segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vozes na minha cabeça

Valdeci vive há mais de 20 anos no mesmo endereço. Sai pouco de casa. Quando o faz, está sempre com alguém. Ele mora no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ali, no subúrbio da capital carioca, ele cultiva um sonho. Embora se sinta feliz em andar de barco, trem e até de ônibus lotado, Valdeci gostaria muito de voar. De avião.

A casa onde ele mora é famosa: o Instituto Municipal Nise da Silveira, também conhecido como hospício do Engenho de Dentro. Ele pode sair dali apenas com supervisão. Passeios acompanhados por estagiários ou residentes médicos.

Se Valdeci tivesse vivido no final do século XIX, seria considerado um alienado, nome dado ao doentes mentais. A casa dele teria um nome diferente: o Palácio dos Loucos, apelido do antigo Hospital D.Pedro II, o primeiro hospício da América Latina. A inauguração aconteceu em 1852, após uma obra com dez anos de duração, com a presença do próprio Imperador. Abrir um hospício integrava a mentalidade progressista da época.

Valdeci foi diagnosticado como alguém que apresentava, em conjunto, retardamento mental e psicose. Desconhecia dinheiro. Era incapaz de fazer contas. Não sabia ler.

Conheci a história do Valdeci através do Edmar. E o Edmar por causa do Stenio. Explico melhor: há um mês e meio, escrevi um texto sobre o personagem Doutor Castanho, interpretado por Stenio Garcia na novela Caminho das Índias, da Rede Globo.



Para mim, o médico e seus pacientes, que se relacionavam a partir de uma reprodução do método da psiquiatra Nise da Silveira, compunham o melhor núcleo da telenovela. A trama mais ajudava do que reforçava ralos rótulos. Apimentou o debate sobre o sistema de saúde mental no país.

Ao pesquisar sobre o personagem, li um pouco sobre o médico Edmar Oliveira, que hoje comanda o Instituto Municipal Nise da Silveira. Nise, morta há 10 anos, tornou-se reconhecida por aproximar a arte de pacientes psiquiátricos, utilizando a pintura – por exemplo – como apoio no tratamento e na redução das dificuldades para encarar a vida social. Edmar trabalhou com ela e seguia suas ideias.



Edmar inspirou o personagem de Stenio na novela. A composição do personagem, além da postura profissional, era de semelhança física. A aproximação entre ambos se deu pelo livro “Ouvindo Vozes – Histórias do hospício e lendas do Encantado”, escrito pelo médico. O livro é um excelente testemunho sobre como a loucura se encaixa na história brasileira e as experiências de mudança (com as dificuldades, retrocessos e avanços) no Instituto, em Engenho de Dentro.

Mais do que percorrer a trajetória histórica do primeiro manicômio nacional, “Ouvindo Vozes” é um relato provocador e sensível da luta para tratar pacientes psiquiátricos como pessoas, e não isolá-los entre castelos de concreto.

Edmar é um dos defensores da reforma psiquiátrica, movimento que procura – entre outros pontos – reduzir períodos de internação, extinguir terapias agressivas – comuns em passado recente – como eletrochoques e lobotomias, e reposicionar o paciente no convívio social, com possibilidades de estudo e trabalho.



No livro do psiquiatra paraense, autor que chegou ao Rio de Janeiro para estudar medicina nos anos 70, há nas últimas cem páginas uma jóia da literatura nacional. “Anotações do cemitério dos vivos” são as impressões do escritor Lima Barreto, que passou anos internados no hospital, no início do século XX. O motivo: alcoolismo.

Edmar consegue nos comover com as histórias pessoais. Gente comum, por vezes diagnosticadas, carimbadas com patologias genéricas, para não ser dizer ficcionais. Homens e mulheres trancafiados por preconceito, por não se encaixarem aos padrões sociais estabelecidos, diferentes em um mundo onde se prega a igualdade de pensamento, de comportamento.

Como se fosse possível isolá-los sem danos, como uma colônia de leprosos em tempos de barbárie. Nas palavras de Edmar Oliveira, “a casa estava cheia de desclassificados da sociedade, mas classificados nos diagnósticos científicos.”



O livro não defende o fim da internação, tema central na questão da reforma psiquiátrica brasileira, e muito menos a ausência de acompanhamento médico. “Ouvindo Vozes” levanta a bandeira para a aproximação de pacientes e sociedade e, principalmente, o fim dos hospitais como depósitos de seres humanos.

A leitura do texto do médico carioca gerou uma série de vozes em minha cabeça. Em concordância. Dissonantes análises. A poesia da obra está, inclusive, em inocular a reflexão sobre a loucura dentro da vida do homem contemporâneo. Quem são os normais? Quem são os insanos? Somos os dois? Em quais circunstâncias?

O homem atual nunca consumiu tantas drogas. Não falo das ilícitas. Falo daquelas prescritas por gente de branco, em um consultório ou atrás do balcão da farmácia do bairro. Será que passaríamos no exame anti-doping? Ou somos absorvidos por uma rotina sufocante, repetitiva como a vida de um rato de laboratório que corre numa roda por sobrevivência e condicionamento?

Vivemos sob pressão e temos dificuldades para suportá-la. Não aguentamos nosso próprio corpo e, por isso, corremos para as academias, para as clínicas de cirurgias plásticas. Fugimos do espelho que tanto nos agride.

