
O senador José Sarney talvez sofra de dupla personalidade. Ou apenas manifesta as contradições presentes no ser humano? O comportamento do presidente do Senado incomoda gente demais para que ele possa se esconder por tanto tempo. Esconder-se em sua história ou no prestígio junto aos colegas. Esconder-se nas cortinas do poder que geram temor em comandados e adversários.
A primeira personalidade se desenha no papel de presidente do Senado, que articula os tentáculos para salvar a pele do próprio polvo. É quem sorri ao contar com o carinho do presidente da República. É o político da velha guarda – na costura profissional desde os anos 50 – que se vale de estratégias antigas e eficientes.
O segundo Sarney se valoriza pela tranqüilidade espiritual. É o homem que escreve (sem entrar no mérito!) e que mantém a pose de vítima de maldades gratuitas dos supostos inimigos. O sujeito que busca exalar generosidade em jamais deixar um parente ou amigo desamparado e serenidade de que tudo passará.

“As duas personalidades” de José Sarney compõem o último grande coronel do Nordeste. Hoje, o coronel está na alça de mira, visto como símbolo da bandidagem do Congresso Nacional e exposto como se seus deslizes fossem inéditos e os mais promíscuos de um político brasileiro.
Sarney é um símbolo da cultura nacional, que poupa e inocenta o homem público, em todas as instâncias, da podridão. Acreditar que os escorregões do presidente do Senado são capazes de nos chocar pelos negócios estranhos ou pelo encaixe de parentes ou namorado de neta (pode ser tudo, menos parente!), traz em si um resquício de cidadania, talvez pelas razões erradas.
Em qualquer Câmara Municipal, o que os eleitores mais pedem é emprego. O mesmo sujeito que reclama do inchaço da máquina, muitas vezes, move-se rapidamente para integrá-la. O cinismo de ignorar políticas públicas só se desfaz quando a ineficiência delas o afeta diretamente. A mesma “regra” vale para os demais Poderes. A meritocracia pouco resiste ao debate, salvo os concursos públicos, o passaporte para a estabilidade eterna. Quem não conhece alguém que se aproveitou do “quem indica (QI)”?
José Sarney é a linha de frente da cultura corrupta brasileira. Reflete no espelho a postura de muitas parcelas da sociedade, que criticam as ações públicas porque não foram lembradas na hora que a torneira do dinheiro se abre. Se puderem apertar as tetas da mamãe, as colocam na boca e calam-se imediatamente.
O presidente do Senado, aos 80 anos, não pode ser poupado pela biografia, que muitos consideram louvável. Mas, para que se altere o estado de coisas, deve-se chegar no nível dos valores culturais enraizados, cujas origens não se encontram no Maranhão, no Amapá ou no Congresso Nacional, mas no cotidiano dos que acreditam ser o toma-lá-dá-cá a saída para se dar bem.
José Sarney não provoca somente queixas dos indignados. Ele incomoda os hipócritas, obcecados por empurrá-lo para debaixo do tapete ou para a obscuridade política no norte do país. Os hipócritas o fazem com consciência, pois apenas substituirão a erva daninha, torcendo para que a próxima cheire melhor ou não provoque urticária. E, principalmente, não os exponha no dia-a-dia.
Quando a lei só vale aos outros, os cínicos se misturam aos indignados. Assim, o tabuleiro de xadrez mantém o ritmo do jogo para prevalecer o empate. Rotina garantida.
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