quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Qual curso você veste?

Por Melody Bruni e Raquel Santos*

O que você pensa quando escolhe a roupa que vai para a Universidade? Admito que penso em algo bonito, mas que também seja confortável. Afinal, muitas vezes você vai ficar horas ouvindo os professores falarem e falarem. É claro que eu pensava que a maioria das pessoas também fazia isso, mas comecei a perceber a diferença como cada uma se comporta e se veste. Cheguei à conclusão de que há vários tipos na Universidade. Pode até ser estereótipo, mas sempre haverá do mais arrumadinho até os mais estranhos.

Para começar, as meninas de moda, aquelas que você sempre reconhece primeiro. São na maioria das vezes as mais ousadas. Não ousadas no estilo Geisy de ser, mas ousadas porque sabem o que devem usar e aproveitam isso ao máximo. Abusam das tendências e sabem chamar atenção, mesmo que estejam completamente vestidas da cabeça aos pés. Com certeza, se destacam no meio da multidão, mas pelos motivos certos.

Os homens em geral costumam se comportar sempre da mesma maneira, não importa o curso que façam. É claro que sempre tem aquele sem noção que vai todo largado e parece que saiu da cama direto para a aula. Mas na maioria das vezes eles seguem um padrão básico de camiseta, calça jeans, bermuda e, dependendo do tempo, um casaco. O que não consigo entender é o que leva alguns a viverem de bermuda o tempo todo, não importa o frio que esteja fazendo.

Mas apesar de tudo existem exceções nos homens também. Há sempre aqueles super modernos, que gostam de coisas diferentes e que sabem seguir a moda e criar o seu próprio estilo. É claro que esse tipo, na maioria das vezes, é tachado de gay, mas isso já é outra história.

Educação Física? Afinal quando se tem que usar o uniforme, não há muita coisa que se possa fazer para se destacar. Porque é obvio que você reconhece facilmente alguém que faça parte desse grupo. Agora outro tipo que pode ser facilmente reconhecido assim como os de Educação Física são os que vamos chamar carinhosamente de os branquinhos, sim as pessoas de Fisioterapia, Odontologia, Biologia, Medicina. Esses costumam estar sempre com calça jeans e camiseta, mas sempre de branco, é claro.

Sinto que agora é a hora, talvez o meu grupo favorito. Sabe aquelas pessoas que acham que sabem tudo de moda, mas não sabem nada? Sim, chegou a hora das exageradas. Acho incrível como elas se vestem. Sempre tem aquela garota que chega à faculdade, sábado de manhã, com um salto de quase 20 centímetros. Ela nem consegue andar direito, e toda trabalhada no rosa, e quando eu digo TODA trabalhada, é aquela que resolveu combinar desde a presilha de cabelo até o sapato, sim essas garotas existem...

Na maioria das vezes a categoria dos exagerados é composta por 99% de mulheres, mas sempre tem aquele ser que acha que só porque ele é moderno pode sair por aí misturando xadrez com bolinha e onça. Também não devemos esquecer as maquiagens espalhafatosas de algumas pessoas; sim, adoro maquiagem, mas será mesmo necessário fazer uma digna de casamento só para assistir duas aulas por dia? É, adoro os exagerados pelo fato de renderem boas risadas, mas o que eles precisam mesmo é só de um pouco de noção.

Agora sinto que posso ser um pouco puxa-saco; afinal, esse é o meu grupo de pessoas. São os nerds, mas não exatamente os nerds que você está acostumado. São os de Produção Multimídia. Se fossemos uma banda, seriamos o Restart; NÃO, não somos irritantes, mas assim como o Restart usa várias cores, nós fazemos várias coisas diferentes e isso acaba refletindo na forma como nos vestimos.

É fácil notar que nos tipos de Produção Multimídia há vários outros tipos. Tem os nerds de verdade que, na maioria das vezes, só precisam de uma bermuda e uma camiseta que já está suficiente; há as arrumadinhas, mas que não chegam perto de ser uma menina de moda, mas também não são exageradas. Há os esportistas, aqueles que colocam uma camiseta de time e resolvem toda a situação; há os bem simples, camiseta e calça jeans é seu uniforme; tem o estiloso que, às vezes, escorrega; tem o que está sempre com o mesmo tipo de camiseta e como em todo lugar tem aquele que pega a primeira coisa que vem na mão quando abre o armário.

Mas, mesmo com toda essa diferença, acho que concordamos em uma coisa quando se diz respeito à roupa — não ligamos para o que os outros pensam. Somos diferentes. Não estranhos, diferentes.

* Texto produzido na Oficina de Crônica, na disciplina Leitura e Produção de Textos, no curso de Produção Multimídia (UNISANTA)

Sobe? Desce?

Por Priscila Lerne e Keila Santana*

“Essas meninas acham que só porque pagam a faculdade pode me tratar assim”, foi o que escutamos de uma ascensorista. Estávamos colando um trabalho na porta do elevador no térreo, enquanto o outro grupo colava no elevador do lado, mas no quinto andar. Como não podia parar os dois elevadores, a ascensorista nos pediu para esperá-los terminar; assim, o elevador que eles usavam voltaria a funcionar e o que nós usávamos pararia.

Foi então que a ascensorista se ofereceu para ir até o quinto andar e pedir para o outro grupo avisar quando terminassem. De volta ao térreo, a ascensorista fez o desabafo.

Diante disso, começamos a observar como os “tiozinhos do elevador” (chamados assim por muitos universitários) são tratados diariamente no local de trabalho.

Poucas são as pessoas que dizem “boa noite”, “obrigado”, e algumas nem se prestam a dizer o número do andar. Os tratam como “homens e mulheres invisíveis”, como se na mensalidade já estivesse incluso o “serviço”. E quando o ascensorista faz alguma brincadeira, eles riem, como se o funcionário não tivesse o direito de falar com eles.

São pessoas medíocres, egocêntricas e ignorantes, que acham que o dinheiro vale mais que um simples “obrigado”.

Durante a confusão, nossa única solução foi: uma de nós ficaria no elevador, se passando por ascensorista por um dia, enquanto as outras colavam o trabalho. Nessa história de ascensorista por um dia, pudemos não apenas observar como as pessoas os tratam, mas sentir o que eles sentem.

Vale a frase de Karl Kraus: “Os alunos comem o que os professores digerem”. Assim como os pais são os exemplos para os filhos, os professores são os exemplos para os alunos, e muitos professores, ao entrarem no elevador, além de me ignorar, foram rudes ao saberem que o elevador não podia descer para o térreo.

Podemos dizer, não apenas como observadoras, que – além do fato de sermos ignoradas, lamentamos ver “caras feias” por terem que descer um andar de escada.

* Texto produzido na Oficina de Crônica, na disciplina Leitura e Produção de Textos, no curso de Produção Multimídia (UNISANTA)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O descanso do carnavalesco

Marzo era um sujeito sofisticado. Um homem classudo, como dizia a minha avó. Mesmo de camiseta, bermuda e chinelos, quando ia na padaria, o andar era tão apressado quanto elegante.

Quando o conheci, há 25 anos, Marzo tinha um único vício. Vício que paralisava a vida dele por uma semana, todos os anos. Corrigindo: vício que o alimentava de vida e exigia uma viagem para o Rio de Janeiro.

