quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sexo combina com solidão




Marcus Vinicius Batista


Acabei de ler Parafilias (Editora Record), primeiro livro do contista Alexandre Marques Rodrigues. Eu o conheci há cerca de um mês, quando pudemos conversar dentro da Tarrafa Literária, festival anual que acontece em Santos, cidade onde ambos moramos.

O livro de estreia cobriu Alexandre de responsabilidades como escritor. A publicação da obra é o resultado do Prêmio Sesc de Literatura, em 2014, concurso nacional voltado para autores estreantes. Depois do lançamento, Parafilias se tornou finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Oceanos (antigo Portugal Telecom).

A vida mudou, ao menos na literatura, para Alexandre. Ele ainda demonstra dificuldades em se adaptar ao mundo literário contemporâneo, marcado por sucessivos festivais, conversas semanais com leitores para quem entra no circuito, viagens e entrevistas.

Alexandre é tímido, fala baixo, pensa com cuidado nas respostas e reafirma que não possui carisma ou interesse sólido nas tertúlias da comunidade literária. É como se perguntasse: o que estou fazendo aqui? Vocês têm certeza?

Alexandre é um operário do texto, que compreende com clareza o ofício de escritor. Não há glamour, há trabalho e dedicação. Ele é formado em Psicologia, mas exerceu a profissão por poucos anos. Preferiu a segurança de um concurso público e se tornou bancário. Acorda diariamente às 6 horas para escrever. Trabalha no apartamento onde mora com a esposa, no bairro do Embaré. Lapida um texto à exaustão, até se sentir satisfeito.

Alexandre é sinônimo de discrição. Até a publicação de Parafilias, quase nenhum colega de trabalho sabia que ele era escritor. Chefes só o “descobriram” por conta dos pedidos de folgas para viagens, consequência de ter vencido o Prêmio Sesc de Literatura.

Parafilias trouxe uma segunda surpresa. Alexandre Marques Rodrigues passou a ser classificado como um autor de literatura erótica. Muitos dos convites são para falar sobre livros e sexo. Não há tema para deixá-lo mais envergonhado, tema para que ele reforce a ideia de que “é sem graça”. Mentira dele! Alexandre apenas é avesso ao mundo da eterna felicidade aparente que permeia – de vez em quase sempre – o mundo da literatura. Aquele mundo onde escritores escrevem para escritores e celebram os livros pelas vendas, e não pelos leitores.

A palavra Parafilias significa perversões, desvios sexuais. É um livro com 24 contos, todos eles com sexo como pano de fundo. No entanto, engana-se quem aposta que uma literatura que desfila posições sexuais ou que busca agradar mamães comportadas em 50 tons.

A obra dele é, categoricamente, sobre solidão. Defesa irredutível do próprio autor. Concordo, sem petulância. Sexo, neste caso, é dissociado de amor, e os personagens procuram, paliativamente, curar com parceiros sexuais suas próprias lacunas. O sexo, nos contos, preenche tempo, solidifica máscaras, esconde o vazio de um cotidiano fútil e – aí sim – sem graça.

A escolha de Alexandre me pareceu consistente ao esquadrinhar, com sutileza, pequenas e profundas histórias sobre indivíduos que se sentem deslocados no mundo, enquanto confundem muitas vezes relacionamento sexual com a concretude de um sentimento. É um olhar coerente com a atualidade, onde se fala de sexo como se come um sanduíche na padaria. Onde se mistura, do estelionato à ilusão, quantidade, qualidade e prática.

Outro engano é achar que, embora o livro seja sobre a solidão humana, Alexandre alivia no tom erótico da narrativa. Ele domina a linguagem literária. Sabe escrever sobre sexo, sem ser vulgar. Sabe camuflar o que é necessário, escapa da pieguice e consegue criar o ambiente onde os personagens ficarão nus, literal e simbolicamente. Isso acontece no conto Seios, em que órgãos sexuais masculinos e femininos se confundem na opção sexual de duas amantes.

Alexandre também aproveita para inserir o próprio ofício de escritor e a literatura em alguns dos contos. Em Livros, por exemplo, uma mulher procura excitação com o amante por meio dos livros da biblioteca do marido. Em Palavras, um escritor em bloqueio criativo sofre com um relacionamento sem amor.

Alexandre Marques Rodrigues é, num primeiro encontro, um sujeito discreto, que facilmente se misturaria à plateia. Mas sua imaginação o contradiz, ao expor com sabedoria o quanto público e privado são bem diferentes. Ao menos, na literatura.


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