Controlamos uns aos outros. Adoramos vigiar. Detestamos a vigilância. São aparelhos eletrônicos individuais e públicos, vidas próximas ou pela TV. Remoendo pequenos problemas, nas palavras do poeta barão vermelho.

Colecionamos doenças, muitas das quais recentes, e que muitas vezes nos orgulhamos de falar sobre ela aos amigos e parentes. Estaríamos diante de um cardápio de pizzas? Meia depressão, meia hiperatividade? Uma bipolaridade coberta como molho de stress e pitadas de ansiedade?

Discutimos as patologias, incluindo o cenário pop, mas na vida privada, desejamos enterrá-las no buraco mais fundo da insegurança, da intolerância, do medo. Ainda vemos o diagnóstico psiquiátrico – ou até uma simples visita ao terapeuta – como sinal de loucura alheia. A medicação: overdose de isolamento e esquecimento.



“Ouvindo Vozes” lança no leitor – ao menos na retórica da palavra – a normalidade presente na loucura. No papel de tradutores, gente como Valdeci, que sonhava em voar. No pensamento de Edmar Oliveira, “o hospício aprisionou sua alma quando seu corpo fez sua morada no Engenho de Dentro.”

Sem gastar a pensão que recebia (o que fazer com dinheiro quando se vive em um hospício), Valdeci pôde comprar uma passagem aérea. Viajou a Vitória (ES), acompanhado por um ex-estagiário – na ocasião do convite, residente em outro hospital. Lá, permaneceu três dias. Se delirou, ninguém sabe. Se surtou, apenas de felicidade.

sábado, 19 de setembro de 2009

O gado indiano na TV

Uma amiga, professora universitária, não conseguia entender porque os alunos não retornavam para a aula após o intervalo das 21 horas. Ela sabia que não tinham ido embora porque vários largaram bolsas e mochilas sobre as cadeiras. Depois de alguns minutos, ao conversar com a colega da sala ao lado, descobriu: todos ainda estavam na universidade, mas os olhos diante da TV para acompanhar o último capítulo da novela das nove.

Ela me contou o episódio no dia seguinte, indignada com o comportamento dos estudantes de pós-graduação. Ao mesmo tempo, não parecia surpresa com o fato, pois percebera que a postura diante da TV não é diretamente associada ao diploma que o sujeito pendura na parede de casa.



A conversa com a professora me fez pensar porque gostamos tanto de novelas. O que faz as pessoas pararem diante de aparelhos de TV para seguir o último capítulo de uma história que todos sabem o desfecho, tamanha a obviedade da obra? Antes, uma correção redundante: paramos diante da TV não apenas para ver o último capítulo da telenovela, mas também para assistir à final do campeonato de futebol ou à última eliminação de um reality show.

Há dois anos, ao sair da sala de aula em uma terça-feira qualquer do mês de abril, encontrei às escuras à mesma instituição de ensino onde houve a fuga para a Índia. Vários funcionários e alunos andavam apressados, pois o paredão seria decidido em minutos.

Caminhando para casa, ouvi uma senhora despedindo-se do vizinho:

- A conversa tá boa, mas tenho que subir. Quero que o Alemão ganhe o BBB!!!

E falava das qualidades dele como se fosse um parente próximo ou um vizinho de porta há anos. Nada diferente das pessoas que conversam sobre os personagens de novelas como se fossem reais.

Os programas de TV são capazes de promover experiências coletivas em um mundo tão individualizado. É a tal sensação de pertencimento, pregada pelos teóricos. Assistir ao último capítulo nos coloca nas rodas de conversa, permite que opinemos sem muito conhecimento de causa ou profundidade, que tenhamos a impressão de que estamos bem informados. Ver a novela nos coloca no mundo, nos põe em posição confortável para interagir em igualdade de condições com nossos pares.

O último capítulo garante a impressão (falsa) de fazer parte de uma história, mesmo que seja descartável ou irrelevante de conteúdo. Por que precisamos entrar em catarse coletiva diante de uma história previsível e redundante?

É simples saber que a novela, uma narrativa circular, sujeita a pequenas mudanças por causa do temperamento da audiência, vai terminar muito próxima de como começou. Os nós da trama, expostos no início, serão desatados no último episódio.

A questão é que sempre estamos insatisfeitos com a vida ordinária que levamos. Precisamos do glamour, do sonho, do desejo de uma vida cheia de aventuras que abdicamos pelo conforto ou que nunca tivemos coragem ou oportunidade de buscar. No último capítulo, recebemos injeções (em overdose) de uma vida idealizada, ainda que por transferência ou terceirização ficcional via TV.



O caminho é semelhante no reality show. Milhões de espectadores acompanham, por exemplo, um sujeito e seu ato de escovar os dentes. Existe algo mais anônimo e solitário, mas visto ao vivo na TV? E ouvir o ressonar por horas de um BBB dormindo? É a magia do pay-per-view.

A questão é que relutamos em reconhecer que, em muitos casos, o nosso comportamento se aproxima ao de uma vaca. Não se trata do animal sagrado da última novela das nove nem ser tratado com desrespeito, algo tão comum, por exemplo, em serviços públicos. Seguimos a boiada, acompanhamos as “tendências” para não pagarmos o preço da marginalidade.

