sábado, 22 de dezembro de 2007

O exército de mortos-vivos

A cultura pop os imortalizou. Os zumbis, para retornar a um tempo não tão distante, apareciam nos velhos filmes do estúdio Hammer, sem sanguinolência ou efeitos especiais. Nos anos 70, esses personagens alçaram a ícone do mundo do horror o diretor George Romero, produtor de uma trilogia clássica para os fãs. Na música, em meados da década seguinte, os mortos-vivos foram tema do clip Thriller, o mais famoso do cantor norte-americano Michael Jackson.
Os zumbis representam, em linhas gerais, o temor do homem diante da morte, do desconhecido e de seus semelhantes. Significam também o lado primitivo, não-civilizado, que expurga a raiva e a fúria diante do próximo. Ser um morto-vivo expõe ainda a ausência completa de humanidade, de vida em um corpo inanimado, incapaz de reações racionais; apenas um elemento errante, infantilizado, que vaga sem perspectivas, sem traços culturais e sociais. Um ser que deveria permanecer nas sombras, absolutamente invisível em função do terror e da repulsa que provoca naqueles que um dia foram seus iguais.
Estou acostumado a me deparar com zumbis. Infelizmente, pelo papel deles no horror do espetáculo social contemporâneo. Podemos especular sobre inúmeras razões que causam estes encontros, desde teorias filosóficas, passando por reflexões psicológicas, até sociologia de banheiro. A maioria delas, no entanto, é incapaz de humanizá-los, tirando-os da condição de seres “inexistentes”.
Esta semana, um destes indivíduos ocasionou reações adversas, deixando as sombras e interferindo no mundo fora da caverna. Tinha cerca de 18 anos, descalço, sujo, vestindo camiseta e bermuda; jazia ali, numa calçada, agarrado a uma sacola plástica com os pertences mais recentes.
O sono ultrapassava o limite do aceitável. Afinal, eram 11 horas da manhã e como um morto-vivo poderia descansar em frente a um dos principais centros de compras de Santos??? Os vivos o ignoravam, levantavam a cabeça, projetavam o nariz no horizonte. Porém, a indiferença não apaga o cenário, apenas inverte a figura e o fundo.
Percebia-se, entre aqueles que não podiam caminhar dali, crescente desconforto e paralisia em interagir com o elemento que “estragava” o retrato de paz e tranqüilidade. Os longos minutos acabaram quando dois policiais militares, protetores do patrimônio material, chegaram para verificar o que se passava naquele mar de prosperidade. Os vivos, neste momento, subiram nos caixotes da indignação. Como um morto-vivo poderia permanecer ali, em plena luz do dia? Já não bastam a sombra e a escuridão?
Os servidores públicos, protegidos por suas fardas e armas, resolveram com eficiência o problema. Sem se preocupar em conhecer o dialeto zumbi, abriram mão do diálogo e retiraram a mancha do cenário bucólico de Natal. Com os olhos inchados de quem havia ressuscitado à força, o rapaz cumpriu seu papel e retornou ao obscuro. O irônico é que, naquele dia de sol, a sombra mais próxima era o centro de compras. Ali permaneceu por mais alguns minutos, em busca de diálogo e de alguma visibilidade. Em ambos os casos, fracassou. Cumpriu mais uma vez o que a sociedade esperava dele naquele momento.
O fato é que não se trata de uma exceção. Na cidade da qualidade de vida, “terra da caridade e da liberdade”, os zumbis hoje compõem um exército descentralizado, que flutua desde os bairros mais pobres até as vilas mais ricas. E insistem em aparecer à luz. Nos semáforos, lutam contra as películas protetoras dos vidros dos automóveis. Nas portas de supermercados e shoppings, valem menos que as sacolas plásticas. Nos bancos, são vigias informais nas camas de pedra durante a madrugada.
Como não estão vivos, pelo menos na ótica do consumismo e da aparência, seguem sem cidadania. Não interferem no processo político e não constam nas estatísticas otimistas da economia. Pouco rendem para as políticas públicas. Mas se multiplicam. Hoje, são centenas de indivíduos. A precisão numérica não importa. O que interessa é a presença deles, reflexo de um modelo absolutamente desigual, gerenciado por seres legitimados pela maioria, mas que enxergam somente aquele buraquinho que todos temos na barriga. Os legitimados e a maioria. O adolescente enxotado e seus clones nas ruas da cidade me fazem lembrar o escritor Joseph Conrad. As palavras do autor de “O Coração das Trevas”, foram imortalizadas por Marlon Brando, o militar norte-americano desertor no filme Apocalipse Now. Resignado com a capacidade humana de eliminar e subjulgar o outro por prazer, o personagem apenas murmura: “O horror. Oh, o horror!”. No caso dos zumbis que vagam pelas ruas de cidade, o horror assusta quem? Os vivos ou os mortos? Cuidado, é cada vez mais provável que você esbarre num deles na próxima esquina.

sábado, 15 de dezembro de 2007

A rosa sem nome

A fragilidade da garota se manifesta naquele corpo franzino, fruto de anos de desnutrição, o que denota uma aparência de idade inferior. A pobreza corre em paralelo a um lar desestruturado, que passa distante da rotina idealizada das propagandas de margarina na TV. O mundo em que vive é afastado pela geografia. O tempo, por sua vez, estacionou, desconectado da linha cronológica habitual da História.
À margem de uma sociedade conservadora, com instituições apodrecidas, a menina vive de pequenos furtos, o que dão a ela o rótulo de bandida, de um ser incomunicável e incapaz de conviver com aqueles que se julgam responsáveis pela propagação e controle da moral. Aliás, conjunto de valores que resistem ao tempo, agregados à força do poder político, econômico e religioso, regido por homens e sustentados pela violência institucionalizada ou acobertada pela cegueira proposital de quem dá as ordens.
A garota rodeia não apenas um, mas vários castelos com ares medievais, nos quais se processam esta alimentação moral, além – evidentemente – da distribuição de benesses sociais. São favores para aqueles que, embora sustentem o poder vigente, pouco teriam a acrescentar na construção das relações humanas, seja por inexperiência, seja por insensibilidade. Ela, adolescente pobre e invisível, sobrevive pelas beiradas dos altos muros das fortalezas, trafega pelos porões do castelo, conhece os meandros de uma estrutura imponente e acessível para poucos iluminados e escolhidos pelas autoridades, cujos títulos foram concedidos por homens, mas representam o divino, o dogmático.
Esta sociedade que ignora a garota-marginal é inquisitória. Pune transgressores, questionadores, visionários, adversários ou os que apenas servem como gado. É o mecanismo de perpetuação do artificialismo da moral e dos bons costumes. O julgamento é sumário, inquestionável: o réu está atrelado à culpa, independente das regras constituídas pelo poder superior, distante, omisso e lento para acompanhar o que acontece nos seus monastérios longínquos.
A garota, fragilizada fisicamente, deteriorada na própria auto-estima, caiu na teia do processo inquisitório. Julgamento foi peça ficcional. A punição foi rápida e, certamente, com danos definitivos para a ré-vítima.
No entanto, a menina de corpo franzino, marginal e miserável não foi “curada” de seus males na fogueira acesa antes do amanhecer. Seu destino foi uma cela de prisão, dividida com 20 homens por 24 dias. As labaredas não eram extintas assim que o corpo se queimava. As chamas se realimentavam a cada refeição, ressuscitavam a cada violência contra um corpo feminino que insistia em permanecer incomodando o sistema medieval.
O espetáculo, assim como a fogueira no meio da aldeia, atraia a atenção silenciosa dos moradores de Abaetetuba, cidade interiorana do norte do Brasil. O público comenta o destino daquela infeliz a boca pequena, como gado que se mantém satisfeito com a ração diária. Como no universo totalitário, as autoridades jamais têm ou podem assumir responsabilidades. A culpa é da adolescente de 15 anos, pecadora por ser menor, transgressora por ter retardamento mental, segundo o ex-delegado-geral do Pará. A responsabilidade dela se eleva se considerarmos que a adolescente provocava sexualmente os presos, conforme a constatação da corregedora da Polícia Civil do Pará, Liane Paulino, afastada da investigação por essa “conclusão civilizada”.
Diante de reações de um mundo com o mínimo de vergonha de si mesmo, o poder distante dá os primeiros passos. Começam as investigações e as declarações indignadas contra atitudes incompatíveis com o século XXI. A Corregedoria de Comarcas do Interior do Pará, por exemplo, pediu o afastamento da juíza Clarice Andrade, dona da caneta que manteve L. presa. A juíza poderá enfrentar processo administrativo com outros dois funcionários. O pedido ainda passará por votação no Tribunal de Justiça.
A perspectiva é que a solução ocorra apenas no primeiro trimestre de 2008, após o recesso do Poder Judiciário. Se for afastada, a juíza não poderá exercer suas funções, mas continuará recebendo os salários. Assim como os inquisidores quando perderam o controle, a juíza deixou a cidade. Entrou em merecidas férias.
A analogia com o livro “O nome da Rosa”, que gerou um filme estrelado por Sean Connery, é apenas uma alegoria para expor uma sociedade que apresenta inúmeras semelhanças com o cenário construído pelo intelectual italiano Umberto Eco. O Brasil, institucionalizado –mesmo que a distância - a partir da chegada dos portugueses, não viveu a Idade Média, pelo menos na cronologia dos historiadores. Porém, valores, comportamentos e ações desprezam as medidas padronizadas de tempo, definidas pelos detentores do poder e adotadas pelo homem comum.
Parte da sociedade brasileira, por meio daqueles que a representam, demonstra como é possível retornar ao universo medieval naquilo que ele possui de mais atrasado e perverso, originando o sugestivo nome de Idade das Trevas. Abaetetuba não é uma aldeia isolada e com um caso exclusivo. O país está impregnado de Rosas e de endereços onde a selvageria é sinônimo de cotidiano.

