sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O jaleco e o hamburger


Ariovaldo vestia todos os equipamentos de segurança para um trabalho de poucos riscos. Usava capacete branco, comum na construção civil, calça camuflada modelo militar, botas sete léguas, camisa escura e jaleco, além de luvas de borracha. Em silêncio, ele estava sozinho no combate. O exército de um homem só.

Embora veja como coletiva sua responsabilidade profissional, Ari prefere agir por si mesmo. Ele não consegue lutar em grupos. Prefere fazer o serviço isolado. Assim, o controla. Garante a eficiência, sem palpites de subordinados ou chefes! Não se importa com os comentários; afinal, comunica-se discretamente e transpira vergonha. Conversa? Apenas o necessário, pois o trabalho é infinitamente mais importante do que jogar palavras com qualquer um. Pode ser alguém que passa apressado. Pode ser alguém que trabalha por ali e o vê duas, três vezes por semana.

Depois de alguns segundos de reflexão, Ari se abaixou e recolheu um punhado de folhas. As luvas de borracha servem para isso: protegê-lo da água suja que se move lentamente na sarjeta. Abraçou, então, três caixas de papelão, que serviram para embalar cosméticos na farmácia em frente. Andou mais cinco metros e recolheu quatro caixotes de madeiras, daqueles que saíram do Ceagesp e encontraram destino final (até a chegada de Ari) no ponto de venda, um supermercado de bairro.

Aquele sujeito, de 30 anos, não é parte do mapa. Muda o relevo das imediações da Igreja da Pompéia, bairro nobre de Santos, mas não recebe o crédito. Para ele, crédito existe para quem tem os documentos do governo. Nem se parece com dinheiro. O trabalho dele é exatamente transformar em dinheiro mercadorias com ciclo encerrado na economia cotidiana, miúda até.

O jaleco atrai os olhares, mas afasta as aproximações curiosas. Preto, traz em verde fosforescente: agente ambiental. Esta é a missão que Ari impôs a si próprio. O dinheiro é conseqüência; o que o mantém animado é a mudança de cenário, a limpeza de um pedaço da praça, onde trabalhou por horas em mais um sábado de chuva.

Todo o material recolhido vai parar em uma carroça amarela, daquelas padronizadas e vistas – a desigualdade invisível – na rotina urbana. A carroça, organizada em compartimentos, é a casa e local de trabalho do agente ambiental. Ali, estão alimentos estocados, roupas de dormir, utensílios domésticos e os materiais que serão revendidos.

A chuva era contingência. Ari não diminuía o ritmo. O capacete, além da segurança, servia como improvisado guarda-chuva. Quando achou que o expediente terminara, com a carroça ajeitada, Ari esbarrou em um copo plástico à beira da calçada. E mais: outro copo boiava na água negra da sarjeta.

Ele balançou a cabeça negativamente e reclamou de que aquela tarefa parecia sem final. Foi à carroça, apanhou uma vassoura piaçava e varreu a água para o bueiro. Os copos foram parar na cestinha de lixo amarrada ao poste. Como alguém a três metros da cesta jogava dois copos no chão?

Ari não percebeu que era observado. Veio conversar com a objetividade dos diálogos de todo dia. E bombardeou com perguntas diretas:

- Eu peguei uma caixa de hambúrguer no lixo do supermercado. Venceu ontem. O que você acha? Tem problema?

Não tive tempo de responder. Ele se encarregou de completar o que poderia ser uma conversa:

- Olha, eu acho que não. Um dia só. Tenho a frigideira e o óleo. Você pode me ajudar a comprar o pão?

Com o dinheiro na mão, agradeceu e, quando ensaiava ir embora, notou que a praça precisava ser limpa novamente. O soldado verde não tinha munição para mudar a rotina da rua Euclides da Cunha. A produção de lixo era maior do que seu limite físico ou sua preocupação coletiva. Ao olhar para ele, fechado numa consciência ambiental particular, preferi não perguntar o porquê da vestimenta. Ele poderia se ofender diante de tamanha incompreensão.
Ilustração: DACOSTA

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Uma cidade sem conflitos"



Versão na íntegra de entrevista publicada no jornal Boqueirão, n.709, 18 a 24 de outubro de 2008, pág. 3.



A historiadora Vera Lúcia Nagib Bittencourt é uma torcedora fanática do debate político, seja em sala de aula ou em conversas informais. Ela reafirma – e não é necessário provocá-la - que uma cidade se faz pelo choque de idéias, de interesses.

Observadora perspicaz do processo eleitoral, Vera lamenta que Santos tenha feito a opção inversa. Para ela, os santistas colocaram a inevitável discussão de propostas e programas para debaixo do tapete. O reflexo seria a preferência por um político com características de gestor para conduzir o município. O discurso envelhecido da oposição também teria contribuído, de acordo com a historiadora, para a falsa calmaria na campanha eleitoral.

Vera é doutora em História Política pela Universidade de São Paulo (USP), onde participa de um grupo de pesquisa sobre a Formação do Estado e da Nação. Atua também como pesquisadora do Museu do Ipiranga, na capital paulista. Além disso, é professora da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), onde ministrou aulas de História Contemporânea e de História das Idéias Políticas e Econômicas. Atualmente, trabalha com formandos em História nos Trabalhos de Conclusão de Curso.

