sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O candidato ecológico

Depois de receber mais uma encomenda, a revelia, de 30 mil “santinhos”, o candidato lamentava:

- Mais outro pacote? O que vou fazer com isso? As pessoas detestam “santinhos”. E ainda suja a rua!

Alguns segundos depois, sorrindo, chegava à solução:

- Vou mandar para a reciclagem. “Santinho”, no meu caso, não funciona mesmo!

As ruas da cidade já acumulam, nas sarjetas e nas calçadas, pilhas de papéis, de formato e visual gráfico parecidos, com fotos de sujeitos de ar amável, seus números abaixo e o nome da coligação. O “santinho” não revela distinção de gênero, classe social, ideologia ou poder econômico do candidato. É a fórmula universal para – oficialmente – reforçar a memória de um eleitor 45 dias antes do voto, mesmo sabendo que a maioria escolhe seu representante às vésperas de 5 de outubro.

A ironia da poluição é que o meio ambiente se transformou em um dos xodós dos candidatos, fato visível nas propostas de oportunidade e nos projetos mirabolantes desta campanha eleitoral. Dois anos atrás, nenhum dos candidatos a presidente, por exemplo, colocou o assunto em sua vitrine de idéias. O meio ambiente não apareceu entre os cinco temas mais abordados entre os presidenciáveis.

No entanto, aconteceram naquele ano dois fenômenos que conectaram definitivamente o ambientalismo à agenda pública, seja para distorcer o tema, relacionando-o exclusivamente a plantinhas e bichinhos, seja para fortalecer a imagem de políticos e empresas. O primeiro deles foi a visibilidade do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore e seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, vencedor do Oscar da categoria. Ele retornou ao circuito da política internacional, o filme atraiu os olhos de formadores de opinião e consumidores de classe média e pesquisas científicas sobre o aquecimento global integraram o cotidiano da mídia, nas mais diversas abordagens.

O segundo fenômeno foi, no caso do Brasil, o recorde no número de empresas que implantaram programas de responsabilidade social na área de meio ambiente. Aqui não vale discutir se tais propostas são formas de compor a imagem da empresa ou se há resultados efetivos.

A conseqüência direta é que o ideário de preservação – mesmo o comportamento de boutique – provocou mudanças de hábitos e preocupações anteriormente desprezadas por parcelas de consumidores. Houve relativo esvaziamento da retórica de que preservar é sinônimo de freio ao progresso econômico.

Os políticos – ou seus “marketeiros” – notaram que poderiam falar do assunto de forma genérica, assim como fazem com educação, saúde, cultura e assim por diante. Na prática, o que se vê são propostas de desenvolvimento – presentes nas promessas do “milagre da multiplicação dos empregos” – seguidas da ressalva: sem prejudicar o meio ambiente.

Explicar como transformar especulação em fato é outra história que, nesta ótica eleitoreira, não merece menção. Neste sentido, pipocam termos como sustentabilidade e reciclagem, distantes da perspectiva de planejamento urbano ou de formas de reaproveitamento de resíduos para fomento de atividades sócio-econômicas.

Em Santos, até o Partido Verde – pelo que se vê no horário eleitoral gratuito – perdeu o discurso sincronizado entre os candidatos. Como a sigla atraiu uma série de personalidades políticas – inclusive com histórico de associar ambientalismo à guerrilha anti-progresso -, poucos candidatos ainda tentam debater a questão da preservação e do desenvolvimento planejado. Perdem-se na multidão e nos 15 segundos da TV e do rádio.

Se o eleitor duvida da retórica dos candidatos e dos projetos ambientais para qualquer cidade, recomendam-se dois testes. O primeiro é verificar se o município possui Secretaria de Meio Ambiente. Em caso positivo, confira o tamanho do orçamento (surpresa se não for limitado; basta olhar para o Ministério do governo Lula, símbolo da regra geral) e quais foram os projetos capitaneados pela pasta. Em muitos casos, verá um bibelô sem poder de interferência política.

