sábado, 22 de abril de 2017

A goleada de 0 a 0


Marcus Vinicius Batista

Naquela manhã de sábado, os jogadores de Brasil e Alemanha estavam perfilados. Não havia clima de batalha campal ou jogo decisivo. Era um amistoso, uma troca de gentilezas bem pensadas, refletidas em crônicas esculpidas com semanas de antecedência. A cada alemão que estufava os ouvidos da plateia com a relação entre infância e futebol, um brasileiro acertava o cantinho dos corações dos ouvintes, ora com lirismo, ora com bom humor.

Um mês antes dos 7 a 1, aquela disputa entre alemães e brasileiros tinha prognóstico único: o empate. Na verdade, acabou num 7 a 7 que compartilhava experiências de vida e amor pelo esporte. Quatorze escritores driblaram inibição e frio para preencher, com histórias, o auditório do Sesc-Interlagos, em São Paulo. 

Escritores brasileiros e alemães, abraçados por Seo Pepe

No final da peleja literária, um dos alemães fez surgir uma bola, réplica da Copa do Mundo, mas em tamanho menor. Os escritores iniciaram a troca de passes, ainda sentados, até que um dos alemães engrossou o caldo. Ou se rendeu àquela que não se permite dominar pelos comuns.

A bola, desviada para a frente do palco, caiu na primeira fila da plateia. A bola deslizou, mansamente, e parou no pé esquerdo de quem até então ouvia em silêncio. A bola descansou no pé esquerdo de Seo José Macia, o Pepe, que a ninou como só os pais de vocação e ofício sabem fazer.

Beth, minha mulher, antes que os próprios escribas notassem e aplaudissem, me sacudiu e disse:

— Olha quem a bola procurou!

À tarde, me aproximei de Pepe, com a tarefa de acompanhá-lo discretamente juntos com outros atletas do Pindorama, time nacional de escritores, que enfrentaria a Alemanha no dia seguinte. Pepe é o técnico de honra da equipe brasileira.

Com a frágil esperteza dos jogadores medíocres, encostei no braço dele, o cumprimentei e perguntei:
Brasileiros e alemães pouco antes do amistoso

— Seo Pepe, este é o pior time que o senhor dirigiu?

Ele olhou para mim, fechou a cara e pensou. Um segundo depois, sorriu e disparou, como se a frase a seguir fosse a bola diante da canhota dele.

— Sem a menor sombra de dúvida!

Às gargalhadas, pediu licença para um café. Nós nos encontraríamos meia hora depois, prontos para tomar o ônibus de volta ao hotel. Tentei uma nova abordagem, um drible que o surpreendesse:

— Seo Pepe, tenho que te agradecer. O senhor dirigiu meu time favorito na última grande conquista. Muito obrigado!

— Qual time, garoto? O São Paulo?

Eu conseguira driblá-lo. Um drible curto, sem muito avanço no campo, mas um gingado eficaz.

— Não, Seo Pepe, o senhor acertou o adversário. O senhor levou a minha Portuguesa Santista às semifinais do Paulistão, em 2003. Perdemos para o São Paulo, lá no Morumbi. Hoje, a Briosa tá na quarta divisão.

— Puxa, é mesmo! Sensacional aquele time. Montamos um timaço! De quem você se lembra, garoto?

— Do Rico, do Souza e do Adriano, que foram jogar no próprio São Paulo.

— O goleiro era o Maurício. Excelente rapaz, excelente goleiro.

— Ele jogou no Corinthians, Seo Pepe.

— Ele mesmo, garoto. Você se lembra da escalação?

Daí para frente, veio o baile, o chocolate, o sacode, a surra. Bola por baixo das pernas, drible da vaca, lençol e chapéu. Seo Pepe tinha a escalação de cor, mais o banco de reservas. Jogadores que eu havia me esquecido, nomes que me fizeram ficar em silêncio, seguido de causos daquele time que venceu o Palmeiras do goleiro Marcos e alcançou a melhor posição de sua história no estadual. A chegada ao ônibus interrompeu a aula.

