sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Psicose: salvo pelo Hitchcock





Marcus Vinicius Batista

Costumamos acreditar que livros, quando nos permitem abrir mão do sono madrugada adentro, são bons. A história seria envolvente a tal ponto que a curiosidade é o remédio preventivo para as dores físicas do dia seguinte.

Pensei que isso aconteceria comigo enquanto lia Psicose, de Robert Bloch (editora Darkside). Devorei a obra em 24 horas, como há muitos anos não o fazia. Mas a curiosidade não se traduziu em excelência literária.

O romance policial ficou conhecido depois que se transformou em um dos clássicos do cinema, sob a direção de Alfred Hitchcock, além de marcar a carreira de Anthony Perkins, como intérprete do assassino Norman Bates.

O livro é de 1959 e foi comprado pelo diretor no mesmo ano. O filme saiu em 1960. Hitchcock arriscou a reputação para adaptar a história do homem solitário e dono de um motel de beira de estrada. O diretor chegou a comprar – anonimamente - a tiragem completa, com 3 mil exemplares, para evitar que a história fosse divulgada.

Ele também brigou com o estúdio com quem tinha contrato e chegou a hipotecar a própria casa durante a produção. O resultado foi a bilheteria de US$ 50 milhões, diante de um investimento de US$ 800 mil e a solidificação da alcunha de mestre do suspense.

O filme deu a visibilidade que o livro e o autor precisavam. Robert Bloch entrou na indústria do cinema e ficou mais conhecido como roteirista, embora tivesse sido pupilo de H.P. Lovecraft e publicado dezenas de contos em revistas de horror e fantasia. Escreveu dez episódios para o programa Alfred Hitchcock Apresenta, no ar entre 1962 e 1965, e roteirizou três filmes da série Star Trek, na mesma década.

O livro Psicose é superestimado por causa do filme. Na prática, a obra atende ao que se propõe: um romance daqueles de papel barato (os pulp fictions), com uma história de fácil digestão, regada a pitadas de suspense. Não há arroubos psicológicos ou maiores aprofundamentos da psiquê de Norman Bates ou um grande mistério a ser resolvido. O Norman da literatura, por sinal, é o oposto fisicamente do ator Anthony Perkins, magro e alto.

As semelhanças com o filme são grandes. Hitchcock foi bem fiel à obra, o que justifica a ansiedade em sumir com o romance do mercado norte-americano. Mas há uma diferença essencial: a cena do chuveiro, em que Norman Bates mata Jane. No livro, o assassinato é bem mais selvagem e rápido. A cena é descrita em apenas três parágrafos.

A diferença se explica pelos bastidores. Hitchcock sofreu pressões da censura – os Estados Unidos atravessavam uma fase de profundo conservadorismo, vide a segregação e o McCarthismo – e teve que mascarar a sequência para que o filme fosse aprovado. A trilha sonora, decidida após a primeira montagem, deu o toque que faltava ao assassinato mais famoso da história do cinema. E olha que, inicialmente, o diretor era contra a música incidental.

Psicose foi lançado no mercado editorial brasileiro em 1959 e em 1964. Ficou quase 50 anos na geladeira até que a editora DarkSide o recolocou nas prateleiras há dois anos. A edição é muito cuidadosa – há a versão capa dura - e valoriza o livro como relíquia histórica e ícone da cultura pop.

Discutir se o filme é melhor do que o livro e vice-versa funciona como tempero para a pizza ou como aperitivo para a cerveja no boteco. Nada mais estéril comparar bananas com maçãs, ainda que a semente venha da mesma lavoura. No caso de Psicose, Robert Bloch deveria agradecer por ter plantado ideias na horta do mestre do suspense.

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