sexta-feira, 31 de julho de 2009

Michael, os índios e o mendigo na Paulista

Dormia o sono dos deuses, daqueles mais profundos, alheio ao sons desconfortáveis dos que visitam sua casa ao ar livre. Repousava na cama dos desprezados. De concreto, à luz da tarde paulistana. O sono marginal numa tarde de domingo, numa calçada da Avenida Paulista, o mantinha invisível, incomunicável, imperturbável para os que passam e nunca lhe dirigem palavra. O homem de 40 anos – sem nome ou história para os outros – é a mancha na paisagem, banalizada no cotidiano de pressa, buzinas e stress.

No domingo à tarde, ele continuou invisível. A mudança na paisagem se deu a um metro do corpo esticado, descalço, ao lado de um latão de lixo. A maioria da platéia ali presente permanecia cega em relação a ele. Poucos abaixavam a cabeça e apenas confirmavam a rotina daquela natureza morta. O lamento ou a misericórdia em silêncio!

Sobre o latão, a diferença no cenário. Corpo jovem, de cabelos coloridos e roupas chamativas. O contraste para exatamente atrair os olhares, com a pose de quem finge não se importar. O rapaz dançava como se a Avenida Paulista fosse sua casa noturna. Os outros que assumissem o papel de coadjuvante para lotar a boate.

Mas havia concorrência. Garotos um pouco mais velhos, de 20 anos, corriam pela faixa de pedestres. Ocupavam o corredor de ônibus. Nas mãos, posters do recém-falecido. No peito, coberto por camisetas pretas, a foto de Michael Jackson, em vários tons e momentos da carreira.

Outros expeliam seu amor, perplexidade e luto (ou admiração, talvez tudo junto!) no figurino completo. Buscavam ser a imagem do sósia perfeito. Dançavam para os motoristas quando o semáforo ganhava a cor envergonhada. Na Paulista, prevalece muitas vezes a timidez e o temor de não olhar para os lados. Naquele minuto com o carro parado, tornou-se impossível para qualquer motorista ignorar o gingado de quem treinou por meses para se aproximar da obra do ídolo.

Um dos clones atingiu o máximo de sua criação. Impedido de dançar pelo assédio de turistas – brasileiros e estrangeiros -, o garoto distribuía autógrafos como se ressuscitasse o artista que amava. Sorria como um frankstein consciente de que tomava o lugar de seu criador.

Mesmo frenéticos, estes personagens não significavam o foco dos holofotes para quem desfilava na avenida. O que as paralisava era o grupo de 20 pessoas que, em roda, vivia a catarse coletiva de um certo ritual de morte. Todos, fantasiados ou não, de idade variadas, dançavam e cantavam músicas de Michael Jackson, muitos com as mãos para o alto, de olhos fechados, com feições de choro.

O culto desta religião instântanea envolvia exorcismos no meio da roda, no qual se expulsava demônios pelo swing, pelos soluços e pelo som dos sucessos repetidos no auge e nos escandâlos da carreira do ídolo. A cerimônia era realimentada por caixas acústicas e microfones, abertos a todos e alugados a R$ 300 de um grupos de índios equatorianos.

Ao contrário do velório de corpo presente (?) na TV, o ritual da avenida Paulista não foi organizado – apenas propagado pela Internet - nem seguiu programação milimetricamente pré-definida. O improviso deste micro-universo, numa esquina movimentada de São Paulo, abria mão de identidades e importância social. Apenas desejava a experiência coletiva.

Aquela esquina da Avenida Paulista esvaziou em uma hora. No ar, canções andinas, dos tais índios equatorianos, com trajes típicos e dispostos a vender cds e dvds de suas criações. Sem glamour ou fama. Ao lado deles, o mendigo permanecia invísivel à troca cultural, retido no próprio sono da tarde de domingo.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O doutor esquizofrenia




Perdi o hábito de assistir às novelas. Duvido que tive algum dia, se considerarmos que meia dúzia de histórias acompanhadas com afinco são insuficientes para garantir o título de fã. As histórias são normalmente redundantes, parecidas. Confirmam a máxima que minha avó repetia, no alto da sabedoria popular.