Ser alternativo implica em receber a carga de intolerância do desencaixe social. Virar o chato do grupo, aquele que reclama de tudo (quem sabe o sinônimo de ser reflexivo ou crítico?). Correr contra o pensamento único ou predominante de quem busca a redenção, como parte dos personagens da trama. Pensar – neste caso – dói como a marca da diferença.

Talvez acreditemos estar dentro de uma novela, mas sem personagens maniqueístas ou tramas previsíveis. Nesta história, ser bondoso não assegura recompensa, como o oposto também não significa a punição exemplar ou hipócrita. A ironia do comportamento diante da novela se dá imediatamente após o término do capítulo derradeiro. Fica no ar um cheiro de decepção, de frustração pelo fim da história, mas também pelo retorno ao cotidiano comum, repetitivo, indesejado, suportável no limite.

O sintoma imediato é a própria contradição de quem viu o programa. Reclama-se da obviedade da trama, das soluções evidentes, dos encontros e desencontros sem sentido ou inverossímeis entre os personagens. É difícil de admitir, mas a redenção ficou dentro da programação de TV, enquanto o espectador retorna ao reality show de si mesmo.



A reação das pessoas ao último capítulo da novela me lembrou minha avó. Com sua sabedoria mineira, ela respondia àqueles que perguntavam como conseguia dormir todos os dias depois do telejornal. A pergunta não era feita por causa do horário, muito cedo, mas pela perda do programa a seguir. Com calma, ela respondia:

- Novela? Basta ver o primeiro e o último capítulos para entender a história inteira. E quem viu uma, viu todas!

Não parece ser necessário um diploma de pós-graduação na parede para entender como se laça o gado pela TV. Pelo contrário! Enquanto isso, a boiada recomeça a ruminar a nova (velha) história na segunda-feira seguinte.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Quero o direito de ser cinza"

A filósofa Márcia Tiburi segue à risca a cartilha do “bom pensador”: incomodar o outro, tirá-lo da chamada zona de conforto, fazê-lo refletir além do senso comum. O filósofo, neste sentido, deve caminhar contra a corrente, com provocações, expondo a capacidade de observar o incomum, dar importância ao detalhe, valorizar o que foge aos regulamentos sociais, lutar contra o pensamento único que empurra a sociedade de massa. “A Filosofia é o pensamento atento de si mesmo.”

Tiburi participou da Tarrafa Literária, o 1º Encontro Internacional de Escritores, no Teatro Guarany, em Santos. Ela dividiu o palco com o filósofo alemão Theo Ross (ver texto neste blog). A conversa foi mediada pela jornalista Mona Dorf.

A filósofa, que faz parte do programa Saia Justa, no canal fechado GNT, vê como fundamental a presença de pensadores no universo da TV. “Estamos apáticos, conformados, deprimidos. O capitalismo nos torna burros. Se você não pensa por conta própria, a publicidade pensa por você.”



Ao abaixar a cabeça para a persuasão comercial, o “sujeito-idiota” se transformaria em presa para o discurso falso de liberdade e, principalmente, de felicidade. A conseqüência é o desrespeito pela dor do outro, a intolerância diante da melancolia, na visão de Márcia Tiburi. “Eu quero o direito de ser infeliz. Quero o direito de ser cinza.”

A declaração provocou salva de palmas na platéia, embora parte esboçasse um sorriso amarelado enquanto batia as mãos para a escritora.

Caretas da academia - Márcia é a acadêmica que virou figura pop. Em parte pelo escreve. Em parte pelo que diz sobre assuntos do dia-a-dia. Além da presença na TV, ela tem colunas mensais em revistas como Cult e Vida Simples. Não que ela adore os holofotes. È o preço a ser pago para propagar uma mensagem, para levar a filosofia além dos muros da universidade.

Neste caminho de raciocínio, ela vê com resignação as críticas por estar nos meios de comunicação. “O grande conflito hoje são as figuras caretas da academia que preferem nos criticar por estar na mídia. Acham que fazer Filosofia é somente a História da Filosofia. Como nós falamos uns com os outros? Este é o lugar da Filosofia.”

Para muitos, filósofo na TV é fenômeno raro da natureza, um eclipse singular que merece admiração, porém incompreensível em si mesmo. Um espécime em extinção deslocado de seu habitat. É o sujeito que dirá coisas prolixas para meia dúzia de complicados que fingem entender, durante a programação da madrugada.



Na Tarrafa Literária, Tiburi defendeu que a Filosofia deve fugir da prisão acadêmica e se assumir diante da vida prática. Significa o pensar humano como auxílio na rotina, como apoio – sem ser solução direta – para as dificuldades do homem com o mundo que o cerca e que o incomoda.

Erro filosófico - Ela é dura com o senso comum. Professora da FAAP e do Mackenzie, em São Paulo, Márcia Tiburi afirma que mal sabemos refletir. “Nós precisamos aprender a pensar. Para isso, o Brasil precisa investir no seu afeto, de forma racional, auto-reflexiva.” Ela e o filósofo alemão Theo Ross chegam a um consenso de que a razão é o mecanismo para se compreender os sentimentos, as sensações, sem podá-los ou castrá-los.

Depois de duas horas de conversa com Ross, Márcia Tiburi era esperada para autógrafos de seus romances e livros de filosofia. Ela preferiu não permanecer no Teatro Guarany. Argumentou que no local ninguém estava interessado em comprar suas obras. Pela reação de parte do público, com livros debaixo do braço, ou pelas dedicatórias de Ross nas suas “Vitaminas Filosóficas”, talvez tenha sido um erro de avaliação filosófica.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A política como Fla-Flu



Matéria publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição n. 755, 12 a 18 de setembro de 2009, página 06.