sábado, 8 de dezembro de 2007

A TV Digital como ficção científica

A partir de 2 de dezembro, as transmissões de TV – pelo menos em São Paulo – deixam de ser analógicas e ganham caráter digital. As principais emissoras do país veiculam há dois meses, durante a programação, filmes de 30 segundos com objetivo de explicar, além de valorizar, é claro, a mudança tecnológica na principal mídia do planeta.
No entanto, as mudanças – a curto prazo – praticamente inexistem. A TV Digital ainda será um privilégio para poucos cidadãos (o mais apropriado seria consumidores) por uma série de fatores que envolvem as emissoras, os profissionais e, principalmente, os espectadores.
Em primeiro lugar, a chegada de uma nova tecnologia, em termos históricos, jamais exclui ou elimina as anteriores. É inerente uma fase de transição. O modelo tecnológico atual e os formatos de programação permanecerão por mais alguns anos. A convivência com o novo será pacífica e a despedida dos mais antigos, gradual e sem data fixa. Algumas mídias se aperfeiçoam e garantem sobrevida, como o livro e a revista. O primeiro sobrevive há mais de 650 anos, enquanto a segunda há mais de meio milênio, se descontarmos as variações de linguagem e de estética.
A relação com os espectadores também encara alterações em ritmo lento. Basta pensarmos que, no Brasil, apenas 30 milhões de pessoas – portanto, menos de 20% da população – têm acesso à Internet, mídia presente no país há 15 anos. A TV a cabo, dentro dos lares brasileiros no mesmo período, abrange a metade deste contingente, restrito às cidades grandes e médias.
A mudança tecnológica necessita da criação e do fomento de novos hábitos de consumo. É evidente que, a partir da estabilização do real, na metade dos anos 90, ficou mais fácil para os consumidores comprarem televisores e outros equipamentos eletroeletrônicos. Com a transmissão digital, a questão não é apenas o aparelho conversor. Oito em cada dez televisores brasileiros têm 20 polegadas ou menos, o que não garantiria – segundo os especialistas da área – um acréscimo na qualidade de áudio e de imagem.
O aparelho conversor, aliás, sairá mais caro do que o previsto. Um ano atrás, o Governo Federal falava em US$ 100 o preço do equipamento, o que daria hoje cerca de R$ 200. O mercado, que deverá regular os valores, cedeu às especulações nos meses seguintes. O conversor chegaria a custar R$ 800. Hoje, fala-se – inclusive o Ministério das Comunicações – em R$ 500, preço acima do que a maioria dos brasileiros pode pagar.
A presença da TV Digital afetará o modo de produção de conteúdos, o que inclui a linguagem. Como ficará a publicidade, cada vez mais ignorada nos intervalos comerciais e migrante para dentro dos programas? O jornalismo e o entretenimento? Ambos vão caminhar rumo à segmentação? Os conteúdos serão confeccionados por produtoras independentes? A Rede Globo, a maior do país, produz 95% da própria programação. Este índice já foi de 98%. Por outro lado, na TV a cabo, boa parte do que se assiste é feito por independentes ou adquirido de empresas estrangeiras. A emissora, há três meses, anunciou a extensão de contrato com a Playboy TV, ampliando de dois para sete os canais de programação erótica no sistema fechado.
A resposta é que ninguém sabe como ficará a programação. No máximo, perspectivas com base no passado ou exercícios baratos de futurologia. Até porque outro instrumento tecnológico integra o cenário: os celulares. Uma das vantagens do modelo japonês de transmissão é a portabilidade, ou seja, a capacidade de acompanhar a programação, com pouca perda de qualidade, em equipamentos móveis e de pequeno tamanho. As empresas de telefonia já perceberam este mercado e investem em equipamentos e gerenciamento de conteúdos.
O Brasil possui mais de cem milhões de assinantes de telefonia móvel, o maior índice da América Latina. Na outra face da moeda, é o país da mesma região com os serviços mais caros. É claro que a maioria dos aparelhos também precisa ser trocada, pois faz pouco além de emitir e receber chamadas. Aliás, a maioria dos assinantes utiliza serviços pré-pagos, o que afeta o consumo de conteúdos. Segundo o Ministério das Comunicações, o usuário nada pagará pelos programas assistidos em telefones móveis, porém as empresas de telefonia estudam mecanismos – desde publicidade até acesso a informações exclusivas – para laçar o consumidor pelas beiradas.
A imprevisibilidade da TV Digital ainda se sustenta na velocidade com que os equipamentos são modernizados. O sistema de consumo, quando unido à tecnologia, brinca com os preços, porém exige trocas sucessivas de aparelhos, visando atender aos novos modos de difundir informações, além de fomentar valores simbólicos como status e pertencimento social. Coitados daqueles que ainda pagam as 20 parcelas daquela TV LCD, diante da Oled TV, modelo produzido por uma marca japonesa, cuja tela tem três milímetros de espessura (um folha grossa de papel) com custo reduzido à metade das antecessoras.
O fato é que o prazo de dez anos para adequação à televisão digital dificilmente será cumprido. O país, de dimensões continentais, convive com um perfil de desigualdade social que gera disparidades tecnológicas. Trata-se de uma sociedade que ainda luta pela inclusão digital, consome cerca de 7,5 milhões de jornais por dia (só a maior publicação japonesa vende um terço disso) e dispõe de meia dúzia de canais abertos de televisão, com formatos, estética e linguagem parecidos.
Por enquanto, a TV Digital será privilégio para aqueles que possuem maior poder aquisitivo e que residem no Estado mais rico do país. É o contraste com o Brasil, no extremo norte, que vê apenas dois canais num aparelho em preto e branco e ouve rádio em espanhol, permeado por ritmos musicais colombianos. A difusão tecnológica, quando aliada ao consumismo, carrega em si – paradoxalmente – o poder de incluir e de excluir indivíduos da informação, do conhecimento e do entretenimento. Para os que podem pagar, o futuro é agora. Para a maioria, peça de ficção científica.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Por que os professores faltam? (publicado na versão impressa)

