segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Escalando o Everest por empréstimo


Marcus Vinicius Batista

Passava o dia com Mariana, um bebê de seis meses, na sala do retiro, em Nazaré Paulista. À noite, dormíamos no Instituto Ipê, do outro lado da estrada de terra. Quando ela descansava durante a tarde, eu aproveitava para arrumar alguma distração, ali mesmo pela casa principal.

Os colegas só se encontravam para as refeições, numa cozinha comunitária, vegetariana, onde me acabei de comer carne de soja. Mais tarde, depois das 22 horas, professores de Educação Física contrabandeavam guaraná sem gelo para suprir as carências da cidade grande.

Descobri a biblioteca no andar de cima, uma espécie de marquise, durante um dos cochilos da Mari. Passei pelas estantes e achei uma preciosidade: “No ar rarefeito”, escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer.

Ele é um dos melhores repórteres da atualidade. Preciso, meticuloso, preocupado com o humano em suas narrativas. Krakauer é autor de “Na Natureza Selvagem”, que virou filme sob a direção de Sean Penn e concorreu a dois Oscars. No ano passado, ele publicou “Missoula”, nome de uma cidade nos Estados Unidos que simboliza a cultura do estupro e sua impunidade.

Comecei a ler “No ar rarefeito” na mesma hora. Aproveitava todos os sonos da Mari para devorar a história da expedição ao Everest, que resultou em 12 mortes, no caminho de volta, após alcançar o topo. Krakauer é um jornalista especializado em montanhismo, escreve para publicações como a revista Go Outside e, (in)felizmente), estava na expedição, contratado para escrever sobre a mercantilização das escaladas. O livro dele se tornou um clássico da literatura de aventura.

Por isso, o repórter pôde contar, com riqueza de detalhes, as disputas, as fragilidades, as fraquezas, a generosidade, a solidariedade e os medos dos alpinistas, todos vítimas – fatais ou não – de uma tempestade.

No domingo, a visita acabou e eu não tinha terminado o livro. O que deveria fazer? Devolver “No ar rarefeito” à biblioteca comunitária, administrada por todos, sem funcionários e viva pela confiança de seus frequentadores? Poderia levar o livro pra casa? Como devolver depois, se nunca mais voltaria à Nazaré Paulista, o que de fato aconteceu? Ou esperar para comprar a obra em Santos, com o risco de não encontrá-la? Essa história faz 14 anos, e não havia o hábito ou a estrutura para compras pela Internet.

Tentei localizar um responsável pela biblioteca, mas o espaço pertencia a todos, foi a explicação que ouvi. Não tinha com quem justificar o arrendamento literário. Escolhi o silêncio e tomei uma decisão.

Entre a curiosidade sobre o restante da história e o empréstimo sem autorização, entre o amor aos livros e a irritação de quem soube do sumiço, entre a promessa de achar um jeito de devolvê-lo e a acusação de furto, preferi levar o livro comigo. Coloquei na mala e, no dia seguinte, retomei a leitura sem remorso, culpa ou dúvida.

A reportagem de Krakauer é brilhante. Não me arrependo. Conclui a leitura em mais dois dias. Fui ao Gonzaga para tirar a prova de consciência. Nenhuma das três livrarias tinha o livro no estoque. Uma encomenda poderia levar mais um mês.

Resolvi devolver o livro pelo Correio. Colocá-lo numa caixa e despachá-lo seria impessoal, grosseiro, contrário aos princípios de igualdade e respeito pregados pelo retiro em Nazaré Paulista. Tinha certeza de que não perceberam o sequestro, mas ficaria com a consciência pesada. Sempre cuidei muito bem dos livros emprestados, assim como reclamo de quem desaparece com obras minhas.

Escrevi uma carta para o pessoal do retiro. Não sabia a quem endereçar, mas procurava explicar a situação. Agradeci pelo empréstimo, disse que me senti acolhido naquele final de semana, pedi desculpas pela falta de aviso prévio e descrevi, sem delongas, minhas impressões sobre o livro, que recomendava com veemência.

Dobrei a carta, envelopei e coloquei dentro da caixa de Sedex. Mandei o pacote para o retiro e esperei. Recebi o aviso de envio e esperei. Confirmei a entrega e esperei. Esperei.

Sempre tive curiosidade de saber se “No ar rarefeito” escalou a serra e as estantes do retiro, em Nazaré Paulista. Assim como eles nunca me responderam, eu nunca voltei lá.

Ao ler os novos livros do Krakauer ou reler “Na Natureza Selvagem”, penso na devolução pelo Correio. Outro dia, vi um exemplar numa livraria do Gonzaga. Deu vontade de comprá-lo.

Em tempo: ganhei de minha mulher, Beth, o livro de presente, na antevéspera do Dia dos Pais. A releitura, desta vez, durou uma semana.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Uma crônica para o século XXI


"Podemos estar errados, o interlocutor pode estar tão errado quanto nós, mas, de qualquer forma, o fato de supor que o interlocutor tem razão é um bom prelúdio para o diálogo". (Jorge Luis Borges)

Alessandro Atanes


Em suas entrevistas para a Rádio Municipal de Buenos Aires nos anos 80, Jorge Luis Borges creditava o valor do diálogo à presunção de que o outro possa ter razão. Tempos de gritaria como os de hoje só mostram o quanto estamos afastados desta prática tão antiga da humanidade.

Essa dificuldade para o diálogo foi assumida no título do livro do jornalista, historiador e professor universitário Marcus Vinicius Batista “Quando os mudos conversam” (Realejo Edições), lançado em fevereiro. Quem são esses mudos do título? O próprio livro responde nos títulos das três seções em que estão organizadas as crônicas: EU, TU e ELES. Se há NÓS, o pronome que reúne a todos, ele surge mais como uma esperança do que uma realidade. Essa busca por NÓS – que reconhece a importância do diálogo – é que conduz a obra.

A primeira seção, EU, reúne experiências pessoais do autor: um velório, uma viagem de trem, testemunhos de cenas cotidianas, e parece ter um duplo sentido: de um lado, é o espaço da crônica canônica. Sem comparar as qualidades deste ou daquele texto de Marcus Vinícius Batista com os mestres brasileiros da crônica do século passado, ele se põe aqui como herdeiro dessa tradição literária brasileira marcada pela atuação de escritores no Jornalismo, cuja principal referência talvez seja a “Flor de maio”, de Rubem Braga, a crônica das crônicas.

Mas o que teria ainda a dizer esse gênero típico do século XX, ligado à experiência individual do escritor frente ao mundo, quando, na pós-modernidade do século XXI, tudo é experiência individual, quando qualquer um pode dizer o que quiser e todos os discursos se equivalem, que tudo é relativo?

Aí surge o outro aspecto do duplo sentido, ao nomear de “EU” essa primeira parte, o autor também limita este mesmo “EU”. Intuitiva ou reflexiva – tal divisão não mais importa –, essa limitação do “EU” libera o autor para sair de si mesmo e, a partir da segunda parte, TU, buscar refletir sobre a experiência do outro mais do que expressar a experiência individual. Ainda estamos próximos à crônica canônica, mas já em outro registro, a serviço da reflexão sobre a sociedade.

Mas esse TU não é apenas a pessoa com quem se fala na língua portuguesa, é uma marca local da fala santista (sem esquecer que de outros lugares também, pois não devemos alimentar o bairrismo): aqui fala-se “tu vai”, “tu viu”. Então, além de ser um direcionamento ao outro, a 2ª pessoa do singular, esse “TU” da segunda seção é também um indício geográfico, uma pista do território que passa a ser tratado nas crônicas, como explica o próprio autor na apresentação do livro: “A segunda parte, intitulada Tu, envolve personagens da minha cidade e de outras regiões. Personagens, leiam-se, gente e lugares, todos eles com alguma afetividade, seja por memória, seja por atualidade”.

E o afeto pelas coisas da cidade não significa exatamente um olhar doce, pelo contrário. Crônica após crônica, Marcus Vinicius Batista vai apontando mazelas próprias da cidade e as articula com as mazelas próprias dos tempos atuais como a especulação imobiliária e o trânsito infernal.

A cidade engarrafada no tráfego é tema da crônica “O filho do trânsito”, sobre um amigo motorista: “Os Homo trafegus não dirigem apenas táxis. Seria uma injustiça generalizar o olhar particular. Estes espécimes conduzem ônibus em jornadas semiescravas de trabalho. Pilotam motocicletas castigadas com entregas multiplicadas pelo tempo curto. Arrotam status quando passeiam com seus carrões de novos ricos nas portas das escolas. Um ecossistema rico em diversidade e perversidade, pronto para estudos científicos”.

Em “A rua que divide o tempo”, as transformações promovidas pelo avanço imobiliário sobre o território da cidade são vistas a partir da perspectiva de uma pequena rua da Ponta da Praia, a Francisco Hayden, que separa dois terrenos vinculados a clubes históricos da cidade: de um lado, o terreno vazio onde um dia esteve o Clube de Regatas Santista, demolido recentemente; do outro, o Clube Internacional de Regatas, com muros de tijolos vermelhos, ainda em pé.

“… O grupo que abriu a porteira para a boiada de concreto e ferro tem na rua Francisco Heyden um cartão postal macabro que escancara o estrago, fruto da ansiedade por progresso. Do outro lado, o gigante vermelho deve se preparar para a própria pequenez. Para a luz que será trocada por uma parede de dezenas de andares. Para entender que o morador de hoje é um sujeito com outras formas de lazer em mente. Sujeito que pode desejar o velho clube Internacional, mas que flerta com outros espaços fechados, com vitrines, praças de alimentação e outros atrativos à base de cifrões.”