O segundo teste é avaliar como o candidato se comporta na feira livre, tradicional reduto de visitantes esporádicos a cada quatro anos, sorridentes, dispostos a distribuir beijos, abraços e apertos de mãos. Se não conseguiu ver os estranhos no ninho, utilize os “santinhos” como referência. O asfalto é o limite do papel. Candidatos na feira são capítulo à parte do universo eleitoral, assunto digno de uma reflexão específica.

sábado, 23 de agosto de 2008

O olho punitivo

Taxistas podem ter a fama de pilotos frustrados, mas conhecem os atalhos da malha viária e avaliam com sabedoria os humores do trânsito da cidade. Não dirigem como religiosos castos. Poucos costumam reconhecer os próprios pecados ao volante. Por isso, talvez crucifiquem – com certeza dogmática - os radares como o mal desnecessário na vida dos motoristas.

A dor no bolso em forma de multa, dependendo do caso, pode parecer conflito de interesses, porém cheira a argumento insuficiente para desvalorizar a tese de que os equipamentos não traduzem a retórica de educação no trânsito.

- É o monstro do olho eletrônico!, cravou um taxista esta semana, na avenida Afonso Pena, depois de passar – dentro do limite de velocidade – pelo radar próximo ao Pronto-Socorro.
A implantação de mais dois radares, em Santos, denota com clareza a proposta de política pública para o tráfego da cidade. O controle de velocidade por intermédio de vigilância eletrônica – 20 radares, no total - representa a aplicação do caráter exclusivamente punitivo no tráfego de veículos, ainda mais desconectado de outras decisões para conter as tentações dos pilotos amadores.

A impressão é que o Estado abdicou da necessidade de ações de prevenção e, sobretudo, de educação para o trânsito. Encontrar um agente da Companhia de Engenharia de Tráfego durante os horários de pico é fato raro, principalmente na função de orientar os motoristas. A imagem dos “amarelinhos” consiste no sujeito com talão e caneta nas mãos e a ânsia de aplicar multas. A ausência deles nas ruas reforça a hipótese de agente repressor. Basta perguntar aos motoristas e motociclistas!

É claro que punições pesadas aumentam as chances de alteração de comportamento, como o uso de cinto de segurança, mas isso não significa mudança por respeito ao outro ou à coletividade, e sim pelo temor de prejuízo individual. O fluxo de veículos cresceu de maneira significativa nos últimos anos, enquanto a malha viária permaneceu congelada. Surgiram novos hábitos como dificuldades para estacionar e sair mais cedo de casa para chegar ao trabalho, antes “privilégios” dos vizinhos paulistanos.

O planejamento do tráfego fechou os olhos para a individualização em detrimento da ação coletiva. Percebe-se, em quaisquer períodos, a circulação de carros com somente um ocupante. Campanhas esporádicas, como o Mutirão da Carona, soam hipócritas e inofensivas diante dos próprios resultados inócuos.

Ao contrário do Porto de Santos, que elevou o uso da malha ferroviária, a cidade é refém dos pneus. Trem de passageiros simboliza artigo do século passado, ao passo que as estações viraram ruínas em toda a região dita metropolitana. Em cidades européias, onde problemas de tráfego foram amenizados, o papel do transporte coletivo é crucial. Com qualidade, este serviço público serve como alternativa efetiva para que o cidadão opte por deixar o carro em casa. As queixas mais comuns – e é suficiente permanecer alguns minutos em pontos de ônibus para ouvi-las – dizem respeito ao preço desproporcional à distância percorrida, tempo de espera e atendimento nos coletivos.

Santos apresenta como vantagem ter a maior parte da área plana, uma facilidade para o uso de bicicletas. A Prefeitura cobriu parte da cidade com ciclovias, porém faltam estacionamentos públicos. A exceção são parques como o Jardim Botânico. Para uma cidade que vende a imagem de qualidade de vida, a estrutura para quem escolhe por transporte alternativo se mostra incompleta.

Criar mecanismos para domesticar motoristas pode representar, em termos estatísticos, a redução de acidentes graves, enquanto engorda o caixa com o resultado da política punitiva. Infelizmente, a medida é incapaz de alterar a postura anônima de pilotos e de outros sujeitos motorizados nesta pista informal de automobilismo. Prevalece a lógica individualista de alcançar o destino o mais rápido possível, a golpes de buzina, com a garantia de manter-se cinicamente sereno diante da vigilância eletrônica.

sábado, 16 de agosto de 2008

"Vou estar transferindo sua ligação"

Uma amiga chegou ao trabalho espumando, quase descontrolada. Perguntar tudo bem é, nestas horas, o estopim para uma resposta atravessada ou um desabafo. O aborrecimento foi causado por três horas de sucessivos telefonemas e várias transmissões de dados pessoais para uma voz metálica, que repetia um discurso de transferência para outra voz sem vida. Esta amiga queria apenas mudar o plano de pagamento do telefone dela. Não conseguiu! Nervosa, tentou cancelar a linha. Novo fracasso!

