Ter ou não, não é uma questão


Beth Soares


Amigo/a: Putz, pena que o prédio de vocês não tem garagem...

Eu: Para nós, é indiferente. Não temos carro.

Amigo/a: Ah, mas - se Deus quiser - vocês ainda vão ter um carro!

Eu: Não, não queremos. Não precisamos. Escolhemos não ter.

Amigo/a: Vocês falam isso porque não têm dinheiro agora para comprar um. Mas quando as coisas melhorarem, vocês vão querer ter.

Eu: As coisas já estão melhores. E, mesmo assim, decidimos não ter carro. Priorizamos outras coisas.

Amigo/a: Ah, sei.

Esse diálogo acontece com certa frequência na minha vida. É estranho para mim perceber a dificuldade que as pessoas têm em aceitar que alguém não quer ter algumas das coisas que não precisa. E esse tipo de conversa não acontece apenas quando o assunto é carro. Roupas, sapatos, eletrodomésticos e um sem-número de parafernálias entram no rol das nossas (incluo meu marido Marcus nessa aparente insanidade) coisas-não-desejadas-pois-não-necessárias.

Volta e meia alguém vem me falar que viu uma promoção de roupas. Como nos últimos dias pessoas diferentes insistiram no assunto, concluí que minhas roupas repetidas andam incomodando (ou preocupando) os mais chegados. Gente, já inventaram máquina de lavar (taí um eletrodoméstico que não dispenso, ao contrário da vassoura ultra blaster mega eletrônica que praticamente limpa tudo sozinha, inclusive um terço do meu salário). Eu lavo, uso, lavo novamente e uso de novo. E como as “dicas” vêm de pessoas que me querem muito bem – as que não querem provavelmente falam pelas minhas costas – entendi que, talvez para elas, me ver consumido pouco é sinal de que algo deu errado. É tão surreal a possibilidade de esta ser uma escolha consciente, que o movimento natural é deduzir que as coisas andam mal financeiramente para mim.

Não tenho uma conta gorda, é verdade, mas essa é só uma das razões para não querer ter mais objetos. Quando penso no nível estratosférico das (des)necessidades de consumo que criamos e das quais nos tornamos dependentes, não vejo nenhuma razão saudável para me deixar levar por esta onda, ou melhor, me prender por esta amarra. Por favor, não confunda com desapego. Estou longe de ser uma seguidora de Francisco de Assis pois, embora o admire muito, meu ascendente em leão não me permitiria tamanha humildade. Sou muito vaidosa, adoro cuidar de mim, da pele, dos cabelos, gosto de ter qualidade em tudo que consumo. E é isso: qualidade ao invés de (e sem somar-se à) quantidade. Quando penso nos prós de ter um carro, por exemplo, a lista de contras é tão extensa (prestação, IPVA, seguro, estacionamento/tempo perdido procurando vaga, antiácidos e ansiolíticos para combater os efeitos do estresse no trânsito...) que prefiro continuar usando os aplicativos, mesmo. Menos um carro na rua. E sim, menos muitos boletos na minha conta. Minha gastrite agradece.

Descobri que já existe um nome para essa minha tentativa de lidar de maneira diferente com o consumo: Minimalismo. Vi documentários e li algumas matérias com personagens que sentiram a mesma necessidade – e que foram chamados de loucos ou retardados por alguns leitores em seus comentários elucidativos e edificantes. Esses leitores não conseguem compreender, por exemplo, como alguém opta por experiências e não por bens “duráveis”.

Eu optei pelas experiências, porque foi por aqui que a minha história me guiou. Eu já vi de perto o final e lá a gente não lembra de quantos eletrodomésticos ultramodernos usou nem das pessoas que admiraram nossa imagem de profissional bem-sucedido, validada pelo número de coisas que possuímos. Sim, vamos admitir, a gente cria zilhões de razões – e se convence piamente delas - para justificar o consumo de todo tipo, muito mais pelo que elas representam na nossa imagem do que por necessidade real. Mas no final, são as memórias das experiências realmente marcantes que ficam, ainda que aparentemente simplórias. Jamais simplistas.