Em “Os escombros da Pompéia”, o cronista trata da demolição sintomática dos prédios das faculdades de Comunicação e de Filosofia, Ciências e Letras na Rua Euclides da Cunha, cujo território muda de função de local de produção de conhecimento para moradia de alta renda:

“Os prédios morreram pelas mãos do crescimento imobiliário paranoico. Tornaram-se peças descartáveis. No lugar, serão três torres, de 42 andares. Os edifícios, um dia imponentes, eram apenas formigas diante dos elefantes que se aproximam. O passado enterrado deu vez à ilusão dos que se julgam mais próximos do céu.”

Ex-aluno e também professor da Universidade Católica de Santos, o autor não esconde a tristeza pessoal, mas, além dela, busca traçar a perda coletiva: “Parte da história da Pompéia são escombros, prestes a encher as caçambas de caminhões. As experiências são entulhos de um passado que merecia melhor valor. A nova história, por enquanto, é reescrita pelas máquinas pesadas, nascidas para desconstruir, borrachas que eliminam símbolos da cultura local, gravados nas paredes que abrigaram milhares de estudantes, visitantes e funcionários”.

“Escombros” e “entulhos do passado” apontam para uma cidade de ruínas geridas pela especulação imobiliária, cuja sanha transformadora atinge até mesmo um pequeno farol a dezenas de metros da praia na altura do Canal 6, já sem valor de navegação, mas ponto de mergulho de centenas de crianças e jovens ao longo das últimas décadas. E acabou derrubado mesmo sem que nada possa ser construído em seu lugar: “O farol tem destino traçado, o da insignificância coletiva, o da ausência de vontade política de quem administra dinheiro público”, escreveu antes da demolição programada.

Sem comparar os talentos do autor e de um clássico como Rubem Braga, tomo “A morte do farol” como a “Flor de maio” do livro. Nela, a voz individual e a voz coletiva (EU, TU e ELES) imbricam-se em torno de uma pequena construção, quase insignificante, metáfora para as ruínas de toda a cidade.

Reflexo do impacto das transformações urbanas na vida de todos, o tema da especulação avança da seção TU, voltada para Santos, e se instala também na seção ELES, em que descreve uma visita a uma destas torres-godzila que vêm sendo construídas pela cidade:

“O edifício era uma fortaleza. Para alcançar o elevador, três portões e a identificação junto a dois funcionários. Imaginei que, em instantes, pediriam carteira de identidade, CPF e comprovante de residência. O nome das torres misturava idiomas, mezzo francês, mezzo inglês. […] O apartamento segue a tendência: possui limite de capacidade humana, como os elevadores. De tão pequeno, o apartamento lota com meia dúzia de testemunhas. Mas o dono garante que a piscina e a pista de skate foram atrações que pesaram na compra. A piscina permanece como sonho de consumo. Por enquanto, só água quente de chuveiro. E o filho, este não é fã de esportes radicais.”

O tom e o texto

Esses textos fazem parte de um projeto (ou de uma esperança) de valorização da escrita jornalística no qual o exercício da crônica exerce uma resistência contra a pausterização do texto. Encontramos por todo o livro sentenças – como os trechos acima que tratam da pequena rua, das torres em construção ou dos escombros – que provavelmente não leríamos nas páginas de notícias, conformadas em textos concisos, telegráficos e escritos com o intuito de hierarquizar os assuntos de maneira que qualquer parágrafo possa ser descartado para que o texto caiba no espaço que restou na página após a aprovação do anúncio.

Essa aposta do autor no jornalismo com texto de qualidade chega a seus melhores momentos quando é estimulada pela revolta do autor contra a naturalidade com que são tomadas as ações mais abjetas contra as pessoas, sintomas de uma sociedade “doente”, com “instituições apodrecidas”. O bom texto a serviço da revolta e da indignação, como em “A Rosa sem nome”, da seção “ELES”, sobre uma adolescente presa há alguns anos pelo Poder Judiciário do Pará em uma cela junto com homens:

“A garota, fragilizada fisicamente, deteriorada na própria autoestima, caiu na teia do processo inquisitório. Julgamento foi peça ficcional. A punição foi rápída e, certamente, com danos definitivos para a ré-vítima.

No entanto, a menina de corpo franzino, marginal e miserável não foi ‘curada’ de seus males na fogueira acesa antes do amanhecer. Seu destino foi uma cela de prisão, dividida com 20 homens por 24 dias. As labaredas não eram extintas assim que o corpo se queimava. As chamas se realimentavam a cada refeição, ressuscitavam a cada violência contra um corpo feminino que insistia em permanecer incomodando o sistema medieval.

[…]

Como no universo totalitário, as autoridades jamais têm ou podem assumir responsabilidades. A culpa é da adolescente de 15 anos, pecadora por ser menor, transgressora por ter retardamento mental, segundo o ex-delegado-geral do Pará. A responsabilidade dela se eleva se considerarmos que a adolescente provocava sexualmente os presos, conforme a constatação da corregedora da Polícia Civil do Pará, Liane Paulino, afastada da investigação por essa ‘conclusão civilizada’.”

Ao final do texto, uma nota em itálico informa sobre o destino das investigações durante o intervalo entre a crônica original e sua publicação em livro, o que faz indagar se não seria mais proveitoso que houvesse a data original de cada crônica ao fim de cada uma, não apenas como utilidade, porém como mais um estímulo (a lembrança de uma data) para o leitor entrar na conversa.

Marcus Vinicius Batista não está sozinho nessa empreitada de valorização do texto jornalístico, como mostram sites como o Jornalirismo e a própria multiplicação de cronistas na grande imprensa, sites e blogs. A grande questão é: esses espaços ficarão como ilhas em meio a notícias sem graça e sem vigor como os tópicos de uma apresentação de power point ou terão força para levar o bom texto de volta para o noticiário?

Minha desilusão com a atividade jornalística me faz pender para o primeiro cenário; minha leitura de “Quando os mudos conversam” me faz ter um fundinho de esperança no segundo.

Referências

BATISTA, Marcus Vinicius. Quando os mudos conversam. Santos: Realejo Livros, 2015.

BORGES, Jorge Luiz. Sobre a filosofia e outros diálogos. Organização e tradução: John O’Kuinghttons. São Paulo: Hedra, 2009.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Há braços!



Júnior Landim

É difícil traduzir para o papel o significado de um abraço. Acredito ser um gesto tão antigo quanto sorrir ou chorar. É a intenção mais pura de dizer ao outro o quanto gostamos dele ou o quanto sentimos sua falta ou iremos sentir.

Em vários momentos da vida, tudo o que precisamos ou queremos é um demorado abraço. Mas nem sempre nos permitimos pedi-lo. O ato, se avaliado com razão e frieza, é um tanto estranho. Dois corpos que se encontram e se apertam por alguns segundos.

Funciona para tudo e com todos. Crianças com crianças. Adultos com crianças. Adultos com adultos. Homens com homens e mulheres com mulheres. É universal!

Abraço. Acontece com braços e o ponto alto é o coração com coração. Troca de energia ou reposição dela. Abraço, talvez um derivado de cuidar, bem querência.

Abraço, Para acontecer, precisa do fator mais importante, gente, ou não existe. Abraço, talvez a melhor maneira de dizer "eu te amo", em silêncio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A senhora pede respeito

Museu de Pesca, em Santos. Foto: Juicy Santos

Marcus Vinicius Batista

A senhora não passou da idade. É esbelta, bem conservada, pra frentex, como dizia minha avó. Com a experiência e a maturidade, ela parou de reclamar de qualquer coisa. Mas também não fica calada para que abusem da sua biografia. Ela tem suas manias provincianas, contradições em quem viveu sempre na fronteira entre o ar de cidade pequena e o mundo cosmopolita da capital.

A senhora Santos anda preocupada com o futuro. É um passo enorme, olhar para frente, sem se agarrar no saudosismo de quem poderia ter sido ou do que viu, em dimensões menores, pelo retrovisor. A preocupação - e ela se aborrece - renasce de tempos em tempos, fruto dos falsos profetas que tentam iludi-la com promessas de enriquecimento rápido, de glamour internacional.

A senhora, depois de uma certa fase da vida, cristalizou a ideia de que andar para frente significa caminhar em ritmo próprio, sem saltos megalomaníacos que não a tiram do lugar ou a derrubam no chão, com risco de fratura exposta. Ela não é mais criança para ignorar a noção do perigo.

Santos já ouviu os aventureiros que juravam vislumbrar o turismo de negócios como a salvação da maré. Depois, conheceu os gurus do desenvolvimento sustentável, vestidos de cinza, com sorriso verde, e palavras da moda que se anulam a cada livro de autoajuda.

Com paciência, a senhora teve contato com os astronautas do pré-sal, que prometiam oceanos de óleo negro e, como Midas, asseguravam que a cidade seria pintada de ouro.

A idade a obrigou a colocar os pés no chão. Caso contrário, queda e beijo no solo. O equilíbrio não é daqueles tempos. Lúcida, ela pede por sanidade. Dos outros. Dos meninos que resolveram prometer Barcelona antes de outubro.

Santos confidenciou que teme pelo dia de amanhã. Se ficar doente, não pode ir ao hospital. Ela pode ser barrada por uma porta fechada e salas ocas. Sentiu-se envergonhada em ver a inauguração dos Estivadores, que não tem condições de beneficiar as pessoas.