Insatisfeito com o serviço de telefonia celular ou indignado por ter recebido um cartão de crédito a revelia, qual o sujeito que nunca se irritou ao procurar os Serviços de Atendimento ao Consumidor (SACs)? O que deveria ser um mecanismo de aproximação com o cliente se transformou numa estratégia para evitar a exposição da empresa e dificultar o acesso do consumidor aos canais de comunicação do serviço contratado.

A decisão do Governo Federal de implantar regras mais rígidas para os calls centers (ou serviços de atendimento ao consumidor) expõe dois aspectos do mundo corporativo: a relação entre empresas e clientes e a relação entre empresas e funcionários. A partir de dezembro, os SACs tem que atender o cliente em até dois minutos, além de disponibilizarem uma tecla de cancelamento imediato do serviço.

Há duas semanas, um repórter do jornal Folha de S.Paulo experimentou cancelar os serviços de telefonia celular e TV a cabo. Em uma das empresas, esperou 57 minutos para que atingisse o resultado desejado.

As relações entre empresas e clientes evoluem lentamente no Brasil. O Código de Defesa do Consumidor surgiu apenas no início da década passada. Mesmo assim, o número de queixas é considerado excessivamente alto pelos próprios Procons e outras entidades semelhantes.

Os SACs entraram no pacote de composição da boa imagem das companhias perante o público. O fundamental é parecer eficiente e, em muitos casos, tal postura se mostra perceptível no momento da venda do produto. A impressão indica que o papel da empresa terminou assim que o negócio inicial foi fechado. Posteriormente, a responsabilidade crucial dela consistiria em impedir que o cliente debande para a concorrência, sem ter criado soluções para mantê-lo satisfeito, seja da perspectiva monetária, seja do ponto de vista de atendimento.

O outro aspecto envolve a desumanização da mão-de-obra que atua neste segmento. Os funcionários são treinados para abdicarem da criatividade, da pessoalidade no contato com o cliente, sintomas que auxiliam no entendimento da tese de que o objetivo é eliminar a comunicação com o público. Representa uma variável perversa e promíscua do uso da tecnologia, na qual o sujeito se torna extensão orgânica da própria máquina que opera. Ou seja: como se não houvesse diferença entre uma gravação e um indivíduo que fala como se fosse um robô.

Esta relação de trabalho, infelizmente, não é exclusividade dos serviços de atendimento do consumidor. Muitas redes de franquias, especialmente no ramo da alimentação, treinam funcionários de maneira semelhante. A proposta é quebrar metas sucessivamente e manter o mínimo diálogo com aquele que fez um pedido. Aliás, o pedido também é fruto de uma estrutura organizacional que restringe as escolhas do consumidor em prol da mecanização da compra e venda. Significa oferecer ao comprador valores simbólicos, como velocidade, sem que ele note que assinou um pacto no qual a empresa ganha em imagem e em faturamento. É a mesma velocidade prometida no contato inicial com os call centers.

A pergunta óbvia sobre as novas regras para os SACs – quem fiscaliza? – não tem resposta fácil. O consumidor que ficar com as orelhas vermelhas pode seguir dois caminhos: procurar o Procon ou efetuar uma denúncia ao Ministério Público. O decreto prevê multa de R$ 320 a R$ 4,8 milhões. De acordo com as regras, a ironia: quando você quiser cancelar um serviço, a empresa terá que CANCELÁ-LO. Ou será um trote?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Renascidas para morrer

A inclusão na grade curricular das disciplinas Filosofia e Sociologia indica novamente como é explosiva a combinação entre política e educação. Isso significa, em tese, uma reação diante de críticas negativas sobre os rumos do sistema educacional, ao mesmo tempo em que não se vê compromisso com os efeitos práticos sobre o cotidiano de escolas, professores e alunos.

A escola atual é desinteressante. Poucas disciplinas atraem a atenção dos estudantes, tampouco os fazem refletir sobre o mundo em que vivem. Normalmente, os alunos estão expostos a uma quantidade brutal e, muitas vezes, inútil de conteúdos, sentindo-se obrigados a decorar fórmulas, memorizar conceitos e equações, absolutamente desconectados entre si.

