sábado, 23 de fevereiro de 2008

A sauna de aula

Políticos normalmente são associados às promessas. Os discursos de idealização se multiplicam em anos eleitorais. Se as promessas se tornarão realizações, a distância muitas vezes equivale ao tamanho do mandato. De vez em quando, o político sofre pressão, e o cumprimento do que foi dito o conduz à adoção de medidas provisórias, que se tornam definitivas na proporção do esquecimento da idéia original.
Em 1998, o Governo do Estado – diante do crescimento de demanda de vagas nas escolas – implantou as salas padrão Nakamura. São as famosas escolas de lata. O nome deriva do fabricante das estruturas em aço liso que foram adaptadas para encaixotar crianças. A rede estadual chegou a ter 1339 unidades de lata, nas quais alunos e professores enfrentavam problemas de acústica, elevação de temperatura no verão e aumento da sensação de frio no inverno.
Ainda existem 36 escolas de lata, quase todas em localidades periféricas. A promessa do Governo do Estado é extingui-las até o final do ano. Mesmo que isso ocorra, significa que a Secretaria Estadual de Educação levou uma década para abandonar uma proposta que alardeava temporária.
As escolas de lata não são “privilégio” da rede estadual. Em Santos, a unidade em Monte Cabrão, na Área Continental, abriga duas salas. O Monte Cabrão é um dos bairros mais pobres do município. As salas foram pintadas, têm ar-condicionado e um belo jardim na frente, maquiagem que não esconderia as dificuldades de aprendizagem dos alunos, segundo educadores da própria Prefeitura.
O caso em questão retrata como os governantes vêem a educação no Brasil. Em primeiro lugar, o Poder Público não está sozinho na reprodução do discurso de que educar é a solução para o desenvolvimento do país. Em muitos setores, a retórica envolve comparações com Coréia do Sul, Espanha e Irlanda, como se os três países tivessem se desenvolvido porque entulharam crianças em salas de aulas, muitas delas sem as mínimas condições ambientais.
A educação se transformou em um grande baú, capaz de armazenar e resolver todas as dificuldades pendentes de uma sociedade como a brasileira, desigual ao extremo e sem infra-estrutura nas mais variadas áreas. Isso nos leva a falácia dos gestores de que política educacional representa acesso às escolas. Neste sentido, vale mais um prédio bonito ou espremer crianças em salas de lata do que pensar em propostas pedagógicas de longo prazo, apartidárias ou desprovidas de cunho eleitoreiro, visando formar pessoas e atender a demandas sociais. Somado a isso, levar em consideração que a escola não é o único e sagrado espaço para o desenvolvimento do ser humano.
O terceiro problema é a diferenciação social na política pública educacional. Por que será que as escolas de latas se multiplicaram em bairros de periferia ou em cidades afastadas do interior do Estado? Numa perspectiva mais ampla, o Brasil resolveu adotar a qualquer preço, a partir dos anos 90, a política de inclusão de todas as crianças no processo escolar. A meta foi alcançada, porém parou-se no primeiro passo e pagou-se pela falta de planejamento. As deficiências de infra-estrutura foram expostas, e as escolas de lata surgiram como remédios paliativos.
Isso indicou que os governos não estavam adequadamente preparados para refletir sobre qualidade de ensino. A quantidade bastou para atender aos organismos internacionais responsáveis pelo envio de recursos para a implementação de projetos. Qualquer estudante de Magistério tem pleno conhecimento de que o ambiente interfere na qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Será que uma criança presa por horas numa “sauna de aula” poderá aprender com qualidade?
Enquanto a educação pública for vista com olhos imediatistas e quantitativos, as avaliações nacionais e internacionais continuarão expondo as fraturas de um país repleto de analfabetos lingüísticos e matemáticos, muitos deles vítimas de políticas sem planejamento e competência. O pior é que medidas como as escolas de lata cheiram a decisões com plena consciência do estrago a ser provocado. Com o verniz de temporárias, causam danos permanentes. Como se repara este crime?