- Basta ver o primeiro e o último capítulos que você entende tudo!

Já tentei assistir a alguns trechos de “Caminhos das Índias”, a novela do antigo horário das oito (termo de todos as avós). Não vou me justificar com argumentos do tipo “estava passando pela sala” ou “quando mudava de canal”. O jeito concentrado derivou da impressão de que brasileiros vestidos de indianos soariam um tanto caricatos, além da irritação causada pelas expressões do idioma hindu que começam a aparecer nos elevadores, ônibus, botecos, padarias e demais locais onde se joga conversa fora, sem precisar saber o nome do nosso companheiro de papo.

Mais do que minhas teses confirmadas, dois personagens me interessaram pela ligação entre ambos e, principalmente, pela temática que os move: doutor Castanho, interpretado por Stenio Garcia, de 76 anos, e um de seus pacientes, Tarso, vivido por Bruno Gagliasso, quase meio século mais jovem.

As novelas brasileiras, às vezes, são eficientes, dentro das limitações da ficção, em abordar temas que o jornalismo o faz de maneira enviesada ou superficial e outras linguagens de entretenimento, afundadas no preconceito. É claro que as novelas também reforçam estigmas e distorcem valores culturais. É o caso do próprio núcleo indiano, com seus cacoetes, vícios e superficialidade narrativos. Mas pode se redimir, pelo menos em personagens coadjuvantes.

Doutor Castanho, psiquiatra fora dos padrões, ilumina o debate sobre os programas de saúde mental no Brasil. Em entrevista recente ao portal Uol, Stenio Garcia explicou que a composição do doutor Castanho foi influenciada pelo método da médica Nise da Silveira, que utilizava arte para que os pacientes pudessem expressar seus medos, desejos, sonhos, com mudanças eficazes no comportamento deles. O ator frequentou o Instituto que leva o nome dela, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, além de conversar com médicos, assistir a uma dúzia de filmes e ler seis livros sobre loucura.

A relação de Stenio com outros personagens, tanto do núcleo pobre como dos endinheirados da trama, é uma tentativa de reduzir a imagem em torno dos pacientes psiquiátricos no Brasil. Hoje, ainda prevalece o carimbo de que são loucos, e por isso, devem ser despejados em depósitos humanos o mais longe possível. O filme “O Bicho de Sete Cabeças”, com Rodrigo Santoro, nunca foi tão contemporâneo.

Doutor Castanho não enxerga seus pacientes como cobaias de laboratório ou como escoadouros de medicamentos. Gente que precisaria de “sossega leão” para não incomodar. Castanho os humaniza, busca inserí-los socialmente, dentro e fora da clínica onde atende. Ele simboliza um grupo que percebe o tratamento psiquiátrico como uma extensão da rotina de alguém que não se encaixa à revelia de si mesmo. Alguém que necessita de apoio, não somente médico, mas de pessoas próximas, de sua confiança, para amenizar os danos que uma doença ocasiona.



Aí entra o personagem Tarso, de Bruno Gagliasso. A interpretação dele incomoda pela qualidade e gera, simultaneamente, curiosidade. Gera certo desconforto, traduzido na linguagem corporal e na fala repetitiva, obsessiva, paranóica. Realmente é complicado para muitos acreditarem que o indivíduo alucina quando tem manifestações esquizofrênicas. Sem esta crença, a possibilidade de tratamento se reduz.

A autora da novela, Gloria Perez, têm o mérito de evitar certos rótulos sobre a esquizofrenia e focalizar a universalidade do problema, por vezes associado a questões socio-econômicas. Persiste a ótica medieval de que louco é pobre. Rico não enlouquece, torna-se excêntrico.