Em princípio, as disciplinas Filosofia e Sociologia, que retornam ao currículo escolar, poderiam fazer o papel de aguçar o pensamento crítico do alunado. No entanto, a proposta esbarra em uma série de obstáculos que pouco importou para os parlamentares no momento em que aprovaram a legislação. Os políticos têm a obrigação de analisar as conseqüências dos atos que praticam e, acima de tudo, dialogar com a sociedade sobre as leis que votam no Congresso Nacional.

O retorno da Filosofia e da Sociologia às escolas é mais um sintoma de como se enxerga a educação brasileira. Os gestores (palavra da moda!) apagam sucessivos incêndios sem uma política de longo prazo, baseada em planejamento e respeito à diversidade cultural nacional. Quando as críticas de tornam contundentes, a reação é inchar o número de disciplinas nas unidades escolares, visando transmitir a ilusória sensação de um currículo rico e dinâmico.

Na prática, não é o número de disciplinas que eleva as chances de sucesso no aprendizado, e sim as formas como as matérias dialogam entre si. Termos como interdisciplinaridade e eixos temáticos precisam ser adotados como ações cotidianas. Normalmente, as matérias não “conversam” umas com as outras, o que implica em conteúdos repetitivos ou isolados do contexto contemporâneo.

Como os professores serão preparados para dar as “novas velhas” disciplinas? A capacitação dos docentes é fundamental não só pela natureza reflexiva de Filosofia e Sociologia, mas pelo caráter ideológico que permeia os conteúdos. A escolha ideológica será explícita? Com base em quais critérios? Até o momento, as políticas educacionais simplesmente ignoram a perspectiva ideológica como se o impacto desta abordagem no ensino não gerasse conseqüências sobre a mentalidade dos alunos.

Fora estes fatores, Filosofia e Sociologia ressuscitaram mortas na grade curricular. Ambas entrarão no rol das matérias “malditas”, isto é, aquelas que – no dia-a-dia – não reprovam, não exigem maior dedicação e que serão dadas nos horários mais ingratos. Se as equipes pedagógicas, aliadas aos professores das outras disciplinas, não se dispuserem ao diálogo, os docentes de Filosofia e Sociologia literalmente pregarão no deserto de uma sala de aula.

Mas os políticos insistem nas fórmulas demagógicas. Os parlamentares ameaçam prosseguir na cruzada de entupir o cotidiano escolar com novas disciplinas. O Congresso analisa, em âmbito das comissões, o projeto de lei que ressuscita a disciplina Psicologia nas escolas brasileiras. Novamente, o debate não existe. Onde encaixar mais uma matéria no universo de um aluno adolescente?

sábado, 2 de agosto de 2008

O jardim de João

Texto publicado na seção Campo Neutro, no jornal Boqueirão, n.698, de 2 a 8 de agosto de 2008 - página 2.

João passou quase metade da vida, cerca de 23 anos, entre árvores, pássaros, peixes e lagos. Embora seja um trabalho, o cotidiano dele é o sonho de consumo de muitas pessoas. São mais de oito horas diárias em meio ao ar purificado do Jardim Botânico de Santos.

A generosidade e a espontaneidade fazem com que ele não se dê conta disso. Valoriza o ambiente em que trabalha, mas o vê como algo natural na relação do homem com o mundo ao redor. Ele fala de árvores com conhecimento de causa, sem a pose ou a arrogância daqueles que associam o saber ao poder.

João não tem poder algum. Nunca exerceu um cargo de chefia. É um executor de tarefas, mas não entende esta posição como um obstáculo para si mesmo. Sente-se satisfeito onde está, sem maiores aspirações. Despreza o carreirismo com a própria simplicidade de quem não conhece esta palavra. Seu conhecimento é pragmático, obtido no contato com plantas e bichos. Explica, por minutos, quais os benefícios de uma semente. Discorre com alegria sobre outra que, se cozida com sal, fica deliciosa.

- Se você comer uma vez, não vai conseguir parar.