Ricardo Kotscho, de 61 anos, é um nome que se confunde com a história da reportagem no Brasil, nos últimos 40 anos. Dono de um texto minucioso, mas sensível às histórias de pessoas comuns, ele é um dos repórteres mais admirados nas redações e em cursos de jornalismo. Mas faria corar muitos colegas adeptos da imparcialidade e da neutralidade na profissão. “Isso não existe.”

Para ele, declarar o próprio posicionamento não representa desequilíbrio ou jornalismo tendencioso. Kotscho defende que o repórter exponha suas crenças como atitude ética perante o público. A camisa do São Paulo que vestia durante esta entrevista, por exemplo, indica a coerência com as palavras. “Todo jornalista tem time de futebol.”

Kotscho foi secretário de Imprensa e de Comunicação do Governo Lula nos dois primeiros anos de mandato. Trabalhou em três campanhas presidenciais ao lado do atual presidente. Foi acusado de ser petista, mas também o chamaram de tucano quando entrevistou FHC anos depois de deixar o governo.

Com 45 anos de profissão, Kotscho é sempre repórter, inclusive quando está na condição de entrevistado. Gosta de enfatizar que “vive de fazer perguntas”. Com os tradicionais óculos pendurados no pescoço, ele devolve o pedido de entrevista com uma questão:

- Você é de televisão? Não? Então me acompanha porque preciso muito fumar lá fora.

A conversa ocorre na calçada, fora do Teatro Guarany, no centro de Santos. Kotscho quase acende um cigarro no outro, enquanto permanece encostado em um dos muros do teatro. Ele esteve na cidade para mediar um dos debates da Tarrafa Literária, o 1º Encontro Internacional de Escritores de Santos.



Ricardo Kotscho é um dos mais premiados jornalistas brasileiros. Venceu quatro vezes o Prêmio Esso, o mais importante do país, além do Herzog, Carlito Maia, Abramo e Troféu Especial de Imprensa da ONU. Trabalhou nos principais veículos de imprensa e escreveu 19 livros. Hoje, adapta-se à Internet, como repórter e blogueiro do portal IG (Balaio do Kotscho). Também dirige a revista Brasileiros, especializada em grandes reportagens.

Na entrevista abaixo, o repórter – como adora ser chamado - conversa sobre política, o governo Lula e as mudanças no jornalismo contemporâneo.

BOQUEIRÃO: Há um clima de polarização na imprensa brasileira. Você foi chamado de petista quando entrevistou FHC e de tucano quando entrevistou Lula. O jornalismo virou uma espécie de Flamengo e Fluminense?
KOTSCHO: O país virou um grande Fla-Flu. E o jornalismo está nesse rolo. Isso não é novo. Em 1982, na primeira eleição para governo do Estado depois da ditadura, entre Franco Montoro e Lula, trabalhei para a Folha de S.Paulo. Fui escalado para cobrir Franco Montoro (vencedor da eleição). E era pressionado pela assessoria do PT. Na época, o seu Frias (Otavio Frias de Oliveira – dono da Folha, falecido em 2007) determinou que, numa edição de domingo, todos os repórteres escrevessem em quem votariam e o porquê. Não existe jornalismo neutro. Eu sempre tive lado. A questão é o trabalho honesto do repórter.

BOQUEIRÃO: Você trabalhou para o Governo Lula. Mudou seu olhar sobre os jornalistas?
KOTSCHO: Eu via dificuldades no trabalho dos jornalistas. Muitos enfrentam dificuldades para fazer um trabalho honesto. Vários jornalistas me diziam que recebiam ordens de editores para descer a porrada no governo. Hoje, a maioria dos repórteres não tem liberdade.

BOQUEIRÃO: Depois que você saiu do governo, mudou seu olhar em relação ao presidente Lula? E as alianças políticas para garantir a tal “governabilidade”?
KOTSCHO: Acho que este governo tem resultados melhores do que o próprio Lula imaginava. A realidade mostra que é impossível governar sem alianças. Nem Jesus Cristo dá jeito nisso. Isso emperra o país. Uma vez, entrevistei o então presidente Fernando Henrique Cardoso e ele se queixou da base aliada. Perguntei porque não suspendia a aliança. Ele respondeu: - Você está maluco? Quer me derrubar!

BOQUEIRÃO: Você acredita na tese do lulismo e do petismo, como instituições políticas separadas?
KOTSCHO: O Lula sempre foi muito maior do que o PT. Acompanho este processo desde 1978, quando o Lula se tornou liderança sindical. No início, ele mesmo era contra, mas sempre teve uma relação difícil com o PT. Aliás, o partido não tem boa relação com o poder. Parece que nasceu para ser oposição. Quando trabalhei no governo, eu o acompanhei em 26 viagens ao exterior. Ele era maior do que o partido. Posso dizer isso porque sou amigo dele há 30 anos.