A relação entre o personagem de Gagliasso e a mãe fútil (Christiane Torloni) é outro ponto da trama que pode auxiliar na modificação da imagem dos pacientes e na visão sobre a esquizofrenia. Até porque a semelhança com o núcleo pobre da novela (Sidney Santiago faz Ademir, também portador) aponta para o óbvio: a gravidade da doença (ou a existência dela) não se mede pelo que se tem na carteira. A diferença aparece nas condições de tratamento e, neste aspecto, a novela se mantém peça ficcional.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Sarney de todos



O senador José Sarney talvez sofra de dupla personalidade. Ou apenas manifesta as contradições presentes no ser humano? O comportamento do presidente do Senado incomoda gente demais para que ele possa se esconder por tanto tempo. Esconder-se em sua história ou no prestígio junto aos colegas. Esconder-se nas cortinas do poder que geram temor em comandados e adversários.

A primeira personalidade se desenha no papel de presidente do Senado, que articula os tentáculos para salvar a pele do próprio polvo. É quem sorri ao contar com o carinho do presidente da República. É o político da velha guarda – na costura profissional desde os anos 50 – que se vale de estratégias antigas e eficientes.

O segundo Sarney se valoriza pela tranqüilidade espiritual. É o homem que escreve (sem entrar no mérito!) e que mantém a pose de vítima de maldades gratuitas dos supostos inimigos. O sujeito que busca exalar generosidade em jamais deixar um parente ou amigo desamparado e serenidade de que tudo passará.




“As duas personalidades” de José Sarney compõem o último grande coronel do Nordeste. Hoje, o coronel está na alça de mira, visto como símbolo da bandidagem do Congresso Nacional e exposto como se seus deslizes fossem inéditos e os mais promíscuos de um político brasileiro.

Sarney é um símbolo da cultura nacional, que poupa e inocenta o homem público, em todas as instâncias, da podridão. Acreditar que os escorregões do presidente do Senado são capazes de nos chocar pelos negócios estranhos ou pelo encaixe de parentes ou namorado de neta (pode ser tudo, menos parente!), traz em si um resquício de cidadania, talvez pelas razões erradas.

Em qualquer Câmara Municipal, o que os eleitores mais pedem é emprego. O mesmo sujeito que reclama do inchaço da máquina, muitas vezes, move-se rapidamente para integrá-la. O cinismo de ignorar políticas públicas só se desfaz quando a ineficiência delas o afeta diretamente. A mesma “regra” vale para os demais Poderes. A meritocracia pouco resiste ao debate, salvo os concursos públicos, o passaporte para a estabilidade eterna. Quem não conhece alguém que se aproveitou do “quem indica (QI)”?

José Sarney é a linha de frente da cultura corrupta brasileira. Reflete no espelho a postura de muitas parcelas da sociedade, que criticam as ações públicas porque não foram lembradas na hora que a torneira do dinheiro se abre. Se puderem apertar as tetas da mamãe, as colocam na boca e calam-se imediatamente.

O presidente do Senado, aos 80 anos, não pode ser poupado pela biografia, que muitos consideram louvável. Mas, para que se altere o estado de coisas, deve-se chegar no nível dos valores culturais enraizados, cujas origens não se encontram no Maranhão, no Amapá ou no Congresso Nacional, mas no cotidiano dos que acreditam ser o toma-lá-dá-cá a saída para se dar bem.

José Sarney não provoca somente queixas dos indignados. Ele incomoda os hipócritas, obcecados por empurrá-lo para debaixo do tapete ou para a obscuridade política no norte do país. Os hipócritas o fazem com consciência, pois apenas substituirão a erva daninha, torcendo para que a próxima cheire melhor ou não provoque urticária. E, principalmente, não os exponha no dia-a-dia.

Quando a lei só vale aos outros, os cínicos se misturam aos indignados. Assim, o tabuleiro de xadrez mantém o ritmo do jogo para prevalecer o empate. Rotina garantida.

domingo, 26 de julho de 2009

A bicicletada




A Cadeia Velha, na sexta-feira, dia 31, carregará nas costas – involuntariamente – dois símbolos. O lugar, referência histórico-cultural, servirá de ponto de encontro para pessoas adeptas da cultura da bicicleta. A bicicletada, o nome do protesto, sai às 18 horas do Centro de Santos, bem na hora do rush. Você não percebeu que Santos agora cultiva congestionamento e períodos em que é melhor deixar o carro na garagem?