A senhora também se preocupa em sair de casa. Uma confusão no transporte coletivo. VLT a passos de tartaruga. Ônibus caro demais. Motoristas legais e ilegais que brigam por passageiros, exaustos por pagar muito e ter tão pouco. Andar a pé? O fôlego ficou preso nas fotos amareladas do álbum de família.

Quando pensa em sua história, aquele comportamento comum de quem faz aniversário, ela se encolhe com o que os homens de gravata fazem com partes de sua trajetória. A senhora, ao avaliar o passado recente, chora pela Cadeia Velha, que prendeu gente politizada e hoje deseja os políticos fora dela.

Quando se ultrapassa a barreira dos quatrocentões, aniversários deixam de ser exercícios de ufanismo, de bajulação da beleza. Aniversários, para uma senhora como Santos, mostram também as rugas, as cicatrizes, as marcas da travessia pela vida. Identidade também.

É o "parabéns" pelo ontem, o "obrigado" pelo hoje, o "cuidado comigo, por favor", para amanhã.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sexo combina com solidão




Marcus Vinicius Batista


Acabei de ler Parafilias (Editora Record), primeiro livro do contista Alexandre Marques Rodrigues. Eu o conheci há cerca de um mês, quando pudemos conversar dentro da Tarrafa Literária, festival anual que acontece em Santos, cidade onde ambos moramos.

O livro de estreia cobriu Alexandre de responsabilidades como escritor. A publicação da obra é o resultado do Prêmio Sesc de Literatura, em 2014, concurso nacional voltado para autores estreantes. Depois do lançamento, Parafilias se tornou finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Oceanos (antigo Portugal Telecom).

A vida mudou, ao menos na literatura, para Alexandre. Ele ainda demonstra dificuldades em se adaptar ao mundo literário contemporâneo, marcado por sucessivos festivais, conversas semanais com leitores para quem entra no circuito, viagens e entrevistas.

Alexandre é tímido, fala baixo, pensa com cuidado nas respostas e reafirma que não possui carisma ou interesse sólido nas tertúlias da comunidade literária. É como se perguntasse: o que estou fazendo aqui? Vocês têm certeza?

Alexandre é um operário do texto, que compreende com clareza o ofício de escritor. Não há glamour, há trabalho e dedicação. Ele é formado em Psicologia, mas exerceu a profissão por poucos anos. Preferiu a segurança de um concurso público e se tornou bancário. Acorda diariamente às 6 horas para escrever. Trabalha no apartamento onde mora com a esposa, no bairro do Embaré. Lapida um texto à exaustão, até se sentir satisfeito.

Alexandre é sinônimo de discrição. Até a publicação de Parafilias, quase nenhum colega de trabalho sabia que ele era escritor. Chefes só o “descobriram” por conta dos pedidos de folgas para viagens, consequência de ter vencido o Prêmio Sesc de Literatura.

Parafilias trouxe uma segunda surpresa. Alexandre Marques Rodrigues passou a ser classificado como um autor de literatura erótica. Muitos dos convites são para falar sobre livros e sexo. Não há tema para deixá-lo mais envergonhado, tema para que ele reforce a ideia de que “é sem graça”. Mentira dele! Alexandre apenas é avesso ao mundo da eterna felicidade aparente que permeia – de vez em quase sempre – o mundo da literatura. Aquele mundo onde escritores escrevem para escritores e celebram os livros pelas vendas, e não pelos leitores.

A palavra Parafilias significa perversões, desvios sexuais. É um livro com 24 contos, todos eles com sexo como pano de fundo. No entanto, engana-se quem aposta que uma literatura que desfila posições sexuais ou que busca agradar mamães comportadas em 50 tons.

A obra dele é, categoricamente, sobre solidão. Defesa irredutível do próprio autor. Concordo, sem petulância. Sexo, neste caso, é dissociado de amor, e os personagens procuram, paliativamente, curar com parceiros sexuais suas próprias lacunas. O sexo, nos contos, preenche tempo, solidifica máscaras, esconde o vazio de um cotidiano fútil e – aí sim – sem graça.

A escolha de Alexandre me pareceu consistente ao esquadrinhar, com sutileza, pequenas e profundas histórias sobre indivíduos que se sentem deslocados no mundo, enquanto confundem muitas vezes relacionamento sexual com a concretude de um sentimento. É um olhar coerente com a atualidade, onde se fala de sexo como se come um sanduíche na padaria. Onde se mistura, do estelionato à ilusão, quantidade, qualidade e prática.

Outro engano é achar que, embora o livro seja sobre a solidão humana, Alexandre alivia no tom erótico da narrativa. Ele domina a linguagem literária. Sabe escrever sobre sexo, sem ser vulgar. Sabe camuflar o que é necessário, escapa da pieguice e consegue criar o ambiente onde os personagens ficarão nus, literal e simbolicamente. Isso acontece no conto Seios, em que órgãos sexuais masculinos e femininos se confundem na opção sexual de duas amantes.

Alexandre também aproveita para inserir o próprio ofício de escritor e a literatura em alguns dos contos. Em Livros, por exemplo, uma mulher procura excitação com o amante por meio dos livros da biblioteca do marido. Em Palavras, um escritor em bloqueio criativo sofre com um relacionamento sem amor.

Alexandre Marques Rodrigues é, num primeiro encontro, um sujeito discreto, que facilmente se misturaria à plateia. Mas sua imaginação o contradiz, ao expor com sabedoria o quanto público e privado são bem diferentes. Ao menos, na literatura.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Malucos-beleza


O elenco de "A Terra pode ser chamada de chão"
Foto: Rafaella Martinez

O texto abaixo foi escrito, em 2014. Optei por republicar na íntegra, sem alterações. 

++++++++

O projeto Tam Tam completa 25 anos, com estreia de peça, reativação de programa de rádio e trabalhos com dança e literatura. Um quarto de século para um projeto que começou na extinta Casa de Saúde Anchieta, um manicômio conhecido como Casa dos Horrores. Este é o sexto e último texto da série sobre o projeto.


Marcus Vinicius Batista


O Teatro do Sesc, em Santos, estava lotado. Cerca de 800 pessoas, de políticos a jornalistas, de familiares a simpatizantes, assistiram à estreia da peça “A Terra pode ser chamada de chão.” Era o primeiro capítulo de uma série de eventos que comemoram 25 anos do projeto Tam Tam, trabalho que nasceu nos corredores da extinta Casa de Saúde Anchieta, o famoso manicômio do litoral de São Paulo, pelas mãos do arte-educador Renato di Renzo.

Durante uma hora, o palco foi preenchido por cerca de 60 atores e atrizes, entre pessoas ditas normais e deficientes das mais variadas origens. Depois de seis meses entre concepção da peça e ensaios, todos se misturavam para denunciar os problemas sociais e ambientais que nos envolvem no mundo contemporâneo.

Di Renzo nunca dirigiu tanta gente ao mesmo tempo, assim como o projeto Tam Tam jamais havia recebido tantos recursos para colocar um espetáculo em cartaz. Foram R$ 60 mil por meio da Secretaria do Estado da Cultura. A peça será reapresentada, em 16 de julho, no mesmo teatro.

O casamento de Renato com a arte começou na década de 60. Na família di Renzo, é famosa a história de que, quando tinha três anos, Renato se recusou a vestir uma roupa de festa junina porque a calça era formada de retalhos.

A relação com a saúde mental veio por meio de uma profecia. Ainda criança, ele morava na Vila Belmiro e brincava perto da Casa de Saúde Anchieta, quando ouviu de um dos colegas: “se você continuar desse jeito, vai acabar aí dentro.”

A profecia levaria cerca de 25 anos para se concretizar. Antes, Renato teve que sair da cidade. Em 1969, ele se mudou para São Paulo a fim de estudar artes. Primeiro, se matriculou no extinto Instituto de Artes e Decoração (IAD). Teve de aulas com Naum Alves de Souza e com o arquiteto Ruy Othake, entre outros craques da área cultural.

Depois, Renato se formou em Artes Plásticas, na Faap. Durante o curso, ele se aproximou da discussão em torno das políticas de saúde mental, período em que brotava uma visão antimanicomial e que predominavam os manicômios como depósitos de gente. Pessoas eram internadas por doenças mentais, mas também por alcoolismo, consumo de maconha e outros comportamentos considerados socialmente desviantes. Uma perspectiva que remete ao século XIX, quando D. Pedro II inaugura, em 1850, o primeiro hospício, no Rio de Janeiro.

Além de se envolver no debate sobre o assunto, Renato fez várias visitas ao Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, em 1971, com um amigo que trabalhava na Editora Abril. O local abrigava aproximadamente quatro mil internos. Quando desceu a Serra do Mar em definitivo, o então arte-educador percebeu que a Casa de Saúde Anchieta era o palco para intervenções sociais e artísticas.

Renato confessa que não tinha ideia do que poderia fazer quando entrou pela primeira vez no Anchieta, em 25 de agosto de 1989. O hospital era um caldeirão por conta da superlotação, mas também pela iminente intervenção da Prefeitura de Santos, que fecharia o lugar e descentralizaria o atendimento aos pacientes de saúde mental por meio dos Núcleos de Apoio Psicossocial (Naps). O Anchieta tinha capacidade para 180 internos, mas abrigava 700 pacientes.

