terça-feira, 24 de novembro de 2009

O torcedor ideal



Raphael, estudante universitário de comunicação, entrou de camisa verde na sala de aula. Era o uniforme do Palmeiras. Um dos professores, palmeirense roxo, só notou a camisa ao final das atividades.

Ele se aproximou do aluno para comentar a vitória do clube no dia anterior. Ouviu como resposta:

- Sou são-paulino.

- O quê? Então, tire já este manto sagrado, brincou surpreso.

Raphael devolveu o sorriso como quem alcançou seu objetivo. E resolveu explicar a dúvida óbvia: por que um são-paulino vestia a camisa do Palmeiras? Promessa? Aposta perdida?

- Eu tenho camisas de vários clubes. E adoro vestir todas.

Raphael jura fidelidade ao time de coração, mas ama mais o futebol. E se diverte com as provocações entre os torcedores.

- Quando o Corinthians perde, saio na rua com a camisa do clube apenas para ver se as pessoas tiram sarro, comentam o jogo. Uma vez, apareci na TV porque jogava bola na praia com shorts do Corinthians, camisa do Santos e faixa na cabeça do São Paulo.

Sem saber, o estudante universitário seria a personificação daquelas campanhas, normalmente inócuas, organizadas pela paz nos estádios. Raphael ignora o teatro do fair play, promovido por entidades incapazes de cumprir a legislação, mas promíscuas nas relações com bárbaros que sobrevivem da intolerância.

O estudante entende, à maneira dele, que o futebol ultrapassa os limites do tribalismo selvagem. Ver um drible e gritar um gol são atos demasiado humanos para as facções que suam ódio e se armam para batalhas nos acessos às arenas esportivas (no sentido romano, faltando somente os leões).

Ele é o torcedor ideal, a lembrança poética de uma crônica rodriguiana. Vestir a camisa de outro time é o poeta que reage à tragédia. É a simplicidade única numa ação anônima. A resistência quase juvenil contra a mutação do esporte em cifrões. O torcedor que incorpora espiritualmente a idolatria por um jogo de broncos que – aos soluços de saudade - chamamos de arte.

Com cinismo, não vou publicar o sobrenome do torcedor para protegê-lo. A paixão pelo futebol pode cegar e transfigurar o mais pacato espectador de uma partida. Torcedor de futebol, quando ama, quer exclusividade. E não perdoa o que considera traição.
Raphael, obcecado pelo futebol como religião ecumênica, corre o risco de alcançar o que nem os juízes conseguem: a fúria de todas as torcidas, ao mesmo tempo.

A "puta", a escola e as imagens

Conversava com uma amiga sobre o caso da estudante de turismo da Uniban. Diante da selvageria dos estudantes e da omissão inicial da universidade, ela me disse: - Acho que chegamos ao fundo do poço.

Sem pensar, respondi: - Sempre pode ficar pior.

A história da aluna e seu micro-vestido, com contornos de dramaturgia, ganhou novos episódios – é óbvio – que indicam como uma sociedade autoritária e moralista lida com as questões públicas. Era uma novela que, se escrita por autores profissionais, colocaria uma carreira em risco. A do próprio autor, sob a acusação de excessiva fantasia.

Nas rodas de conversas, comecei ter a impressão de que a garota não importava mais. Ela havia virado uma imagem, personagem moldada conforme os argumentos (ou achismos) de quem falava.

O roteiro da estudante e do vestido dela se transformou numa sucessão de imagens, que podem ser vistas de vários ângulos. Podem, inclusive, ser recombinadas, reeditadas ao gosto do freguês. Somos tão escravos delas que nos esquecemos do ser humano que originou a história.

Pensando, por exemplo, no ângulo dos agressores. O que fazem autoritários e moralistas? Vendem, apontam e vomitam imagens que os demais devem atender para serem aceitos.

