quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Não perturbe: estamos em reunião



Reuniões de trabalho são disputas de força. Neste ambiente, a síndrome de pequeno poder se manifesta em seus portadores. O contágio se dá por vários sintomas, perceptíveis pelos papéis que compõem o jogo de cena, no qual prevalecem falsos interesses, sorrisos circunstanciais e dribles para a torcida (ou o chefe mesmo!).

Em uma reunião, é possível perceber um elenco de personagens, incorporados de forma fixa pelo mesmo ator, mas também em caráter de revezamento, o que depende da pauta e do lugar. Eis a turma:

1)O escrivão – anota tudo o que é dito no encontro. É o meio de demonstrar interesse. Nunca vai ler o que escreveu.

2)O pensador – o olhar é atento, mas a mente nunca esteve por lá. Em balão de histórias em quadrinhos sobre a cabeça, estaria escrito: — O que estou fazendo aqui? Tenho tanta coisa para resolver.

3)O comunicador – papel exclusivo do líder da reunião, mas pode ser estendido a um aliado. Na verdade, a reunião se transforma uma central de recados, sem espaço para debate, já que o chefe apenas avisa sobre os acontecimentos e decisões. Muito comum em reuniões entre equipe pedagógica e professores.

4)O franco-atirador – Personifica o balcão de sugestões. Sempre tem uma ideia de ocasião. Mas nunca peça para ele executá-la. Sua contribuição morreu ao parir a proposta. Sua cria é terceirizada para os trouxas (ou caxias) de plantão.

5)O camaleão – Nada conforme a correnteza. Não tem vergonha em mudar de opinião, ainda que a contradição seja imediata e escandalosa. O que vale é ficar de bem com a maioria.

6)A samambaia – A presença deste personagem não faz diferença. Jamais quer ser notado. Prefere ser peça decorativa no cenário. Passa meses em silêncio. Faltou hoje? Não percebi.

7)O burocrata – O papel é o fetiche. Tem tesão por ofícios, memorandos e requerimentos. Quanto maior a papelada, maior a chance de dizer que trabalha demais. Horários, lugares e ficha de presença nas reuniões são mais importantes do que soluções.

8)O amigo do rei – Adora as reuniões, em outro sentido. É a oportunidade de estar mais perto do chefe e, se possível, bajulá-lo diante de todos. É puxa-saco de fato, de direito, de vocação e de profissão.

9)O promíscuo – Reunião é o princípio do prazer. A perversidade de pagar qualquer preço para não trabalhar. Engrossa as comissões que inúteis. Quase todas. Agarra-se em reuniões para matar o tempo que falta para ir embora.

10)O relojoeiro – Obsessivo com a contagem do tempo. Pensa na reunião a seguir. Outros compromissos, milimetricamente agendados, mantém a engrenagem em ordem. Sem atrasos. Sem improvisações.

11)O advogado do diabo – Sempre elogia antes da crítica. Ama a palavra “mas”. — Sua proposta é interessante, muito boa, mas ...

12)A múmia – personagem resistente. É o primeiro a fincar a bandeira contra qualquer mudança, mesmo as que o beneficiam. Bebe em exemplos antigos e adora expressões como “no meu tempo, na minha época.” Estes períodos são sempre melhores, é claro.

13)O fantasma – Nunca aparece. É o mais inteligente de todos.
É muito provável que tenha me esquecido de outros personagens. Há, com certeza, outros tipos que seriam a fusão dos que descrevi acima.

Se você se identifica com uma das espécies, fique tranqüilo. É um trabalhador qualquer, dominado como a maioria. Se você se viu em vários sujeitos, não peça demissão ou corra para a terapia. Você está em vias de se tornar o funcionário do mês, com direito a foto no hall da empresa e aperto de mão do rei, que errará seu nome.

E relaxe: se esta crônica não serve para nada, uma reunião - pelo menos - serve para marcar outras.

Ilustração: Kitty Yoshioka

domingo, 26 de setembro de 2010

Obrigado, Ronaldo



Ronaldo, você não precisa mais vestir a camisa do Corinthians. Sua imagem não está em risco, mesmo que jamais pise no Pacaembu outra vez como jogador de futebol profissional. Sua carreira sempre será associada aos títulos, aos gols, às arrancadas, aos dribles em velocidade, ao desempenho singular. Mas o fato é que o Corinthians, como time, pode prescindir de sua presença.

Você é hoje muito mais importante como sócio, como parceiro comercial. Neste caso, basta que jogue eventualmente. Somente não pode – neste momento ou até o final do ano – oficializar a morte do atleta profissional. Ingressos mais baratos, menos gente no estádio, patrocinadores em debandada. Seria uma goleada contra a “empresa” Corinthians.

A revista Placar publicou, em reportagem, que você rende R$ 20 milhões por ano ao clube. O salário é estimado em R$ 550 mil, mas os ganhos mensais alcançariam R$ 1,8 milhão, se somados os patrocínios. Esta fortuna te coloca no topo do ranking da remuneração dos jogadores.

Se os números são apenas aproximados, descarte o preciosismo. Como mina de ouro, você precisa calçar as chuteiras, ainda que não corra, ainda que altere o desenho tático. Sei quanto o acordo é vantajoso para ambos os lados. E não há problema algum nisso. O único ponto questionável seria a insistência em alimentar a ilusão de parte da imprensa e torcedores. Eles acreditam que você não recebeu ainda o prefixo “ex” à frente de sua profissão.

O Corinthians se adaptou, ainda na gestão de Mano Menezes, a não depender de sua genialidade. Adilson Batista ratificou e aperfeiçoou o novo jeito de jogar do time. Este ponto me entristece, pois fica cristalino que, se você atuar de vez em quando, no Pacaembu, ótimo. Se não jogar, o time aprendeu a se virar com serenidade. Um cara como você jamais poderia aceitar a condição de dispensável.

Nas entrelinhas das declarações do técnico Adilson Batista e de seus principais colegas, os sinais de que a última página do enredo se aproxima. Até você disparou indiretas sobre os limites do corpo, como se preparasse os torcedores para o abraço de despedida. Quando abriu, recentemente, uma empresa especializada em agenciamento e administração de carreira de atletas, pensei: outro sintoma da fase de transição.

Gostaria de estar enganado. Errado ou não, resolvi me despedir de ti como forma de agradecer por tudo o que fez pelo futebol e, na última curva, pelo Corinthians.

Ronaldo, você viveu os últimos 17 anos como se fosse o personagem de um épico. Daqueles clássicos e popularmente melosos. Alguém amaldiçoado à saga dos diferentes, com capítulos dramáticos de qualquer tragédia grega.

Oito cirurgias. Três ressurreições. Você insistiu em emudecer os críticos apressados, os sanguessugas da desgraça alheia. Você não representou o primeiro craque globalizado, filhote do marketing e vassalo do espetáculo. Usufruiu do modelo atual, claro, não como herdeiro, mas como um dos co-criadores.

Ninguém controla este universo de falso glamour e cifrões em tempestade. Talvez tenha sido sua bola furada na grande área. Você acendeu o fósforo e saiu chamuscado pelas labaredas. Sua vida privada foi revirada, devastada e incinerada sucessivas vezes.

É uma vida que nunca me interessou. Nem ontem e hoje. Seus “escorregões”, apontam com dedo em riste os moralistas, soam para mim como baixas de uma batalha de mídia, na qual os segredos da coxia caem no palco sempre que ele se encontra vazio.

Ouvi falar de ti, pela primeira vez, quando deixou Rodolfo Rodriguez, o melhor goleiro que vi jogar, com cara de juvenil que treme na estréia profissional. Um jogo entre Cruzeiro e Bahia, último clube do uruguaio no Brasil. Você marcou cinco dos seis gols da raposa naquele dia, há 17 anos. Não me lembro de outro que tenha feito tantos, em um só dia, na parede de bigodes.

