quarta-feira, 31 de maio de 2017

A outra palavra


Eliana Greco

O texto tinha que ficar pronto na aula de Jornalismo.

A professora, com toda a paciência do mundo, falou umas três vezes:

— Vai lá e troca por outra palavra!

Ela encerrou sugerindo:

— Você deveria comprar um dicionário de sinônimos e antônimos. Vai te ajudar muito.

Por vários fatores, não comprei o dicionário, mas - ao escrever textos - eu me lembro que quero ter o papel em minhas mãos.

Acredito que nada é por um acaso. Em uma dessas noites que parece que tudo vai dar certo, eu conversava com o coordenador do Projeto Rondon na sala dele e comentei do tal dicionário de sinônimos e antônimos.

Silêncio!

Calmamente e com um leve sorriso nos lábios, o professor levantou-se, abriu o armário pegou algo “pequeno” e escuro. Ele estendeu a mão, aumentou o sorriso e disse:

— Seria esse? Já é com a nova ortografia! É seu agora!

Era ele o tão esperado dicionário de “outras palavras”. Peguei e me emocionei. Muitas vezes, prefiro enviar para o céu o que eu preciso e com certeza alguém me envia de lá.

Atravesso de um prédio ao outro da universidade, com o dicionário nas mãos, medo de perdê-lo. Tenho aula de Jornalismo.

É ela, agora é minha vez de abrir meu melhor sorriso.

— Professora!, falei em voz alta.
Estendi minhas mãos e mostrei o dicionário de “outras palavras”, como gosto de chamar.

Alguns vão dizer, mas é tão rápido e prático olhar na internet. Eu faço isso também. O prazer de virar folha por folha, encontrar a palavra - por exemplo - AMOR e ler: afeição.

Assim, sigo e busco “A OUTRA PALAVRA “.

Obs.: Texto que nasceu do curso: "Crônica - amor pela vida cotidiana", ministrado por Marcus Vinicius Batista.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

É ruim, viu!



Ricardo Rugai

Era sábado e eu colei num samba do Bexiga, onde encontraria meu camarada Mogly, amigo tosco das antigas. Esquema de rua com o pessoal do bairro e a roda Madeira de Lei, comandada pelo Seu Namur. Só a fina flor do Bexiga, tudo diplomata.

Aproveitei pra levar uma das minhas cervejas artesanais pra galera apreciar. Uma vez chegados, já pusemos pra gelar. E era uma IPA, quase na fronteira de uma Imperial IPA, o que para os leigos é uma pequena paulada de amargor, álcool e sabor, normalmente choca um paladar de breja comercial. Deixamos e esquecemos, engatamos no papo e na cantoria do samba, administrando a sede com Heineken e ou até uma Skol em algum momento.

Enquanto o samba ia comendo, as cabeças eram feitas com cerveja, cachaça e baforadas. Quase no fim do samba, passava de meia noite e meia, lembramos da breja. Bateu aquele pânico de ter congelado...só que não...estava no ponto. Aquele gelado que já refresca, mas nem tanto que anestesie o paladar.

Abrimos, servimos e o Mogli fez um dos copos rodar a banca pra galera que nunca tinha molhado o beiço numa artesanal dar seus primeiros goles. Ali, muito cachaceiro com estrada, de respeito mesmo, nunca tinha bebericado uma dessas. E é sempre um prazer apresentar uma artesanal para as pessoas, um bem que se faz a elas.

A maioria curtiu, fazendo cara de surpresa. Mas um maluco teve a reação mais cabulosa. O Leitão trampa fazendo bico aqui e ali, faz de tudo um pouco e, na real, sonha em viver só do ralo na escola de samba...o que é dureza.

Ele deu uma bela golada, fez uma caretinha, olhou bem pra minha cara e mandou:

— Vou te dizer uma parada real, porque eu sou verdadeiro..o bagulho é ruim, mano, sério memo...é ruim.....
Enquanto repetia, seguia bebendo em pequenos goles. E repetia:

— Vou te falar...é ruim, mano!

