sábado, 5 de agosto de 2017

Como viver sem ela?



Armando Cândido*

Eu mesmo já tive algumas famílias. A que nasci, a do meu primeiro casamento, a do segundo e a do terceiro também. Algumas outras não tinham vinculo sanguíneo ou afetivo. Eram famílias compostas de amigos que, de tão sincronizados, representavam minha família sim!

Falar desse assunto pode ser doloroso quando sentimos saudade. Da saudade que terei da filha que ganhei no meu último casamento. Quando ele acabou, por força das circunstâncias, ela veio morar comigo. Isso foi um alento pra mim! Diminuiu a solidão.

Todos os dias pela manhã, ela vinha me dar bom dia e pedir seu café. À noite, quando eu chegava do trabalho, ela me esperava na janela. Vinha correndo me contar todas as fofocas do dia. Na hora de dormir, deitávamos juntinhos, ela vinha me pedir carinho.

Nem tudo era um mar de rosas; às vezes, ela fazia as malcriações dela, tirava minha paciência com o excesso de energia e a bagunça que fazia quase o tempo todo. Aí eu tinha que ser enérgico e dar umas broncas. Mas logo minha irritação passava.

Ontem à noite, eu deixei meu prato em cima da pia antes de jantar, enquanto resolvia umas coisas. Quando fui pegar o prato, a danadinha tinha roubado um pedaço do meu frango! Fiquei muito bravo, fiquei sim, mas passou.

Hoje, enquanto escrevo essa crônica, a mãe dela está arrumando o apartamento novo. Mais tarde, ela vai me chamar para que eu leve nossa filha, que voltará a morar com a mãe.

Então me pergunto: como viver sem ela? Sem rir dela caçando mosquitos, rolando no chão com o arame da embalagem de pão, sem tropeçar nela enquanto se esfrega em minha pernas pedindo carinho, seus miados constantes de felicidade, pedindo comida ou reclamando de algo.

Qual seria a exata definição de família?

Papai, mamãe e filhinha? Será que uma família pode ter dois pais e nenhuma mãe, ou duas mães sem pai? Para os Titãs, ela pode incluir o cachorro, o gato e até uma galinha! Por que não?

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 


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