segunda-feira, 29 de março de 2010

O último gol do poeta

“Se Pelé não fosse homem, seria bola.”

A crônica esportiva, tão castigada por merchandisings e comentaristas de boteco, perdeu um poeta. A morte de Armando Nogueira, aos 83 anos, vítima de câncer, machucou o texto, feriu o olhar clínico de quem lê o jogo de futebol como os craques que desfilam sobre travas. O futebol terá menos romance e pureza nas palavras publicadas no dia seguinte ao espetáculo.

O cronista está sempre sozinho. É, na verdade, um sujeito meio esquisito, incompreendido quando se chega perto, que produz seus textos em um ritmo e ordem pouco convencionais. Como se estivesse solto no centro do campo, girando o corpo 360 graus e observando um estádio vazio. O jogo é, por vezes, mera desculpa para falar do mundo de uma forma que nos surpreende.

O cronista engana o leitor, que olha, olha, olha e se rende à impossibilidade de apanhar ou alcançar aquele movimento, aquele lance dentro de uma partida. Ele nos coloca no devido lugar de espectador e nos estampa a vergonha da obviedade, pelos comentários pregados nos balcões de padarias, pontos de ônibus e mesinhas de bar.

É o cronista quem nos convence de que o texto publicado significa a palavra definitiva e incontestável sobre o aconteceu no dia anterior. O texto de Armando Nogueira só aceitava a confiança cega de quem o lia. Confiança cega no parecer do sábio, capaz de resumir em verbos, conjunções, preposições, substantivos, adjetivos e advérbios a história que não queria ser contada. A história que segue escondida nas sombras dos corpos dos jogadores.

“Ademir da Guia tem nome, sobrenome e futebol de craque.”

Armando Nogueira traduzia o futebol pelas entrelinhas, pelos detalhes, pelos ângulos que muitos repórteres sequer sabiam da existência. O texto poético não tinha compromisso com a velocidade dos fatos. Isso ficava para os jornalistas comuns, atrapalhados entre cafés, cigarros e anotações.

Armando era o Millor Fernandes do futebol. Suas frases se tornaram armas de nostalgia para um futebol que só se vê eventualmente, com times formados ao acaso, como o Santos de Neymar e Ganso. O cronista adotado pelo Rio de Janeiro lamentaria não acompanhar o que esses moleques, rompedores da disciplina endurecida, poderão fazer pela arte. Terá que se contentar com a distância que a vida lhe deu.

“Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio.”

O jornalista nascido no Acre parecia uma mulher quando escrevia. Não era fragilidade, argumento instantâneo dos machistas. Armando conseguia visualizar uma partida com tamanha sensibilidade. Ele descartava a brutalidade do jogo de pernas e o choque entre corpos. Enxergava no gramado uma dança, leve e pesada, amorosa e cruel, limpa e encardida, ao mesmo tempo. A trilha sonora poderia ser uma sinfonia ou uma valsa, que serviria como cereja do bolo.

Armando Nogueira estava no jornalismo desde 1950. Criou programas como Jornal Nacional e Globo Repórter e cobriu todas as Copas do Mundo desde 1954, e todos os Jogos Olímpicos desde 1980.

Como todo poeta, Armando Nogueira transgrediu ou cometeu pecados. Ele, como reconheceu, errou ao ser voto vencido na edição do debate entre Lula e Collor, na rede Globo, em 1989. Não fez a pressão condizente com o cargo que ocupava na emissora. Ali, talvez tenha sido o momento em que o jornalista vestiu a roupa de cronista. Talvez para se proteger da decepção diante de um jornalismo rasteiro e compromissado com o poder.

“Deus castiga quem o craque fustiga.”

Com sua morte, o jornalismo esportivo empobreceu. A palavra enfraqueceu. Ficaram poucos menestréis para desafogar uma cobertura jornalística industrial, de polêmicas fáceis e efêmeras, pressionada por estratégias de marketing e contratos comerciais.
Armando Nogueira errou em análises, falhou em previsões, mas jamais abriu mão da qualidade de um texto, que prendia os olhos e as mãos de quem começava a ler as crônicas dele nos jornais. Era a poesia que faria o leitor queimar as torradas, frase clássica do jornalismo.

Os cronistas-poetas entraram para a lista de espécie em risco de extinção. Sobraram Tostão, Luiz Fernando Veríssimo e mais alguns cronistas que ainda flutuam quando testemunham um jogo de futebol. Sem Armando Nogueira, este time ficou mais fraco, menos lúcido e taticamente vulnerável. Com eles, o jogo nunca terminará em empate sem gols, parafraseando o poeta.

Os pombos e os gaviões

O futebol tem um idioma próprio. Absorve linguagens como se fossem exclusivas. Aceita inúmeras definições, não importa a conta bancária do autor. Muitos termos se tornam jargões, ganham status de vocabulário técnico e se infiltram no cotidiano como se fossem naturais ao esporte.

As expressões nascem, muitas vezes, por comparação. Futebol é relacionado, por exemplo, ao palavrório de guerra, utilizado em momentos de muita seriedade, de competitividade. Jogos importantes são batalhas, que podem ser decididas por artilheiros, chefiados por capitães.

No entanto, o que me chama a atenção são as analogias com os animais. Em especial, as aves. Em especial, entre os goleiros. As aves que qualificam ou humilham este sujeitos esquisitos, de posição anti-futebolística, no final das contas.

Goleiros voam. Flutuam como se tivessem asas. Voam para aparecer na foto. Planam para valorizar o golaço de uma bola que perturbou o sono da coruja. Voam para evitar que o pombo sem asas – um chute violento – resulte em gol.

Quando falham, goleiros engolem frangos. Ou sofrem perus. Frangos e perus são aves vistas como de menor estirpe, associadas a um modelo gastronômico que os goleiros preferem não degustar. É o ato de engolir e assumir a digestão sozinho. As penas que ficam nas luvas funcionam como lembrança de quem jamais pode errar, com o risco de marcar o placar de maneira definitiva. O maldito 1 a 0, no finalzinho de uma partida decisiva. Uma falha pode custar o ano de trabalho, o campeonato tão sonhado em décadas de história do clube.

Na profissão de goleiro, penso que existem duas espécies de seres voadores: os pombos e os gaviões. Os primeiros são mais comuns, multiplicam-se rapidamente e podem ser vistos nas praças do futebol. Os pombos contaminam o jogo, estragam o prazer da festa. Representam um problema de saúde pública.

Os pombos são aves ordinárias, anônimas participantes da fauna do esporte. Estes goleiros voam por qualquer motivo, atrapalham-se pela insegurança e pelo medo de quem se aproxima. São goleiros pouco confiáveis, daqueles que o zagueiro olha para trás e não entende o que vê. Percebe somente que não pode delegar função ao colega.

Os pombos não compreendem que o futebol é um jogo de inteligência, de estratégia, de peças que se movimentam em posições desenhadas mentalmente, mesmo quando se improvisa. Os goleiros-pombos pulam sem necessidade, têm mãos de pau, incapazes de segurar a bola. Rebater se constitui na saída mais óbvia. Julgam-se mágicos por tentar adivinhar o passo do inimigo, olham para a bola e pensam:

- Tira esse bicho daí!!!

Os goleiros-pombos são previsíveis. Não atrapalham a dinâmica de uma partida. Talvez pararam ali, dentro da grande área, porque eram os donos da bola ou não conseguiam entender o namoro entre os pés e o brinquedo.

