domingo, 30 de maio de 2010

Marina Silva e os velhos vícios do partido

O cancelamento da visita da pré-candidata do PV, Marina Silva, à Baixada Santista não nos permitirá conhecer – por enquanto – como a proposta dela de “desenvolvimento sustentável” se encaixará no litoral de São Paulo. Vivemos na região uma fase de paranóia pelo progresso. Os políticos jogam suas fichas em um futuro ainda incerto dos royalties do pré-sal. Iludem a população com a fábula da galinha dos ovos de petróleo, não mais de ouro. Os exemplos pelo Brasil não ligam lucro petrolífero à justiça social e políticas públicas consistentes.

A presença de Marina é fundamental para colocar, mesmo que de maneira efêmera, o meio ambiente na agenda pública da Baixada. Os mesmos políticos amigos do óleo negro são adoradores dos espigões de tijolos e vigas de ferro. A construção civil tem ligação direta com o sonho do petróleo, mas ninguém fala (por conveniência, e não ignorância) no impacto ambiental deste crescimento desordenado.



Como Marina Silva vai estabelecer diálogo com essa gente? E o Porto de Santos, em rumo de ampliação, de costas para o meio ambiente? E as indústrias, durante muito tempo o símbolo do progresso selvagem, hoje preocupadas com a imagem de responsáveis em termos ambientais?

A senadora, com o andamento da campanha eleitoral, começou a fazer diferença na balança. O peso dela agora é mais efetivo e conseguiu provocar, pelo menos no momento, um novo olhar de parte do eleitorado. Isso talvez aumente a caixa de ressonância das palavras dela, quando vier à região no auge da corrida ao Planalto.

As pesquisas eleitorais, lembrando que faltam quatro meses e meio para o primeiro turno, apresentam algumas semelhanças. Se os números são diferentes, as tendências se repetem. Na conjuntura atual, Dilma e Serra entraram em rota de colisão pela liderança. Alternam-se na frente, mas sem fôlego para vencer no primeiro turno.

Marina Silva, por sua vez, dobrou os índices de intenção de voto. Saiu de 5% para 10%. No Vox Populli, atingiu 12%. Ela é a diferença e a namorada que os dois candidatos terão que conquistar para um casamento no segundo turno. As mesmas pesquisas apontam que Marina tem boa aceitação entre o eleitorado das grandes cidades, com maior escolaridade e renda.

No lado oposto, não há tanta rejeição, mas desconhecimento de quem ela é (ou foi) e o que pretende fazer caso seja eleita. Nada que a campanha eleitoral (o que inclui horário eleitoral gratuito) não possa corrigir ou amenizar.



A escolha do presidente da Natura, Guilherme Leal, como vice na chapa abre a porta para a classe empresarial, que contribui financeiramente para a campanha e aproxima a candidata do espectro do poder. Isso também pode sensibilizar o eleitor de classe média, conservador no voto e desconfiado da política. È o sujeito que se vê como cidadão, age como consumidor e vira as costas para a política, como se não tivesse relação com ela.

Este tipo de eleitor joga com cinismo e moralismo, pois não se enxerga como co-responsável por aqueles quem elegeu, e pode se aproximar da candidata do PV pelo ambientalismo de boutique. È claro que Marina Silva, marcada pelo idealismo em sua trajetória, poderia rejeitar este grupo, mas – para chegar ao Palácio do Planalto – não pode descartar ninguém.

O calcanhar-de-Aquiles de Marina reside neste ponto. O partido dela é a âncora da campanha. E pode levá-la para o fundo. Além de não ter fôlego para cobrir todo o país, o PV não é uma sigla homogênea. É dividido como as agremiações dos demais adversários.

A questão é que o PV, de nanico, passou a ocupar parte dos holofotes. A mudança expõe as feridas e os pés de barro da instituição.

Por um lado, o Partido Verde tem como um dos alicerces o ambientalismo histórico de carteirinha. Não falo de radicais ou eco-chatos, mas os militantes que compreenderam a necessidade de negociar com o progresso para inserir e permitir que o meio ambiente avance dentro da agenda política. Na última campanha presidencial, nenhum candidato (NENHUM!) incluiu o tema entre os cinco mais importantes do programa ou da plataforma de campanha.



Este grupo compõe a cabeça da chapa presidencial e de governo em alguns estados. È a turma que entendeu como se aproximar do empresariado conectado com a ideia de desenvolvimento menos voraz e mais responsável, ainda que – para muitas empresas – soe como uma ação de marketing.

O problema do PV é a outra banda, que tocava em outros partidos com histórico de fisiologismo. São sujeitos que, se pudessem, passavam concreto sobre a Amazônia e a Mata Atlântica, em troca de privilégios ou uns tostões na conta bancária. São políticos que perderam (ou nunca tiveram) poder em outras siglas e veem, em Marina Silva, a chance de usufruir das benesses políticas numa posterior aliança com o vencedor. Trabalham para Marina crescer, sem o objetivo da vitória, mas para costurar uma aliança política sólida de cargos (e claro, salários).

Se a candidatura de Marina Silva decolar ao ponto de enfraquecer a polarização da corrida ao Planalto, o grupo sanguessuga vai servir de alvo para os adversários. Como explicar a presença deles no PV? Como justificar que eles são os espetos de pau na casa do ferreiro? Marina teria estômago e experiência para lidar com este grupo, agarrado ao modelo político-econômico vigente?

Acompanho eleições há quase 20 anos como jornalista e tenho consciência que ainda é cedo para assinar qualquer sentença. De vida e de morte. Por isso, sinto-me esperançoso de que Marina Silva poderá equilibrar o jogo e evitar um Fla-Flu entre situação e oposição. Não uso o termo continuísmo porque ele não se aplica apenas a Dilma Roussef. É evidente que Lula deu seqüência, por exemplo, ao modelo econômico tucano. Só que ambos os candidatos pretendem manter o trem na mesma ferrovia, sem grandes tropeço ou bifurcações.

Neste sentido, Marina Silva – se conseguir domar os selvagens e/ou falsos ambientalistas que ocupam parte do espaço do PV – poderia representar o novo, um olhar diferente para o processo político-econômico neoliberal. Falta o eleitor prestar mais atenção nas palavras, nas atitudes e no passado dela. E torcer para que as sanguessugas sejam pisoteadas pelo caminho.

sábado, 29 de maio de 2010

Quando os mudos conversam

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição n. 791, página 2, 29 de maio de 2010.

Duas pessoas em um local público ou numa conversa do dia-a-dia. O diálogo seria uma atitude previsível, com troca de experiências, de valores, de percepções de mundo. Se você não é uma delas, basta esticar as orelhas para captar o fenômeno. Ambas falam, gesticulam, contam suas vidas. Ambas fingem esperar uma reação do interlocutor.

O diálogo, muitas vezes, é estéril. Jamais existiu. O que presenciamos são dois monólogos, nos quais o outro sujeito é público, audiência cativa, e não alguém com papel interativo.

O homem atual fala demais. Fala tanto que falseia a necessidade de ser ouvido. Não se trata daquela tia tagarela ou do vizinho para quem não podemos perguntar se está tudo bem. O homem de hoje deseja uma caixa de ressonância, confirmadora de teses, uma cabeça que balance positivamente a cada frase exalada com veemência.

Estamos interessados em ouvir outras pessoas? Realmente nos importamos com aquilo que elas têm a dizer sobre suas rotinas anônimas e ordinárias? Somos capazes de perceber que na fala de nosso interlocutor pode estar o espelho que remediará uma dúvida? Absorvemos detalhes que nos modificam de maneira sutil?

O homem contaminou-se pelo individualismo, que rompe com a comunicação horizontal. A ideia é apenas vomitar o que se pensa. O individualismo nos conduz à insignificância do outro. Testemunho casos em que a outra pessoa poderia ser trocada por um cone, tamanha a irrelevância dela na conversa. Escute e não responda! A história soa como um filme sem áudio, incompreensível aos ouvidos de quem se põe diante da tela.

Quem escuta, nesta visão, não deve falar. Somente reconhece, legitima posições, reforça a vaidade, assegura a permanência da soberba. Ou simplesmente olha para quem deseja ser ouvido, ainda que a mente flutue para outros endereços, pessoas e episódios mais atraentes.

Dois monólogos simultâneos dispensam conflitos. O homem individualista abomina os choques. Quando o encontro se torna inevitável, a saída é armar-se de melindre, entender que as declarações do outro são pessoais; portanto, ofensivas. A preferência pelos monólogos reduz o impacto e a importância do debate, do intercâmbio nas relações mais elementares. Caso haja um debate, pula-se a etapa do diálogo. Direto à discussão!

Ser adepto do monólogo é um exercício de intolerância, que rechaça a opinião alheia, insolente em considerar a chance de alterar a opinião do autor. Teses seriam incontestáveis. As posições, em um monólogo, são definitivas, cristalizadas na boca de quem as expõe com segurança e ar de propriedade. O que o outro tem a dizer é menor, para não dizer irrelevante. A contestação é puro amor ao vazio, incapaz de mudar os pontos de quem comanda a fala.

Sou obcecado pela ideia de ouvir. Entendo como caminho para um lugar onde jamais se sabe quando se chega. A sabedoria implica em valorizar o outro e, como complemento, abrir a boca somente para dizer o que é imprescindível.

Uma amiga, também professora, sempre afirma que um dos males que acometem os docentes é a “professorite”. Esta doença se manifesta com anos de profissão e pode ser diagnosticada apenas pelo sintoma principal. Quando contaminado pela professorite, o paciente nunca mais escuta e pouco fala. O paciente dá aula o tempo todo. Em tom professoral, ele se realimenta do monólogo. Se a platéia o ouve, é mero detalhe. O que mantém o paciente vivo e o enche de prazer é o som da própria voz.

O problema é que a professorite, para os especialistas, representa uma variação de epidemia maior, que não distingue raça, credo, gênero ou classe social. Basta ouvir dois monólogos travestidos de diálogo. Ali, soam como dois mudos impedidos, para vontade própria, de se comunicar. As posições aqui tomadas, leitor, não são definitivas. Devem ser analisadas e contestadas. Caso contrário, este autor engrossaria a estatística da epidemia.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Robin Hood e o fascínio pelos justiceiros

O filme Robin Hood reforça uma das tendências do cinemão atual. Para mascarar o caráter de refilmagem, opta-se pela origem do protagonista. Assim, o diretor pode costurar uma nova história, de certa forma revisitada, e deixar o final em aberto para uma sequência, o que atende os desejos econômico-financeiros da indústria cinematográfica. Outra vantagem é vender o velho como novo (quem sabe “inédito”?), sem desgastar o personagem.