Marzo amava o Carnaval. E se orgulhava do fanatismo pelos bailes de gala e concursos de fantasias. Tinha olho clínico que, nos detalhes, separava o glamour da cafonice. Ele passava meses em preparação. Da escolha do tema ao figurino. Da viagem cuidadosamente pensada à dinâmica do desfile. Um ano em uma noite. No salão, Marzo encontrava a si mesmo, aristocrático sem ser esnobe, nobre com sensibilidade sacerdotal.

Nunca nos encontramos com grande freqüência. Os esbarrões eram ocasionais, em eventos da família dele. Marzo representava o papel de tio de três grandes amigos meus. Sempre os ajudou quando as necessidades financeiras se fizeram presentes. Sempre os auxiliou em seus projetos pessoais, ainda que fossem conflitantes com seus princípios. Abriu o caixa quando vislumbrava reforçar ou realizar sonhos de seus sobrinhos.

O tempo não o deixou menos calado. Falava pelos cotovelos. Perguntas se misturavam com queixas. Histórias cotidianas se alternavam com aquelas reclamações engraçadas de velho. Velho e maduro o suficiente para fazer piada de suas manias. Qualquer assunto na TV, mesmo que observado de forma atravessada, servia de comentários e opiniões formadas com convicção.

Os problemas de saúde o debilitaram pouco a pouco. Teimoso em ajudar aos outros, Marzo cometeu o pecado da auto-confiança. Talvez fosse medo de estar diante dos males que o invadiam. Mas nunca deixou que doenças o vencessem de goleada. O jogo era apertado, cada pedaço de território disputado no tapa. Recusava-se a ficar de cama. Imagina se deixaria de ir ao banco ou cumprir outras obrigações do cotidiano.

Tornou-se rotineiro para mim vê-lo caminhar com pressa pelas ruas do Boqueirão, em Santos. Com a visão frágil, Marzo não me reconhecia à distância. Ainda assim, me cumprimentava com entusiasmo, como se fosse um amigo de longa data. Bastava que eu levantasse a mão.

A última vez que o encontrei, percebi como a saúde dele fraquejava. Foi há dois anos, em um dia de semana qualquer, no meio da tarde. Saía da casa de um dos sobrinhos dele, Marcelo. Deixamos o elevador e atravessamos o hall de entrada do bloco.

Na porta de vidro, que dá acesso ao pátio, Marzo apareceu de surpresa. Parecia atrasado, e com todo o tempo do mundo, como de hábito. Falava de maneira acelerada, característica herdada pelo sobrinho mais velho.

Marzo o reconheceu. Depois, olhou para mim e perguntou ao sobrinho:

— Marcelo, este é o rapaz do plano de saúde? Estou esperando por ele. Você está atrasado, rapaz.

— Tio, esse é o Marcus. Você não se lembra dele?

Desconcertado, mas sem perder a pose, Marzo retomou a dianteira no diálogo.

— Claro! Oi, Marcus, como você está? Você está mais magro.

Marzo era assim. Elegante nas palavras, mesmo que elas exigissem uma mentira cordial, capaz de conquistar o interlocutor e redirecionar o rumo da prosa. Educado no trato diário, mesmo que fizesse uma ligeira confusão entre um amigo da família e um prestador de serviços anônimo.

Embriagados pela velocidade do cotidiano e pela ilusão da produtividade, nos afastamos de pessoas interessantes. Foi o que aconteceu comigo. Não o vi mais. As notícias que me chegavam dele pecavam pelo atraso e não dimensionavam os problemas de saúde.

Não soube que estava hospitalizado. No último final de semana, pude me despedir dele. Conversamos em silêncio, por cerca de um minuto. Ele me garantiu que estava em paz. Que descansava com serenidade.

O sobrinho mais novo, Frederico, definiu com sensibilidade a cerimônia de cremação, em meio aos acordes de piano e a meia luz que cobria o auditório.

— O tio se despediu com a classe de sempre. 

Dali em diante, somente o silêncio devotado para agradecer aos homens incomuns.


domingo, 28 de agosto de 2011

Na ponta dos pés


Por Karina Serqueira*

Ao passar pelas ruas com o meu coque e trajes de balé sempre deparo com alguma garotinha que olha para mim encantada e diz à mãe:

— É uma bailarina? Mãe, quero fazer balé!

Confesso que na infância nunca tive esse sonho. Sonhava em ser fada, apresentadora de programa de auditório, cientista e mil outras coisas, mas nunca bailarina. Costumava implorar à minha mãe para fazer ginástica olímpica, queria fazer acrobacias, mas minha mãe queria balé. Sem entrarmos em consenso, fui para a natação.

Hoje, quase não reconheço aquela menina de antes, que torcia o nariz ao ouvir a palavra balé e agora torce o pé, mas não desce da sapatilha de ponta. Ser bailarina é ser masoquista, e qualquer bailarina que ama o que faz concorda sinceramente com esse fato. Balé é força e graciosidade. Por trás da coreografia linda, existe muito treino, meses ou anos de preparação.

O mundo do balé é cruel. Você não o escolhe. Ele escolhe você e exige coisas quase impossíveis. É por isso que todo ano uma legião de garotinhas entra no balé, mas poucas resistem aos nove anos de curso. O treino é pesado, algumas dão sorte de nascer com um super alongamento ou com o pé perfeito, mas ainda assim para o balé não é suficiente.

O balé é perfeição. E perfeição, na verdade, não existe. Ser bailarina é viver em busca da perfeição, fazer passos que exigem e fazer o espectador acreditar que o que você faz é muito simples. É por isso que toda a bailarina sempre tem de lidar com o chato que vem falar que balé não é esporte, não é exercício. É só ir lá e ficar na ponta dos pés, bonitinha. Nessas horas, você se segura e simplesmente manda o infeliz ir fazer uma aula para ver como é. Você acaba rindo sozinha ao imaginá-lo tentar fazer tudo o que você treina há anos e, mesmo assim, ainda não domina com perfeição.

Balé é para quem ama. Só o amor explica as incontáveis horas de aulas, treinos e ensaios. Só o amor explica passar noites com gelo no pé, no joelho e em tudo mais só para estar bem e continuar a treinar. Só uma bailarina de coração entende o que é tomar aquele tombo, ficar agoniada semanas afastada com gesso e depois voltar e dançar como se nunca tivesse caído.

Amo o que faço. Por isso, mesmo sem o alongamento perfeito, sem a perna certa e outros requisitos que o balé exige, insisto. Continuo a dançar, a me superar. Finalmente, estou colhendo os frutos de nove anos de esforço. Não existe sensação melhor — depois da apresentação em que deu tudo de si ou o exame para passar de ano — do que o momento em que a jurada diz o quanto você foi bem, o quanto cresceu.

É por isso que continuarei na ponta dos pés, até quando eles me permitirem.

* Texto produzido para a Oficina de Crônicas, na disciplina Leitura e Produção de Textos, do curso de Produção Multimídia (UNISANTA)

sábado, 27 de agosto de 2011

Tarados a bordo

Por Michele Quevedo e Michele Vila Nova*

Andar de ônibus. É algo que todo mundo faz ou pelo menos já fez um dia. Por falar nisso, tenho reparado nas atitudes de alguns homens dentro do ônibus. Eles parecem estar numa seca tão grande, que é só ver uma garota bonitinha que a safadeza começa. Desde os jovens até os sem dentes. Para ser tarado, não há idade. Tem aquele que senta ao teu lado e não tem a menor noção de espaço, ou finge não ter, insistindo em roçar a perna de um jeito que, se o ônibus balançar mais um pouco, o cara senta em cima de você.