Independente do projeto de lei que pretendia punir professores faltosos, o debate político expôs as feridas da educação pública em Santos e em outras cidades da Baixada Santista. O conflito nos levou a uma pergunta, tão óbvia quanto distante da discussão entre educadores e políticos: por que os professores faltam tanto?
A questão aqui não é gastar tinta com “professores” que vivem para usar brechas do sistema em benefício próprio. Estes desconhecem o sentido do serviço público e – não importa quais modificações sejam feitas – agirão sempre de má-fé. Não se trata de legislação, mas de caráter falho. Fazem parte do processo, mas são causa e conseqüência de má gestão pública e de falta de cidadania.
As ausências do professorado simbolizam a imagem de uma categoria que se mostra desgastada, pressionada e vítima da falta de continuidade nas políticas públicas de educação no Brasil. A maioria esmagadora dos docentes têm mais de um emprego. Isso os obriga a jornadas duplas ou triplas, sempre com média de 35 alunos por sala, muitos deles desinteressados e envolvidos por um modelo genérico de escola autoritária, desconectada com a realidade e promotora da cultura do não-estudo. Os estudantes, dependendo do lugar, também são vítimas de lares mal estruturados e de um sistema político-econômico que promove a disparidade de renda.
No sistema público, faltam profissionais da educação. Muitos professores preferem atuar em outras atividades por causa dos baixos salários. Santos, por exemplo, convocou 300 professores este ano. Pouco mais da metade atendeu à convocação. Muitos optaram por trabalhar em outras cidades da região, como Cubatão, com salários mais atraentes.
As faltas no serviço público não são um problema apenas dos professores. A situação é difícil também nas equipes pedagógicas. Qualquer estudante de Pedagogia sabe que a equipe pode erguer ou afundar a escola, ainda mais em tempos de pregação da autonomia nas unidades de ensino. Pregação teórica, pois as políticas públicas continuam uniformes e pouco flexíveis, desconsiderando diferenças geográficas, culturais e sócio-econômicas.
Muitos coordenadores pedagógicos e assistentes de direção, por exemplo, possuem empregos em outras cidades ou em outras redes. Como podem cumprir oito horas de jornada de trabalho numa cidade e repetir a carga – mesmo que parcial - em outro endereço? Aulas de madrugada? O resultado é a flexibilidade informal, como revezamentos e compensações, entre os educadores.
A solução não requer mágica ou política partidária em torno do tema. Os próprios políticos nos indicam os caminhos a cada quatro anos nos palanques eletrônicos. A continuidade de políticas públicas e melhores condições de trabalho são apontadas como elementos primordiais para evitar o nomadismo entre os educadores e o abandono (literal ou motivacional) da docência. Isso passa por escolas com infra-estrutura sólida, envolvendo alunos, comunidade e educadores. E, acima de tudo, cobranças por desempenho. O profissionalismo deve partir de quem obedece, mas também de quem coordena e toma decisões.
De qualquer modo, pode-se esperar um desgaste político, há dez meses das eleições municipais, para a equipe que administra Santos. Pelo menos, junto à boa parte dos professores. Se esta possibilidade não existisse, o projeto não teria nascido morto. O que não surpreende também é o Poder Público manter a postura de lavar as mãos e responsabilizar os professores pelos problemas da educação. É como se um único ator fosse o culpado pelo fracasso do espetáculo.

domingo, 2 de dezembro de 2007

O pistoleiro solitário e os abutres de gravata

Dois fatos colocaram o tênis brasileiro, esta semana, novamente na agenda da mídia esportiva, tão carregada de conteúdo ufanista em tempos de embriaguez pela Copa do Mundo por aqui e de ressaca pelo mau momento da seleção brasileira de futebol. O primeiro acontecimento diz respeito à realização de uma etapa do Circuito Mundial de Veteranos, em São Paulo. Só participam jogadores que lideraram o ranking mundial, venceram, chegaram à final ou às semifinais de Grand Slam (Aberto da Austrália, US Open, Wimbledon e Roland Garros) ou disputaram finais de Copa Davis (campeonato anual entre países).
O paulistano pôde ver ex-atletas como os suecos Bjorn Borg e Mats Wilander, o argentino Guilhermo Villas e o espanhol Sergi Burguera (que perdeu uma final de Roland Garros para Gustavo Kuerten). O tenista brasileiro Fernando Meligeni participou pela segunda vez como convidado. Já havia jogado a etapa de Portugal. Meligeni, aliás, derrotou em São Paulo o sueco Mats Wilander, vencedor de sete Grand Slams e ex-número um.
Enquanto o clima é de festa entre os veteranos, o quadro é de desolação entre os profissionais. Gustavo Kuerten, que promete uma nova tentativa de recuperação em 2008, disse que a situação da modalidade hoje no Brasil é semelhante ao momento quando começava a carreira, em meados da década passada.
O Brasil vai terminar, pelo segundo ano consecutivo, a temporada sem um tenista entre os cem melhores do mundo. A Argentina, por exemplo, tem 11 jogadores nesta condição. Na Copa Davis, o Brasil está na segunda divisão. Em 2005, depois de um boicote dos atletas por causa de denúncias de corrupção na Confederação Brasileira de Tênis (CBT), o país chegou a cair para a terceira. Na década passada, disputou as semifinais da elite. Em outras palavras, chegou a ser uma das quatro melhores equipes do planeta.
Fernando Meligeni também aumentou a altura do fogo da fervura. O tenista, que ficou dez anos entre os cem melhores do ranking, chegou às semifinais de Roland Garros e foi 25º do mundo. Do alto de quem também foi medalha de ouro em Pan-Americano e quarto colocado em Jogos Olímpicos, Meligeni foi taxativo: a geração atual não tem apoio, mas também é preguiçosa.
No primeiro caso, significa que o esporte brasileiro novamente perdeu o bonde por causa da má gestão de dirigentes. As promessas de projetos sociais, quadras públicas, programas para popularizar a modalidade ficaram nas gargantas de um grupo de cartolas que saiu pela porta dos fundos para não ser investigado. Os patrocinadores, diante do amadorismo dos comandantes e da ausência de novos talentos, abandonaram – em sua maioria – as quadras. O mesmo vale para os canais esportivos, que – evidentemente – preferem transmitir os jogos dos grandes ídolos do circuito.
Tanto os mais velhos como os novatos pouco saem da América do Sul para jogar torneios. Preferem ficar atuando em competições menores no continente, o que os obriga a disputar mais partidas para manter um ranking, no máximo, mediano. Ou seja: os atletas brasileiros se limitam a disputar futures (categoria de torneios com premiação máxima de US$ 10 mil, voltados para revelações) e challengers (de US$ 25 mil a US$ 125 mil). O problema é que estes torneios estão concentrados no final do ano por aqui, o que dificulta a ascensão no ranking mundial.
Em termos práticos, o melhor tenista da atualidade é Marcos Daniel, de 30 anos, 123º da lista. Ele já foi 80º e deve somente atuar por mais dois ou três anos. Flavio Saretta, de 27 anos, ex-44º e hoje número 185, se recupera de uma fratura no braço e só volta ao circuito em fevereiro. O mineiro Ricardo Mello, o único da ativa a vencer um ATP (categoria dos torneios de primeiro nível), ocupa a posição de número 251, distante do 50º lugar alcançado há dois anos.
O melhor jogador do ano passado, o paulista Thiago Alves, de 25 anos, se encontra em situação crítica. Em 2006, terminou a temporada em 106º. Dois meses antes, atingiu o ápice: 95º lugar. Agora, é o número 371 e não apareceu – sequer preparou justificativa – para jogar um torneio future em Campinas na semana passada.
A única boa notícia são as duplas. André Sá e Marcelo Melo vão terminar o ano entre as 20 melhores duplas do planeta. Chegaram às semifinais de Wimbledon, às quartas no US Open e ganharam dois torneios. A mancha fica por conta do doping involuntário de Marcelo Melo, que gerou uma suspensão de dois meses. O atleta tomou o analgésico Neosaldina, que apresenta substância proibida, sem avisar as autoridades médicas. A dupla perdeu os pontos obtidos pelo desempenho nos Estados Unidos.
Mesmo diante de uma partida quase perdida, algumas revelações – por méritos próprios, de técnicos e de parentes – podem tirar uma bola salvadora do bolso. Thomas Belucci, por exemplo, subiu da 527º posição para 199º lugar em 2007. Melhor fez Daniel Silva, que começou a temporada em 1201º e hoje é 420º. Ambos têm apenas 19 anos.
Com Guga em final de carreira e com poucas chances de reeditar os momentos de glória, resta depositar esperanças naqueles que seguem a mesma sina do pistoleiro solitário: vagar de cidade em cidade, sem suporte, mas com adversários sempre a postos. Parte destes novos nomes poderão ser vistos em Santos até 2 de dezembro, nas quadras de saibro (terra batida) do Tênis Clube. É lá que acontece, a partir do dia 24, o último future do ano. Para quem crê em repetição de milagres ...

