quinta-feira, 27 de julho de 2017

O dia em que joguei na Vila Belmiro




Marcus Vinicius Batista

O lateral-direito do Santos, Tim, vai ao ataque, recebe a bola, olha para os atacantes e cruza para dentro da área. O chute sai errado e toma a direção do gol. Cheiro de gol espírita, de sorte. O goleiro da Portuguesa Santista dá quatro, cinco passos para trás e se posiciona para projetar o corpo e fazer a defesa, sem rebote.

Com a bola nas mãos, percebi Paulo, um dos zagueiros gêmeos, livre de marcação. Sai jogando com ele para aliviar a pressão irregular dos últimos minutos. Ao retornar para a entrada da pequena área, cruzei o olhar com o de Nei, treinador de goleiros do profissional do Santos. Ele estava atrás do gol e me disse: "Excelente defesa, garoto!" Sorri e agradeci.

A noite de quarta-feira era muito fria. Tinha chovido durante a tarde, e o gramado da Vila Belmiro estava, em alguns pontos, escorregadio. A defesa aconteceu mais ou menos na metade do segundo tempo, no gol da entrada principal, com parte da torcida organizada já presente nas arquibancadas.

O primeiro tempo parecia jogo com portões fechados. Poucos chegariam cedo para ver o amistoso entre Santos e Portuguesa Santista, categoria sub-15, preliminar da partida entre Santos e Internacional de Limeira, pelo Campeonato Paulista de 1990.

Para nós, do outro lado do canal, o jogo era único. 1) enfrentar o Santos; 2) na Vila; 3) antes de um jogo profissional. No final, cinco mil pessoas assistiram à molecada ou, sendo honesto, esperaram o Santos em péssima fase, naquela entressafra do final do século 20. Era o sexto dos 18 anos sem títulos importantes.

Soube do convite para o amistoso duas semanas antes. Não sabia se jogaria porque a Briosa formaria um combinado entre atletas de 15 a 17 anos. Como eu tinha 15, provavelmente sobraria. Os mais novos costumam esperar e depois repetem o processo ao envelhecerem. No máximo, eu esquentaria a bunda no banco de plástico. Qual a chance de um goleiro entrar durante uma partida de futebol?

Minha esperança era que, de vez em quando, treinava na categoria de cima, principalmente durante as férias escolares. O técnico Zé Luiz, o Galo, me chamava para jogar com atletas maiores e mais rápidos, talvez porque eu já tivesse 1,85 metros. Ou para completar como goleiro do time reserva.

Pisar na Vila Belmiro seria o auge para um doente por futebol, obcecado com o sonho de ser jogador. Fora a escola, em que tirava notas altas para treinar e competir em paz, o resto do tempo era futebol. Jogava futsal no Saldanha (mais o campeonato interno no campo), no time da classe, da molecada da rua, dos zeladores da mesma rua, no society do Banespa, na turma da praia, e também as participações free-lancers. Chegava a jogar todos os dias da semana, às vezes dois períodos.

Quando faltava uns dois, três dias para o amistoso, o técnico me chamou de canto e disse sem rodeios: "você vai jogar, tranquilo?" Gaguejei e respondi em seis sílabas: "Tranquilo, professor!"

Confesso que me esqueci da maioria dos nomes dos colegas daquela noite. Muitos ainda vejo na rua, com os cabelos embranquecendo. Lembro-me dos zagueiros gêmeos, Marcos e Paulo, seguros quando juntos. Parecia uma simbiose, um cordão umbilical invisível que os tornava de total confiança. Soube, anos depois, que foram trabalhar em bancos. Ou viraram advogados?

Na meia, o Daniel, amigo de adolescência e também companheiro de viagens de bicicleta, da Ponta da Praia até o Estádio Ulrico Mursa, onde treinamos e jogamos por três anos e meio, além das parcerias em times de praia. Nunca mais o vi. Os volantes eram o Aroldo e o Pizzo. Aroldo, mais força física e destruição. Pizzo, um volante de baixa estatura e habilidade para levar a bola aos meias.

