segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Escalando o Everest por empréstimo


Marcus Vinicius Batista

Passava o dia com Mariana, um bebê de seis meses, na sala do retiro, em Nazaré Paulista. À noite, dormíamos no Instituto Ipê, do outro lado da estrada de terra. Quando ela descansava durante a tarde, eu aproveitava para arrumar alguma distração, ali mesmo pela casa principal.

Os colegas só se encontravam para as refeições, numa cozinha comunitária, vegetariana, onde me acabei de comer carne de soja. Mais tarde, depois das 22 horas, professores de Educação Física contrabandeavam guaraná sem gelo para suprir as carências da cidade grande.

Descobri a biblioteca no andar de cima, uma espécie de marquise, durante um dos cochilos da Mari. Passei pelas estantes e achei uma preciosidade: “No ar rarefeito”, escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer.

Ele é um dos melhores repórteres da atualidade. Preciso, meticuloso, preocupado com o humano em suas narrativas. Krakauer é autor de “Na Natureza Selvagem”, que virou filme sob a direção de Sean Penn e concorreu a dois Oscars. No ano passado, ele publicou “Missoula”, nome de uma cidade nos Estados Unidos que simboliza a cultura do estupro e sua impunidade.

Comecei a ler “No ar rarefeito” na mesma hora. Aproveitava todos os sonos da Mari para devorar a história da expedição ao Everest, que resultou em 12 mortes, no caminho de volta, após alcançar o topo. Krakauer é um jornalista especializado em montanhismo, escreve para publicações como a revista Go Outside e, (in)felizmente), estava na expedição, contratado para escrever sobre a mercantilização das escaladas. O livro dele se tornou um clássico da literatura de aventura.

Por isso, o repórter pôde contar, com riqueza de detalhes, as disputas, as fragilidades, as fraquezas, a generosidade, a solidariedade e os medos dos alpinistas, todos vítimas – fatais ou não – de uma tempestade.

No domingo, a visita acabou e eu não tinha terminado o livro. O que deveria fazer? Devolver “No ar rarefeito” à biblioteca comunitária, administrada por todos, sem funcionários e viva pela confiança de seus frequentadores? Poderia levar o livro pra casa? Como devolver depois, se nunca mais voltaria à Nazaré Paulista, o que de fato aconteceu? Ou esperar para comprar a obra em Santos, com o risco de não encontrá-la? Essa história faz 14 anos, e não havia o hábito ou a estrutura para compras pela Internet.

Tentei localizar um responsável pela biblioteca, mas o espaço pertencia a todos, foi a explicação que ouvi. Não tinha com quem justificar o arrendamento literário. Escolhi o silêncio e tomei uma decisão.

Entre a curiosidade sobre o restante da história e o empréstimo sem autorização, entre o amor aos livros e a irritação de quem soube do sumiço, entre a promessa de achar um jeito de devolvê-lo e a acusação de furto, preferi levar o livro comigo. Coloquei na mala e, no dia seguinte, retomei a leitura sem remorso, culpa ou dúvida.

A reportagem de Krakauer é brilhante. Não me arrependo. Conclui a leitura em mais dois dias. Fui ao Gonzaga para tirar a prova de consciência. Nenhuma das três livrarias tinha o livro no estoque. Uma encomenda poderia levar mais um mês.

Resolvi devolver o livro pelo Correio. Colocá-lo numa caixa e despachá-lo seria impessoal, grosseiro, contrário aos princípios de igualdade e respeito pregados pelo retiro em Nazaré Paulista. Tinha certeza de que não perceberam o sequestro, mas ficaria com a consciência pesada. Sempre cuidei muito bem dos livros emprestados, assim como reclamo de quem desaparece com obras minhas.

Escrevi uma carta para o pessoal do retiro. Não sabia a quem endereçar, mas procurava explicar a situação. Agradeci pelo empréstimo, disse que me senti acolhido naquele final de semana, pedi desculpas pela falta de aviso prévio e descrevi, sem delongas, minhas impressões sobre o livro, que recomendava com veemência.

Dobrei a carta, envelopei e coloquei dentro da caixa de Sedex. Mandei o pacote para o retiro e esperei. Recebi o aviso de envio e esperei. Confirmei a entrega e esperei. Esperei.

Sempre tive curiosidade de saber se “No ar rarefeito” escalou a serra e as estantes do retiro, em Nazaré Paulista. Assim como eles nunca me responderam, eu nunca voltei lá.

Ao ler os novos livros do Krakauer ou reler “Na Natureza Selvagem”, penso na devolução pelo Correio. Outro dia, vi um exemplar numa livraria do Gonzaga. Deu vontade de comprá-lo.

Em tempo: ganhei de minha mulher, Beth, o livro de presente, na antevéspera do Dia dos Pais. A releitura, desta vez, durou uma semana.

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