sábado, 24 de novembro de 2007

Infância, procura-se!!!

Ao visitar uma escola particular, em Santos, na semana retrasada, uma criança atraiu minha atenção. A menina, com três, quatro anos, era graciosa e esperta como qualquer outra, e estava vestida de bailarina para uma apresentação. Um elemento destoava do figurino, um batom vermelho fortíssimo, provavelmente mais adequado a ela daqui a alguns anos.
No início de novembro, uma reportagem de televisão indicava o crescimento acelerado de um novo segmento de clínicas de estética nas grandes cidades brasileiras, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. São espaços onde o público-alvo são crianças. Profissionais de beleza aplicavam nas clientes todos os tipos de badulaques e cosméticos típicos de uma sociedade cada vez mais obcecada pela aparência. Como no universo adulto, as garotas eram maioria, mas tinham que dividir lugar com os garotos.
Em paralelo, uma pesquisa voltada ao público infantil apontava, entre outros dados, que sete em cada dez meninas possuem esmalte para unhas. O item é mais presente no cotidiano delas do que muitos outros brinquedos tradicionais, rivalizando até com a secular boneca.
O conceito de infância, mesmo baseado em preceitos biológicos, é decorrente de olhares sociais e culturais e muito recente na história humana. Porém, nunca passou por alterações tão rápidas como nos últimos 20 anos, fruto da presença maciça de meios de comunicação, tecnologia e consumismo no cotidiano infantil.
Até a Segunda Guerra Mundial, a criança era vista, em linhas bastante genéricas, como um adulto pequeno. Tratava-se de uma versão em miniatura nas roupas, nos alimentos e sem os direitos básicos – hoje difundidos em todas as camadas sociais – como estudo, brincadeiras e a ausência de trabalho.
A partir dos anos 50, quando começa a se desenhar a sociedade de consumo, a criança vai ocupar um lugar secundário no alvo da indústria de massa. Há produtos específicos para elas, mas ainda atrelados às concepções tradicionais de família. Em outras palavras, a velha “família Doriana”: pai trabalhador, mãe dona-de-casa, casal de filhos.
A criança deixa o papel de coadjuvante e se transforma em público segmentado, bombardeada por técnicas de persuasão específicas em meados dos anos 70 nos Estados Unidos. Na década seguinte, no Brasil. Neste sentido, a consolidação de faixas de horário na TV para a programação infantil funciona como um divisor de águas para conquistar as mentes infantis. Vocês se lembram de uma loira, ex-modelo, cercada de outras loiras e personagens como Dengue e Praga, que oferecia todo o tipo de tranqueiras durante o programa e também nos intervalos comerciais? Ela é apenas o maior expoente de uma faixa de mercado que sabe que a televisão é o maior mecanismo de sedução para pessoas que ainda não possuem defesas psicológicas sólidas contra ela.
Atualmente, os produtos de massa – não as mercadorias particularizadas – reduziram a distância entre a infância e a vida adulta. Os dois públicos partilham o consumo de filmes, músicas, ícones pop e tecnologia. Bandas de rock, grupos de axé ou artistas do funk perceberam há anos que a peregrinação midiática abrange – necessariamente – os programas infantis. De certa forma, é uma ação supérflua, pois as crianças brasileiras – que passam em média cinco horas por dia na frente da TV – assistem mais novelas, filmes e até telejornais do que desenhos animados nos canais abertos. Filmes como Shrek e Homem-Aranha são produzidos para que alcancem o chamado público-família, no qual leituras diferenciadas podem ser feitas conforme a idade do espectador.
Em face destes fatores, muitos intelectuais e profissionais especializados discutem a sexualização precoce do público infantil. Isso se materializaria em comportamentos como o uso de termos, reações diante do sexo oposto, escolha de roupas e acessórios e, acima de tudo, a adoção de valores estéticos antes exclusivos do cenário adulto.
Os Estados Unidos, como Meca do consumismo e do capitalismo, fazem jus ao papel. As crianças respondem hoje por aproximadamente US$ 800 milhões em gastos para si. Montante equivalente é destinado para despesas indiretas, isto é, mercadorias que seduzam outros membros da família. Operadoras de turismo levam seus clientes para resorts exclusivos na Jamaica, onde podem relaxar na piscina com coquetéis sem álcool e fazer limpezas de pele e massagem no centro estético. Crianças são o foco de campanhas publicitárias de automóveis, imóveis, celulares e outros sonhos de consumo antes próprios dos adultos. No Brasil, o mesmo ocorre na publicidade. Os gastos infantis giram em torno de 10% do Produto Interno Bruto (PIB).
Se a sociedade contemporânea optou por queimar etapas, qual modelo de adulto teremos? Até que ponto a adolescência é afetada? Talvez as mães e pais que tentam se transformar em “amigões” dos filhos, dividindo roupas, namorados e baladas sejam um sinal. Ou a correria desenfreada para academias de ginástica e clínicas de cirurgia plástica também sirva para indicar uma obsessão pela eterna juventude. O Brasil é o segundo país do mundo em operações plásticas, 90% delas estéticas, e não reparadoras. Os adolescentes, com o corpo ainda em formação, são um quarto deste contingente.
Diante disso, qual seria a alternativa? Difícil dizer, evidentemente. Talvez a saída seja esperar que todos cresçam, independente da faixa etária. É pena que as crianças paguem o preço de se verem distorcidas no espelho durante a infância, etapa crucial da vida.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Os crimes de Watson