Nunca me impressionei com seus recordes. Não é desprezo. A verdade é que não entendi os recordes como fim em si. Somente conseqüências. São números importantes, reforçam seus feitos, mas desumanizam o sujeito, pois te afastam dos sentimentos do torcedor. Os recordes te colocaram no panteão do melhores. Fortaleceram a imagem de fenômeno, título que reduz sua trajetória às façanhas como atacante, sem considerar sua principal característica: o renascimento.

Ser dado como morto várias vezes te tornou incomum. Você recomeçou a carreira de pontos onde a maioria desistiria ou se contentaria com as pílulas de nostalgia da mesa de bar. Você dispensou as convenções do gênero, convencido de que reviravoltas e tensões freqüentes assombravam e enterneciam o espectador.

O jeito de trabalhar sempre me impressionou. Você nunca foi um artesão. Construiu o raciocínio como um diretor de hollywoodiano de veia independente. Nesta lógica, efeitos especiais que serviam à arte, sem a ingenuidade de épocas focadas pela saudade do futebol em outra velocidade.

Suas ideias foram plagiadas e distorcidas, assim como serviram de inspiração para outros jogadores anti-cartesianos. A força é sua natureza, escrava da inteligência e da perspicácia no instante que decide a partida na grande área.

Nove anos depois de colocar o uruguaio de joelhos, você demoliu o muro alemão, erguido na Ásia. Carimbou a faixa de melhor do mundo do goleiro Oliver Kahn, um tanque que carregou a Alemanha à final da Copa de 2002. No choque entre carros pesados de combate, você soube combinar genialidades com Rivaldo e refazer sua história em sete capítulos de 90 minutos.

Os altos e baixos de sua vida como atleta te reinventaram como marca, que percorreu mercados e sobreviveu ao modelo que equipara jogadores a laranjas na engrenagem da máquina que fabrica o suco nas esquinas.

Você, Ronaldo, simboliza uma nova fase do Corinthians, time que também renasceu após a humilhação da série B. A primeira temporada, com dois títulos, foi útil para te incluir nas listas de favoritos dos seguidores da religião. Mais do que isso: você conheceu o torcedor brasileiro em seu momento de maior entrega, de paixão cega. Seleção brasileira move sentimentos, mas nada tão profundo quanto um clube de massa.

Agora, é o momento de se atrelar ao centenário. Compreender, com a vida financeira sorridente de ponta a outra das orelhas, qual o cenário mais favorável ao desfecho. Terminar a história de quase 20 anos no clube que renasceu inúmeras vezes como você seria um beijo apaixonado de coerência, sem nódoas, sem reticências.

A coincidência de destinos, entre os dois parceiros, poderia significar o traço definitivo no mural de fé que fideliza os corintianos. O peso de sua presença não seria um problema de saúde pública, mas uma questão de amor declarado e incondicional. Neste caso, quem ama enterra os defeitos do ídolo.

No Corinthians, o tempo cauteriza as cicatrizes dos tropeços. E coagula o sangue que jorra com as vitórias sofridas. Neste sanatório, apenas mantenha no corpo, Ronaldo, a camisa que amarra os loucos. Com gols e atuações dignas. E, se der, ajude a levantar o último campeonato no ano predestinado às maldições.

sábado, 25 de setembro de 2010

O aniversário



Hoje é meu aniversário e resolvi me dar um presente neste sábado. Descartei mulheres de camiseta molhada em jaulas, carros off-road, viagens ao paraíso, livros proibitivos e outros desejos incontidos de consumo. A prudência e a culpa se uniram e derrubaram o calor juvenil. As dores no bolso latejaram ao primeiro sinal de fraqueza. O regime é de avareza forçada.

Dispensei loucuras de comportamento. Nada de substâncias em pílulas, por inalação, por seringas, copos e outros objetos mais convencionais. Nada de maratonas sexuais ou relações de dar inveja ao Circo du Soleil. Abri mão até a pelada tradicional com os velhos boleiros do Banguzinho, time de futebol society, em Santos.

A racionalidade derrotou a nostalgia de tempos que iludem a mente e entristecem o corpo. O prazer é cada vez mais curto – embora selecionado e profundo -, mas a recuperação caminha como um paquiderme em capítulos derradeiros.

A idade, vítima da ditadura do relógio e das convenções sociais, insiste em me colocar numa encruzilhada. Não se trata de pavor diante da velhice que a matemática é incompetente em medir. Equações numéricas são dispensáveis aos olhos e aos conteúdos que calças e camisas se esforçam em esconder.

Não escondo os números. São 36 anos. Poderia dar a volta olímpica, acenar para a torcida, pegar um tufo do gramado como lembrança e pendurar as luvas furadas na porta do armário. "Fui desistido” do futebol na metade deste caminho. Mesmo assim, perguntas óbvias reaparecem, como se feitas a alguém em final de carreira:

— Qual é a diferença?

— Como é ficar mais velho?

— Você se prepara para a crise dos 40?

As respostas flutuam entre o não e a ausência de significados. Fugir da idade para quê? Até porque não posso explicar a crise dos 30. Não a tive. A tempestade dos 35 é teoria para as revistas de comportamento. Projetar os próximos anos com gráficos econômicos é ótimo que fique com os economistas. A diferença entre estes marcos (perdoe o trocadilho) é zero, para me aproveitar dos números antes de descartá-los.

Também não vou me agarrar nos clichês de que a cabeça é jovem dentro do corpo em processo de mumificação. A mente se adapta, a identidade se modifica, o sujeito é outro, com resquícios e influências do passado. Aproveito-me desta concepção para manter a lucidez. E por uma questão de prazer, mesmo. Mais vantajoso.

Durante muitos anos, em meu aniversário engoli a besteira de que era data de balanço. Hoje, deixo para as Lojas Americanas, Casas Bahia e outros que podem baixar as portas uma vez por ano, lamber as feridas e sorrir com os lucros. Aprendi que é mais saudável encarar balanço contínuo. O namoro com a psicologia, dentro e fora do consultório, me ensinou a necessidade de discutir a relação comigo em freqüência maior. Poupa surpresas e acelera dividendos.

O dia de balanço implicava em permanecer sozinho. Escrever este texto é uma prova em contrário. Dividir com outros, conhecidos ou não, tem a vantagem de construir novas portas, abertas para interpretações múltiplas. E com o filtro adequado no ato de que escrever é também reescrever a partir da escrita presente na leitura do outro.

O aniversário é uma data das desculpas esfarrapadas e necessárias. Fortalece meus próprios acordos, recria amizades queridas, reaproxima afetos que se distanciaram com a escravidão do tempo galopante. É o dia das boas notícias, das gargalhadas, dos abraços e beijos em quem te quer bem.

É também o dia dos cumprimentos de obrigação, das lembranças oportunistas, dos apertos de mãos de quem te tolera no lugar errado na data errada. Ossos do ofício dos relacionamentos entre seres estranhos que se intitulam humanos.

O aniversário não me força a aderir à felicidade full-time, a ânsia de bem-estar contínuo e artificial. Mas posso me aproveitar para alimentar uma guerra civil com o modelo de prazer contínuo, de desprezo dos sentimentos. O aniversário, como bomba H, é a transgressão calculada, vivida sem a culpa impetrada pelas regras jamais estabelecidas por nós.

Entendo a data como uma recusa às promessas. Não é possível transgredir – de leve, de leve – e montar um rosário de metas. É a culpa em formato de lista estéril. As promessas de segunda-feira, nascidas para morrer no dia seguinte.