João é fácil de ser visto, mas poucos o encontram. Entre as centenas de caminhantes e corredores que lotam as alamedas do Jardim Botânico no início da manhã e no final de tarde, incomuns são os que notam aquele homem de boné, no qual mal se enxerga o logotipo da marca há tempos fora do mercado. O paletó acima do tamanho e largo nas pontas das mangas também não destoa diante do cenário de invisibilidade e do calor de 30 graus. O rabo de cavalo, escondido no boné durante o dia, complementa o cavanhaque cultivado há mais de mês.

Conversar sobre política o aproxima de qualquer visitante. João não pergunta por nomes ou partidos (leia-se o político de preferência) e conta que sobreviveu a cinco prefeitos. Tem opinião formada sobre todos, baseada essencialmente no contato humano ou na invisibilidade proporcionada pelos administradores públicos que, de vez em quando, lembram-se do meio ambiente ou de ouvir a experiência de um funcionário que não ocupa cargo de confiança.

O que o ignorou não merece mais do que um minuto de prosa. O ex-prefeito que tomou café com ele e ouviu seu desabafo, suas dificuldades profissionais, ganhou admiração posterior ao término do mandato. O abraço eternizado em fotografia é o troféu que simboliza a gratidão por alguém que provavelmente não se lembra mais dele e do momento em que se encontraram.

Durante uma exposição sobre meio ambiente no Jardim Botânico em julho, João conseguiu – em um único dia – atrair 200 pessoas para o evento. A conversa era inaudível para quem o assistia convencer os caminhantes e corredores. Em três frases, fazia com o que visitante parasse, mudasse a rota para o galpão de exposição e o agradecesse, após dez minutos, pelo passeio cultural.

De boné, paletó e sapatos da lida diária, sem pompa ou vocabulário empolado, ele alterou o cotidiano do parque que respira pelo nome das sementes e das árvores. Ironicamente, João acabou transferido de função no dia seguinte.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sinuca entre livros

Reportagem publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição n.697 - 26 de julho a 1 de agosto de 2008 - página 7.


Depois de uma hora de conversa no segundo andar da livraria Realejo, o psicanalista Contardo Calligaris olhou para trás e disse:

- Adoro uma mesa de sinuca. Freqüento os bares do Largo da Batata, em São Paulo. Tanto que a sinuca estará presente no meu próximo romance.

O livreiro José Luiz Tahan, que acompanhava a entrevista, rebateu:

- Não seja por isso. Vamos jogar! Zuenir Ventura e Xico Sá já disputaram uma partidinha comigo.


O próximo romance de Calligaris terá como cenário principal a cidade de São Paulo, local que adotou para morar em definitivo há quatro anos. O psicanalista conheceu a maior cidade brasileira em 1986, quando veio a América do Sul para uma série de palestras. O roteiro incluía a Argentina, cuja capital – Buenos Aires – possui o maior número proporcional de terapeutas do continente.

Naquela época, ele morava nos Estados Unidos. Viveu em Boston e em Nova Iorque a partir dos anos 70, onde lecionou e atendeu a pacientes. Clinicar manteve acesa a relação com São Paulo. “Um grupo de paulistanos me propôs analisá-los. Vinha para o Brasil por 15 dias a cada dois meses. Durou 10 anos.”
Em 2004, tomou uma decisão que considera definitiva. “Preferi terminar a vida como um psicanalista paulistano em vez de ser um psicanalista nova-iorquino”, disse sorrindo diante de 200 pessoas que compareceram ao Sesc, em Santos, numa fria noite de sexta-feira. Uma conversa com duração de duas horas.
Calligaris explica que as pessoas o prenderam ao Brasil. Mais do que os pacientes, as amizades fizeram com que encerrasse o ciclo de mudanças de endereço, inclusive fechando o consultório nos Estados Unidos. “Amigos só encontrei aqui. Imagine ser seqüestrado e encontrado nu no outro lado do mundo, com direito a um telefonema. Amigo é aquele que vende tudo para te buscar.”
Os cabelos grisalhos e encaracolados representam a única indicação de que Calligaris é um homem de 60 anos. Em boa forma física, veste-se como um paulistano comum e poderia passar sem ser notado na multidão. Apenas o leve sotaque entrega que se trata de um estrangeiro.
Bom, estrangeiro até certo ponto. Calligaris é, usando o surrado clichê, um cidadão do mundo. Nascido na Itália, estudou em Genebra (Suíça) e, de formação freudiana, trabalhou em Paris (França) antes de seguir para os Estados Unidos. “Minha língua materna é o inglês, e não o italiano.” O psicanalista é um poliglota, tanto que publicou livros em francês, inglês e português. No total, uma dúzia de obras, entre trabalhos acadêmicos e crônicas e, agora, a ficção.
A barba do pai - Calligaris é uma figura pop no mundo literário. O romance de estréia, “O Conto do Amor” (Companhia das Letras), teve cinco edições em dois meses e meio. Ele explicou que jamais se sentiu tão exposto. “Somos feitos de ficções. As perguntas do homem moderno só têm respostas na ficção. O escritor tenta fazer alguma coisa com os fios soltos da sua vida.”
O livro conta a história de um terapeuta que redescobre a Itália para conhecer melhor o próprio pai que, no leito de morte, 12 anos antes, disse ter sido – em outra vida – assistente de um pintor renascentista. Na Itália, o terapeuta se permite – de forma intensa – amar uma mulher pela primeira vez.