Ultimamente, tenho reparado nos motoristas. Que eu saiba, eles estão ali para dirigir. Outro dia peguei um ônibus que, por sinal, era o errado. Logo quando subi, o motorista começou a me regular e falou uma graça, que não entendi. E se já não bastasse ficava olhando pelo retrovisor. Percebi que com toda a mulher que entrava, ele fazia a mesma coisa. Enfim, quando dei sinal, ele perguntou:

— Você vai virar nesta rua?

Respondi que sim, e ele, com a maior cara de pau, abriu a porta, mesmo estando longe do ponto. Bem, eu desci, pois facilitou para mim. Mas fiquei indignada!

Motorista pode ser calado ou falante. O calado constrange a garota de tanto observá-la pelo retrovisor. O falante provoca náuseas só com as barbaridades que diz. E por falar em náuseas, os passageiros idosos não podem ficar de fora. Estes adoram puxar conversa como se fossem bons velhinhos, fazendo papel de vovô. De repente, põem a língua de fora.

E quando o ônibus está lotado? Aí a oportunidade é única para querer se esfregar nos glúteos da garota. Na hora da curva, fingir desequilíbrio e cair em cima dela, ou então ficar fungando no cangote.

Já que os homens tarados jamais serão extintos, é preciso arranjar meios para sair dessas situações. Levar uma agulha na bolsa é uma boa sugestão. Na hora do encoxamento, é o momento certo para acertar uma boa agulhada no infeliz. Gritar também é uma opção. Não simplesmente gritar, mas fazer com que o ônibus inteiro saiba o que ele está fazendo.


* Texto produzido para a Oficina de Crônica, na disciplina Leitura e Produção e Textos, do curso de Produção Multimídia (UNISANTA)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Os meninos que viraram árvores





O armazém na esquina das ruas Emilio Ribas e Campos Melo é uma carcaça sem vida. Escurecido pela corrosão do tempo e pela omissão do homem, o prédio em ruínas contrasta com duas árvores que insistem em colorir aquele pedaço da Vila Mathias, em Santos.

O ipê e a amoreira estão a uma distância de oito passos uma da outra. Ambas as plantas têm motivos para estar ali. Não ocupam parte da calçada ao acaso. Entre elas, um pequeno canteiro, o novato plantado há 15 dias. As duas árvores têm nome próprio, além daqueles que servem aos biólogos para identificá-las como espécie. O ipê se chama Ícaro. A amoreira, Murilo. As árvores materializam e cristalizam a memória dos dois meninos atropelados em 8 de agosto de 2005, exatamente naquela esquina.

Um ano depois da morte dos garotos, os familiares discutiam a hipótese de realizar missa em homenagem aos dois. A guarda municipal Sandra Maria de Miranda Costa, tia de Murilo, se recusou a cumprir o protocolo. Sugeriu que fosse organizada uma rua de lazer para as crianças do bairro, o que incluiria o plantio de duas árvores para simbolizar Ícaro, de 10 anos, e Murilo, de oito. “Como eles não cresceram, que as árvores cresçam por eles!”, foi o argumento definitivo de Sandra.

As duas árvores são a cereja do bolo de uma festa que acontece há seis anos na rua Emilio Ribas, entre a Campos Melo e a Silva Jardim. Em um domingo de agosto, a comunidade se reúne durante o dia todo e promove uma Rua de Cidadania. São realizados cortes de cabelo, atendimentos jurídicos e odontológicos, brincadeiras, shows, distribuição de alimentos, entre outras atividades e serviços voluntários. O custo é fatiado entre empresas do bairro, Prefeitura e doações de pessoas físicas.

A organização começa dois meses antes, com a arrecadação de fundos e o planejamento das atividades. Panfletos são distribuídos nas escolas da rede pública e reuniões são realizadas com os moradores.

A tia de Murilo explica que a rua de lazer, posteriormente ampliada para Rua de Cidadania, tem o objetivo de tirar o estigma daquele canto do bairro. “Ah, ali morreram os meninos, muitos dizem. Eles morreram brincando. Então, vamos brincar por eles.” Para ela, o ar de festividade foi a maneira encontrada para minimizar a própria dor e saudade do sobrinho. “Bloquear não conseguimos. Através deles (os meninos), as crianças daqui terão lazer.”

Um dos envolvidos é o grupo Doutores do Riso, uma das organizações que realizam trabalhos de humanização em hospitais. Voluntária desde 1980, Idalina Galdino Xavier, a Doutora Alegria, participa do evento há três anos. “É muito triste ter que fazer isso pela morte dos meninos. O sofrimento é eterno. Mas, por outro lado, as crianças precisam de espaço.”

O acidente - Ícaro e Murilo brincavam de esconde-esconde com outros meninos na rua Emílio Ribas. Os dois resolveram se esconder debaixo de um caminhão com contêiner, que estava estacionado na esquina com a rua Campos Melo. Eram duas horas da tarde e o motorista almoçava em um boteco do outro lado da rua.

O motorista terminou a refeição e entrou no veículo. Segundo testemunhas, ele não viu os meninos e deu partida no caminhão. Uma moradora do local gritou para avisar o motorista que os dois estavam embaixo do veículo, mas não conseguiu evitar o atropelamento. Ambos morreram antes de dar entrada na Santa Casa de Santos.

Batismo - Atualmente, a festa é organizada pela família de Murilo. Mais de uma dúzia de parentes se dividem na preparação e na execução das atividades. Os familiares de Ícaro participaram do primeiro ano. Depois, se mudaram para a Zona Noroeste e perderam contato com os antigos vizinhos. Este ano, Ícaro e Murilo foram batizados. Ou melhor, as duas árvores receberam, oficialmente, seus novos nomes. Duas placas foram colocadas nas floreiras que cercam o ipê e a amoreira para relembrar e informar, além dos limites do quarteirão, o que ainda representam as duas crianças para os moradores de um pedaço da Vila Mathias.

Foto: Luiz Nascimento

Obs.: Reportagem publicada, originalmente, no jornal Boqnews (Santos/SP), edição 854, em 20 de agosto de 2011. Veja matéria abaixo, Bom dia, meu filho!

Bom dia, meu filho!

Marliane Rnilz da Costa sai de casa todos os dias antes de clarear. Em ponto, às 5 horas. Ela é vendedora de passagens da Viação Piracicabana e precisa estar na rua Sete de Setembro antes do sol nascer. Ela mora a meia quadra de onde ficam as duas árvores. Atravessa a rua para não se aproximar delas. Ainda que à distância, ela cumpre o ritual de olhar para a amoreira e dizer:
— Bom dia, meu filho!

Marliane nunca tocou na árvore. Um dos irmãos, Regis, tem a responsabilidade de zelar pelas plantas. Quando conversou comigo, Marliane estava a dois metros da amoreira. Falava de costas para a árvore. Quando se virava para ela, engasgava, os olhos se enchiam de lágrimas. Marliane respirava fundo e buscava concentração para retomar a conversa.