Aproveito o dia para me cercar de quem merece meu afeto e que doam o seu mundo sem a obsessão do utilitarismo. Amor e amizade são incompatíveis com objetivos racionalmente calculados. A ida sem a volta.

Em aniversários anteriores, tinha o ritual de ir à praia sozinho. Ou melhor, acompanhado de um livro. Abandonei a tradição. Enxerguei – em um lapso de maturidade – que a tradição é combustível essencial ao ponto de merecer seguidas repetições. Esvaziei e remontei, sem perceber, a origem do ritual, com prazer.

O auto-presente de aniversário saiu de graça. Escrever sobre o assunto me obrigou a pisar no freio, pensar em pessoas queridas, reafirmar o quanto são protagonistas de um enredo em curso. Sem balanços, auditorias, reuniões internas, memorandos e outros badulaques burocráticos.

A crônica é para mim, hoje, a expressão mais singela do que posso sentir e compartilhar, ainda que faltem o brigadeiro, a cerveja, as bolinhas de queijo, as coxinhas e o bolo. Esta quebra de contrato – que o médico não me ouça – é pessoal e intransferível. A multa? Promessa de segunda-feira.

Ilustração: Kitty Yoshioka

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Alice no país dos debates



Desisti de assistir à TV aberta, no domingo à noite. O problema não é mais a trilha sonora do Fantástico, que me deixava melancólico ao indicar a ressurreição da segunda-feira. Os antidepressivos, hoje, se tornaram fundamentais para suportar os debates entre os candidatos à presidência da República, além dos debates entre analistas a respeito do que os candidatos disseram ou fizeram ... no debate.

Ao ligar a TV, a sensação é idêntica a da menina Alice, quando cai no buraco ao pé da árvore. Os debates nos levam a uma fábula infanto-juvenil, com personagens caricatos, enredo fantástico, reviravoltas falsas e desfecho com moral da história.

Nesta aventura, cada candidato veste com adequação a máscara dos personagens que cercam Alice. O gato, por exemplo, é irônico. De idade avançada, parece alheio à disputa de poder entre as rainhas. Experiente, o gato flutua entre o enigmático e o cínico. Sorri com delicadeza, mas sabe transitar entre o duro e o engraçado. É um coadjuvante memorável, mas incapaz de alterar o rumo da trama.



A rainha branca se esconde por trás da pureza. É um ícone da natureza, com quem mantém relações próximas e a defende, se necessário. Fantasia-se como representante do bem, mas possui aliados que poderiam engrossar o exército da rainha vermelha. De fala mansa, a rainha branca esconde sua agressividade e desejo de voltar ao poder.



A rainha vermelha – e sua cabeça grande – veste cores sugestivas. Dispõe-se a sangrar pela continuidade no poder. Tem aliados fortes e a máquina a seu dispor. O passado é nebuloso, mas sabe-se que, no meio do caminho, conseguiu afastar a rainha branca para governar como única representante feminina.

A rainha vermelha abandona a doçura calculada quando se sente ameaçada. Transforma-se em um rolo compressor, mas não suja as mãos. Ela está bem protegida por auxiliares disciplinados e dispostos a rasgar os limites da moralidade política (opa, da narrativa).



Onde entraria o Chapeleiro Maluco? Este personagem seria adaptado para a fábula política. A ternura por Alice é frescura hollywoodiana. O chapeleiro à brasileira dispensou a cabeleira. Ele costuma ser amável, mas – diante da rejeição – torna-se agressivo. Seus olhos são penetrantes e determinados.

No início da fábula, fingiu respeitar a rainha vermelha para ocultar seu desejo de derrubá-la do poder. A história indica, pelos diálogos, que o chapeleiro e a rainha vermelha são mais parecidos do que Alice imaginaria.



O chapeleiro, por ironia, sempre estará próximo ao poder central na trama, sem nunca ocupá-lo de fato. Talvez seja lembrado como um personagem brilhante, porém instável na mesma proporção.

O debate entre os presidenciáveis, que pressupõe conflitos consistentes a partir de divergências de idéias, não existe. Em uma campanha eleitoral, os candidatos deveriam elaborar propostas atingíveis e apresentar programas de governo com explicações sobre a execução dessas ideias. No país das maravilhas, talvez fantasia e ideal fossem irmãos de sangue.

Os candidatos preferem gastar uma quantidade de saliva proporcional ao volume de maquiagem que esconde as máscaras e os transformam em personagens irreais.

O eleitor, nada bobo, percebeu que os debates são conversas estéreis. Não têm impacto sobre a decisão nas urnas, com exceção do último encontro, na Rede Globo, ainda que de forma moderada. A audiência dos debates é idêntica ou inferior do canal exibidor nos domingos anteriores.

O número grande de debates também não serve para esclarecer projeto algum de país (até porque os candidatos parecem ignorar o Brasil real). Pelo contrário, os debates reforçam o desprezo e a indiferença pela classe política.

Já os jornalistas e analistas políticos, bobos de dar dó, suam para discutir o vazio. Interpretam cada detalhe do debate como se as caras, bocas, trejeitos e frases de efeito alterassem o quadro eleitoral. Os iniciados pretensiosos também insistem em refletir sobre os escândalos – na visão da imprensa, claro – que cercam o governo. Não o fazem, via de regra, pelo interesse público, mas pelo interesse dirigido ao resultado da eleição.

Feliz o humorista José Simão, que associou a quebra de sigilo ao ato sexual. Os analistas realmente acreditam que a ex-ministra Erenice Guerra é uma figura tão popular a ponto de reverter a eleição presidencial?

Na fábula, resta a nós o papel de Alice. A vantagem é que podemos readaptar o final. Permaneceremos no mundo da fantasia ou sairemos pelo mesmo buraco que entramos? O final da fábula, em breve, no primeiro domingo de outubro. Na urna mais perto de você.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O menino-monstro - Parte 2

Um professor, amigo de muitos anos, reclamava como a relação dos pais com a escola havia se deteriorado. Ele se referia ao caso de um aluno que fraudara a prova de História e cumprira três dias de suspensão das aulas. Os pais, cientes do erro cometido pelo filho, foram à escola se queixar de que o adolescente tinha sido o único punido.

Os pais pediam que a punição fosse estendida ao professor. Afinal, na visão paterna, o professor era co-réu porque não percebera a fraude. O adolescente, por sua vez, comentava com colegas – no pátio e nas redes sociais – que saíra no lucro. A punição foi leve demais.

Lembrei-me desta história quando soube do desfecho da queda-de-braço entre Neymar e o ex-técnico do Santos, Dorival Júnior. É claro que muitos interesses permanecerão nebulosos e que especulações e acusações cercarão todos os envolvidos. Nestas horas, a verdade é a primeira vítima.

De fato e de direito, o Santos acionou a corrente elétrica e deu vida ao Frankstein. O monstro ganhou vida e plenos poderes dentro do clube. Assim como na história de Mary Shelley, a maior vítima do delírio coletivo não é o médico, e sim o próprio Frankstein, que terá que carregar nas costas a irresponsabilidade do criador e sofrer todos os preconceitos embutidos nas cicatrizes que teimam em torná-lo horroroso perante os olhos da multidão.

Neymar, como escreveu Tostão na Folha de S.Paulo, tem 18 anos, é adulto e, portanto, responsável pelos seus atos. A queda do técnico Dorival Júnior apenas reforçou a postura de jamais negar desejos da jóia da coroa.

O atacante recebeu, neste semestre, um presente de grego: levar no lombo um time que se tornou igual aos demais depois da perda de Ganso, Robinho, Wesley e André. É parte do papel de quem deseja ocupar o centro do palco. O craque não é o egocêntrico, mas o perspicaz que explora a equipe em seu proveito e em prol dela mesma. Esta lição foi assimilada por Ganso, só que não foi apreendida pelo seu maior parceiro.