O momento mais forte, para o autor, é a descrição do pedido do pai para que o filho faça a barba dele, antes de morrer. “É comovente”, responde após medir as palavras.
A obra gerou curiosidade não apenas pelo fato de Calligaris ser um colunista conhecido, mas também pelos limites da autobiografia. “O primeiro capítulo é autobiográfico da primeira a última linha. O resto, não.”
O psicanalista publica desde 1999, às quintas-feiras, uma coluna na Folha de S.Paulo. Recebe cerca de 200 e-mails por semana. O recorde aconteceu quando publicou o texto “Um Filme de Amor”, sobre o vídeo que mostrava a apresentadora Daniela Ciccarelli namorando na praia. Ele não viu nada de anormal e pergunta:
- Quem nunca namorou na praia? Na Internet, há vídeos mais ousados. O vídeo dela não serve nem como material pornográfico.
A coluna gerou dois mil e-mails, a maioria de mulheres que, inclusive, se solidarizaram com o psicanalista. Esta e outras cem colunas constam no livro “Quinta Coluna” (Publifolha), também lançado em Santos.

Volta à ficção - Escrever para a imprensa com regularidade semanal mudou os hábitos do psicanalista e a relação dele com a literatura. “A crônica, certamente, me ensinou a escrever. Escrever para não parecer inteligente, mas para quem tem interesse em ler. No fundo, foi um longo desvio para chegar à ficção.”

O desvio se caracterizou como um retorno de quase meio século. Aos nove anos, escreveu o primeiro conto. “Chamava-se O Homem do Pacífico e foi recusado por uma revista de literatura. Era a história de um marinheiro americano que sofre um naufrágio durante a Segunda Guerra e é resgatado por um navio alemão. Ele consegue enganar os militares por um tempo por falar o idioma deles. Depois, é reconhecido como estrangeiro.” O próprio psicanalista lê, atualmente, a obra como uma metáfora de si mesmo.
Apesar de ter conhecido o mundo, Contardo Calligaris – hoje – prefere voltar sempre ao Largo da Batata, com seus quatro bares; entre eles, o sugestivo Luzes de Miami, com suas prostitutas e demais personagens noturnos. Lá, o psicanalista – que conheceu o bar depois de rodar de carro por causa da insônia - nunca jogou sinuca. “Interesse por Antropologia? Eu gosto mesmo. Não uso estas desculpas.”
A observação teórica nos bares do Largo da Batata não serviu para a partida disputada na livraria, em Santos. Quem venceu foi o livreiro Tahan, e por 17 pontos de vantagem.

O romance rumo ao interior

O psicanalista Contardo Calligaris tem milhares de leitores todas as quintas-feiras, desde 1999, no jornal Folha de S.Paulo. Autor de uma dúzia de livros, em três idiomas, ele lançou há dois meses e meio o primeiro romance, “O Conto do Amor” (Companhia das Letras), hoje na 5º edição.

O psicanalista esteve recentemente no Sesc, em Santos, para participar do projeto Conversatório, que aproxima leitores e autores por meio de um bate-papo de duas horas. Além do romance, Calligaris lançou também “Quinta Coluna”, obra que reúne 101 crônicas publicadas na Folha. Trata-se do segundo livro de coletâneas, o primeiro organizado por ele. “Não tive um critério definido, mas o interessante é que redescobri vários textos.”

Na entrevista abaixo, Contardo Calligaris reflete sobre seus textos, aspectos do romance, como a relação com o pai, e o contato com os leitores, seja semanalmente ou pela literatura.

