sábado, 22 de abril de 2017

A goleada de 0 a 0


Marcus Vinicius Batista

Naquela manhã de sábado, os jogadores de Brasil e Alemanha estavam perfilados. Não havia clima de batalha campal ou jogo decisivo. Era um amistoso, uma troca de gentilezas bem pensadas, refletidas em crônicas esculpidas com semanas de antecedência. A cada alemão que estufava os ouvidos da plateia com a relação entre infância e futebol, um brasileiro acertava o cantinho dos corações dos ouvintes, ora com lirismo, ora com bom humor.

Um mês antes dos 7 a 1, aquela disputa entre alemães e brasileiros tinha prognóstico único: o empate. Na verdade, acabou num 7 a 7 que compartilhava experiências de vida e amor pelo esporte. Quatorze escritores driblaram inibição e frio para preencher, com histórias, o auditório do Sesc-Interlagos, em São Paulo. 

Escritores brasileiros e alemães, abraçados por Seo Pepe

No final da peleja literária, um dos alemães fez surgir uma bola, réplica da Copa do Mundo, mas em tamanho menor. Os escritores iniciaram a troca de passes, ainda sentados, até que um dos alemães engrossou o caldo. Ou se rendeu àquela que não se permite dominar pelos comuns.

A bola, desviada para a frente do palco, caiu na primeira fila da plateia. A bola deslizou, mansamente, e parou no pé esquerdo de quem até então ouvia em silêncio. A bola descansou no pé esquerdo de Seo José Macia, o Pepe, que a ninou como só os pais de vocação e ofício sabem fazer.

Beth, minha mulher, antes que os próprios escribas notassem e aplaudissem, me sacudiu e disse:

— Olha quem a bola procurou!

À tarde, me aproximei de Pepe, com a tarefa de acompanhá-lo discretamente juntos com outros atletas do Pindorama, time nacional de escritores, que enfrentaria a Alemanha no dia seguinte. Pepe é o técnico de honra da equipe brasileira.

Com a frágil esperteza dos jogadores medíocres, encostei no braço dele, o cumprimentei e perguntei:
Brasileiros e alemães pouco antes do amistoso

— Seo Pepe, este é o pior time que o senhor dirigiu?

Ele olhou para mim, fechou a cara e pensou. Um segundo depois, sorriu e disparou, como se a frase a seguir fosse a bola diante da canhota dele.

— Sem a menor sombra de dúvida!

Às gargalhadas, pediu licença para um café. Nós nos encontraríamos meia hora depois, prontos para tomar o ônibus de volta ao hotel. Tentei uma nova abordagem, um drible que o surpreendesse:

— Seo Pepe, tenho que te agradecer. O senhor dirigiu meu time favorito na última grande conquista. Muito obrigado!

— Qual time, garoto? O São Paulo?

Eu conseguira driblá-lo. Um drible curto, sem muito avanço no campo, mas um gingado eficaz.

— Não, Seo Pepe, o senhor acertou o adversário. O senhor levou a minha Portuguesa Santista às semifinais do Paulistão, em 2003. Perdemos para o São Paulo, lá no Morumbi. Hoje, a Briosa tá na quarta divisão.

— Puxa, é mesmo! Sensacional aquele time. Montamos um timaço! De quem você se lembra, garoto?

— Do Rico, do Souza e do Adriano, que foram jogar no próprio São Paulo.

— O goleiro era o Maurício. Excelente rapaz, excelente goleiro.

— Ele jogou no Corinthians, Seo Pepe.

— Ele mesmo, garoto. Você se lembra da escalação?

Daí para frente, veio o baile, o chocolate, o sacode, a surra. Bola por baixo das pernas, drible da vaca, lençol e chapéu. Seo Pepe tinha a escalação de cor, mais o banco de reservas. Jogadores que eu havia me esquecido, nomes que me fizeram ficar em silêncio, seguido de causos daquele time que venceu o Palmeiras do goleiro Marcos e alcançou a melhor posição de sua história no estadual. A chegada ao ônibus interrompeu a aula.

O time brasileiro de escritores, depois do bravo empate

No dia seguinte, encontrei Seo Pepe pouco antes da partida contra a seleção de escritores alemães. Depois da solenidade de abertura, me sentei ao lado dele no banco. Sereno, Seo Pepe cedia com educação às dezenas de pedidos de fotografias de visitantes, torcedores, parentes de funcionários, jornalistas, mais insistentes do que os zagueiros que um dia o perseguiram.

Joguei o segundo tempo do amistoso, enquanto Seo Pepe permaneceu tranquilo no banco, sem se abalar com os maus tratos que a bola sofrera de lado a lado. Provavelmente, a bola o olhava ali fora e entendia que tinha que sofrer por ele, para ele.