A questão, no momento, não é discutir se o ex-treinador fechará contrato com o São Paulo. Se isso acontecer, é contingência do mercado do futebol, que não prima pela transparência e pela ética. Por que Dorival ficaria de quarentena monástica? Para provar o quê?

A contratação pelo São Paulo será – é claro - uma cortina de fumaça para desviar os holofotes da diretoria do Santos, que resumiu o episódio à lacônica expressão “crise de autoridade”. Descobriu a crise agora?

Sofrendo da síndrome de marido traído, a diretoria do Santos assinou plenos poderes para o reizinho da Vila, ao mesmo tempo em que colocou um garoto de 18 anos à beira da fogueira da Inquisição.

O jogo contra o Corinthians se tornou um divisor de águas para a carreira do atleta. Se arrebentar, será endeusado e a tese da “crise de autoridade” se transformará em fato científico enterrado com discrição. Se Neymar for mal no clássico ou aceitar as provocações dos adversários, ficará sozinho, isolado com a culpa e pronto para o apedrejamento público.

Nesta bifurcação, a diretoria do Santos pensou em tudo, menos em proteger o jogador. Não pensou também na instituição. Agiu apenas por auto-preservação, com olhos para os dividendos financeiros da carreira do atacante. Benefícios de curto prazo, até porque o príncipe alçado à rei não tem tantos seguidores assim, como nos tempos de glória, no distante e recente primeiro semestre.

Neymar, que segue aluno mimado, foi bajulado pela escola e por seus pais (o clube e os verdadeiros). Sobrou para o professor, demitido por exigir a obrigação de um profissional.

O dono da razão ainda é desconhecido. O futuro da escola e do aluno depende dele mesmo, com um ano de carreira e somente um jogo pela seleção. Apostar se ele chegará ou não ao final do curso é exercício rasteiro de futurologia.

domingo, 19 de setembro de 2010

A praça é nossa!



O músico Fabiano Martins, de 28 anos, quer apenas tocar na Praça da Sé. Para que isso aconteça, precisa derrotar a Prefeitura de São Paulo em última instância: o Superior Tribunal Federal.

A história dele foi contada pelo jornalista Diego Zanchetta, no jornal O Estado de S.Paulo. Fabiano é mineiro, filho de Marciano (dupla de João Mineiro) e se mudou de Belo Horizonte para a capital paulista em busca de maior visibilidade no cenário musical. Percebeu, de cara, que ganharia mais tocando na praça do que em barzinhos.

Em dias bons, como diz o músico, o faturamento varia de R$ 600 a R$ 700. Já vendeu 32 mil CDs. Tem até fã-clube em rede social e começou a fazer shows em outras cidades.

A briga judicial nasceu a partir do momento que a Prefeitura exigiu licença prévia para que o músico pudesse se apresentar em praça pública. Com este argumento, a administração municipal perdeu em todas as etapas judiciais.

Como contra-ataque, a Prefeitura alegou que o músico desrespeitou a lei do silêncio. Apreendeu os equipamentos dele quatro vezes desde que transformou a praça em palco, há dois anos. A última apreensão aconteceu no final de agosto.

A Sé é um dos maiores exemplos de sobrevivência de uma praça como local público. Ali, convivem repentistas, pregadores, vendedores, biscateiros, entre outros sujeitos que buscam te convencer de uma ideia, te envolver em alguma causa, seja artística, política, picareta ou a união de todas elas. A Sé mantém, a princípio, o objetivo essencial de uma praça: um espaço de todos e para todos.

“Dona da praça”, a Prefeitura de São Paulo se esquivou mais uma vez do papel de mediadora e abraçou um dos lados. A administração vestiu a camisa de parte dos comerciantes da área, que – por trabalharem no local – passam a impressão de serem proprietários do espaço além de suas lojas.

Parece a história do empresário paulistano que, três anos atrás, depois de receber autorização para cuidar de uma praça no Jardim Europa, em São Paulo, se omitiu diante da destruição da escultura em homenagem ao falecido jornalista Claudio Abramo. Pior: colocou no lugar outra escultura, feita por sua esposa. Só voltou atrás depois da ressonância negativa do caso.

É verdade que a praça, em linhas gerais, perdeu sua natureza há tempos. A Sé resiste de maneira desorganizada, na qual o caos dos passantes assegura a efervescência pública daquele lugar. Qualquer um pode subir em um caixote e dizer o que quiser e estar sujeito a uma platéia animada, curiosa ou simplesmente ao vento que quebra a ressonância do vazio do discurso.

A praça perdeu seu foco de manifestações políticas, de protesto de uma coletividade contra desmandos ou equívocos do poder. Em Santos, a Praça da Independência, no Gonzaga, sempre representou palco de protestos. Até os caras-pintadas anti-Collor se reuniram ali.

Hoje, a Praça da Independência está infestada de cavaletes de políticos e se limita a agregar torcedores que comemoram campeonatos de futebol ou pequenos grupos de tribos urbanas. Outras praças da cidade ainda abrigam apresentações artísticas, como a Virada Cultural.

As praças, atualmente, viraram locais de passagem, pontos onde a pressa das passadas indica a cegueira diante do que deveria simbolizar o espaço público. Esta concepção remete a 2400 anos, na Grécia Antiga, onde a ágora (a praça) tinha a finalidade de discussões públicas e decisões em conjunto. Sócrates usava a praça como cenário para aguçar seus interlocutores.

A praça como ponto de encontro, de conflito de ideias acompanhou o homem em boa parte de sua história. É um dos elementos da cultura ocidental e um das veias simbólicas das relações políticas. Até ditadores utilizaram praças para se vestir de cordeiros da democracia ou do pacifismo.

Diante do esvaziamento ideológico e da política como mercadoria de supermercado, apenas um modelo de praça consegue hoje lotar com freqüência. Aliás, enche todos os finais de semana.

Neste modelo de praça atual, política não está na ordem do dia. Não existem placas, cartazes ou faixas, além das promessas de felicidade das empresas. Somente cardápios, barulhos de talheres e debates sobre o filme recém-consumido.

A Prefeitura de São Paulo tenta fazer o que, há anos, os shoppings centers conseguiram: estabelecer a propriedade do espaço público. A diferença é que, no shopping, o espaço tem nome e sobrenome: praça de alimentação.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O menino-monstro



Levando em consideração o estaleiro forçado de Ganso, Neymar é o melhor jogador em atividade no futebol brasileiro. E o pior deles. O atleta do Santos consegue incorporar e simbolizar os dois extremos do esporte que opera com tal voracidade que deixaria corado de vergonha muitos corretores de bolsa de valores.

Neymar é um exagerado. Exagera na qualidade dos dribles, nas provocações aos adversários. Coleciona golaços. Enumera erros crassos. O pênalti-cavadinha, que levou o goleiro Lee, do Vitória, aos holofotes, foi um dos motivos que geraram a última confusão em torno do jogador do Santos. Na verdade, são cinco razões, cinco cobranças desperdiçadas ao longo da temporada. Natural que um treinador mude de cobrador oficial, desde que o fato seja comunicado com antecedência.

Os exageros também contaminam os que cercam o atacante. A imprensa que o considera polêmico, o chama de projeto de craque e alerta para possíveis fracassos foi a mesma que o comparou a Robinho e delirou quando o associou a Pelé. Os atiradores de pedras são, em parte, as mesmas pessoas que especulavam sobre o destino do Brasil na Copa do Mundo se Ganso e Neymar tivessem sido convocados pelo então técnico Dunga.