Os ciclistas pretendem expor, mensalmente, a insatisfação contra outra prisão, em formato de caixa de fósforo, sobre rodas e de aquisição voluntária e financiada. A cultura do carro, típica da classe média ávida por consumo, transformou o cenário da cidade. As avenidas ficaram curtas e estreitas; os trajetos, longos. Os semáforos multiplicam-se como repressão para quem desfila o 0 Km no asfalto. O comportamento agressivo de motoristas aflorou como sintoma de uma doença urbana. Muitos se transformam em um simples trajeto de 15 minutos.

Espremidos no conflito e na beira da calçada, os ciclistas, vistos como obstáculos para um trânsito apressado, por vezes sem necessidade de chegar a lugar algum. Para os otimistas, as ciclovias, mas ainda insuficientes para transformar as principais vias do município em artérias.

Ignorar a bagunça do trânsito representa engolir um rótulo que soa irritante: Santos como sinônimo de qualidade de vida. O título é entoado como um mantra, principalmente por políticos e bajuladores circenses, e serve para justificar ou encobrir uma série de defeitos de comportamentos individuais ou de políticas públicas.




Ouvimos como argumento o fato de que Santos é plana e isso facilitaria o trânsito de bicicletas e o hábito de andar a pé. Neste ponto, começam os paradoxos. Caminhar na orla da praia, por exemplo, não significa que resolvemos problemas cotidianos a pé. Neste ponto, parecemos com moradores do interior dos Estados Unidos: o supermercado fica a duas quadras, mas vamos de carro. Desfilamos nossos automóveis para aparentar um estilo de vida. Doente, aliás, mas sem perder a pose.

A cidade, plana e com a propaganda da qualidade de vida, passa por um problema insolúvel: carros se multiplicam como coelhos. Como escreveu no mês passado o jornalista Fernando de Maria, são oito automóveis licenciados por dia em Santos. É como se parte da garagem do meu prédio (ou do seu!) tivesse que ser renovada a cada 24 horas. Aliás, basta ver como as garagens estão infestadas de financiamentos em até 60 vezes. No cenário de aparências, vale dizer que é propriedade, como se o sujeito fosse sócio da financeira.

Torna-se evidente que o carro é parte da cultura ocidental do século XX. Soma-se o fato de ser um objeto de desejo da sociedade de consumo. Muitos desejam um carro e o enxergam como degrau na escalada social. Quem tem menos, vai de moto.

Bicicletas transitam em um patamar abaixo. Coisa de eco-chato, estudante duro, geração saúde, entre outros rótulos. O meio urbano as despreza. As políticas públicas são punitivas. Onde deixar as bicicletas? E o serviço de aluguel, comum em cidades européias geograficamente parecidas? As bicicletas são singelas demais para integrar os pacotes de obras faraônicas para o sistema viário. Custam pouco e mal alteram a paisagem. Qual peso tem perto de pontes sem projeto ou trens futuristas?

Na verdade, o ciclista é um motoboy sem motor. Visto como um estorvo, deve ser isolado ou xingado pelos donos da rua, sentados em bancos confortáveis e impondo-se pelo tamanho. Na bicicletada, espera-se adesão suficiente para que os ciclistas ocupem o espaço que lhes é devido. Ou melhor, que mereceria ser dividido em prol de uma consciência coletiva.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A fita preta para a moça portuguesa

Acordei no domingo pela manhã bastante preocupado. Na verdade, sentia-me impotente, paralisado diante da doença dela. Estar apaixonado serviu apenas para aumentar minha angústia, pois sabia que o futuro daquela garota dependia de um milagre. O esforço e a disciplina dela no tratamento contariam muito, mas insuficientes diante de um mal prolongado.