Pombos, raramente, viram gaviões. Os gaviões lêem o jogo, sem se arriscar ou buscar o charlatanismo da adivinhação. Gaviões costumam entrar na lista de animais extintos e podem ser identificados de longe. Estas aves imponentes provocam medo, respeito, confiança. Exalam segurança. Lideram os demais.

Os goleiros-gaviões têm absoluta consciência de que não se gasta pena em voo inútil. Esta espécie age com o instinto de posicionamento. É o goleiro se mexe pouco, fala o necessário e modifica com palavras o ritmo da equipe. O gavião voa somente na eminência da defesa. Pode errar, claro, mas aparece na foto por uma questão circunstancial, jamais como vítima fragilizada.

O primeiro gavião que vi em campo foi Rodolfo Rodrigues. Embora não seja santista, comprava o ingresso para vê-lo comandar um time de futebol. Expulsava atacantes da área com o olhar. Rodolfo jamais foi espalhafatoso. Isso é tarefa para os pombos. Rodolfo era preciso. Antevia a presa. Aos leigos, dava a impressão de adivinho, mas trabalhava como um estrategista.

A bola batia nele. Rodolfo Rodrigues parecia fingir de morto e ressuscitava, repentinamente, na trajetória do gol certo. Como naquela noite, na Vila Belmiro, que o goleiro uruguaio fez seis defesas em sequência, no mesmo lance, contra o América, de São José do Rio Preto.

Depois, vi Taffarel. Muita gente não o entendia. Era um típico gavião. Frio, calculista, pouco demonstrava as emoções. As defesas refletiam o comportamento. Enquanto pombos voam e caem tortos no solo, Taffarel dava um tapa na bola para escanteio sem sujar o uniforme. A discrição do goleiro gaúcho enganava os ingênuos, que se deslumbram com os vôos circenses das aves comuns.

Hoje, há vários gaviões que fazem ninhos na pequena área. O goleiro da Seleção Brasileira, Julio César, é um pombo que passou pelo processo de metamorfose. Virou o gavião que garante, muitas vezes, o emprego do técnico. No Brasil, Rogério Ceni é um velho exemplar da espécie. Cansado, com cicatrizes, mas ainda eficiente. Líder, respeitado, odiado e temido, joga com o corpo e economiza a batida das asas. Luta as batalhas necessárias, com a vantagem de respeitar a bola quando a tem em seus pés.

Diante dos exemplos de gaviões, como identificar as aves da outra espécie? Caro leitor, a solução é afetiva. Se você não confia no goleiro do seu time, se sofre de ansiedade quando a bola se aproxima da grande área, provavelmente o camisa 1 em questão é um pombo da gema. Se você não tem saudades dele, trata-se – cientificamente – de um pombo. A experiência e o treinamento poderão transformá-lo em um gavião, mas vale esperar por uma troca de penas, sem garantia de sucesso?

A garota n.23225

A garota n. 23225 tem 15 anos. Mora no mesmo endereço há quatro anos e três meses. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, publicada em 21 de março, a adolescente “reside” no Hospital Psiquiátrico Pinel, em São Paulo. Ela está internada lá porque não tem para onde ir. E ninguém a quer.

A adolescente sofre, de acordo com os laudos médicos, de transtorno de conduta. Isso significa que ela tem atitudes que desafiam a autoridade e costuma se opor aos regulamentos. Qual adolescente não é desafiador e transgressor? Uma das médicas ouvidas pelas repórteres Laura Capriglione e Marlene Bergamo, autoras da reportagem, afirmou que “o mal dela é abandono.”

O caso da garota não é passível de internação. É passível de afeto. A menina foi depositada, largada em uma instituição psiquiátrica porque ninguém quer cuidar dela. Ninguém deseja acolhê-la, mesmo em um abrigo ou instituição não-governamental.

O histórico da adolescente é de desamor e abandono. O pai? Incógnita. A mãe? Cumpre pena pela segunda vez por tráfico de drogas. É viciada em crack. A garota foi conhecê-la na prisão aos sete anos. A mãe a recebeu com xingamentos. O buquê de flores – o presente da filha – foi atirado ao chão.

Como parente, sobrou a avó, que colocou a neta, quando tinha quatro anos, em um abrigo para famílias desestruturadas – uma expressão bastante educada. A avó disse às repórteres que, atualmente, não poderia cuidar da neta porque arrumou um emprego.

O juiz da Vara da Infância e da Juventude do Foro da Lapa, Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, determinou que a adolescente permaneça no Pinel, pois o Estado de São Paulo não estrutura para “acolher e fazer tratamento de pessoas com comprometimento psíquico.” O irônico é que o tal comprometimento psíquico já aconteceu, em função de mais de quatro anos de internação, sem estar doente.

O caso da menina n. 23225 expõe as fragilidades do sistema de saúde mental no Brasil. O país investe somente 2% dos recursos nos programas de saúde, um sexto da Inglaterra. A história coloca na vitrine as distorções de um modelo desigual, que há 20 anos não consegue definir se mantém a política de internações, se abre as portas para atendimentos ambulatoriais e serviços de acompanhamento ou se adota um meio-termo.

A luta contra os manicômios surgiu nos anos 80 e teve em Santos uma história emblemática com o fechamento da Casa de Saúde Anchieta. No ano passado, o poeta Ferreira Gullar retomou a conversa sobre quais critérios adotar para se decidir por uma internação. Gullar possui dois filhos com esquizofrenia. Um deles, segundo o pai, tem que permanecer sob cuidados permanentes.

Por trás do conflito público sobre o que fazer com os pacientes psiquiátricos, escondem-se o estigma e o preconceito. A garota n.23225 foi rejeitada por vários abrigos, conforme a reportagem da Folha, por ter um “histórico Pinel.” A adolescente carrega na testa o carimbo de “louca”, mesmo com os laudos indicando o contrário.

O modelo atual sequer põe à mesa a discussão sobre terapia. Por que o serviço não é gratuito e generalizado? Por que a terapia é uma prerrogativa de classe social? Por que apenas as classes média e alta têm este direito? Os gestores de saúde deveriam olhar para a experiência bem-sucedida da psicanalista Maria Rita Kehl com moradores do assentamento de Guararema, ligado ao MST. Ainda persiste o preconceito de que lavar um tanque de roupa ou algumas quebrando pedra curam qualquer “frescura”.

A falta de planejamento e de cuidado com a política de saúde mental conduz a casos famosos, que remontam aos sintomas mais cruéis, cínicos e atrasados da relação com os pacientes. Lembram-se de Austregésilo Carrano Bueno, autor de O canto dos malditos, que inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Lais Bodansky? Austregésilo foi internado pelo próprio pai porque fumava maconha e tinha comportamento rebelde. O pai queria consertá-lo.

Guardando as proporções do tempo e das técnicas científicas, nada diferente do que se fazia no século XIX, quando D. Pedro II construiu o primeiro hospital psiquiátrico, no Rio de Janeiro. O imperador estava tão orgulhoso da obra que deu o próprio nome à instituição. O local não abrigava somente doentes mentais, mas também vítimas de alcoolismo (o escritor Lima Barreto, por exemplo), de outras enfermidades físicas ou simplesmente sujeitos que não se encaixavam na vida social.

A garota de 15 anos não se encaixa no mundo lá fora. E dificilmente vai se encaixar. Ela é uma não-lugar. E não por escolha pessoal. Ela não tem onde permanecer com seus pares. Foi rejeitada por todas as instituições, inclusive pelo Pinel, que a mantém ali por uma obrigação judicial.