O time brasileiro de escritores, depois do bravo empate

No dia seguinte, encontrei Seo Pepe pouco antes da partida contra a seleção de escritores alemães. Depois da solenidade de abertura, me sentei ao lado dele no banco. Sereno, Seo Pepe cedia com educação às dezenas de pedidos de fotografias de visitantes, torcedores, parentes de funcionários, jornalistas, mais insistentes do que os zagueiros que um dia o perseguiram.

Joguei o segundo tempo do amistoso, enquanto Seo Pepe permaneceu tranquilo no banco, sem se abalar com os maus tratos que a bola sofrera de lado a lado. Provavelmente, a bola o olhava ali fora e entendia que tinha que sofrer por ele, para ele.

Nós, brasileiros, aguentamos o 0 a 0, igualdade comemorada como vitória, em face dos 9 a 1 sofridos na Alemanha, em 2013. Pude colaborar com cinco defesas, que geraram agradecimentos de vários colegas-escritores-jogadores.

Depois dos cumprimentos e abraços em amigos e adversários, andei até à beira do campo. Seo Pepe estava lá, em pé, paciente e com um sorriso de canto de boca. Quando passei por ele, bateu no meu braço esquerdo e disse: “Muito bem, garoto, muito bem.”

Aquele 0 a 0 foi a maior goleada que apliquei nos últimos anos. E em cima da Alemanha!

terça-feira, 18 de abril de 2017

A goleada



Não gosto de goleadas. Não entenda como a frase definitiva de um despeitado, de alguém que resolveu esbravejar de cabeça inchada, de um sujeito que não sabe perder ou de um torcedor que decidiu fugir dos defeitos do time do coração.

Goleadas tiram o prazer do futebol. Representam um ato de violência contra este jogo, que – por essência – necessita do equilíbrio, das reviravoltas, das viradas no placar, da possibilidade de dar ao pequeno a real esperança de derrubar o gigante.

Na conversa de vestiário e de boteco, a goleada começa com 4 a 0. É o placar que serve de fronteira entre a luta e a surra. A partir daí, não testemunhamos uma partida, e sim um apedrejamento em praça pública, um espancamento torpe, sem a chance de defesa, ainda que seja ilegítima.

As goleadas evidenciam a solidão de quem vence. Dar um chocolate não significa adocicar a derrota do oponente, mas fornecer a ele uma overdose de glicose, quando o índice de diabetes já se encontra acima de 300. Quem goleia não se sente odiado, amado ou admirado. Do outro lado do campo, só se vê vergonha de si mesmo, paralisia diante do inesperado ou a resignação perante o que se sabia na véspera.

Goleadas não servem como treinamento. É vencer sem sofrimento, dor ou taquicardia. Quem goleia enrola os próprios defeitos nas redes adversárias. Quem perde fica sem saber se ainda possui alguma qualidade que mereça ser explorada no próximo jogo. Pior: se ali existe um time capaz de correr amanhã, capaz de perder de pouco ou até de empatar.

Golear é abdicar de preceitos religiosos, da moralidade cristã. É a conquista sem penitência, a glória sem sacrifícios, que dispensa as orações, o pedido ao desconhecido, a vitória concedida aos escolhidos. O time goleado, que deveria ser o símbolo do pecado, transfere a culpa ao vencedor, incapaz de ser misericordioso, sem piedade diante de homens caídos.

As goleadas provocam relaxamento dos torcedores, tanto nas arquibancadas como nos sofás. Não há surpresas. Não há suor, gula, consumo excessivo de qualquer substância legal ou proibida. A narrativa vai permanecer linear como história mal contada. Os personagens seguirão suas vidas, naquele jogo, sem sobressaltos. Vilões e heróis serão os mesmos.

Quando um time goleia, ele lacra a porteira das emoções. Morrem o medo, a fé, a ansiedade, a angústia e a raiva. Se um time perde por 5, 6, 7 a 0, o torcedor constrói uma couraça para sustentar a dor. Não há o que falar, a digestão será tão lenta quanto um almoço de três horas.

Se meu time vence, perco a atenção e a vigilância sobre a partida. Sem riscos, o torcedor não poderá se servir do ópio. Os problemas de amanhã tocam a campainha sem que o jogo tenha terminado. O futebol perde o encanto, torna-se previsível como uma noite de casados no trio elétrico. Talvez se toque no assunto no dia seguinte, mas aí a ausência de calor racionaliza e pasteuriza as opiniões. Os absurdos dos palpiteiros dão lugar aos comentaristas de gravata.