O britânico James Watson, de 79 anos, é um cientista brilhante, um dos biólogos mais renomados da atualidade. Ele e outros colegas ganharam o Prêmio Nobel de Medicina em 1963 por terem descoberto a estrutura do DNA nove anos antes. A descoberta, como se sabe, gerou benefícios para inúmeras áreas do conhecimento, desde a própria medicina até a criminologia. Ainda na ativa, Watson dava conferências pelo mundo e trabalhava no prestigiado Laboratório de Cold Spring Harbor.
Na semana passada, “Honest Jim”, apelido do cientista por causa de posições polêmicas, se aposentou. Perdeu o emprego e teve duas conferências canceladas pela Universidade de Edimburgo. O motivo foi uma entrevista concedida em 14 de outubro à revista dominical do jornal inglês “Sunday Times”, em função do livro “Avoid boring people” (Evite pessoas chatas), lançado recentemente.
Na entrevista, James Watson afirmou, entre outras declarações racistas, que se sentia pessimista sobre o futuro da África porque as políticas públicas para o continente se baseavam na premissa de que o nível de inteligência dos negros era idêntico ao dos brancos. E disse que todos os testes demonstravam uma superioridade branca.
O cientista britânico provocou uma enxurrada de artigos acadêmicos e de imprensa pelo mundo, a maioria reprovando seu pensamento. Poucos acadêmicos, como o cientista político norte-americano Charles Murray, do conservador American Enterprise Institute, o defenderam.
Descontando o show de mídia que uma declaração como essa produz, é fundamental que se leve em consideração o fato de que James Watson cometeu alguns crimes intelectuais, que vão desde a descontextualização histórica até o reducionismo cultural.
Em primeiro lugar, a África – como modelo continental único – é uma falácia resultante do projeto colonizador europeu. Desta ideologia dos séculos XIX e XX, surgiu a imagem de que a África se resume a um território selvagem, inóspito, caótico, primitivo, miserável, violento e doente, desconsiderando a multiplicidade cultural e étnica do continente, composto hoje por 53 países; aliás, a maioria demarcados pelos colonizadores europeus.
Esta imagem de continente único também alimenta a idéia de uma região aistórica, que só passou a fazer parte do mapa após a presença mais constante dos europeus a partir do período das grandes navegações, na segunda metade do século XV. Neste sentido, Watson foi reducionista, pois tentou enquadrar um continente múltiplo em apenas uma variável, a cor da pele, para defini-lo como inferior.
O cientista britânico, com suas declarações, também cometeu um segundo equívoco. Ressuscitou a ideologia científica da Escola Racialista européia de meados do século XIX, que misturava correntes de pensamento como positivismo e evolucionismo, além de adaptar o darwinismo para as relações sociais. Este conjunto de conceitos levou às políticas de eugenia e a posicionamentos bizarros diante da miscigenação.
O Brasil, por exemplo, entre 1870 e 1930, foi visitado constantemente por naturalistas e outros cientistas que enxergavam a mestiçagem como um fator exótico, mas também como elemento de degeneração. Daí, surgiram sucessivas distorções como propostas de reprodução em massa para branquear a população brasileira e pesquisas na área de medicina e criminologia, visando provar que negros (lembrem-se de que saíamos de séculos de regime escravocrata) eram indivíduos mais propensos ao crime.
Essa visão gerou e/ou fortaleceu uma série de danos à realidade brasileira como a racialização das relações sociais (vide cotas nas universidades) e a aparência como mecanismo de julgamento e definição da etnia do outro (pardos, morenos e outras nomenclaturas).
A perspectiva eugênica do século XIX também serviu de alicerce para a segregação racial nos Estados Unidos no século seguinte. Entre outros casos, as experiências científicas com índios e distribuição de remédios para a população negra, visando testar efeitos colaterais – é claro -, sem avisar a população.
O nazismo é talvez o fruto mais apodrecido deste instrumento de purificação por raça. Mas deve-se salientar que os Estados Unidos adotaram pesquisas semelhantes na mesma época e recuaram diante do quadro de genocídio que se desenhava na Europa no final dos anos 30.
A ciência, infelizmente, consegue – enquanto reprodutora de cenários político-ideológicos – cristalizar teorias que permanecem entranhadas no imaginário social e são utilizadas de acordo com interesses de controle e dominação. O que Watson deveria saber, ou não quis enxergar, é que os próprios cientistas têm sua cota de responsabilidade sobre a frágil associação entre raça e biologia.
Raça não é uma concepção científica, no sentido genético. Trata-se de uma construção social, cultural, com o intuito de estabelecer graus de superioridade e inferioridade entre grupos. Simplificando: é impossível provar – biologicamente – que um grupo racial pode ter mais habilidades do que outro. Até porque um único fator (raça, no caso) é incapaz de fornecer respostas científicas minimamente razoáveis. Além disso, a definição de grupos é feita pelo homem para seu uso e benefício e para poder controlar os outros por características imutáveis, como o tom da pele.
Honestamente, não sei se a aposentadoria de James Watson era necessária. Diante da percepção de um crime intelectual, o cientista britânico se desculpou em dois artigos. Mas tenho certeza de que suas idéias – pelo menos no que se referem às relações pelo critério de raça – caducaram há muito tempo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Futebol: negócio para quem manda, paixão para quem obedece

Apenas o torcedor mais ingênuo viu alguma novidade no circo montado pela mídia esta semana, para o previsível anúncio do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. Com a candidatura única, a tragédia estava anunciada. Tragédia porque o fardo é muito maior do que os dirigentes esportivos ousam declamar. Por parte da imprensa, houve todos os tipos de exageros, desde detalhes das 18 cidades que podem sediar jogos até a especulação em torno do Estádio do Maracanã como palco de uma final, o que reeditaria 1950. Seria a chance de nos redimirmos daquela derrota por 2 a 1 para o Uruguai?
Devemos prestar muita atenção, nos próximos sete anos, no monstro que se encontra por trás da retórica ufanista e do clamor pela “pátria de chuteiras”. O evento é um grande negócio, na casa de muitos bilhões de dólares, mas essa fatia do bolo será dividida por poucos glutões. De acordo com o que foi exposto até agora, a maior parte do dinheiro virá do nosso bolso. Portanto, prepare-se para pagar pela Copa do Mundo, financiada em 84 meses, o que não dá direito a ingressos em setores privilegiados.
Para que a festa aconteça, mudanças estruturais são uma questão de emergência, tanto nas praças esportivas como nos setores periféricos ao jogo de futebol, mas também de suma importância para a garantia de uma competição de nível internacional.
O país tem um prazo curto para aumentar a rede hoteleira, melhorar o sistema de transporte – o que envolve reformas em aeroportos e aperfeiçoamento das redes de ônibus e metrô -, tornar eficiente o sistema de saúde, fornecer a sensação de segurança para moradores e turistas, entre outras tarefas. Se todos os itens são discutidos há vários governos como doenças estruturais do Brasil, será que a Confederação Brasileira de Futebol, governos federal e estaduais, além de investidores privados, conseguirão arrumar a casa até 2014?
Se observamos o passado recente, a imagem vista pelo retrovisor é nebulosa, cheia de pontos escuros. O Pan-americano do Rio de Janeiro expôs todas as feridas sociais de uma grande cidade brasileira, colocou na vitrine o caminhar de um paquiderme chamado Estado e não nos trouxe uma imagem de eficiência das empresas privadas. A obra custou várias vezes o valor previsto. Muitas promessas ficaram, para variar, no projeto, como uma nova malha de transporte e a repaginação do sistema de trânsito.
Espaços esportivos construídos para o evento foram desativados ou serão adaptados para outras atividades. E as modalidades esportivas ditas amadoras? Desenvolveram-se? O número de praticantes, clubes e praças cresceu? O futebol feminino, por exemplo, ganhou múltiplos apoios? A Copa Brasil, que começou na última semana, não vale como argumento, pois terá a duração de pouco mais de um mês e é fruto de um resultado mais expressivo, o vice-campeonato mundial. Neste caso, virou um fato político e foi utilizado como tal. A modalidade já possui uma Liga Nacional, vencida em 2007 pelo Santos Futebol Clube. É ... o time da Vila é campeão brasileiro de futebol feminino.
O discurso ufanista praticado por políticos e representantes da mídia (a maior empresa do setor é visceralmente interessada no sucesso da Copa em função de contratos de transmissão e de publicidade) casa com a ausência de vozes críticas, salvo exceções que muitas vezes sequer conseguem subir no caixote e obter ressonância na multidão.
Bilhões de dólares saíram dos cofres para o Pan-americano e pouco deste montante foi investigado. A corrupção é a marca das grandes obras brasileiras. Se um projeto custa muito mais do que o previsto, qualquer pessoa com o mínimo de decência e/ou profissionalismo investigaria. Na teoria.
Desta maneira, a festa esportiva no Rio de Janeiro não serviu para comprovar que um evento de porte internacional seja capaz de reduzir desigualdades sociais ou resolver obstáculos na infra-estrutura. O que se viu foi a construção de um circo, a execução do espetáculo com a casa cheia e o posterior recolhimento da lona. Quem seria o palhaço no picadeiro? E o bilheteiro?
São 18 cidades brigando pelo poder de sediar jogos da Copa do Mundo. É uma disputa em que os bastidores valem mais do que a entrada em campo. Haverá transparência nos critérios de escolha? Como será manejado o dinheiro? E quem vai fiscalizar? Lembre-se, leitor, de que parte destes recursos financeiros são de ordem pública, oriundos de um modelo de gestão incapaz de solucionar as dificuldades mais elementares.
Rejeitar a idéia de uma Copa do Mundo por aqui não significa virar as costas para o patriotismo. Pelo contrário. Representa avaliar, indignar-se e, como brasileiro, perceber que nos encontramos diante de promessas demais, perspectivas de menos, vindas de grupos que não primam pela credibilidade. Contudo, recebem um cheque em branco, sem limite para gastar, e sabem explorar com eficiência o ingênuo exercício do patriotismo em competições esportivas. Triste a nação que deposita esperanças quase cegas em ídolos de chuteiras. A sorte é que faltam sete anos para que a partida termine.