O clube o transformou em ícone de uma nova tendência que não existe. Não há reação do mercado brasileiro ao pacto colonial do futebol. O Brasil segue a colônia fornecedora de matéria-prima, assim como seus vizinhos de América Latina. Repatriar atletas representa a sobrevida de muito jogador com a carreira em coma, na Unidade de Terapia Intensiva.

Recusar uma proposta milionária do Chelsea tornou Neymar um caso específico. O plano de carreira ainda é uma concepção teórica, que talvez resista à próxima investida européia. Depende de quem gerencia o presente e o futuro dele. Neymar, especial como jogador, também é singular como mercadoria.

Neymar foi exposto em demasia. Com menos de um ano no time profissional, transformou-se em bonequinho, animador de festas, celebridade. Vida pessoal reduzida a zero. Pressões contratuais. Inúmeros filmes publicitários. O dinheiro tentador cobra seu preço. Ninguém vende a alma sem ter que se preparar para a contrapartida do acordo.

O garoto tem vida de atleta profissional desde os 13 anos. Alguém se preocupou em prepará-lo para as conseqüências de ser protagonista no esporte que protagoniza as atenções no Brasil? Quem efetivamente pensou em planejar a carreira dele e conter a exposição esquizofrênica de um menino de 18 anos, cujos rendimentos crescem em progressão geométrica?

Agora, depois de seis, sete episódios que minaram a imagem de Neymar, resolveram contratar um psicólogo para tratá-lo (ou ouvi-lo)? Por que não se tomou decisão alguma no primeiro escorregão? Ele é o único responsável pelo problema, passível de multa salarial? O psicólogo será a reencarnação híbrida de Freud e Jesus Cristo, capaz de operar milagres no comportamento do garoto?

Neymar é o retrato em preto e branco do jogador de futebol brasileiro de ponta. A postura arrogante, a indiferença pela hierarquia e pela orientação dos mais experientes, o individualismo, as referências a si mesmo em terceira pessoa, as relações conflituosas com os demais atletas e a atração doentia pela mídia não são características exclusivas do atacante do Santos.

O jogador atual é paparicado, vive cercado de um exército de puxa-sacos que pouco pensam e agem de maneira profissional. O atleta é explorado como um cifrão de meias e chuteiras, pronto para ser descartado quando nascer o próximo investimento.

A história do futebol é recheada de jogadores que poderiam ter sido craques ou gênios. Muitos craques poderiam ter construído uma história mais consistente. Hoje, fazem o mea-culpa, mais velhos, ao olhar para trás em frente às câmeras. De Neto a Edmundo. De Marcelinho Carioca a Adriano.

Neymar não é o gênio que muitos desenham, a partir de interesses múltiplos. Neymar também não pode vestir a roupa do bufão, como desejam os carrascos armados de martelo e prego.

O jogador, de 18 anos, se comporta de maneira coerente com que se espera dele. Com a responsabilidade depositada nele. Com o discurso eufórico e perverso injetado nele. É surpresa testemunhar o atacante que vomita o alimento recebido por anos?

O Santos se omite de suas reais responsabilidades. Pune o atleta, mas não o acompanha nos pormenores. O time passou por mudanças profundas na virada do semestre. Perdeu três atletas acima da média. O melhor da equipe só retorna no próximo ano. Neymar ganhou tarefas e um peso muito maior para carregar. E não é exclusividade dele somente o sucesso e o fracasso do clube.

É preciso sabedoria para retirá-lo da linha de frente, sem incinerar a imagem do menino. É a hora em que o clube – por meio de atletas mais rodados, técnico e dirigentes – terá que tratá-lo como filho, e não como criança mimada, livre de limites, desacostumada a ouvir “não”. A reação diante do técnico Dorival Júnior, no jogo contra o Atlético-GO, foi típica do adolescente que faz o que bem entende.

O técnico Renê Simões, da equipe adversária, foi lúcido ao dizer:

— Estamos criando um monstro.

O Santos recebeu a segunda oportunidade. Uma nova geração de atletas capaz de atrair torcedores, conquistar campeonatos e atingir a seleção brasileira.

Ao clube, restou a encruzilhada do diabo. Transformará Neymar em monstro consagrado? Ou repetirá os erros monstruosos cometidos com Robinho, que culpa as equipes onde fracassa e promete – a cada temporada – se tornar o melhor jogador do mundo?

sábado, 11 de setembro de 2010

"Minha candidatura é subversiva"

Plinio de Arruda Sampaio é do contra. Discorda sempre, sem jamais apelar para a agressividade. Argumenta com polidez, profundidade, bom humor e dados estatísticos.

Em visita recente a Santos, o candidato do PSOL, de 80 anos e 60 de vida pública, manteve a postura de campanha: críticas ao governo Lula, propostas vinculadas ao que define como socialismo democrático e frases de efeito contra adversários e instituições para conquistar a atenção da plateia.

É um discurso que agrada muitos universitários, por exemplo. Ele foi aplaudido quando entrou em um dos auditórios da Universidade Católica de Santos, última etapa da visita à cidade. Estava com os braços erguidos, de punhos cerrados, como se comemorasse um gol. Cerca de 200 pessoas, entre militantes, estudantes e professores, o esperavam para a palestra “A verdade sobre o Brasil”. Uma parte do público ficou de fora do auditório e teve que acompanhá-lo em outra sala, por um telão.

Antes e depois da palestra, o candidato cumpriu os rituais da corrida eleitoral. Tirou fotos, deu entrevistas, distribuiu abraços e beijos em potenciais eleitores de todas as idades. E também falou de política e economia, foco tradicional de seus discursos.

Plinio de Arruda Sampaio, que foi um dos principais intelectuais do PT, hoje se veste como um de seus maiores críticos. “Nunca vi o Brasil com tanta dificuldade. Nosso país está para trás. 30 milhões de pessoas entraram na classe média? Mentira! O filho estuda em escola sucateada. O Bolsa-família engana a fome. Como alimentar uma família com esta quantia (R$ 90)? ”

Ex-promotor público e deputado federal por três mandatos, Plinio afirmou que sua candidatura tem como objetivo se contrapor ao modelo atual. “Eu assusto. Por isso, sou considerado ultra-radical. É a candidatura da subversão, do contraponto, da divergência. Quem não quer mudança, não vote em mim.”

O discurso de Plinio de Arruda Sampaio funciona como uma metralhadora giratória. Nenhuma instituição é poupada. Mídia, Governo, universidades.

O candidato do PSOL alega, por exemplo, que é censurado pelos meios de comunicação. “A mídia não dá folga. Tenta esconder minha candidatura. Sou contra a censura porque sou censurado. Se não tivéssemos três deputados federais e um senador, minha candidatura seria tão oculta quanto a pobreza.”

Eco-capitalista - As críticas sempre esbarram no modelo econômico. O capitalismo, obviamente, é o alvo principal. Para ele, a crise não é do capital, mas do trabalho. “Melhorou o emprego, mas com carteira assinada para vagas vagabundas. O capitalismo é a barbárie. Ele tem que excluir e gerar violência. Mudou o vento, cai como um castelo de cartas.”

Os adversários também são ironizados. Plinio de Arruda Sampaio define a candidata do PV, Marina Silva, como eco-capitalista. “O eco-capitalista nunca dá a dose certa. Parece minha mulher quando toma remédio. Se não der a dose certa, o remédio não serve para nada.” O presidente Lula, para ele, é o “sheik do petróleo, mas presta serviço de graça para o Obama.”

Como principal representante da esquerda na disputa pela presidência, Plinio de Arruda Sampaio se apóia em jargões para reafirmar a retórica socialista. Usou, por exemplo, a palavra “companheiro” cinco vezes. Elogiou Cuba e Venezuela. “Cuba é uma ditadura, mas um homem cubano – sem preconceitos – tem mais direitos do que o pobre brasileiro.”