Ao entrar no Anchieta, ele viu o mundo cinza. Paredes, corredores, profissionais de saúde no piloto automático de uma instituição que agonizava. Lonas separavam pacientes de visitantes. Aliás, lonas que seriam transformadas menos de dois meses depois em material para peças teatrais.

Sala onde aconteciam as oficinas

Renato se aproximou dos pacientes, que não reagiam. Até que um jovem negro, de quase 1,90 metros, perguntou a ele o que fazia ali. Renato respondeu: “ teatro”. “O que é isso?”, perguntou Ercílio, hoje funcionário do programa municipal de reciclagem de lixo, o Lixo Limpo.

Segundo Renato, “ele ficou me olhando com cara de quem não tinha entendido. Aí, vi uma TV e disse: vim fazer novela.” Todos compreenderam e daí nasceram os primeiros personagens.

Não foram necessários 15 minutos de conversa para que Ercílio escolhesse ser um papa. Outro paciente, tão branco quanto a roupa de um médico, queria ser um pirata. Surgia a primeira peça, na qual um papa se aliava a piratas para roubar o Vaticano e dividir o produto do assalto meio a meio.

Um mês depois, em setembro de 1989, o trabalho já se estendia a outros pacientes, e Renato passava vários dias da semana dentro do Anchieta. Numa reunião com eles, apareceu a ideia de se criar um nome. Tam Tam, doidões, malucos-beleza, pirados; a lista girava em torno de expressões associadas, é claro, à loucura.

O grupo fechou em torno do nome TamTam. Renato explicou que o nome representava um gongo chinês, que ecoa para todos os lados. Daí, bastava entrar um médico ou enfermeiro para que os pacientes perguntassem o significado da expressão TamTam. Diante da resposta óbvia, associada à loucura, os internos retrucavam com a definição dada pelo arte-educador.

Intervenção cênica - rádio TamTam

O teatro se expandiu para o rádio. O programa TamTam nasceu em 1990 dentro do Anchieta, a partir de um aparelho de som 3 em 1, fornecido pela Prefeitura. 32 caixas de som espalhavam o programa pelas dependências do hospital psiquiátrico. Todos trabalhavam sob pseudônimos. O slogan resumia a ideia: “um programa do tamanho da sua loucura.”

Depois, o programa foi para a rádio Cacique AM e cresceu com a criação do jornal TamTam. Quando passou para a rádio Universal, a duração se fixou em meia hora por semana. Dois telefones não davam conta de atender aos ouvintes. A última parada foi na extinta Rádio Clube, também em Santos. No total, foram oito anos no ar.

Uma das propostas do aniversário de 25 anos é a retomada do programa de rádio. Ainda faltam definir o formato e acertar com uma emissora. Veicular o programa via Internet é também uma possibilidade.

Em 1990, Renato e Claudia Alonso se conheceram em uma das salas da Casa de Saúde Anchieta. Claudia era recém-formada em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Dançarina de formação clássica, ela dirigia uma escola de dança, mas nunca se sentira totalmente encaixada entre barras e sapatilhas. O motivo era que Claudia não atendia aos rígidos padrões estéticos que cercam as bailarinas.

Com o Trabalho de Conclusão de Curso embaixo do braço, ela conseguiu uma audiência com o então secretário de Saúde David Capistrano. Ele folheou o projeto e foi taxativo: “vá procurar o Renato di Renzo.”

Claudia nunca havia visitado uma instituição psiquiátrica. “Achava que louco babava e mordia.” Ela se lembra até da hora em que entrou no Anchieta: “Dez e meia da manhã”. Apavorada, atravessou corredores e entrou numa sala com paredes coloridas e pacientes em diversas atividades artísticas. Ela teve a sensação de que Renato a julgara como uma nova paciente, pois foi incorporada ao trabalho sem apresentações. “Ele beijou a todos. Ele pensou que eu era uma louca nova.”

Cláudia não suportou o ambiente, foi ao banheiro e vomitou. Na volta, conversou com Renato. Naquela época, o arte-educador já era funcionário da Prefeitura e trabalhava diariamente na instituição. No final da conversa, ele fez a pergunta que mudou os rumos da vida profissional de Claudia. “O que é mais importante para você? A dança ou a psicologia?”

Cláudia Alonso (à esquerda), em uma das edições da rádio TamTam

Ao se envolver com os pacientes do Anchieta, Claudia não poderia imaginar que seu grupo de dança, o Orgone, se transformaria, em 1993, em um grupo de teatro. Ela fechou a academia de dança e prestou concurso para a Prefeitura, onde trabalha até hoje com deficientes na Secretaria de Assistência Social.

A mudança de trajeto do Orgone foi um salto artístico hoje simbolizado em mais de cem prêmios e 20 espetáculos. O nome não seria mais apropriado. Orgone é a união das palavras orgon (órgão) e one (energia, pulsão, vida). O grupo teve mais de 5 mil alunos desde a fundação.

O projeto TamTam saiu dos corredores da Casa de Saúde Anchieta e ganhou outros palcos a partir de 1993. É quando Renato di Renzo dirige o primeiro espetáculo para o grupo: “Na sala de espera do Dr. Sigmund”. O espetáculo, que unia teatro e dança, faturou prêmios e bagunçou as definições em torno do trabalho deles. Para uns, teatro-dança. Para outros, dança-teatro. Estas categorias não existiam nos festivais, na época. Uma terceira via os classificava como teatro físico.

No mesmo ano, os trabalhos dos pacientes – inclusive o programa de rádio – foram expostos no Sesc, em Santos. Era o começo de um caminho que os levou a programas como Jô Soares Onze e Meia (o nome na época) e a reportagens de jornais e revistas do país e do exterior, como o The New York Times. Um ano antes, em 1992, o projeto se transformara na ONG Associação Projeto TamTam e se estendia a outros projetos de inclusão social. 

Bastidores da gravação com Renato di Renzo, no programa
Jô Soares Onze e Meia 

Em 1996, o TamTam se desmembra em dois outros filhos. A Rádio Moleke era um programa semanal que envolvia crianças e adolescentes de abrigos municipais. E o Zazah´Bar, que ocupava o terceiro andar do Teatro Municipal de Santos. “Todo teatro precisa de um bar”, explica Renato.

A partir de 1997, com o término da gestão David Capistrano, vieram as vacas magras. O TamTam perdeu espaço na administração Beto Mansur. Foram dois anos de vida itinerante. Os ensaios e demais projetos sociais aconteciam em casas antigas emprestadas por simpatizantes e amigos.

O trabalho também aconteceu em galpões e, em 1999, o Orgone passou a ensaiar no Colégio Universitas, na Ponta da Praia. Foi nesta fase que di Renzo solidificou o que atores chamam de “Pedagogia diRenziana”.

O grupo permaneceu no Universitas até 2003, quando o foyer (terceiro andar) do Teatro Municipal foi devolvido ao projeto. Nascia o Café Teatro Rolidei, hoje sede de todos os trabalhos que envolvem o TamTam.

Parte dos cenários vem de doações

Logo na entrada, o Café Teatro Rolidei parece um picadeiro. À esquerda, uma arquibancada com três degraus, usada para debates, espetáculos e aulas. À direita, um espaço que serve de palco e de cenário para a exibição de filmes. O Café abriga, todos os anos, o Ciclo de Cinema de Saúde Mental.

As paredes são uma bagunça organizada. A decoração é fruto de cenários abandonados no fosso do Teatro Municipal, além de doações e objetos encontrados pelos integrantes do grupo nas ruas de Santos.

O segundo ambiente, após uma cortina vermelha, tem o balcão do bar, uma biblioteca com dois mil títulos, outra minibiblioteca sobre rodas para crianças, com 200 exemplares, e uma infinidade de quinquilharias, como chapéus antigos e brinquedos, que transforma o espaço em um cenário múltiplo, a ser reconstruído pela imaginação do visitante.

Nos fundos, fica o banheiro, com três cabines, uma cadeira de barbeiro, azulejos em preto e branco e uma exposição de fotos pelas paredes com a história do projeto TamTam. O banheiro é chamado de bissexual. “Mas as cabines são individuais”, ressalta Claudia. Na janela, uma foto que simula a vista da cidade de São Paulo.

Duas vezes por mês, em média, acontece uma balada no Café Teatro Rolidei. A balada, por segurança, tem hora para acabar: duas horas da manhã. Nos variados espaços, famílias – inclusive com crianças – dançam, pois há sempre uma banda convidada, assistem a performances teatrais, leem e comem petiscos. Houve até celebração de noivado no local.

Ao final de cada balada, todos são convidados a limpar a casa. “É uma forma de cultivar pertencimento, cidadania. O bar é um lugar terapêutico”, afirma Claudia Alonso. Os frequentadores podem deixar mensagens em um dos cadernos do Café. Ao total, são 100 volumes. Uma das mensagens que indicam o espírito das baladas, deixada por um visitante. “Adeus Prozac. Olá, Rolidei.”

Cenário - Café Rolidei
Thays Ayres, de 33 anos, representa os braços direito e esquerdo de Renato e Claudia e conhece o Café Teatro Rolidei desde o trabalho de parto. Ela produz espetáculos, cuida da parte administrativa, do relacionamento com a imprensa, trabalha como assistente de direção e preparadora de elenco e, duas vezes por semana, dá aulas de teatro. Nas baladas do Café Rolidei, fica no caixa e interpreta uma detetive.