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Procurado vivo ou morto (ou Faroeste Caboclo)

O crime: assalto a uma residência. Os criminosos: três homens, todos armados, com idades entre 20 e 40 anos. A vítima: uma família com posses e alguma influência na comunidade onde reside. O xerife: indivíduo nomeado pelo Estado, que realizou diligências pelo condado, mas foi incapaz de sentir o rastro dos ladrões.
Ao andar pelas ruas, observa-se nas árvores e nos postes o velho papel de “Procura-se”, o que indica, em tese, duas possibilidades: os criminosos são realmente importantes ou o que foi roubado apresenta valor inestimável às vítimas. A recompensa foi estipulada: R$ 10 mil.
A primeira diferença é que a cidade onde aconteceu o crime não fica perdida no meio do nada nem é repleta de viajantes em carruagens e seres de índole discutível montados em cavalos bravios. O assalto aconteceu recentemente no bairro do Morumbi, em São Paulo.
A segunda se refere ao fato de que a recompensa indicada nos seis mil cartazes espalhados pela cidade não será dada pela cabeça dos criminosos, mas por informações sobre o bando. Neste caso, não vale a velha máxima “Vivo ou Morto”; pelo menos, na teoria.
O proprietário da casa assaltada é o autor da idéia. Ele afirmou, em entrevista ao jornal da Globo, que se cansou da inoperância da sociedade diante da criminalidade. Explicou também que o valor é apenas um pequeno presente. O advogado dele, Daniel Gonçalves, reforçou a proposta ao colocar que dinheiro é o único combustível para que as pessoas se envolvam e forneçam informações.
No mesmo dia, o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), oficializou em palavras a política do “atire primeiro, pergunte depois”. Isso significa que os policiais receberam autorização para disparar sem pensar nos presos que esboçarem qualquer reação diante deles. A ordem do governador é conseqüência da emboscada promovida por cinco presos da Colônia Penal de Campo Grande contra dois homens do serviço reservado da PM. O saldo foi uma viatura incendiada. A dupla de policiais escapou da morte. Os assessores do governador garantiram que as declarações tinham como objetivos causar impacto e demonstrar força diante da criminalidade.
O rico que estipula recompensa e o governador-falastrão são elementos da mesma cadeia, que se caracteriza pela descrença nas instituições (sem abandoná-las quando for conveniente), pelo jogo-de-cena e personalismo nas ações e pela inoperância do sistema auto-alimentado por estes defeitos.
Quem já foi assaltado e esteve na mira de um revólver, mesmo que por alguns segundos como este jornalista que vos escreve, sabe como se desenha o terror, que pode se manifestar inclusive na paralisia ou na mais absoluta frieza frente ao agressor. No entanto, a justiça pelas próprias mãos – ou pagando como se fosse um serviço – demonstra o gosto pela barbárie, às vezes presente naqueles que se encontram no topo da pirâmide sócio-econômica brasileira.
A elite – para usar um termo da moda - ainda não deseja se curar da miopia social. A cegueira que a acompanha se manifesta, por exemplo, na inexistência de consciência coletiva. O que interessa são as soluções individuais, calcadas no poder econômico. Neste sentido, a lei é vista como secundária, servindo aos outros, tolos em acreditar que é possível sobreviver com o mínimo de organização das instituições. Em outras palavras, utilizar o poder de influência – afinal, ele está sólido no cotidiano – para alterar o entorno do micro-cosmo em que se vive. Este micro-cosmo é, infelizmente, quase do tamanho de uma bolha de plástico no quarto de dormir.
Os olhares destes cidadãos estão adormecidos por lentes que visualizam somente as relações de consumo. Se a política de segurança pública é ineficaz, as câmeras, alarmes e grades serão suficientes para impedir o perigo. Se estes equipamentos falharem, paga-se pela informação e/ou pelo serviço necessário. E depois, como fica? Paga-se também para que pistoleiros solitários prendam os bandidos? Em algumas regiões, sabemos que sim. Em outras, grita-se por socorro para aquela instituição considerada falha.
