segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Qual é a minha verdade?


Júnior Landim

Certa vez, no momento de fechar a loja num dia de aula particular de minha esposa, esqueci na mureta lateral, do lado de fora, uma lasanha bolonhesa artesanal (congelada) e um saco com alguns pães. A lasanha seria meu jantar e os pães, o café da manhã da minha família.

Naquela agitação de fechar as portas o mais rápido possível para a professora chegar no horário e lecionar para o aluno que mora em outra cidade, a refeição foi banida da minha memória em questão de minutos. Só daria conta uma hora mais tarde, quando já estava em casa e a lasanha surgiu no meu pensamento com sabor e aroma.

Pensei: "Já era! Alguém se deu bem hoje: lasanha artesanal e pão para chuchar no molho natural. Dormir e sonhar com a lasanha foi o que me restou naquela noite.

Dia seguinte, rotina. Acordar, preparar para sairmos, esposa lecionar, filho estudar e eu abrir a loja para mais um dia de muito trabalho. Por volta das 9 horas, estou levantando a segunda porta quando surge atrás de mim uma voz: "Acho que isso te pertence!"

Viro por instinto e me deparo com um senhor baixinho, cabelos brancos e um rosto marcado pela passagem do tempo. Mais de 70 anos, com certeza. Eu respondo:

"Bom dia, pode entrar!"

"Essa lasanha e esses pães são seus?"

Minha mente tirou a lasanha e os pães do esquecimento. Meus olhos vazaram e fiz com a cabeça que sim.

Seu Nelson, com muita simplicidade, se aproximou, me entregou as sacolas e disse:

"Guardei a lasanha no congelador. Pode comer que está boa."

Virou-se e não deu tempo de lhe oferecer um café. Partiu firme em passos curtos. Que profunda verdade naquele homem idoso, de chinelos de dedo e roupas surradas. Verdade de Cavaleiro Medieval, em armadura de Honra e Glória. Fazer o que é certo, e não o que é fácil.

Que sensação boa a de ter contato com essa essência tão pura, tão nobre. Com essa verdade!

No final do dia, sentei-me à mesa para, enfim, degustar a lasanha e refletir sobre o contato com o Seu Nelson. Um Cavaleiro Medieval, disfarçado de vovô de cidade do interior que me permitiu mergulhar numa reflexão profunda sobre:

Qual é a minha verdade?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Como ser um mano?


Júnior Landim

De onde venho, a palavra mano nos é apresentada ainda muito crianças. Ela aparece em situações como: "Ajude seu mano caçula a amarrar os sapatos. Frase dita por nossa mãe ou avó.

Com o passar dos anos, a palavra continua a aparecer com frequência, agora em situações onde o sangue não é o laço mais forte. Amigos da escola, da rua, mas um amigo próximo, querido do peito. Às vezes, chamado até de primo.

A gíria demonstra que aquele amigo é de fato da família. Hoje, a palavra mano foi absorvida em gíria urbana, está em trechos de Rap, literalmente na boca da moçada. É moderna. Mano, sinônimo de irmão.

Um belo dia, percebo dentro da palavra Humano o mesmo mano de tantas outras ocasiões. Aquilo me atordoa. Irmão, humano, mano, tudo junto e girando na minha cachola. Então, chego à conclusão que, lá atrás, quando aprendi o significado da palavra mano, ainda não tinha a maturidade para entender que a lição a se aprender era a de como Ser Humano.

Ser Humano no respeito e amor ao próximo. Ser Humano em zelar pelo bem estar daqueles que o cercam. E percebo como está cada vez mais raro estarmos com esse Ser Humano. O que me resta é perguntar:

"Mano, como ser humano?"