sábado, 26 de maio de 2012

As naves espaciais



Santos possui uma das três maiores frotas de automóveis do país, em proporção ao número de habitantes. Manipulada a informação, os ufanistas defendem que é um sintoma de fartura econômica do município. Os automóveis são, de fato, um dos termômetros que determinam a saúde ou as feridas que sangram uma economia. O Governo Federal aperta ou afrouxa o crédito, entre outros fatores, pelo comportamento da indústria automobilística.

Historicamente, o país impulsionou a industrialização quando abriu as portas para os Estados Unidos e suas fábricas de carros, além de outros segmentos correlatos da economia. Pagamos até hoje a troca de um futuro ferroviário por estradas e caminhões.

Numa sociedade que se agarra às aparências, o carro representa ascensão social. Ainda que 90% das vendas envolvam financiamentos que terminam quando o produto virou sucata, andar de carro novo indica – para os apressados – mudança de status e a inserção efetiva no mundo do consumo.

O cenário de carros em progressão geométrica alterou o comportamento dos santistas. Passamos em pensar no melhor horário de sair de casa. Chegamos atrasados ou perdemos compromissos por conta de engarrafamentos. Compartilhamos rotas alternativas para evitar pontos tradicionais de congestionamento nos horários de pico.

Levamos em consideração a hipótese da adoção do rodízio, o que sacramentaria a cidade como uma versão em miniatura da capital paulistana. A classe média passou a discutir, com maior veemência, o que “gente pobre” pratica por obrigação. Na ausência do carro, a bicicleta, o ônibus, a motocicleta e os sapatos como meios diários de transporte.

Na corrente contrária, proliferam as naves espaciais. São aqueles carros com jeitão de jipe, pose de off-road, mas roupagem urbana, normalmente conduzidos por uma pessoa. Na hora da compra, o argumento do carro-família. Na prática, uma ou duas pessoas o preenchem no desfile pelo asfalto. De resto, lataria, pneus e outros itens que ocupam espaço, fora a vocação poluidora de muitos modelos.

Estes carros, a maioria na casa de R$ 100 mil ou mais, costumam marcar a ascensão social recente de uma parcela que necessita alardear quem são pelo que têm. Mantemos, de certa maneira, o espírito colonizado por repetir – tardiamente – uma postura que os norte-americanos abandonaram.

A crise econômica e a legislação ambiental empurraram estes trambolhos para o ostracismo nos Estados Unidos. Muitos dos jipões não fascinam mais os filhos de Sam e foram repousar pelas bandas de cá, nas garagens de muitos novos ricos.

A densidade demográfica, traduzida também pela aglomeração de carros, expõe a falta de preocupação com o meio ambiente. Aumento de poluição atmosférica e sonora, alterações de comportamento de motoristas e elevação da temperatura são características incorporadas ao cotidiano de quem passa cada vez mais tempo dentro do carro.

Independentemente da ausência de políticas públicas que interfiram na estrutura de transporte, o cidadão comum tem sua cota de responsabilidade no entupimento das veias de um sistema circulatório incapaz de crescimento geográfico. Trafegar por avenidas como Conselheiro Nébias e Ana Costa em vários horários se tornou inviável, também por conta de carros mais largos.

Um exemplo de vítimas da bagunça são os universitários. Muitos estudantes que residem na Área Continental de São Vicente gastam o mesmo tempo de locomoção que os colegas que tomam ônibus fretados para Peruíbe, 50 quilômetros mais longe.
Por trás dos vidros escurecidos, esconde-se – na verdade – o paradoxo sobre rodas de uma cidade que deseja ser cosmopolita, mas não consegue largar o passado (tão presente) do provincianismo. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Dia dos Filhos


Dispensando a esquizofrenia comercial de presentes a qualquer preço e os protocolos que alimentam o teatro de muitas famílias, o Dia das Mães é uma data que me provoca – até dias antes – uma série de reflexões sobre a maternidade e, no meu caso, a paternidade. São cargos vitalícios, de confiança, mas passíveis de abuso de poder e, dependendo do caso, de nocaute por ingratidão.

Fico assustado quando vejo a tentativa neurótica de transformar a data num acerto de contas ou numa idealização de relacionamento que, à meia-noite, como a carruagem da Cinderela, virará abóbora. Também me preocupa quando se comemora por obrigação civilizatória, marcada pelo silêncio ou pelos cutucões não-verbais. É o almoço em que todos batem ponto, com o pensamento nos compromissos a serem cumpridos posteriormente.

Neste universo em que vestimos as máscaras dos personagens de comercial de margarina, nunca foi tão fácil ser mãe. E nunca foi tão difícil exercer a maternidade. Os tempos modernos aboliram a fralda de pano, trouxeram as comidas industrializadas de vários sabores, essências e até fragrâncias, criaram as profissões especializadas para acompanhar cada detalhe do corpo do bebê e inocularam as tecnologias que mantém a criança ocupada sem a necessidade de um adulto por perto. A somatória aponta para um arsenal de recursos que quase tornaram um filho independente na infância.            