Excelência, o vereador

Entre os séculos XVII e XVIII, França e Inglaterra eram duas das mais ricas nações européias. Sociedades estáveis, porém rígidas no sistema de classes, regidas pelas chamadas leis suntuárias. Em outras palavras, nações compostas por grupos de status, com imobilidade social quase absoluta. Os estilos de vida eram previamente estabelecidos e definiam, por exemplo, consumo, comportamentos e padrões alimentares. As leis suntuárias determinavam e regulavam o que deveria ser privilégio de um grupo social e proibido para outro segmento. Isso envolvia, entre outros aspectos, a luxuosidade da nobreza (mesmo que falida) e o posicionamento de um indivíduo na escala social.
O Brasil herdou diversas características culturais do mundo europeu. A monarquia, por exemplo, ultrapassava os limites da influência portuguesa, sua origem, e manifestava o dinamismo da cultura com elementos franceses e ingleses. Uma das heranças foi a estrutura de valores montada a partir das leis suntuárias. Isso significa, por exemplo, a forma de tratamento que um indivíduo deve receber dos outros, como forma de diferenciação e, principalmente, como símbolo de exercício de poder. Quando distorcido, sinal de arrogância, empáfia e autoritarismo.
Os vereadores de Santos, nesta semana, demonstraram mais uma vez como uma casa legislativa – já não chega o circo de Brasília! – pode se manter distante das preocupações sociais dos cidadãos que os elegeram. Guardando as devidas proporções, reproduziram comportamentos de um país governado por imperador no século XIX. Ou seja: os vereadores gastaram horas para debater um assunto que, no máximo, caberia na prateleira de uma perfumaria.
Quem esteve na Câmara de Santos testemunhou um debate acalorado, no qual vários políticos pediram a palavra para discursar em torno do projeto de lei do professor Reinaldo Martins (PT), que estabelecia uma mudança de tratamento entre eles. Se aprovado, os vereadores não seriam mais obrigados a chamar uns aos outros de Excelência, mas de senhor, um título definitivamente “menos nobre” para uma corte.
Uma discussão deste nível sequer mereceria um projeto de lei. Neste caso, a Câmara de Santos não difere da mentalidade das demais casas legislativas, em níveis estadual e federal. Elabora e vota leis em excesso, muitas vezes de pouco interesse ou nenhum interesse público, fora de contexto ou inaplicáveis pela sociedade ou pelos mecanismos de regulação. A conseqüência mais perversa desta postura são “as leis que pegam” e “as leis que não pegam”. A sabedoria popular – felizmente - nos indica o que a médio e longo prazos será ignorado, mesmo que venha de cima para baixo a golpes de caneta.
No entanto, o que há de se lamentar foi a participação efusiva de vários vereadores na defesa ou no ataque ao projeto de lei. Muitos aproveitaram o espaço para disparos pessoais ou que abrangessem outras esferas políticas, quando não se envolveram em argumentos que tentavam justificar a importância do termo Excelência. Até letras musicais serviram de suporte para ambos os lados. Um dos vereadores chegou a dizer que ser chamado de Excelência era uma referência direta ao trabalho como político.
A Câmara de Santos reproduz, a sua maneira, as leis suntuárias e as formalidades da corte monárquica brasileira. É claro que esta reverência pode ser vista em outros ambientes sociais, manifestadas – por exemplo – na expressão “você sabe com quem está falando?.” Não é privilégio dos senhores vereadores – como não tenho cargo eletivo, posso usar o termo.
A Câmara jamais deve refletir as rachaduras do espelho que desnuda a sociedade. É obrigação caminhar além do provincianismo, mas os vereadores – salvo exceções - infelizmente demonstraram como se preocupam com o status que a função lhes dá, sem se lembrar de que qualquer casa legislativa deve atender – única e exclusivamente – questões de relevância pública. Sorte que as eleições acontecerão em menos de um ano. Mas, eleitor, leve em conta com olhar crítico – ao fazer um balanço de quatro anos – os atos de caráter social dos candidatos, sem deixar de lado os desvios monárquicos.
Ah, o projeto foi rejeitado por 8 votos a 3. De qualquer modo, o resultado é o menos importante. O status de Excelência segue intacto. A história da cidade mudaria se a votação fosse diferente?