Para mim, além dos belos momentos do cotidiano, contemplar uma paisagem que me faz perceber o quanto o mundo é extraordinário, apesar de alguns humanos, e o quanto ainda tenho para ver, é o principal motivo que me faz querer ter cada vez menos. Quanto mais leves minhas malas estiverem, mais livre eu me sinto para encher minha bagagem de vida. Eu escolhi esse caminho porque cansei de sofrer para ter a vida que os outros esperam. Percebi que não havia nenhuma lógica nisso. Na verdade, na maioria das vezes, aqueles que realmente importam nem esperam nada. Nós é que criamos essa fantasia e ficamos presos a ela. Ainda assim, é estranho ver o semblante das pessoas quando ouvem pela primeira vez que eu não tenho carro, ou que meu prédio não tem portaria nem garagem. É sempre algo entre a desconfiança e a pena. Aliás, agora já nem é tão estranho, é engraçado mesmo.

Não pretendo com esse texto-desabafo dar receita de caminhos para o contentamento e realização pessoal, primeiro porque essa receita não existe, segundo porque fujo de gurus (Deus me livre me tornar um!). Se você acha que ter uma experiência dentro de um carro superlegal é sua praia, tudo bem, vá em frente. Mas aposto que vai ser muito mais prazeroso se fizer isso por você, não porque os outros esperam. Na dúvida para saber qual é sua real intenção, pense em como será se você não postar sua conquista no Instagram ou nas redes sociais. Mesmo assim vai ser uma experiência incrível e irretocável? Ótimo, então é por você.

Viver mais coisas ao invés de ter mais coisas tem dado certo para mim e para o Marcus. Não temos um jogo de jantar ou talheres refinados, mas não perdemos a oportunidade de convidar nossos amigos para estarem conosco, comemorando a vida com pratos e talheres de cores, tamanhos e formas diferentes. Quando um deles inventa de cozinhar, descobre que só temos três panelas. Depois do susto (e talvez desespero) inicial, conclui que essa é a quantidade que basta... ou não. Mas sempre encontramos uma saída divertida que vira história para contar depois. E é aí que mora a graça de tudo: quanto menos coisas, mais memórias.

Comentários

Monica Turolla disse…
ótemo!! como sempre!!! Adoro seus textos!!
Aline Porta Nova disse…
Chocada que vc não tem garagem! Hahahaha
Adorei, beijos!
Excelente texto como sempre estava com saudades deles!!!Parabéns querida continue escrevendo para nosso prazer em poder de le-los! É difícil Beth das pessoas aceitarem nossas escolhas infelizmente...bjsssss����
Beth Soares disse…
Obrigada pela leitura e palavras generosas, amigas!

Um beijão pra vocês!
Sueli Calvet disse…
*Ter menos para viver mais.... linda lembrança.... amei querida ⚘
Sueli Calvet disse…
*Ter menos para viver mais.... linda lembrança.... amei querida ⚘
Larissa Silvestre disse…
Estamos presos numa sociedade de consumo, em que se não estivermos bem vestidos e com carros que servem mais para status do que para meio de transporte, sofremos pressão, por sermos taxados como pessoas que não são bem sucedidas.
Mas, percebo uma recente mudança e que traz consigo uma mudança bem módica desses hábitos de consumo, por exemplo, já há pessoas que não consomem mais shoppings por acharem desnecessário ir aqueles locais.
Enfim, o texto é muito elucidativo e me trouxe mais reflexões sobre este tema.
Obrigada!!!
Beth Soares disse…
Sueli, é esse o cerne do texto. Que bom que gostou! Você é uma querida! 😘

Larissa, concordo com você. Existem mesmo mais pessoas pensando assim, ainda bem! Essa ideia de não consumir em Shoppings já é um começo. Mas tbm entendo que é preciso bom senso. Acho que a saída pode ser, na verdade, consumir o menos possível das grandes redes, valorizando os pequenos (e mais próximos) empreendedores. Isso envolveria, sim, não consumir em algumas lojas do shopping - lugar que explora a todos, inclusive lojistas. Fico muito feliz que o texto te trouxe mais reflexões. Um beijo grande!
Texto gostoso de ler. Consumismo está consumindo o consumidor.