Supondo que a adolescente permaneça internada por mais três anos, será jogada nas ruas quando chegar à maioridade. Terá condições de arrumar trabalho, aos 18 anos? Não pôde estudar. Será vista como desqualificada, com “histórico Pinel”. Sem família ou amigos, será acolhida por quem? Onde poderá reconstruir uma vida de anos entre pessoas vítimas de surto, entre as paredes impessoais e sem vida de uma instituição de saúde.

Tento imaginar o que ela testemunhou numa fase em que deveria estudar, namorar, brincar, conhecer gente da mesma faixa etária, contestar, desafiar, transgredir, se transformar. A transformação, claro, aconteceu. Levou a garota a um grau de devastação interna que jamais será consertado.

Esta menina foi proibida de vivenciar as emoções típicas da adolescência. Esta menina foi proibida de passar por experiências culturais, políticas e sociais. Esta menina foi proibida de tentar viver, de escolher quais portas abrir e por quais janelas observar o mundo. Ela foi, inclusive, proibida de errar, como determinam as leis do purgatório em que “vive”.

O número 23225 é o registro da garota nos prontuários médicos. A reportagem da Folha de S.Paulo protegeu o nome dela em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente. O número – simbolicamente – indica alguém que se transformou em papelada burocrática para o sistema de saúde e para o Poder Judiciário.

O número estigmatiza uma adolescente que, no mínimo, passou quatro anos em meio ao horror que cerca o ser humano. Conviveu entre pessoas cujas doenças deixam seqüelas imensuráveis. Viu o lado bestial, incômodo e escuro da condição humana. E sem a liberdade de escolha de enxergar o que deseja. É o preço do limbo para os que estão ou foram deslocados por uma sociedade que coloca os diferentes em depósitos de gente.

sábado, 27 de março de 2010

O café do centro

Matéria publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), na edição 781, 20 de março de 2010, página 8

Ângela e Roseli são amigas há 20 anos, desde que se conheceram na Prefeitura de Guarulhos, onde são funcionárias. Nos últimos 10 anos, resolveram colocar em prática uma paixão comum: visitar lugares históricos. Na última quarta-feira, em meio às férias do serviço público, as duas decidiram ir ao Museu do Café, motivadas pelo aniversário de 12 anos.

Ambas estavam maravilhadas com o salão do pregão da Bolsa do Café. Observavam, conversavam sobre a imponência do espaço e tiravam fotos. Elas ficaram uma hora dentro do museu. Pouco para alguém como Ângela, que viajou três horas e meia. Roseli, um terço do tempo.



A peregrinação por amor à História: Ângela tomou um ônibus em Guarulhos. Duas horas de sacolejo por causa da marginal e os congestionamentos. Desceu na Rodoviária do Tietê. Mais meia hora de metrô. Encontrou Roseli na Rodoviária do Jabaquara e desceram a serra. Outra hora de ônibus. Lanche rápido e, finalmente, o Museu do Café.

Para a funcionária pública Ângela Edvirges Palitos, a viagem compensa. “Adorei a Santos antiga. Ver o pregão da Bolsa é um ritual.” Roseli Aparecida Cabride visitou o museu pela terceira vez. Ela diz que o museu prova que Santos é mais do que a praia. “A Bolsa é a integração do centro histórico.”

Memória afetiva - O Museu do Café, para comemorar 12 anos, focalizou exatamente essa reação comum aos visitantes: relacionar a Bolsa do Café e o centro histórico, a partir do processo de revitalização dos imóveis, iniciado na década passada. A ideia é a base da exposição “O café no espaço da cidade: 12 anos do Museu do Café e a revitalização do Centro Histórico de Santos”.



A abertura da mostra aconteceu, dia 24. Para a diretora-técnica Clara Versiani, Bolsa do Café e Centro Histórico são e não distintos. Os locais viveram fases diferentes, de degradação e recuperação, mas ambos “representam a relação de memória afetiva da cidade.”

No mezanino, o museu montou uma sala de caráter educativo. No chão, um mapa do centro da cidade, para que o visitante possa localizar o museu e ligá-lo a outras atrações do Centro Histórico. As pessoas poderão assistir a um vídeo de 15 minutos, que mescla uma série de imagens da história do centro e do museu e depoimentos de pessoas que vivenciaram os 12 anos do lugar.



A galeria do piso superior terá também seis totens, com 12 painéis sobre o mesmo tema. São textos, fotos, imagens e gráficos a partir de pesquisa em documentos históricos. No local, serão exibidos relatos de pessoas que trabalham no centro, ligadas ou não à produção cafeeira. Em outro ambiente, no mesmo andar, fotos dos ex-presidentes da Bolsa do Café, divididas em dois grupos. Entre eles, uma moldura-espelho. “A ideia é permitir que as pessoas também se coloquem na galeria”, disse Clara.

Museu aberto - A exposição “O café no espaço da cidade” termina em 20 de junho e representa, para a direção do museu, uma nova fase, iniciada com a transformação da Associação dos Amigos do Museu do Café em Organização Social(OS). A mudança permite – por exemplo - a captação de recursos externos para projetos culturais. “Queremos um museu aberto, de produção de conhecimento, de educação. Não queremos um museu silencioso”, explica Clara Versiani. Segundo ela, os próximos passos serão a implantação de um espaço educativo permanente e, como ponto principal, elaborar novo projeto museológico e museográfico.



Na entrada, perto da cafeteria, há outra exposição, que trata do Dia Internacional de Mulher, celebrado em 8 de março. São 27 fotos, de diversos autores, que registram com poesia a presença feminina no processo produtivo do café. As fotos podem ser vistas até o próximo domingo, dia 28.

Mais três horas - Além do museu, Ângela e Roseli se encantaram com a mostra feminina. Depois, deixaram o museu com pressa. Não queriam perder o último bonde da tarde, para percorrer o centro histórico pela primeira vez, no caso de Ângela. Depois, ao anoitecer, viajariam outras três horas rumo à Guarulhos.

Serviço:
O Museu do Café, que recebe 50 mil visitantes por ano, fica na rua XV de novembro, 95, no Centro de Santos. O horário de funcionamento é de terça a domingo, das 9 às 18 horas. O ingresso custa R$ 5. Professores da rede pública e pessoas acima de 60 anos não pagam. Estudantes pagam meia entrada. Telefone: (13) 3213-1750.

Crédito das fotos: Luiz Nascimento

Observação: Os dois textos abaixo fazem parte da mesma reportagem.

Museu tem espaço para pesquisas

O Centro de Informação e Documentação (CID) tem cheiro e gosto de café fresco, passado na hora. O espaço, no térreo do Museu do Café, existe desde outubro do ano passado, mas agora abre as portas, para pesquisadores, estudiosos e admiradores da história da bebida.

O acervo é composto por 500 livros, 200 fotografias e centenas de documentos, muitos deles doados por particulares e entidades. Entre as preciosidades, as plantas originais da Bolsa do Café, notas sobre a construção do prédio, a coleção da revista agrícola Bragantia, além de História do Café no Brasil, obra escrita pelo Visconde de Taunay.

O material é focalizado nas áreas de patrimônio histórico e museologia, além da relação histórica do café com a sociedade e informações sobre a cadeia de produção da bebida.

Segundo a bibliotecária Claudia Tarpani, responsável-técnica pelo acervo, a ideia da biblioteca existe desde o início do museu, mas só foi concretizada depois da transformação da Associação Amigos do Museu em Organização Social (OS). “Só assim pudemos estruturar o projeto e captar recursos.” O CID fechou, em junho de 2009, um convênio com a Caixa Econômica Federal, que financiou a criação do centro.