Na entrevista a seguir, a professora analisa o cenário político, principalmente em Santos, após a eleição, e as perspectivas para os próximos quatro anos.

Boqueirão: Qual a sua avaliação inicial do processo eleitoral, principalmente entre os prefeitos que ganharam autorização para governar por outros quatro anos?
Vera Lúcia Nagib Bittencourt: Fico pensando qual é o perfil destes candidatos que se reelegeram. A ênfase é em cima do gestor. Parece, para mim, a anti-política. É a idéia da tecnocracia. Há 15 anos, a tecnocracia provocava brotoeja. Mudou-se o nome para gestão e a coisa ficou palatável. A idéia não é mais conflito, dissenso, e sim eficiência, limpeza, suavidade. A política se esvazia no seu sentido.

Boqueirão: O prefeito João Paulo Tavares Papa se encaixa no papel de gestor?
Vera Bittencourt: Eu acho que sim. E ele investe nisso. Esse gestor tem que ser eficiente. O Lula dá esse exemplo, na segunda fase da política dele. O eleitor é bombardeado por essa idéia da gestão. Isso está dentro da escola, por exemplo. O discurso, em diferentes segmentos institucionais de políticas públicas, é de gestão. O que seria uma gestão eficiente? É aquela que não provoca atritos, sem ideologia. Isso significa provocar menos conflitos. De alguma forma, especialmente nas cidades médias e grandes, a competição está acirrada na vida privada das pessoas. Se algo aparece como um óleo nos trilhos, as pessoas vão buscar uma espécie de aconchego. O gestor é alguém que tem realizações e é capaz de fazer alianças. O que levou o Papa adiante foi esse arco de alianças partidárias em termos de tempo de televisão. A questão não é apenas dominar a televisão. É não permitir que outras propostas possam ser colocadas.

Boqueirão: Como fica então governar com 17 partidos, todos querendo um pedaço do bolo?
Vera Bittencourt: A questão não é o partido. É o gestor. Os partidos estão tão fragilizados que se ancoraram em uma pessoa, em um certo populismo. Trata-se de resolver problemas.

Boqueirão: E os partidos pequenos? Eles não podem exigir cargos, por exemplo?
Vera Bittencourt: Apenas se o prefeito deixar. A habilidade do Papa se revela não apenas na gestão, mas em trabalhar com o arco do desejo. Deixar sempre tenso o arco da promessa. Ele não bate a porta para ninguém, tudo parece possível. O segundo mandato era um atrativo. Os partidos pequenos não têm força. O que parece precipitado, ainda mais em política, é pensar na sucessão dele agora.

Boqueirão: O PT teve, na totalidade, cerca de 65 mil votos. Por quê?
Vera Bittencourt: Só 65 mil votos. A velha cidade polarizada é apenas uma coisa de momento, um embalo. A primeira eleição da Telma de Souza, em 1989, foi um momento único. Depois disso, nunca mais. Teve apenas o David Capistrano, com uma visão interessante de políticas públicas, mas polêmico, amado e odiado ao mesmo tempo, às vezes pela mesma pessoa.

Boqueirão: Por que o PT e o PSDB, dois grandes partidos nacionais, não têm bom desempenho na região? Por que os dois partidos são exceção à regra?
Vera Bittencourt: Os demais partidos, em cenário nacional, fazem alianças. A política em Santos é marcada pela tradição. Quando surge uma liderança, ela permanece até virar bagaço de laranja. Aqui, curiosamente, o PMDB elege Antonieta de Brito, em Guarujá, uma dissidente do PT, e o Papa, em Santos, além do Tércio Garcia, que tem um jeito de PMDB, mas está em outro partido. Outro ponto é que a liderança tenta gerar continuidade. Desta velha cepa e que continua dominando a brincadeira, é o ex-deputado Oswaldo Justo, mesmo morto. As idéias dele têm influência. Ele foi um político articulador, preparador de longo prazo. A eleição do Papa é um projeto do Justo. Olhe para trás, é aquele partido de Centrão, uma característica da cidade que parece extremamente confortável para o eleitor.



Boqueirão: Santos é uma cidade conservadora?
Vera Bittencourt: Esta história de passado envolve a cidade. A competição entre cidades, uma característica pós-moderna, faz com que elas busquem uma forma de distinção para atrair investimentos. Há algum tempo, Santos fez a opção pelo turismo. Até aparecer a história de Petrobrás e pré-sal, não se falava em outra coisa. Há três anos, as lideranças, inclusive universitárias, discutiam a indústria do turismo e seu desenvolvimento. Na distinção, o turismo com o Centro Histórico. Isso me parece uma grande criação na memória e no imaginário. São valores positivos no passado histórico. A cidade foi grande na época do café e isso a diferencia e nos torna aristocratas. Sem nenhum fundamento. Assim, a história da esquerda proletária vai se apagando. A grande habilidade do Papa é transformar todos em cidadãos, mas não a plebe. É a inclusão pelo consumo, e não pela política. Nossa inclusão seria pela história, pelo passado. Só teríamos cidadãos. A plebe é jogada fora, não existe, não aparece e não tem voz. O PT não conseguiu encontrar um tema para contestar essa visão. É tudo bonito, cenográfico. O símbolo da cidade é o bonde. Interessante e emblemático.