A história não é ofensiva por esta escolha. Aliás, não perturba de maneira alguma ou comete pecado capital. O diretor Ridley Scott cumpre o papel de contar um enredo cujo objetivo maior é entreter o público. O filme, que custou US$ 155 milhões, nunca se propôs a ocupar um lugar na prateleira das obras intelectualizadas, embora tenha aberto o Festival de Cannes.

A trama tem como foco a disputa de poder pelo trono da Inglaterra – em paralelo a um confronto com a França – a partir da morte do rei Ricardo Coração de Leão. Robin Hood ainda não tem este nome e é um arqueiro que serve ao exército do rei. Longe de ser a lenda da floresta de Sherwood.

Robin acaba preso por falar demais e foge após a morte do rei. Por um acaso, toma o lugar de um dos cavaleiros mais importantes, Robert Loxley, assassinado em uma emboscada. Como um cavaleiro, participa diretamente das alianças políticas para conter a instabilidade do irmão mais novo do rei Ricardo. O irmão, que se torna o rei João, é imaturo, ansioso e enfrenta a nobreza por elevar os impostos dos nobres.

Robin Hood é interpretado por Russel Crowe. O personagem, quando ocupa o lugar de Loxley, se apaixona pela viúva, Lady Marion, papel de Cate Blanchett.



O veterano Max Von Sydow (foto abaixo), em um trabalho poético, faz o pai dela, Walter Loxley, cego e no final da vida. Outro papel importante é Willian Marshal, chanceler destituído pelo novo rei, feito por Willian Hurt.



Ao sair do cinema, com a sensação de ter me divertido com a velha trama medieval de cavalos, espadas, arcos e flechas, me perguntei: por que nos interessamos tanto pelos personagens justiceiros? Eles aparecem em todas as épocas, repetem-se de maneira sistemática, mas asseguram o nosso conforto ao resolver, com ou sem apoio, as injustiças sociais mais imediatas.

Um personagem como Robin Hood vai além do simples fato de roubar dos ricos para dar aos pobres. Ele nos mostra o quanto o poder depende de nós, meros mortais ordinários. Indica como os que ocupam o poder nos temem e mantém uma estrutura de controle para, inclusive, dominar o próprio medo de uma rebelião das massas, sejam elas camponesas, urbanas ou futuristas.

Em uma sequência do filme, Robin Hood diz aos companheiros que a diferença entre eles e os cavaleiros seria apenas a roupa. O grupo poderia se passar por cavaleiros caso trocassem de roupa com os mortos na emboscada que vitimou Loxley. A nova vestimenta faz com que Robin deixe de ser um arqueiro, veterano de guerra, e se aproxime do centro do poder.

Personagens como Robin Hood, Batman e até Jack Bauer tem um senso próprio de justiça. Apresentam origens semelhantes, no sentido de terem sido indiferentes aos problemas do mundo que os cercam. Quando sugados para o centro da tempestade, agem como executores instantâneos de um processo jurídico individual.



As práticas se alteram; os princípios são petrificados. Robin Hood, assim como seus irmãos de cultura pop, comete deslizes, mas sempre por uma causa maior. O caminho pode parecer tortuoso, mas conduz a um desfecho de correção e de resposta à vítima. Uma resposta desejada por ela.

Estes personagens vivem sob o espectro de um passado mal resolvido, alimentam-se da vingança e buscam uma redenção pessoal por meio da punição dos culpados. Pragmáticos, são capazes do auto-sacrifício pela dor do outro ou por uma questão coletiva. Os justiceiros, e aí está o sabor da ficção, reduzem a quase zero a auto-preservação.

Roubar dos ricos é fazê-los sentir como o poder se sustenta em frágeis alicerces. Roubar dos ricos significa colocá-los ao nível do chão, como se relação com os explorados fosse horizontal. Quando os assalta, Hood os torna mortais, mas não vítimas. Nesta última versão, ele rouba um carregamento de sementes que garantiria alimento para a comunidade de Nottingham.

Os personagens justiceiros nos garantem, ainda que na ficção, a possibilidade de mudança de um quadro marcado pela arrogância, intolerância, desprezo e vilania. Os justiceiros nos permitem compreender que a saída está ao lado, no pavor do vilão que não entende o que o ataca. È algo fora do sistema de controle dele; portanto, uma chave torta que abre a mesma porta antes impenetrável.



Personagens como Robin Hood nos fazem torcer pela transgressão, nos fazem pensar que é possível quebrar regras que não foram feitas por nós e que servem somente como exercício de dominação. É a aplicação da lei que deveria envolver a todos.

O filme de Crowe não retrata a construção da lenda. Explica como Robin Hood se torna um fora-de-lei, alguém vitimado pela tirania e pelo poder corrompido. Historicamente, Robin Hood nunca existiu. A floresta de Sherwood teria abrigado um grupo que assaltava os viajantes, no século 12. A lenda ficou a cargo da indústria cultural, principalmente o cinema. A primeira adaptação de Hollywood aconteceu em 1922.

Além dos devaneios sobre heróis e justiça, o filme me deu outra sensação. Em muitos momentos, parecia ver Gladiador, produzido em 2001 e transferido para a Idade Média. É claro que há a coincidência da parceria entre o diretor Ridley Scott e Russel Crowe, que trabalham juntos pela quinta vez.

Refiro-me à estrutura narrativa, que mostra o protagonista como alguém que teve a família destruída, a vingança contra o traidor, a devoção ao mentor e seus valores nobres, a sabedoria em combate, a liderança nata, entre outras características. Nada que desvie do caminho um enredo com a missão de nos transportar para as batalhas entre arcos, flechas, lanças e espadas. Ou divagar um pouco a respeito e esperar pela sequência.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Morto novo, história antiga

O faroeste alcançou estas bandas, com algumas diferenças da origem norte-americana. No modelo bang-bang pé de serra, os bandidos não são identificados e ou de natureza glamourosa. Conhecemos somente as vítimas. O escritório do xerife é incompetente. Os motivos dos crimes são desconhecidos, mas alimentam os boatos, do saloon (os botecos) à cadeira do barbeiro, passando pela paróquia. Tudo como forma de manter o pacto de silêncio na comunidade. E o final, previsível, sem a solução dos crimes ou a punição dos culpados.

O assassinato do vereador João Santana de Moura Vilar, o Tucla, (PDT) apenas reforça como política e violência se relacionam em Cubatão. Política que se resolve na bala, na execução em praça pública, sem pudor, sem temor. O recado é gerar pânico. Avisar quem manda, mesmo que o autor da mensagem se esconda nas sombras.

A cidade mantém o histórico linear de violência. Mata-se sem que se saiba o porquê. Ou melhor, desconfia-se. O cheiro fica no ar. As insinuações correm a boca pequena nas rodinhas de conversa ainda no velório. Mas o medo paralisa a todos. A própria classe política local não cumpre, com a veemência devida, seu papel de cobrar por respostas.

Nos últimos nove anos, foram cinco atentados que envolveram apenas políticos e assessores diretos. Há nove anos, o então prefeito Clermont Silveira Castor foi baleado e sobreviveu. Uma das balas ainda está alojada no corpo dele.

Em 7 de novembro de 2008, o dono de auto-escola Benavenor Teobaldo da Silva Neto, de 36 anos, levou vários tiros dentro da própria empresa, na frente da esposa. Um dos assassinos teve a frieza de retornar à auto-escola para verificar se Beninha, como era conhecido, estava morto. Beninha foi candidato a vereador na última eleição.

Nove meses atrás, o motorista e assessor de Tucla, Alex Renildo de Barros, de 30 anos, foi executado. Em março, o médico cardiologista e ex-vereador Anis Rahal Maluf, de 60 anos, sofreu uma emboscada e foi morto a tiros quando dirigia pela rodovia Cônego Domenico Rangoni (antiga Piaçaguera-Guarujá).

Em todos os casos, a Polícia Civil não conhece os culpados ou mandantes. Investiga-se e não se chega a um ponto efetivo. Os mortos viram lista que exemplifica o terror.

Eliminar políticos é parte da história da cidade. Em 1964, o ex-prefeito Abel Tenório também foi assassinado a tiros. Outro caso insolúvel.

Tucla foi morto durante a tarde, a 100 metros de casa, quando retornava da padaria. Os dois agressores estavam em uma moto. As cápsulas das sete balas disparadas sumiram, fator redundante para a teoria de crime encomendado.

A quantidade de mortes nos últimos meses provoca uma série de perguntas. Por que matar políticos e assessores? Eles mexeram em algum vespeiro? Fizeram alianças políticas de alto risco? Por que a Polícia mantém o histórico de resultado zero? Outros políticos devem reforçar a segurança pessoal?

Cubatão, assim como outras cidades da Baixada Santista, remonta à Sucupira, cidade criada por Dias Gomes na obra o Bem Amado. O modelo de coronelismo prevalece, ainda que os Odoricos não utilizem chapéus ou vistam ternos brancos. Os coronéis controlam a cidade por meio de currais, divididos milimetricamente entre si.

O coronelismo usa do assistencialismo rasteiro, das alianças via cargos e benefícios e, se possível, da alternância de poder. A cidade teve os mesmos comandantes por 16 anos, que se alternavam no paço municipal. Depois, os líderes foram trocados, mas os camaleões de segundo escalão mudaram rapidamente de cor.

Marcia Rosa – que poderia representar o novo – reproduz a instabilidade que marca, por vezes, a presença do PT no Poder Executivo. È claro que leva tempo para se arrumar a casa, se houver vontade política. Mas a gestão atual não parece caminhar em nuvens brancas. Vários secretários foram trocados e a relação com o Poder Legislativo não é exatamente amistosa.

O suplente de Tucla, Aguinaldo Alves de Araújo, também é do PDT, partido opositor. Tucla ignorava esta posição e apoiava a prefeita. Aguinaldo declarou ao jornal A Tribuna que pretende seguir as orientações do PDT. Evangélico, é visto como um político promissor – em termos eleitorais.

A questão é que a prefeita precisa ir além da lamentação e do luto. O cargo exige não apenas cautela diante dos atentados dos últimos meses, mas também energia para cobrar e exigir uma investigação adequada. A classe política não pode permanecer refém de sabe-se lá qual grupo criminoso.