O Centro também disponibiliza um espaço para leitura, com paredes decoradas com trechos de livros que falam sobre a planta, mais dois computadores que permitem o acesso a um banco de dados sobre café. O museu integra, desde 2007, o Sistema Brasileiro de Informações sobre Café, criado pela Universidade de Viçosa (MG), na Internet.

Neste semestre, o Centro inicia a organização de uma campanha para doação de documentos e materiais sobre o café. Até lá, a promessa é que o laboratório de pequenos reparos e higienização de fotografias e documentos esteja em funcionamento; e a digitalização do acervo, concluída.

As visitas ao Centro de Informação e Documentação podem ser feitas somente por agendamento. Os interessados em conhecer o local podem telefonar para 3213-1750. O serviço funciona de terça a sexta, das 9 às 18 horas, e aos sábados, das 9 às 14 horas. O interessado deve procurar por Luciana Gomes de Souza, responsável pelo atendimento.

A visita do presidente da República

Se o IPHAN pudesse tombar uma pessoa, Mirian Nunes Ferreira seria patrimônio histórico do Museu do Café. A assistente-administrativa de 51 anos, uma década dedicada ao museu, é a funcionária mais antiga do lugar. Foi a segunda funcionária registrada. “A primeira foi uma faxineira, que ficou aqui apenas seis meses.”

Infelizmente, o visitante não conseguirá vê-la com freqüência. Tímida, Mirian é uma mulher simples, preocupada com a rotina de trabalho, que pouco transita pelos corredores, mas que vivenciou – com discrição - a trajetória do museu. Ela é a única remanescente da primeira equipe que mantinha o local.

Mirian vivia em São Paulo e se mudou para Santos em 1991, junto com os pais, em busca de uma vida mais saudável. Foi parar no museu por causa de um curso de espanhol, no Senac. “Uma das professoras participava da montagem do museu e me convidou para ajudar.” Mirian havia trabalhado, em São Paulo, na área financeira de uma indústria de fios e cabos elétricos.

Em dez anos de casa, a assistente-administrativa atendeu o público por somente seis meses. Foi logo no começo, quando o salão do pregão ainda ficava deserto nos finais de semana, e a entrada era livre. A cafeteria sequer existia. Com treinamento para monitoria, ela atendia os eventuais turistas nacionais e estrangeiros.

Em um final de tarde de sábado, Mirian Ferreira percebeu a entrada de um casal. “Os pais estavam com um filho de cinco anos, aproximadamente. Parecia que chegavam ao parque de diversões.” Como os visitantes não pediram um monitor, ela os deixou circular livremente.



Depois de alguns minutos, Mirian escutou um barulho vindo do salão do pregão. Os pais falavam alto e o menino estava sentado na cadeira do presidente, o que não é permitido. Ela decidiu conversar com os pais. Quando falou com o pai do garoto, ele reagiu com surpresa, como se o filho pudesse brincar sem controle pelo salão.

Mirian insistiu que não era permitido que o menino sentasse na cadeira do presidente. Ouviu do pai:

- Mas ele será o futuro presidente do Brasil!”

Mirian Ferreira tem uma relação de amor com salão do pregão. Costumava andar pelo mezanino, durante os intervalos, para relaxar e admirá-lo do alto. Hoje, pela correria diária, ela afirma – com resignação – que pouco transita pelo museu.
Nas lembranças dos visitantes, ela se diverte. Quem sabe, quando a assistente-administrativa estiver aposentada, a profecia se concretize e ela talvez reconheça o rosto daquele menino na rampa do Palácio do Planalto?

Crédito da foto: Luiz Nascimento

quarta-feira, 17 de março de 2010

O clássico e o moderno

O futebol é um exercício de inveja. Quando o nosso time se arrasta em campo e o adversário desfila no mesmo lugar, é o primeiro sentimento que aflora nas conversas de boteco, por exemplo. Se o torcedor valoriza o espetáculo, chama-se admiração. Caso contrário, desdenha os méritos ou exagera nos defeitos do outro.

O time do Santos é o alvo atual da inveja (ou admiração). A molecada da Vila Belmiro ressuscitou as comparações entre futebol e circo. O jogo de futebol merece ser comparado a lona e picadeiro? Muitas vezes, mas pela desorganização e pelos problemas provocados pelos cartolas, com perdão aos palhaços, trapezistas, malabaristas, o vendedor de pipoca ...

Um time merece ser comparado ao Cirque du Soleil? Raramente, salvo empolgações momentâneas que – desconfio – mais atrapalham do que ajudam a auto-estima de uma equipe. Apenas a História e os títulos permitem a saudade e o distanciamento que classificam as equipes como geniais.

No espetáculo, as estrelas parecem que caminham com holofotes nas costas. Certos atacantes, por exemplo. Mas eu sempre desconfiei de muitos protagonistas. Sempre desconfiei que eles alcançaram o estrelato por terem um coadjuvante capaz de controlar toda a engrenagem. Um coadjuvante que prefere as sombras atrás dos holofotes. Um coadjuvante que acelera o desabrochar das qualidades do ator principal.

Quando consigo detectar quem são estes “assessores de luxo”, eles se tornam o foco. Prefiro vê-los trabalhar. Tentar entender o todo, independente da luz da estrela, em particular. São os assessores que me levam aos estádios ou me fazem esperar uma partida diante da TV.

Paulo Henrique Ganso, do Santos, é o maior ícone dos coadjuvantes. Ganso, aos 20 anos, rompe com as leis da Física. Bagunça a relação espaço-tempo quando joga futebol. Este é o sujeito que – mesmo não torcendo para o Santos – me faz olhar e pensar sobre os Meninos da Vila. Por ele, enxergo o futebol como prazer individual em um universo coletivo.

Ganso (o apelido-ironia) mata a noção de tempo. Ele nos transporta aos anos 70, repletos de meias clássicos, que se moviam o necessário e levavam ao limite o princípio básico de quem corre é a bola. O meia do Santos poderia se encaixar entre os Meninos da Vila originais, de 1978. Ele é capaz de alterar a tática da equipe com a partida em andamento, controlando a velocidade do jogo e a de seus companheiros.

Controlar o ritmo torna a equipe dependente dele. Por enquanto, Ganso é um vício não diagnosticado pelos adversários, atordoados por outros jogadores. Mas ele é o termostato que, ausente, gera febre e paralisa a máquina. Quando presente, provoca calafrios nos que vestem outra camisa.

Ganso é um profeta da memória recente. Consegue antever o que muitos jamais enxergarão. Repete-se várias vezes em um mesmo jogo ao utilizar os mesmo movimentos para colocar os atacantes diante do goleiro. Repetição que os zagueiros teimam em não compreender ou lamentam em perceber quando a bola está dentro do gol.

Os grandes jogadores têm a petulância de ler o complexo como simples. Quem está distante, nota a repetição e, se estiver cego, considera a estratégia primitiva. Quem está perto, irrita-se por saber que será enganado pela obviedade inevitável.

Ganso é clássico por jogar na vertical, sem passes laterais aborrecidos, medrosos e inertes. O objetivo é se aproximar da grande área, levar a bola até o atacante sem precisar estar junto dela. No último clássico contra o Palmeiras, fez isso duas vezes, nos gols de Neymar e Madson.