BOQUEIRÃO: E como o PT lida com isso?
KOTSCHO: Hoje, o PT lida bem. O partido tem características eleitorais. Virou um partido institucional-eleitoral. Hoje, brigar com o Lula é mau negócio. José Serra (governador de São Paulo) e Aécio Neves (governador de Minas Gerais) não falam mal do Lula. Quando ele decidiu que Dilma Roussef seria sua candidata, não consultou ninguém. Nem a mim! (Kotscho dá uma gargalhada entre baforadas de cigarro)

BOQUEIRÃO: Você retomou a atividade de repórter assim que deixou o governo. Hoje, dirige uma revista e virou blogueiro. Você está na profissão desde 1964. O que mudou na sua forma de trabalhar, com a Internet?
KOTSCHO: A maior diferença é o tempo. Na Internet, escrevo várias vezes por dia, todos os dias. Tenho pouco tempo para revisar o texto. Às vezes, sai truncado e com erros. Mas estou tranqüilo.

BOQUEIRÃO: De que maneira os negócios e o entretenimento interferem hoje no jornalismo? É possível confiar nos jornalistas?
KOSTCHO: A burocracia tomou conta de muitas redações. O negócio passou a ser mais importante. Às vezes, você não sabe onde começa a informação e onde terminam os negócios. As relações humanas são complicadas. O jornalismo esportivo, por exemplo, sempre padeceu disso. Hoje, apenas é mais escandaloso. Há também a promiscuidade entre jornalistas e políticos. Qual é a ética? Basta ser honesto com o leitor. Recentemente, fiz uma reportagem sobre produção de borracha no norte do país. A viagem foi paga pela Michelin (fabricante de pneus). No final do texto, estava impresso que viajei a convite da Michelin.

BOQUEIRÃO: O jornalista Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo, disse há duas semanas, quando estreou uma coluna na Internet, que o trabalho do jornalista continua o mesmo: ver, ouvir, ler e contar. A Internet mudou essa premissa?
KOTSCHO:
É perfeito. Ele foi meu mestre. A grande reportagem também está na Internet. O problema é que o espírito da Internet não permite muito essa forma de escrever. Mas temos agora muitas revistas mensais de reportagens. Há jovens repórteres muito bons.

BOQUEIRÃO: Depois de 45 anos de profissão, o que ainda te motiva a fazer uma reportagem?
KOTSCHO: Uma boa história. Eu faço do mesmo jeito. Quando viajo para dar uma palestra, aproveito e faço uma reportagem no local ou escrevo para o blog. Vivo disso. Jornalismo é contar uma história. É uma história bem contada. Só há dois tipos de jornalismo: o bom ou o ruim.

As histórias humanas



Esta semana, resolvi ler várias colunas atrasadas da jornalista Eliane Brum, que escreve na revista Época. Uma delas foi A vida muda num segundo, em que descreve a participação na cobertura do acidente com o vôo 447, da Air France, desaparecido no Oceano Atlântico.

O texto fala sobre a nossa relação com o imponderável, como o imprevisível modifica trajetórias humanas. No meio da cobertura, ela ouve de uma fonte que repórteres normalmente são seres insensíveis. E lembra que, quando trabalhava no Zero Hora, jornal de Porto Alegre, cobria tragédias porque “era competente para contar histórias humanas”.

Além da qualidade dos textos dela, normalmente suas colunas provocam em mim a reação que todos os autores esperam: reflexão. Parei para pensar sobre o nosso papel de jornalistas. Em primeiro lugar, sempre me pareceu esquisito esse termo para rotular um tipo de reportagem: “histórias humanas”. Sempre me soou redundante pela obviedade estampada em qualquer notícia. Não há matéria sem a presença do ser humano, com sua cultura, seus valores, suas contradições. Caso contrário, a atividade já estaria mecanizada, provavelmente.

È evidente também que, se um termo aparece e se propaga, algum problema temos. As redações ficaram “mecânicas” como os computadores que movem a produção. Os jornalistas, muitas vezes, acompanham as histórias com olho no relógio, para ter tempo de seguir a história seguinte. Os mesmos repórteres, em outros casos, cobrem fatos sem ter a menor ideia porque o fazem. Apenas temem que a concorrência registre os fatos. Se o público entenderá o que ocorreu ou se servirá como depositário de dúvidas do próprio jornalista, trata-se de acidentes de percurso, na visão dos óbvios.

Todas as histórias devem exigir sensibilidade de quem as acompanha. Mas estamos presos demais aos gabinetes, seguimos de maneira demasiada as “autoridades”. Seriam papagaios que se penduram no ombro para aparecer na foto? Ou gaviões destinados a cutucar o leão para arrancá-lo de sua inércia?
Somos penetras com roupas de convidados nas cortes. Pensamos que fazemos parte dela, mas nos esquecemos que somos aceitos pelo crachá que carregamos no peito. Muitos colegas entram em conflito quando perdem suas posições antes atreladas ao emprego que possuíam.

Devemos abandonar as “autoridades” e suas medidas pragmáticas e paliativas? Penso que não. Por que não focalizamos sempre os impactos das canetadas das lapelas dos que nos comandam, legítimos ou não? Seria ingênuo desconsiderar que as empresas jornalísticas hoje estão ligadas a universos empresariais onde sequer sabemos o início e o fim da lista de investimentos. É uma justificativa plausível? Talvez. Mas não explica a totalidade do problema. Ainda creio que é possível carregar as folhas nas costas e entrar despercebido no formigueiro. Muitas vezes, a rainha está demasiado preocupada com seus afazeres para observar ao movimento de certas formigas operárias.