O salário da demagogia

A administração pública, que coloca na vitrine governantes e burocratas, padece – infelizmente – da previsibilidade. O que talvez torne o eleitor incapaz de enxergar tal comportamento é o fio de esperança de que sempre os políticos profissionais podem nos surpreender e pensar na coletividade. A ação previsível pôde ser testemunhada na última segunda-feira, dia 15 de outubro. O governo estadual deixou, obviamente, a data reservada para anunciar – de forma oficial – medidas em “benefício” dos professores.
O governador José Serra e a secretária estadual de Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, fizeram questão de, pessoalmente, informar que os professores receberiam bônus de R$ 1200, a serem pagos em até quatro parcelas. Além disso, a rede de ensino abriria mais vagas para supervisores e secretários, e a pasta da Educação permitiria que as licenças-prêmio de 30 dias fossem convertidas em dinheiro. Medidas necessárias? Sim, mas e a questão salarial?
Os professores da rede estadual não têm aumento há três anos. A secretaria alega que a categoria recebe quatro gratificações. Somadas, atingem a fortuna de R$ 329 no salário bruto. Todos sabemos que gratificações são paliativos. O que gera conseqüências de longo prazo, inclusive previdenciárias, são os salários.
No mesmo dia da festa política, a Folha de S.Paulo rasgou em manchete que um professor em início de carreira no Acre ganha 39% a mais do que o mesmo profissional em São Paulo. A reportagem tomava como base levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE). São Paulo é o oitavo estado em termos salariais. O Acre lidera o ranking. A seguir, Roraima, Tocantins e Alagoas, todos com custo de vida inferior ao estado mais rico do país.
O assunto desviou o impacto das medidas anunciadas pelo governador, que se colocou em estado de defesa. Aí entram as alegações clássicas:
1) a rede estadual paga gratificações que engordam a renda. O pacote de benefícios serve como valorização do professor;
2) é inviável comparar estados, que possuem estruturas educacionais diferentes;
3) a receita tributária por habitante é de R$ 2773 no Acre contra R$ 1600 em São Paulo.
A secretária estadual alegou, por sua vez, que salários não significam qualidade de ensino. Citou casos como o de Minas Gerais, governado também pelo PSDB, um dos três melhores desempenhos da quarta série no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Lá, os professores ganham menos do que em São Paulo. Por outro lado, o Acre – de acordo com a Folha de S.Paulo, subiu 13,8 pontos entre 2003 e 2005 no mesmo Saeb. São Paulo avançou meros 1,1 pontos no mesmo período.
O que a secretária quis dizer com isso? É possível fazer educação de qualidade com R$ 8,05 por hora-aula? É possível o professor ter acesso a bens culturais como cinema, peças de teatro e livros com salário de R$ 966 se trabalhar 30 horas por semana? Isso sem levar em conta as tarefas realizadas fora do ambiente escolar, como preparar aulas e corrigir trabalhos e provas. Um detalhe importante: o salário no Acre sem gratificações (R$ 1580) continua superior ao de São Paulo (R$ 1295), com os benefícios incluídos.
Neste sentido, ao menos, o governo estadual mantém a política anterior. A remuneração de um professor, em São Paulo, é ruim desde o governo Mário Covas. Quem não se lembra dos sucessivos protestos da categoria, às vezes até excessivos e violentos?
O governo estadual implementou, discretamente, mudanças no rumo da política pública de educação, que sinalizam um distanciamento do modelo Alckmin-Chalita. O retorno dos boletins, o rearranjo de ciclos seriais e a redução de programas nas escolas nos finais de semana indicam alterações estruturais de longo prazo.
Por um lado, é impossível prever os efeitos destas práticas. Por outro, repete-se o jeito brasileiro de encarar a educação: mudam os governantes, mudam os rumos da política. Pouco importa se pertencem ao mesmo partido. E, assim, o país permanece cego para as experiências de sucesso no exterior, onde pelo menos 20 anos de continuidade foram necessários para que se pudesse medir resultados estruturais na sociedade.
Em entrevista para a reportagem da Folha Online, a secretária Maria Helena Guimarães de Castro dá a impressão de fazer mea-culpa. "Os salários dos professores nunca são os que nós desejaríamos. Eu também sou professora, acho que todos nós achamos que educação é algo muito importante, que professores precisam ganhar muito bem, mas o Estado de São Paulo está fazendo esforço muito grande de política de valorização dos professores."
Ainda bem que os administradores públicos conseguem enxergar uma fresta de luz pelas vendas escuras da política. Mas a retórica burocrata se mantém previsível. E os 35 alunos, em média, por sala de aula também.

Professor: esperançoso e reclamão

Quando atravessava o pátio de uma das universidades de Santos, encontrei-a pela enésima vez, mas mantive minha distância platônica. Uma professora pequena, cansada, com feições sérias. Ao mesmo tempo, rápida, agitada, transmitindo a sensação de que sempre há algo por fazer. Talvez para não quebrar a aura que construí em torno dela, nunca me aproximei para agradecê-la. A professora foi uma das responsáveis pela minha paixão por livros, embora não concorde – 25 anos depois – com muitos de seus métodos. Mas o “estrago” estava feito: a leitura como combustível de formação do homem.
A lembrança pessoal é simplesmente o ponto de partida para a reflexão sobre este trabalhador contraditório, demasiado humano. É justo fazê-lo provar do próprio remédio? Sim, avaliá-lo sempre, e não enaltecê-lo um dia por ano. Distorção infeliz seria se apagássemos do quadro negro o antagonismo de suas qualidades e defeitos, elementos que o completam.
A cultura latina recomenda: mortos devem ser beatificados e dia comemorativos jamais devem servir para críticas. Assim deveria ser a reação diante de valores culturais: respeita-se, compreende-se, mas não necessariamente se aceita. A história brasileira, para ser mais específico, é desfavorável à figura do professor. O Brasil, durante a colonização e o período imperial, caminhou sem um sistema de ensino. A educação não fez parte dos planos durante quase 400 anos. A nação montou seus alicerces sem a presença de livros e educadores formais.
A elite brasileira sempre estudou fora do país. Ainda hoje o faz. Os endereços apenas se alternam. Inglaterra, França, Estados Unidos, Austrália. Depende do período histórico e dos cursos da moda. É claro que há exceções, mas que se mostram frágeis ou paliativas para mudar o cenário. O professor é personagem afetado diretamente; figura desvalorizada, vista muitas vezes como um empecilho para o desenvolvimento de um grupo de pessoas tuteladas por ele. Um entregador de informações para aqueles que visualizam os alunos como clientes e a escola como shopping center.
Pensar no papel social dele é o mínimo que se espera diante de um quadro tradicional de descontinuidade de políticas públicas. Este profissional é algoz e vítima da crise (eterna – podemos chamá-la assim?) da educação brasileira. O professor é vítima quando se mostra fruto do próprio sistema público, desmantelado a partir de 1964, inchado a partir da década passada e que hoje se enxerga diante de uma encruzilhada: apostar na qualidade e perder parte dos alunos ou direcionar os recursos para mantê-los por mais tempo na sala de aula a qualquer preço.
O capuz de algoz lhe cabe bem quando o sistema o posiciona como ator principal de um teatro de sombras, no qual o jogo de cena tem valor substancial, e a essência entra como elemento de figuração. Neste momento, veste o papel de operário no sentido de apenas cumprir programas genéricos, sem o tom de pessoalidade que deveria estar presente na rotina de um processo de ensino-aprendizagem.
Ser professor é uma atividade desconectada ao reconhecimento do outro. O puro contra-senso do ser humano, que busca nas pessoas seu próprio caminho. Isso fica mais evidente numa sociedade calcada nas aparências, na qual ser julgado e absolvido pelos pares é inerente às relações sociais. A falta de reconhecimento se manifesta pelo próprio trabalho dele, incapaz de ser demonstrado em períodos curtos e normalmente percebido – inclusive em momentos ruins – pelo exercício da memória do aluno quando fora da rede escolar.
O professor se caracteriza, por outro lado, pela insatisfação inerente a si mesmo. Todos os motivos anteriores o levam a reclamar do terreno a sua volta. Faz parte do exercício de crítica. Todo professor se julga um crítico social. O que ocorre, às vezes, é que muitos se deleitam com este exercício e se contentam em apenas ouvir o som da própria voz. Um prazer narcísico e doentio. A partir daí, sua figura se deteriora e ele sobrevive graças ao mero ritual mecânico de vomitar conteúdos para uma platéia disforme, desumanizada.
Na mesma universidade, outro professor me chama a atenção. Tive aulas com ele e somos colegas. Suas opiniões ultrapassam os limites das salas, ganham corredores e pátios. Ele personifica a esperança no discurso para formar novos jornalistas, em tempos de pressões do mundo do entretenimento e do marketing. Por outro lado, não deixa escapar a chance de se queixar de todos os atores envolvidos nos universos acadêmico e jornalístico, inclusive ele próprio.
Os dois professores, de português ou de jornalismo, têm seus métodos, seus paradoxos, suas esperanças. Levam com eles a consciência – cristalina como água – de que formar pessoas é um território que ultrapassa as frágeis fronteiras da transmissão de informação e conhecimento. Formam seres para o mundo. E, acima de tudo, carregam e exibem com orgulho as cicatrizes de suas contradições. São humanos e – por que não? - educadores.

