terça-feira, 4 de julho de 2017

O remédio da próxima página



Marcus Vinicius Batista

Estava há dois meses sem escrever. Ainda sou incapaz de detectar a fonte deste comportamento, mas tenho minhas desconfianças. Desconfio que tenha relação com uma percepção de papéis. Meu papel e o papel da literatura.

Nestas oito semanas de abstinência, cheguei a ficar incomodado com o fato de não produzir um texto sequer, exceto uma contracapa de livro. Cheguei a encarar como uma espécie de paralisia, algum tipo de transtorno que padecesse de tratamento. Estava, segundo este olhar, à frente da porta da depressão literária.

A reflexão sobre a angústia que me acometia me levou a uma resposta tão iluminadora quanto uma notícia de cura. Eu havia sido vítima de um falso diagnóstico. Erro meu. Enxergava apenas uma parte do quadro, olhava para o que seria um sintoma, quando deveria ter visto a etapa de um processo contínuo de metamorfose.

Se passei dois meses sem escrever, atravessei dois meses lendo como poucos, como em poucas fases de minha vida. Li cerca de dez livros no período, revisei e editei - ao lado de minha esposa Beth - duas obras. Reforcei o hábito de carregar um livro comigo para todos os endereços e os mantenho espalhados por todos os cômodos do nosso apartamento.

O livro de contos para as viagens de ônibus. O romance para as esperas na sala dos professores, antes de dar aula. O livro de banheiro. O livro para embaralhar os olhos antes de dormir e prometer a retomada de páginas no dia seguinte. O livro de Psicologia para observar o futuro que se avizinha na linha de vida profissional.

Livros são, para mim, a melhor invenção humana. Livros abriram minha cabeça, me ajudaram a entender melhor quem eu amo, a compreender e conviver com quem tolero, a sobreviver diante das minhas maldições, a ser um profissional mais habilidoso, técnico e competente.

Livros me lembram - todo o tempo - o quanto precisamos ser sensíveis numa tempestade de excessos, inclusive de informações, que nos induz a confundir achismo com argumento, debate com ganhar a conversa, liberdade de expressão com exercício de intolerância, diversidade com maniqueísmo.

Não consigo passar um dia sem ler. É feito o atleta que para de se exercitar e sente os efeitos químicos em seu organismo. A leitura me conforta, me anima, me descansa, me norteia, me transporta, me faz pensar e sentir.

Ler me oferece uma colherada ou uma refeição deste caldeirão de emoções e sentimentos que representam a minha relação de amor e gratidão com o livro.

Mesmo com esta declaração de amor, preciso fazer uma confissão: não sei - com honestidade - se a literatura salva o homem. Mas sei que a literatura - na escrita e na leitura - consegue me manter um homem saudável. É a boia onde me agarro neste mar selvagem chamado vida cotidiana.

Um comentário:

alexandre barros disse...

Caro professor, aprendi muito enquanto seu aluno, depois aprendi a gostar de crônicas lendo este espaço, os grandes escritores sempre precisam de pausa, nós os leitores sentimos falta de suas ideias sobre a realidade que nos cerca. Parabéns por mais um texto show de bola.