Boqueirão: A Câmara Municipal mudou oito das 17 cadeiras, mas continuam apenas três vereadores na oposição, mesmo cenário da primeira gestão do Papa. Qual é a sua avaliação?
Vera Bittencourt: De certa forma, as principais raposas ficaram. Mantovani Calejon, que não se elegeu, teve um problema partidário. Ele é personalista. Acho que tem razão quando fala da questão da saúde e do boato da morte. Esta imagem pegou nele.

Boqueirão: E o papel da ex-prefeita Telma de Souza?
Vera Bittencourt: A Telma foi a grande liderança de esquerda, a maior estrela. Ela gerou figuras políticas, mas que viveram um embate muito violento entre si.

Boqueirão: Isso explica o fato de Maria Lúcia Prandi e Mariângela Duarte terem morrido abraçadas na eleição?
Vera Bittencourt: As três.

Boqueirão: Você disse que Telma foi uma liderança de esquerda. E os 20 mil votos dela para vereadora? O que significam?
Vera Bittencourt: Significam um desgaste. Eu esperava mais.

Boqueirão: O que se comenta no meio político é que ela fará uma oposição ferrenha ao prefeito, pensando na sucessão em 2012. A senhora concorda?
Vera Bittencourt: Não concordo. Fico pensando, seriamente, se a Câmara vai dar a presidência para ela. Será um jogo pesado. Teoricamente, como a mais votada, ela teria direito à presidência. Não sabemos! A possibilidade maior é a continuidade do Marcus de Rosis por causa dos três vereadores do PMDB e dos três do PSDB. Telma está desgastada, esvaziada dentro do próprio partido. O PT parece muito envelhecido. Qual é o papel do Daniel Vasquez (professor universitário de 29 anos, candidato a vice na chapa de Maria Lúcia Prandi)? Quando terminar o mandato do Papa, as forças de situação terão Paulo Alexandre e Bruno Covas (deputados estaduais pelo PSDB). Todos vão precisar do prefeito. E a oposição?

Boqueirão: O deputado federal Beto Mansur (PP) é um possível sucessor?
Vera Bittencourt: Só se for por vaidade. O Beto é muito matreiro para entrar de cara na corrida. Ele vai pagar para ver até o final. Paulo Alexandre deve fazer o papel de coelho nesta corrida. Vamos ver se ele terá fôlego até 2012. Do outro lado, o velho confronto: Prandi, Telma e Fausto. Esta eleição foi brincadeirinha para o PT. O que a Mariângela Duarte (PSB) vai fazer? Em termos de propostas, ela foi quem mais investiu na renovação.

Boqueirão: Então por que Mariângela teve apenas 19 mil votos, menos do que Telma de Souza para vereadora? Houve voto útil para a Maria Lúcia Prandi, por causa das pesquisas eleitorais?
Vera Bittencourt: O eleitor que acredita na política busca certa coerência. A estratégia dela, ao buscar mais tempo na televisão, de se associar ao Democratas fez com que as pessoas que votariam por ideologia se desencantassem. Isso contribuiu de forma negativa. Os radicais não quiseram ouvi-la. E ninguém discute que ela não seja combativa e honesta. Cerca de 77% dos eleitores votaram no prefeito. Sem votos brancos e nulos, sobram 20% do eleitorado, que se pulverizou, se desencantou. A impressão, inclusive, é que essa parcela saiu da brincadeira. Isso não significa que os anseios, os sonhos, as possibilidades, as visões de mundo deixaram de existir. O que me incomoda é a idéia de que não haverá mais espaço para política. Não é assim! É deste momento em que tudo parece tão calmo, tão resolvido, que surgirão novos questionamentos.

Boqueirão: Das nove cidades da região, três serão governadas por prefeitas, embora Peruíbe seja um caso à parte, pois Milena Bargieri substituiu o pai, Gilson Bargieri, a três dias da eleição. Na história, apenas quatro prefeitas administraram cidades na Baixada. Por que mulheres foram eleitas em Guarujá e Cubatão? É uma questão de gênero ou de renovação?
Vera Bittencourt: É uma questão de acreditar que as mulheres possam ser mais íntegras do que os homens. Neste momento, a mulher se tornou mais competitiva na sociedade, mais dedicada, mais presa a valores. Cubatão e Guarujá viveram administrações conturbadas e problemáticas. São cidades-dormitórios, onde paira a coisa da corrupção. São duas mulheres com trajetória política. Nenhuma chegou de pára-quedas. Fizeram concessões e souberam negociar. Antonieta saiu do PT e foi para o PMDB, associando-se com a turma do falecido Maurici Mariano, o que garantiu respaldo com o centro em Guarujá. O filho dele está na Câmara. As duas passam a imagem de mulheres aguerridas, combativas e que seriam mais capazes do que os homens de fazer menos concessões. São pessoas tipicamente formadas pelo PT, pela militância. Conseguiram carimbar em si a integridade.

