quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O livro-surpresa


Marcus Vinicius Batista

Devorei "O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, em dois dias. Para ser honesto, em um dia e meio. Utilizei todos os intervalos, dormi menos para chegar ao final da história de Christopher Boone, adolescente de 15 anos com Síndrome de Aspenger, uma forma de autismo.

O livro caiu nas minhas mãos no domingo, no final da tarde. Estava na casa do meu amigo André e conversávamos sobre literatura diante da estante de livros dele. Num instante da conversa, ele pegou o livro, me deu e disse: "Você vai gostar!" Levei emprestado mais um quadrinho do Demolidor e não questionei a decisão. É quase um pacto entre leitores-irmãos. De uma recomendação, não se duvida. Cumpre-se!

Resolvi olhar o livro assim que cheguei em casa. Que achado! A história é narrada pelo personagem principal. Não que o autor, Mark Haddon, tenha essa idade ou sofra da síndrome. O maior mérito da obra dele é fazer com que acreditemos que o narrador é realmente um adolescente de 15 anos, com Aspenger.

O garoto é incapaz de demonstrar emoções, domina matemática como poucos adultos, não pode ser tocado, conhece todas as capitais de todos os países do mundo e adora números primos, mas não compreende simbolismos, como metáforas. E, por causa disso, jamais mente.

Esse mosaico comportamental, vamos dizer assim, torna difícil a relação do personagem com seus pais, vizinhos, professores e colegas da escola especial em que frequenta numa pequena cidade da Inglaterra.

Christopher Boone é fã das histórias de Sherlock Holmes. E resolve aplicar os ensinamentos do detetive-mestre ao descobrir que Wellington, o cachorro da vizinha, foi assassinado no jardim com um forcado. E escrever um livro a partir das investigação, esta aí "O estranho caso do cachorro livro". Será que Christopher entenderia o significado de metalinguagem?

O adolescente, com o método sherlockiano, descobrirá não apenas o assassino do cachorro, como uma série de fatos que envolvem todas as pessoas próximas a ele, de maneira a levá-lo a ações inimagináveis para alguém que sempre dispensou "pensar sobre aquilo que não aconteceu".

Acompanhar as reações de Christopher é um exercício de controle da angústia. Ele sofre, física e mentalmente, com as relações humanas, suas sutilezas, seus jogos, suas aborrecidas previsibilidades da vida ordinária. A força do narrador te arrasta para o sofrimento contínuo de quem não consegue entender o que acontece em volta, assim como ninguém sabe lidar com ele e com a doença. O que varia são os níveis de paciência.

Christopher toma decisões definitivas num mundo de humanos transitórios, incompletos, abstratos como são os sentimentos e emoções. Christopher tem, a seu lado, somente a matemática e a física, áreas inábeis para diagnosticar as contradições psicológicas de qualquer humano, inclusive o adolescente, que sofre ainda mais por não enxergar a si mesmo em situações-limite daquele universo de difícil controle. Fechar-se e isolar-se seriam soluções, por exemplo, em uma estação de metrô lotada?

"O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, aponta com clareza como a maioria das pessoas não sabem como lidar com quem apresenta diferenças de comportamento, ainda mais se não apresentam sinais do ponto de vista físico. No reino da incompreensão, Christopher funciona com um imã, que coloca todos a volta dele, mas pela incapacidade de ser igual, os fazem acreditar que ele seria incapaz também de ver os outros.

Christopher percebe os comportamentos que optamos por tornar menos importantes, camuflados por vernizes que banharam as máscaras sociais. E ele sofre com isso, justamente pelo rigor que o impede de ser flexível no contato das pequenas (ou grandes, para ele sem diferença) mentiras e dos perdões silenciosos (para ele, sempre seria um grito). Ora, as armas que também usamos para levar a vida adiante.

"O estranho caso do cachorro morto" caminhou comigo na segunda-feira. Cheguei a me perguntar por que não conhecia o livro, por que nunca tinha ouvido falar dele. À noite, encontrei com André no trabalho e comentei: "Sensacional o livro. Estou quase no final."

Ele me disse: "Também achei. E acredita a surpresa? Achei esse livro na rua."

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