Talvez esteja aí a questão que faça da vida materna um dom e uma maldição. Nunca foi tão fácil acompanhar o crescimento das crianças de perto. Tão perto que beira o estrangulamento. Tão seguro quanto uma torre de marfim com uma vitrine para testemunharmos o cotidiano de reizinhos e princesinhas.  

Nunca tão foi comum vermos crianças cercadas de cuidados ao ponto da liberdade se transformar em cárcere privado. Pais e mães que sentem pânico quando pensam na possibilidade de provocar algum trauma em seus filhos. Lutam para conquistar a amizade deles por meio de relações horizontais. E os fazem monarcas ditatoriais, tão nus que não vivem o mundo fora da corte.

Filhos são amigos, mas – acima de tudo – são filhos. A relação entre eles e seus pais será sempre marcada pela verticalidade. E, neste sentido, é possível enxergar uma geração que desconhece a palavra “não”. A permissividade é o fruto que mata o diálogo, que envenena o questionamento infantil com o último brinquedo eletrônico (que brinca sozinho!) do momento, que mutila o conflito de gerações, tão duro quanto rico para o crescimento de todos os envolvidos.

O excesso de proteção caminha de mãos dadas com a transmissão de angústias, desejos e responsabilidades típicos do mundo adulto. Filhos não são executivos, com suas agendas divididas de hora em hora. Crianças não precisam se preparar para o vestibular ou para o concurso público.

Muitos pais trocam a construção de lembranças em conjunto com os filhos por uma cultura competitiva de desempenho, certificados, aulas disso ou daquilo com a desculpa de garantir o futuro deles, ainda que seja tão impreciso quanto distante. Tão impreciso e distante quanto a compreensão que a criança tem sobre notas, diplomas, provas e conteúdos injetados por lavagem cerebral.

O Dia das Mães é uma data com cheiro de balanço. Entre as contas a receber e as contas a pagar, um intervalo não apenas de demonstração obrigatória de amor, como se não houvesse amanhã. O amanhã está ali de pé, no batente da porta, a indicar o quanto fazemos como pais e o quanto fazemos como filhos. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Que Deus nos proteja!


Com o início da corrida eleitoral, os políticos deixam aflorar uma das suas principais características: adoram festas. Não se trata de comer e beber de graça, até porque a receita indica apenas degustação para suportar a maratona de visitas e evitar qualquer imprevisto estomacal.

Ali, em um ambiente mais descontraído, eles entendem ser mais saborosa a aproximação, abordagem e manipulação de suas vítimas. Freqüentam jogos de futebol, churrascos, noite de pizza, casamentos, aniversários e batizados.

Até a velha feira livre ganha singularidade, onde se multiplicam apertos de mão, beijos, abraços, crianças no colo e apresentações de novos “amigos” a se esquecer nos cinco minutos seguintes. Preparados e higienizados para o “confronto” com o eleitor em potencial, os candidatos são observadores. Recitam a tabuada eleitoral com eloquência, sem o menor rastro de que decoraram o texto.

Mas a classe política em campanha precisa da purificação ou do exorcismo. Não basta gastar sola de sapatos para ser visto como trabalhador ou como alguém interessado em problemas coletivos. É fundamental parecer um sujeito de alma limpa, sólido espiritualmente, sensível às questões filosóficas mais profundas do ser humano. O candidato deve ser, em essência, um homem de fé, ainda que seja a máscara da fé exclusiva em si mesmo.

Numa época em que religiões se multiplicam como produtos em prateleiras de supermercado, qualquer candidato que se preze acredita nas variações de Deus. A fórmula é crer em um ser supremo capaz, acima de tudo, de mutação conforme a doutrina, conforme a camisa da bancada da fé.

Políticos distorcem o papel de missionários. Não levam a palavra. Buscam a conversão sem ouvi-la. Colecionam fiéis, de qualquer idioma. Acompanham rituais na fila do gargarejo, mas de olho no relógio para o compromisso seguinte, às vezes de doutrina distinta. Adeptos do sincretismo eleitoral, conversam com todas as alas e fazem o outro acreditar que a sua crença é a preferida.

Embora as candidaturas ainda não estejam oficializadas, os concorrentes se postam como irretocáveis em missas, cultos, sessões espíritas e outros eventos correlatos. Alguns negam a força da religião, pregam o Estado laico oficialmente, enquanto flertam com a fé alheia.

A prova de fé está, por exemplo, nas redes sociais. Não basta ir à missa de domingo. A ordem agora é que seus apoiadores – pagos ou não – divulguem as imagens do evento no Facebook. E compartilhem, comentem, como a grande novidade do dia. É o sacramento cumprido com rigor monástico.

