terça-feira, 21 de março de 2017

Entortando o tronco

Coleus, em casa, no Canal 5

A crônica abaixo nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", ministrado em março de 2017.

Júnior Landim

Recentemente, tenho cultivado uma fagulha de jardim em Santos, em frente ao Bistrô que conduzo com minha esposa Renata. Ali, tenho vários caixotes de madeira que serviram de morada para laranjas, transformadas em suco para matar a sede de amigos que frequentam o lugar.

Cada caixote serve de moldura para uma planta ou flor e, juntos, formam um mosaico verde que alegra meus olhos. Um dia, Renata chega com um vaso miúdo nas mãos, de onde apontava uma pequena plantinha. Ela me entregou, dizendo que fora presente de um aluno carinhoso. E lá se foi a Coleus ocupar um caixote ainda vago.

Muitas regadas e alguns meses depois, a danadinha cresceu muito, encorpou, tá feliz da vida que não cabe no caixote. Aí pensei: quero ver como ela resolve essa pendenga com o caixote.

Desde menino, desenvolvi uma relação muito próxima com animais e plantas. Isso se deve ao fato de ter vivido num sítio a vida toda e ter a imensidão de Mata Atlântica nativa como a extensão do meu quintal. Sempre dialoguei e observei muitos animais, flores e árvores ao meu redor e me impressionava muito com a inteligência natural desses seres silenciosos.

Eles sempre resolviam seus problemas de forma muito simples e eficaz. Por exemplo: o João de Barro constrói sua casa com uma arquitetura elegante e funcional. É construída de uma forma onde vento e chuva nunca incomodam os moradores.

Outro exemplo fabuloso é o das orquídeas selvagens que não se sabe como se hospedam em troncos de árvores maiores como jacarandá e em pontos estratégicos, onde o sol vara por alguns minutos do dia. É suficiente para que a explosão de cores aconteça.

Hoje, estou eu a observar a Coleus como nos tempos de menino. E ela, com uma inteligência natural, começou a driblar o caixote numa dança sutil, envergando o tronco e desviando do obstáculo rumo ao céu. Um espetáculo!

Assim, aprendo com a Coleus. Envergar o tronco, às vezes, é a saída que requer inteligência quando o óbvio seria confrontar o caixote.

Um comentário:

Eliana Greco Greco disse...

Realmente gostei o caminho é esse muitas vezes temos que "envergar".
Feliz dias ao lados das plantas!