quarta-feira, 22 de março de 2017

Um jogador argentino na praia





Marcus Vinicius Batista

As negociações duraram um mês. Parecia caso de necessidade e, por isso, acertar todas as bases do acordo provaria que a contratação era de suma importância, a ponto de ressuscitar o defunto depois de dez anos. Só mesmo meu cunhado para me retirar de uma aposentadoria confortável, sem dores musculares ou promessas de vitória.

O nepotismo partiu dele. Fernando me garantiu, sem ter visto partida alguma, que eu resolveria parte dos problemas defensivos do time argentino. Como seria recebido como estrangeiro? Como seria recebido por jogadores com a metade da minha idade, muitos deles com corpo e aparência para serem meus filhos?

A doceria Brunella era a referência geográfica para os jogos, não o patrocinador. Os recursos vieram de outra empresa do ramo alimentício, o Bar do Maneco, que bancou parte do jogo de camisas e das traves. Um time com origem internacional tinha que evoluir do gol caixote para as traves grandes. E essa evolução implicava na contratação de um goleiro. Aí entro eu, aos 41 anos!

Além do patrocínio, o Bar do Maneco tinha mais vínculos afetivos com os jogadores. O estabelecimento tem sua matriz às margens do BNH, na Aparecida. É ali que residem a maioria dos atletas, muitos fregueses de refrigerantes e outras bebidas.

O time é um apanhado de garotos com passagens por clubes gringos; na verdade, equipes de praia que homenageiam as preferências dos jogadores da geração videogame. Para eles, melhor se apropriar do alemão Schalke 04 e o espanhol Real Madrid do que Cruzeiro ou Corinthinhas (no diminutivo mesmo!), clubes que enfrentei quando tinha 12, 13 anos, em campeonatos regionais de futsal.

As cláusulas contratuais verbais indicavam que eu não poderia treinar. A meninada estuda de manhã e treina à noite, na praia. Eu trabalho durante o dia e dou aulas à noite. Jogaria apenas nos finais de semana. Ótima saída para quem precisa de dois, três dias de recuperação após cada pelada. Se treinasse durante a semana, seria ausência na certa no sábado ou no domingo.

Nos últimos 10 anos, havia me tornado um jogador de futebol society. Campo menor, mais gente de cabelo branco e joelhos operados, menos tempo de corrida, mais cerveja, petiscos e conversa sobre futebol, trabalho e filhos. Definitivamente, outro esporte.

Voltar ao futebol de praia reviveu parte da minha cultura litorânea. A dinâmica do jogo reacendeu as memórias de quem era uma ratazana da faixa de areia. Jogos quase todos os dias, com o filé mignon aos sábados e domingos à tarde. Os clássicos entre Roberto Sandall e Trabulsi, duas ruas na Ponta da Praia, que muitas vezes resultaram em correria para não apanhar e amnésia sobre o resultado da partida.

Os contras, como são chamados os jogos (nada) amistosos, envolviam adversários como o pessoal do Colégio Carmo, muitos deles hoje parceiros de futebol society, cerveja, resenhas e tal. Havia os festivais, com diversos jogos ao longo do dia. Eu atuava até no time dos zeladores da minha rua, um jeito arretado de jogar futebol, mas jamais violento ou desleal.

No começo do mês passado, fiz minha estreia pelo River Praiano, outra celebração de uma equipe estrangeira, talvez sintomático pela forma aguerrida de jogar. Como resumiu meu cunhado, "só pegaria". A partida era fora de casa - em frente à Pinacoteca Benedito Calixto -, e o adversário também tinha nome gringo, mais voltado para o futebol americano: Bull Dogs. Perguntei três vezes para ter certeza da nomenclatura surreal. Para o primeiro jogo, nada de sustos. 3 a 0.

Na semana seguinte, novo convite. Oponente com nome de seleção europeia: Montenegro. A caminhada de um quilômetro entre minha casa e a faixa de praia onde aconteceria a partida, além de aquecer o corpo, esquentou a nostalgia. Um campo depois do outro, no final da tarde de sábado, muitos deles ligados às barracas, outros improvisados com pedaços de pau como traves.