A prefeita Marcia Rosa não pode considerar os crimes como algo independente do desenho político da cidade. Os ataques dos últimos meses alteraram as relações entre os políticos e mexeram – por tabela – com os níveis de poder. Não é possível que assassinatos aconteçam, permaneçam sem solução e a vida siga como se nada tivesse ocorrido. Ou valerá a pena esperar pelas conseqüências econômicas e sociais da criminalidade entrando sem bater no gabinete do poder local?

As conversas miúdas em Cubatão precisam mudar de tom. Os moradores convivem com a sensação de medo permanente, em que se olha para os lados e para trás quando se conversa sobre política na cidade. Escolhe-se como se fala e para quem se fala. Na verdade, paira um tabu no qual certas coisas não podem ser ditas. É a violência que paralisa o processo político de tempos em tempos e assegura os próximos capítulos de um faroeste particular, porém com personagens incompletos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Quem são os heróis de Coraline?

Ver um filme corresponde a uma relação de afetividade. O que nos move a falar sobre ele depois da exibição ou se sentir incomodado por dias talvez a sejam a força e a abordagem de uma história. O impacto de um filme, ao menos sobre mim, é medido pela emoção que ele consegue provocar durante e depois da exibição. A pior resposta possível é a indiferença. Considerá-lo mais um, em tempos de rigidez industrial.

Só que, às vezes, namoramos, flertamos, nos aproximamos, mas não conseguimos nos relacionar com um filme. Não é uma questão de rejeição, mas de oportunidade. É a minha relação com Coraline, animação dirigida por Henry Selick e lançada no ano passado. Dakota Fanning dubla, no original, a protagonista; e Teri Hatcher (Lois Lane, do seriado Lois and Clark), a outra mãe. Tive o filme nas mãos várias vezes, e só fui assisti-lo depois de um ano de relacionamento platônico.



O filme conta a história de uma menina, de nome Coraline, que muda de casa com os pais para um casarão. Os pais, excessivamente preocupados com o trabalho, não prestam atenção nos desejos da garota, que se sente entediada com a nova rotina. Ela é inteligente, curiosa, ansiosa, perspicaz, como toda criança.

Ao explorar o casarão, a menina descobre uma pequena porta antiga, trancada. Ela pede para a mãe abri-la e, depois de um certo tempo, descobre uma passagem secreta para um mundo paralelo, onde todas as pessoas se comportam pelo oposto.

O mundo paralelo seria, em princípio, a terra ideal para Coraline. Lá, os pais dela são maravilhosos e animados. A comida, deliciosa. O cotidiano, marcado pela diversão. O problema é que os novos pais, que tem olhos de botão de roupa, pretendem mantê-la presa com eles.

Coraline é baseado em romance de mesmo nome, do autor inglês Neil Gaiman, conhecido pela série Sandman. Parece um filme para crianças de outra época, tamanha a onda do politicamente correto que assola as animações infantis.



A sensação é de que a história romperá com o padrão, aproximar-se do limite da transgressão, mas recua à beira do desfecho. Os cenários são sombrios, os personagens não se encaixam, os conflitos se multiplicam ao longo do enredo. Mas o final ganha contornos de cinemão norte-americano, quando tudo se resolve e parte dos personagens se redime. Não se trata de contar o final, apenas prevenir de um certo ar de obviedade.

Não entenda, leitor, como demérito. Pode ser a contaminação da leitura de um adulto (ou a incompetência de se colocar no lugar das crianças), mas é que esperava um desfecho menos correto e cheio de claridade naquele mundo tão escuro e de pouca vida.

O filme apresenta uma grande diferença para o romance. No cinema, Coraline tem um amigo, Wieby (foto abaixo), garoto com jeito de cientista maluco, que mora com avõ e vive com a companhia de um gato. Foi a saída narrativa, apreciada pelo próprio Gaiman, já que no romance Coraline fala muito sozinha. O gato é um personagem de ligação entre os dois mundos e com as melhores falas, sábias e irônicas.



O filme Coraline faz pensar sobre a relação entre pais e filhos. O amor é base desta relação ou falsa justificativa? Por que, então, muitos pais são autoritários e violentos? Pais precisam parecer legais para que a vida dos filhos seja feliz? Ser legal implica em dividir experiências divertidas ou compartilhar acertos e erros? Quando fazem todas as vontades das crianças, os pais protegem ou são negligentes com elas? E como fica a negação? Dizer não é um ato de maldade?

A modernidade nos trouxe a crença de que o amor entre pais e filhos é incondicional e eterno. As propagandas de margarina podem ser vistas como símbolo deste período histórico. Incorporamos a idealização dos afetos, sem compreender a natureza mundana e contraditória deles.

Negamos, sempre que possível, a ideia de que não há diferenças profundas com outros tipos de relação afetiva. O amor entre pais e filhos pode, sim, terminar; ou pior: transformar-se em ódio ou indiferença. Neste sentido, por que poupamos o outro? Para construirmos uma boa imagem para si e para ele?

O filme nos mostra que exercer a função social de pais não é inerente ao fator biológico. Pais são aqueles que cultivam um relacionamento, baseado no respeito e no entendimento, ainda que em caráter vertical. Os pais de Coraline, durante boa parte da trama, são ausentes, autoritários, focados em seu próprio universo. Escravos do trabalho e do próprio individualismo, cujo símbolo mais sólido seria a carreira profissional.

Coraline vai buscar, em outros sujeitos, suas referências, seus heróis. Estas pessoas são os pais dela no mundo paralelo. Em princípio, eles cumprem o que Coraline mais deseja: são heróis, os pontos de influência e de segurança. Seria uma espécie de trilha rumo à felicidade.

É claro que Coraline percebe – dentro da previsibilidade do roteiro – que seus pais, com todos os defeitos (e qualidades), são as figuras ideais. Ainda que heróis com pés de barro. A garota, ao menos, não jogou fora a oportunidade de compreender que é melhor viver com o possui do que paralisar por causa de projeções idealizadas.

Atualmente, nos relacionamentos em geral, rompemos com o outro porque a humanidade ordinária dele nos incomoda. Cometemos o erro de tentar fazê-lo à imagem e semelhança, como se isso fosse evitar os conflitos que tanto tememos. Fazemos a mesma coisa com os pais, muitas vezes descartados pela idade e/ou pela saúde. Uma coisa é não poder acompanhá-los nos problemas deles. Outra é encará-los como mercadorias de supermercado, descartáveis e perecíveis.

O choque é parte da construção dos relacionamentos, parte do processo evolutivo deles. È comum vermos pais que colocam nas costas de seus filhos o peso de seus sonhos não-realizados. Ou caminham em direção ao avesso: ignorar as crianças, tamanha a responsabilidade de criá-las. Educá-los é uma trajetória sem fórmulas disponíveis nas revistas ou nos livros de auto-ajuda.

O mundo sombrio de Coraline, neste sentido, é sugestivo ao mostrar que o relacionamento entre pais e filhos consiste numa troca simbólica de papéis. Papéis de mocinho e vilão, que se alternam conforme as circunstâncias, sem respostas de curto prazo ou saídas previsíveis. É como a porta que leva Coraline a um mundo secreto, com satisfações, medos, aventuras e surpresas.

domingo, 23 de maio de 2010

Ladyfest 2010 - jovens mulheres por igualdade

Texto - divulgação



A primeira edição do festival cultural feminista Ladyfest aconteceu exatos 10 anos atrás em Olympia, nos EUA.

Em 2004, a primeira edição brasileira tomou vários espaços da cidade de São Paulo para abrir caminho pra mais quatro edições que vieram nos anos seguintes. Em cada edição, o público aumentou. A cobertura da mídia grande e alternativa também se expandiu.

O Ladyfest celebra a cena de jovens mulheres em busca de igualdade por meio do faça-você-mesma e carimba na história dos movimentos sociais de esquerda no Brasil uma produção cultural revolucionária.

A edição brasileira do festival esse ano comemora não só a criação de um movimento contracultural, seja por atitudes, questionamentos ou resistência em letras de música, fanzines e arte de rua.

O Ladyfest Brasil 2010 celebra a renovação política que movimentos jovens feministas como o riot grrrl trouxeram para o cenário político e para a cena punk brasileira. Essa edição é dedicada também as mulheres que, após longo ou breve contato com o ativismo feminista cultural, mantiveram o discurso feminista intacto, sem abrir concessões.

O Ladyfest Brasil 2010 é organizado por Elisa Gargiulo, Anelise Csapo, Marcela Mattos, Bruna Mantese, Adriessa Oliveira, Bruna Provazi e Elaine Campos.

O evento ocorre entre os dias 14 e 23 de maio na cidade de São Paulo e Santos. Entre as atrações estão debates sobre cultura e sustentabilidade, oficinas de arte, skate, guitarra, áudio e defesa pessoal para mulheres, exposições, mostras de filmes e shows de bandas femininas.

Este ano é a primeira vez que o evento ocorre também em Santos, onde serão realizadas as oficinas de wen do – defesa pessoal feminista – e de skate para meninas, além do show das bandas Dominatrix (SP), Noskill (PB), Pump (PE), Stella Can (RS) e, diretamente de Portland/EUA, TEAM DRESCH! Com abertura das MCs Ingrid (INR) e Pamelloza.

Conheça a programação completa no link Ladyfest Brasil

sábado, 22 de maio de 2010

O templo dos cegos

O domingo deveria ser o dia destinado à purificação da alma, ao perdão pelos pecados cometidos durante a semana. Seria o dia de vestir a melhor roupa, aparentar seriedade, conversar o mínimo e ouvir ao máximo, com olhos vidrados na pregação.

A nova religião, ópio do homem contemporâneo, vive de quebrar regras. O templo mantém as raízes medievais ao valorizar o ritual de domingo, mas o auge do clamor pelo sagrado agora é o sábado à noite. Milhares de pessoas se reúnem para compartilhar a fé, as experiências e a esperança de permanecer e ser legitimado por aquele grupo.

Ali, as chances de alcançar o paraíso – às vezes, em pílulas instantâneas – soam concretas e disponíveis a todos. Se não vier o paraíso, ninguém se sente insatisfeito com a redenção de uma mudança de vida imediata, com prazeres discretos e vistos pela comunidade como necessários.

A religião, com seus novos templos, é coerente na aplicação de sua doutrina. Não despreza ninguém. Promete falar para e com todos. Pouco importa a conta bancária (ela deve existir, mas ser omitida!), a quantidade de bens materiais ou a força espiritual. A nova igreja é um imenso guarda-chuva, que promete abrigar qualquer um, sem distinção de gênero, cor, raça, renda, preferência política e/ou sexual.