Quando não é possível servir ao outro, o meia clássico sabe usar a canhota que diferencia a espécie, salvo exceções de santa majestade. No mesmo jogo, exigiu uma grande defesa do santo palmeirense em um tiro de fora da área. Os meias comuns ainda pensam que fazer gol é conduzir a bola até as traves, de corpo presente, como moleques que jogam gol-caixote nas praias, por exemplo. Aí, os verdadeiros gansos.

Ganso desnorteia a sensação e o controle do tempo por ser um meia dos anos 70 no futebol contemporâneo. A modernidade pulsa no jogador que não somente cria, mas também destrói quando a partida exige. Destrói para recriar. Para reconstruir. Jamais adepto da demolição estéril.

É um jogador europeu – na excelência dos termos – por retornar e ajudar o volante. No caso do Santos, Arouca é o carregador solitário do piano. Alguém tem que estar do outro lado para levantar o instrumento musical e movê-lo pelo gramado. Ganso é o auxiliar de carregador, sem queixas, sem cara feia. Somente um sujeito disciplinado.

Poucos times europeus têm este homem. Por aqui, no máximo, volantes que chegam à frente, e não o contrário. A consciência tática aos 20 anos só é adquirida pelos ordinários na fronteira dos 30. Barcelona, Real Madrid e Chelsea se encaixam no modelo.

Ver Ganso jogar me leva a três questões, sem respostas, imãs para exercícios de futurologia. Como são as dúvidas que nos levam adiante, vale o flerte com a especulação e passar pela experiência de viver a travessia. Chegar à outra margem é importância secundária.

Primeiro ponto: os admiradores da arte ficarão órfãos em breve, salvo atropelos de percurso? Paulo Henrique Ganso disputará o Campeonato Brasileiro por completo? Acompanharemos, com olhos de lupa, a evolução dele? Ou por telescópio apontado para a Europa?

Ganso tem somente 20 anos. Se o auge de um jogador ocorre entre 25 e 27 anos, o que ele ainda poderá fazer no futebol, provavelmente do outro lado do Atlântico? Manterá a discrição de um Rivaldo? Virará protagonista, como Zico?

E terceiro: será que Ganso repetirá o papel de injustiçado na Vila Belmiro? Injustiçado por ser alguém que abre mão dos holofotes pelo prazer de enfiar uma bola no meio de três zagueiros e ver o colega se consagrar na finalização. Injustiçado porque, dentro da lógica do futebol, o segundo na preferência é sinônimo de contracapa nos livros de História.

Ganso não pode repetir o papel que foi interpretado por Diego. O meia da Juventus, melhor estrangeiro do campeonato alemão e condutor da Velha Senhora, tem poucas chances de ir à Copa do Mundo. Robinho estará lá. Como será com Paulo Henrique quando ele estiver com 24 anos, com olhos para o Brasil-sede? Só pode haver um, ou precisamos de um técnico que leia o jogo a partir de seus papéis, e não de seus atores?

domingo, 14 de março de 2010

Entre os muros, vítimas e carrascos

Sentado atrás da mesa, o professor segue o ritual de final de ano: perguntar aos alunos sobre o que aprenderam no período. As perguntas são mecânicas, à caça de reações previsíveis. No máximo, a falsa reação de surpresa. As respostas parecem variadas, de Ciências a Matemática, mas gravitam em torno de tema específicos, de interesse particular do aluno, que o professor não se interessa em detalhar.

Os questionamentos terminam ao toque do sinal. O professor François Marin se dá por satisfeito, termina a aula e – por convenção – deseja boas férias. A última a sair da sala é uma garota negra, descendente de imigrantes africanos, calada, invisível, a aluna perfeita. Seria a estudante perfeita pela disciplina, mas jamais será lembrada, pois cumpre o destino de irrelevância traçado pela escola.

O professor se esquece de perguntar o que ela havia aprendido. A aluna o aborda e diz, de maneira direta:

- Eu não aprendi nada.

O professor, surpreso, insiste no argumento de que a garota deve ter aprendido algo. E recebe o diagnóstico – com ares de definitivo, incontestável:

- Eu não entendo o que estamos fazendo aqui.

O diálogo é, para mim, a síntese da relação entre professores e alunos de uma escola pública francesa, retratada no filme “Entre os muros da escola”, direção de Laurent Cantet.



O filme apresenta, de saída, um grande mérito: não repetir o olhar norte-americano das produções sobre escola. O olhar no qual um professor representa o herói capaz de modificar o cotidiano de todos os alunos, como se fosse um processo natural e irreversível, sem choques. Neste filmes, alunos e professor não tem particularidades, somente desejos coletivos em conjunção com o sonho americano. E ainda não o alcançaram pela origem estrangeira ou por pertencerem à outra etnia, mas serão preparados pelo professor para o “American Way of Life”.

“Entre os muros”, nome original francês, indica como a escola – em muitos endereços – é a reprodução dos preconceitos, das segregações, das disputas mesquinhas de poder e da repressão social do mundo além da sala de aula. Professores e alunos, via de regra, são espécies diferentes e se encaram como tal. Possuem características próprias, valores diferentes e espírito de corpo que não inclui a solidariedade perante a outra espécie.

Unem-se somente por interesses políticos, quando ambos são prejudicados pelo sistema escolar ou quando precisam da aliança para solucionar uma questão específica. Uma relação de cinismo, de ética de interesses como exemplos comuns ao cotidiano.

Se o filme fosse dublado em português, talvez enganasse o espectador menos avisado. A escola brasileira não é apenas cercada por muros como ação de segurança pública. Os muros ressaltam os papéis: alunos, internos; professores, carcereiros; e gestores, a direção da cadeia. Todos os atores envolvidos se comunicam somente quando necessário, a partir do script previsto pela hierarquia. Na rotina de uma unidade escolar, uns se queixam dos outros, e todos mantém o pacto de espinafrar o sistema. Prevalece o comodismo, já que o sistema é distante, impessoal, a entidade abstrata.



Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Entre os muros da escola” é uma obra que não permite a torcida. Não há bons e maus. Impossível adotar a visão maniqueísta das relações entre os personagens, com o risco de enfiarmos a cabeça no buraco da ilusão. O espectador que tem ligações diretas com a educação escolar pode ficar confuso. Professores, principalmente. Se isso acontecer, a provocação do diretor Cantet se materializou além da tela.

Professores foram alunos. E muitos se esquecem desta história. O filme faz questão de nos lembrar quase todo o tempo, exceto nas discussões entre os docentes na sala dos professores. Não é permitida a identificação rápida e indolor. O filme nos joga de um lado para outro, como se mandasse o recado: não se posicione! Você é ambos. Os erros também pertencem a você. Se os cometeu, prepare-se para sofrer as tentações das saídas inócuas e posteriormente dolorosas. A garantia de sobrevida ao modelo.

“Entre os muros da escola” esfrega no rosto do homem europeu o conflito contemporâneo da imigração. Na classe de François Marin, os alunos são filhos de imigrantes. Muitos são franceses de nascimento, e estrangeiros pela cultura. Neste ponto, Marin não os compreende. O professor – cujo sobrenome é traduzido por marinheiro – ressuscita o símbolo do colonizador europeu, incapaz de perceber que o outro é o rosto da diferença cultural, jamais a inferioridade por causa da origem.

O professor ensina francês, a língua da Metrópole, o que aumenta o distanciamento dos alunos. Ele tenta o diálogo, ora por aproximação, ora para reforçar o próprio poder, por meio da arrogância de quem sua superioridade. François seria melhor por ser nativo e pelo papel que interpreta na escola.