Boqueirão: Na coluna “Volta a Paraty”, você fala do livro interior, a fusão de todas as leituras – completas ou não - de um indivíduo. Eu me identifiquei com este texto, principalmente pelo fato de não terminar a leitura de muitos livros. O conceito de livro interior tem relação com o romance “O Conto do Amor”?
Contardo Calligaris: O romance não é o meu livro interior, que não saberia escrever. É o livro da vida inteira, que ninguém vai conseguir escrever. Mas que o romance faça parte do meu livro interior, não tenho dúvida. Agora, a razão pela qual acho que escrever ficção é mais relevante do que escrever ensaio é porque a ficção traz forma ao livro interior dos leitores. E pouco importa que seja lido integralmente ou aos pedaços. Isso é uma maneira de tocar o outro que, no fundo, me interessa mais do que transmitir minhas idéias. É mais próximo quando permite que o outro se transforme, como em um trabalho psicoterapêutico. É permitir um trabalho de transformação interior.



Boqueirão: Você conseguiu deixar de ser psicanalista na hora de escrever ficção?
Calligaris: Não tinha grande preocupação em me amputar daquele pedaço. Sou psicanalista há 35 anos, nove horas e meia por dia, cinco dias por semana. Nunca me aconteceu da atividade psicanalítica invadir minha vida. Nunca aconteceu de fazer uma interpretação numa briga amorosa. Numa briga amorosa, briga-se! (risos) Não vem o lado de psicanalista fora do contexto. É claro que a psicanálise é uma parte relevante da minha experiência de vida, mas não a única. Gosto de viajar dentro de cada cidade que vivo. Tenho meu lado Bukowski. Moro nos Jardins, mas freqüento a Zona Leste de São Paulo, não só como antropólogo.

Boqueirão: E o que te acrescenta?
Calligaris: À vida. Eu gosto das pessoas. Gosto de freqüentar barzinhos embaixo da favela vertical da rua Paim, em São Paulo. É claro que, se a uma certa hora vejo que a cachaça está um pouco demais e vai sair facada, vou embora. Ninguém é herói. Gosto porque a fala é diferente, o contato é diferente. Não tenho medo ou inibição.

Boqueirão: Você disse que o próximo romance será ambientado em São Paulo, inclusive no Largo da Batata (região citada na resposta anterior). Em que pé está?
Calligaris: Naquele pé (risos)! Eu levo muito tempo na concepção da trama. Não me aventuro a escrever sem saber porque fulano vai encontrar sicrano, onde, de que forma. Tenho que ter a trama bem clara na cabeça, totalmente. Depois, escrevo. Fazer o primeiro esboço, em 15 dias de férias, num lugar sem Internet, é fácil. O primeiro romance foi escrito do jeito que gosto. No meu romance, não tem o autor que interfere na vida do narrador. O protagonista é quem escreve. Não tem recursos de narrativa de terceira pessoa.

Boqueirão: Você teve que se policiar, pois a coluna na Folha de S.Paulo é escrita, muitas vezes, em terceira pessoa?
Calligaris: Não tive que me policiar porque é a maneira que gosto de escrever. Isso me dá uma série de problemas técnicos no segundo romance porque tem coisas que gostaria que o leitor soubesse. Talvez inclua dois ou três narradores.

Boqueirão: Você disse no programa Roda Viva, da TV Cultura, que publicar um romance te expôs como nunca. Isso tem a ver com a idéia de que a vida dos autores interessa tanto quanto a obra?
Calligaris: Não sei se vale para todo mundo. Mas sou uma figura pública e ainda mais um psicanalista, que escuta a vida dos outros e nunca se sabe da dele. É uma espécie de vingança (risos). O primeiro capítulo de O Conto do Amor é totalmente autobiográfico. Se colocar esta pergunta para Philip Roth ou John Updike, autores que adoro, claro que um romance é, em parte, autobiográfico.

Boqueirão: Tirando o primeiro capítulo, qual é o papel da memória na tua obra?
Calligaris: Sem dúvida, é grande. Há memória histórica, de lugares, de emoções, como os anos 70 na Itália. O livro anterior também é um livro da memória, assim como a memória é rearranjada em cada romance. Mas, escrevendo o primeiro capítulo é que o romance se tornou necessário. Como se eu devolvesse a vida ao meu pai de maneira que tinha que encontrar um jeito de reinventá-lo em vida, de reinventar um diálogo com ele que não é mais possível. A maneira de fazer isso foi passar um ano escrevendo um capítulo da vida dele.