Ao simbolizar a versatilidade dos integrantes do grupo, Thays acredita que o teatro praticado pelo Orgone é alimento para o dia a dia. “O teatro serve para desmontar, sair do eixo.” Ela conheceu o projeto quando tinha 17 anos e fazia teatro no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. As aulas eram dadas por Renato di Renzo. Ela o seguiu para o Colégio Universitas e injetou a arte em definitivo na vida ao entrar para o Grupo Orgone.

Thays se formou em Psicologia e chegou a passar em concurso no Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, mas preferiu a arte. Ela entende que o teatro a permitiu não apenas aplicar o que aprende no mundo acadêmico, mas também a sobreviver como alguém que decidiu caminhar fora dos padrões.

Depois de 16 anos, a família, embora acompanhe os espetáculos, ainda torce o nariz para a troca do consultório pelo palco. “Não sou rica, não tenho carro e minha casa, mas tenho outros ganhos. É um investimento maior, um pouco do que deveria ter em cada escola. Eu fui escolhida pelo teatro.”

Fotos: Beth Soares
Felipe Domingues, por sua vez, está há cinco anos no grupo. Entrou com 16 anos e hoje é o garçom, um dos personagens que compõem as performances nas baladas do Café Rolidei. Disléxico, ele atua como voluntário cinco noites na semana. “Eu sou ótima pessoa e péssimo aluno. Ninguém me entendia.” Além disso, ele foi diagnosticado com hiperatividade. A terapia são as múltiplas atividades que exerce na rotina do Café Rolidei. De jardinagem à limpeza do espaço.

Felipe é formado em Gastronomia e com pós-graduação em Gestão de Negócios da Alimentação. (Felipe mora, atualmente, na Irlanda) No Rolidei, Felipe intepreta Adolf, um garçom alemão que chegou no Brasil em um porão de navio e que aprendeu português com um argentino. “Hoje, consigo ficar concentrado. A questão não é inserir pessoas diferentes na sociedade, mas que todos possam conviver juntos”. 

O projeto TamTam, depois de 25 anos, conta com 185 alunos e dezenas de voluntários. As baladas recebem mil pessoas por mês. A casa está sempre lotada, com filas na porta. Na prática, todos ali rezam a mesma cartilha, do teatro e da arte como libertação. Como ensina di Renzo, parafraseando Grotowski, “o trabalho destrói o cansaço, destrói o corpo cheio de máscaras, corpo pré-estabelecido.”

Assim é desde 25 de agosto de 1989, quando ele atravessou pela primeira vez o portão da Casa de Saúde Anchieta, a “Casa dos Horrores”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Psicose: salvo pelo Hitchcock





Marcus Vinicius Batista

Costumamos acreditar que livros, quando nos permitem abrir mão do sono madrugada adentro, são bons. A história seria envolvente a tal ponto que a curiosidade é o remédio preventivo para as dores físicas do dia seguinte.

Pensei que isso aconteceria comigo enquanto lia Psicose, de Robert Bloch (editora Darkside). Devorei a obra em 24 horas, como há muitos anos não o fazia. Mas a curiosidade não se traduziu em excelência literária.

O romance policial ficou conhecido depois que se transformou em um dos clássicos do cinema, sob a direção de Alfred Hitchcock, além de marcar a carreira de Anthony Perkins, como intérprete do assassino Norman Bates.

O livro é de 1959 e foi comprado pelo diretor no mesmo ano. O filme saiu em 1960. Hitchcock arriscou a reputação para adaptar a história do homem solitário e dono de um motel de beira de estrada. O diretor chegou a comprar – anonimamente - a tiragem completa, com 3 mil exemplares, para evitar que a história fosse divulgada.

Ele também brigou com o estúdio com quem tinha contrato e chegou a hipotecar a própria casa durante a produção. O resultado foi a bilheteria de US$ 50 milhões, diante de um investimento de US$ 800 mil e a solidificação da alcunha de mestre do suspense.

O filme deu a visibilidade que o livro e o autor precisavam. Robert Bloch entrou na indústria do cinema e ficou mais conhecido como roteirista, embora tivesse sido pupilo de H.P. Lovecraft e publicado dezenas de contos em revistas de horror e fantasia. Escreveu dez episódios para o programa Alfred Hitchcock Apresenta, no ar entre 1962 e 1965, e roteirizou três filmes da série Star Trek, na mesma década.

O livro Psicose é superestimado por causa do filme. Na prática, a obra atende ao que se propõe: um romance daqueles de papel barato (os pulp fictions), com uma história de fácil digestão, regada a pitadas de suspense. Não há arroubos psicológicos ou maiores aprofundamentos da psiquê de Norman Bates ou um grande mistério a ser resolvido. O Norman da literatura, por sinal, é o oposto fisicamente do ator Anthony Perkins, magro e alto.

As semelhanças com o filme são grandes. Hitchcock foi bem fiel à obra, o que justifica a ansiedade em sumir com o romance do mercado norte-americano. Mas há uma diferença essencial: a cena do chuveiro, em que Norman Bates mata Jane. No livro, o assassinato é bem mais selvagem e rápido. A cena é descrita em apenas três parágrafos.

A diferença se explica pelos bastidores. Hitchcock sofreu pressões da censura – os Estados Unidos atravessavam uma fase de profundo conservadorismo, vide a segregação e o McCarthismo – e teve que mascarar a sequência para que o filme fosse aprovado. A trilha sonora, decidida após a primeira montagem, deu o toque que faltava ao assassinato mais famoso da história do cinema. E olha que, inicialmente, o diretor era contra a música incidental.

Psicose foi lançado no mercado editorial brasileiro em 1959 e em 1964. Ficou quase 50 anos na geladeira até que a editora DarkSide o recolocou nas prateleiras há dois anos. A edição é muito cuidadosa – há a versão capa dura - e valoriza o livro como relíquia histórica e ícone da cultura pop.

Discutir se o filme é melhor do que o livro e vice-versa funciona como tempero para a pizza ou como aperitivo para a cerveja no boteco. Nada mais estéril comparar bananas com maçãs, ainda que a semente venha da mesma lavoura. No caso de Psicose, Robert Bloch deveria agradecer por ter plantado ideias na horta do mestre do suspense.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O livro-surpresa


Marcus Vinicius Batista

Devorei "O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, em dois dias. Para ser honesto, em um dia e meio. Utilizei todos os intervalos, dormi menos para chegar ao final da história de Christopher Boone, adolescente de 15 anos com Síndrome de Aspenger, uma forma de autismo.

O livro caiu nas minhas mãos no domingo, no final da tarde. Estava na casa do meu amigo André e conversávamos sobre literatura diante da estante de livros dele. Num instante da conversa, ele pegou o livro, me deu e disse: "Você vai gostar!" Levei emprestado mais um quadrinho do Demolidor e não questionei a decisão. É quase um pacto entre leitores-irmãos. De uma recomendação, não se duvida. Cumpre-se!

Resolvi olhar o livro assim que cheguei em casa. Que achado! A história é narrada pelo personagem principal. Não que o autor, Mark Haddon, tenha essa idade ou sofra da síndrome. O maior mérito da obra dele é fazer com que acreditemos que o narrador é realmente um adolescente de 15 anos, com Aspenger.

O garoto é incapaz de demonstrar emoções, domina matemática como poucos adultos, não pode ser tocado, conhece todas as capitais de todos os países do mundo e adora números primos, mas não compreende simbolismos, como metáforas. E, por causa disso, jamais mente.

Esse mosaico comportamental, vamos dizer assim, torna difícil a relação do personagem com seus pais, vizinhos, professores e colegas da escola especial em que frequenta numa pequena cidade da Inglaterra.

Christopher Boone é fã das histórias de Sherlock Holmes. E resolve aplicar os ensinamentos do detetive-mestre ao descobrir que Wellington, o cachorro da vizinha, foi assassinado no jardim com um forcado. E escrever um livro a partir das investigação, esta aí "O estranho caso do cachorro livro". Será que Christopher entenderia o significado de metalinguagem?

O adolescente, com o método sherlockiano, descobrirá não apenas o assassino do cachorro, como uma série de fatos que envolvem todas as pessoas próximas a ele, de maneira a levá-lo a ações inimagináveis para alguém que sempre dispensou "pensar sobre aquilo que não aconteceu".

Acompanhar as reações de Christopher é um exercício de controle da angústia. Ele sofre, física e mentalmente, com as relações humanas, suas sutilezas, seus jogos, suas aborrecidas previsibilidades da vida ordinária. A força do narrador te arrasta para o sofrimento contínuo de quem não consegue entender o que acontece em volta, assim como ninguém sabe lidar com ele e com a doença. O que varia são os níveis de paciência.

Christopher toma decisões definitivas num mundo de humanos transitórios, incompletos, abstratos como são os sentimentos e emoções. Christopher tem, a seu lado, somente a matemática e a física, áreas inábeis para diagnosticar as contradições psicológicas de qualquer humano, inclusive o adolescente, que sofre ainda mais por não enxergar a si mesmo em situações-limite daquele universo de difícil controle. Fechar-se e isolar-se seriam soluções, por exemplo, em uma estação de metrô lotada?

"O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, aponta com clareza como a maioria das pessoas não sabem como lidar com quem apresenta diferenças de comportamento, ainda mais se não apresentam sinais do ponto de vista físico. No reino da incompreensão, Christopher funciona com um imã, que coloca todos a volta dele, mas pela incapacidade de ser igual, os fazem acreditar que ele seria incapaz também de ver os outros.