Um exemplo é a aluna Esmeralda (com o braço levantado, à esquerda), que o questiona com freqüência. Quando ela diz que leu “A República”, de Platão, o professor não acredita, e também ironiza. Como uma aluna considera chatos os livros escolhidos e ainda por cima lê uma obra que não poderia, em tese, entender?

Nas escolas de periferia de São Paulo, será que não existem professores que desprezam – por exemplo – a cultura dos migrantes nordestinos? Políticas públicas de educação são comprometidas com a cultura popular ou propagam o poder da erudição? A escola sempre abre as portas para movimentos culturais, como o hip-hop?

O filme, embora escolha o ambiente mantido pelo Estado, permite olhar para as escolas privadas brasileiras, com adaptações. As escolas particulares não são exatamente ilhas de excelência. Menos diversa do que a pública, a escola privada também é caixa de ressonância de preconceitos. É evidente que ali se sobrepõe o olhar sócio-econômico, no qual vale a conta bancária dos pais do “cliente-aluno”, nesta ordem de importância. Professores são personal-teachers, que podem ser trocados no final de ano, como um boneco da moda.

O filme, premiado no Festival de Cannes, é baseado em livro de mesmo nome. O autor, François Bégaudeau, interpreta o professor. Os alunos não são atores profissionais. Muitos dos diálogos são improvisações, que elevam o grau de naturalidade e permitem o flerte com a escola “real”.



"Entre os muros da escola” é o nosso espelho, que indica os defeitos e as cicatrizes de todos os envolvidos. Indica a intolerância coletiva e a ditadura dos padrões de comportamentos. Analisa como o processo educacional repele os diferentes, cerceia a liberdade e valoriza os iguais. Iguais por serem submissos. Iguais por aceitarem o enquadramento, mesmo que sua subjetividade seja um detalhe.

Neste caminho, há o aluno Carl, descendente de antilhanos, que se vê como caribenho, apesar de nascido na França. Carl, visto como problema em outras unidades, não se importa mais com as decisões da escola. Passa o tempo dentro dela, com fantasias além dos muros.

A escola de François pode permitir o cinismo do espectador, distante pela língua, distante por um oceano cultural. Mas o espaço cai a zero quando olhamos para os conflitos dos personagens, para a desilusão dos professores, para o deslocamento dos alunos, para a ausência de conexão entre as partes. Escolher um lado é esconder-se atrás do muro. É mantê-lo em pé, sólido como as paredes que transformam as escolas em prisões ou castelos.



Observar por ambos os papéis (professor e aluno) traz a luz a culpa e a resignação. Os muros não escondem as vítimas. Os muros geram sombras, mas não protegem os carrascos e suas foices. Vítimas e carrascos estão nos dois lados dos muros. Não é preciso olhar de cima, pois eles não se deram conta do que estão fazendo ali!

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Uma ressalva: este texto nasceu a partir de um debate entre alunos e professores do curso de graduação em História, na Universidade Católica de Santos (SP). O texto acima é minha interpretação, e não o resultado da conversa após a exibição do filme. Assisti ao filme pela segunda vez, a primeira coletivamente.

Entendo que “Entre os muros da escola” cumpriu seu papel como cinema: provocar, incomodar, extinguir a passividade do espectador, gerar a identificação com a obra e seus personagens. As múltiplas visões decorreram do mosaico cultural, que deveria ser a natureza da própria escola. No debate citado, penso que este processo aconteceu!

O amor que tortura

Assisti, na semana passada, ao filme Preciosa, vencedor de dois Oscars. Fiquei impressionado, como há muito tempo não me sentia no cinema. Preciosa é um drama clássico, o tal enredo “baseado em fatos reais”. Engana-se, porém, quem acredita ser uma história comovente, daquelas que exigem lencinhos dos espectadores em várias cenas. Lágrimas, provavelmente, serão derramadas, mas como fruto do desconforto, do peso que o diretor Lee Daniels transfere para o colo do público. Lágrimas que podem vir acompanhadas de um sorriso amarelo.

Preciosa é um filme pesado, que produz faces de constrangimento na saída da sala de cinema. Preciosa é um incêndio que deixa todos chamuscados. Ninguém passa ileso, capaz de comer uma pizza ou tomar um cafezinho e não tocar no assunto. Preciosa faz pensar, a partir da dor, sobre a condição humana e as relações entre as pessoas diante das adversidades. Provoca a necessidade de, assim que o filme terminou, perguntarmos para a pessoa ao lado: - E aí, o que você achou?

Preciosa parece um filme sobre desgraçados, sujeitos ignorados pelo mundo que os cerca, se olharmos somente a superfície desta obra. O olhar mais atento indica uma história de amor, mesmo após a sucessão de golpes que uma pessoa pode receber daquelas em quem confia. Golpes que sangram em nome de sentimentos nobres, que torturam em nome de uma relação de dependência interpessoal, que levam ao nocaute por poder e rancor no núcleo familiar.



Preciosa é o nome do meio de uma garota de 16 anos, negra, obesa e praticamente analfabeta. Ela vive com a mãe, que passa os dias imóvel diante da TV. O dinheiro que mantém a casa vem do seguro social que a adolescente recebe do governo. Preciosa tem uma filha, que sofre de síndrome de Down. A menina, criada pela avó, é chamada de Mongo pela mãe de Preciosa, que não tolera a criança. A menina é fruto da relação incestuosa da adolescente com o pai. Na verdade, uma maneira educada de se referir aos sucessivos estupros.

A família sem estrutura é só um ponto de deslocamento social de Preciosa, que também não se encaixa no sistema escolar. Este modelo a rejeita, a expulsa e a encaminha para um serviço educacional que atende mulheres vistas como problemáticas. Como escapismo, a única saída da adolescente são momentos em que constrói um universo de fantasia, uma vida glamourosa na própria imaginação, mundo onde é amada, acolhida e desejada por todos.

Preciosa parece fadada a um processo de desgraça contínua. O pai, que não aparece na trama, a engravida novamente. A rejeição da mãe e as dificuldades de Preciosa lidar com duas crianças não representam o término do calvário. Outros fatos farão com a adolescente tenha dúvidas em compreender se amor significa um sentimento nobre e fundamental para a vida dela. Todas as experiências indicaram que amor está associado à violência, desprezo e indiferença.

A classe de garotas-problema é o local onde Preciosa começa a ver a vida pulsar. Lá, ela é respeitada e compreendida pela identidade que possui. Na sala de aula, não ocorre somente o desenvolvimento pedagógico, traduzido na leitura e na escrita. Naquela sala de aula apertada, com mulheres tão diferentes, Preciosa se sente – pela primeira vez – acolhida, amada por alguém: a professora.

A adolescente é vista pela professora como um ser humano, na acepção do termo, uma pessoa com necessidades, com valores, como sede de continuar. A professora manifesta o amor próximo do estado puro, aquele sem busca de reconhecimento do outro, em um caminho de doação, sem a cobrança por recompensa. A sala de aula se transforma em um cenário diferente dos demais, onde Preciosa é invisível, sem registro, sem serventia, uma ficha entre as que se amontoam nos armários da assistência social.



Mo´nique, que interpreta o papel da mãe, levou o Oscar de atriz coadjuvante. O trabalho dela é sublime, o retrato de uma pessoa amargurada pelo abandono, pela rejeição do marido, que a troca pela filha, mais a vergonha social, que a mantém acorrentada – simbolicamente – a uma poltrona, com olhos vidrados na TV. E praguejando contra a própria desgraça. Uma vítima!

