Dona Saluca, Dona Norvina


Dona Saluca e Júnior 

Marcus Vinicius Batista

Ontem, eu conheci Dona Saluca. Perdoe-me o exagero, já que vi somente uma foto dela com o neto Júnior, um amigo. Dona Saluca morreu aos 96 anos. Enquanto Júnior descrevia a avó, eu visualizava a minha, Dona Norvina, também falecida, mas aos 83.

As duas mulheres eram mineiras do interior. Mulheres mineiras – as avós - são uma espécie diferente, avançada, que se deve perceber nos silêncios, nas lacunas entre as frases definitivas e enigmáticas. Se nasceram e viveram em cidades pequenas, parece que a sabedoria vem como recheio nos pães de queijo. O sabor só se faz divino quando abrimos mão do resto do mundo no instante da mordida.

Saluca e Norvina vieram de famílias com muita gente. Na dúvida, arrisque: é primo! Todo mundo é primo naquelas bandas. No interior, depois do seu nome, vem sempre a pergunta: filho de quem? Neto de quem? Se não souber a resposta, primo! Ambas cuidaram, portanto, de muita gente, ensinaram outros tantos sem diploma de instituição alguma, só com o conhecimento adquirido nos alpendres das fazendas ou das casas que ficam nas ruas onde o tempo quase parou.

As duas sobreviveram às cretinices dos homens e seus machismos. Por vezes, vivenciaram - de tão perto que dá medo de especular – a evolução da cretinice, quando se transforma em algum nível de estupidez masculina. Aprenderam a sofrer caladas, reconhecer de onde extrair as lições e como repassá-las sem empáfia ou a arrogância que permeiam muitos docentes com títulos pendurados nas paredes. Elas são as honoris causa.

Saluca e Norvina davam suas aulas em torno de uma mesa, geralmente na cozinha. Comer, para elas, é redundância coletiva, sem pressa, sem TV como companheira de refeições. Comer é compartilhar a mesa farta, mesmo que falte o básico. Dispensar um café com bolo, um pão de queijo ou um pão com manteiga significa desfeita da grossa, não importa se o visitante está de dieta, estômago cheio ou sem apetite, se acabou de chegar ou se mora na vizinhança desde moleque. 

Dona Norvina
A comida sempre foi o combustível para conversar, falar da vida, falar dos outros, trocar informações sobre o cotidiano, em relações horizontais como o formato da mesa. Suas casas sempre funcionaram como centrais de acolhimento, hospitais ou clínicas psicológicas informais, cujas donas nunca entregavam o cansaço, as tristezas ou as frustrações de si próprias, de modo que olhos, ouvidos e braços pareciam intermináveis para as dores dos muitos agregados que as procuravam. Posar de guru? Nunca fizeram questão de saber do que se tratava a palavra que dignifica os charlatães.

Saluca e Norvina fizeram de seu mundo o quintal. Se rodaram outras terras, sabiam para onde retornar, para onde se sentiam seguras da admiração pelas sutilezas do cenário. Pássaros, árvores, flores, pequenos animais, todos rendiam olhares em silêncio, todos compunham panos de fundo para “causos” que valiam por livros.

As duas, que nunca se conheceram, dispensavam o glamour, a autopromoção, o exibicionismo, o marketing pessoal, características que jamais entenderam. Estavam, ainda bem, acima da compreensão delas. A simplicidade de necessitar de tão pouco traz consigo uma complexidade detectável somente por gente da mesma espécie. A discrição é de quem nunca quis o centro iluminado e talvez aí resida a sapiência de nos ensinar, de nos apoiar, de nos apontar sem nos empurrar, de nos fazer notar o que é preciso para viver bem.

Aposto que elas tinham certeza de que ficariam em nós, dentro de nós, não nas fotos, mas nas perguntas que nos causam sofrimento nas bifurcações: o que elas fariam? Como tomariam essa decisão? 


Saluca mudou Júnior. Nem ele sabe como. Assim como Norvina e seu neto que vos escreve. A primeira mudança de Saluca, visível para mim, nasceu ontem, por volta das quatro da tarde. O nome dela descansa na loja de Júnior, agora oficialmente “Saluca – Bistrô e Café”. 

Se Plic Ploc lembrava uma bomboniere – e assim o foi -, Saluca é a evolução. Mudaram o nome e o logo, seguem os sonhos e o espírito zombeteiro das crianças gamadas em doces. Saluca estará ali, quando Júnior abrir a loja, quando fechá-la, para relembrá-lo do princípio maior que ela e Norvina pregavam pelo exercício. Coerência com suas crenças, temperadas com uma pitada de amor e adoçadas com pão de queijo e um cafezinho preto!

Comentários

Plic Ploc disse…
Obrigado professor pela homenagem a Dona Sálica. Se cá ela estivesse, lhe diria:
O fiinho, deus lhe pague, senta aqui pra um teco de broa e uma caneca café.

E grandes cada crônicas viriam na sequência.

Júnior Landim
Cidinha Santos disse…
Uma delícia ler as crônicas do Marcus, ainda mais quando o tema é de pessoas e lugares que conhecemos. Beijos, Marcus, Júnior, Dona Saluca e Dona Norvina que não conheci.
Renata Fenyö disse…
Lindo texto, Marquinho!!! Adorei!!!