Como justificar a insensibilidade dos jornalistas quando se trata de reportagens sobre pessoas comuns? Reconheço que este termo é discutível, pois pressupõe que famosos ou “autoridades” são especiais. Visibilidade não torna ninguém diferenciado. Mas a prática nos conduz a esse caminho. Muitos colegas entendem que os anônimos servem apenas para admirar aqueles que sorriem na mídia. Os anônimos deveriam apenas se espelhar nas referências do mundo audiovisual e sonhar em fazer parte daquele cenário de falso glamour, de valores artificiais e de obsessão por uma imagem construída.

O desprezo pelas histórias de pessoas anônimas também pode ser explicado pelo excesso de fontes oficiais no jornalismo atual. Engolimos, às vezes, explicações esdrúxulas de políticos – eleitos ou não – que minimizam um problema de infra-estrutura ou de irresponsabilidade de política pública. Cansei se assistir em telejornais locais e nacionais versões do Poder Público que nitidamente desmentem as imagens que uma reportagem acabou de exibir.



Nós, jornalistas, também escolhemos fontes pela imagem e semelhança. Ou por status! Um colega, professor de Jornalismo há mais de 30 anos, costuma dizer que a produção de notícias tende a ser preconceituosa. Como exemplo, compara os assassinatos de um médico e de pedreiro. Quem estaria na primeira página? O valor simbólico – a vida – não deveria ser o mesmo?

Ouço com freqüência uma série de razões para as pessoas não lerem mais os jornais. Os argumentos vão desde a questão mercadológica até a presença da tecnologia, passando por estética e qualidade de conteúdo. O que escuto pouco é a hipótese de que as pessoas lêem menos jornais porque não se vêem neles. Os assuntos pouco têm a ver ou interferem no cotidiano delas. Não seria uma teoria plausível? Se não ouvimos suas queixas, desejamos apenas confirmar teses que não os incluem, por que os leitores se interessariam pelo que temos a dizer?

Repórteres veteranos já me disseram inúmeras vezes, em tom de resignação ou irritados com o trabalho alheio: - Faltam histórias nos jornais!!! Pense, leitor, quando foi a última vez que uma reportagem te surpreendeu? Quando uma história fez com que você parasse para refletir sobre o conteúdo, sobre os envolvidos? Não falo da indignação momentânea e, ao mesmo tempo, passiva contra os ladrões engravatados ou o choque da violência gratuita – sem contexto – provocada pela TV e substituída na sequência pela mordida em mais um pedaço de pizza.

A questão é que o bom jornalismo costuma ser lembrado pelas histórias que segue e relata. Repórteres diferenciados ficam marcados pelo humanismo de seus relatos. E pela humanidade com que observam suas fontes, ouvem suas histórias e as absorvem. Acima de tudo, tais jornalistas se modificam a cada personagem. Como Eliane Brum e suas “histórias humanas”! Biografias que me lembram frase do jornalista Clovis Rossi, da Folha de São Paulo: o trabalho do jornalista é ouvir, ler, interpretar e contar. Por que é tão difícil fazer a lição de casa?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O narrador de Guga


Nunca o vi pessoalmente e há dois anos não ouvia falar dele. Mas, agora há pouco, soube da morte do narrador Rui Viotti, de 79 anos. Acompanho tênis há mais de duas décadas e me lembro da voz sóbria dele nas transmissões do Circuito Vat 69 Cup, dos jogos de Luiz Mattar em Itaparica, na Bahia.

Atualmente, não passo um dia sem ler o noticiário segmentado de tênis. De vez em quando, tomo coragem e enfrento os vexames com os amigos nas quadras. Em parte, a responsabilidade é dele, que defendia com fervor o desenvolvimento do tênis nacional (esporte que sempre poderia ter sido) e me deixava com vontade de apanhar a raquete e a latinha de bolas.

Em 1997, lembro-me - na redação do jornal Folha de São Paulo - quando Rui Viotti foi escalado para narrar o torneio de Roland Garros. O Aberto da França seria disputado por um catarinense revelação, número 66 do ranking mundial. A transmissão das partidas coube à extinta rede Manchete, que andava moribunda e aceitava qualquer atração na sua grade, desde que o custo fosse baixo. A audiência era proporcional.

Quando o tênis estava em plano terciário nas editorias de esporte da imprensa nacional, Viotti entrou para a galeria das testemunhas oculares de feitos históricos. O narrador transmitiu a vitória de Gustavo Kuerten sobre o espanhol Sergi Bruguera. Era o primeiro da série de três títulos de Grand Slam do maior tenista nacional.

Viotti, um tenista amador, foi pioneiro nas transmissões da modalidade na TV. Acompanhou a final de Wimbledon em 1976 pela rede Globo. Depois, trabalhou para Record e Bandeirantes, ligado à empresa de eventos Koch Tavares.

Mineiro, começou no rádio em Caxambu como locutor aos 15 anos. Passou por emissoras maiores e chegou à Globo no início da década de 70. Lá, dirigiu o departamento de Esportes, foi um dos criadores do programa Esporte Espetacular e cobriu a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.

O narrador estava internado há alguns dias, segundo o site TenisBrasil, de uma doença não-diagnosticada. Os médicos optaram pelo coma induzido. Ele não se recuperou. Viotti foi sepultado ontem, 7 de setembro, no Cemitério da Vila Alpina, em São Paulo.