A descrença nas instituições está atrelada diretamente à incapacidade administrativa ou política de investimentos em infra-estrutura. Em tempos de litros de saliva e de quilos de papel gastos para se debater o uso de cartões corporativos, os políticos tiram a cabeça do buraco para “causar impacto”, como dizem seus assessores. É bate-papo contra balas, retórica contra o pragmatismo do crime.
Tenho certeza de que os presos tremeram de medo com as declarações do governador de Mato Grosso do Sul. Tanto pavor que se comunicaram por celulares e avisaram uns aos outros de que agora a criminalidade será paralisada pelo poder da palavra.
O destempero das declarações do governador aponta como os políticos profissionais ainda não desejam a maturidade na gestão da coisa pública. Vale a regra da repressão, como se matar presos resolvesse as crônicas deficiências do sistema de segurança. Os 111 presos mortos no Carandiru talvez sirvam de exemplo para ilustrar como atirar a esmo provoca o ricochete de balas, mesmo que no debate político.
Os ricos cansados de violência – porém usuários do sistema público quando lhes interessam – e os políticos profissionais – treinados para mamar na mesma fonte, mas preparados para encenar a independência dela – representam como o Estado brasileiro é encarado e imaginado. Independente da bola da vez, o Estado é mãe de todos, mas também não é de ninguém.

Obs.: O título Faroeste Caboclo é fruto da criatividade do colega e mestre Marcio Calafiori.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Cinema brasileiro e o reflexo do horror

O medo é uma das reações mais interessantes que o espectador pode ter quando assiste a um filme. É, de certa forma, o prazer masoquista de se posicionar diante do que se mostra desconhecido ou estranho para si. Não há necessidade em entender o diferente; apenas vivenciá-lo. Dizem os amantes dos gêneros suspense e terror que o medo se aproxima do absoluto quando se teme o invisível. Aguça a imaginação, elevam-se as sensações. As melhores cenas ocorrem nas sombras. Reforçam a estranheza e a inoperância perante o inédito.
O temor também pode se manifestar caso um clichê seja bem aproveitado. É como a garota que se sente apavorada diante do espelho do armário do banheiro. Sabe-se que ela fechará o armário e, quando o abrir novamente, enxergará o assassino ou o horror.
A garota em questão é o cinema nacional, desarmado e prestes a ser apunhalado por personagens insensíveis e pragmáticos. As causas do terror se fazem visíveis, repetitivas e ainda sem a trilha sonora adequada para nos levar ao pânico absoluto como prazer, gerando decepção com o cenário cultural.
Quando se reflete no espelho, o cinema nacional vê conhecimento de formas de produção e execução, mas feridas profundas na distribuição e na exibição para o público. Segundo o presidente da Rio Filmes, José Wilker, os filmes brasileiros ocuparam 22% das sessões há seis anos. Em 2006, foram 8%, com tendência a cair ainda mais. O Atlas do Cinema Nacional fala em 11%, o que não diminui o pavor.
No Brasil, cinema é artigo de luxo, privilégio das classes média e alta. São somente 2407 salas no país, boa parte em shoppings, menos do que na ilha de Manhattan, em Nova Iorque. O preço do ingresso, em um sábado à noite, equivale a US$ 7. Há 20 anos, era 50 cents.
Cerca de 200 filmes, de fase de gravação a película pronta, aguardam espaço para exibição. Isso desenhou uma trajetória diferenciada para as produções, que passaram a ter nos festivais as únicas oportunidades para atingir as pessoas. Na verdade, festival é para marcar território (prêmios, crítica especializada e comunidade cinematográfica) e depois a obra segue carreira nas salas e/ou no mercado de dvds.