Boqueirão: Por que, no Legislativo, o predomínio masculino é quase absoluto, salvo exceções?
Vera Bittencourt: Não sei. Será que as mulheres acham que o Legislativo não resolve nada? O que cola é uma ação? Parei para pensar no que as mulheres disseram na campanha. Em Santos, muitas professoras. O sujeito acha que a vida pública o classifica para disputar um mandato. Muito discurso do tipo: vou cuidar da Câmara como cuido de minha casa. Faltou a voz dos aposentados. Essa população ainda não encontrou alguém que efetivamente os entusiasme. Na hora que conquistá-los, o quadro ficará mais conservador. Os políticos falam do aposentado como objeto, e não como protagonista social.

Boqueirão: Os candidatos que conseguiram trabalhar em nichos, em grupos sociais, como colônias de imigrantes ou entidades religiosas, não tiveram melhor desempenho na eleição para vereador? O vereador é um representante de nichos?
Vera Bittencourt: Se isso fosse verdade, seria lindo! O que seria uma Câmara? Um espaço de debate desses grupos! Penso que não emergiram lideranças de segmentos, como portuários e petroleiros. É retórica. O vereador Sadao Nakai (PSDB), por exemplo, é alguém para ser observado com respeito.

Boqueirão: Metade do eleitorado estava indeciso para vereador a 72 horas da votação. É apatia? O voto é decidido no micro-cosmos do eleitor?
Vera Bittencourt: As pessoas não se sentiram apáticas. Elas não querem o conflito. Os eleitores agiram para evitar o conflito, como se fosse possível. É retórica. Os conflitos estão aí. Não se conseguiu mostrar o conflito de forma positiva. As candidaturas de esquerda, neste sentido, fracassaram. Não existe vida política na cidade. Como vai aparecer alguém capaz de levar o eleitor à urna? Existe o sujeito localizado, na Assembléia de Deus, no clube Estrela de Ouro. A grande maioria não tinha quem eleger. Não tem política! Quanto mais pulverizado em número de partidos, é melhor para a ausência de debate e para quem está no poder. Desde que ele seja capaz de colar em si a imagem de gestor. O que é uma certa inocência! Grandes temas estão viciados. Educação, habitação, saúde, meio ambiente. Você trabalha só com o substantivo e ninguém fala nada. Talvez por isso o eleitor se volte para o universo pequenininho.

Boqueirão: Qual será o impacto desta eleição em 2010 e em 2012?
Vera Bittencourt: É uma chance para quem perdeu. Em 2010, será uma eleição plural, mas as pessoas estão cansadas disso. Os próximos dois anos serão densos em termos políticos. A política é móvel, volátil. Nada está calmo. Os acontecimentos significam novas estratégias, alertas e possibilidades. Não acredito que Mariângela Duarte, Maria Lúcia Prandi e Telma de Souza enfiem a viola no saco. O papel delas deverá ser de articuladoras, e não de cabeças de chapa. Espero que elas tenham a fineza de perceber isso. Há também novas lideranças chegando, como Paulo Alexandre Barbosa e Bruno Covas. De certa forma, Márcia Rosa e Antonieta de Brito são uma renovação, mais novas, menos marcadas por disputas internas dos próprios partidos.
Com colaboração de Luiz Nascimento.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Entre cigarros, a alma filosófica

No começo da década passada, o adolescente de 17 anos chegava à universidade. Olhando para trás, ele não entende que fora uma transição difícil, mas jamais jogaria fora as lembranças de ansiedade e de alívio associadas ao momento de orgulho próprio. As portas estavam livres para algo novo, mesmo que soubesse muito pouco sobre o futuro ou sobre a profissão escolhida.

A idéia era se manter aberto às novas experiências. O professor não seria um adversário, mas alguém que estaria ali por méritos, disposto a provocar e a abrir cabeças. Só que existe um limite entre o trivial e o choque.

Foi a aula de sexta-feira. Aquela aula, a partir das nove horas da noite, em que a maioria dos estudantes pensa várias vezes antes de freqüentar. E, se a freqüentam, o fazem por medo de represálias como notas, reprovação por faltas e provocações em corredores. Há ainda os alunos que temem o estigma, preocupam-se demais com a opinião alheia e a imagem que pode ficar deles no ambiente da faculdade.

A matéria também não ajudava: Filosofia, com livre ingresso no rol das “malditas”, mas que também gera o sorriso de canto de boca do professor ao final do curso, quando muitos alunos se arrependem não ter dado atenção suficiente à disciplina. Seria manifestação de rancor ou de mesquinharia com os garotos que o desprezaram três, quatro anos antes?

Não era o caso do professor de Filosofia. Ele provocou comentários de pé de ouvido assim que entrou em sala. Vestia uma camisa de botões bastante usada, para não dizer surrada, calças de uma marca de surf de sucesso na época, daquelas com diversos bolsos (aliás, hoje em moda!), um tênis modelo iate (sem cadarços). E fumava! O cigarro seguinte era aceso no anterior. Foi a primeira paulada na turma do politicamente correto.