Plinio de Arruda Sampaio não se irrita com críticas, provocações ou ironias sobre sua candidatura. Repete, sempre que vê brecha, o discurso de que estará no segundo turno, ainda que as pesquisas apontem o nome dele com 1% das intenções de voto.

A 20 dias da eleição, ele descartou qualquer forma de apoio a Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e não falou em abrir o voto da militância. “Segundo turno é outra eleição. Eu não vou dar palpite sobre o que vai acontecer adiante. Até porque estarei lá.”

Pré-sal - Como qualquer candidato, o representante do PSOL procurou abordar temas que estivessem relacionados com a região em que visitou. Mas sem se aprofundar ou fazer promessas específicas. Em Santos, falou cerca de 10 minutos sobre o pré-sal.

Para Plínio, é fundamental estudar o tema a fundo, avaliando perigos ambientais, custos e limitações tecnológicas. Depois disso, se eleito, faria um plebiscito sobre o tema. “A Venezuela explora petróleo há 70 anos e está com a economia arrasada.”

O representante do PSOL se apóia, com freqüência, em outro mecanismo de aproximação: ser auto-referente, brincar consigo mesmo. Diante da plateia composta na maioria por jovens entre 20 e 25 anos, o candidato ironizou várias vezes a diferença de idade. Perguntou, por exemplo, quem utilizava o Twitter (rede social na Internet).

Com a resposta negativa da maioria, ele disse:

— Antigamente, tínhamos que berrar no palanque e trazer Chitãozinho e Xororó para cantar. A TV acabou com os comícios. Esta é a última eleição da TV. Na Internet, o candidato fala direto com o eleitor. Só o Tiririca vai me derrotar!

Plinio utiliza o Twitter como ferramenta de campanha. Tem quase 30 mil seguidores nesta rede social.

O candidato do PSOL se definiu como um homem de partido ao explicar o recuo na proposta de fechar o Senado Federal. “Levei uma reprimenda do partido. Guardei minha opinião. Mas sou contra o Senado porque o Brasil não é uma república federativa.”

Depois de uma hora e meia, Plinio saiu cercado de militantes do PSOL e estudantes. Sorridente, ele lamentou não ficar mais tempo. Precisava voltar a São Paulo para descansar e se preparar para as sabatinas da imprensa e debates. “Debate é sempre uma luta de boxe.”

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O lugar escuro

O livro “O lugar escuro”, de Heloisa Seixas, é um daqueles casos de namoro mal resolvido. Tenho o livro há mais de dois anos, tentei lê-lo uma ou duas vezes, mas sempre o abandonei no meio do caminho por excesso de trabalho. Na semana passada, resolvi usá-lo como exemplo em sala de aula. Reiniciei a leitura e, três dias depois, me arrependi: por que não o li antes?

A obra é um tratado de amor entre pais e filhos. Escrito em primeira pessoa, o livro expõe as vísceras de Heloisa Seixas a partir do relacionamento com mãe, portadora do Mal de Alzheimer. O texto é de uma honestidade assustadora. Nenhum dos envolvidos é poupado. Nenhum ganha destaque nos álbuns de família. Não há espaço ou tempo para sorrisos ou para lamentações. Somente sentimentos que sangram a cada instante particular da doença.

Heloisa Seixas fala da condição da mãe a partir do termo “loucura”. A senhora que se arrumou para o café da manhã como se estivesse em casa. A mulher que perdeu as palavras e as costas largas, marcas de quem sempre se orgulhou de absorver o sofrimento sem ser vítima.

Uma filha, quando tem a coragem de ver a mãe publicamente como louca, não poderia ser mais incorreta. Nem tão justa. O Mal de Alzheimer e outros tipos de demência são vistos desta maneira na sociedade contemporânea. Ser louco ameniza a carga de responsabilidade, mas recebe o peso do estigma do incurável, do insolúvel, do problema ambulante.

Os loucos seriam, neste sentido, como as crianças, os únicos capazes de nos dizer a verdade, sem barreiras, sem preconceitos, sem pudores. Os loucos seriam também os únicos com a habilidade de engolir e digerir a própria insanidade, ainda que por instantes fugazes. Os loucos seriam ainda o grupo que distribui amor com inocência e magoa com pureza, que vê beleza na escuridão invasiva. Os loucos permaneceriam em estado de felicidade ou de dor absoluta, em um campo de percepção que os demais não conseguem observar.



Tão duro quanto o estado de insanidade é o cotidiano de quem acompanha o paciente que – de maneira involuntária - não se encaixa mais, por questões psiquiátricas, neurológicas ou combinadas. Como manter o controle mental ao lado de quem o perdeu em caráter irreversível? Como lidar com o preconceito, com os olhares reprovadores ou ignorantes dos outros? Adaptar-se a um novo mundo de constrangimentos ou manter o indivíduo isolado numa ilha deserta, mesmo que seja o apartamento de sempre?

Heloisa Seixas não veste a capa tampouco empunha a espada dos heróis. Divide seus medos, incompetências, ansiedades e rancores. Diz, com a naturalidade dos confessores, que não suportava ver a mãe – em estado avançado da doença – trocar as fraldas ou tomar banho, como também não conseguia passear com ela em cadeira de rodas.

A ironia deste relacionamento, transformado pela ausência mental gradativa, é que a autora nunca exerceu o papel de preferida. Nunca havia sido a queridinha da mamãe. Pelo contrário: estampava nos traços do rosto e nas atitudes os comportamentos do pai, que havia abandonado a esposa por outra mulher décadas atrás. Heloisa seria sempre a segunda da lista, sob quaisquer perspectivas ou critérios.

O livro caminha por todas as etapas de evolução da doença. Desde o momento em que os familiares perceberam, de vez, as alterações de comportamento dela até os apagões cerebrais. Heloisa, em seu primeiro livro de não-ficção, indica também como as sucessivas transições da mãe alteraram as relações afetivas com o irmão, o marido – o escritor Ruy Castro – e a filha.

Nem de longe, “O lugar escuro” é uma obra de psicologia e psiquiatria. Não há glossário de sintomas ou uso de termos médicos e científicos. É um livro em que a humanidade de alguém se manifesta pela dureza de estar sã diante da insanidade. Insanidade que cresce diante dos olhos e escancara a paralisia da testemunha e a impossibilidade de cura do paciente.



A autora nos conduz a um universo de impotência, de palavras não ditas, de assuntos mal equacionados, ainda mais quando o interlocutor a abandona gradualmente, presente apenas pelo corpo em ruínas.

“O lugar escuro” talvez seja a melhor forma que Heloisa Seixas encontrou para acertar as contas com a mãe, a única leitora impossível.

domingo, 5 de setembro de 2010

A última conta

O encontro semanal era religioso. As três podiam faltar à missa ou se esquecer do culto, mas o final da tarde de segunda era sagrado. Paula, Andréia e Jussara se encontravam no mesmo cafezinho do centro de comercial, meio do caminho para todas.

Entre uma bebida quente com adoçante, um salgado integral e uma sobremesa diet, as três atualizavam o papo, faziam confissões e acabavam sempre na mesma pauta: maridos, namorados, cachos, transas eventuais, nomes que variavam conforme o status atual do colaborador. Como trabalhavam no mundo corporativo, adoravam incorporar os termos na vida pessoal. Achavam que, assim, garantiriam os empregos e seriam pró-ativas.

Depois dos beijos e das perguntas mecânicas sobre família, trabalho e tal, sentaram-se, fizeram os pedidos e Jussara, sem cerimônia, despejou nas amigas:

— Terminei com o Paulão!

— Mas você não estava apaixonada? Disse que queria ter filhos com o cara, só enchia o saco com as histórias dele, - reagiu Paula.

