segunda-feira, 6 de março de 2017

O macho na minha cama



Marcus Vinicius Batista

Não sei a data precisa. Acho até melhor porque seria mais uma forma de cristalização na memória, com chances reais de traumas. Numa noite dessas, eu e minha mulher Beth tínhamos acabado de deitar, estávamos naquele sono inicial, com o sinal de alerta no botão mínimo, quando senti os pelos dele roçarem na minha perna.

Minha mulher não era. Beth nunca precisou depilar as pernas. Levei alguns segundos para processar a informação. Meu filho não era também. Vini não estava em casa e, com sete anos, seria impossível que eu não tivesse notado um garoto-lobisomem como herdeiro. Vini ainda tem aquela pele de nenê.

O sujeito subiu mais um pouco na cama. Esfregou-se em mim e se encaixou ao lado do meu quadril. Tentava achar um canto entre eu e Beth. Criança entre os pais a esta altura da paternidade? Eu e Beth não tivemos filhos. Meus dois eram grandes já, e não gostavam de dormir entre a gente. Ainda bem. Preferiam o espaço deles.

Uns minutos depois, o visitante resolveu se deitar em cima da minha mulher. Sem autorização. Sem jantar e cinema antes. Sem respeitar o marido deitado ao lado. Sem proposta indecente.

Dormir a três nunca foi preferência nossa. Gostamos de exclusividade a dois no nosso quarto. Em qualquer endereço, para ser franco. Mas o amigo era persistente. Tentei enxotá-lo e ganhei arranhões e uma mordida. Puxa, o sujeito é fora do padrão, gosta de uma relação mais violenta. Seria sadomasoquismo clássico? Assim, como ficariam os papéis de dominador e dominado?

Ele queria mesmo minha mulher, percebi logo depois. O terceiro elemento ficou ali, deitado sobre ela, como se fosse uma situação cotidiana, previsível e metódica. Virou-se para um lado, jogou a cabeça para outro. Colou na barriga dela e pediu carinho. Um amante latino, sensível e melancólico? Mas e o macho violento de minutos atrás?

Confesso que não conseguia dormir. Beth também, mas por outras razões, as quais temia pensar nelas. Testemunhar a própria traição me parecia um cenário extracurricular no contrato de matrimônio.

O sujeito era determinado e debochado, foi a forma que o compreendi. Olhava para mim. Os olhos lânguidos teimavam em me informar que dali não sairia, que bastava que aceitasse a nova ordem política, econômica e social daquela cama. Nunca mandei naquele terreno, mas agora passava à figuração com risco de dispensa sem vencimentos.

Minha sorte é que o parceiro - era o jeito de reconhecer a derrota, chamá-lo deste modo - era bem volúvel. Não que viesse para cima de mim. Em dez minutos, ele se cansou da minha mulher. Não agradeceu, não deu beijo de despedida, não disse que ligaria no dia seguinte. Ele saiu da cama e pronto.

O fulano era volúvel, porém metódico, se é possível combinar as duas características no mesmo ser. Fiquei de escanteio, na beirada da cama, suportando arranhões e eventuais mordidas - de vez em quando grunhidos - por uns dois meses. Sofri calado, mas salvei meu casamento.

Quando Lui se fartou de nós, levantei as mãos para os santos e agradeci pela paz conjugal. Até que a parceira dele optou por brincar a três. A única diferença entre eles é que Magriça (nome de guerra da danada) tem seus próprios métodos.

Ela sobe na cama pelo meu lado. O fetiche dela é passar pela parte do meu corpo que está vestida. Depois, deita-se sobre Beth e descansa de felicidade. Ameaça se relacionar com beijo, mas o máximo é uma fungada no queixo. No meu caso, só não sobe na cama se eu estiver nu.

Magriça, a gata, não gosta de machos. Assim como Lui, o macho que me arranha e morde.

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