Não conheço um autoritário ou moralista que se veja desta forma. Um indivíduo que se encaixa nestes adjetivos constrói uma imagem superior diante dos outros. Aponta o dedo com o orgulho e a vaidade do conhecimento de causa. Ataca antes de ser atacado. E dita regras pelo fato de estar preocupado com a imagem que os outros farão dele. E esta imagem tem que refletir o próprio sujeito.

Uma imagem nunca é retrato fiel da realidade. Limita-se a ser recorte dela. É versão mal acabada de quem a captou. A imagem, sozinha, sofre de superficialidade, mal se sustenta em pé sem a interpretação, o contexto, a análise. Imagem não possui consistência sem pensamento, sem diálogo, nem que seja consigo mesmo. Mas sobrevive. E se perpetua como vazio.

O caso de Geisy Arruda transborda imagens. Frágeis como o debate raso que cerca o tema. Insossas como os argumentos das mulheres que rasgaram as conquistas feministas. São imagens que apontam para a crueldade de quem poda a diversidade, o diferente, o desejo próprio do feminino. Mulher como imagem de mercadoria, digna dos programas populares de TV. Jamais uma mulher que pode desejar ou ser desejada, no dicionário da moral e dos bons costumes. Não passamos esta fase?

A imagem, quando perversa, vira rótulo. Transforma-se no carimbo sem cartilha explicativa. Sacode a lógica. Ou melhor: inverte-a para que a vítima suba no banco dos réus e se explique para o júri. Ou o Conselho Universitário, que acendeu a fogueira para a bruxa!

A estudante recebeu um rótulo de presente: “puta”. Roupas que autorizavam o estupro e a execração pública. E assinados por uma instituição de ensino, pela responsabilidade educacional, como publicou em anúncio na grande imprensa. Alguém – como repetem mulheres “independentes” – que não se deu ao respeito. Por trás do discurso, o dedo aponta a “meretriz” que deveria ser punida.

A Uniban também pensou na própria imagem, só que duas vezes: quando expulsou a aluna e quando revogou a medida. A universidade agiu sob efeito dos holofotes da mídia, reprodutora e construtora de imagens. Alegou conduta moralmente inadequada, sem explicar o significado do termo.

Diante da ressonância negativa do caso, inclusive com reportagens na imprensa internacional, a universidade voltou atrás. Não deu maiores explicações. Apenas tentou salvar a própria imagem. Confirmou o retrato do ambiente escolar.

Qual é a imagem da escola? A escola, na prática, está longe de ser democrática, embora se agarre no manto da pluralidade e da diversidade. Retórica bonita do pedagoguês! A escola é, em linhas gerais, conduzida com autoritarismo dentro e fora da sala de aula. Equipes pedagógicas que mal escutam professores, que ignoram os desejos dos alunos. Políticas públicas unilaterais que engolem a todos. As regras do jogo sempre caem no colo – ou na cabeça – de quem está embaixo. E cumpra-se!!!

O problema não é exclusivo dela. A escola está inserida de um modelo social, impregnado por preconceitos múltiplos. Vivemos sob a busca do padrão, a valorização dos iguais. Para os demais, a exclusão, velada em palavras doces ou na ponta de um cassetete.

A Uniban fez o que muitas instituições fariam. Isso não a exime de responsabilidade. Somente indica que a instituição tenta sobreviver e apagar a imagem de intolerância. E vai sobreviver, com a benção de um Ministério que lambe a própria imagem de fiscalizador.

Os autoritários e moralistas se escondem em seus próprios espelhos. Escondem-se na multidão, certos de que a imagem de comuns passará ilesa. A camuflagem permite que transitem em silêncio. Nas sombras, riscam o fósforo da fogueira que incinera o opositor. Falam baixo e fogem da luz. São covardes. Sofrem de pavor paralisante!! Autoritários temem que a imagem de correção se dilua em um choque público.

Recentemente, em sala de aula, discutíamos mídia. Em um determinado momento, o diálogo caminhou para o tratamento que prostitutas recebiam em certos programas de TV. Eu disse que muitos apresentadores – e suas macacas de auditório - não as tratavam como seres humanos. Ouvi, em seguida, uma frase, em tom quase inaudível, que poderia passar por envergonhado.