A mãe é vítima e carrasca, simultaneamente. Preciosa é o alvo para o exercício da vingança, a personificação da culpa que pode ser medida, com facilidade, dentro de casa. O marido, na visão da mãe, não é o agressor, mas aquele que foi roubado pela filha. E mãe, alguém sem oportunidade de um relacionamento estável, que a aproximaria do sonho americano.

O filme apresenta também competente elenco de apoio. Dois personagens secundários foram feitos por músicos famosos, quase irreconhecíveis em seus papéis. Mariah Carey interpreta uma assistente social que não dá conta da história de Preciosa, uma vida turbulenta demais. E Lenny Kravitz faz o enfermeiro que auxilia a adolescente no trabalho de parto do segundo filho. O personagem é sensível, a exceção disposta a ouvi-la e, em nenhum momento, preocupado em rotular ou estabelecer juízo de valor a respeito dela.



O filme, dirigido por Lee Daniels, faturou também o Oscar de melhor roteiro adaptado. No total, seis indicações. A história é baseada em livro de mesmo nome. Daniels é o segundo diretor negro indicado à estatueta na história do cinema.

Mais do que um drama baseado em fatos reais, Preciosa é uma história que acontece diariamente, ao nosso lado. A trama está nas delegacias de polícia, nos corredores dos hospitais públicos, nas salas de espera dos serviços de assistência social.



Preciosa é alguém que passa por nós numa avenida qualquer, sobre quem nada sabemos. Ela é uma personagem trancada atrás das portas das instituições, seja a família, seja a escola, seja o sistema público impessoal,.que, talvez por teimosia ou ignorância social, não conhecemos.

A história, como os dramas comuns no cinema, não nos traz a redenção. Fornece a dúvida. Preciosa tem chance de dar certo? O filme explora nossa indignação e nos constrange diante de nossos próprios sentimentos mesquinhos. O jogo de sentimentos nos coloca a pergunta: qual é o tamanho do nosso problema diante de alguém como Preciosa?

(Nos cinemas)

sábado, 13 de março de 2010

Espelho, espelho meu

Se o outro tem mais dinheiro, penso que ele me esnoba. Se o outro é mais pobre, julgo-o preguiçoso.

O outro sempre está acima do peso. É um obeso patológico. Quando o outro está mais magro, deve ser anoxérico ou sofrer de bulimia.

Se observo alguém mais bonito, devem ser as plásticas ou fulano é um rato de academia. Se vejo alguém mais feio, tenho misericórdia deste coitado.

Se uma pessoa começa a falar de política, rotulo este militante de chato. Se a pessoa nunca aborda o tema, enxergo um alienado. No fundo, ambos são extremos da alienação.

Quando termina o dia, reclamo para a pessoa mais próxima que estou cansado. Realizo muito numa carreira sempre em evolução. O outro também diz o mesmo, numa gravidade maior. Ilude-se – pobre diabo! - que o problema dele poderia ser pior.

Se o outro compra o que não posso ter, provavelmente ele financiou a mercadoria. Se compra algo mais barato, a mercadoria é brega, fora de moda.

Os mais velhos são exatamente velhos, ultrapassados. Os mais novos não sabem coisa alguma.

Os que compram mais do que eu são consumistas. Os que não compram não são cidadãos.

Os que concordam comigo são politicamente corretos. Os que discordam são baderneiros, subversivos.

Se o outro age de forma incompreensiva, enlouqueceu. Caso tenha atitudes previsíveis, perco o interesse.

Os ambientalistas são eco-chatos, a turma do “não”. Os amigos do concreto armado e do progresso são oportunistas.

Quem trabalha mais, é um workaholic, alguém sem ambiente em casa, sem vida social.
Quem trabalha menos, é um vagabundo, provável explorador de outra pessoa.

Se o sujeito tem mais tecnologia à disposição, é um nerd. Caso tenha equipamentos mais antigos, é um homem medieval.

Quem toma mais remédios do que eu é hipocondríaco. Quem toma menos omite seus problemas, ainda não os descobriu ou se sente mal porque quer.

Quem dialoga sempre, penso que me aborrece por falar demais. Quem prefere ouvir, soa como um sujeito vazio, desinformado ou sem algo a dizer.

Quem tem mais diplomas na parede são intelectuais arrogantes. Quem pouco freqüentou a escola não tem cultura.

Quem viu, leu ou consumiu mais produtos culturais são eruditos metidos e incompreensíveis. Os que não lêem, vêem ou consomem o que eu compro são ignorantes dignos de pena.

Se o outro se alimenta melhor, é um radical macrobiótico ou vegetariano, fruto de modismos. Se o outro come pior, é culpado por se entregar aos fast-foods do shopping center.

Eu sou a medida. A saída para a felicidade do outro nasce e morre em mim. A meta de minha vida sou eu mesmo. As referências começam e terminam no mesmo sujeito. Eu!!! Não sofro de narcisismo tampouco me considero egocêntrico. Apenas sou melhor do que o diferente. Sou o homem contemporâneo.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A preservação do santo

O goleiro Marcos, do Palmeiras, não é mais o mesmo. Pelo menos, dentro de campo. Mas não pague ingresso, leitor, para viajar na barca sem rumo dos apressados. Marcos é um sujeito de 36 anos, sem – por razões óbvias – os reflexos e a agilidade de quando tinha 26. Ou quando estava com 28, evitando que alemães e outros adversários atrapalhassem a trilha de sete vitórias seguidas e o título da Copa do Mundo de 2002.



A compensação vem pela experiência, pela capacidade de liderança, por saber usar o corpo para evitar gols, sem a necessidade de vôos que mais agradam os fotógrafos do que os especialistas na posição. Este é o caminho sagrado dos goleiros mais experientes. Goleiros fora de série passam por metamorfoses. Evoluem. Viram leitores precisos e independentes da dinâmica de jogo. Tanto que muitos deles terminam – depois da aposentadoria – no banco de reservas, vistos como estrategistas eficientes.

Marcos não está velho ou acabado para o ofício. Ele permanece milagreiro. Os toques sagrados apenas ficaram mais discretos. Temos que nos contentar com um santo menos espetacular, mais singelo e direto nas ações em campo. O goleiro veterano é um sujeito que conhece os atalhos, capaz de trabalhar, por exemplo, com os pés e outras partes do corpo (sinal de que o posicionamento melhorou, pois o goleiro está na trajetória da bola).

O problema, atualmente, é que o Palmeiras se transformou em um time mediano, sustentado por seu goleiro, além dos meias Diego Souza e Claiton Xavier. È – por força de promessas não-cumpridas, picuinhas da política interna e dirigentes que se mostraram comuns – o clube mais fraco dos quatro grandes de São Paulo. Sem os três jogadores, trata-se de um clube pequeno do interior do Estado.

Marcos sempre foi esquentado. É do tipo que os jornalistas, aqueles viciados em análise pontuais, adoram. Repetem as palavras do goleiro, as distorcem nos comentários dignos de boteco para se contradizer sem cerimônia no mesmo dia. É ótimo ter um líder que se importa. O goleiro é uma exceção no futebol, hoje marcado por contratos ignorados, jogadores que beijam múltiplas camisas, escalações de equipes que pouco se repetem e atletas esquecidos no semestre seguinte.

Marcos se importa. Suporta a dor física das lesões. Não diferencia clássicos de partidas contra os laterninhas. Trata o Parque Antártica como um templo, e não como um estádio. Marcos se importa por pensar no futuro do clube. Por se preocupar em formar novos goleiros. Em dar oportunidades a eles. Diego Cavalieri – hoje no Liverpool – é apenas um caso da fábrica de goleiros competentes. O Palmeiras não teve um goleiro ruim desde os anos 60.