Christopher percebe os comportamentos que optamos por tornar menos importantes, camuflados por vernizes que banharam as máscaras sociais. E ele sofre com isso, justamente pelo rigor que o impede de ser flexível no contato das pequenas (ou grandes, para ele sem diferença) mentiras e dos perdões silenciosos (para ele, sempre seria um grito). Ora, as armas que também usamos para levar a vida adiante.

"O estranho caso do cachorro morto" caminhou comigo na segunda-feira. Cheguei a me perguntar por que não conhecia o livro, por que nunca tinha ouvido falar dele. À noite, encontrei com André no trabalho e comentei: "Sensacional o livro. Estou quase no final."

Ele me disse: "Também achei. E acredita a surpresa? Achei esse livro na rua."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Game over literário

Marcus Vinicius Batista

Não jogo videogames. Minha história com eles começou aos 13 anos, quando ganhei um Atari do meu pai e terminou aos 17, quando arriscava cestas de três pontos na NBA, no Master System de um amigo, o Alfredo. Preferia os campeonatos de botão ou tentar ser jogador de futebol mesmo.

Daí em diante, tornei-me um espectador eventual e um leitor sobre o assunto. O espectador se manifesta quando estou na casa do amigo André Rittes. Lá, meus filhos e os filhos dele se juntam para disputar horas de batalhas. Hoje, como pai, e como pai, jogo algumas fases em versões diferentes de Lego, com Vini, meu filho de sete anos.

Leio sobre videogames por ser professor da área de Comunicação. É obrigatório me informar sobre as novidades de um mercado maior do que o de cinema. Os exemplos deste universo também ajudam a demonstrar a aplicabilidade de teorias e estudos sobre o impacto da mídia no cotidiano.

O preâmbulo sobre games tem o objetivo de explicar que ler um livro baseado neles me parece ser uma vantagem para quem não é fã do jogo, para quem está isento do purismo que normalmente ataca os crentes, por vezes mais preocupados com a fidelidade do que com a criatividade em torno de uma adaptação.

Terminei de ler, nos últimos dias, o livro Renascença, de Oliver Bowden. Quem me emprestou a obra me garantiu que não havia uma necessidade umbilical de ter lido as demais histórias da série Assassin’s Creed. Ele tinha razão. O maior mérito do texto – escrito por um historiador sob pseudônimo – é possibilitar uma trama fechada, de fácil passeio para leigos e diversão para os iniciados.

Por outro lado, o livro sofre do mais grave sintoma para as franquias que se alimentam de seguidas adaptações, em diversas mídias. A prisão ao modelo original, seja a história, seja o suporte tecnológico, limita o desenvolvimento de características da obra-filhote, que não consegue andar com a própria linguagem.

No caso de Renascença, sobrou aventura, faltou literatura. A impressão é que a trajetória de Enzo Auditore, a entrada dele na facção de Assassinos e a perseguição religiosa funcionam como uma introdução ao universo do jogo eletrônico. Esta estratégia me soa arriscada demais, pois a perda de qualidade de uma linguagem não significa o sucesso de outra, ainda mais a original, consolidada como marca neste mercado.

O livro caminha como se fosse a máscara de um roteiro de jogo. Talvez seja mesmo a função dele, preparar o espectador-leitor para o produto principal. Neste caso, personagens são descartados como moscas, cenários ficam para trás em descrições simples, e falta profundidade psicológica ao grupo principal de personagens.

A pesquisa histórica funciona como cortina de fumaça para as deficiências (ou a pressa) literária. Cortina de fumaça porque explora personagens históricos, mas não os fatos. Leonardo Da Vinci, Nicolau Maquiavel e Salvanarola são elementos importantes na construção da narrativa. Os dois primeiros, a serviços dos mocinhos.

O maniqueísmo, por sinal, é sintoma decisivo para que as últimas 50 páginas transmitam a sensação de que Renascença poderia ser menor. Como num videogame, lutas e mais lutas se repetem, com trocas de cenários, mas o mesmo objetivo de justiça e execução pelas próprias mãos.

Devolvi o livro ao meu amigo e, com gosto, comprei a ele mais uma obra da série, como presente de aniversário. É preciso respeitar o prazer dele, tanto com o console como com as páginas nas mãos. Para mim, ficou a sensação de passar de fase. E para outro jogo literário!

domingo, 15 de janeiro de 2017

Andando pelo Jaú

Fotos: Fabiana Honorato/Juicy Santos

Marcus Vinicius Batista

Quando eu era adolescente, olhava o Conjunto Habitacional Martins Fontes, o Jaú, dos campos de várzea do BNH. Ali, o goleiro do Canto da Vila, time onde jogava, observava os prédios coloridos sem interesse. Um segundo de distração para romper com a partida monótona.

Aos 30 anos, entrei num dos apartamentos para visitar um colega. Foi visita de médico, suficiente para me admirar com o tamanho do imóvel recém-reformado. Tempos depois, descobri que o sujeito não era confiável e me afastei dele e de lá.

Com quase 40, morava na rua Vergueiro Steidel e tangenciava o conjunto habitacional quando visitava o Sesc ou seguia para o shopping Praiamar. Shopping que enterrou os campos de várzea.

Uma amiga apelidou o Jaú de Bronks, bairro nova-iorquino com fama de violento. O apelido era mais por deboche do que por senso de justiça. Ela só sai dali para morar fora do país.

Passei a caminhar pelas ruas do Jaú, ao me mudar de endereço há três meses. Voltando do trabalho, cortando caminho para o mesmo shopping e, principalmente, para encontrar um casal de amigos, Thaís e Marcos. Descobri um pedaço de interior dentro da minha cidade, uma fronteira sem muros a uma quadra de casa.

Caminhar pelas ruas que cercam os 33 prédios virou um hábito. Consigo sentir tranquilidade por escapar do barulho do trânsito que circunda o conjunto, nas ruas Alexandre Martins e Frei Francisco Sampaio, dois corredores de transporte durante 12 horas ao dia.

As cenas são triviais quanto belas. Gente com cadeiras nas portas dos prédios, com conversa ao vento, somente presente em um ou outro bairro da Zona Noroeste e da Área Continental ou na orla da praia no pico do verão.

As ruas são todas arborizadas, formando corredores verdes que protegem do calor e seguram o vento a cutucar o peito. Nas beiras das calçadas, gramados cercados por concreto quadriculado dançam com as calçadas lisas, onde minha filha sonha em andar de skate, mas já as percorreu de bicicleta.


Na rua Alexandre Fleming, moradores de um dos edifícios adotaram uma solução simples para manter as calçadas limpas. Embora sempre veja gente passeando com cachorros armadas de sacos plásticos, imagino que a comunidade tenha se aborrecido com os selvagens que trocam de papel com as vítimas presas em coleiras.

Numa sequência de cinco árvores, os moradores cortaram a base de garrafas d’água de cinco litros, as prenderam nos caules, as preencheram com sacolas plásticas e pregaram um aviso: sorria, você está sendo filmado. Mais vale a educação do que a curiosidade de verificar a existência de câmeras.

Caminho pelo conjunto habitacional em diversas horas do dia. Sinto, entre as ruas e no bom dia de muitos moradores que nunca vi, uma paz que me aproxima do silêncio interiorano, prêmio que passei a perseguir há alguns anos.

As ruas do Jaú se parecem com a pequena varanda do meu apartamento, onde costumo sentar, mudo e com orelhas em posição de abano, durante a madrugada, para ler e observar uma árvore e seus habitantes de asas. O Jaú é minha varanda em movimento.

Nunca tive a intenção de abraçá-lo como oásis urbano. Apenas aconteceu, derivação de uma necessidade prática de locomoção, como chegar no horário ao encontro com Thaís e Marcos para tomar um lanche.

Levei meses para perceber que retornava ao mesmo trajeto sem a pressão do relógio ou a preguiça de economizar passos. Quando me dava conta, prestava atenção nas diferenças entre os edifícios, nos formatos de portões, na estrutura das janelas, nas imperfeições e nas quebras de padrão.

Andei no Jaú, pela última vez, no primeiro dia de 2017. De vez em quando, o ar interiorano recebe como reforço o tempo da cidade pequena. Tempo onde as pessoas acenam para você, perguntam tudo bem, ainda que sejamos estranhos em um município de 420 mil almas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

As chinelas (Crônicas além do quintal # 8)

Foto: Mari Amarante

Marcus Vinicius Batista

Calço número 44. Desde os 13 anos, estou acostumado a ter dificuldades para comprar qualquer coisa que se coloque nos pés. Quando penso em comprar um tênis, sapato, chuteira, desejo ter a coragem de Juca Chaves e andar o tempo todo descalço.

Aos 13 anos, a mudança aconteceu. Do dia pra noite. Numa madrugada. Havia comprado um tênis, no tempo em que bamba e kichute reinavam na classe média. Conga era para classe média baixa. Nike, para os ricos. Usei o tênis três vezes e dei de presente a um amigo. O pé virara 44.

Um dos meus desejos, não tenho tantos assim e não me mobilizo tanto por eles, era ter um par de chinelos de couro. Não se vende em lojas na cidade onde moro, Santos. O único lugar que encontrei foi numa dessas feiras de praça pública, em frente ao Sesc, na barraca de uma senhora migrante do Nordeste. Ela trazia os chinelos de lá.

Desisti do “sonho” e fiquei com minhas Havaianas (de outra marca) depois de meia dúzia de visitas. A senhora, em duas ocasiões, tentou me empurrar um par número 43, mas os calcanhares ficavam de fora. Diante da insistência, era educado e recusava a oferta. “Não tem saída”, ela sempre repetia.

