sobre o grupo de mórmons que ainda praticam a poligamia nos Estados Unidos e Canadá.

A reportagem de Krakauer, de primeiro nível, recebeu uma adaptação à altura. Penn – ao lado de George Clooney – é um ator que resolveu ir para trás das câmeras e produzir obras reflexivas, que retratem a cultura norte-americana por meio de personagens políticos, conscientes de suas ações e fora dos padrões tradicionais das grandes cidades. Penn radiografa uma sociedade norte-americana normalmente desprezada, anônima, distante do glamour e das preocupações tradicionais da vida contemporânea.

A posição dele pode ser notada em três fatores. O primeiro é a passagem do tempo. A narrativa não-linear informa ao espectador o passado de Chris McCandless e possibilita especular sobre as reais motivações do protagonista. O caminho é lento, poético, calcado nos detalhes da narrativa, nos pormenores dos sujeitos que passam pela vida do jovem ao longo de dois anos como andarilho.

A trilha sonora, que tem as mãos, o cérebro e a voz de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, serve como suporte para as tortuosidades desta estrada. A música, obviamente primordial para um filme, torna-se personagem pela força do casamento melodia-letra. Legendas auxiliam o espectador a compreender a plenitude da proposta. A trilha é um novo narrador para a história.

Além disso, o protagonista, interpretado por Emile Hirsch (de Alpha Dog e Speed Racer), repetidamente olha para a câmera, como se permitisse, autorizasse que acompanhássemos sua busca individual. Abandonar tudo representava um rompimento com o passado familiar, de status e normas sociais, mas sem significar uma quebra com o modo de vida social. A dependência do reconhecimento alheio o acompanha.

Esta postura fica clara na relação de McCandless com os vários personagens ao longo da viagem. É o momento em que Sean Penn opta por retratar as várias identidades de um país com grandes dimensões. Desta forma, o entendimento de uma cultura funciona pela voz, pelos gestos, pelos hábitos de sujeitos anônimos, aparentemente satisfeitos com as escolhas que fizeram na vida.

O casal de hippies, Rainey (Brian Dekker) e Jan (Catherine Keener), funciona como segundos pais para o jovem, indica o que poderia ser o futuro dele e como seria possível – com os obstáculos específicos e proporcionais – manter uma vida itinerante, sem conexões com os processos de consumo e até de cidadania.

Mas o que impressiona é a atuação de Hal Holbrook, na época com 83 anos, que interpreta um solitário veterano de guerra. Ele e McCandless agem reciprocamente no sentido de dar novo significado para as relações humanas, reforçando a obsessão de encontrar no outro alicerces para decisões solitárias. Assista com cuidado ao diálogo de despedida no carro. Holbrook recebeu indicação ao Oscar por melhor ator coadjuvante.

O filme de estrada de Penn também desnuda a hipocrisia da instituição familiar, aquela construída pela sociedade norte-americana a partir a Segunda Guerra Mundial e que integra o American Way of Life. A famosa família das propagandas de margarina!!! Isso não significa que o filme seja um panfleto pelo fim da ordem familiar. Pelo contrário, Na Natureza Selvagem defende a força dos grupos sociais, porém construídos também de formas alternativas, sem a necessidade inquestionável do sangue como única referência.

A busca de Chris McCandless, que resulta na ânsia por viver livremente, exige um alto preço. Para o jovem que abandonou uma vida em troca de outra, a chave do negócio é ter a chance de decidir quanto se quer apostar em um estilo de vida, sem julgamentos alheios. A tal da felicidade de forma compartilhada.

sábado, 5 de julho de 2008

Um origami para a cantora

O cartaz é discreto, assim como quem o pregou. A mensagem é clara e propõe a doação de algum tempo da vida – pedido difícil em tempos tão atribulados, às vezes para inutilidades individuais. Mas a autora da proposta é persistente, como o japonês mais tradicional.

Ela sabe que pedir alguns minutos do dia-a-dia de qualquer sujeito para a criação de um origami (esculturas de papel de origem japonesa) requer paciência, pouca chance de compreensão e talvez a providencial conversa de canto, ao pé do ouvido. É neste momento que se dispõe a explicar o objetivo dos tsurus (pássaros que representam a paz e a prosperidade).