A mãe de Murilo confessou que, no primeiro ano, não admirava a ideia de promover uma rua de lazer para relembrar a morte do filho. “Estava de luto. Fui convidada especial.” A partir de 2007, se envolveu diretamente com a organização do evento.

Murilo morreu numa segunda-feira. Marliane vendia passagens em frente à Santa de Casa de Santos. Conhecia muitos funcionários, que a deixavam tomar água e utilizar um dos banheiros do hospital. No momento do acidente, o movimento estava tranqüilo e ela havia engatado conversa com uma amiga. Ela se recorda de ter mencionado os filhos várias vezes até sentir uma dor no peito.

A sensação de mãe, que cientista algum consegue explicar, se transformou em preocupação. “Não deve ser nada”, pensou. Minutos depois, a ambulância que tentava salvar a vida do garoto de oito anos passou em frente ao ponto. Ela não prestou atenção, até porque havia se acostumado com a rotina das emergências no local. “Toda hora passa viatura por lá.”

Marliane só percebeu que havia algo diferente quando notou meia dúzia de funcionários olhando diretamente para ela. Murilo havia sido identificado. Nenhum deles tinha coragem de dar a notícia para a vendedora de passagens. Marliane só pensou em acidente com um dos três filhos quando avistou a cunhada saindo da Santa Casa.

Hoje, a árvore é mais do que um símbolo. Para Marliane, a amoreira é Murilo. A amoreira é a projeção de como o filho dela estaria aos 14 anos. É quando ela olha para a árvore, soluça e diz: “ele cresceu, está grande, feliz e com vida.”

Tropa de choque


A decisão de equipar a Guarda Municipal de Santos com armas de eletrochoque dará poder a um grupo que talvez não esteja preparado para exercer o papel de polícia. A medida, também de fundo político, é o meio-termo de um embate que se arrasta há anos dentro da corporação.

Desde o governo David Capistrano, nos anos 90, parte da guarda reivindica a adoção de armas de fogo. Sempre houve resistência por parte da cúpula, muitas vezes oriunda de instituições policiais. O atual secretário municipal de Segurança Pública, Renato Perrenoud, é policial militar.

O argumento recorrente, do lado dos guardas, era que a rotina nas ruas estava marcada pela violência e que a arma de fogo serviria como mecanismo de proteção para situações-limite. O contraponto residia na ideia de que os guardas municipais têm o papel primordial de proteção ao patrimônio público, e não interferir em circunstâncias com tendência à violência física.

A arma de eletrochoque alimenta, de certa forma, o desejo antigo, mas - na prática - ambos os discursos não se encaixam na realidade do município. Os guardas municipais fazem mais do que proteger prédios, monumentos e logradouros públicos. Eles servem de suporte para ações de assistência social e, por vezes, cumprem funções policiais, o que inclui acusações de força excessiva. Por outro lado, estes servidores estão expostos a cenários de degradação social, nos quais podem se tornar alvos da criminalidade.

Ambos os argumentos desviam o foco essencial do debate. Os guardas já trabalham com bastões, coletes à prova de balas, spray de pimenta e algemas. A Secretaria de Segurança afirmou que os tasers (nome das pistolas) serão utilizados em casos extremos. O que seriam “casos extremos”?

A discussão envolve, no mínimo, uma definição mais clara dos limites de um guarda municipal. Ele tem papel de polícia? Em caso de resposta positiva, teve treinamento adequado? Por que não atua em conjunto com outras instituições em que “casos extremos” são da natureza do trabalho?

A Secretaria de Segurança anunciou que todo o efetivo passará por testes psicológicos. Na hipótese de se estabelecer quem são os aptos a portar pistolas, em qual condição ficarão os inaptos? Serão estigmatizados como guarda de segunda classe? São, por enquanto, 35 pistolas. Com quem ficarão as armas? E quais atribuições terão aqueles que não podem portá-las?

Testes psicológicos soam como paliativo para apressar um processo que demanda mais tempo de maturação. Testes detectam um momento, recortam um contexto. E o treinamento psicológico? Se as pistolas são para “casos extremos”, como fortalecer mentalmente os guardas para estas circunstâncias? 

Treinar alguém para conhecer e manusear um equipamento não permite avaliar – em tempo escasso – quando e contra quem usá-lo. Um usuário de crack que resiste ao atendimento de emergência. Um morador de rua que insiste em permanecer debaixo da marquise. Vândalos que tentam furtar ou dilapidar patrimônio público. São situações críticas que necessitam de intervenções, muitas delas a partir de decisões subjetivas.

O treinamento para implantar o uso de armas de eletrochoque não inclui repensar os vícios que são inerentes à função. São os mesmos homens, muitos deles com cicatrizes das ruas. Eles pretendem se submeter a um novo olhar sobre incidentes no trabalho? A presença de uma pistola – capaz de matar, em certos casos – altera a relação com o lado obscuro da cidade. Não é a sensação tentadora de poder para o sujeito acostumado a ser a “autoridade”?

A guarda municipal não é polícia. A corporação tem atribuições específicas e, seria excelente, se fossem cumpridas. Há trabalho demais numa cidade que mascara as desigualdades. As armas servirão para proteger quem? E proteger de quem?