- E elas são?

O autor da pergunta olha para o chão e se fecha em silêncio. Quase uma imagem sacra de quem nada fez!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A japonesa e a Ponte Preta

Este texto foi premiado no concurso literário MULHER JAPONESA IMIGRANTE - 100 ANOS, promovido pela Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos, em 2008.

A primeira vez que a vi foi na universidade, quando começávamos o curso de Jornalismo no início dos anos 90. Imediatamente, ao vê-la vestida com um exótico uniforme de time de futebol, pensei em três perguntas, nenhuma delas genial, somente óbvias e fruto de curiosidade dos mais próximos. Na verdade, nunca as fiz, mas o tempo me deu a resposta para uma delas.

Como poderia uma pessoa –nascida em Santos - torcer para a Ponte Preta, sem jamais ter conhecido a cidade de Campinas? Como poderia uma mulher, sem se relacionar com ninguém que torcia para o mesmo time, se apaixonar pela Macaca campineira? Como poderia uma mulher, descendente de japoneses, se interessar por um time sem quaisquer vínculos com a colônia ou com a região onde reside?

A única resposta que obtive foi que a paixão pela Ponte Preta nascera naquele momento em que toda criança – por volta dos seis aos oito anos – começa a entender um pouco a dinâmica do futebol. Isso acontecera na passagem dos anos 70 para a década seguinte. E como normalmente a criança escolhe o time que ganha bastante ou sempre chega às finais, ela passou a gostar da equipe do interior do Estado.

A amizade cristalizou ao longo da universidade e depois viemos a trabalhar juntos. Numa segunda-feira, o clima na mesa de trabalho dela era de velório. Pensei: - Um parente morreu!

Ao me aproximar e olhar para ela, percebi de imediato a dor e conectei com uma das páginas do Caderno de Esportes, aberta sobre a mesa. A Ponte Preta havia sido rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Foram dias de luto e de silêncio.

A ansiedade diante de um quadro que não se alterava me fez tomar uma decisão. Encostei à mesa de trabalho dela e fiz a promessa: - Não importa aonde, mas nós estaremos no estádio no dia em que a Ponte Preta retornar à Primeira Divisão! A reação foi discreta, um sorriso de canto de boca, típico da cultura trazida de navio por seus avós, oriundos de Okinawa, na primeira metade do século.

Dois anos depois, a Ponte Preta chegou às finais do campeonato. O jogo decisivo seria em Campinas. O adversário, o Náutico, de Recife (PE). Saímos logo cedo, comigo ao volante do automóvel Gol. Como nunca tínhamos ido à Campinas, calculamos mal o tempo de viagem, obrigando-me a acelerar além da conta na rodovia Anhanguera. Os momentos de piloto ocasionaram a chegada de uma correspondência indesejável dois meses depois da partida: uma multa por excesso de velocidade. Preço mínimo pelo que testemunharíamos.

Que sofrimento! Partida equilibrada, muitas discussões, embora fosse jogo de uma torcida só. Ficamos em pé, pois se tornara impossível ver alguma coisa se sentássemos na arquibancada, além do risco de queimaduras diante de uma temperatura de 35 graus que cozinhava o cimento.

O goleiro da Ponte Preta, de nome Fabiano, fez vários milagres e um gol a cinco minutos do final – esqueci-me do autor - selou o resultado em 2 a 2. O empate era suficiente para o retorno à elite do futebol nacional e para provocar histeria generalizada no estádio.

Não a reconheci mais. Pulava como criança, abraçava torcedores e torcedoras que jamais havia visto, queria invadir o campo para apanhar um pedaço de grama como lembrança. Quase nos perdemos. Na volta pela rodovia Anhanguera, ela dormiu sorrindo, extasiada pelo que considerava a maior demonstração de amor que poderia dar pelo time. Para mim, a concretização de uma promessa que selaria definitivamente a amizade.