Até o aluno que se via como mente aberta ficou ressabiado. Mas deixou a curiosidade ditar a permanência em aula. Até onde vai o professor? Não era, na verdade, uma primeira impressão cristalizada, pois faltava maturidade suficiente para uma atitude contestadora. Só que algo naquele professor era instigante, mesmo que ainda fosse uma avaliação da casca. O bendito professor sequer havia aberto a boca.

As palavras não chocaram. Serviram como uma carta de alforria para aqueles que desejavam o início do final de semana às nove da noite de sexta-feira. O professor colocou as regras na mesa. Ou melhor, atirou as regras no ventilador. Notas não existiriam. Provas, uma peça de ficção. Aulas, sempre dialogadas como o velho grego Sócrates adorava praticar. Conteúdo, temas contemporâneos pelo olhar da Filosofia. E as faltas em aula? Resposta: sujeitos adultos têm livre escolha.

O primeiro impulso, seguido pela maioria dos alunos, foi se retirar. Oba, folgas às sextas! Outra parte manteve-se em sala naquela noite por civilidade, talvez. Foi a única ocasião. A minoria resolveu ficar. Não davam dois times de futebol de salão. Aquele professor seria mesmo diferente ou fazia apenas jogo-de-cena para se livrar dos estudantes, enrolá-los, e também curtir o final de semana mais cedo? Os alunos teriam que pagar para ver!

E viram um curso fantástico! Era meia dúzia de pessoas que não perdiam um encontro. As aulas pareciam uma autópsia do ser humano, pela perspectiva do pensamento. Liberdade, coragem, esperança, justiça, arte, temas que aguçavam àqueles adolescentes a olhar para o mundo ao redor e pensar sobre ele.

O professor não durou muito no cargo. Apenas o suficiente para deixar cicatrizes, marcas sem dores que talvez fossem sentidas em relevo anos depois. Não se sabe exatamente porque ele saiu. Talvez tenha preferido se dedicar à arte, paixão que também funcionava como elo entre prazer e pagamento de contas.

Mais de 15 anos depois, um dos seis alunos virou professor. Não se arrisca a romper tantas regras como o filósofo. Talvez não tenha a coragem necessária, mas o admira por considerar que o conhecimento pode se aproximar de um grau elevado de pureza. A pureza (ou ingenuidade?) que permite compreender o pensamento como ato pragmático – e de crença - em um cenário onde tudo deve ter serventia. Só que nada disso teria valor se o aluno-agora-professor não conseguisse notar que o impacto das palavras do filósofo-fumante numa sala de aula dispensa prazo de validade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sujeira eleitoral

A eleição aconteceu há mais de 15 dias, mas parece que, em alguns pontos de Santos, há candidatos ainda em campanha. Ou será que preferiram ignorar os rastros da corrida eleitoral?

O fato é que muitas faixas e placas foram “esquecidas” nas ruas da cidade. Os autores da sujeira são de vários partidos. Até o Partido Verde, historicamente defensor de questões ambientais, tem faixas abandonadas na avenida Pedro Lessa.

O material de campanha, que pertence tanto a candidatos eleitos como derrotados, também pode ser visto na avenida Afonso Pena, nas proximidades da avenida Cor. Joaquim Montenegro (canal 6). Com a palavra, a Justiça Eleitoral.

http://www.boqnews.com/blognews.php

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sucupira sem Odorico

“O Bem-amado” é um das obras mais profundas e populares da dramaturgia de Dias Gomes. Produzido na TV durante o regime militar, o texto funcionava como uma metáfora para o comportamento da classe política no Brasil, caracterizada pelo clientelismo, pelo nepotismo e, principalmente, pelas estratégias focalizadas na perpetuação do poder. Na novela (e depois seriado), as artimanhas passavam pela malandragem e pela demagogia.

Ao olhar para o resultado eleitoral em São Vicente, segundo maior colégio eleitoral do Litoral de São Paulo, é possível notar a reedição de diversas características do universo de Sucupira, governada por Odorico Paraguassu. Mas há uma diferença, que pode ser vista como substancial e, ao mesmo tempo, insuficiente para afetar o todo.

Paulo Gracindo interpretava o papel do prefeito matreiro, sempre envolvido em negociatas, com capacidade ilimitada de costurar articulações para permanecer no controle da política, além de exibir um caricato e competente carisma que iludia a população.

Aí está a diferença. Tércio Garcia não é Odorico Paraguassu. Trata-se de um técnico (engenheiro agrônomo de profissão) que virou prefeito. Tércio se encaixa no molde de político que agrada o eleitorado acomodado, pouco afeito aos embates naturais do processo democrático.

O prefeito reeleito de São Vicente trabalha como um gerente, que demonstra eficiência no andamento das coisas cotidianas, sem elevar o tom de voz ou sacudir a rotina previsível da cidade. Tércio não prima pelo carisma e pelo populismo, elementos inerentes nos políticos de velha guarda (o que não significa aposentados do poder; basta Brasília). Não são exatamente defeitos, mas implicam na imagem de alguém que ainda não conseguiu se livrar da sombra do mentor, o deputado federal Márcio França. Por isso, Tércio não foi reconhecido como articulador, somente como executor.