domingo, 21 de agosto de 2011

O pedido de licença

Costumo brincar, há alguns anos, que sou torcedor licenciado do Corinthians. É uma forma bem humorada que encontrei para evitar aquelas discussões intermináveis – e inúteis – sobre futebol. Debates que normalmente resultam em impasse. O licenciamento repele os amigos da polêmica fácil.
Na prática, estar licenciado me dá a condição de poder me afastar do clube, sem cair na tentação de me aborrecer com ele. O licenciamento também possibilita compreender que se tornou dispensável assistir aos jogos do time. É claro que postura era suscetível a recaídas, principalmente quando a equipe estava no fundo do poço, quando amargava o lodo da série B do Campeonato Brasileiro.
Estar licenciado também me deu o distanciamento adequado para observar e detectar as nuances da trajetória de Ronaldo no Corinthians. Separar, com racionalidade, o jogador do produto, o atleta da mercadoria, o gênio do futebol do fenômeno do marketing empresarial.
Na última quarta-feira, ao assistir a virada corintiana sobre o Atlético-MG, me senti mal. Percebi, em primeiro lugar, que voltava a acompanhar os jogos do Corinthians com uma freqüência maior do que desejava. E a decepção veio na mesma intensidade.
Testemunhava a permanência na liderança, a virada sobre o Atlético, mas pensava o tempo todo: — Que jogo chato!  
O Corinthians não pulsava como, por exemplo, na série B ou em certos momentos da era Ronaldo. Parecia uma equipe contente com suas limitações, que se arrastava em campo. Contentava-se em tocar a bola de lado, fiel à monotonia que permeia os campos por aqui.
Ganhou do Atlético porque o adversário mineiro é um dos piores da primeira divisão. Não senti, à distância, aquela vitória por méritos. Posso ter me enganado, mas a virada atendia à probabilidade do jogo, à ordem natural das coisas. O mais forte venceria o inferior, cedo ou tarde.  
O Corinthians transmite a sensação de que não deseja ser líder. Que ocupa um lugar que não pertence a ele. Que está ali por uma série de circunstâncias; a principal delas, um torneio nivelado por baixo.
O time freqüenta a ponta da tabela desde o início da competição. Venceu várias partidas seguidas, mas sempre aos trancos, no limiar do empate, comportamento reiterado nos últimos confrontos. A equipe não transpira aquela segurança de quem provavelmente vencerá. Para estes, a derrota, quando nasce, é vendida por um preço que poucos podem pagar.
O Corinthians apresenta problemas em todos os setores. Não temos um goleiro confiável. Três já atuaram e nenhum deles merece que os zagueiros deixem a bola passar. A defesa, além de envelhecida, é instável. Desde que William se aposentou, o entrosamento naquele setor morreu. A lateral-esquerda voltou a ser um problema com a venda de Roberto Carlos. Improvisações e garotos não sustentam a ala.
O meio-campo, apesar de um homem na seleção, não abriga gênios, sequer jogadores acima da média. Ralf veste a camisa amarela por razões estranhas. Os demais volantes são comuns, deficiência desde a saída de Christian e Elias. Os meias não provocam admiração. Torço por mais lampejos de Alex. A camisa 10 está vaga desde Douglas, hoje no Grêmio.
Na frente, o time segue viciado, dependente de Liédson. Sem ele, a quantidade de gols cai de maneira substancial. Jorge Henrique é ótimo como coadjuvante. William oscila no entra-e-sai da equipe. Emerson está no endereço errado.
O Corinthians tem um elenco melhor do que os adversários? Não. Pior? Também não. Talvez inferior ao Santos completo, mas o time da Vila segue na perigosa pré-temporada para o Mundial.
Estar na vala comum é dom e maldição para o Corinthians. O dom está na justificativa de que os concorrentes insistem em recusar a liderança do campeonato. Mas até quando? A maldição o acompanha na ausência de qualidade para agarrar para si a tarefa de disparar na frente e definir o torneio.
Historicamente, sabemos que o Corinthians – na maioria das vezes – venceu quando tinha times ruins. Os jogadores sangravam e atropelavam oponentes pela luta. A fragilidade técnica era compensada pela disciplina em cumprir ordens, como soldados dispostos a morrer por uma causa, por um símbolo maior.
Aí reside minha dúvida: esta equipe está disposta a quê? Não vejo sangue nos olhos. Vejo profissionalismo correto, mas falta o tempero que faz as equipes entrarem para a memória dos corintianos e alimentarem a raiva dos adversários, que não vêem a mesma paixão obsessiva nos que vestem suas camisas de preferência.
Talvez o problema seja o sargento, incapaz de espremer a alma de seus comandados. Mas não tenho o hábito de crer que técnicos resolvem tudo. A maior parcela de culpa, de responsabilidade e de méritos está entre os que jogam. O treinador comum apenas norteia o caminho. Não o percorre. Às vezes, funciona como motivador. Pode ser que Tite se encaixe no perfil.
Na dúvida e com pesar, preenchi a papelada de renovação de licença. Com a esperança adormecida – e disposta à ressurreição - no canto dos olhos.

sábado, 20 de agosto de 2011

A folha de louro

Quando está de férias, a insônia vira acompanhante regular dele. Adota como tradição jogar fora o relógio, ato simbólico de uma vida propositalmente desregulada. Estava na casa dos pais, visita rotineira, mas resolveu passar a noite por lá.
Por volta da uma da manhã, elétrico como se estivesse no meio do dia, resolveu fazer uma refeição. Jantar de madrugada não era saudável, mas coerente com seus hábitos ogros.
Abriu a geladeira e optou por comer arroz com o resto de uma carne picadinha. Mais molho do que carne, na verdade. Complementou com queijo ralado, que derreteria no micro-ondas e deixaria o prato com feições mais apresentáveis para o autoengano alimentar da noite.
Depois de um minuto e meio, a refeição estava pronta. Nem esperou chegar ao quarto, para comer em frente à TV. Coerência consigo mesmo faz o homem, pensou. Deu uma garfada na cozinha, desculpa para experimentar se a comida havia esquentado.
Na garfada, veio a folha de louro, ingrediente raro naquela cozinha. Tão incomum que ele olhou por alguns segundos para ela. Era a sobrevida dela, antes de repousar na lata de lixo. A folha aguçou lembranças de um episódio vivido há quase 25 anos, quando era uma criança às portas da adolescência.


Eis aqui a história.
Ele tinha um amigo de infância chamado Marcelo. Marcelo Pimenta, sujeito com nome de tempero. Tinham a mesma idade e a mesma obsessão por futebol. Marcelo foi um grande amigo até os 15 anos, depois se mandou com a família para o interior do Paraná. Lá, montaram uma fábrica de brinquedos educativos de madeira.
Marcelo voltava nas férias para ficar na casa da irmã, que se casou com uma paixão do início da juventude. As idas e vindas duraram até os 18 anos, quando os dois amigos foram cursar universidade. A irmã, para completar o pacote, se separou e foi auxiliar a família na fábrica. Nunca mais se viram.
Quando tinha 12 anos, ele foi convidado para jantar e dormir na casa do Marcelo. Não tinha o hábito de dormir fora e pouco ia à casa do amigo. Almoçava e lanchava na residência de outros amigos, mas eram compromissos eventuais. A casa dele era o ponto de encontro para jogos e comilança. Estava acostumado a receber, e não a desembarcar em territórios inóspitos.
Antes de sair, ouviu um monte de recomendações da mãe. Conhecia as regras de cor, mas sabe como é: mãe nunca se lembra de que já disse aquilo um dia. Ou prefere esquecer de que o destino é ser repetitiva. Por isso, ele preferia entender o replay como um ato de amor.
Chegou à casa do Marcelo faminto. Depositou a mochila em qualquer lugar, cumprimentou a todos e, ao ouvir o convite da mãe dele, sentou-se à mesa. Não se lembra exatamente do cardápio. Recorda-se de que ela servira feijão e arroz, itens fundamentais para a ocasião.