— Enchia o saco? Estava apaixonada sim. Mas certos deslizes – vamos dizer assim – são imperdoáveis. Dói, mas não posso continuar com alguém que faz uma coisa dessas.

— Já sei. O filho da puta não agüentou dois meses sem te chifrar. Não acredito! Fez o que tinha que fazer. Amiga minha não assina atestado de corno.

Jussara olhou para Andréia como se não compreendesse a reação agressiva. De onde ela tirou essa ideia?, pensou. Paulão era perfeito. Ou quase.

— Não foi chifre. Neste ponto, ele era um santo. Marcava em cima, e ele nunca escorregou.

— Então, o cara é broxa. Ou pior: tem namorado. Gay só amigo, minha filha. Não dá para sonhar em mudar o fulaninho, não.

— Você piraram? Ele é ótimo de cama. Nunca tinha experimentado igual. E me pegava como macho.

— Você dizia a mesma coisa do seu ex-marido.

Jussara ignorou a provocação gratuita de Paula e resolveu entrar no joguinho delas. Quando precisava se valorizar, brincava – inconscientemente - de esconde-esconde.

— Quando se ama um homem, ele é sempre o melhor. Ainda que o brinquedo não funcione de vez em quando. Mas amor não é só sexo. É atitude, é a forma de tratar uma mulher.

As duas olharam arregaladas. Andréia, imediatamente, pegou nos braços de Jussara e procurou por marcas, manchas roxas, arranhões, o que pudesse provar a brutalidade daquele animal.

— O cara te bateu! Filho da puta! Você não foi à polícia? Eu vou contigo. Ele tem que preso pelo que fez. Homem que bate em mulher merece virar mulherzinha na cadeia.

Jussara não entendia porque as amigas estavam tão amargas. Crucificavam o Paulão. Os dois tinham passado mais um final de semana maravilhoso. Ele a levara para jantar comida japonesa, transaram quase a madrugada toda, mais cineminha no domingo e a madrugada de domingo para segunda no motel. Aí, o namoro levou o golpe de morte.

— Não é nada disso, Nunca teve violência, chifre ou broxada. Ele também não é gay. A única violência foram aquelas pegadas normais que todo homem deve ter. O problema é outro. Sexo e dinheiro.

— Garotas de programa? Sabia que o cara desviava. Saia com elas ou te propôs alguma coisa mais indecente? Nunca imaginei que você tivesse vocação para santinha e ficasse horrorizada com um convite assim.

Jussara levantou a voz, louca para contar o motivo da separação e aborrecida por tantas bolas fora das amigas. Contou até cinco, respirou fundo e disse pausadamente:

— Acabei com Paulão porque ele me propôs dividir a conta do motel.

— Como assim? Explica para a idiota aqui.

Paula traduzia em palavras as feições de Andréia, que passava a mão no rosto e nos cabelos. Então, Paula resolveu dar sermão. Nestas horas, falava como homem.

— Que palhaçada é essa? Terminou porque o cara não quis pagar o motel sozinho. Você não é mulher independente, não quer direitos e deveres iguais, não dizia que vocês dividiam tudo, até as despesas? Como é que larga um homem desses por causa do motel? Quer dizer, da conta do motel?

— Olha, topo dividir conta, cheguei a emprestar dinheiro para ele uma vez. Ele me pagou direitinho. Discutíamos tudo, mas motel não dá. Lá, não pago conta nenhuma.

— Mas por que, criatura de Deus?

— O motel é um momento de intimidade, de cumplicidade. E de liberdade, também. Onde se faz certas coisas que ficam por lá. Não é apenas sexo. O relacionamento começa quando se entra no motel e termina quando se sai dele. Quando a portinha da garagem se fecha. Se o homem é o ativo, tem que estar no comando até o final. Não tem essa história de troca. Dividir conta é troca. E, nessas horas, não gosto de homem sensível não.

— Sensível?

— É ... tem que cumprir o que promete. A ideia do motel foi dele.

— E se fosse sua?

— Não muda nada. Motel é território neutro. Mas alguém tem que assumir o controle da situação. Ele começou, que terminasse.

— Não adianta dizer o contrário. Está feito. Mas, me diga uma coisa, quanto deu a conta?, perguntou Paula.

— Quarto mais jantar, em torno de R$ 150.

— Então a sensibilidade do Paulão custou R$ 75, calculou Andréia.

— Paciência com homem assim não se divide não. E eu disse, duas vezes, para a gente dormir na minha casa.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os protestos silenciosos

Com as restrições à propaganda eleitoral em postes e muros, os candidatos resolveram abusar dos cavaletes. O tamanho e a quantidade da sujeira pela cidade variam conforme o cacife do político. Até os que juram amor pelo meio ambiente espalharam seus rostos sorridentes em suportes de madeira.

Pela legislação eleitoral, os cavaletes devem ser instalados e retirados todos os dias, até 22 horas. Muitos tubarões mantém a coerência e desrespeitam a lei. Mas seguem expostos e sujeitos a protestos, o que apimenta a campanha eleitoral e torna os cavaletes instrumentos de humor ou de raiva.

Segundo notas deste jornal, os deputados estaduais Bruno Covas e Paulo Alexandre Barbosa, ambos do PSDB e candidatos à reeleição, tiveram cavaletes marcados por uma mensagem: “Vá assinar a CPI do Judiciário”. O rosto de Covas foi marcado na Praça Palmares. O de Paulo Alexandre, carimbado na Avenida Afonso Pena.

Na orla da praia, entre os canais 1 e 2, outra manifestação: um candidato à deputado federal, também ex-prefeito, teve a testa marcada com a palavra “diabo”.

Os protestos são tímidos diante das campanhas volumosas. Os candidatos passam ilesos nas ruas, ainda que sejam observados com olhares de reprovação quando apertam mãos de velhinhos, beijam criancinhas ou experimentam pratos que fingem adorar com o sorriso amarelo.

Escrever mensagens nos cavaletes é uma ação democrática. Políticos são figuras públicas, sujeitas às manifestações de rejeição. Por mais que reclamem, seus cavaletes representam manchas na paisagem, em locais públicos, que emporcalham sem pedir licença. A pichação seria, a rigor, a sujeira sobreposta à outra.

Seus cavaletes simbolizam o desejo e o potencial de poder. Mas possibilitam outras leituras simbólicas dos eleitores. Leituras que os candidatos não podem controlar. Reações de quem acompanha a política com profundidade a quem apenas lê o processo de forma genérica. Ambos têm o mesmo valor na corrida eleitoral. E se sentem lesados por quem possui ou sonha em ter um mandato.

Os políticos, via de regra, apostam no olhar maniqueísta das relações com o eleitorado. Pintam-se como messias e desenham os adversários como demônios. E, como milagreiros da causa própria, se veem como alheios às cobranças e necessidades de resposta. Quando cobrados, desprezam a queixa. Apenas ocupam espaços sem entender as conseqüências como sinônimo de riscos.

Os protestos expõem as contradições deste relacionamento. Mover-se contra alguém que se julga acima do bem e do mal exige certa coragem. Abrir mão da inércia confortável das vítimas.

Na maioria das vezes, ficamos somente nos discursos com nossos conhecidos. Criticar políticos é exercício supremo da redundância. Exime-nos da co-responsabilidade. Cobrá-los significa – infelizmente - uma prática anormal.

O sujeito que picha os cavaletes age heroicamente. Quase um Robin Hood quixotesco do mundo urbano de hoje. Quebra um limite entre os mortais e os impunes.

Historicamente, a casta política se isolou em casas de poder, castelos com muralhas intransponíveis para os vassalos. O isolamento transmite a sensação de que xingá-los não mudará o quadro de forças, mas servirá como um desabafo, embora solitário.