É difícil manter-se sereno diante de um time que sua sangue para vencer o Sertãozinho e apanha de São Caetano e Santo André dentro de casa. Qualquer amante perde a compostura diante de um lar remexido por estranhos. Ainda mais se falhou em um dos gols.



Todos os grandes goleiros falham. Engolem frangos espetaculares. O torcedor deve temer os goleiros regulares. Eles serão sempre regulares. Nunca serão péssimos. Nunca serão excepcionais. Não fazem a diferença em momentos importantes. Não asseguram campeonatos quando as estrelas amarelam. Não fazem o atacante amaldiçoar o técnico por tê-lo escolhido para cobrar um pênalti.

Marcos atuou inúmeras vezes no sacrifício e pretende se sacrificar no próximo ano. Qual ídolo você conhece, leitor, que seguiria para o banco de reservas com o objetivo de formar o sucessor? Qual ídolo assinaria contratos de longa data, que prevê um cargo na comissão técnica, sem inflar o ego para comandar o time na beira do campo com pouca experiência?

Marcos sofrerá muito até o final do ano. A torcida, também. A dor não será por causa dele, mas será sentida em conjunto com o goleiro. A catarse será coletiva. A gestão atual do clube escolheu as mesmas estradas viciadas de outras agremiações. A política surrada do bom e barato não me parece suficiente para aproximar o Palmeiras das finais. Os sintomas da desorganização pipocam durante o Campeonato Paulista.

Infelizmente, o Palmeiras não aprendeu com o ano anterior. Perdeu o campeonato por possuir somente um time, e não um elenco. O Campeonato Brasileiro, com 38 rodadas, é longo e exige banco de reservas. Planejamento é fundamental. Ou, pelo menos, não tomar medidas trapalhonas. O São Paulo, com três títulos seguidos, é a evidência física mais cristalina. O Flamengo, em 2009, foi uma exceção, que confirmou a regra dos anos anteriores.

Marcos, o santo, sofrerá como todos que abrem mão de si por uma causa maior. Mesmo com a chance de milagres eventuais, o goleiro tem feridas demais, cicatrizes demais para salvar um clube que caiu na vala comum. E não terminará a carreira por baixo, como desejam os pessimistas. Terminará a carreira onde começou. Há ato maior de amor do que proteger a floresta mesmo quando ela pega fogo?

Crédito das fotos: divulgação

segunda-feira, 1 de março de 2010

A espera

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição n.778, de 27 de fevereiro a 5 de março de 2010, pág.10

O tempo nos escravizou. Somos dependentes da contagem das horas, minutos e até milésimos de segundos. O tempo atual é vinculado ao trabalho, aos compromissos profissionais, que determinam uma série de comportamentos dentro do cotidiano.

É o tempo do trabalho que estabelece o período para que nós possamos viver outros papéis sociais. É o tempo do trabalho que regula como as pessoas vão exercitar ou lutar contra o status imposto a elas pelos outros. É o tempo do trabalho que indica quais intervalos serão destinados a outras atividades, inclusive o lazer, transformado em obrigação em muitos lugares.

Na prática, o homem de hoje despreza o ócio ao nível da culpa. Quantas vezes você, leitor, não se sentiu culpado ou pressionado por outras pessoas por optar em fazer coisa alguma? Este tempo urbano é acelerado e cruel contra as necessidades mais elementares do ser humano, que nos tornam singulares, em certo sentido. Somos envolvidos ao ponto de não querer digerir, por exemplo, sentimentos e sensações de forma adequada, o que nos leva a decisões apressadas e, principalmente, a viver o agora sem avaliações.

Um ex-aluno e hoje grande amigo enfrentou recentemente uma situação de espera. A espera era voluntária diante de um relacionamento afetivo em crise. A parceira dele passava por uma fase de turbulências profissionais e financeiras, somada a uma crise interna em torno do futuro do próprio relacionamento amoroso.

A moça pediu a ele que se afastasse um pouco para que ela pudesse refletir sobre os acontecimentos recentes e poder tomar uma decisão sem grandes pressões. Ela queria se conhecer. Ele resolveu esperá-la por algum tempo e incorporou a ideia de que este tempo colocaria as coisas no lugar.

A questão é que hoje temos uma dificuldade enorme de esperar. A espera é dolorosa, nos coloca em contato com nós mesmos, numa trajetória profunda, por vezes surpreendente e decepcionante. Vemos aquilo que detestamos, sentimentos miseráveis que acreditávamos ter enterrado numa cova sem identificação.

Quem espera nada no sentido inverso das relações atuais, rápidas e líquidas. O ato de esperar nos mantém em estado de suspensão, de olho no desfecho deste caminho sem trilha, que segue paralisado no endereço de partida. Não há para onde ir. A estrada começa e termina num único ponto.

Esperar é o contra-senso do mundo imediato. Não existe tempo para espera. O tempo nos consome e é consumido. O tempo, que nos escraviza, também nos serve, numa relação perniciosa, promíscua até. Jogamos com ele e o responsabilizamos por nossas mesquinharias. Terceirizamos nossa parcela de culpa ao tornarmos a abstração do tempo como criminosa.

Esperar implica em tolerar, explorar os limites da paciência diante da incógnita que nos levou a esta posição. O resultado fantasiado não é garantido pelo simples ato de parar e aguardar pelo outro ou por algo. O resultado funciona, na prática, como mero objeto de desejo.

Esperar exige, como remédio para a fantasia, maturidade e serenidade. Quando se espera, abrimos mão do mundo em movimento, frenético, sem controle, que nos ilude com a proposta de domínio sobre os caminhos e os destinos. A serenidade talvez seja, neste caso, a única injeção possível contra a insegurança e a chance de decepção diante do que nos aguarda. Até porque, ao esperarmos, nos agarramos numa história construída – via imaginação -, na qual os demais envolvidos ganham falas e papéis que nos atendem, mas não condizem com o mundo real, com a dinâmica das relações entre pessoas.

Esperar, no fundo, soa como missão ingrata, frustrada, porém fundamental. Ingrata porque nos coloca numa situação de dependência do outro, das sensações, sonhos, angústias e sentimentos dele. Frustrada pelo fato de que estamos perante o desconhecido, a imprevisibilidade das reações humanas. Fundamental porque nos diz exatamente o que devemos saber: somos humanos, ainda que o cotidiano – e seu tempo – nos ofereça uma rotina de prazeres instantâneos, de curto prazo, e a vida de um personagem na qual agimos e reagimos como máquinas. Sem reflexão, sem digestão daquilo que nos garante o rótulo – esta é a palavra – de humanos.

Meu amigo não atingiu o resultado que esperava. Acabou engolido por acontecimentos sobre os quais ele jamais teve controle, embora se alimentasse – eventualmente – da ilusão e da fragilidade do domínio sobre o que o cerca. Ele não se arrepende de ter esperado. Prefere sorrir para si e compreender que se abriu para o outro, abdicou naquelas circunstâncias do individualismo do contemporâneo e, mesmo sem ter o que desejava, caiu em mudança.

É o otimismo de quem sonha com a maturidade, a sabedoria e, na imposição da mudança, se delicia com o desconhecido. Alterar-se, de longo prazo, pode ser a cura para as dores da fracassada espera. As dúvidas e os medos se abraçam com a única certeza: esperar sempre, o mecanismo para o próprio interior.