 
Os moleques avançaram no feijão e no arroz. Depois de algumas garfadas, o visitante percebeu uma linha fora do roteiro. No meio do feijão, uma folha de louro. Para não dizer meias verdades, descobriu o nome da folha no dia seguinte. Naquele momento, era uma folha no meio do feijão.
Lembrou-se das recomendações da mãe:
— Diga por favor e obrigado. Não coma muito nem faça bagunça. Se colocou no prato, coma. Não faça desfeita de deixar comida, hein?
O que fazer com aquele bicho estranho? Nunca vira uma folha no feijão. Se deixasse de lado, denunciaria que não gostava ou desconhecia aquilo. E também descumpriria as regras de educação. Imaginou que seria algum tempero específico do Paraná, local de origem da família Pimenta.
Aos 12 anos, precisava tomar uma decisão rápida. Se perguntasse à mãe do Marcelo, poderia cometer uma gafe. Gafe, nessa idade, significava ser zoado por meses, talvez anos. Ou parecer sem educação.
Marcelo era carta jogada fora. Se eu não sei, ele também não deve saber, pensou. Silêncio como saída. A folha estava ali, no prato, por alguma razão. Se estava no meio do feijão, a tarefa era comê-la.
Colocou a folha de louro na boca. O feijão foi embora logo. A folha insistia em dançar entre o céu e a garganta. Mastigava e a danada não descia pela goela. Colocava mais feijão na boca. Ele seguia o caminho e a folha permanecia ali. Goles de refrigerante eram inúteis.
Foram cinco minutos de agonia. Fingia interesse no papo, mas a folha era o centro da vida. Suava para manter a pose de quem estava adorando o jantar. De fato, a comida era deliciosa, exceto pela intrusa verde, envernizada pelo molho amarronzado.
Pensou em cuspi-la discretamente no guardanapo. Pensou no risco de ser flagrado. Não queria ser visto como caipira. Era rato de praia, caiçara do litoral paulista. E, na arrogância dos 12 anos, se julgava melhor que os interioranos do “r” puxado.
Cogitou abaixar a cabeça como se apanhasse algo no chão. Assim se livraria da folha. Ponderou que, no dia seguinte, a mãe do amigo varreria a cozinha e descobriria a prova do crime.
Decidiu abandonar a frescura. Se a folha estava ali, era para ser devorada. Ele era o desavisado. Mais um pouco de feijão e pronto: triturou a maldita e engoliu a seco. O resto da noite seguiu como previsto.
No dia seguinte, ao retornar para casa, ouviu o interrogatório de sempre sobre comportamento. Respondeu de forma protocolar e, no final, acendeu a dúvida. Por que o feijão deles tem folha e o da mãe não?
A mãe começou a rir, descreveu a espécie em questão e informou que também usava folha de louro como tempero. Apenas a retirava antes de servir a comida.
Hoje, 25 anos depois, a folha reapareceu em seu prato. Teve destino certo, sem culpa, sem arrependimentos. Desde o jantar nos anos 80, toda vez que depara com uma das irmãs daquela folha, perdida no prato ou na panela, ele entende por que os detalhes desnudam o todo, irrecuperável e nostálgico.

Observação: Texto de ficção publicado originalmente no site Jornalirismo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Orgulho de macho


Os políticos brasileiros adoram fazer escola, deixar um legado de sua passagem pelos parlamentos e governos. O auge se dá quando seus nomes se transformam em conceitos para definir uma postura pública, como o getulismo e o malufismo. Não é o caso do vereador paulistano Carlos Apolinário, camaleão na política, vira-casaca de várias legendas. Mas ele será nota de rodapé da história por uma das maiores imbecilidades legislativas: a criação do Dia do Orgulho Heterossexual. 


O projeto, aprovado por 31 vereadores-cúmplices, depende da canetada do prefeito Gilberto Kassab. O prefeito, aliás, reforçou a imagem de alguém que governa de costas para a cidade e para os comportamentos sociais que pulsam dentro dela. Para o prefeito, data como essa equivale ao Dia do Médico e ao Dia do Professor e jamais seria um estímulo à homofobia.


O projeto de Apolinário, que estabelece a “comemoração” no terceiro domingo de setembro, influenciou outro aventureiro com mandato. O vereador Ciro Moura apresentou proposta semelhante em Fortaleza, no Ceará. Deputados federais falaram sobre a importância de um projeto semelhante em âmbito nacional.


O Dia do Orgulho Heterossexual é uma aberração social e cultural. Homofobia é exercício cotidiano, em um país com ranços machistas. Os casos de violência contra gays e contra mulheres se acumulam nas delegacias. A discriminação em inúmeros ambientes sociais é evidente por mais que se arrumem desculpas esfarrapadas para eliminar o outro do convívio.


O Dia do Orgulho Heterrossexual não tem razão de existir. Grupos que compõem maioria na sociedade não necessitam de datas comemorativas, que funcionam e se mantém vivas como regime de exceção. O grupo dominante perpetua seu poder no dia-a-dia e uma data de celebração apenas serve para reforçar o preconceito. Por outro lado, expõe a existência do controle e da opressão sobre quem pensa ou age de maneira diferente. Mas não modifica ou ameniza o quadro de violência, seja psicológica ou física. Pelo contrário, pode até estimular comportamentos intolerantes, protegidos por uma impunidade real, antes apenas uma sensação.


A discussão sobre homossexualidade ganhou contornos políticos, o que - de certa forma – gera ressonância positiva. O assunto, antes trancafiado em armários ou sob pacto de silêncio, passa a fazer parte das rodas de conversas e da agenda de muitas instituições. O preconceituoso não pode mais se esquivar do tema. Ou tira a máscara, como fizeram muitos políticos, ou se cala, com a decisão consciente de que um novo cenário se desenha à porta dele.


O problema é que a sexualidade brasileira, transformada em debate público, aparece impregnada de moral religiosa, em larga medida moralismo de segunda mão. O vereador paulistano, inventor do Dia do Orgulho Heterossexual, pertence à bancada da bíblia, grupo apartidário, de várias religiões e amigo do poder, que se alimenta da desinformação de eleitores impregnados por uma fé cega e excludente por natureza.


Esta parcela da classe política, sanguessuga de ideias ultrapassadas, mistura moral religiosa, que distorce inclusive os textos originais bíblicos, com assuntos laicos. Religião e política assumiram o relacionamento afetivo. Na última eleição para presidente, aborto virou prioridade nacional e, em momento algum, foi tratado como pauta de saúde pública. A retórica eleitoral ignorou milhares de mulheres que morrem em clínicas clandestinas.


Projetos como os dos vereadores de São Paulo e Fortaleza atendem a facção mais atrasada de um país que se considera civilizado. Se a lógica de raciocínio persistir, poderemos ter – em breve – vereadores ou deputados propondo o Dia da Consciência Branca e o Dia do Homem. Quem sabe o Dia do Homem Branco? O kit-preconceito ficaria completo. Muita gente adoraria.


Observação: Depois de críticas, o prefeito Gilberto Kassab anunciou que vetaria o projeto de lei. 