Não desejava parecer pessimista. Acreditava que entrar em coma induzido atenuaria uma morte evidente. Não era exercício de morbidez, mas a doença sinalizava como terminal. Não precisava ser especialista para notar que o tumor se alastrava por várias partes do organismo. Uma dor prolongada, detectada em 2006, quando a moça deixou de freqüentar as rodinhas de elite; fato do qual jamais se recuperou.

A decisão médica dependia da dose extra do remédio. Foram duas vitórias nas duas semanas anteriores, o que alimentava a esperança. A aplicação desta vez seria em casa, entre a Santa Casa de Santos, fundada por um português, e a Beneficência Portuguesa, tradicional representante da colônia. Nada mais sugestivo.

O futuro da moça portuguesa não era apenas uma questão do medicamento a ser ministrado. As sucessivas vitórias não significavam uma alteração no quadro. Ela dependia de um parecer de Catanduva. Pode? Um resultado vindo de Catanduva, cidade onde meu amor não punha os pés há anos, seria como tiro na cabeça. De qualquer jeito, ela vai viajar para lá, mas a jornada poderia ser inútil. Agora sei que não servirá para coisa alguma. Apenas um destino protocolar, cristalizado no último domingo.

Minha história com a moça portuguesa começou em 1987, quando tinha 13 anos. Os menos avisados podem achar que ter avós portugueses me aproximou dela. Nunca me lembrei deles quando estávamos perto um do outro. Fui trabalhar como voluntário – pela idade, não poderia ser contratado nem receber salário – na casa da família.

Fiquei por três anos e meio. Jamais faltava e cumpria uma rotina espartana três, quatro vezes por semana. Era o primeiro a entrar e o último a sair. Cheguei a trabalhar com alergia pelo corpo todo depois de ser cair exausto em cima de um formigueiro após uma tarde de excesso de calor. Isso sem contar as viagens nos finais de semana para outras cidades do litoral e interior.

Quando a família me mandou embora, aos 16 anos, tive a maior decepção da adolescência. O tempo mostrou que eles tinham razão. Eu não servia a longo prazo. A saída também realimentou – num certo tom masoquista – o amor que sentia pela moça.

Em 2001, nós nos reencontramos na casa dela. Seu Ulrico Mursa pulou de alegria naquela tarde, também de domingo. A moça estava linda. Atrapalhava-se um pouco, mas dançou o suficiente no carpete verde (com alguns buracos para os inimigos tropeçarem) para ser aceita depois de mais de 20 anos na elite do Estado.

Dois anos depois, a portuguesinha surpreendeu a todos e foi convidada – por méritos próprios – a mostrar sua arte em São Paulo, para a elite do Morumbi. Ainda não estava pronta para concorrer com as grandes modelos, mas ficou entre as quatro melhores do Estado. O resultado rendeu prestígio, dinheiro, algum poder. Apareceu até na TV!

Meu saudosismo é inútil. A casa exala decadência, administrada por um padrasto fraco. Os funcionários – com exceção do último, que conhece o endereço como poucos – eram aventureiros. Reduziram o patrimônio a paredes de concreto gasto.
Eu ainda amo aquela moça. Fisicamente idosa, humilhada na vizinhança, exposta a uma doença quase incurável. Quem ama, tem esperança. Dói como agulhas nos olhos pensar que a Portuguesa Santista estará na terceira divisão do Campeonato Paulista.

Esta moça em coma induzido me obriga a chorar ao lado da cama de hospital. Cheiramos a morte, mas a enxotamos com amor. Sentimos o ar carregado pelo suor de uma moribunda, mas o combatemos com esperança.

Hoje, não nego mais a fraqueza dela. Ponho a fita preta no braço, não para antecipar o fim, mas como luto pelo capítulo manchado de vergonha. A hora é de expurgar os tumores, costurar os pontos de sangue e deixar a moça portuguesa pulsante – bela ou não – como aquela por quem me apaixonei.