Quando o cinema expõe feridas

O filme Tropa de Elite, com estréia antecipada para este final de semana, é um fenômeno. Não se trata de juízo de valor ou de gosto pessoal, mas de entender que a produção, além de expor feridas sociais, se transformou em um caso inédito da mídia brasileira.
A exposição de um Brasil paralelo, não-oficial, não está limitada às ações guerrilheiras dos policiais do Bope ao longo da trama. O filme dá nitidez e dimensão ao impacto que a economia informal (para escrever de forma educada) causa na sociedade brasileira. É a obra cinematográfica mais vista no país em 2007. As estimativas da imprensa falam em 3,5 milhões de espectadores antes da chegada às salas de cinema.
A distribuição paralela nos mostra como popularizar recursos tecnológicos colabora com a sensação de que é cada vez mais difícil controlar as relações de consumo. O público se comporta de maneira mais interativa, indo de encontro à mensagem e subvertendo a relação tradicional, que o colocava numa condição absolutamente passiva diante dos produtos de massa.
Por outro lado, a circulação do filme nos indica a presença mínima e ineficaz dos mecanismos de controle sobre os direitos da produção cultural. Cerca de 58% dos DVDs vendidos no Brasil, atualmente, são piratas. Isso implica – de certa forma, pois não consiste na única causa – numa sobrecarga sobre o preço final das chamadas mercadorias oficiais. Estabelece-se o círculo vicioso. Um país que gasta pouco com cultura mal mexe no bolso quando se trata de fiscalização.
Mais do que as facilidades de acesso ao conteúdo, o frenesi em torno de Tropa de Elite, obviamente, se deve ao impacto da trama e da forma como é contada. O filme levanta o tapete do cinismo, onde seguia inerte a podridão das políticas de segurança pública. Seria injusto afirmar que a história representa somente a visão do diretor José Padilha. Seria considerá-lo esquizofrênico. Colocando no contexto, quem produziu o documentário Ônibus 174, que caminha na direção oposta e foi acusado de apologia à marginalidade?
No entanto, o que me incomoda mais são as reações públicas diante de Tropa de Elite. O apresentador Luciano Huck, por exemplo, publicou artigo no jornal Folha de S.Paulo no último dia 1º, no qual contava que havia sido assaltado nos Jardins e propunha como solução necessária para reduzir a violência a presença do Bope, com capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura) incluído no pacote de limpeza. No caso, o único fato de a voz descontente ter sido de um apresentador é a ressonância. Ele fala para milhões e muitos podem acreditar cegamente em seu discurso moralista. Infelizmente, tal postura encontra eco em uma parcela considerável da sociedade, incapaz de enxergar mais fundo do que uma peça de ficção, baseada em fatos reais.
O filme é acusado de apologia à violência. Ele difere dos blockbusters americanos que inundam as salas de cinema e as locadoras de DVD? Ou das imagens da guerra no Iraque exibidas em horário nobre? É evidente que um modelo não justifica o outro, mas o paradoxo se apresenta com transparência. A violência de Tropa de Elite incomoda – ou faz vibrar como uma torcida na arena – porque se senta ao nosso lado, se posiciona diante do pára-brisa do carro no semáforo ou está de prontidão para atender fregueses na porta das badaladas casas noturnas.
Por isso, uma tropa disposta a matar quem estraga o cenário paradisíaco ganha adeptos (e não são poucos), que sustentam a tese de que a única forma de extinguir a violência é aplicar o mesmo remédio. Como se fosse possível definir com clareza quem é o inimigo, sua hierarquia e seus postos de combate. O inimigo está entranhado em nós. Ele não é independente, invisível (embora rezemos para que fosse) e distante. Divide os mesmos espaços, sonha com as mesmas marcas, mas – óbvio – em condições e status diferentes.
O filme caminha pelas vias do documentário e, com isso, consegue – pelo primor técnico – nos passar a pluralidade que, em muitas ocasiões, as produções jornalísticas pecam. Esta pluralidade ultrapassa o maniqueísmo polícia-bandido e coloca um terceiro ingrediente no processo social: os financiadores do tráfico. Não houve invenção da roda; apenas rompeu-se o cordão de hipocrisia que cerca o assunto. Ou seja: o inimigo está ao lado, interagindo e interferindo no cotidiano, mesmo nas sombras. Tropa de Elite, independente da ideologia de quem o vê, não permite que nenhum espectador passe ileso ao conteúdo. As balas respingam no público que – dos reacionários aos anárquicos – não consegue ficar indiferente. O filme cumpre a função que sempre se deve desejar de uma obra de arte: gerar a reflexão, incomodar o homem diante do mundo que o cerca e fazê-lo reagir diante disso. É, acima de tudo, o maior mérito da produção. É pena que, no mundo dos espectadores, valha mais o campo da retórica.

Renan e os espelhos

A sociedade do espetáculo é implacável. Fragmenta, relativiza, consome. Com ares novelescos, segue a fritura do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, que resiste em praça pública, com a provável consciência de que se transformou em um cadáver político. Mas ele sabe que, no caso do espetáculo político-midiático, ser um corpo em decomposição não significa a morte. A ressurreição de vários defuntos, que inclusive vagam pelo próprio Congresso Nacional, não nos deixa mentir.
O processo novelístico pelo qual passa a política profissional não é novo. Basta assistir a alguns minutos de CPIs para se perceber como a tecla rec de uma câmera faz milagres com o comportamento humano, transformando tímidos em extrovertidos, sangues de barata em leões. Nesse show artificial, choca o elevado grau de hipocrisia também daqueles que consomem o circo.
A partir dos discursos, que transitam da indignação ao conformismo, quase acreditei no grau único deste processo político, se não fosse por uma série de equívocos de ordem ética, cultural e histórica. A vida brasileira, desde o nascimento no século XVI, caminha de braços dados com a corrupção, a confusão entre o público e o privado, a ineficiência no gerenciamento de recursos públicos e as relações de favorecimento entre várias esferas de poder.
Somos um país eternamente em compasso de espera. O Estado veio antes da nação. Capitanias hereditárias? Derrama? Família Real no Rio? 50 anos em cinco? Estas fases se caracterizaram por costuras políticas distantes da transparência. É preciso uma pitada de história, mesmo que superficial, para que se lembre da necessidade de se compreender sucessão de fatos como processos. A corrupção está no sangue de parte da história brasileira. E esta história é feita, administrada e vivenciada por homens. Nem sempre políticos profissionais.
O quadro atual me remete ao conceito do paradoxo brasileiro, elaborado pelo filósofo e economista Eduardo Gianetti no livro “Vícios privados, benefícios públicos” (Cia.das Letras). Trata-se de um comportamento recorrente na sociedade brasileira. Os mais pessimistas crêem em traço cultural. Em momentos de crise, ocorre a omissão de responsabilidade. Os culpados são os outros. Como a Lei de Gerson (coitado, pagou o pato pela campanha publicitária de cigarro): o brasileiro quer levar vantagem em tudo. Nesta hora, os outros são os brasileiros. Quem julga, exercita seu moralismo e se distancia.
Em outras palavras, a ética pública não se dissocia da ética privada. Os eleitores que escolheram políticos com a ficha suja o fizeram com base em quais critérios? Com ares de indignação ou de complacência? Não é a mesma sociedade do “jeitinho brasileiro” ou do “você sabe com quem está falando”? Vale a pergunta do jornalista Bob Fernandes feita durante o programa Provocações, da TV Cultura:
- Quantos brasileiros prefeririam pagar os R$ 700 de uma multa de trânsito, se pudessem pagar R$ 50 para o guarda???
É óbvio que o senador deve ser punido pelos crimes que cometeu e, por conseqüência, ser enterrado politicamente com todas as pompas. Mas será o único cadáver do cemitério? E seus “reflexos” dentro e fora do Congresso? Serão os coveiros do ritual fúnebre? Omitir-se, abster-se ou transferir responsabilidade é um deslize ético equiparável ao do autor da transgressão. Independente se há uma câmera ligada.