Para que fazer cinema então??? Em 2007, o maior fenômeno foi Tropa de Elite que, segundo estimativas, vendeu mais de cinco milhões de cópias no universo pirata e atraiu 2,5 milhões de pessoas aos cinemas. O exemplo é exceção e serve também para mostrar o domínio da televisão sobre a tela grande. Tanto que virará seriado. Ou melhor: torna-se complicado escapar da hegemonia das Organizações Globo no setor. Os filmes produzidos e/ou distribuídos pela Globo Filmes superam 90% da bilheteria nacional. Muitas das produções parecem episódios da TV adaptados para longa-metragem. Quando se quebra essa barreira, a permanência na sala de exibição não alcança um mês.
O cinema nacional permanece preso a uma armadilha. Apenas mudou de carrasco. Depois da catástrofe do ano de 1991, quando as medidas do presidente almofadinha reduziram a produção a uma película, o segmento conseguiu a duras penas a recuperação. O Oscar virou sonho possível e, principalmente, driblou-se a imagem de que a cinematografia brasileira era sinônimo de mulher pelada e palavrão. É claro que o dinheiro público ainda se constitui no maior fomentador das produções, mas muitas empresas privadas investem em filmes de olho nas leis de incentivo.
Esqueçam a balela de indústria do cinema. Produzimos menos filmes do que a Argentina. Contudo, os dois vizinhos se abraçam na invisibilidade. Os argentinos também adoram um blockbuster! No caso do Brasil, a própria TV também auxilia no enterro do fantasma. Ou você fica acordado até às 3 horas esperando por uma produção brasileira da qual nunca ouviu falar? Ou sonha com aquela semana do mês de janeiro quando se exibem cinco películas com o título de Festival Nacional?
O próprio presidente da Rio Filmes tem uma sugestão interessante: criar programas itinerantes – sem maiores burocracias – para levar as produções às periferias do Brasil. Não significa apenas atingir o sertão ou as localidades afastadas da Amazônia. É a Zona Norte do Rio de Janeiro, as cidades-satélites de Brasília, a região do Jardim Ângela em São Paulo, a Zona Noroeste de Santos ou a Área Continental de São Vicente. Em todos eles, não há cinemas. Justifica-se o dinheiro investido, permite-se que uma população praticamente desprovida de bens culturais conheça novas linguagens e dá-se visibilidade aos filmes.
A experiência de levar o cinema onde o povo está – para usar um clichê – já foi adotada, porém de maneira esporádica. Santos teve, por exemplo, projetos neste sentido. No entanto, os filmes exibidos eram antigos, em sua maioria gastos na tela da TV. A velha forma de tentar enganar quem não é bobo.
A produção nacional precisa buscar alternativas para alcançar o público. Enfrentar o cinema norte-americano ou o maior conglomerado de comunicação no Brasil nos moldes convencionais é suicídio. Quais seriam as alternativas? O enredo não tem final claro, mas não é difícil até para um simples figurante notar que o clímax deve retratar alterações na política de audiovisual no país, além de pequenas soluções criativas na micro-política. Assim como na história onde a garota vê o assassino no espelho, o final – atualmente!!! - reserva que o agressor seja morto várias vezes. Com o risco de ressuscitar no próximo filme.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Safáris, corredores, sangue e ditadores

O país é distante, encontra-se à beira de uma guerra civil entre etnias unidas pela colonização, apresenta altos índices de corrupção segundo organismos internacionais e recebeu dinheiro norte-americano (cerca de US$ 1 bilhão) para a compra de armas. Iraque? Síria? Afeganistão? Paquistão?
O cenário valeria quase que integralmente para todos os citados, mas nenhum deles é o barril de pólvora do momento. A nação em foco é visitada por milhares de turistas que desfrutam de safáris em reservas ambientais. Afinal, a maioria parte dos animais selvagens foi dizimada por aventureiros, contrabandistas de matérias-primas e turistas, com a conivência do governo local, historicamente adepto de uma “caixinha”. O país também atrai a atenção dos brasileiros no último dia do ano, pois produz corredores em grande quantidade, sempre entre os primeiros na tradicional Corrida de São Silvestre.