Nós, brasileiros, aguentamos o 0 a 0, igualdade comemorada como vitória, em face dos 9 a 1 sofridos na Alemanha, em 2013. Pude colaborar com cinco defesas, que geraram agradecimentos de vários colegas-escritores-jogadores.

Depois dos cumprimentos e abraços em amigos e adversários, andei até à beira do campo. Seo Pepe estava lá, em pé, paciente e com um sorriso de canto de boca. Quando passei por ele, bateu no meu braço esquerdo e disse: “Muito bem, garoto, muito bem.”

Aquele 0 a 0 foi a maior goleada que apliquei nos últimos anos. E em cima da Alemanha!

terça-feira, 18 de abril de 2017

A goleada



Não gosto de goleadas. Não entenda como a frase definitiva de um despeitado, de alguém que resolveu esbravejar de cabeça inchada, de um sujeito que não sabe perder ou de um torcedor que decidiu fugir dos defeitos do time do coração.

Goleadas tiram o prazer do futebol. Representam um ato de violência contra este jogo, que – por essência – necessita do equilíbrio, das reviravoltas, das viradas no placar, da possibilidade de dar ao pequeno a real esperança de derrubar o gigante.

Na conversa de vestiário e de boteco, a goleada começa com 4 a 0. É o placar que serve de fronteira entre a luta e a surra. A partir daí, não testemunhamos uma partida, e sim um apedrejamento em praça pública, um espancamento torpe, sem a chance de defesa, ainda que seja ilegítima.

As goleadas evidenciam a solidão de quem vence. Dar um chocolate não significa adocicar a derrota do oponente, mas fornecer a ele uma overdose de glicose, quando o índice de diabetes já se encontra acima de 300. Quem goleia não se sente odiado, amado ou admirado. Do outro lado do campo, só se vê vergonha de si mesmo, paralisia diante do inesperado ou a resignação perante o que se sabia na véspera.

Goleadas não servem como treinamento. É vencer sem sofrimento, dor ou taquicardia. Quem goleia enrola os próprios defeitos nas redes adversárias. Quem perde fica sem saber se ainda possui alguma qualidade que mereça ser explorada no próximo jogo. Pior: se ali existe um time capaz de correr amanhã, capaz de perder de pouco ou até de empatar.

Golear é abdicar de preceitos religiosos, da moralidade cristã. É a conquista sem penitência, a glória sem sacrifícios, que dispensa as orações, o pedido ao desconhecido, a vitória concedida aos escolhidos. O time goleado, que deveria ser o símbolo do pecado, transfere a culpa ao vencedor, incapaz de ser misericordioso, sem piedade diante de homens caídos.

As goleadas provocam relaxamento dos torcedores, tanto nas arquibancadas como nos sofás. Não há surpresas. Não há suor, gula, consumo excessivo de qualquer substância legal ou proibida. A narrativa vai permanecer linear como história mal contada. Os personagens seguirão suas vidas, naquele jogo, sem sobressaltos. Vilões e heróis serão os mesmos.

Quando um time goleia, ele lacra a porteira das emoções. Morrem o medo, a fé, a ansiedade, a angústia e a raiva. Se um time perde por 5, 6, 7 a 0, o torcedor constrói uma couraça para sustentar a dor. Não há o que falar, a digestão será tão lenta quanto um almoço de três horas.

Se meu time vence, perco a atenção e a vigilância sobre a partida. Sem riscos, o torcedor não poderá se servir do ópio. Os problemas de amanhã tocam a campainha sem que o jogo tenha terminado. O futebol perde o encanto, torna-se previsível como uma noite de casados no trio elétrico. Talvez se toque no assunto no dia seguinte, mas aí a ausência de calor racionaliza e pasteuriza as opiniões. Os absurdos dos palpiteiros dão lugar aos comentaristas de gravata.

Entre dois times grandes, a goleada se equilibra na corda entre dois edifícios, cuja queda beira o desrespeito. Quem vence se vê na obrigação de respeitar a história alheia, talvez pensando em si próprio, talvez no temor da mínima chance de ressurreição do derrotado. É um código de honra entre leões, no qual se morre com glórias, mata-se com compaixão.

Não deixe de ver futebol por causa de goleadas. Elas permitem uma exceção. A goleada só vale contra o rival histórico. Neste caso, o sangue tem gosto de doce de criança, gulosa pela repetição até passar mal. Vencer o maior rival é o gozo da vingança porque quem hoje goleia já sentiu as marcas dos pneus em dia de atropelamento.

Em goleadas, Brasil e Alemanha jamais será como Santos e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Real Madrid e Barcelona, o time da minha rua contra o da rua ao lado. Nestes jogos, golear é missão, humilhar é dádiva, ganhar é ter o que dizer para sempre, mesmo que dure até a próxima partida, mesmo que seja por 1 a 0.