A vantagem do político-gerente é ter a personalidade associada à integridade. Escândalos podem explodir à volta, mas ele jamais sai chamuscado do incêndio. Esta postura garante uma separação adequada de outras esferas de poder durante uma eleição, ao mesmo tempo que assegura excelente relacionamento com as mesmas instituições.

Tércio Garcia foi reeleito com quase dois terços dos votos válidos. O resultado o legitima a permanecer como representante de um grupo que governa São Vicente há 12 anos. Outros quatro anos expõem as semelhanças com a cidade criada por Dias Gomes.

São Vicente, assim como Sucupira, não respira política. Apenas reproduz um falso espectro de debate; na verdade, vive a anti-política, marcada pela ausência completa de discordância.

A Câmara Municipal é o símbolo deste momento. Houve renovação no Poder Legislativo. Nove das 15 cadeiras terão novos “donos”. Veteranos como Carlos Gigliotti, Roberto Rocha e Nicolino Bozzela não conseguiram se reeleger. Ex-vereadores como Carlos Santiago também não tiveram votação suficiente para retornar ao cargo.

Os parceiros de dança mudaram, mas o ritmo da música permanece. A Câmara de São Vicente é caso único na Baixada Santista, já que a espécie “vereadores-de-oposição” foi extinta, com o aval das urnas. O quadro soa como um paradoxo, pois o eleitor demonstrou vontade de mudança, mas manteve o mesmo grupo no comando. O eleitor foi incapaz de perceber que permitia mais do mesmo? A hipótese é razoável, pois sabe-se que os candidatos são escolhidos pelo seu personalismo, e não por sua ligação partidária-ideológica.

Outro ponto importante na cidade que Dias Gomes não imaginou é a confirmação de dinastias. Além de fazer o sucessor e garantir sua reeleição, França foi competente em conduzir a campanha do filho Caio, de 20 anos, vereador mais votado da história do município. O garoto, estudante de terceiro ano de Direito, será o próximo presidente da Câmara? Ele tem o reconhecimento das urnas. Ele terá habilidade política ou será dependente do pai? O rapaz, em entrevista recente, falou até em Prefeitura no futuro.

O deputado estadual Luciano Batista, também do PSB, também deixou herdeiros no Legislativo, com a eleição do sobrinho Diogo Batista.

É uma pena que São Vicente tenha abdicado do embate de idéias. A cidade seguirá morna, com uma imagem construída sem contestação, e inviabilizada para outras formas de gestão. Valerá apenas a manutenção de um sistema de governo, sem a perspectiva, a curto e médio prazos, do surgimento de novas lideranças que não sejam as que rezam uma cartilha conhecida por todos.

O prefeito Tércio Garcia será o Bem-amado, no sentido de receber tapinhas nas costas de todos, como sintoma de afetividade circunstancial. De resto, São Vicente terá um gerente, mas não uma réplica de Odorico Paraguassu, papel a ser exercido por outras personalidades do local.

sábado, 11 de outubro de 2008

A herança de Papa

Após 12 anos de governo, em diversas funções, João Paulo Tavares Papa terá a legitimidade incontestável para aqueles que ocupam o poder: a maioria esmagadora nas urnas. Em 2004, ele foi reconhecido pelos eleitores, obviamente, mas assumiu a Prefeitura de uma cidade dividida, depois de vencer Telma de Souza por apenas 1771 votos.

Papa foi o prefeito escolhido por mais de 190 mil eleitores, recorde histórico na cidade de Santos. Experiente dentro do universo político, ele sabe o tamanho da responsabilidade que bate à porta do prédio da praça Mauá.

A história indica que a segunda gestão normalmente caminha em passos mais lentos, com certo relaxamento na máquina pública. A questão, no entanto, se refere às conseqüências da campanha eleitoral: como administrar a cidade com uma coligação de 17 partidos às costas?

Os velhos caciques ensinam que, em política, não existem amigos, mas interesses. Seria ingênuo pensar que os partidos, que navegam da extrema direita à esquerda (pelo menos no aspecto teórico), não cobrarão dividendos do poder na continuidade da gestão Papa. Todos deverão exigir sua parte no bolo, cada qual a sua maneira, seja pelo número de vereadores nas comissões da Câmara, seja por cargos nos escalões da Prefeitura.

Conforme o desgaste de relacionamento, o controle de Papa sobre os vereadores poderá ser líquido ou sólido. A Câmara deverá seguir em favor do prefeito. O Poder Legislativo aprovou o que quis nos últimos anos, contando com a ausência de fiscalização de setores da sociedade civil. Os vereadores, por exemplo, banalizaram a distribuição de medalhas e títulos em 2008.

A renovação do Legislativo será baixa, de acordo com as pesquisas eleitorais. Além das três cadeias desocupadas pelas desistências de Jama (PDT), Paulo Barbosa (PSDB) e Sueli Morgado (PT), apenas duas vagas deverão ser trocadas. Infelizmente, o continuísmo na Câmara indica a frágil preocupação do eleitor com este poder. Ou, na pior das hipóteses, a concordância com as ações dos vereadores.

João Paulo Tavares Papa terá à disposição orçamento superior a R$ 1 bilhão. As maiores fatias, até por força de lei, ficam para Educação e Saúde. Santos apresenta desempenho razoável nas avaliações educacionais. É a melhor cidade da região, mas a política educacional se tornou vidraça quando a Fundação Getúlio Vargas apontou em pesquisa a ineficiência de gastos no setor.