O desejo dos chinelos de couro passou uns cinco anos adormecido. Até que aterrissei em Maceió para passar uma semana. Na primeira noite, tínhamos o aniversário da Syl, uma amiga que conhecemos em outra viagem. Quase no final da festa, um amigo dela se sentou do nosso lado. Ele estava com um par de chinelos de couro.

Pedi ao Leo, namorado da Syl, que me apresentasse o cara. Mal ele disse “muito prazer”, já perguntei sem enrolação: “muito legal esse chinelo, onde você comprou?”

Ele me agradeceu e disse que comprou numa feira de artesanato local, numa das praias. Avisei Beth, minha mulher, e o casal Syl e Leo que passaríamos por lá de qualquer jeito.

Não tinha o jogo ganho. Eu estava escaldado. Lembrei-me de quando comprei uma chuteira de futebol society, uns sete anos atrás. Foram nove lojas, em três bairros e dois shoppings. Na nona loja, depois de umas quatro horas de maratona, a vendedora me disse: “só tem um par. É esse aqui.”

“Não tem outra cor?”

“Não, só essa.”

Suportei duas semanas de piadas por jogar com uma chuteira branca e fios dourados, quase um gênio da lâmpada cujo desejo era ter uma chuteira preta, discreta, invisível.

Em Maceió, passamos mais cinco dias, e eu de olho nos chinelos. Em qualquer passeio, se houvesse uma venda, uma quitanda, um supermercado, uma barraquinha de produtos artesanais locais, eu entrava atrás dos chinelos. Nada. O mundo acabava no número 42. Só balançava a cabeça negativamente, olhava para o vendedor, para meus pés, e seguia em frente.

A indicação do sujeito que conheci na festa ficou para a última noite. Um jantar, um sorvete, mais bate-papo e o relógio alertou: falta menos de uma hora para fechar a feira. Na verdade, duas, uma de cada lado da avenida da orla.

Começamos pela feira do lado da sorveteria. Meia dúzia de tentativas, compra de lembrança para sogro, de objetos para casa ... e o desejo murchando outra vez. Ali era a tortura psicológica que se reforçava. O mundo, nesta versão, tinha a última página no número 41.

Eu, Beth, Syl e Léo, atravessamos a avenida da praia e fomos nas demais barracas, desta vez no calçadão quase pé na areia. Última oportunidade, pois o avião de volta para São Paulo decolava ao amanhecer. As lojas fechavam em meia hora.

Entramos pelo lado direito. Sete ou oito lojas depois, estaca zero. Muitos comerciantes fechando o caixa, lojas baixando portas. A feira reforçava o carma de seguir no universo dos chinelos Havaianas (e as marcas semelhantes).

Saímos da feira pelo lado oposto. Beth me olhava como se perguntasse: “achou?” Balancei a cabeça dizendo que não.

Perto de nós, um dos comerciantes estava sentado do lado de fora. Ele estava numa cadeira de praia, com uma latinha de cerveja na mão. Esperava os cinco minutos finais para passar o cadeado e descansar.

Olhei para o sujeito, balancei a cabeça para cumprimentá-lo e olhei para a loja dele. Chinelos de couro. Percorrei a vitrine com os olhos sem procurar por algo em especial. Quando desviei o olhar para as prateleiras de estoque, li: “44”. Olhei de novo: “45”. Um monte de chinelos embalados em sacos plásticos.

Virei-me para o sujeito e perguntei: “você tem chinelo de couro número 44?” Ele me observou da cabeça aos pés e, com preguiça, mas sem ser grosseiro, respondeu: “tenho!”

O comerciante entrou na loja e me deu um par de chinelos 44. Olhei para o Léo, que sorriu e me perguntou: “servem?”

“Puxa, é mesmo, preciso experimentar.”

Tirei os tênis e as meias ali mesmo e calcei os chinelos. Ficaram curtos. Sobrava calcanhar. Virei-me para Beth e fiz sinal que não. Ela atirou: “pede o 45”.

“Posso experimentar o número 45?”, perguntei ao lojista.

“Tenho sim.”

Era o número perfeito. Coube com precisão. Os três sorriam para mim. O comerciante esperava o dinheiro. Paguei o sujeito, calcei os tênis, peguei a sacola. “Você não vai com eles?”, alguém sugeriu.

“Não, agora não”, era como retardar o final de um livro, para saborear ainda mais a expectativa de vitória.

Chegando no apartamento, coloquei novamente os chinelos de couro. O conforto em forma de artesanato. Beth me disse: “bonitas chinelas. Bonitas mesmo.” Desfilei pela sala, como se encerrasse a Maceió Fashion Week, versão particular.

Chinelas, repetimos até hoje, é como meu filho Vini as chama, no feminino, do jeito que se habituou a falar quando morou no Nordeste. Seja de couro, seja do Ben 10, como as que ele calça.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Vida que explode


Júnior Landim

E pensar que um dia fostes miúda. Quase invisível. Passaste bom tempo abaixo da superfície, trabalhando em silêncio, uma meditação oculta aos olhos. Onde água, terra, ar e fogo (este vindo do Sol) também trabalhavam em sincronia e silêncio para sua alma pudesse encarnar.

Minha mente ferve tentando imaginar quantas décadas levaste até atingir a maturidade. Quantas mudanças ao redor testemunhaste nessa jornada. Te conheci agora e me encantei com tua beleza natural e generosidade. E continua em silêncio. Quanta sabedoria!

Fazer tanto por tantos, sem emitir ruído algum ou esperar alguma retribuição ou honraria. Muitos passam por ti, de forma inconsciente, pois não conseguem visualizar sua base e, para lhe perceberem, teriam que olhar para o alto.

Em tempos de respirar com ajuda de aparelhos (celulares), poucos o fazem. De onde estou a te observar, percebo que é morada de inúmeras famílias que encantam a vizinhança com suas músicas singelas.

Ainda não sei seu nome, mas vou descobrir e, em breve, irei embora e levarei esse ensinamento que me deras. Silêncio e perseverança para cumprir nossa missão, mesmo que a pessoa que repouse sobre suas sombras não perceba que és tu que a refresca.

Grande árvore é a vida que explode sem dar um ruído.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Encontros improváveis



Marcus Vinicius Batista

Minha esposa Beth me chama de candidato a vereador. Minha filha Mariana reclama como conheço tanta gente. Shopping, supermercado, feira livre, praia, show de rock, estádio de futebol, teatro, sempre encontro alguém para dar “oi, tudo bem, beleza?”

Não significa ser popzinho, como diz minha filha ou minha sobrinha Rafaela. Encontrar pessoas é fruto de 14 anos como professor universitário, com média de 300 alunos ao ano. Quase 25 anos como jornalista, passando por diversas empresas, de todos os tamanhos. Uma vida inteira de peladas de final de semana, às quintas, às segundas e assim por diante. É normal encontrar as pessoas em lugares movimentados. E acredito, modéstia à parte, que a resposta decorre de tratar as pessoas com educação e respeito.

Passei na vida por dois encontros improváveis. O primeiro, menos surpreendente, foi dar de cara com um colega de redação numa praia em Fortaleza, no Ceará. Sequer sabia que o sujeito estava de férias.

O mais curioso, porém, foi me sentar atrás da cadeira de um dos meus patrões, num teatro da Broadway, em Nova Iorque. Preferi ficar em silêncio. Vai que ele resolve me arrumar trabalho nos Estados Unidos.

Nesta última semana do ano, cruzei com duas pessoas, que proporcionaram experiências diferentes. Na segunda-feira, às dez da noite, seguia com meus filhos para a farmácia quando encontrei com José Gabriel, na esquina da avenida Pedro Lessa com o canal 5.

Não o via há dez anos. Ele foi meu aluno, orientei o TCC dele, testemunhei com orgulho o estudante superar de longe o professor. Ele fez pós-graduação em Portugal, onde se tornou mestre e doutor. Hoje, é professor por lá. Um acadêmico em nível de excelência, usando chinelos de dedo, camiseta e bermuda a uma quadra da minha casa.

Ao lado da mãe dele, conversamos por mais de meia hora. Descobri que a mãe mora a três quadras do meu prédio. Colocamos a conversa em dia sobre universidade e Jornalismo. Espero revê-lo.

Na noite seguinte, fui ao shopping com meus filhos para que tomassem um sorvete. Entrei na livraria para ver se haviam promoções. Quando saíamos de lá, encontrei Elton com suas duas filhas, Sophia e Sara.

Elton foi meu professor no primeiro ano de Psicologia. A proximidade de idade e de visão de mundo nos tornou amigos. Já éramos colegas de universidade, o que ficou mais fácil, mas a vida acelerada sempre adiou aquela cerveja, lembrada quase sempre às 22h30, após um dia inteiro de aulas.

Começamos a bater papo. Eles iriam ao Carrefour comprar umas tranqueiras para jantar em casa. Nós, à casa do meu pai pegar uma bicicleta. Seguimos juntos. Paramos na entrada do supermercado e continuamos a conversa, que envolvia Natal solitário, viagens de réveillon, passagens aéreas mais baratas, visto para os Estados Unidos.

Quando olhamos para o lado, Mari, de 14 anos, falava com Sophia, de 13, como se estudassem juntas desde o berçário. Sara, de 8, dialogava com Vini, de 7, sobre games, youtubers e desenhos animados. Virei para Elton e disse: “precisamos dar de comer pra essa meninada.”

