quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A senhora pede respeito

Museu de Pesca, em Santos. Foto: Juicy Santos

Marcus Vinicius Batista

A senhora não passou da idade. É esbelta, bem conservada, pra frentex, como dizia minha avó. Com a experiência e a maturidade, ela parou de reclamar de qualquer coisa. Mas também não fica calada para que abusem da sua biografia. Ela tem suas manias provincianas, contradições em quem viveu sempre na fronteira entre o ar de cidade pequena e o mundo cosmopolita da capital.

A senhora Santos anda preocupada com o futuro. É um passo enorme, olhar para frente, sem se agarrar no saudosismo de quem poderia ter sido ou do que viu, em dimensões menores, pelo retrovisor. A preocupação - e ela se aborrece - renasce de tempos em tempos, fruto dos falsos profetas que tentam iludi-la com promessas de enriquecimento rápido, de glamour internacional.

A senhora, depois de uma certa fase da vida, cristalizou a ideia de que andar para frente significa caminhar em ritmo próprio, sem saltos megalomaníacos que não a tiram do lugar ou a derrubam no chão, com risco de fratura exposta. Ela não é mais criança para ignorar a noção do perigo.

Santos já ouviu os aventureiros que juravam vislumbrar o turismo de negócios como a salvação da maré. Depois, conheceu os gurus do desenvolvimento sustentável, vestidos de cinza, com sorriso verde, e palavras da moda que se anulam a cada livro de autoajuda.

Com paciência, a senhora teve contato com os astronautas do pré-sal, que prometiam oceanos de óleo negro e, como Midas, asseguravam que a cidade seria pintada de ouro.

A idade a obrigou a colocar os pés no chão. Caso contrário, queda e beijo no solo. O equilíbrio não é daqueles tempos. Lúcida, ela pede por sanidade. Dos outros. Dos meninos que resolveram prometer Barcelona antes de outubro.

Santos confidenciou que teme pelo dia de amanhã. Se ficar doente, não pode ir ao hospital. Ela pode ser barrada por uma porta fechada e salas ocas. Sentiu-se envergonhada em ver a inauguração dos Estivadores, que não tem condições de beneficiar as pessoas.

A senhora também se preocupa em sair de casa. Uma confusão no transporte coletivo. VLT a passos de tartaruga. Ônibus caro demais. Motoristas legais e ilegais que brigam por passageiros, exaustos por pagar muito e ter tão pouco. Andar a pé? O fôlego ficou preso nas fotos amareladas do álbum de família.

Quando pensa em sua história, aquele comportamento comum de quem faz aniversário, ela se encolhe com o que os homens de gravata fazem com partes de sua trajetória. A senhora, ao avaliar o passado recente, chora pela Cadeia Velha, que prendeu gente politizada e hoje deseja os políticos fora dela.

Quando se ultrapassa a barreira dos quatrocentões, aniversários deixam de ser exercícios de ufanismo, de bajulação da beleza. Aniversários, para uma senhora como Santos, mostram também as rugas, as cicatrizes, as marcas da travessia pela vida. Identidade também.

É o "parabéns" pelo ontem, o "obrigado" pelo hoje, o "cuidado comigo, por favor", para amanhã.

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