O Quênia é uma das mais importantes nações africanas e vive uma crise política que foi capaz de interferir – mesmo que timidamente - nas primárias eleitorais para a presidência dos Estados Unidos. A economia queniana é estável, e o país cresce cerca de 6,5% ao ano, índice equivalente ao da Rússia e superior ao do Brasil. Em 2007, Nairóbi, a capital, recebeu milhares de manifestantes para o Fórum Social Mundial, principal mecanismo de oposição ao Fórum Econômico Mundial, que reúne anualmente as grandes potências em Davos.
Independente da relevância internacional, a política interna vive em frangalhos. O presidente Mwai Kibaki se reelegeu em 27 de dezembro. O pleito foi contestado com violência pela oposição, liderada por Raila Odinga. O presidente alega que a eleição é legítima. A oposição se recusa a fazer parte do Governo, pede novas eleições, a renúncia do presidente Kibaki ou sugere participar de um governo de coalizão após nova votação.
A Organização das Nações Unidas (ONU), para variar, tenta o diálogo entre duas partes que não desejam conversar. Aperto de mão simbólico, como ocorreu no dia 24 de janeiro, não traz efeitos práticos. A organização, por enquanto, olha pelos canais diplomáticos para uma nação com cara, corpo e sangue de guerra civil. Assim como foi em Ruanda, Angola e em outras 15 nações da África.
A crise política no Quênia envolve ainda o componente étnico. O presidente Kibaki pertence a etnia Kikuyu e foi eleito pela primeira vez há seis anos com promessa de mudar os rumos da política local, que permaneceu nas mãos do mesmo grupo por quatro décadas. Os kikuyus são maioria na região central do país. O líder da oposição, Raila Odinga, é de outra etnia, a Luo, presente nas favelas da capital Nairóbi e no oeste do Quênia. As duas etnias pegaram em armas em várias áreas.
O impasse no Quênia se traduz em dezenas de mortes diárias, fruto de conflitos em várias regiões. Até agora, cerca de 700 pessoas morreram. Outra conseqüência são milhares de refugiados, obrigados a tomar a estrada com pouco mais do que a roupa do corpo. Os organismos internacionais estimam em 250 mil desabrigados. Imagens aéreas retratam cidades devastadas, onde centenas de casas ardem em chamas. A cidade de Nakuru, no Vale do Rift, por exemplo, foi fechada por forças paramilitares.
Por que o Quênia é importante, além do esporte e do turismo? Esta crise não é importante porque simplesmente preocupa os Estados Unidos, mas por atrair os olhos belicistas deles para lá. O retrospecto de interferência da política externa norte-americana é desastroso. Basta observarmos Iraque, Afeganistão e Faixa de Gaza. Os Estados Unidos sabem que o Quênia se configura em um ponto estratégico na África Oriental ao ponto de manter bases militares naquele país e contar com o apoio queniano para conflitos, por exemplo, na Somália.
A turbulência no Quênia também chama a atenção dos chineses, que aplicam cerca de 10% de seus investimentos no continente africano. É a aplicação de uma mentalidade pós-colonial. Em outras palavras, interferência econômica, sem colocar o dedo nas seculares feridas políticas e étnicas. A China necessita de matérias-primas e, no final da linha, de novos mercados consumidores. A contrapartida é a construção de estradas, hospitais, escolas e indústrias de base com capital chinês.
A crise no Quênia representa um retrocesso aos anos 90, quando o partido principal do país, Kanu, governava com mãos de ferro e incitava os conflitos inter-étnicos. A União Africana, atualmente presidida por Gana, foi incapaz de acalmar os ânimos. Apelou para a ONU, que pouco progresso fez. O Fundo Monetário Internacional (FMI) manteve a suspensão de apoio financeiro por causa da corrupção. As principais potências econômicas adotaram o discurso de sempre: repudiar a crise e assistir ao circo pegar fogo.
Assim, a mais importante economia do leste africano caminha para a desestabilização. Adiciona-se ao caldeirão o prejuízo humano de mais uma nação africana atolada em armas e sangue, que acompanha o rumo dos vizinhos Sudão, Etiópia e Somália.