quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Game over literário

Marcus Vinicius Batista

Não jogo videogames. Minha história com eles começou aos 13 anos, quando ganhei um Atari do meu pai e terminou aos 17, quando arriscava cestas de três pontos na NBA, no Master System de um amigo, o Alfredo. Preferia os campeonatos de botão ou tentar ser jogador de futebol mesmo.

Daí em diante, tornei-me um espectador eventual e um leitor sobre o assunto. O espectador se manifesta quando estou na casa do amigo André Rittes. Lá, meus filhos e os filhos dele se juntam para disputar horas de batalhas. Hoje, como pai, e como pai, jogo algumas fases em versões diferentes de Lego, com Vini, meu filho de sete anos.

Leio sobre videogames por ser professor da área de Comunicação. É obrigatório me informar sobre as novidades de um mercado maior do que o de cinema. Os exemplos deste universo também ajudam a demonstrar a aplicabilidade de teorias e estudos sobre o impacto da mídia no cotidiano.

O preâmbulo sobre games tem o objetivo de explicar que ler um livro baseado neles me parece ser uma vantagem para quem não é fã do jogo, para quem está isento do purismo que normalmente ataca os crentes, por vezes mais preocupados com a fidelidade do que com a criatividade em torno de uma adaptação.

Terminei de ler, nos últimos dias, o livro Renascença, de Oliver Bowden. Quem me emprestou a obra me garantiu que não havia uma necessidade umbilical de ter lido as demais histórias da série Assassin’s Creed. Ele tinha razão. O maior mérito do texto – escrito por um historiador sob pseudônimo – é possibilitar uma trama fechada, de fácil passeio para leigos e diversão para os iniciados.

Por outro lado, o livro sofre do mais grave sintoma para as franquias que se alimentam de seguidas adaptações, em diversas mídias. A prisão ao modelo original, seja a história, seja o suporte tecnológico, limita o desenvolvimento de características da obra-filhote, que não consegue andar com a própria linguagem.

No caso de Renascença, sobrou aventura, faltou literatura. A impressão é que a trajetória de Enzo Auditore, a entrada dele na facção de Assassinos e a perseguição religiosa funcionam como uma introdução ao universo do jogo eletrônico. Esta estratégia me soa arriscada demais, pois a perda de qualidade de uma linguagem não significa o sucesso de outra, ainda mais a original, consolidada como marca neste mercado.

O livro caminha como se fosse a máscara de um roteiro de jogo. Talvez seja mesmo a função dele, preparar o espectador-leitor para o produto principal. Neste caso, personagens são descartados como moscas, cenários ficam para trás em descrições simples, e falta profundidade psicológica ao grupo principal de personagens.

A pesquisa histórica funciona como cortina de fumaça para as deficiências (ou a pressa) literária. Cortina de fumaça porque explora personagens históricos, mas não os fatos. Leonardo Da Vinci, Nicolau Maquiavel e Salvanarola são elementos importantes na construção da narrativa. Os dois primeiros, a serviços dos mocinhos.

O maniqueísmo, por sinal, é sintoma decisivo para que as últimas 50 páginas transmitam a sensação de que Renascença poderia ser menor. Como num videogame, lutas e mais lutas se repetem, com trocas de cenários, mas o mesmo objetivo de justiça e execução pelas próprias mãos.

Devolvi o livro ao meu amigo e, com gosto, comprei a ele mais uma obra da série, como presente de aniversário. É preciso respeitar o prazer dele, tanto com o console como com as páginas nas mãos. Para mim, ficou a sensação de passar de fase. E para outro jogo literário!

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