Faz três anos que não nos encontramos. Quase duas décadas de convivência me ensinaram que a leitura das aparências pouco importa – ou melhor, fortalece preconceitos – diante de uma teia ininterrupta de relações sociais em uma cultura miscigenada e em constante mutação. Outro ensinamento, talvez o mais pragmático de todos, consiste em concluir que não há torcedora mais apaixonada por futebol. Corrigindo: é a torcedora brasileira mais apaixonada de quem poderia sonhar em ser amigo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"A Puta da Uniban"

O título acima foi escrito com a missão de nos provocar, caro leitor. E não é de minha autoria. Confesso que havia pensado em alguma bobagem intelectualizada, como “Vestido para os perversos”, mas o nome de um dos vídeos postados no You Tube resolveu a questão. Nada mais direto. Nada mais hipócrita. Nada mais perverso.

Da história da universitária Geysa Arruda, de 20 anos, não me interessa a cor do vestido, se era minissaia ou micro-vestido, os motivos que a levaram a usar a roupa ou onde ela pretendia ir depois da faculdade. O que me assusta são o ambiente acadêmico, o tal reduto do saber no imaginário popular, num plano secundário, mas principalmente o comportamento dos espectadores, como o próprio nome se impõe, de “nível superior”.

Os alunos, funcionários e professores exercitaram a perversidade que assina manifestações de ódio e intolerância em grupo. A moça escapava aos padrões morais. Ela era ou estava diferente daquilo que moralmente deveria ser, na mentalidade dos perversos. E permitia o distanciamento que conforta, mascara e torna a crueldade impessoal: muitos sabiam que a garota estudava lá, mas a maioria não convivia diretamente com ela.



A reação não é nova ou original: humilhação pública contra aquele que representa o que me escapa ao controle moral. Não há entendimento, somente repúdio. A estudante, na visão dos que a chamaram de puta, simbolizava a vulgaridade da mulher-objeto, trazia outro ambiente para o “purismo” do centro do saber. O rótulo de objeto a aproximava de outra marca, que machuca os olhos dos seres humanos ditos normais: a prostituta.

Como puta, não deveria estar ali. Inferior, ela deveria ser confinada aos guetos, aos lares de luz vermelha. Pela transgressão, o carimbo do estigma a ser carregado na face, se quiser permanecer ali, na universidade. Os cruéis reforçam a limpeza da própria consciência.

A violência dos colegas – e mesmo dos desconhecidos, o que não alivia a perversidade – me faz lembrar casos em que inferiorizar ou desumanizar o outro chega às vias de fato. Só que violência psicológica é, normalmente, mais eficiente e danosa do que ataques físicos. Deixa rastros difíceis de detectar. A dor é carregada por dentro, sem que os demais a percebam, a não ser vítima e carrasco.

Qual a diferença entre os estudantes que ameaçaram Geysa de estupro porque acharam que ela parecia uma puta dos também estudantes que espancaram uma empregada doméstica no ponto de ônibus? Eles haviam confundido a moça com uma prostituta e se sentiram no direito de puni-la. Ou queriam reforçar sua superioridade como espécie? Mendigos, prostitutas, índios são invisíveis, ocupam outro patamar de existência. Como ousam conviver, diriam os ícones da perversidade moral?



É neste momento que a lógica da agressão se inverte. A vítima merece ser punida porque transgrediu códigos de conduta. Se não, deve haver algo no passado que a condena à revelia. Quem criou as tais de normas de última hora? Quem as perpetuou? É o caso de um representante da universidade, que ironizou o fato de que as roupas da estudante justificavam a reação violenta em cadeia. A forma como uma pessoa se veste dá o direito às outras de a ameaçarem de agressão ou de submetê-la ao escárnio público? Que tal puxá-la pelos cabelos e arrastá-la para a caverna?

Em sociedades autoritárias, esse direito se estabelece por meio dos que tem poder ou entre os que o rodeiam, submissos por migalhas e isentos de responsabilidade como recompensa. O que se viu na Uniban foi um exemplo de selvageria, com um verniz de autoritarismo, onde se reproduziram valores sem a menor dimensão de suas conseqüências. O alvo, neste sentido, é nada. Ou quase nada, pois se arriscou a desafiar as regras, os padrões estabelecidos – o que nem é o caso. Todos estavam cobertos dos pés à cabeça?