Os cavaletes cheiram, para muitos eleitores, uma afronta que se manifesta a cada dois anos. A cara-de-pau de quem aposta no esquecimento ou na ignorância do presente e do futuro. As imagens retocadas, as frases-clichês de efeito e os sorrisos amistosos irritam qualquer eleitor, independentemente do nível de informação.

Os eleitores utilizam as armas que lhes caem nas mãos. As imagens sustentadas por cavaletes são as réplicas perfeitas daqueles que os traíram ou pecaram por omissão. Escrever o que pensam tornam os eleitores vivos, de certa forma, neste enredo ficcional.

É um protesto legítimo, que explica aos candidatos que a campanha não tem que seguir sem tropeços. Esclarece, a seu tempo, que é necessário fazer mais do que marcar território em espaço público, sem presença física, sem propostas consistentes, sem histórico de serviços prestados para a coletividade.

Os cavaletes não mancham somente a paisagem. As mensagens de protesto não mancham somente os rostos sorridentes dos candidatos. Marcam um relacionamento doente, com sintomas quase incuráveis. Cobrar um candidato é raro momento de lucidez. E protestar é uma obrigação em quaisquer cenários. Um ato que poderia se estender além dos votos anulados ou das pichações durante a campanha eleitoral.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Maloqueiros, uni-vos!



O futebol me levou ao jornalismo. O jornalismo me afastou do futebol. Durante 15 anos, não tive vontade de escrever sobre clubes, partidas e jogadores. Bastavam os cronistas. Aceitava os vícios da cobertura. De dois anos para cá, reencontrei o prazer de palpitar sobre o futebol e, principalmente, sobre os detalhes da festa. Mas não havia notado um fato tão óbvio quanto surpreendente, como um passe de calcanhar de Sócrates: jamais escrevi sobre o Corinthians, meu time de coração.

Construí alguma barreira que me impedia de observar com palavras os fatos que cercam o clube. Há meses, ensaio – por exemplo – um texto sobre Ronaldo, o Fenômeno. Mudam apenas os ângulos, mas as ideias caem no vazio entre os neurônios e a memória. Seguem aprisionadas cumprindo pena por um crime desconhecido.

Resolvi romper o muro a fórceps e escrever sobre o Corinthians, na data mais apropriada. Esqueça, leitor, dados sobre a história, relatos estatísticos sobre fracassos e conquistas, ataques aos adversários, episódios folclóricos, lamentações sobre o passado recente. Também não é hora de baixar as portas e fazer balanço geral.

Ao contrário da paranóia humana de rejuvenescimento, um clube de 100 anos deve se sentir inflado, orgulhoso. Mais do que cicatriz de sobrevivência, 100 anos é vitalidade. Este orgulho significa ir para a rua, aceitar as piadinhas dos rivais, vestir a camisa com mais pompa do que em dia de título, sorrir diante da maldição do centenário que paira sobre os clubes brasileiros. E torcer para que, daqui a dois anos, os santistas façam o mesmo. E daqui a quatro anos, os palmeirenses repitam o ritual. Não existimos sem eles e vice-versa.

Decidi, em caráter definitivo, escrever sobre o Corinthians depois de assistir à entrevista de dois ídolos. O primeiro foi Sócrates, uma das mentes mais sensatas do futebol atual. Sócrates foi taxativo e absoluto: a torcida do Corinthians é a cara do Brasil. Nenhum outro clube tem uma torcida que reflita de maneira tão verdadeira o jeito do brasileiro. Entender o Corinthians é compreender nossa natureza. O restante é falsidade.

Minutos depois, mudei de canal e vi Neto caminhando ao lado do repórter Fernando Fernandes, da Band, entre painéis de grandes mitos do Corinthians. Neto disse que chorou duas vezes por causa do futebol. A última foi a mais difícil: o dia em que equipe caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Ele estava a trabalho, pela emissora, como comentarista. Quase chorou no ar.

Neto disse que não suportou ouvir outros funcionários da empresa vibrando com o rebaixamento. Para não brigar, pegou o carro e foi para casa. Mal se lembrava do trajeto. Ao estacionar o carro na garagem, desabou em choro, como criança.

Como todo moleque, decidi meu time de futebol em uma fase de glórias do clube que resolvi adotar. Nenhuma criança torce, ama um clube nascido para perder. Tinha oito anos. Era 1982. Virei corintiano por causa de Sócrates e cia. Com aquela idade, claro, não tinha menor ideia do que significava a Democracia Corintiana, o mais importante movimento político dentro do esporte brasileiro.

Assistia maravilhado aos passes de calcanhar do Doutor. Tentava imitar nas peladas da escola, antes de decidir ser goleiro. Era o truque do momento, depois incorporado ao repertório popular de qualquer campinho de bairro.

Ser corintiano é estar preparado para a dificuldade. Uma adversidade dupla. A maioria dos torcedores são sujeitos destinados ao sacrifício, que abrem mão de necessidades elementares para acompanhar o time. Comem mal, dormem mal, enfrentam ônibus lotados, descasos de cartolas e políticos para 90 minutos de êxtase religioso.

Cientista algum seria capaz de explicar como, ainda com obstáculos semelhantes, outros torcedores jamais serão capazes de reproduzir a maneira corintiana de sofrer. E de ter prazer.

O corintiano está acostumado à dor. Couro duro mesmo! É quase um masoquista. Cultiva certo sadismo consigo mesmo. É capaz de abdicar de um craque sofisticado, de um bailarino, e adotar com amor de mãe um brucutu que sangra em campo enquanto sorri com grama entre os dentes. As partidas fáceis parecem menores. As goleadas alegram, mas não conduzem à felicidade.

O corintiano quer ganhar de pouco. Se possível, de 1 a 0, com gol de bico aos 47 minutos do segundo tempo. Os jogos memoráveis, em qualquer boteco, são aqueles em que choro e gargalhadas nasceram irmãos siameses.

O título de 1977, por exemplo. O gol de Basílio não foi plástico, resultado de jogada de gênio. Feio, na aparência. Lindo, de coração. Foi um gol de aço, um parto em que a mãe beirou o desmaio. Confuso, angustiado e sem esperança, sentimentos trocados no segundo seguinte ao chute que matou a defesa da Ponte Preta.

As derrotas também doem mais. Marcam como ferro em brasa, mas deixam a casca mais grossa. Perder sem se ajoelhar. Lutar ainda que consciente da derrota inevitável. Goleada não gera revolta ou lágrimas. Falta de empenho é demissão de jogador na certa.

O torcedor corintiano idolatra seu semelhante. Ama Biro-Biro, que carregava piano para Sócrates, Zenon e Casagrande. Como muitos que todos os dias carregam caixas e outros instrumentos menos nobres.

O corintiano vê como espelho o jogador que veio de cenários parecidos. O centroavante, de apelido Viola por causa da chuteira vagabunda usada no terrão, que decidiu um Campeonato Paulista quase se arrastando para alcançar a bola e executar o Guarani, em Campinas.

O corintiano não nasceu para a nobreza. É o único que se chama de louco, em um lapso de lucidez. É o único que estampa no peito que não vai abandonar sua crença na pior etapa da história. Fé não se larga à beira do campo. Cresce na adversidade. Multiplica-se na crise. Aumenta a cada chibatada no lombo em campos de segunda.

Corinthians, parabéns! Torcedor maloqueiro, celebre a entidade e permaneça justo com aqueles que – com sabedoria – escolheu para amar. Tolerando defeitos, apaixonando-se todos os dias pelas qualidades. Você mantém o casamento perfeito, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Com a diferença de que o objeto de seu amor não morrerá jamais.