No caso da Saúde, o prefeito terá que rebolar com o número de atendimentos de pacientes oriundos de outras cidades, que sobrecarregam – por exemplo – a Santa Casa de Santos. Será que a solução envolve apenas construir outros hospitais ou é necessário sentar-se diante da mesa com outros prefeitos?

Este breve cenário representa a urgência de ações efetivas de todos os municípios no sentido de transformar a região metropolitana da Baixada Santista é algo além da ficção científica.

Santos vivencia mudanças aceleradas no desenho urbano. São 150 obras em andamento, desde casas sobrepostas até conjuntos de torres com mais de 20 andares. As construções estão espalhadas por toda a área insular, o que inclui Zona Noroeste e morros. Tais alterações no espaço da cidade implicam planejamento conjunto dentro da administração municipal, pois impactos ambientais serão nítidos. Haverá problemas maiores no trânsito, maior produção de lixo e esgoto, além de consumo de energia e água.

Será que o município se preparou para um suposto aumento populacional, em várias classes sociais, todas potencialmente consumidoras? E o que fazer com o deslocamento de moradores de camadas mais pobres?

Atualmente, o déficit habitacional é estimado em 15 mil moradias. O programa de governo prevê obras, mas com quais recursos? As últimas quatro gestões patinaram sobre o mesmo problema.

O que Papa pretenderá para si próprio em quatro anos? Como deseja ser lembrado? Se a trajetória histórica seguir sem surpresas, o prefeito será visto como um gerente, que passou ileso por escândalos e não atrapalhou os rumos da cidade. Talvez faça o sucessor.

Ou Papa sonha em ser visto como alguém que se planejou para um novo cenário, sem um legado de omissões diante de conseqüências econômicas, ambientais e sociais?

Com 17 partidos esfomeados, o prefeito sobreviverá às pressões mesquinhas do processo político? Neste universo, as tentações são múltiplas, e os erros destroem um governante nos detalhes, com o desmoronamento do conjunto da obra.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Essas mulheres!

As mulheres provocaram as principais surpresas desta eleição na Baixada Santista. Das nove cidades, três serão comandadas por prefeitas. A maior novidade foi Maria Antonieta (PMDB), em Guarujá, que venceu no primeiro turno com 52% dos votos válidos. Ela derrubou o prefeito Farid Madi (PDT) e as pesquisas eleitorais, que indicavam segundo turno, com vantagem para ele.

Maria Antonieta foi vereadora pelo PT e deixou o partido, que aderiu ao governo de Madi. Ela confirma a teoria de que, mesmo com a máquina administrativa em mãos, disputar uma reeleição não significa vitória líquida e certa. É claro que ajuda na campanha, se pensarmos em Santos e São Vicente, embora – em 2004 – o então vice-prefeito João Paulo Tavares Papa ganhou a eleição por apenas 1771 votos.

Márcia Rosa (PT) é a primeira prefeita de Cubatão e representa a volta do Partido dos Trabalhadores ao Poder Executivo na Baixada desde David Capistrano, que governou Santos, de 1993 a 1996. São 12 anos de espera para um partido que, ao contrário do quadro nacional, segue enfraquecido na região. O PT teve candidatos a prefeito em apenas cinco municípios.

Maria Antonieta e Márcia Rosa enfrentaram campanhas parecidas, que envolveram ataques pessoais entre vários candidatos em detrimento de propostas e programas de governo. Houve, inclusive, episódios resolvidos pela Justiça Eleitoral.

A terceira prefeita da região é Milena Bargieri (PSB), de Peruíbe. Ela venceu com 49% dos votos válidos numa eleição particular. Ela é filha do ex-prefeito Gilson Bargieri, que renunciou na semana da votação depois de ter a candidatura impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Milena derrotou a atual prefeita, Julieta Omuro (PMDB), que ficou com 30% dos votos. Julieta assumiu o cargo após a morte de José Preto, no meio do mandato. Sem experiência política, como Milena se sairá na Prefeitura? Ou, como dizem os adversários, Peruíbe será governada pelo pai dela? Quatro anos para a resposta.

Peruíbe, assim como Santos, teve três candidatas a prefeito, o que coloca em dúvida o grau de exceção do desempenho feminino. É claro que, na maior cidade da Baixada Santista, confirmou-se a previsão. Papa venceu com 72%, mas não chegou à marca de 200 mil votos.

Aliás, Santos elegeu a vereadora com a maior votação da história. Telma de Souza teve quase 21 mil votos, cerca de 8,2%. Ela recebeu mais votos que Mariângela Duarte (PSB), terceira colocada na eleição para a Prefeitura.

Na história da região, Telma de Souza foi uma das quatro mulheres que ocuparam prefeituras. A outra é Julieta Omuro, governante atual de Peruíbe. As demais estiveram no poder há muito tempo. Guarujá teve uma prefeita nos anos 30 e Itanhaém, na década seguinte.