A religião – fica claro logo na entrada – exige fidelidade. Não é possível acender velas para santos ou instituições concorrentes. Santo talvez seja uma forma de falar, embora muitos objetos sejam considerados sagrados.

As imagens não apenas são permitidas, como são protegidas por vitrines para culto. Mas o que valem são os conceitos. A postura do fiel é norteada por atitudes, defendidas como práticas sistemáticas no cotidiano. Nada de exercício da fé apenas no final de semana. A utopia é conduzir, com carinho, o fiel ao templo diariamente, com uma série de atividades em prol de alguém. Ajudar ao outro é auxiliar a si mesmo e crescer com esta missão.

A nova igreja não fala em valores monetários como promessa de evolução na vida. Critica a concorrência que mal se agüenta de ansiedade até colocar dinheiro na conversa.

A nova religião tenta ser sutil. Abre o jogo, expõe suas necessidades com franqueza. O lucro é da natureza da fé, mas fica ao gosto do membro da igreja investir o que deseja para ter seus sonhos realizados.

A religião também seduz a comunidade pela ausência de líderes. O comando, por preferência, foi descentralizado para evitar que um indivíduo ganhasse os holofotes e ofuscasse a própria instituição. Vale a hierarquia, mas com o discurso de relações horizontais, sem chefes e subordinados. Os objetivos se sobrepõem aos homens.

Os líderes têm funções diferentes, com metas semelhantes. Prevalece a proposta de conquista permanente, de perpetuação do desejo de encontro com Deus. Aliás, quem toma as decisões (e assume as responsabilidades) é Ele, ainda que seja uma saída retórica e confortável. Deus só não assume as crises, de impacto único para o fiel.

Confesso que visitei a igreja esta semana. Fui na segunda-feira, no início da tarde. Fujo como o diabo da cruz do sábado à noite. Sinto-me incomodado com as pessoas excitadas diante de cerimônias frenéticas. Muitos comentam estar perante um exorcismo coletivo ou outro tipo de ritual de entorpecimento em massa.

Na segunda-feira, perto da hora do almoço, o templo é tranqüilo, com pouco movimento. Muitos passam apressadamente, com o objetivo de receber uma palavra amiga ou o alimento espiritual. Outros não têm para onde ir e ali enxergam um pouco de conforto até a seqüência da viagem.

A nova igreja mantém as portas abertas para todos. Nas portas, todos sorriem e são acolhedores. As reclamações de maus tratos não convencem e parecem coisa armada, intriga dos opositores. Há sempre uma palavra, um objeto para cada anseio, para combater cada transtorno, para conduzir o visitante a um instante de paz e harmonia.

A contrapartida não se manifesta somente pela relação financeira. O bom atendimento é o segredo de que o fiel sempre há de voltar. A dependência de uma crença cega, sem avaliação criteriosa ou sensata.



Ao visitar o shopping center, fico com a impressão de enxergar homens e mulheres cegos diante do consumo. A cegueira que nos une de corpo, alma e bolso no templo da modernidade, caracterizado por promoções, descontos, crédito farto, novidades recicladas e o ar impregnado de felicidade artificial.

Na praça de alimentação, a arena do delírio coletivo, centenas se espremem pela palavra: o lucro. Nesta ágora do mundo atual, o Deus-mercado nos transforma em seguidores mecânicos da padronização, da falta de crítica, da busca ilusória da felicidade e da liberdade exterior.

O novo templo privatizou a vida pública. É o momento em que deixamos de ser livres e nos tornamos iguais, uniformes e estéreis de reflexão. O único, se não morreu, agoniza.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Chico Xavier, um filme para recomeçar



Assisti essa semana ao filme Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho. Pela segunda semana consecutiva, estava sozinho na sala de cinema. Desta vez, estar só foi fundamental para refletir e absorver as mensagens nas entrelinhas. O ambiente, que poderia ser favorável mesmo com companhia, me deixou mais confortável para metabolizar a proposta da história. É um filme de entretenimento, um blockbuster nacional, mas isso não implica na inviabilidade reflexiva dele.

Chico Xavier foi produzido – como qualquer filme comercial - para diversão, mas provoca múltiplos sentimentos e exige uma análise posterior. De cara, torna a obra relevante. Não se passa ileso aos diversos personagens e, principalmente, à vida do principal médium brasileiro. Ou melhor: a vida dele por meio de seus significados.

Chico Xavier representa, a partir de minha leitura emocional, um filme sobre recomeço. Em vários níveis. O ato de recomeçar envolve os principais personagens da trama. Chico, antes de qualquer outro, é um sujeito que recomeça sempre. Por pressão de terceiros ou por ação voluntária. Ele recomeça a cada atendimento, a cada absorção de conquistas e tragédias.

O filme não é um tributo ao espiritismo ou um meio de pregação de doutrina. È parte da biografia de um homem cercado de lendas, desconfianças, ignorância, preconceitos e incertezas. A história acompanha Chico até 1975, ano em que foi sabatinado no programa Pinga-Fogo, atração de grande audiência na extinta TV Tupi.

O roteiro divide a vida do médium em três partes. Na infância, ele é interpretado por Matheus Costa. Na juventude, por Ângelo Antônio, ator amadurecido, que transmite serenidade e poesia na interpretação. Antônio imprime um tom emocional ao personagem, em seus arroubos juvenis e na angústia de atender expectativas, enquanto Nelson Xavier cristaliza a maturidade e sabedoria de Chico. A calma de quem entendeu o próprio lugar e os próprios limites no espaço.



Nelson Xavier, por sinal, é a encarnação física do médium. Nelson é conhecido pelas atuações cerebrais, calculadas em detalhes, como admitiu o próprio ator no programa Marília Gabriela Entrevista, no canal GNT. Nelson se confunde com Chico nos pormenores, como o jeito de falar, os maneirismos, a tranqüilidade no trato com as pessoas, mesmo quando pressionado pelos interlocutores, como no programa de TV Pinga-Fogo.



A equipe do diretor Daniel Filho montou um elenco de primeira linha, alguns com interpretações tocantes. Luis Melo é o pai de Chico Xavier. Homem trabalhador, com 13filhos, o personagem de Melo não aceita a mediunidade. É um sujeito religioso, porém racional e preconceituoso. Não o entenda como vilão, apenas como um pai que lutava para criar e reunir todos os filhos em volta de si. É também uma pessoa que se torna obstáculo para si, quando tenta entender o dom que o filho carrega, mas não aceita a condição dele.



Tony Ramos é o produtor de TV. Trabalha no programa Pinga-Fogo. Casado com a personagem de Cristiane Torloni, ele passou a ser um descrente após a morte do filho em um acidente com arma de fogo. O personagem de Tony não consegue recomeçar. Ele está mergulhado no rancor contra um alvo indefinido. Como muitos, utiliza o trabalho como válvula de escape e se afasta da esposa.

Cristiane Torloni faz um papel que remete à vida pessoal da atriz, que também perdeu um filho. A atuação dela é visceral, sensível, dolorida. A personagem joga no nosso colo a responsabilidade de dividir com ela a perda do filho. É a mãe que persegue algo, sem saber exatamente o quê, pela chance de reencontrar o tempo, perdido junto com o filho que se foi.



Ela persegue um canal de comunicação com o adolescente, e Chico Xavier traduz a última tentativa de remediar a dor ou ultrapassar a fase de luto.

Chico Xavier é um filme que tem como maior mérito nos fazer lidar com a nossa própria humanidade. Os personagens não soam artificiais. Seus dramas são comuns na dose exata para nos colocar como espelhos da obra. É como se todos tivéssemos contas pendentes, relembradas e remexidas em pontos específicos da história.

Chico, como personagem e como médium, nos lembra que sempre é possível – e necessário – descer do pedestal e retomar o diálogo com outro. Não falo do além. Estou me referindo aos relacionamentos em vida. Viramos as costas para o outro por orgulho, soberba, vaidade, rancor, ou intolerância. Não importa o sentimento.



Às vezes, deixamos de recomeçar e nos agarramos no passado pelo pacote completo. Paralisamos para ter razão. Paralisamos para confirmar teses inócuas ou obsoletas no nascedouro. O resultado é a recusa em alterar o caminho, ainda que tenhamos clareza de que o final será um beco sem saída. Bate-se com a face no muro para não encarar o outro por uma perspectiva horizontal.

Chico Xavier, o filme e o personagem, me atingiu como uma bala no meio do peito. Encaro um período de recomeço. Tive que mudar – e contei com outras pessoas como guias -, rever valores, ler o mundo de outra maneira. Os erros serviram como fonte de reflexão para seguir outros caminhos. E também como indicativo de que a repetição deles deve ser evitada.

Recomeçar – e o filme funciona como elemento de confirmação - é enterrar o passado. O sepultamento não significa esquecer tudo o que se passou, mas colocar os fatos na dimensão adequada de tempo e espaço. Neste sentido, não importa a profundidade da cova. Uma cova rasa basta, desde que a terra não seja remexida. Podemos até cultivá-la, mas com outras flores. E jamais exumar o corpo sob pena de comprometer uma evolução individual.

Quem decide recomeçar o faz porque perdeu, está perdendo ou perderá algo ou alguém. Nunca é uma ação em tempos de calmaria. O recomeço, como as pessoas que procuravam Chico Xavier, começa no meio da tempestade. Para sair dela, muda a rota. Se for o caso, troca-se o plano de viagem e a tripulação.

O filme é, acima de tudo, a história de um homem que vivenciou com letras garrafais o maior sentido do termo humanidade. Vejo como óbvio qualificá-lo de generoso. Chico era bondoso, com um ouvido do tamanho do mundo, mas também tinha consciência plena de seu papel social, ainda que seguir implicasse sacrifícios individuais.

Chico se sacrificou porque talvez soubesse que poderia recomeçar sempre, até porque a sabedoria lhe deu a convicção de que o caminho a ser percorrido é o coração da viagem. Suas atitudes alteraram milhares de vidas, mas redesenharam com poesia – principalmente – a dele.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A cor da vida urbana

Quando visitei a cidade de Buenos Aires, capital argentina, em 1999, fiquei encantado pelo Caminito, no bairro da Boca. As moradias, feitas com chapas de antigos navios italianos que aportaram na cidade, tiveram as fachadas pintadas de diversas cores. A mudança sacudiu aquele espaço urbano, ressuscitou as casas com destino à degradação e, obviamente, atraiu a atenção de turistas nacionais e estrangeiros.



Pensei no Caminito quando associei duas situações diferentes na cidade de São Paulo. A primeira é o projeto de demolição do Minhocão, apresentado pela Prefeitura. Ainda bem que a proposta ultrapassou a fronteira das rodas de conversa de arquitetos e urbanistas.