O nascimento e crescimento de diversas religiões fizeram com que a moral cristã (em suas interpretações) se tornasse pré-requisito para o sucesso nas urnas. Na última eleição presidencial, Serra e Dilma entraram em um debate estéril sobre aborto, sem contribuição para o tema como saúde pública ou para a agenda política brasileira. Apenas para agradar uma parcela do eleitorado.

As bancadas da fé se organizaram e se assumiram desta forma na busca de seus próprios interesses. Para algumas religiões, ocupar cadeiras no Executivo e no Legislativo compõe um projeto de poder e expansão patrimonial.

Neste cenário, até políticos outrora ateus resolveram entrar na ciranda das crenças. Adaptam os programas de governo a líderes religiosos, prometem ações específicas para uma corrente ou outra, juram amor ao Deus do interlocutor.

É claro que institucionalizar uma religião sempre é um ato político. Mas transformar a fé em votos na urna soa mais como heresia, na qual o político jamais expurgará seus pecados. A fogueira sobrará inevitavelmente para o eleitor, crente nas falsas promessas libertadoras do visitante de ocasião.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O operário-padrão


Luiz de Souza trabalha 16 horas por dia. Poderia ser escolhido como funcionário do mês e ganhar como prêmio uma foto pendurada nas dependências da empresa. Mas Luiz não entra nas empresas onde trabalha. Sempre as vê como espectador externo.

Se vivesse há 150 anos e morasse na Inglaterra, fatalmente Luiz estaria numa linha de produção fabril, com pouca chance de segurança no trabalho e sem direitos trabalhistas. Hoje, ele é quem faz segurança do patrimônio alheio, armado de celular e com preparo técnico baseado no bom senso.

Os direitos trabalhistas são parciais para ele porque um dos empregos, na verdade, é um bico. Bico sem adicional noturno ou por insalubridade. Se for dispensado, não terá aviso prévio, indenização ou baixa em carteira.

Em outros tempos, Luiz poderia se candidatar ao prêmio de operário-padrão? Não, pois sua atividade profissional não é considerada produtiva por muitos de seus clientes. Ele vive parado, em pé, no mesmo lugar. Como poderia produzir algo se o comparam a uma samambaia?

Luiz padece de invisibilidade. Até colegas não o cumprimentam. Lembram-se dele quando precisam de ajuda para carregar sacolas, mochilas e outras quinquilharias escolares. Muitos pais - e até os mesmos colegas – ainda assim não o agradecem. Não teria feito mais do que a obrigação.

Ele trabalha como segurança em uma empresa terceirizada, em Santos. A empresa o designou para atuar numa escola de elite. Excetuando o horário de almoço, Luiz permanece em pé, na frente da escola, 12 horas diárias. Ele não é o porteiro, que pode se sentar em um banquinho, uma mordomia para as circunstâncias. A função de segurança exige que esteja em pé, alinhado, e de gravata, a cereja de bolo do uniforme que o transforma na inexistência. 

O salário é quase um assalto, numa relação em que o funcionário se comporta como vítima voluntária. O valor é impraticável para sustentar a esposa e dois filhos. Pessoas quase fantasmas na vida dele. Luiz se hospeda na própria casa, onde aparece basicamente para dormir. Pelo menos tem direito ao café da manhã.

Depois da escola, ele tem uma hora de intervalo, período que aproveita para comer alguma coisa, se livrar da gravata e do uniforme, vestir camiseta, bermuda e tênis. A informalidade das roupas é coerente com a informalidade do segundo emprego.

Luiz, a partir das 20 horas, é segurança de um restaurante, localizado a uma quadra da escola. Para ele, o bico é vantajoso porque permite a economia de transporte, além do jantar gratuito todos os dias, ainda que seja sempre pizza. O segurança pode variar os sabores, mas precisa economizar nos pedaços, já que os quilos a mais teimam em se multiplicar.

No restaurante, são quatro horas de expediente, com folgas às segundas. Na escola, a folga acontece nos finais de semana, dias de maior movimento na pizzaria. Folga de um dia inteiro? Luiz faz contas para se lembrar de quando aconteceu. A resposta não vem acompanhada da certeza.   

Luiz nunca recebeu honrarias fotográficas ou remuneradas por desempenho. Jamais entrou na política de divisão de lucros das empresas que protege. Mal se dá conta que não será premiado por metas alcançadas e outros termos ilusórios do mundo corporativo.

Mas ele certamente se encaixa em um padrão. Ele é um trabalhador brasileiro, lembrado com certa dose de cinismo neste dia 1º de maio. Neste dia, as comemorações envolvem aparar a grama e cuidar do jardim do prédio em frente à escola. O jardineiro improvisado é a versatilidade de quem precisa de mais R$ 50 para aliviar as contas que cismam em subtrair todos os meses.