E bebia, já abrindo um sorriso, mandava outro gole e a lançava:

— Tu é meu bróder, mas tenho que dizer: é ruim,mano..

Cada volta nessa pegada, tinha mais gole, mais sorriso e a frase foi perdendo o sentido. Num certo ponto, o Leitão, já meio em conflito interno, mandou:

— É ruim, mas quando eu digo ruim, não quer dizer que é ruim...é tipo ruim, mas bom, manja? Tipo o ruim dela é bom, é da hora...tipo...tipo...estilo pimenta, tá ligado? Que dá aquele ardida ruim, mas é bom! Então é nessa pegada...eu gostei desse ruim, hein! Tem mais aí?

terça-feira, 23 de maio de 2017

Na montanha fria de Vargem Alta

Na entrada do alojamento, em Vargem Alta
Eliana Greco

Na manhã fria de um domingo, o ônibus saiu de Vila Velha para percorrer mais de 121 km até Vargem Alta, no Espírito Santo. Fui uma das primeiras a descer, pois estava fotografando tudo. As malas tomavam conta da calçada sem asfalto coberta de grama, diante do Centro de Convivência do Idoso. O portão de madeira azul, aberto, convida a entrar.

Amarelo, vou chamar o local assim, pois as paredes amarelas combinavam com nossos uniformes do Projeto Rondon. Um a um, entramos timidamente, olhando, carregando as malas uns dos outros, pegando os colchões e cobertores que previamente estavam arrumados num dos cômodos para nós.

A outra equipe, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, aos poucos se misturava com a nossa e não sabíamos que lá na frente nos tornaríamos grandes amigos.

À tarde, as duas equipes de alunos e professores pela primeira vez tomaram café juntos, um chimarrão compartilhado entre todos da roda formada no salão amarelo. Uma voz interrompe o silêncio toda vez que alguém pega na cuia: “Não se esqueça de tomar o chimarrão totalmente, fazendo a cuia roncar". Ainda escuto mentalmente essa voz típica e suave.


O salão amarelo, base do Projeto Rondon
Hora de dormir, hora de acordar, cada um pronto e ansioso para fazer a sua parte, deixar na cidade, nas comunidades o que a faculdade e o treinamento nos prepararam para essa operação Itapemirim.

Durante as semanas entre a névoa que caía todas as manhãs e as noites frias, desempenhamos o nosso mais amoroso papel: capacitar e deixar a semente. Confiança e credibilidade já criavam raízes entre moradores, professores, feirantes e funcionários do local.

As comunidades distantes, cercadas por enormes montanhas de mármore bruto e frio, eram os endereços de pessoas simples, esperançosas e com curiosidade de aprender.

Levei em minha mala, além de roupas e objetos pessoais, histórias para contar, e contei várias vezes até ficar sem voz. No olhar, nas caras e bocas ouvindo as histórias, escutando sobre um rei que sentia vergonha por nascer sem as orelhas, um menino que maltratava os animais, a linda joaninha que perdeu as pintinhas, percebi que ali também tinham pessoas que nasceram com algo que as incomodava muito. Meninos entre a platéia que faziam algo de ruim com animais, como na história da joaninha. Dei-me conta que meu melhor papel era esse: “falar sério brincando”.

Eliana Greco, em Vargem Alta (ES)

Sabia que teria que deixar tudo isso, mas dentro de mim algo ecoava que não estava ali por um acaso do destino. Não poderia partir sem ter a certeza do que foi dito, feito e indicado surtiria efeito lá na frente. Na tarde e noite do dia anterior, duas pessoas me disseram: “não vá embora, precisamos de você aqui, aprendi muito com as suas histórias”. Chorei.