Entre dois times grandes, a goleada se equilibra na corda entre dois edifícios, cuja queda beira o desrespeito. Quem vence se vê na obrigação de respeitar a história alheia, talvez pensando em si próprio, talvez no temor da mínima chance de ressurreição do derrotado. É um código de honra entre leões, no qual se morre com glórias, mata-se com compaixão.

Não deixe de ver futebol por causa de goleadas. Elas permitem uma exceção. A goleada só vale contra o rival histórico. Neste caso, o sangue tem gosto de doce de criança, gulosa pela repetição até passar mal. Vencer o maior rival é o gozo da vingança porque quem hoje goleia já sentiu as marcas dos pneus em dia de atropelamento.

Em goleadas, Brasil e Alemanha jamais será como Santos e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Real Madrid e Barcelona, o time da minha rua contra o da rua ao lado. Nestes jogos, golear é missão, humilhar é dádiva, ganhar é ter o que dizer para sempre, mesmo que dure até a próxima partida, mesmo que seja por 1 a 0.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Um jogador argentino na praia





Marcus Vinicius Batista

As negociações duraram um mês. Parecia caso de necessidade e, por isso, acertar todas as bases do acordo provaria que a contratação era de suma importância, a ponto de ressuscitar o defunto depois de dez anos. Só mesmo meu cunhado para me retirar de uma aposentadoria confortável, sem dores musculares ou promessas de vitória.

O nepotismo partiu dele. Fernando me garantiu, sem ter visto partida alguma, que eu resolveria parte dos problemas defensivos do time argentino. Como seria recebido como estrangeiro? Como seria recebido por jogadores com a metade da minha idade, muitos deles com corpo e aparência para serem meus filhos?

A doceria Brunella era a referência geográfica para os jogos, não o patrocinador. Os recursos vieram de outra empresa do ramo alimentício, o Bar do Maneco, que bancou parte do jogo de camisas e das traves. Um time com origem internacional tinha que evoluir do gol caixote para as traves grandes. E essa evolução implicava na contratação de um goleiro. Aí entro eu, aos 41 anos!

Além do patrocínio, o Bar do Maneco tinha mais vínculos afetivos com os jogadores. O estabelecimento tem sua matriz às margens do BNH, na Aparecida. É ali que residem a maioria dos atletas, muitos fregueses de refrigerantes e outras bebidas.

O time é um apanhado de garotos com passagens por clubes gringos; na verdade, equipes de praia que homenageiam as preferências dos jogadores da geração videogame. Para eles, melhor se apropriar do alemão Schalke 04 e o espanhol Real Madrid do que Cruzeiro ou Corinthinhas (no diminutivo mesmo!), clubes que enfrentei quando tinha 12, 13 anos, em campeonatos regionais de futsal.

As cláusulas contratuais verbais indicavam que eu não poderia treinar. A meninada estuda de manhã e treina à noite, na praia. Eu trabalho durante o dia e dou aulas à noite. Jogaria apenas nos finais de semana. Ótima saída para quem precisa de dois, três dias de recuperação após cada pelada. Se treinasse durante a semana, seria ausência na certa no sábado ou no domingo.

Nos últimos 10 anos, havia me tornado um jogador de futebol society. Campo menor, mais gente de cabelo branco e joelhos operados, menos tempo de corrida, mais cerveja, petiscos e conversa sobre futebol, trabalho e filhos. Definitivamente, outro esporte.

Voltar ao futebol de praia reviveu parte da minha cultura litorânea. A dinâmica do jogo reacendeu as memórias de quem era uma ratazana da faixa de areia. Jogos quase todos os dias, com o filé mignon aos sábados e domingos à tarde. Os clássicos entre Roberto Sandall e Trabulsi, duas ruas na Ponta da Praia, que muitas vezes resultaram em correria para não apanhar e amnésia sobre o resultado da partida.