O Minhocão é um dos símbolos do crescimento desordenado de uma cidade grande. Representou uma medida paliativa para uma das piores doenças do meio urbano: o trânsito. Simbolizou o atraso de mentalidade que marca em brasa os políticos, obcecados pela ideia de que progredir é infestar o espaço público de obras enormes. A tradução se dá pela máxima: obra que rende voto deve estar em cima da terra. Algo assim!



Só que o Minhocão foi incorporado à paisagem paulistana. De mancha, virou primeiro plano. O Minhocão é, à maneira dele, um cartão postal que retrata uma época de alterações substanciais no cenário de São Paulo. Era a soberba de alguém que dizia nunca parar.

Na mesma cidade, o arquiteto Marcelo Rosenbaum coordena um projeto de revitalização de uma área, dentro do bairro Capão Redondo. Ele ficou conhecido por trabalhar no quadro Lar doce lar, que revitaliza casas, no programa Caldeirão do Huck, da rede Globo.

O Capão Redondo se notabilizou no noticiário policial, como uma das regiões mais violentas de São Paulo. Anos depois, o bairro ganhou as páginas dos cadernos de Cultura dos jornais pela produção artística alternativa, de resistência. Um centro de literatura, música e artes plásticas.

O projeto de Rosenbaum envolve o Campo do Astro, única área de lazer do bairro. Segundo reportagem de O Estado de S.Paulo, uma fabricante de tintas vai capacitar os moradores, ensiná-los uma profissão e fornecer o material para que eles possam pintar (e colorir, claro) as moradias em torno do Campo. Cada casa será uma tela em branco, a serviço do artista.



Cerca de 30 universitários de cursos de Design e Arquitetura passarão as férias no bairro para orientar os moradores na melhoria do espaço urbano. O trabalho é utilizar as ideias e habilidades da população local para a construção, por exemplo, de parques infantis e floreiras. Auto-estima é a chave do tesouro. O Campo do Astro terá uma biblioteca, com equipamentos audiovisuais. Não há dinheiro público nesta história.

A Prefeitura de São Paulo poderia enxergar o Capão Redondo e pensar no Minhocão. A administração perde mais uma oportunidade de amenizar o cinza que marca boa parte do espaço urbano da capital paulista. Por que não revitalizar o Minhocão? Transformar o local em símbolo de uma produção cultural popular e engajada. A mudança daria cor, traria vida para uma área que marca a decadência e a falta de planejamento urbano.

Muitos artistas estão anos-luz à frente da turma do Kassab. Basta visitar o Minhocão e prestar atenção em suas pilastras. Ali, há dezenas de ilustrações e outras linguagens de interferência no lugar. (abaixo, trabalho do artista gráfico Gen). As obras foram reunidas no blog Minhocão.

É fundamental rediscutir a mentalidade vigente. Vivemos uma época em que soa como natural demolir e reconstruir sem maiores reflexões. Sem análise do contexto, do espaço geográfico. Matamos e damos vida às construções, sem observar (ou a preferência é ignorar) o impacto que elas causarão no cotidiano das pessoas.

Virar as costas para o mundo em volta é assumir-se cego, estúpido ou ingênuo. Pouco se considera a hipótese que alterar um local público é mexer com o comportamento cultural dos moradores, da coletividade. Faltam áreas para manifestações culturais espontâneas, politizadas ou como mero entretenimento, sem o julgo de empresas privadas ou a subvenção de organizações estatais.

O olhar urbano da classe política – e também do mundo empresarial – está contaminado pela ânsia de progresso a qualquer custo e pelo lucro decorrente desta prática. Não se leva em consideração – no espaço público – que lazer é uma necessidade de primeira grandeza. O lazer que pode nos conduzir a uma prática cultural e – quem sabe? – a um novo olhar sobre o universo que nos cerca e nos afeta.

Na concepção atual de cidade, nós não vivemos as áreas públicas. Passamos por elas. Nós nos tornamos escravos de lugares fechados, onde sufocamos a liberdade de pensar coletivamente, de reafirmar as relações humanas além dos círculos habituais.

A cidade é parte de nós, mas a modificamos o tempo todo. A cidade pulsa por meio das pessoas e de suas construções. Os imóveis retratam momentos históricos, indicam os caminhos da vida cotidiana. Pela urbanidade, o homem cria, recria e interage com seus pares. O lugar onde vivemos é uma radiografia de quem somos e como pensamos.

Em Santos, cidade onde nasci e resido, a Prefeitura começou – há mais de uma década –um projeto chamado Alegra Centro, que prevê a revitalização de fachadas do Centro Histórico, em parceria com empresas privadas. Muitos imóveis foram recuperados ou maquiados.

Uma das conseqüências foi a transformação de parte do bairro em pontos de balada para a classe média, no final de semana. O local também atrai turistas durante o dia.

Só que o projeto reduziu a marcha. Por problemas políticos, não houve avanços em direção ao porto. O Alegra Centro também não estendeu seus braços para a região mais pobre da cidade, a poucas quadras dali. Na Vila Nova e no Paquetá, as moradias são cinzas, tristonhas, prova viva do passado de decadência do Centro Histórico.



Nenhuma empresa se interessou em modificar o local. A Prefeitura, ao longo dos anos, vestiu o tapa-olho. Os dois bairros, a menos de um quilômetro da badalação, apresentam os piores indicadores sociais de Santos.

No momento, o ouro são os espigões que se espalham pelo município (cerca de 60), símbolos do canto da sereia pelos royalties do petróleo. Santos dá as mãos a São Paulo e ambas desprezam a urbanidade como característica da cultura humana. Ambas são seduzidas e reproduzem – na visão de seus políticos – a ferocidade pelo progresso a partir da via mais acelerada e corrosiva.

Por trás da roupa colorida, será que somos amargos como o Minhocão e o velho de Porto de Santos? Ou somos repletos de cores, vivos, pulsantes e dinâmicos, perspectiva oposta a dos administradores públicos? Os moradores do caso do Capão Redondo indicam a porta de entrada, ao caminharem sozinhos, sem esperar por alguém que nunca os verá.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Toninho, o agitador cultural

Plínio Marcos o chamava carinhosamente de “agitador cultural”, título reproduzido por muitas personalidades quando falavam dele. O produtor Toninho Dantas, um dos sujeitos mais importantes do cenário cultural da Baixada Santista, morreu aos 62 anos. Ele foi encontrado por dois amigos no próprio apartamento, às 19h30 da última sexta (dia 14), depois de faltar a uma reunião do Festival Santista de Curtas-metragens, o Curta Santos. Toninho era o idealizador e coordenador do evento.

Segundo depoimentos de amigos e colegas de trabalho, Toninho estava doente. Teria que fazer um transplante de fígado. Até agora, a causa da morte é desconhecida.

Pouco conversei com ele. Fiz somente entrevistas breves. Conheço somente a figura pública e passei a admirá-lo por enfrentar preconceitos e insistir em produzir cultura numa região marcada pelo conservadorismo e pela ausência de políticas públicas profundas e de longo prazo para o setor. Toninho sabia como lidar com as brechas do círculo vicioso da política e conseguia manter a coerência em organizar eventos de várias manifestações culturais.



Toninho Dantas me pareceu diferente à primeira vista. Um sujeito de barba grisalha comprida, cabelos bagunçados, vestido sem grandes preocupações estéticas. Corria como um menino pelo Teatro Municipal para verificar cada detalhe do Festival Santista de Teatro Amador, tradicional reunião da classe teatral da cidade.

Ele comandou o Festa por cinco anos, período em que encontrou as vacas gordas, mas – principalmente – conviveu com as magras. O Festa só vivia com folgas em ano de eleição, época em que os caras-de-pau se lembram de que a cultura move e reflete o ser humano.

Toninho Dantas talvez fosse considerado um empreendedor pelo mundo corporativo se tivesse ares de intelectual e vestisse terno e gravata. Mas “agitador cultural” cabia melhor a ele. Ele se reinventava para sobreviver no meio cultural. Usava de influência e experiência para manter o litoral no mapa, com recursos curtos e desinteresse de quem tem o dinheiro.

Toninho era um artista múltiplo. Transitou por várias artes, sempre preocupado com o engajamento social. A mão dele acendia a chama do ser humano como animal político e cultural. Apoiava a arte como mecanismo de virada contra as convenções sociais, ainda que a seu modo, ainda que colecionasse desafetos. É possível não gostar dele – diriam muitos -, mas não se pode minimizar o papel que exerceu na cultura local contemporânea.

Nascido em Guarujá, ele estudou na Escola de Arte Dramática, na USP, trabalhou em emissoras de TV. Como ator, participou do grupo teatral de Antunes Filho, em São Paulo. Depois, percebeu que sua área era a produção cultural. Além de cinema e teatro, Toninho produziu festivais de música.

A morte dele empobrece a cultura da região e, ao mesmo tempo, cria um peso para os profissionais do meio. Perde-se um sujeito que conviveu com visionários, absorveu ideias, fez a digestão adequada e as aplicou aqui, muitas vezes sem qualquer tipo de bônus.

A ausência dele aumenta a responsabilidade sobre o Curta Santos, festival consolidado, atraente para várias gerações de amantes e produtores de cinema. A porta de entrada para muitos sonhos de garotos que ainda crêem na velha máxima da “câmera na mão e uma ideia na cabeça”, ainda que num sentido simbólico de romantismo.



A sugestão redundante é que Toninho seja homenageado no próximo festival. Pena que não recebeu homenagens em vida. Mas foi reconhecido por aqueles que ainda tem nas veias a esperança de que a cultura local pode ser disseminada em todos os espaços e para todas as classes sociais.

Que o Curta Santos o homenageie de forma alegre, viva, pulsante, transgressora e contestadora. Assim seria o desejo (ou melhor, a prática) do velho agitador cultural, amigo e discípulo de Plínio Marcos. Claro que Toninho Dantas não prepararia uma festa para si mesmo, mas para a cultura caiçara.

domingo, 16 de maio de 2010

O time privilegiado

O médico e ex-jogador Tostão possui o melhor texto da mídia impressa, quando o assunto é futebol. Sensatas, as colunas dele sempre causam a sensação de surpresa. Tostão enxerga com decência, sem interesses, além do trivial. Costuma nadar contra a massa de cronistas. Ou se antecipa a ela.