Passei a adolescência toda jogando na areia dura, perto do canal 6. Fora a molecada da rua Roberto Sandall, os amigos de praia, sujeitos que não precisávamos conhecer passado, família, profissão, escolaridade, comprovante de residência e CPF, rezavam pelo mesmo código de Ética, de partidas que acabavam ao anoitecer e cujo resultado seria esquecido antes do encontro da semana seguinte. Gente como Arakem (não o showman que saltitava na Globo em época de Copa do Mundo), Mineiro, o falecido Índio e Salvador, o único que sabíamos a profissão: professor de Geografia.

O River Praiano venceu novamente: 3 a 2 sobre Montenegro. Era a hora, acreditava-se, de enfrentar o carrasco dos últimos meses. A diferença não era somente técnica, o nome era exclusivamente nacional. O Águia Negra havia sapecado 7 a 2 em setembro. Desfalques, me disseram alguns, para justificar a goleada.

Na semana passada, novo encontro, dois dias antes do Dia de Finados. Em tese, relação alguma com o futebol. No primeiro tempo, suportamos o 1 a 0 até os 44 minutos, quando levamos o segundo gol. Uma "dura" no vestiário a céu aberto e quatro substituições. O massacre veio na segunda etapa. Gols espíritas (aqueles que nem o autor acredita e, por isso, credita a uma entidade), gol contra, falhas individuais e coletivas. 9 a 3 e silêncio.

Quando deu o relógio, veio o sinal de novos tempos. Goleada nas costas, eu só queria ir embora. Muitos insistiam em continuar, dos dois lados, pela diversão. Eu disse para um deles: "tenho mulher em casa. Preciso ir." Ele me respondeu sorrindo, na experiência de 16 anos de idade. "Eu não!".

Mais tarde, caminhando ao lado da mureta do canal, conversava com dois ou três jogadores. A derrota havia sido esquecida e a preocupação se dividia entre o primeiro emprego e o vestibular. Direito ou Educação Física? Entrar na Marinha ou continuar como estagiário?

Ali, percebi como é fascinante a cultura do futebol de praia. O resultado fica para trás, enquanto seguem vivas as angústias que possuía, aquelas que brotavam no começo da década de 90. Sugeri que marcássemos novamente com o Águia Negra, para se aprender com o adversário. Último conselho. Minha vida como goleiro de um time falsamente argentino terminou ali. Aposentado, outra vez.

Ao menos, na praia.

terça-feira, 21 de março de 2017

Entortando o tronco

Coleus, em casa, no Canal 5

A crônica abaixo nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", ministrado em março de 2017.

Júnior Landim

Recentemente, tenho cultivado uma fagulha de jardim em Santos, em frente ao Bistrô que conduzo com minha esposa Renata. Ali, tenho vários caixotes de madeira que serviram de morada para laranjas, transformadas em suco para matar a sede de amigos que frequentam o lugar.

Cada caixote serve de moldura para uma planta ou flor e, juntos, formam um mosaico verde que alegra meus olhos. Um dia, Renata chega com um vaso miúdo nas mãos, de onde apontava uma pequena plantinha. Ela me entregou, dizendo que fora presente de um aluno carinhoso. E lá se foi a Coleus ocupar um caixote ainda vago.

Muitas regadas e alguns meses depois, a danadinha cresceu muito, encorpou, tá feliz da vida que não cabe no caixote. Aí pensei: quero ver como ela resolve essa pendenga com o caixote.

Desde menino, desenvolvi uma relação muito próxima com animais e plantas. Isso se deve ao fato de ter vivido num sítio a vida toda e ter a imensidão de Mata Atlântica nativa como a extensão do meu quintal. Sempre dialoguei e observei muitos animais, flores e árvores ao meu redor e me impressionava muito com a inteligência natural desses seres silenciosos.

Eles sempre resolviam seus problemas de forma muito simples e eficaz. Por exemplo: o João de Barro constrói sua casa com uma arquitetura elegante e funcional. É construída de uma forma onde vento e chuva nunca incomodam os moradores.

Outro exemplo fabuloso é o das orquídeas selvagens que não se sabe como se hospedam em troncos de árvores maiores como jacarandá e em pontos estratégicos, onde o sol vara por alguns minutos do dia. É suficiente para que a explosão de cores aconteça.

Hoje, estou eu a observar a Coleus como nos tempos de menino. E ela, com uma inteligência natural, começou a driblar o caixote numa dança sutil, envergando o tronco e desviando do obstáculo rumo ao céu. Um espetáculo!