Estigmatizar, carimbar um rótulo na universitária reforça outros dois aspectos. O primeiro é a voracidade do universo masculino. O machismo, inclusive, repetido por mulheres incapazes de ver nela uma semelhante. Falsamente protegidas pelo pensamento de que jamais serão foco da mesma violência. Julgam-se melhores? Ou padecem da tola ingenuidade?



Na perspectiva do macho não-evoluído, a garota com uma roupa provocante é sinônimo de alguém que está disposta a relações sexuais. Como macho, o sujeito se julga no direito de possuir aquilo que entende como sua propriedade, mesmo que provisória. A mulher é um objeto que, portanto, posso pegar quando desejar. Tomar à força, se não puder pagar pela mercadoria. Nada diferente das milhares de mulheres que apanham dos maridos, ou daquelas que morrem nas mãos – ou pelas armas – do que não suportam perder seus brinquedos.

A história de Geysa se completa com o triste papel de segmentos da mídia. Pode ser como instrumento tecnológico involuntário, como os vídeos do episódio no You Tube. Pode ser como caixa de ressonância do caso. A universitária freqüentou programas de TV e deu diversas entrevistas. O que se viu – salvo exceções – foi um debate raso sobre o tamanho de um vestido que uma mulher pode usar. Novamente, o autoritarismo travestido de opinião descompromissada. Quem tem o direito de ditar o tamanho da roupa de alguém? O que se ditará a seguir?

Perdeu-se – como era previsto – a oportunidade de se aprofundar o diálogo sobre comportamentos sociais e valores que permearam esta história. Ficamos apenas na superfície da questão. Como espetáculo de mídia, Geysa Arruda é perfeita. Servirá como vítima e será esquecida em 15 dias.

Os responsáveis se colocarão também como vítimas. Provavelmente, eles vão expelir – cínica ou cegamente – o olhar de quem não fez algo errado. Apenas puniram o diferente, o sujeito que não é imagem e semelhança. Pior: a pessoa que escancara aquilo que muitos desejariam ser ou que não tem coragem de fazer.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O hino dos autoritários

Quando era criança, tive aulas de duas disciplinas, marcadas como símbolos da interferência do regime militar na educação: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB). As matérias, como a maioria das humanas, não eram atraentes para os alunos. Exigiam memorização, pouco se conectavam com a realidade contemporânea e eram apresentadas em uma linguagem rebuscada demais para que um moleque de 12,13 anos pudesse compreender.

Ao pensar em conexão com a realidade, não me refiro a esta visão utilitarista que permeia as relações educacionais de hoje, onde tudo tem que servir para algo, imediatamente. Tudo tem que ser medido de forma quantitativa, como um caixa de supermercado. Alunos e professores perdem seu lado humano e passam a vomitar informações que cheiram a um idioma incompreensível, principalmente para os próprios.

Seríamos ratos de laboratório ou corpos mecânicos desprovidos de sentimentos e de sensações, incapazes de absorver conceitos abstratos, valores que – às vezes – só se manifestam de longo prazo?

Além destas aulas, havia outra forma de disciplinar os estudantes, dar a eles – na ótica da escola – valores para toda a vida. Uma delas era cantar o Hino Nacional no pátio, pelo menos uma vez por semana. Assim, os alunos dariam valor à Pátria mãe gentil, seriam melhores cidadãos, seres humanos dignos diante de um futuro melhor (todos os clichês reunidos numa frase só!!!).



Nunca se pensou em trabalhar o significado das palavras – de outra época – presentes na letra musical. Nunca se pensou em debater o contexto no qual o Hino foi escrito e musicado. Nunca se pensou em situar para os alunos quem foram os autores e assim por diante. Cobrava-se disciplina na fila e a letra na ponta da língua. Ah, e a mão direita no peito, como símbolo de amor ao Brasil.