A lucidez de Tostão se manifestou mais uma vez quando ele afirmou, há três meses, que recusaria um mimo do Governo Federal. O ex-jogador mineiro se referia ao benefício que consta no projeto de lei apresentado na última semana, pelo governo Lula.

O projeto estabelece prêmio de R$ 100 mil mais auxílio mensal de R$ 3,4 mil para os jogadores que participaram das Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, quando a seleção brasileira ganhou o título. Em caso de morte do atleta, o salário será repassado à família dele. O valor é correspondente ao teto pago atualmente pela Previdência Social. Se o ex-jogador recebe aposentadoria hoje, a diferença, em relação aos R$ 3.416, 54, será acertada.



O “presente” de Lula será custeado pelo Ministério da Previdência. O prêmio de R$ 100 mil, isento de Imposto de Renda e contribuição previdenciária, sairá do orçamento do Ministério dos Esportes. Ou melhor, os dois “agradinhos” terão origem na carteira dos contribuintes.

Por que temos que pagar mais esta conta? A medida cheira oportunismo eleitoreiro às vésperas da Copa do Mundo. O governo novamente confunde o público e o privado ao trabalhar com uma espécie de compensação perversa. Que culpa temos de que muitos jogadores não souberam administrar suas vidas pessoais?

Por que privilegiar, especificamente, os jogadores titulares e reservas de três mundiais de futebol? Todos foram premiados na época, além de serem profissionais no período. Se rezarmos pela lógica lulista, por que privilegiar um único esporte e não estender o benefício às demais modalidades que produzem campeões mundiais e olímpicos?

Não defendo a extensão do prêmio. O que questiono é o fato de escolher somente o futebol, numa ação com cheiro de populismo e/ou marketing eleitoral. O político aplica, sem pensar, a prática que norteia a si próprio. O olhar particular sobre as coisas públicas. A mentalidade de que um grupo sempre se destaca na comparação com o todo, às custas do que, na visão dele, seria de todos e de ninguém.



O governo Lula não difere dos demais no sentido de distorcer, sentado à sombra do poder, o papel público do Estado. O governo criou uma “turma de amigos”, com direito à teta especial, sob o argumento de que deveria auxiliar muitos jogadores em péssimas condições financeiras.

Em primeiro lugar, parte destes atletas vive muito bem, obrigado. Muitos levam uma vida de classe média. Outros ganharam dinheiro com o futebol durante e depois que encerraram as carreiras como jogadores. Transformaram em técnicos, por exemplo. Alguns são milionários e figurinhas carimbadas na mídia.

Se a ideia era ajudar os ex-jogadores que enfrentam problemas financeiros, por que não inclui-los em políticas públicas para os aposentados? Não, sempre se opta pela saída promíscua e veloz de uso do dinheiro alheio.

Ex-jogador é um trabalhador aposentado, com os mesmos direitos e prerrogativas dos profissionais de outras áreas. O projeto de lei soa como caridade perversa, até porque se utiliza do sistema previdenciário e se esquiva de olhar para o restante da sociedade. Basta observar a reação do governo à proposta de aumento de 7,7% para os inativos.

Peço desculpas por usar este termo, demasiado injusto, mas o governo os vê desta forma. Milhões de aposentados precisam trabalhar até a morte ou a invalidez absoluta para sobreviver em condições dignas, para não dizer mínimas.

O prêmio de R$ 100 mil reforça a proposta indecente de Lula. Premiar os três times a troco de quê? O capricho presidencial com meu dinheiro criou uma casta de privilegiados. Mais do que isso: pariu um precedente perigoso. Os campeões de 1994 e 2002 poderiam pedir a extensão do prêmio e da aposentadoria? E os praticantes de outros esportes? E os artistas premiados internacionalmente?

Pagar prêmios para atletas profissionais não é função de governo algum. É papel de patrocinadores e clubes, que faturam montanhas de dinheiro com a metamorfose dos esportes em negócios globalizados. O futebol profissional é uma atividade privada, com supervisão pública. Não deveria ser deste modo, mas assim a prática se configurou.

Penso ser aceitável que este presidente, em quem votei duas vezes, se mostre um homem “comum” nas expressões e nas paixões, como o futebol. Ele se aproxima do povo, sem soar artificial, sem esconder (apresentar?) a empáfia e a arrogância de muitos intelectuais. Este comportamento se constitui em um dos pilares da popularidade do lulismo.



Uma coisa é brincar e comentar sobre futebol em palanques ou solenidades. Outra atitude é interferir no mundo esportivo-corporativo, como se fosse o quintal de casa. Na hora de investigar os cartolas de clubes e federações, o segredo foi se passar por um cadáver. De preferência, com a boca costurada.

É uma pena que o Governo Federal gaste tão mal este dinheiro. São recursos que estariam bem empregados em saúde, educação e outras áreas sociais. Mas aí valeria a desculpa tradicional da burocracia e da necessidade de organizar projetos públicos.

É mais cômodo e eficaz – em período eleitoral – mascarar serviços e ações de má qualidade numa embalagem de política pública. E comunicar (mentir) a todos nós que, na verdade, sempre fomos premiados pelo Poder Público. Exceto para os amigos do rei, que recebem comendas à parte.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O casamento gay

Ao promover uma audiência pública essa semana, a Câmara dos Deputados começou a pressionar uma ferida espinhosa, ainda mais em ano de eleição. A audiência envolveu o Estatuto da Família, projeto de lei que tramita há três anos no Congresso Nacional.

O Estatuto da Família, com 274 artigos, tem a intenção de atualizar o mapa das relações afetivas no país, além do casamento e da união estável. Entre outros pontos, os casais homossexuais passam a desfrutar dos mesmos direitos dos casais heterossexuais, como adoção, guarda e convivência com filhos, além de direito previdenciário e à herança.

No encontro, em Brasília, prevaleceu mais uma vez a polarização entre os radicais religiosos e os defensores pela ótica social. O resultado foi o avanço tímido no debate sobre o Estatuto e um festival de declarações, no mínimo, insensatas.

Animais e mortos - As palavras mais duras vieram do pastor Silas Malafaia, apresentador de um dos programas religiosos da TV aberta. Para ele, as relações homossexuais são equivalentes a relações sexuais com animais e pessoas mortas. A declaração do pastor, em tom irônico, publicada na Folha de S.Paulo do dia 13 de maio: “Vamos colocar na lei tudo o que se imaginar. Quem tem relação com cachorro, vamos botar na lei. Eu vou apelar aqui. É um comportamento, ué, vamos aceitar. Quem tem relação com cadáver, é um comportamento, vamos botar na lei.”

O Estatuto seguiu a tendência do mundo ocidental e, também por isso, provocou manifestações acaloradas da bancada conservadora e dos deputados ligados a várias religiões, principalmente as evangélicas e a católica. Até agora, essa turma levou a melhor, pois conseguiu travar o Estatuto nas teias da burocracia por três anos.

Argentina - Na semana passada, a Câmara Federal da Argentina aprovou por 126 votos a 109 a mudança no Código Civil, que autoriza o casamento gay. O ex-presidente Nestor Kirchner votou a favor da proposta. A sessão foi adiada várias vezes por pressão da Igreja Católica.

A Argentina é o primeiro país da América Latina a avançar na questão. O projeto precisa de aprovação no Senado para que se transforme em lei. É um primeiro passo. Resta debater outros pontos como a adoção de crianças.

Na Argentina, as entidades de defesa dos direitos dos homossexuais adotaram uma postura louvável e eficaz ao inundar o Poder Judiciário com pedidos de autorização de casamento. Isso antes do projeto passar pela Câmara. A iniciativa começou no ano passado e, desde então, cinco casamentos foram realizados lá.

O casamento entre homossexuais é, acima de tudo, o reconhecimento jurídico a partir de pilares cidadãos e de senso de coletividade. A sociedade brasileira jamais se configurou pela premissa da família de comercial de margarina. Aquela família patriarcal, com papai feliz no trabalho, mamãe Amélia contente com os afazeres domésticos, mais casal de filhos felizes e protegidos no seio da família representa uma idealização cultural pop.

A família feliz é um delírio social, sem bases práticas. Nunca vivemos este modelo. Fantasiamos e permanecemos mergulhados na ilusão, que se complementa com a casa própria, o carro na garagem e o cachorrinho que traz o jornal e os chinelos. Só falta a cerca branca para o sonho se igualar aos bairros suburbanos dos Estados Unidos. Mantemos a compostura para esconder o mau cheiro quando fechamos a porta.

O mundo contemporâneo diversificou o modelo familiar, inclusive na questão do aspecto sexual. Neste sentido, o casal gay precisa ser pensado pela premissa política e social, menos pelo aspecto moral (na verdade, moralista).

As instituições religiosas, telhado de vidro no comportamento sexual de muitos de seus líderes, deveriam se abster dos palpites reacionários e solucionar os problemas internos, que tanto chocam parte da opinião pública.

O casamento gay, junto com a atualização jurídica, evitará o sofrimento de centenas de famílias, principalmente quanto às conseqüências após a morte de um dos parceiros. O sofrimento fica latente quando há diferenças sócio-econômicas agudas entre os cônjuges. É comum a família do parceiro morto se apropriar dos bens construídos pelo casal em anos de relacionamento.

Marginais - O Brasil deveria seguir o exemplo do vizinho dentro das casas políticas. O país que possui a maior parada gay do mundo ainda permanece enraizado numa forma intolerante de conduzir a agenda pública. Somos uma sociedade carregada – e incapaz de reconhecer – de preconceito. Manifestamos nossa hipocrisia com um olhar de candura em público e o chicote na mão dentro de casa.

Gays são tratados como marginais, seres sem-vergonha, pessoas doentes ou ameaças dignas de uma reação violenta. Os homossexuais apenas engordam a lista de grupos marginalizados que fazem por merecer borrachadas da polícia e outros tipos de tortura, seja física ou psicológica. Se pudesse, parte da sociedade os trancaria em depósitos de gente, com sumiço posterior da chave.

È a garantia da família feliz, que sorri para os vizinhos, ruge para quem considera promíscuo e os empurra para dentro do armário. Banir o diferente ou matá-lo em vida são hipóteses fáceis de se concretizar.

O debate sobre o casamento entre homossexuais ainda está marcado pelo obscurantismo, protegido por uma cortina de fumaça que protege e perpetua o preconceito. Discutir a homossexualidade, hoje, está acima da moral. O assunto merece um tratamento civilizado, maduro, centrado na humanidade dos seres. O fundo moral dá o direito de julgamento. Com que direito se julga o outro em sua individualidade?

