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Imagem ilustrativa |
Márcio Valente*
A multidão, espremida na orla marítima, se agitou quando Demóstenes Peixoto, “O sábio”, saiu do mar vagarosamente em direção à praia.
Com água na altura dos joelhos, ele cambaleou. Parecia tonto. Parado, mas ainda meio desequilibrado, "O Sábio" retirou os óculos de natação e a touca que estampava nas laterais a vírgula característica do patrocinador. Sem os acessórios, firmou a marcha.
Todos respiraram aliviados e confirmaram: era ele! Aquele que ninguém conhecia direito, mas por algum motivo também desconhecido era chamado de “O Sábio”.
Olhos cerrados, barba longa e grisalha, pele e osso se deslocavam em direção à enorme estrutura montada para recebê-lo.
Ao pisar na areia, "O Sábio" foi recebido por dois staffs. Um deles, de imediato, colocou em uma de suas mãos o energético alado promotor do evento, enquanto o outro o cobria com uma toalha totalmente branca. Detalhe: alguns diziam que se tratava de uma das muitas condições impostas por ele, toalhas brancas.
Após 10 minutos sob flashes e muito empurra-empurra, “O Sábio” chegou ao local da entrevista coletiva onde todos os mistérios sobre ele e quiçá sobre o mundo seriam desvendados. Era essa a expectativa.
Veio a primeira pergunta:
— Quem verdadeiramente é o senhor?
— Eu sou eu.
— De onde veio ou melhor de onde viemos?
— Viemos de vários lugares. Uns de lá, outros de cá, outros de acolá.
— Mas o senhor tem como ser mais claro...mais específico?
— Sim, claro.
— E então, de onde?
— Viemos de um todo divisível de todas as direções.
— Existe vida após a morte?
— Isso eu não sei. Sei que existe morte após a vida.
Um jornalista especialista em celebridades teve a ideia de propor aquele formato de suscitar palavras e o entrevistado dizer o que vem a cabeça.
— Direita ou Esquerda?
— Centro.
— Violência?
— Agressão.
— Saúde?
— Saudável.
— Educação?
— Obrigado.
A imprecisão começou a despertar a fúria de muitos. Gritos: Pilantra! Um sete um! Salafrário! Picareta! Que merda... começavam a ecoar na multidão.
— Cor?
— Transparente.
Objetos voadores variados aterrissavam cada vez mais perto de onde “o Sábio” estava. Até que uma tosse forte e ininterrupta, seguida de uma falta abrupta de ar, fez com que “o Sábio” arregalasse os olhos, ficasse vermelho, roxo e...desabasse no chão.
Naquele instante, o sentimento de revolta se transformou em consternação. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Choro e gritos, mas agora lamentação era a única coisa que se ouvia.
No dia seguinte, Demóstenes Peixoto deixou de ser “o Sábio” e virou “o Mito”, além de nome de Rua, Praça, Escola e Hospital.
* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.
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