Em várias ocasiões, Márcia deparou-se com a incredulidade de indivíduos acostumados com o pragmatismo contemporâneo. Tudo, para eles, está vinculado à utilidade instantânea, concreta, palpável, mensurável como dados de uma equação matemática. Nesta hora, Márcia Okida coloca as razões pessoais para persuadi-los sobre um trabalho que gerará ressonância final a milhares de quilômetros. Os tsurus simbolizam a forma mais singela que encontrou para homenagear o avô, de origem japonesa, falecido há 35 anos. Primeira filha, sobrinha e neta da família, Okida o enxerga ao lado de si desde a infância, como se ele transmitisse paz e tranqüilidade.

O cartaz é um pedido de solidariedade. Consiste na produção de origamis em formato dos pássaros, que serão enviados ao Japão para o Memorial Sadako Sasaki. O local homenageia a garota que morreu vítima da bomba nuclear detonada em Hiroshima, durante a Segunda Guerra Mundial. A menina simboliza os mortos daquele horror. Sadako foi atingida pela chuva de fuligem em decorrêncja da explosão e desenvolveu leucemia dez anos depois. No hospital, prometeu a si mesma que montaria mil tsurus. Morreu antes de completar o desejo. A confecção dos pássaros em origami passou a representar paz, vida longa e prosperidade.

O sorriso discreto das pequenas vitórias não nega a ascendência japonesa. O assunto se espalhou pela Internet e levou Márcia Okida a jornais e emissoras de TV. Aos colegas de universidade, numa noite dessas, mostrava uma sacola com 200 origamis enviados por uma aluna. E dizia: - Tenho 1200. Fora o que virá do Sul e do Nordeste. Escolas estão envolvidas, gente.

O jeito de lidar com as situações cotidianas também provoca um certo incômodo. Em época de paixão pelo marketing pessoal e pelo jogo de aparências, Márcia se sente culpada pela visibilidade. Angustia-se ao ver que muitos associam a proposta do tsurus à prática da “solidariedade de mídia”, quando a doação acontece mediante o cerco de câmeras e holofotes.

Engana-se o menos avisado que crê numa exposição pessoal excessiva ou em tarefas inacabadas. Márcia propõe-se sempre a cruzar opiniões, misturar habilidades de quem se relaciona com ela e incluir a todos num caldeirão que exale cultura, comunicação e arte.

Márcia é multicultural e multimidiática. Estar sempre cercada de gente a permite perceber como interagir com inúmeras correntes de pensamento, simultaneamente, em espaços diferentes. O uso da linguagem adequada é a arma para desmontar, reverter barreiras culturais perante o novo, diante da incompreensão do diferente, apoiando-se na reação de curiosidade frente ao exotismo do desconhecido.

Insistir sem impor uma perspectiva ou convencer pela sedução integra o menu de quem trabalha com cultura pop. O cinema, por exemplo, atrai o olhar cirúrgico. Apaixonada por cores, ela tornou-se conhecida como designer e expert no tema. Um dos exercícios prediletos é analisar cartazes de cinema. Fundou, com outros profissionais da cultura, uma Associação Cultural. Nos finais de semana, é comum vê-la cantando em uma banda de repertório eclético.

Não sei se foi a cultura que pulsa no cotidiano que a transformou numa pessoa sensível. Ou se a sensibilidade a levou pelos caminhos da transpiração cultural. Sei que Márcia Okida obteve um resultado aparentemente pequeno ao olhar dos imediatistas. Mas provocar a reflexão ou até a desaceleração das pessoas por alguns minutos diante de um pedaço de papel que se transmuta em pássaros é relativa façanha no mundo de hoje.

Como se mede o sucesso desta proposta? Buscar convencer o outro de um gesto, homenagear alguém com quem não se encontrará mais, dedicar-se a uma causa sem a chance de visualizar resultados ou conectar-se a conceitos abstratos, de identificação cultural quase inexplicável, são ações que somente expõem a definição de humano. Sem troca, sem ganho, sem interesse que não a simplicidade e a transparência de um ato, como o origami.