Depois de 15 dias longe da família, é chegada a hora de partir, cada um em seu canto, arrumando as malas. Parei e, por alguns instantes, percebi que eu não só guardava minhas roupas e objetos, mas enchia minha mala de histórias de vida, histórias de anulação, histórias de esperança, histórias de discriminação e de violência infantil.

Rondon é assim mesmo: muitas vezes entregamos e levamos de volta o que imaginávamos buscar!

Obs.: Este texto é fruto do curso "Crônicas: o amor pela vida cotidiana", dado por Marcus Vinicius Batista. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Jogo do Desapego

Beth Soares


Volta e meia a questão do desapego volta à pauta de destaque entre os milhares de assuntos que se intrincam na minha mente. Passei longos dias inconscientemente bolando um discurso no qual eu era, ao mesmo tempo, oradora, ouvinte e personagem desapegada.

Reuni provas, testemunhos, dediquei meus ouvidos analíticos a histórias sobre mim que legitimavam essa ideia, ainda que quem as contasse fosse eu mesma, do alto do meu posto de observadora profundamente parcial.

Eu, desapegada, doei tantas roupas, sapatos, móveis, ao longo da vida emprestei tantos livros que não foram devolvidos e nunca mais fiz questão deles. Doei tanto à caridade, seja em forma de dinheiro, comida, ouvidos atentos ou trabalhos não-remunerados. Não é este um grande exemplo de desapego ao presente?

Além disso, não sinto essa tal saudade do passado, que observo permear a vida de tantas pessoas. Não tenho interesse em querer revivê-lo, como tantos tentam. Para dizer a verdade, acho mesmo é triste que as pessoas se esforcem por tentar voltar a um tempo que, muitas vezes, foi construído, senão totalmente, em parte significante apenas na fantasia. Este é meu testemunho de desapego ao que passou.

Desapegada que sou até de mim, não temo a morte. Sentei-me com ela na mesma mesa. Dividimos a conta – metade para ela, metade para mim. Todos ganham, todos perdem. Não tenho nela uma inimiga. Ela pode vir quando quiser. Qual prova de desapego ao futuro pode ser mais explícita?

Tentei me convencer que a questão do apego estava praticamente resolvida nesta minha existência. Mas a mente é capaz de desmentir os planos mais sofisticados, rasgar em segundos o roteiro que escrevemos por meses, destruir com um sopro a trama que estruturamos por anos. Ela finge que aceita, para, em seguida, nos expor sem nenhuma possibilidade de contra argumentação.

Não posso por isso ser injusta e dizer que minha mente é cruel. Pelo menos não sempre. Às vezes ela é sutil. No meu caso, para revelar minhas tentativas contundentes de autoengano, ela se aproveita do momento em que não estou alerta. Quando não há preocupações práticas imediatas, nem aparências pelas quais zelar, tampouco barreiras carentes de uma demão de verniz social.

Foi assim esta noite. Me vi numa casa antiga do centro de Santos. Lá estava uma grande amiga, me esperando. Mônica tem estado sempre por perto quando preciso. Se tento esconder problemas, ela cava, cava, até que eu deixe uma pontinha à mostra, suficiente para que ela deduza todo o resto, e me ajude a fazê-lo desaparecer. É alguém com grande capacidade de organização e senso estético e, por isso mesmo, estranhei a presença dela naquele ambiente. Estava uma bagunça ensandecedora até para mim, típica geminiana de mil fases e humores num só dia.

Cheguei perto e reconheci alguns objetos. Mais perto, reconheci todos. Todos, sem exceção, eram meus. Uma cômoda com algumas gavetas era tudo que eu tinha para tentar organizá-los. Mônica dobrava algumas roupas sem parar, e me olhava sorrindo. Eu sabia que elas estavam indo para doação. Me senti compelida a começar a arrumação, muito a contragosto, por culpa de uma sempre presente preguiça-para-determinados-tipos-de-trabalho. Mas no fundo era simples – achei: bastaria me livrar do excesso. Isso significava seleção entre o que realmente é necessário e o que pode ser deixado para trás, como troféu do meu esplendoroso desapego. Abri uma das gavetas da cômoda e comecei o trabalho.