Estados Unidos - Esta semana, a Universidade da Califórnia divulgou uma pesquisa sobre adolescentes homossexuais. Pelo estudo, eles têm oito vezes mais chances de se matar quando abandonados pelas famílias. Sofrer depressão, seis vezes mais. A pesquisa aponta que 30% dos pais reagem mal ao receber a informação de que o filho ou a filha é gay. Metade dos pais responde de forma ambígua. Apenas dois em cada dez reage bem. O trabalho abrangeu também tios e avós.

Tenho a impressão de que a pesquisa chegaria em resultados semelhantes no Brasil. A mudança na legislação reforça a necessidade de combate à intolerância sexual e um novo olhar para a dinâmica da sociedade contemporânea. Mas a redução do preconceito e o respeito pelo outro, por aquele que é diferente de mim (e tem este direito moral), não acontecerão por meio de uma canetada dos políticos. Ajuda, mas não altera comportamentos cotidianos. Até porque, como a pesquisa da Universidade da Califórnia constata, os carrascos podem viver na mesma casa das vítimas.

Ser ou não ser: eis o Alpino

Uma das propagandas marcantes dos anos 80 falava de um shampoo anti-caspa, que pretendia atrair o consumidor pela estética, e não como saída para um problema capilar. Denorex tinha como slogan: “parece, mas não é”. Vendeu como água, no chavão do comércio.

Esta semana, a Nestlé me fez lembrar da brincadeira com a identidade do shampoo. A empresa alimentícia se envolveu em uma saia justa por causa de um de seus produtos. O assunto colocou fogo no debate, a partir da Internet, sobre os limites no relacionamento entre marcas e consumidores.

A Nestlé colocou no mercado há três meses a bebida Alpino Fast, mercadoria voltada para o público jovem. O produto leva o nome de um dos chocolates mais populares da empresa, além da cor e do design da embalagem serem demasiado semelhantes à embalagem do bombom.

O problema é que, na garrafinha, aparece a inscrição: não contém Alpino. Um consumidor divulgou a informação em seu blog e o caso ganhou os veículos de comunicação.

O Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, ligado ao Ministério da Justiça, o Ministério Público do Rio de Janeiro e o MP de São Paulo pediram informações à empresa. Segundo a Folha de S.Paulo, as multas combinadas podem chegar a R$ 11,5 milhões.

O Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária vai analisar o episódio. A Nestlé pode receber a recomendação de alterar ou até suspender as campanhas publicitárias da bebida.



Ontem, a Nestlé mudou de opinião e explicou à imprensa que o produto contém “massa de Alpino” na composição. A primeira versão da empresa falava em incompatibilidade no processo produtivo do Alpino Fast. Em qual das declarações acreditar? Em que momento a empresa mentiu? Massa de Alpino é o chocolate ou retórica corporativa?

O caso mostra que ainda é possível apostar numa evolução de comportamento por parte dos consumidores. E que as empresas precisam perceber que não é tão simples lesar seus clientes. A informação circula de maneira mais rápida, com a redução de espaço e tempo a quase zero. As redes sociais, blogs e sites multiplicaram a velocidade de troca de experiências, o que gera ressonância nas chamadas mídias tradicionais, sob controle maior das marcas anunciantes.

O processo de evolução no comportamento do consumidor é recente, com início nos anos 90. O Código de Defesa do Consumidor é a fronteira entre a bagunça e a proteção aos cidadãos. As queixas cresceram e se diversificaram, talvez por maior atenção das pessoas, talvez pela perpetuação do desrespeito por parte das companhias.

Penso que ainda misturamos as duas estações, com prevalência do lado consumista. Consumir implica em satisfazer desejos e necessidades individuais, com pouca ou nenhuma percepção de coletividade.

O consumidor se basta! Ele é egocêntrico e somente olha em volta no momento seguinte à satisfação pessoal, na busca obsessiva por status, a conseqüência do reconhecimento do outro.

A aquisição e o uso de produtos não provocam um olhar de extensão ao próximo, e sim o pedido de aprovação, de legitimação da marca que torna o sujeito apresentável ou socialmente vivo.

Quando uma empresa lesa seus clientes, a reação pode ser coletiva como a difusão pelas redes sociais. Mas a indignação fica na retórica ou nas reações desorganizadas e individuais. Esta limitação indica que estamos longe de alcançar o patamar dos norte-americanos, logo eles que simbolizam o consumo como religião do capitalismo.

Nos Estados Unidos, em casos semelhantes, a reação dos consumidores é o boicote aos produtos até que a empresa se posicione de maneira favorável à sociedade. Quer maior punição do que virar as costas para as mercadorias?



Aqui, temos os mecanismos legais, porém seguimos amarrados no sofá da sala, onde esbravejamos para nós mesmos.

A percepção de que consumir representa uma ação cidadã ainda é frágil. As empresas, via de regra, apostam na passividade de muitos clientes, que encaram a satisfação à sociedade como mera formalidade ou como parte da tentativa de se construir uma imagem positiva. O temor não paira sobre as cabeças dos executivos de marketing.

O caso da bebida Alpino Fast é um avanço de como as redes sociais podem ir além das fofocas e exposições da vida privada. Só que falta abandonar o teclado e enfeitiçar a queixa, de modo que se transforme em reação coletiva.



Assim, uma empresa globalizada de alimentos pensaria duas vezes em divulgar duas versões em dois dias. Como se os consumidores (ou cidadãos embrionários?) vestissem sapatos de número maior e bico largo, nariz vermelho e maquiagem colorida.

A ironia desta história está na bebida, que funciona como metáfora da sociedade de consumo. É o micro-exemplo do parecer ser como objetivo único. Estamos encarcerados, infelizmente, na premissa de que cultuar a essência é coincidência, acaso ou miragem.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os sete condenados

Ao divulgar a relação de 23 jogadores para a Copa do Mundo, o técnico Dunga agiu como um treinador de futebol. Ele foi coerente, teimoso e misturou critérios técnicos e subjetivos para definir o time. Adicionou ao caldeirão pitadas de contradições e preferências inconciliáveis com uma explicação racional.

O grupo infestado de volantes e reservas pouco me importa, no momento. O que me interessava realmente – até porque não acreditava em grandes surpresas, embora torcesse pelo contrário – era a lista de espera. Aqueles sete jogadores que podem ser convocados, caso algum dos 23 eleitos seja cortado por lesão.

A lista de espera, liberada ontem à tarde, é formada por: Alex (Chelsea/Inglaterra), Ronaldinho Gaúcho (Milan/Itália), Diego Tardelli (Atlético-MG), Ganso (Santos), Sandro (Internacional), Marcelo (Real Madrid/Espanha) e Carlos Eduardo (Hoffenheim/Alemanha). Na justificativa de Dunga, o pequeno grupo é formado por jogadores que podem executar várias funções.

Os sete jogadores receberam uma sentença. Tornaram-se a turma do quase. Não poderão treinar com o grupo. Não poderão sentir o clima da Copa do Mundo in loco. Não poderão vestir os uniformes da seleção tampouco tirar fotos com os torcedores. Ficarão de fora do pôster que decorará armários e paredes por todo o país.



A sentença estabelece uma pena de 19 dias. Segundo o regulamento da Fifa, se houver a necessidade de corte até 31 de maio, o técnico terá que convocar um dos sete condenados. A partir de 1º de junho, a lista perde validade e Dunga poderá convocar quem quiser. Um atleta pode ser trocado, em caso de lesão grave, até 24 horas antes da primeira partida da Copa.

A lista dos sete é um exercício de perversidade. Os membros deste grupo, claro, dão entrevistas amenas, sentem-se honrados pela lembrança, prometem torcer pelos colegas, dignos de estarem na África do Sul. No fundo, os sete precisam fazer mandingas pela desgraça alheia.

Estes jogadores receberam autorização para torcer por uma contusão de outro atleta. Ganharam carta branca para fingir solidariedade, enquanto acenderiam uma vela para que outra pessoa sofra dores ao ponto de impedi-la de trabalhar. Sair da lista de espera implica em orar – sabe-se para quem – pela fadiga, pelo sofrimento, pelo azar do outro.

Os sete foram condenados pelo técnico Dunga a cultivar a paciência. Regar um sonho durante 19 dias, sem garantias; apenas um cheque em branco do acaso os leva à Copa do Mundo. Tais jogadores deverão se acostumar com o descontrole de seus destinos dentro do mundo do futebol. O desempenho técnico ou físico, no caso deles, equivale a nada fora de seus clubes.

Os sete foram condenados à tortura psicológica até o final do mês. A crueldade virá, por exemplo, dos jornalistas, com as mesmas perguntas sobre a quase-convocação, sobre as expectativas de bater na trave do Mundial, sobre a torcida pela seleção. Os atletas serão machucados por torcedores que gritarão os nomes de alguns deles nas arquibancadas, enquanto os jogadores suam e sangram para focalizar seus esforços em decisões de campeonatos.



Os sete tiveram os pés cimentados na soleira da porta de entrada da história contemporânea. Enxergam o Olimpo, mas não tocarão em seus pilares. A nostalgia os elegerá como sujeitos injustiçados, que quase chegaram à Copa do Mundo. O “se” é o carimbo na testa de quem poderia fazer a diferença na África do Sul.

Os sete foram condenados à negação da última chance. Pior do que ser cortado é estar na lista de espera. Os sete tiveram negado o direito de mostrar para Dunga que merecem uma nova oportunidade. Não podem arrebentar em treinos, se transformar em arma-surpresa taticamente ou apresentar polivalência.

Qualquer um deles jamais poderá indicar para o treinador, dentro de campo, que ele escolheu errado um colega. Os sete têm como destino a espera por maus resultados para comentar, a boca pequena, que deveriam ter viajado à África. Se o time for campeão, as palavras deles soarão como invejosas ou de profundo ressentimento.

Os sete foram condenados a reforçar o cala-boca na opinião pública, que clamava por muitos deles, estendia faixas nos estádios, reivindicava nos programas de TV e de rádio. Se nenhum deles for ao Mundial e o Brasil vencer, as preferências nacionais, mais os coadjuvantes e as zebras da lista, cairão no ostracismo como símbolos do lobby.

Um exemplo era Romário, de unanimidade nacional a silêncio constrangido, em 2002, quando a seleção se tornou pentacampeã sob o comando de Luiz Felipe Scolari. A cada vitória na Ásia, Romário virava pauta velha.



Na convocação de ontem, o técnico Dunga não fugiu da cadeira de juiz. Manteve as posições cristalizadas em quatro anos, contornou as contradições de critérios e oficializou a turma de bons moços, leal e politicamente unida.

