segunda-feira, 29 de maio de 2017

É ruim, viu!



Ricardo Rugai

Era sábado e eu colei num samba do Bexiga, onde encontraria meu camarada Mogly, amigo tosco das antigas. Esquema de rua com o pessoal do bairro e a roda Madeira de Lei, comandada pelo Seu Namur. Só a fina flor do Bexiga, tudo diplomata.

Aproveitei pra levar uma das minhas cervejas artesanais pra galera apreciar. Uma vez chegados, já pusemos pra gelar. E era uma IPA, quase na fronteira de uma Imperial IPA, o que para os leigos é uma pequena paulada de amargor, álcool e sabor, normalmente choca um paladar de breja comercial. Deixamos e esquecemos, engatamos no papo e na cantoria do samba, administrando a sede com Heineken e ou até uma Skol em algum momento.

Enquanto o samba ia comendo, as cabeças eram feitas com cerveja, cachaça e baforadas. Quase no fim do samba, passava de meia noite e meia, lembramos da breja. Bateu aquele pânico de ter congelado...só que não...estava no ponto. Aquele gelado que já refresca, mas nem tanto que anestesie o paladar.

Abrimos, servimos e o Mogli fez um dos copos rodar a banca pra galera que nunca tinha molhado o beiço numa artesanal dar seus primeiros goles. Ali, muito cachaceiro com estrada, de respeito mesmo, nunca tinha bebericado uma dessas. E é sempre um prazer apresentar uma artesanal para as pessoas, um bem que se faz a elas.

A maioria curtiu, fazendo cara de surpresa. Mas um maluco teve a reação mais cabulosa. O Leitão trampa fazendo bico aqui e ali, faz de tudo um pouco e, na real, sonha em viver só do ralo na escola de samba...o que é dureza.

Ele deu uma bela golada, fez uma caretinha, olhou bem pra minha cara e mandou:

— Vou te dizer uma parada real, porque eu sou verdadeiro..o bagulho é ruim, mano, sério memo...é ruim.....
Enquanto repetia, seguia bebendo em pequenos goles. E repetia:

— Vou te falar...é ruim, mano!

E bebia, já abrindo um sorriso, mandava outro gole e a lançava:

— Tu é meu bróder, mas tenho que dizer: é ruim,mano..

Cada volta nessa pegada, tinha mais gole, mais sorriso e a frase foi perdendo o sentido. Num certo ponto, o Leitão, já meio em conflito interno, mandou:

— É ruim, mas quando eu digo ruim, não quer dizer que é ruim...é tipo ruim, mas bom, manja? Tipo o ruim dela é bom, é da hora...tipo...tipo...estilo pimenta, tá ligado? Que dá aquele ardida ruim, mas é bom! Então é nessa pegada...eu gostei desse ruim, hein! Tem mais aí?

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