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O futebol pede compreensão

Quando nós vamos compreender que ...
1)    o modelo globalizado de negócios em torno do futebol fez com que o Campeonato Brasileiro se transformasse em uma ilusão. Jogar bem por aqui pouco significa em termos internacionais. Atletas em decadência e, ainda por cima, desinteressados são endeusados como se ainda vivessem no auge da forma.
2)    a seleção nacional é armazém de secos e molhados, onde se vende de tudo, com convocações estranhas e partidas sem utilidade prática para a formação de um time. Por que a cada convocação aparece um jogador que atua na Ucrânia? Por que enfrentaremos Gana e Gabão até o final do ano em partidas amistosas?
3)    não possuímos mais craques às pencas, defesa dos ufanistas que julgam o Brasil capaz de formar três times de primeiro nível.
4)    a seleção brasileira vem sendo lembrada por seu goleiro, laterais e zagueiros nos últimos anos. Este talvez seja o maior sintoma de que o estado de coisas precisa ser chacoalhado. O produto tipo exportação mudou e acendeu o sinal de alerta.
5)    a renovação propagada pelo técnico Mano Menezes ofende a inteligência alheia, a partir do momento em que jogadores em final de carreira são convocados por desempenho momentâneo dentro do campeonato nacional. Isso sem falar em atletas convocados uma, duas vezes e, quando negociados com o exterior, somem das listas posteriores.
6)    vivemos um choque de gerações de jogadores, o que implicou na antecipação de etapas para a turma mais nova e que, por isso, corremos o risco de queimar potenciais atletas fora-de-série.
7)    o jogador diferenciado é aquele, como diz Tostão, que atua em alto nível por várias temporadas e que só pode ser chamado de gênio depois do que fez. Hoje, endeusamos o craque da rodada, cientes de que – na maioria dos casos – reviveremos o ar de decepção na semana seguinte.
8)    não temos capacidade de organizar um evento como a Copa do Mundo em função da ausência de planejamento e de um cronograma sério das obras nos estádios de futebol.
9)    a Copa do Mundo dá lucro somente à entidade que a organiza, uma instituição privada que jamais abriu seus cofres para qualquer tipo de auditoria externa. Nenhum dos Mundiais foi lucrativo para os países-sede.
10)  as negociatas em torno do futebol brasileiro e da organização da Copa do Mundo não são prerrogativas do esporte. Surpreender-se com a promiscuidade em torno do dinheiro público representa um ato de cinismo. O futebol apenas serve de termômetro para mensurar as relações político-partidárias no país.
11)  não daremos conta das obras de infra-estrutura para recebermos milhões de pessoas durante um mês. Promoveremos maquiagens de ferro e concreto e depois vamos nos vangloriar da capacidade de improvisação, da suposta criatividade que mascara o desleixo, a negligência. E perderemos mais uma oportunidade de solucionar ou amenizar profundos problemas sociais. O país do futuro que se cristaliza diante do espelho.  
Os 11 itens formam um time completo de dificuldades para que o futebol por aqui se transforme numa atividade profissional. O técnico Telê Santana dizia, com propriedade, que o futebol no Brasil não era coisa para gente séria.
Se conseguirmos entender parte das questões, poderemos perceber que não temos mais o melhor futebol do mundo. Não importa o aspecto, seja técnico, tático ou organizacional. Classificar a seleção brasileira como especial, por exemplo, é, no mínimo, exercício de má fé. Sequer nos colocamos entre os cinco primeiros. E que precisamos mudar de postura para não passar vexame dentro de casa e fora do campo, daqui a três anos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sexo proibido?

A estudante universitária, surpresa, resolveu relatar o comportamento de dois pacientes à assistente social.
— Seu José transa duas vezes por semana. E Dona Maria, então?
— Qual é o problema?, perguntou a assistente.
— Ela parece minha avó! E sempre vi minha avó como virgem.
O diálogo, que aconteceu numa sala da Prefeitura de Santos, simboliza o preconceito no qual sexo é assunto enterrado na velhice. A desinformação representa um tiro no pé para muitos idosos, que se tornaram alvo frágil diante da Aids.
Segundo o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a média de infectados com mais de 50 anos era de 17 para cada 100 mil pessoas, em 2002. Hoje, a média está em 40 pessoas. No Estado de São Paulo, são aproximadamente 4400 soropositivos com mais de 60 anos.
O casamento entre falta de informação e preconceito cria uma nuvem de fumaça que mascara comportamentos usuais de idosos, principalmente os homens. Muitos deles redescobriram a chance de engatar relacionamentos afetivos na maturidade, o que implica em vida sexualmente ativa, inclusive com vários parceiros e parceiras.
Trata-se de uma conseqüência de mudanças sociais agudas, estimuladas por avanços da medicina (e as pílulas milagrosas) e pela criação de instituições onde idosos retomaram a convivência social e cultural.
Embora as alterações comportamentais sejam nítidas e saudáveis, ainda prevalecem valores culturais. Um deles é o machismo. Muitos homens dispensam o uso da camisinha sob a alegação de que não tem nada. E transferem a responsabilidade para a mulher que, constrangida, abre mão do preservativo. Muitas das idosas infectadas só tiveram relações sexuais com o marido e depois com o novo namorado. Dispensaram a camisinha da bolsa para não serem vistas como “atiradas” ou promíscuas.
A Aids, via de regra, atravessa um período de estabilidade entre os jovens. As exceções são as mulheres e os idosos, grupos que registram aumento no número de casos. A transmissão da doença quebrou também uma relação de confiança, pois muitas mulheres – inclusive idosas – foram contaminadas no casamento.
Outro obstáculo é o diagnóstico tardio. Muitas pessoas se julgam imunes ao vírus HIV, que seria uma marca punitiva para a postura volúvel dos mais jovens. Esta mentalidade atrapalha o tratamento, agravado por outras doenças da velhice, como diabetes e alterações ósseas, que desequilibram os efeitos colaterais dos medicamentos.
A Aids entre os idosos também conta com o silêncio dos pacientes, que preferem não contar que são soropositivos aos filhos. Assim, evitariam a implosão da família. E amenizariam a culpa do pai que infectou a mãe.
Apesar do Brasil ter imagem positiva no combate à Aids, o Governo Federal investe somente 10% dos US$ 623 milhões orçamentários em campanhas informativas. A maior parte do dinheiro vai para a compra de remédios. Na Baixada Santista, os idosos representam 20% da população em Santos e Praia Grande. A Aids, ainda viva por causa da área portuária, bate à porta de quem se sentia blindado aos ferimentos numa fase de serenidade.
A sexualidade do idoso pulsa de novo, sem pudores ou moralismo. A ironia cruel é que a ressurreição de um passado cheio de vida pode se transformar em sentença de morte.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O mundo ao redor de Jolie


Por Vinicius Maurício*

Flashes e luzes, muitas luzes, mas pouco brilho. Assim é o mundo de algumas das chamadas estrelas do cinema, que se consagram por atuarem em filmes e agradarem aos espectadores e fãs. Elas fazem sucesso no mundo todo por seu trabalho nas telas e, normalmente, colocam seu nome na calçada da fama de Hollywood. Mas existem estrelas que reluzem além do espaço delimitado pela fama, elas também conquistam e brilham na vida real.

Angelina Jolie, por exemplo, fez, recentemente, no Camboja, na Ásia, fotos para uma famosa marca de bolsas. Embora desfrute do mundo dos famosos, a atriz sempre esteve envolvida com as questões sociais e políticas do planeta, como a fome e os conflitos, mostrando que ser uma estrela pode ir muito além de iluminar a grande tela com seu profissionalismo e beleza, fazer os olhos dos fãs brilharem e estampar outdoors publicitários.

Fisicamente, estrela é um corpo com luz própria que orbita no espaço sideral e, normalmente, outros corpos giram ao seu redor, como a Terra que se movimenta em torno do Sol, em sua rota de Translação, a qual nos dá os 365 dias do ano.

Já o Sol é uma estrela brilhante que ilumina, proporciona e mantém a vida em nosso planeta, com o fenômeno natural do efeito estufa, que aquece a Terra. E não precisamos nos preocupar que ele deixe de fazer isso tão cedo, pois o Sol é uma estrela novíssima. E não precisa ser físico para entender que ele é apenas uma estrela-bebê; afinal, ele é amarelo e tem, acredita-se, perto de 4,6 bilhões de anos.

A idade das estrelas é definida pela sua cor. Quanto mais próximas do amarelo são, menos anos possuem. Conforme se aproximam das tonalidades de azul, mais anos conquistam. Como o tempo calculado para que a luz de estrelas longínquas chegue à Terra é diferente das nossas 24 horas - é um ano-luz, pode ocorrer de uma estrela que sempre admiramos no céu tenha deixado de existir há milhares de anos. A luz emitida quando da sua morte pode não ter alcançado nosso campo de visão nua.