Em tempos de narradores espalhafatosos, ávidos por falsas polêmicas e bajuladores de dirigentes e técnicos, Viotti rebatia contra o vento, pois primava pela informação, sem parecer enciclopédico, professoral ou arrogante. Este ano, ele narrou vários torneios de tênis, nacionais e internacionais, para o canal BandSports.

Rui Viotti, obrigado pela discrição, seriedade e respeito com que tratou os espectadores e fãs de esportes. São qualidades diferenciadas (antes, vistas como obrigação) em um momento que análises pontuais e especulações se transformaram em combustíveis do esporte como show, como negócio para enganar os que acreditam em patriotismo de boutique.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

As pílulas de Theo

O aeroporto de Cumbica, em intervalos flexíveis, recebe um filósofo interessado em romper com os referenciais brasileiros. Ou, no mínimo, provocar os teóricos “donos do saber”. Muitas vezes, involuntariamente, pois o filósofo parece mais interessado em desvendar o pensamento na vida cotidiana do que entrar em conflito com a filosofia nacional (se é que podemos rotular assim!).

Jostein Gaarder, norueguês autor de O Mundo de Sofia, vendeu milhares de livros no Brasil. Perdeu o fôlego como best-seller por aqui, mas conduziu a filosofia a públicos vistos como inalcançáveis ou dignos de desprezo.

Ontem, conheci o alemão Theo Ross, no palco do Teatro Guarany, em Santos. Ele participou da mesa Filósofos além muros, ao lado da filósofa e integrante do programa Saia Justa (GNT) Márcia Tiburi. O encontro, mediado pela jornalista Mona Dorf, fez parte da Tarrafa Literária: 1º Encontro Internacional de Escritores.



Theo é um sujeito de cabelos brancos, olhos claros, com jeito de gringo mesmo. Carrega um violão a tiracolo, o que jamais permitiria encaixá-lo no rótulo tradicional de filósofo, aquele indivíduo com postura de nerd ou descolado ao extremo.

Sem intenção, Theo Ross coloca na parede o ensino de Filosofia no Brasil – na perspectiva das políticas públicas e do universo acadêmico. Ele entende a Filosofia como algo necessário no cotidiano das pessoas, o que inclui uma mescla entre a racionalidade e o afeto. Neste caminho, filosofar ultrapassa as amarras da História do Pensamento (leia-se como Pensamento Ocidental). Fala em amor o tempo todo. Apóia-se em Nietzsche. Justifica-se com a música, representante máxima da propagação de qualquer ideia filosófica calibrada com graus de afetividade.

Durante duas horas, Ross defendeu uma filosofia com sentimentos, sem as prisões da história do pensamento filosófico. Tentou mostrar como a música – na relação entre melodia e letra – traz consigo uma carga de pulsações, provocadoras e refletoras de sentimentos.

No canto do palco, Ross cantou e tocou – em parceria com o músico santista Marcos Canduta – três músicas, duas de Bob Dylan e outra de Van Morrison. Esta maneira de falar filosoficamente o tornou conhecido na Alemanha, seja por um programa de TV ou pela produção de documentários.

Não entenda a presença de Ross como mais um palestrante-showman. Nem tampouco o enxergue como um filosófo detentor da sabedoria. Aliás, ele afirma que não se pode entender a sabedoria em termos filosóficos. Como defini-la?



O filósofo alemão, conhecido do público brasileiro pelo livro Vitaminas Filosóficas, também nos ensina que refletir não ocorre como atos extremos, de felicidade ou de caos interior. Sugere – a título de exercício elementar - que façamos um balanço reflexivo ao final de cada dia. Isso implica, com o tempo, em expor angústias, ansiedades, perceber como os outros nos vêem, entender nos dificuldades de se relacionar com o mundo. Compartilhar o resultado deste liquidificador sempre!

Para ele, a melancolia funciona como a tradução desse caldeirão de sensações. A melancolia o conduziu à psicanálise, numa busca utópica e, portanto, infrutífera pelo entendimento. No fundo, a manutenção e o cultivo da dúvida. Sem certezas provisórias ou definitivas.

Theo Ross merece ser acompanhado de perto no Brasil. Não é daqueles escritores auto-referentes, que apenas consegue falar de seu processo produtivo. O alemão colocou a Filosofia acima da própria obra. Pelo menos, na Tarrafa Literária. Os críticos o acusam de se aproximar do universo da auto-ajuda e de transformar a Filosofia em mercadoria pop, aproveitando-se da moda em consumi-la. Retórica prevista e necessária!

O fato é que Theo Ross ressuscitou novamente o argumento de que a filosofia não pertence aos catedráticos ou aos reprodutores de conhecimento enciclopédico. A Filosofia tem que estar presente em todos os debates públicos, como pólvora para fomentar a reflexão em um mundo tão marcado pelo pensamento único, pela intolerância com o diferente, pela padronização de olhares e sentimentos.

A Filosofia, além dos muros dos intelectuais, é combustível para qualquer sujeito, disposto ao visitar um encontro de escritores ou a simplesmente pensar como foi o dia.

sábado, 5 de setembro de 2009

Carta ao Belchior (o direito de sumir!!!)



OBSERVAÇÃO: O TEXTO ABAIXO FOI ESCRITO TRÊS DIAS ANTES DE BELCHIOR TER SIDO ENCONTRADO, NUMA POUSADA NO URUGUAI. MAS ISSO POUCO IMPORTA!