O vestiário da Vila Belmiro era fascinante. Maior e muito melhor equipado do que o nosso, em Ulrico Mursa. Mas nada mais glamouroso para um adolescente de 15 anos do que ouvir a preleção do técnico Galo, sabendo que vai atravessar o túnel do estádio e jogar. Jogar com torcida, ainda que contra, ainda que no morde e assopra porque - oras - a Briosa recebe o carinho de todos.

Naquela noite de quarta, fizemos um primeiro tempo na defesa. Passamos o ferrolho, como dizem os mais velhos. O Santos, em contrapartida, não ajudava. Os caras estavam nervosos, sentindo-se pressionados de jogar na própria Vila. Em 1990, não existia CT. Os meninos treinavam no antigo Campo do Chico Guimarães, onde hoje é o Centro de Treinamento ou no campo do 2º BC, do Exército, em São Vicente. A Vila era distante mesmo.

Eu esperava por aquela noite e estava no máximo da concentração para inutilizar o medo. Parecia hiperativo, enquanto tranquilizava a defesa. O Santos não assustava. Alguns chutes, todos de fora da área, geralmente em cima de mim, no meio do gol. Um ou outro cruzamento sem sustos.

Até que eles ganharam um escanteio do lado esquerdo do ataque. Escanteio com a bola bem alta, na marca do pênalti. Um dos gêmeos rebateu mal e a bola sobrou para o atacante Marcelo, com quem havia jogado no Vasco da Gama. De direita, na entrada da pequena área, ele me matou: 1 a 0.

Daí em diante, ficamos mais fechados ainda. A torcida pegava no pé do moleques do Santos, com vaias e xingamentos, o que facilitava nossa vida. Talvez uma premonição do que seriam aqueles anos de pindaíba. Salvo aquela defesa no segundo tempo, só em outra ocasião que ouvi o grito da torcida quando uma bola passou perto do gol: uuuuuuuuuuuuuuuuuhh!!! Ensurdecedor e indescritível prazer.

Perdemos por 1 a 0, mas saímos com a sensação de que vencemos. Calamos os rumores de que seríamos goleados. Um time formado por moleques de Santos e São Vicente, muitos de escolinha de clube, outros de times de escola, vários da praia. Época que empresário só existia no profissional; Juan Figer e olhe lá.

Depois do banho e do lanche, fomos para a arquibancada ver o jogo principal. Cadeiras, e não o piso duro e gelado da arquibancada, para testemunhar Santos 3 X 3 Internacional de Limeira. No Santos, me lembro que dois gols foram marcados pelo zagueiro Camilo, um espigão de mais de 1,90 metros, nascido em São Vicente. E, no ataque, jogou um ponta-esquerda, também daqui, mas contratado junto ao Naviraiense, de Mato Grosso do Sul. O nome dele era Edson Ampola. Como a torcida o xingou naquela noite.

Parei de jogar futebol como atleta aos 18 anos, justamente quando treinava no Santos. Era mediano, na melhor das hipóteses. Não vou a um estádio há quase um ano. A última vez, para ver a Portuguesa Santista vencer o Campeonato Paulista da Quarta Divisão. Foi a única vez que levei minha esposa Beth a um campo de futebol.

O futebol ainda é o primeiro amor, que se manifesta nas peladas de futebol society, nas resenhas pós-jogo, nas conversas com meus alunos que começam no Jornalismo esportivo. Pouco na TV, porque os times brasileiros ficaram chatos demais.

Mas aquela quarta-feira à noite, vestindo a camisa da Briosa, foi o beijo mais intenso de um casamento que a memória depositou nas gavetas mais carinhosas.

Obs.: Texto publicado no site Juicy Santos, em 15 de junho de 2016.


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