Dunga, como mensageiro do paraíso, enviou 23 jogadores ao panteão da história das Copas. E, como carrasco, de foice e roupa preta, condenou outros sete ao purgatório do mesmo endereço.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Homem-de-Ferro: o super-herói in natura

Os super-heróis, na cultura pop, aborrecem. Na ânsia de atender ao maniqueísmo fácil pela desculpa da compreensão coletiva, os autores os tornam chatos de tão bonzinhos. Os super-heróis são mais do que incorruptíveis. Eles atendem ao politicamente correto, que dita regras e valores e se transforma numa patrulha cultural que beira o autoritarismo. Até as crises de consciência, como a de Peter Parker, em Homem-Aranha 3, infantilizam os personagens.

Como os heróis são lineares e previsíveis, fica para os vilões o papel de divertir e permitir alguma leitura psicológica. Os vilões poderiam ser os espelhos dos heróis e provocar o mesmo efeito da obviedade, mas muitos deles – como o Coringa – fascinam pelo contraditório, pelo cinismo, pela ironia sofisticada. Tais características, que levam a violência irracional do Batman, por exemplo, nos divertem e até nos fazem torcer por eles.

Ontem, assisti ao filme Homem-de-Ferro 2. Ali, vi um herói diferente, demasiado humano e atraente na própria imaturidade.

Tony Stark, o personagem que veste a armadura de metal, é egoísta, obsessivo, narcisista, vaidoso, boêmio, mulherengo e impulsivo. O personagem, interpretado por Robert Downey Jr., é coerente com sua própria condição. O ator, pela biografia, possui histórico de comportamentos típicos do herói da ficção.



Na produção cinematográfica, Tony Stark é o empresário mais poderoso do ramo de armas, numa época em que a indústria bélica representa um dos três maiores segmentos da economia globalizada. A informação não é do roteiro, mas do mapa geopolítico de hoje.

Culto e sofisticado, Stark é preconceituoso e auto-referente como um digno representante da elite econômica e política. Mas protege os amigos, é capaz de generosidade e se preocupa com questões internacionais, embora encene certo tom de alienação. È a pitada do formato americano de entretenimento. Surpresa seria se fosse o inverso.

Na pele do Homem-de-Ferro, Stark funciona como um super-herói mais próximo da realidade de um sujeito que designa o papel a si próprio, sem encará-lo como missão. Ele não nasce herói. Decide ser! Ser um herói significa desfrutar da glória, dos holofotes da mídia, e expor seu poder diante dos comuns. Numa cena do filme, Stark diz a platéia (e às câmeras, ao vivo) que acompanha uma sessão do Senado americano.

- Eu privatizei a paz mundial.

O filme discute – dentro das limitações de um blockbuster – a fome bélica dos Estados Unidos. Stark se recusa a ceder ao governo a armadura, que seria utilizada para assegurar as guerras em curso. O Homem-de-Ferro se encaixa como o soldado perfeito, já que o Capitão América é ironizado em outra cena da história.

Não espere um debate filosófico sobre as razões da guerra. O roteiro é simples, previsível, e serve aos efeitos especiais e às cenas de ação. Cumpre a proposta de entretenimento, sustentada por um personagem pop e um elenco renomado.

Neste ponto, Mickey Rourke – com a carreira ressuscitada – convence como Ivan Vanko (foto abaixo), físico russo em busca de vingança pela morte do pai. Aquela divergência surrada, em que filhos herdam as diferenças dos pais; no caso, todos cientistas. O filme também permite saber um pouco mais das relações entre Tony e seu pai, Howard Stark.



Homem-de-Ferro 2 costura melhor e fortalece a relação do herói com os Vingadores, que deverá fechar a saga destes personagens daqui a dois anos. A história dá mais detalhes sobre a Shield, com a presença de Nick Fury (Samuel Jackson) e da ambígua agente Romanoff (Scarlett Johanson, uma das mulheres mais belas do cinema contemporâneo). Sam Rockwell é o empresário caricato de armas que se alimenta da inveja por Tony Stark. Um vilão megalomaníaco, cheio de maneirismos e aspectos rotulados.

Downey Jr. é o centro do filme. Ele aprimora o Tony debochado e moleque do primeiro Homem-de-Ferro. O personagem brinca com a morte e esconde os próprios medos diante do sarcasmo e da irresponsabilidade. Posa como soberano, mas se enche de temor quando sozinho.

No fundo, ele é um herói pecador, com virtudes e defeitos de um indivíduo – em princípio – normal. De perto, alguém com poder além da compreensão e controle de um único sujeito. Sujeito que cultiva a própria vaidade e erra pela arrogância.



Quantas pessoas você conhece que se deitam com soberba na cama do poder? Quantos correspondem à máxima popular: para conhecer alguém, dê algum poder a ele? Tony Stark se deu o poder e desfrutou dele como um playboy descontrolado, cru na própria coerência.

Uma observação indireta: pela primeira vez, vi um filme sozinho na sala de cinema. Fui à sessão das 12h40. Antes que me considerem um desocupado, aproveitava a hora do almoço. Sentir-se bem ao ver um filme, com exclusividade, numa sala de shopping soa, cinicamente, como uma experiência egocêntrica, digna de Tony Stark.

domingo, 2 de maio de 2010

O novo Gerson

Costumo ver sozinho as finais de campeonato. A reclusão voluntária talvez seja uma maneira de não se contaminar pela paixão, a esperança de enxergar algo diferente na partida, com um pouco mais de racionalidade. Sempre acabo vencido por algum tipo de emoção, normal e necessária para um jogo importante de futebol. Pode ser nervosismo, ansiedade, admiração ou inveja.

Na final entre Santos e Santo André, foi meu pai quem melhor definiu a diferença do jogo. Ele, santista, logo após a final, entrou no quarto e me disse:

- O Ganso é o novo Gerson!

Fiz comentários triviais sobre o jogo, pois precisava pensar a respeito. Era um título muito forte para um atleta de apenas 20 anos. Um peso colocado nas costas de alguém que já carrega a 10 do Santos. Só número da camisa é a história de quase um século e a trajetória do maior ídolo do esporte. Lançar o canhotinha sobre o santista poderia ser sadismo.

O fato é que, sem o peso sugerido, a maioria dos jogadores cai de quatro, chora no quarto, se esconde com as pernas trêmulas. Ou foge para outras bandas e reina em territórios menores.

Meu pai está coberto de razão e merece o crédito pelo título deste texto. A final no Pacaembu foi memorável. A formiga quase derrubou o elefante-leopardo. Não conseguiu porque este animal não é paquidérmico. É veloz. Mas Davi quase cumpriu seu destino diante do gigante.

A final será lembrada por todos os ingredientes: cinco gols, quatro expulsões, o pequeno que espremeu o grande, o Santos com oito atletas no final. Mas o dono da história foi Paulo Henrique Ganso. Ele liderou o time quando o alarme disparou. Liderou o Santos aos 20 anos de idade. A cena mais emblemática foi quando ele se recusou a deixar o campo. Exausto, pediu ao treinador Dorival Júnior para ficar. Neymar e Robinho já estavam fora. Alguém tinha que distrair a formigas com astúcia.

Ganso personifica o que mais precisamos no futebol de hoje: um camisa 10. Legítimo! Canhoto como Gerson, o meia do Santos indicou que possui a consciência dos craques. Deu um passe filho de Sócrates para o segundo gol de Neymar. E segurou a bola na frente quando era a hora do elefante se proteger. Um garoto que parecia ter 15 anos a mais. Um idoso, cheio de sabedoria no corpo de menino.

Ganso é mistura rara no futebol de hoje. Ele é um meia clássico, de passes precisos e verticais. Joga com a lucidez de quem alimenta os artilheiros e surpreende as defesas com assistências adocicadas para o gol. Corre de jeito esguio, olhando para frente, com foco na criação e respiração ofegante pelo gol, pelo lance decisivo nas proximidades da grande área.

Ganso poderia ser engolido pela modernidade cruel da força física, da marcação sem limites, do medo de perseguir o gol, da prevalência pela destruição que nasce junto com os volantes viciados em passes laterais.

Paulo Henrique prova que o criador sabe ser poeta quando destrói. Mata com um sorriso para a vítima. O meia do Santos, por vezes, jogou como uma espécie de segundo volante, solidário a Arouca, o homem destinado a sofrer, a sobreviver pelos destroços da jogada alheia.

Paulo Henrique Ganso é o oásis no deserto de volantes e meias covardes. O Santos foi abençoado com um camisa 10. Nos demais times brasileiros, temos homens que vestem o número por circunstância, jamais por vocação.

Ganso é vocacionado à missão da principal camisa. Tem a paciência dos diferenciados. Foi rebaixado para os juniores depois de debutar entre os profissionais. Esperou e voltou melhor. No jogo de hoje, ele entendeu o papel de condutor, conforme declaração publicada no portal UOL: “Chamei a responsabilidade, pois senti que deveria fazer isso. Com a camisa 10 da equipe tenho que ter essa postura. Não quis sair e fui premiado com o título.”

Ao se recusar a sair, o jogador não desrespeitou o técnico. Apenas viu o jogo de maneira mais cristalina naquele momento. Dorival Júnior, em tempos de técnicos engravatados, donos de projetos e auto-referentes, suou uma das qualidades de um líder: saber o ponto em que um comandado toma a decisão decisiva.

Ganso também é líder. Mas age como eminência parda, menos badalado, menos festivo, menos acrobático. Usa o malabarismo para os outros. Mantém a serenidade e segura a bola não por ser fominha, mas por aguardar a hora do bote e acalmar os colegas. É claro que, durante o campeonato, foi agressivo e até violento, comportamentos perdoáveis para um jovem sob pressão.

Ganso se parece com Gerson. Lembra o gênio. Ainda não o é. Mas tem o tempo a seu favor, o que pode ser uma vantagem ou um fardo. Os jogadores comuns temem o dia seguinte. Os craques encaram como nova oportunidade. Parece ser a vocação de Ganso.

A campanha para tê-lo na seleção a partir de 11 de maio é justa. Atacantes, temos várias opções nos principais times europeus. Neymar seria mais um na lista, aquele menino a ser preparado para a próxima copa.

Na posição de Paulo Henrique, apenas Kaká. Dunga não vê Alex, do Fenerbahce, tampouco enxerga Diego, da Juventus. Se ele tiver que escolher um nome nas praias de Santos, que o técnico leve o Ganso. A camisa 10 ainda é a diferença entre os artistas e os operários.