A estupidez deste momento escolar me veio à lembrança quando li que a Câmara Municipal de Santos aprovou – em segunda discussão – projeto de lei que determina que os alunos da rede municipal de ensino cantem os hinos nacional e da cidade. A sessão “cívica” tem que acontecer uma vez por semana.

Em entrevista ao jornal A Tribuna, o vereador Antônio Carlos Banha Joaquim, autor do projeto, argumentou que cantar o hino “aprimora nossa cidadania.” Será que declamar duas letras musicais a cada sete dias nos torna cidadãos melhores?

O ato de cantar – incluindo os trechos que muitos não entendem - nos torna mais brasileiros? Ou mais patriotas? De que pátria falamos? Dos 11 jogadores perfilados em campo, vestidos de camisa amarela ou azul, balbuciando palavras antes de correr 90minutos atrás da bola? Ou falamos, por exemplo, dos vereadores que cantavam animados quando a Câmara Federal aprovou o aumento no número de vagas no Poder Legislativo local?



Sempre desconfiei do nosso patriotismo e da nossa capacidade de falar em cidadania. O patriotismo à brasileira se manifesta por competição. É latente nos esportes quando algum atleta brasileiro – milionário ou abnegado – entra na arena com chances de vitória, mesmo que a infra-estrutura que o apóie esteja fora daqui. Patriotismo que se esvazia na derrota, pela resignação e reclamação coletivas ou pelo linchamento público do atleta.

Surge também quando um filme brasileiro concorre ao Oscar, ainda que seja pouco visto e debatido, ou quando um ator faz filmes em Hollywood. É sinal de evolução. Precisamos da chancela externa para assinar o atestado de qualidade.
Por que, diferente de outras culturas, o patriotismo não se manifesta nas figuras políticas? O complexo de vira-latas esconde a distância entre o poder e os comuns ao longo da história nacional?

Os hinos nas escolas não alteram também o autoritarismo que permeia os processos educacionais. Só o reforçam, estabelecem hierarquia sem justificativa, reprimem sem explicar, estimulam a “decoreba” sem reflexão.

A escola, em linhas gerais, não forma para a cidadania, forma para o consumo. Reproduz – sem criticidade – a dinâmica social do mundo lá fora, rezando a cartilha mercadológica, se sequer pensar se esta postura tem pontos positivos.

Cantar os hinos na escola, após uma canetada legislativa, é um ato autoritário, travestido de proposta de cidadania. Obriga-se um sujeito a reproduzir uma ação sem que ele dimensione o ato. Alguém mais otimista poderia dizer: - Ainda bem que é só o hino! A História está repleta de casos de violência extrema com início em “propostas educacionais” para as crianças.



Novamente, o topo da pirâmide se senta sobre o livro da moralidade para assegurar que valores sejam reproduzidos, sem a liberdade de escolhê-los. Não se trata de educação, mas de doutrinar a mente e a alma do sujeito, de pouca idade e sem possibilidades de se proteger deste discurso.

Vamos supor que a lei venha carregada de boa intenção. Mas ainda me parece uma atitude desconectada da realidade dentro e fora das escolas. Se entrarmos na discussão relativista dos valores no universo escolar, os hinos pouco acrescentam, pois não faz cócegas no gesso que endurece e paralisa os métodos atuais de ensino, impregnados por volume de conteúdos e ausentes de interpretação sobre eles.

Cantar os hinos é outra mão de verniz no tradicionalismo que cerca o mundo da educação escolar. É o OSPB, em outra proporção, nos pátios de hoje.
È possível apostar que as escolas – até por ligações políticas do Poder Executivo – não questionarão a ideia. Seguirão a lei, sem debatê-la. Depende das equipes pedagógicas ignorá-la ou cumpri-la. Por estas bandas, também valem as leis que pegam e as que não pegam. Quem vai receber a visita de um fiscal da Prefeitura para verificar se os alunos cantaram os hinos naquela semana?