Logo de cara, vi minha nécessaire da natação, com todos os meus apetrechos. Óculos, spray desembaçador, a touca nova superconfortável, três frascos pequenos nos quais ponho shampoo, condicionador e creme sem enxágue. Todos ricos em vitaminas, proteínas e sais minerais, com seus nomes-códigos impronunciáveis, próprios para cabelos danificados pela ação da piscina, do mar e do efeito estufa. Amo nadar. Impossível deixar tudo aquilo para trás. Ok, ok. Vou deixar a gaveta da natação para depois. Penso melhor e, então, volto nela. Vamos para outra gaveta. 

Vi nas minhas mãos minha nécessaire de maquiagens. Meu batom novo. Vermelho mate. Demorei para encontrar o tom que eu queria. Assim como o pó compacto e o blush. Também demorei para encontrar os pincéis certos para cada coisa. Um deles foi a própria Mônica que me deu: para fazer aquele truque da sombra, o côncavo, sabe? Aprendemos juntas. Desse não posso me desfazer. Motivos emocionais. Melhor deixar essa para depois, também. Qual é a próxima gaveta? 

Me virei para olhar o que mais tinha de importante para guardar e percebi que havia uma TV ligada o tempo todo. Não assisto programas de TV aberta ou a cabo há muito tempo (viva a Netflix!), mas me chamou a atenção uma notícia esquisita:

“Saiu o prêmio do Desapego! Um milhão de reais para o vencedor!”

- Desapego? Você sabe o que é isso, Mônica? Um novo jogo, tipo Mega Sena?

- Não faço ideia – ela disse, sem deixar de sorrir e dobrar roupas.

- Preciso aprender como se joga. Já pensou, ficar milionária com esse tal de desapego? Viajaria o mundo todo. Adoraria fotografar o mundo... 

Abri a próxima gaveta e lá estava minha Nikon. Adoro minha câmera... Pensei nela e ela foi sozinha lá pra dentro! Estava entendendo onde minha mente queria chegar, mas tentei fingir que não.

Já irritada, fui para a próxima gaveta. Fotos de família. Olhei para elas e lembrei do contexto de cada um daqueles momentos. À medida que folheava o álbum, as fotos dos meus pais ficavam mais recentes: os cabelos mais brancos, as linhas mais profundas. Eles estão envelhecendo e, se eu continuar viva por mais alguns anos, vou vê-los partir. É natural. Mas também é muito triste. Não quero. Não quero ter que me despedir deles. E se algum dos meus irmãos também for antes de mim? Não! Fechei rápido essa gaveta. Próxima!


Fotos do Marcus, meu marido. O mesmo se repetiu. Cabelos foram ficando grisalhos... Lembrei do corpo que não fica em silêncio mais de 24 horas – sempre há uma dor para reclamar. A gente sempre brinca, um tentando provar para o outro que tem mais possibilidades de ir embora primeiro. Falamos das dívidas e do perdão delas, de acordo com o que nos reservar o destino. Sempre rimos. Um riso que dissimula o medo. Ninguém quer ficar por último. 

Minha amiga não dizia nada – o que comecei a achar estranho! Mas será que precisava? Permaneci olhando para ela um pouco mais. Não quero que ela deixe de estar na minha vida. Não quero que nenhum dos meus amigos deixem de estar na minha vida. Nem os antigos, nem os novos nem os que farei nos próximos anos. Morro de saudades dos que somem (ou fui eu quem sumiu?), mesmo que não os procure com frequência.

Acordei antes de descobrir em qual gaveta estava o maldito desapego que eu jurava que tinha. Ele era meu. Só meu. E valia tanto...

Tá bom, vai... entendi. Esse tal de jogo do desapego não é para iniciantes. Só aposta nele quem é muito, muito sábio. 

Ou muito, muito burro.