A ideia foi aceita por unanimidade. Sara sugeriu comida japonesa. Aos 8 anos, ela nos levaria à falência numa noite. Sugeri o paraíso das crianças: porção de batata frita no bar Diferente, campeão neste quesito gastronômico.

Foram mais duas horas e meia de um encontro improvável. Duas porções de batatas fritas, quatro litros de Coca-Cola, cerveja, pedaços de pizza, daquelas maravilhosas a la padaria, o cardápio perfeito para férias, crianças, calor e relógios quebrados.

Mari e Sophia tagarelavam e mexiam em seus celulares. Sara e Vini terminaram a noite no bar, correndo em volta da mesa, assoprando pelos canudos que um dia serviram para refrigerante.

Eu e Elton administramos a bagunça, enquanto dialogávamos sobre trabalho, família, Santa Catarina (terra dele!), viagens minhas e até futebol.

Quando o gás acabou, caminhamos juntos por mais sete quadras até que as rotas para casa nos separassem. As redes sociais farão o trabalho para o qual nasceram: nos aproximar ainda mais. Os seis!

Mais do que fechar para balanço, o final de ano é o melhor momento para encontrar pessoas que não costumam esbarrar em você na rua. Temos tempo para recomeçar nossa história com elas, dividir e improvisar um encontro, que brotou sem expectativas, sem fantasias, sem avaliações prévias.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A pedagogia 'direnziana'


Renato Di Renzo, em conversa no Café Teatro Rolidei
(Foto: Beth Soares)

Marcus Vinicius Batista

A atriz Mariana Salgado já se acostumou com as broncas dele. Precisa dos gritos e do próprio choro para se enxergar como personagem dentro de uma peça. As lágrimas são, para ela, a forma de agradecer ao diretor Renato Di Renzo pela formação teatral. “Sem os gritos, não consigo atuar.”

Renato é um perfeccionista. No espetáculo “A Terra pode ser chamada de chão”, ensaiou o elenco, alterou marcações de palco, corrigiu parte do texto de sua própria autoria quando faltavam 30 minutos para a estreia no Teatro do Sesc, em Santos. Ele explica que todo texto teatral está em eterna construção, inclusive os dele. Mudanças são essenciais para que o ator se veja como sujeito político, como um estudioso sem trégua, como remédio para a própria acomodação em cena.

O método de Renato está baseado em ensaios constantes e muita referência de estudo. Não basta apenas decorar o texto da peça. Esta é a menor parte do trabalho, que inclui outras leituras, de outras áreas do conhecimento, e forte construção cultural do elenco. “A arte tem que estar fora do molde e presente no cotidiano do homem.”

Por trás do método de trabalho, a palavra sempre mencionada por quem o cerca é dedicação. E Renato, para exemplificar a importância da palavra, menciona a Ópera de Pequim. “Ela é apresentada há séculos e nunca é a mesma coisa. Por isso também que não é novela. É teatro.”



Cadeira de barbeiro, parte da decoração 
do Café Teatro Rolidei (Foto: Beth Soares)
As exigências do diretor são famosas no meio teatral. Curiosamente, são mencionadas como elogios e críticas, dependendo dos olhos de quem passou pelos ensaios do Café Teatro Rolidei. Em ambos os casos, ele é comparado ao diretor Antunes Filho, com quem trabalhou. “Acho pequenos aqueles que limitam meu trabalho a uma cópia do Antunes Filho. Somos bem diferentes.”

Renato não trabalhou como ator na companhia de Antunes. Foi cenógrafo em três espetáculos na década de 70, antes de retornar a Santos. “Eu estou bem próximo do Teatro dos Pobres, de Grotowsky”. Ele compartilha da ideia de que o teatro não pode ser dependente de vestimentas ou cenários, e sim do trabalho psicológico e físico do ator. O diretor polonês Jerzi Grotowsky, que morreu aos 66 anos, em 1999, chamava de “Em Busca do Teatro Pobre.”

Segundo Claudia Alonso, parceira de Renato no projeto TamTam desde o início da década de 90, a rigidez dá credibilidade do grupo Orgone. “Nós não brincamos com a vocação. Ele é extremamente rígido, mas uma rigidez que ultrapassa ‘bater-cartão’. A rigidez é para nós mesmos, porque o ator do Orgone chora, sofre, tem crise existencial, mas sabe exatamente o que está fazendo em cena.”

Os atores mais próximos a ele, além da própria Claudia Alonso, se referem à “pedagogia direnziana” quando falam do método de trabalho do diretor. A expressão passa pela ideia de que o teatro é um ato político e que o ator, para entrar no palco, precisa de uma formação política.

A bailarina, atriz e produtora cultural Cláudia Alonso
(Foto: Beth Soares)

Para ele, a arte exige urgência como manifestação cidadã e se forma de vários fragmentos. “Neste sentido, cada ator é um instrumento.” Só assim, haverá progresso. Ainda está impregnada, no método de trabalho dele, a cultura do hospital, os tempos da Casa de Saúde Anchieta, onde tudo começou com a emergência de ajudar os pacientes de saúde mental, sem se esquecer da politização contínua de cada sujeito.

Atualmente, Renato Di Renzo rascunha uma nova peça. Ainda sem nome definido, o texto aproxima a boneca Barbie e o personagem Orlando, título de uma das obras de Virginia Woolf. A proposta é discutir a ditadura da estética nos dias atuais. "A TV, as revistas e os jornais mostram que beleza é ter roupa de marca e corpo malhado. Vivemos em uma sociedade perversa, da lei da vantagem, que cria competidores. Vamos na contramão disso. Sou um provocador."


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O livro salva!





Marcus Vinicius Batista

Conheci uma moça na semana passada. Ela me disse com todas as letras: não leio livros. Nenhum? Não, ela não se interessa por páginas escritas, ficção e não-ficção. Quando uma história a atrai, pensa em duas opções: aguardar pelo filme ou pedir que alguém próximo conte para ela.

Agradeço a ela pela conversa que tivemos. Não tive vontade de catequizá-la ou convencê-la de que ler é essencial. Agradeço porque ela me fez refletir porque eu leio. Por que os livros me salvam todos os dias?

O livro me alivia qualquer sofrimento, seja por ansiedade, angústia ou raiva. A questão é saber qual livro se encaixa ao momento emocional. Costumo ler vários livros em conjunto, que são alternados conforme meu espírito para aquela leitura.

Livro é um descanso mental. Não vou me ater ao clichê de que a leitura me transporta a outros mundos. A relação com o livro envolve reduzir a velocidade com que a vida nos conduz, provavelmente pela falsa urgência alheia, comprada por mim como uma necessidade real. Ler me oferece a chance diária de respirar sem a preocupação sobre a próxima tarefa a ser executada ou pensada por cansaço antecipado.

O livro costuma reacender a vontade de escrever. Confesso que passo mais tempo lendo do que escrevendo, o que me soa normal. Escrever é um ato físico, além do exercício intelectual. Escrever provoca dores reais, um desgaste físico latente por causa das condições em torno do ato como também reflexo daquilo que foi posto para fora. O corpo responde aos danos e prazeres psíquicos.

Leio para conter minhas insatisfações. Recuso-me obsessivamente a perder ou enterrar a curiosidade sobre o que se move ao redor. Leio para conhecer pessoas, lugares e situações. Não vejo um livro como um reforço para meu almanaque subjetivo. Memorizações machucam e vulgarizam aquilo que acabei de ler. Leio porque gosto de estudar, sem entender o estudo como obrigação.

O livro é, com o perdão da aparente simplicidade, diversão. É o parceiro para tardes chuvosas, a viagem de ônibus, a espera na fila ou na sala dos professores, a distração no banheiro. O livro é o comprimido para adormecer, a pílula para se manter saudável durante a madrugada de insônia.

Se escrever é terapia, a chave que escancara o armário, ler é outra corrente da psicologia. Leio para me olhar no espelho. Leio para tentar entender porque sou falho, porque me comporto assim. Leio para procurar as perguntas que nunca havia pensado em fazer. Leio para localizar as respostas que, utopicamente, não vou alcançar, mas que indicam o caminho para fugir da inércia, mesmo sentado no sofá.

Leio porque gosto da escuta, admiro o diálogo. Ouvir o que um autor tem a dizer, com a clareza da não-ficção, com as entrelinhas da maior das mentiras contidas num romance. A conversa em silêncio é alimento contínuo, num caldeirão de emoções diluídas em personagens, por mais superficiais que possam parecer.

O livro é a armadura que me protege dos chatos. Um livro aberto e um rosto compenetrado costumam afugentar fofoqueiros, bajuladores, aqueles sujeitos que fingem jogar conversa fora para praticar a maledicência. O livro pode ser o remédio ideal quando necessito do silêncio e desejo distância segura das conversas sem futuro ou presente.

O livro se transformou, por último, num sonho em construção de sobreviver pela palavra escrita. Já pago as contas com a palavra oralizada, dentro e fora da sala de aula. Mas a palavra escrita ainda é aposta de vida recente. Escrevo para muitos portos, edito e publico livros de outras pessoas. Como acredito na força do livro, nada mais coerente do que ganhar algum dinheiro com ele.

Leio todos os dias e defendo este ritual. Livros me acompanham por todos os motivos colocados acima. Ainda que não tenha tempo ou oportunidade de ler, um livro nas mãos materializa a promessa de que logo, logo, voltarei a folheá-lo com a devida serenidade, concentração e paz.