As estrelas também são fonte de prazer para amantes da Astronomia, pois  proporcionam momentos de diversão e lazer. A mãe ensinando o filho como se localizar por intermédio do Cruzeiro do Sul marca bons momentos que ficam na memória da criança. Assim, a atenção materna transfere ao filho conhecimentos históricos, originários de culturas antigas. O que dizer do casal de namorados que resolve contar o máximo de estrelas que puder, numa noite! As estrelas também são objeto de estudo da vida em nosso planeta, na Via Láctea e em outros Universos.

Dada a importância das estrelas do espaço, para receber o título de estrela de cinema, brilhar e ser importante como o Sol, não basta atuar, ser um bom profissional, encantar, conseguir flashes e luzes voltadas para si. Nem somente que o trabalho desenvolvido no cinema perdure tanto tempo quanto o ano-luz.


Bem verdade, as melhores e mais brilhantes estrelas reluzem fora das telonas também, como Angelina Jolie, que, mesmo sendo modelo fotográfico de marcas famosas, se mostra preocupada com alguns dos piores problemas enfrentados pela espécie humana, na Terra. O Camboja mesmo, onde ela esteve, é referência quando na luta contra a fome na Ásia, mesmo que ainda tenha perto de 33% da população subnutrida.

Só no sul da Ásia, segundo dados do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), entre 2006 e 2008, mais de 100 milhões de pessoas entraram para o grupo dos que têm fome crônica, ou seja, que não consomem o mínimo de calorias diárias que o organismo precisa para sobreviver.

E a maioria dos que passam fome no sul-asiático são crianças, já que 54% das 615 milhões que vivem na região integram o grupo dos famintos crônicos. Isso sem contar os conflitos políticos e os problemas com tuberculose e Aids que assombram os cambojanos.

E Jolie foi premiada pela Organização das Nações Unidas, a ONU, por seus trabalhos humanitários em diversos países do mundo, como o próprio Camboja, também em Sarajevo, na Líbia, Etiópia, Vietnã, Tunísia e na Namíbia, lugar que escolheu para dar à luz à Shiloh, primeiro filho biológico dela com seu atual marido, Brad Pitt.

A estrela do cinema, tão importante como as estrelas do espaço sideral por sua atuação humanitária, também adotou uma criança cambojana, a qual deu o nome de Maddox Chivan. Não por coincidência, ela escolheu o nome - Maddox, que em celta, significa benéfico e Chivan, vida. Justificando seu trabalho pelo bem da vida na Terra.


Talvez, pensando bem, faltem estrelas como ela, brilhantes e que ajudam a propagar a vida no planeta. E, afinal, quem são as estrelas de cinema que andamos admirando? Jolie, além de linda e livre de padrões pré-estabelecidos (é bissexual assumida, por exemplo), é ótima atriz, tendo atuado em filmes como Lara Croft, a heroína dos jogos de vídeo-game, Alexandre, O Colecionador de Ossos, Salt, e Garota, Interrompida, filme com o qual ganhou o Oscar como melhor atriz coadjuvante, em 2000.

Angelina, assim como o Sol, dentro do limite espacial que sua pessoa lhe permite, faz o que pode pela vida do próximo (próximo, não é assim que chamam os cristãos?) e é um astro de se admirar e aplaudir, por ser estrela no cinema e que reluz na vida real. Em tempo, nessa campanha que fez para a famosa marca de bolsas, por exemplo, ela representa, segundo o estilista, os valores fundamentais. E ainda, a estrela destinou parte do cachê de milhões de dólares para caridade.

* Vinicius Maurício é jornalista. 

Doente, eu?


Caminho quase um quilômetro entre um dos empregos (jornalistas colecionam patrões) e minha casa. No trajeto, são 12 salões de beleza ou clínicas de estética ou outros nomes, em vários idiomas, que reforçam exatamente o produto a ser vendido: aparência.

Perto da residência de uma amiga, há quatro estabelecimentos numa quadra. A concorrência é saudável. Todos vão muito bem, obrigado, tanto que investiram em reformas das instalações este ano. No prédio de meus pais, há um ponto comercial que vingou depois de 15 anos. Qual o ramo? Redundante dizer. Ao menos afastou a lenda de que havia cabeça de burro enterrada por ali. Na rua ao lado, mais dois salões de beleza, sempre cheios.

O milagre da multiplicação de cabeleireiros (o nome original) indica desenvolvimento econômico, mas realça comportamentos e valores culturais, marcas de um modo de vida cada vez mais dependente da aparência em detrimentos de aspectos essenciais, internos aos seres humanos.

A progressão geométrica, em Santos, também diz respeito às farmácias ou drogarias ou nomes parecidos que atendem a outro sintoma do homem moderno: a dependência química, a escravidão da saúde fast-food.

Na década passada, a cidade viveu um debate em torno da lei que estabelecia a distância mínima de 200 metros entre duas farmácias. O assunto foi remediado por injeções de interesses e hoje é possível observar farmácias que convivem na mesma calçada ou se transformaram em mini-supermercados, onde se come, bebe e melhora a aparência. As duas áreas se abraçam para tratar várias patologias, físicas ou sociais, para que os “pacientes-clientes” pareçam saudáveis.

A somatória singela destes dois segmentos marca em brasa o estilo de vida atual. Apostamos em soluções velozes para problemas de longa duração. Fomos soterrados pela preocupação com o outro, com a aprovação social e estética dentro de critérios e moldes jamais determinados por quem os segue.

Os homens (e as mulheres) de hoje mal consegue conviver com a própria imagem no espelho. Fogem, em desespero, de conversas internas, de reflexões e avaliações sobre atos e a própria vida. É mais fácil buscar, em farmácias e salões de beleza, respostas imediatas para os males que insistem em reaparecer para o retoque nas pontas, na próxima semana.

As respostas podem se materializar na pílula azul da metamorfose sexual, nas pílulas da felicidade que encenam matar a melancolia ou na nova técnica de escova, que ressuscitará – atrás da cortina de fumaça – aquela mulher ideal que jamais poderia ter desaparecido pela crueldade do tempo.

Ninguém é contra a valorização de si mesmo. O exagero nos conduz a cegueira de que torrar horas atrás de cremes e outras substâncias representa a fronteira da mudança. O exagero que nos leva a crer, de forma fanática, nas farmácias como locais de lazer, ponto de passeio familiar, com um comprimido mágico para cada pedra no caminho.  

Vivemos numa sociedade doente, que se perpetua pelo individualismo e pela intolerância. Muitos se tornaram escravos voluntários do padrão. Lutam para serem diferentes e melhores, enquanto chafurdam na lama dos iguais. Neste sentido, quem ruma por uma estrada de curvas particulares paga o preço da incompreensão. Quem tenta rejeitar a robotização padece de alguma enfermidade. É a sociedade que idolatra criar patologias para quem se recusa a tomar a pílula da moda ou ter o cabelo da celebridade do mês.

Lembro-me da reação de um amigo que, ao ver mais uma farmácia a ser inaugurada, comentou ingenuamente:

— Mais uma? Deve ter muita gente doente!