Assim, aprendo com a Coleus. Envergar o tronco, às vezes, é a saída que requer inteligência quando o óbvio seria confrontar o caixote.

terça-feira, 7 de março de 2017

O clássico violento



Marcus Vinicius Batista


Eu estava sem adversários. Passava as férias na casa da minha avó e levei comigo o estrelão – apelido do campo, da marca Estrela – e alguns times de futebol de botão.

Depois de alguns dias, eu estava cansado de jogar contra mim mesmo. É como jogar xadrez contra si próprio. A diferença – talvez – esteja no movimento do jogador. No xadrez, você roda o tabuleiro. No botão, você precisa dar a volta no campo, fácil quando ele mede menos de um metro de comprimento. A semelhança é que, com o tempo, a probabilidade de empate se torna real, diante do jogador que conhece bem os truques do adversário interno. Zero a zero é a morte em vida do futebol.

Eu jogava no quarto de costura da minha avó Norvina. Ali, conversávamos de vez em quando e o barulho da máquina me distraía. Às vezes, ela contava com a presença da Beatriz, a assistente uruguaia que era uma simpatia e educação únicas.

Numa das manhãs, minha avó deve ter percebido meu tédio diante do estrelão. Imagino eu, pois ela parou o serviço e se ofereceu para jogar uma partida comigo. Por que não, vó?

Escolhemos os times, com jogadores de plástico, comprados em banca de jornal. Eu tinha dezenas de equipes, pois trocava o adesivo original – em cartela – por decalques de uma papelaria. Ainda os guardo numa caixa de madeira, feita pelo meu pai, onde ficam os 12 grandes brasileiros, em um mini-armário para pregos, parafusos e afins, onde estão os times médios e pequenos brasileiros, e um pote de sorvete, onde permanecem os clubes estrangeiros.

Fiquei com o Corinthians. Minha avó – não me lembro o motivo – optou pelo Santos. Expliquei as regras básicas mais os movimentos com a palheta para usar os jogadores. No par ou ímpar, ganhei o direito de começar a partida.

Assim que dei a saída, parti para o ataque. Dois ou três toques na bola e estava na intermediária adversária. Pedi para chutar com o habitual “tá lá?”

Minha avó me olhou com espanto, como se perguntasse: “O quê?”

— Vó, tá lá significa que quero chutar. Arruma o goleiro e tenta defender.

Ela concordou com a cabeça, arrumou o goleiro e me deu autorização. Sócrates, um dos sujeitos que me fizeram escolher o Corinthians como time de coração, ajeitou o corpo e bateu, sem defesa para o goleiro do Santos, na época, Marola. 1 a 0.

Sorri com o gol marcado, mas não fiz festa. Na petulância de criança, enxergava minha avó como café com leite. A goleada era questão de tempo e, antes disso, não poderia me esquecer que estava ali para ensiná-la. Era uma companhia, claro, mas não me lembro se pensei neste fator motivacional para a realização do clássico.

Ajudei-a a arrumar os jogadores para dar a saída e reiniciar a partida. Ela pegou errado na palheta e corrigi o movimento. Repassei o que deveria ser feito e alertei para a dosagem da força. Um movimento forte e a bola – na verdade, um disco semelhante ao de hóquei – estaria perdida pela linha de fundo.

Minha avó tentou uma vez. O jogador do Santos não se mexeu. Pedi que ela fizesse de novo. Nada do sujeito sair do lugar. “Vó, outra vez. Tudo bem!”

Ela encostou a palheta novamente no atacante santista – cujo nome é melhor manter em segredo – e fez o movimento. A precisão e a força nos dedos de costureira foram fatais. Crac!!!! O jogador do Santos quebrou no meio. Partiu-se em dois. A bola permaneceu intacta.

Eu e minha avó nos olhamos sem saber o que fazer. Ambos surpresos. Ambos chocados diante da violência do futebol, que fizera a primeira vítima naquele apartamento do Gonzaga.

Eu não disse palavra. Ela se desculpou e se levantou. Deu uma justificativa qualquer para retornar ao trabalho. Eu aceitei, guardei os times, apanhei outros e voltei para meu próprio campeonato.

Minha avó me deu incontáveis times de botão na vida. Mas, como adversária, nós nunca nos demos a honra de um jogo de volta, ainda que o clássico entre Santos e Corinthians tenha durado um chute a gol e um atleta sem condições de voltar a campo.