Caro Belchior,

Não tenho a menor pista de onde você está. Talvez isto sirva para te tranqüilizar, diante da busca frenética por você. Parece mais farra do que força-tarefa de filme hollywoodiano, mas o blábláblá pode ajudar a te achar. Se estiver numa situação complicada, não posso fazer algo além desta carta.

O noticiário indica que você desapareceu há quatro meses. Para mim, o sumiço dura alguns anos. Na verdade, tenho que confessar que nunca me interessei por você. Respeito sua obra, seu trabalho, mas apenas prestei atenção à música “Como nossos pais”, na voz de Elis Regina, que a tornou um clássico. Peço perdão pela minha ignorância, pois sei que Elis gravou mais de dez músicas de sua autoria e seus discos mostram como é eclético.

Não estou aqui para te bajular. Nem lamber a sua biografia. Pareceria obituário e não é o caso! Resolvi escrever porque penso que você foi desrespeitado. Você tem o direito de sumir!!! E mais: quem tem o direito de te procurar? Você – infelizmente – se transformou à revelia em mais uma polêmica descompromissada e vazia da semana. Isso implica em especular sobre sua vida, seus motivos, suas angústias, suas ansiedades, seus relacionamentos.

O circo que te colocou no centro do picadeiro seguirá a uma estação mais distante. Quebrará limites éticos. Vasculhará a sua moral e te julgará sem misericórdia. A partir das especulações, Belchior, muita gente tem escrito sobre as conseqüências dos seus atos. É isso mesmo: elas não têm a menor ideia de onde você se encontra, mas se dão o direito de refletir e propagar pelo megafone o que poderá (ou poderia) acontecer contigo.

Na história que você se envolveu, o objetivo é escarafunchar sua estrada e seus pontos de parada. Dizem que você não fala com a família desde 2007. Bom ... é um direito seu, mas sua ex-mulher e sua filha (mesmo em Londres) são pressionadas para dar uma palavra a respeito, qualquer uma para vender jornal.

Há até campanhas para te localizar, previsível dentro dos exageros do mundo atual. No Orkut, espero que nunca tenha ouvido falar, há três comunidades que brincam com seu paradeiro. Um jornal de Pernambuco ofereceu engradado de cerveja para o sujeito que te achar. O prêmio é tentador, mas pobre demais para sua importância. Não deixe que alguém se venda por tão pouco!

Adepta do humor negro, uma amiga brincou que talvez você deseje uma morte com glamour. Ou o desaparecimento que dê uma nova dimensão para sua obra. Medidas extremas o levariam a um novo patamar na história da música brasileira? Por favor, entenda como teorias derivadas da especulação inicial. Você já foi comparado até ao Michael Jackson, ainda não enterrado porque teria forjado a própria morte. A comparação pode ser ou não ofensiva. Sempre depende do ângulo de análise, não é?

E, se você pensa assim, acredita nesta possibilidade de sucesso por via torta, lamento dizer que será mais uma vítima do espetáculo. Caso esteja decidido, umas dicas óbvias: melhor reaparecer em um hotel cinco estrelas, organizar uma entrevista coletiva, assumir que sumiu pelo marketing, pela necessidade de voltar aos holofotes. Ar de vítima também ajuda! Os jornalistas engolem essa postura e se identificam com os dramas.




O que posso te garantir é que você estará na capa de revistas de celebridades na semana seguinte, frequentará programas de auditório, será convidado a chorar diante de apresentadores de TV no domingo à tarde após ouvir depoimentos melosos de amigos e familiares, inclusive pessoas que te odeiam ou que te levem a ter o mesmo sentimento por elas.

Prepare-se para sentar na cadeira da hipocrisia. Durante uma ou duas semanas, todos falarão em você. Mas, Belchior, entenda uma coisa: voltou, o relógio do prazo de validade começa a contar o tempo da sua morte. Tempo para a vida anônima, comum, como a que você levava. Poderá ser a retomada da paz ou do tormento, depende de como lida com a ausência dos palcos, dos shows, da mídia.

Prefiro não crer nesta hipótese. Acredito que você teve a coragem que falta a muitas pessoas que falam agora de ti. Sumiu por vontade própria, deixou tudo para trás, seguiu o desejo de mudar a rotina, o círculo de amizades sem avisar ninguém. Não me interessa saber se o que provocou isso foram dívidas, mulheres ou outros vícios. Respeito suas razões e me recuso a entrar nestes detalhes.

Mesmo admirando sua atitude, entenda que o que fez não é raro nem incomum. Boa parte das pessoas que desaparecem, segundo a polícia, o faz por vontade própria. Sabe aquela história do sujeito que saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou? Está cheio de fumante por aí com o passado coberto pela fumaça.

No fundo, desejo que você jamais leia esta carta. Ignore o noticiário. Não leia as baboseiras dos entendidos da vida privada alheia. Fique escondido com o modo que escolheu para conduzir o dia-a-dia fantasma de um comum. Você já provou o aperitivo de como é interessante ser esquecido, às vezes. Não sei se entendeu assim. Pode ser doloroso para quem fez sucesso.

Lembre-se sempre: é direito legítimo desaparecer!!! Crime é sentir-se o tempo todo vigiado por pessoas e seus equipamentos eletrônicos. E crime hediondo é reclamar dos vigilantes.