A chegada de três mulheres ao Executivo é um sinal interessante de mudança. Elas pertenciam à oposição e deverão ter cautela diante de um processo transitório até o final do ano. Como vão sobreviver à experiência inédita em suas carreiras? E no cenário metropolitano, ainda preso à retórica política e distante da prática? Quais posturas pretendem defender?

A presença de mulheres no comando pode representar sensibilidade e um novo olhar diante de questões e problemas mais elementares do processo administrativo. No caso de Cubatão, por exemplo, o orçamento supera R$ 800 milhões, maior do que muitas capitais. Dinheiro, portanto, existe!

Na verdade, a impressão é que os eleitores não as escolheram por serem mulheres, mas sim pela necessidade de sacudir o quadro político. Ou talvez de retorno a um modelo conhecido, se pensarmos exclusivamente em Peruíbe. Deve-se cobrar resultados e competência para o exercício do cargo, independente do sexo do administrador público.

Quanto à vereadora Telma de Souza, o meio político aposta que ela exercerá o mandato por quatro anos, sem desviar a mira para o Congresso Nacional. Telma faria uma oposição com a faca entre os dentes e o desejo de se juntar ao time das prefeitas em 2012.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Procura-se um candidato outsider

O candidato a prefeito de Santos pelo PRTB, o médico Natan Kogos, desistiu da disputa eleitoral? O boato foi reforçado em vários círculos de conversa na cidade ao longo da semana por causa da ausência dele em cinco debates e em entrevistas marcadas com veículos de comunicação. Até o assessor de imprensa dele faltou em um encontro com estudantes universitários.

Kogos não desistiu! Tanto que ele foi visto na última terça-feira conversando com eleitores na avenida Epitácio Pessoa, no bairro da Aparecida. Ele permanece na disputa pela Prefeitura, mas – ao adotar a estratégia do silêncio – praticamente fechou todas as possibilidades de divulgação de suas idéias.

Com as mudanças na legislação eleitoral, o papel dos meios de comunicação – que promovem os debates de maior visibilidade, além de sabatinas – ganhou força, pois os veículos se tornaram um dos poucos espaços em que os candidatos podem expressar suas idéias com ressonância. Sabe-se que as regras para as emissoras de rádio e TV complicaram a rotina do jornalismo, mas – mesmo assim – estar no ar assegura ao político a aproximação com aquele potencial eleitor ainda aberto às propostas ou disposto a conhecer melhor as idéias dos concorrentes.

O candidato do PRTB tem todo direito de não conceder entrevistas e ignorar debates, porém deve ter consciência de que poderia avançar mais nas pesquisas eleitorais se aproveitasse melhor a credibilidade jornalística. De campanha modesta, Kogos patina entre 0,3% e 0,5% das intenções de voto, nas três pesquisas realizadas na cidade.

A imagem de uma cadeira vazia em um debate na TV pode ter impacto devastador para o representante de um partido nanico, enterrando-o de vez no ostracismo. É uma situação bem diferente quando o ausente lidera com 70% das intenções de voto e possui a sustentação de 17 partidos. O prefeito João Paulo Tavares Papa se encontra em posição de escolher as chances de exposição. Quem é vidraça não pode se arriscar com pedras menores, aquelas que não quebram, mas trincam a estrutura.

Apesar da trajetória escolhida por Natan Kogos, ainda restaram duas portas para um concorrente outsider como ele: o horário eleitoral gratuito e o corpo-a-corpo nas ruas. O corpo-a-corpo é uma estratégia que serve, no caso do candidato à Prefeitura, somente para demarcar território ou, na melhor das hipóteses, para reforçar uma imagem por vezes construída pelo marketing político.

É evidente que quem faz campanha de poucos recursos – o caso de Kogos – precisa estar nas ruas, mas o efeito será mínimo. O contato com o eleitor, com conversas miúdas, de pé de ouvido, vale mais para quem deseja estar na Câmara Municipal. O candidato a vereador precisa alcançar determinados nichos de eleitores para elevar as chances de vitória.

O horário eleitoral gratuito, por sua vez, é de eficácia duvidosa. A audiência é baixa. Trata-se de uma proposta que permita ao cidadão conhecer os candidatos, mas a fórmula soa utópica, já que se mostra incapaz de dar um passo adiante. O horário eleitoral, no caso dos prefeituráveis, repete velhas fórmulas, com dados estatísticos por vezes distorcidos conforme o sabor da situação ou da oposição, além da falta de profundidade nos projetos-promessas. Isso sem falar no tempo gasto com ataques a uma candidatura que navega em águas calmas, pronta para um plebiscito em 5 de outubro, e não mais uma eleição.

Natan Kogos é um médico respeitado em Santos. Teve suas razões para sonhar com a Prefeitura. Ninguém pode colocar em xeque uma proposta de mudança, de oxigenação das opções em uma eleição repleta de nomes viciados. Ele conseguiu atrair a atenção de uma minoria, que se mostra fiel dentro das pesquisas de opinião. Infelizmente, perdeu uma oportunidade ao seguir uma estratégia de silêncio para a maioria dos eleitores. O rumo talvez possa ser corrigido a uma semana da eleição. Depende do candidato querer deixar a lanterna e saltar para o quarto lugar no resultado final.