Boqueirão: Escrever o romance foi uma forma de acertar as contas com teu pai?
Calligaris: Sim, se é que dá para acertar as contas com meu pai. Mas sempre foram acertadas. Adorava ele. Quando morava em Boston (EUA), tinha uma doméstica russa que dizia ter poderes mediúnicos. Um dia ela chegou apavorada: - Doctor! Doctor! Seu pai está na biblioteca. Ela sabia que meu pai tinha morrido. Daí, eu fui lá e queria falar com ele, mas não via nada. Ela disse: - Ele está lá, sentado! Perguntei: - O que posso fazer para falar com ele? A doméstica respondeu: - Nada, mas ele está sorrindo. Eu disse: - Então, está tudo legal! (risos)

Boqueirão: O livro é a tua concepção de amor?
Calligaris: Fatalmente sim, inclusive porque tive experiência semelhante. (risos) O que mais impressionou os leitores foi a qualidade do respeito recíproco entre os protagonistas, e não a distância entre eles. Teve uma leitora que me escreveu: - Uma mulher como a Nicoletta não existe. Eu respondi: - Justamente para encontrá-la que escrevi este romance. (risos)

Boqueirão: Você tinha a expectativa do romance ter cinco edições em dois meses e meio?
Calligaris: Expectativa não é a palavra certa! Escrevi para isto, não no sentido de querer vender, mas porque me interessa contar uma história que pegue meus leitores.

Boqueirão: No Orkut, há comunidades sobre você e seus textos. Certa vez, houve um debate sobre a confusão entre as pessoas que desejavam ser pacientes somente para te conhecer. Como você enxerga a fusão entre o psicanalista e uma figura pop?
Calligaris: É pop a partir de textos. Não subo em um palco. Pode acontecer que alguém marque uma hora no meu consultório, embora seja um pouco curioso. Mas quando se trata de começar um processo terapêutico e não for importante para ele ... ele vai embora. Acho complicado alguém fazer terapia por tietagem.

Boqueirão: A coluna na Folha de S.Paulo funciona, de certa forma, como terapia? Reações de leitores?
Calligaris: Não sei se terapia é a palavra exata, mas pode funcionar como algo deste tipo. Escrevo alguma coisa e a mulher, depois de uma briga com o marido, recorta o texto e diz:- Olha aqui! Exatamente o que te falei! O texto de um psicanalista é revestido de uma autoridade. Isso vale para qualquer texto. O lado terapêutico seria outro, dando uma resposta séria. Minha coluna ideal deve ter três pontos: atualidade, um evento e um detalhe de vida concreta que se relaciona com os outros. São elementos do artesanato da coluna. Importante para mim é conseguir dizer algo que coloque um pouco em crise o que os leitores pensam sobre o assunto. Levar o leitor a dizer que poderia pensar diferente, colocando-o em contradição consigo mesmo. Escrever uma coluna para o cara discordar ou concordar não me interessa.

Boqueirão: Você se preocupa com a idéia de moralismo quando escreve?
Calligaris: Preocupo-me contra, o tempo inteiro. Estou em guerra contra o moralismo. Ser moralista? É difícil!

Boqueirão: O homem contemporâneo precisa de terapia?
Calligaris: Sou psicanalista, me reconheço como freudiano, mas tenho um monte de coisas construtivistas, cognitivistas e comportamentalistas que são dadas na minha maneira de responder ao paciente. Não acho escândalo nenhum. A maior responsabilidade de qualquer psicoterapeuta é com seus pacientes, e não com a fidelidade abstrata à doutrina em que se formou. Acho que a psicoterapia está muito longe do fim de sua longa carreira.

Boqueirão: Você fez mestrado, doutorado e deu aulas em universidades na Europa e nos Estados Unidos. Você se interessa atualmente pela vida acadêmica?
Calligaris: Apenas como leitor. Não me quero mais escrever artigos ou ensaios acadêmicos que interessam aos 14 colegas que não vão ler. A coluna, certamente, me ensinou a escrever. Não escrevo para parecer inteligente, mas para quem tem interesse em ler. No fundo, foi um longo desvio para chegar à ficção.