quarta-feira, 19 de julho de 2017

Saudades


Imagem ilustrativa 

Betty Watanabe*

Numa dessas tardes de outono ensolarada, mas com um pouco do ventinho gelado da brisa do mar, 18 de abril, começou a sua queda, parte por parte.

O desaparecimento dele vinha sendo previsto desde a última tempestade de final de dezembro. Suas sementes encheram a calha, inundando toda a parte de cima do sobrado.

Senti na pele o desespero quando você vê suas coisas molhadas. Senti medo dele desabar sobre nosso lar devido ao grande aborrecimento que nos causou e à chance de uma ventania mais forte.

Com tudo preparado, chegou a hora fatal. Um a um, a cada galho quebrado, um sentimento de perda, de tristeza, visto que participou de vários natais de nossas vidas, além de ter sido plantado por minhas mãos.

Era o cartão de natal da época, imponente, todo reto, mais ou menos 22 metros de altura. Quando iluminado, era visto por todos os ângulos e por olhares mais longínquos. Sinalizava o sobrado verde de esquina.

Para meu consolo, deixou duas heranças: o de 1,50m de altura, que será plantado ao lado de seu tronco, hoje mesa para os pássaros que aqui chegam sedentos de frutas. E o mais novo, com pouco mais de 5cm, que daqui alguns anos substituirá a plantada agora.

O visitante mais frustrado, o carcará, avistava suas presas de tempos em tempos, do alto desta árvore exótica. Deve ter perdido seu ponto de apoio. E o que dizer da vizinhança e dos transeuntes, que paravam para apreciarem com dó a sua queda, musicada com o som fúnebre da moto serra?

Que saudade do meu pinheiro natalino. A casa parece pelada, sem sua presença verdejante a brilhar.

* Betty Watanabe é presidente da Academia Itanhaense de Letras.


A janela do segundo andar



Tathiane Valério*

Da janela do apartamento, o dia começa com sol entre nuvens, mas vai esquentar, é o que o ar indica. Pessoas saem de casa, andam pelas ruas, não se falam, somente se cruzam, podem até conhecer um ao outro, por fazerem o mesmo caminho todos os dias; entretanto, não se cumprimentam.

O volume de pessoas e carros na rua aumenta de acordo com as horas, e o sol esquenta na mesma proporção. Do segundo andar, ouço o barulho dos equipamentos da academia, que fica embaixo do prédio. Quando caem no chão, sempre tenho a impressão que alguém bateu a cabeça.

Os carros e ônibus que passam pela avenida caem no mesmo buraco todos os dias. Será que eles esquecem que ali tem um buraco? Na direção do buraco, há uma banca de jornal, muitos carros param e o jornaleiro entrega o jornal sem o motorista sair do carro, como quem compra um café. Outros param somente para bater papo.

Todos os dias, por volta das 11 horas, a senhora de meia idade volta da academia e eu ainda acordando. Um senhor aposentado passeia com seu cãozinho pelo canteiro central da avenida; ele e muitos outros.

O “segurança” da locadora de DVDs, extinta pela tecnologia, ainda cumpre seu horário todos os dias como quem guarda o banquinho do canteiro. Pessoas atravessam a rua correndo para não serem atropeladas.

Do outro lado da avenida, uma ambulância pede passagem, os motoristas demoram em tomar uma decisão, enquanto outros aproveitam o caminho da ambulância pra seguir viagem.

Um dia aparentemente tranqüilo. Deixei, então, a janela entreaberta e fui tomar um banho. Logo que entrei no chuveiro, ouvi barulhos, parecidos com bombinhas, tiros, nunca sei identificar ao certo. Entretanto, não acreditei que fossem, por se tratar de uma avenida movimentada, imagina...

A curiosidade tomou conta do meu pensamento. Se saísse correndo para olhar, molharia todo o chão. Sem muito pensar, estava abrindo a janela, enrolada na toalha, com a certeza de que não era nada.

A imagem que vi quando abri a janela era de um homem todo de branco, parecia um açougueiro, caído no chão, o sangue já aparecia. Olhei ao redor procurando pistas, como Sherlock Holmes, enquanto as pessoas se aglomeravam. Alguns apontavam, como que mostrando por onde foram os suspeitos. Li nos lábios das pessoas que eram dois indivíduos em uma moto. A polícia estava chegando e pessoas brotaram da terra, como erva daninha. A polícia conteve a multidão.

— Será que o homem ainda está vivo?- ouvi alguém dizer.

A ambulância chegou e levou o homem baleado. Eu voltei para o meu banho e depois sequei o chão. No telejornal local, veio a notícia: o homem faleceu dentro da ambulância.

Obs.: Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu nos dias 10 e 12 de julho, no Lobo Estúdio, em Santos.


terça-feira, 4 de julho de 2017

O remédio da próxima página



Marcus Vinicius Batista

Estava há dois meses sem escrever. Ainda sou incapaz de detectar a fonte deste comportamento, mas tenho minhas desconfianças. Desconfio que tenha relação com uma percepção de papéis. Meu papel e o papel da literatura.

Nestas oito semanas de abstinência, cheguei a ficar incomodado com o fato de não produzir um texto sequer, exceto uma contracapa de livro. Cheguei a encarar como uma espécie de paralisia, algum tipo de transtorno que padecesse de tratamento. Estava, segundo este olhar, à frente da porta da depressão literária.

A reflexão sobre a angústia que me acometia me levou a uma resposta tão iluminadora quanto uma notícia de cura. Eu havia sido vítima de um falso diagnóstico. Erro meu. Enxergava apenas uma parte do quadro, olhava para o que seria um sintoma, quando deveria ter visto a etapa de um processo contínuo de metamorfose.

Se passei dois meses sem escrever, atravessei dois meses lendo como poucos, como em poucas fases de minha vida. Li cerca de dez livros no período, revisei e editei - ao lado de minha esposa Beth - duas obras. Reforcei o hábito de carregar um livro comigo para todos os endereços e os mantenho espalhados por todos os cômodos do nosso apartamento.

O livro de contos para as viagens de ônibus. O romance para as esperas na sala dos professores, antes de dar aula. O livro de banheiro. O livro para embaralhar os olhos antes de dormir e prometer a retomada de páginas no dia seguinte. O livro de Psicologia para observar o futuro que se avizinha na linha de vida profissional.

Livros são, para mim, a melhor invenção humana. Livros abriram minha cabeça, me ajudaram a entender melhor quem eu amo, a compreender e conviver com quem tolero, a sobreviver diante das minhas maldições, a ser um profissional mais habilidoso, técnico e competente.

Livros me lembram - todo o tempo - o quanto precisamos ser sensíveis numa tempestade de excessos, inclusive de informações, que nos induz a confundir achismo com argumento, debate com ganhar a conversa, liberdade de expressão com exercício de intolerância, diversidade com maniqueísmo.

Não consigo passar um dia sem ler. É feito o atleta que para de se exercitar e sente os efeitos químicos em seu organismo. A leitura me conforta, me anima, me descansa, me norteia, me transporta, me faz pensar e sentir.

Ler me oferece uma colherada ou uma refeição deste caldeirão de emoções e sentimentos que representam a minha relação de amor e gratidão com o livro.

Mesmo com esta declaração de amor, preciso fazer uma confissão: não sei - com honestidade - se a literatura salva o homem. Mas sei que a literatura - na escrita e na leitura - consegue me manter um homem saudável. É a boia onde me agarro neste mar selvagem chamado vida cotidiana.