Anos depois, o time do Santos foi substituído pelo São Paulo, de uniforme branco e adesivo novo. De vez em quando, o tricolor entra em campo para enfrentar o Santos, da minha filha Mariana. Até hoje, atua com um homem a menos. Anos atrás, preguiça de contratar alguém. Hoje, uma lembrança afetiva da oponente que nunca tive.

segunda-feira, 6 de março de 2017

O macho na minha cama



Marcus Vinicius Batista

Não sei a data precisa. Acho até melhor porque seria mais uma forma de cristalização na memória, com chances reais de traumas. Numa noite dessas, eu e minha mulher Beth tínhamos acabado de deitar, estávamos naquele sono inicial, com o sinal de alerta no botão mínimo, quando senti os pelos dele roçarem na minha perna.

Minha mulher não era. Beth nunca precisou depilar as pernas. Levei alguns segundos para processar a informação. Meu filho não era também. Vini não estava em casa e, com sete anos, seria impossível que eu não tivesse notado um garoto-lobisomem como herdeiro. Vini ainda tem aquela pele de nenê.

O sujeito subiu mais um pouco na cama. Esfregou-se em mim e se encaixou ao lado do meu quadril. Tentava achar um canto entre eu e Beth. Criança entre os pais a esta altura da paternidade? Eu e Beth não tivemos filhos. Meus dois eram grandes já, e não gostavam de dormir entre a gente. Ainda bem. Preferiam o espaço deles.

Uns minutos depois, o visitante resolveu se deitar em cima da minha mulher. Sem autorização. Sem jantar e cinema antes. Sem respeitar o marido deitado ao lado. Sem proposta indecente.

Dormir a três nunca foi preferência nossa. Gostamos de exclusividade a dois no nosso quarto. Em qualquer endereço, para ser franco. Mas o amigo era persistente. Tentei enxotá-lo e ganhei arranhões e uma mordida. Puxa, o sujeito é fora do padrão, gosta de uma relação mais violenta. Seria sadomasoquismo clássico? Assim, como ficariam os papéis de dominador e dominado?

Ele queria mesmo minha mulher, percebi logo depois. O terceiro elemento ficou ali, deitado sobre ela, como se fosse uma situação cotidiana, previsível e metódica. Virou-se para um lado, jogou a cabeça para outro. Colou na barriga dela e pediu carinho. Um amante latino, sensível e melancólico? Mas e o macho violento de minutos atrás?

Confesso que não conseguia dormir. Beth também, mas por outras razões, as quais temia pensar nelas. Testemunhar a própria traição me parecia um cenário extracurricular no contrato de matrimônio.

O sujeito era determinado e debochado, foi a forma que o compreendi. Olhava para mim. Os olhos lânguidos teimavam em me informar que dali não sairia, que bastava que aceitasse a nova ordem política, econômica e social daquela cama. Nunca mandei naquele terreno, mas agora passava à figuração com risco de dispensa sem vencimentos.

Minha sorte é que o parceiro - era o jeito de reconhecer a derrota, chamá-lo deste modo - era bem volúvel. Não que viesse para cima de mim. Em dez minutos, ele se cansou da minha mulher. Não agradeceu, não deu beijo de despedida, não disse que ligaria no dia seguinte. Ele saiu da cama e pronto.

O fulano era volúvel, porém metódico, se é possível combinar as duas características no mesmo ser. Fiquei de escanteio, na beirada da cama, suportando arranhões e eventuais mordidas - de vez em quando grunhidos - por uns dois meses. Sofri calado, mas salvei meu casamento.

Quando Lui se fartou de nós, levantei as mãos para os santos e agradeci pela paz conjugal. Até que a parceira dele optou por brincar a três. A única diferença entre eles é que Magriça (nome de guerra da danada) tem seus próprios métodos.

Ela sobe na cama pelo meu lado. O fetiche dela é passar pela parte do meu corpo que está vestida. Depois, deita-se sobre Beth e descansa de felicidade. Ameaça se relacionar com beijo, mas o máximo é uma fungada no queixo. No meu caso, só não sobe na cama se eu estiver nu.

Magriça, a gata, não gosta de machos. Assim como Lui, o macho que me arranha e morde.