Os contras, como são chamados os jogos (nada) amistosos, envolviam adversários como o pessoal do Colégio Carmo, muitos deles hoje parceiros de futebol society, cerveja, resenhas e tal. Havia os festivais, com diversos jogos ao longo do dia. Eu atuava até no time dos zeladores da minha rua, um jeito arretado de jogar futebol, mas jamais violento ou desleal.

No começo do mês passado, fiz minha estreia pelo River Praiano, outra celebração de uma equipe estrangeira, talvez sintomático pela forma aguerrida de jogar. Como resumiu meu cunhado, "só pegaria". A partida era fora de casa - em frente à Pinacoteca Benedito Calixto -, e o adversário também tinha nome gringo, mais voltado para o futebol americano: Bull Dogs. Perguntei três vezes para ter certeza da nomenclatura surreal. Para o primeiro jogo, nada de sustos. 3 a 0.

Na semana seguinte, novo convite. Oponente com nome de seleção europeia: Montenegro. A caminhada de um quilômetro entre minha casa e a faixa de praia onde aconteceria a partida, além de aquecer o corpo, esquentou a nostalgia. Um campo depois do outro, no final da tarde de sábado, muitos deles ligados às barracas, outros improvisados com pedaços de pau como traves.

Passei a adolescência toda jogando na areia dura, perto do canal 6. Fora a molecada da rua Roberto Sandall, os amigos de praia, sujeitos que não precisávamos conhecer passado, família, profissão, escolaridade, comprovante de residência e CPF, rezavam pelo mesmo código de Ética, de partidas que acabavam ao anoitecer e cujo resultado seria esquecido antes do encontro da semana seguinte. Gente como Arakem (não o showman que saltitava na Globo em época de Copa do Mundo), Mineiro, o falecido Índio e Salvador, o único que sabíamos a profissão: professor de Geografia.

O River Praiano venceu novamente: 3 a 2 sobre Montenegro. Era a hora, acreditava-se, de enfrentar o carrasco dos últimos meses. A diferença não era somente técnica, o nome era exclusivamente nacional. O Águia Negra havia sapecado 7 a 2 em setembro. Desfalques, me disseram alguns, para justificar a goleada.

Na semana passada, novo encontro, dois dias antes do Dia de Finados. Em tese, relação alguma com o futebol. No primeiro tempo, suportamos o 1 a 0 até os 44 minutos, quando levamos o segundo gol. Uma "dura" no vestiário a céu aberto e quatro substituições. O massacre veio na segunda etapa. Gols espíritas (aqueles que nem o autor acredita e, por isso, credita a uma entidade), gol contra, falhas individuais e coletivas. 9 a 3 e silêncio.

Quando deu o relógio, veio o sinal de novos tempos. Goleada nas costas, eu só queria ir embora. Muitos insistiam em continuar, dos dois lados, pela diversão. Eu disse para um deles: "tenho mulher em casa. Preciso ir." Ele me respondeu sorrindo, na experiência de 16 anos de idade. "Eu não!".

Mais tarde, caminhando ao lado da mureta do canal, conversava com dois ou três jogadores. A derrota havia sido esquecida e a preocupação se dividia entre o primeiro emprego e o vestibular. Direito ou Educação Física? Entrar na Marinha ou continuar como estagiário?

Ali, percebi como é fascinante a cultura do futebol de praia. O resultado fica para trás, enquanto seguem vivas as angústias que possuía, aquelas que brotavam no começo da década de 90. Sugeri que marcássemos novamente com o Águia Negra, para se aprender com o adversário. Último conselho. Minha vida como goleiro de um time falsamente argentino terminou ali. Aposentado, outra vez.

Ao menos, na praia.

terça-feira, 21 de março de 2017

Entortando o tronco

Coleus, em casa, no Canal 5

A crônica abaixo nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", ministrado em março de 2017.

Júnior Landim

Recentemente, tenho cultivado uma fagulha de jardim em Santos, em frente ao Bistrô que conduzo com minha esposa Renata. Ali, tenho vários caixotes de madeira que serviram de morada para laranjas, transformadas em suco para matar a sede de amigos que frequentam o lugar.

Cada caixote serve de moldura para uma planta ou flor e, juntos, formam um mosaico verde que alegra meus olhos. Um dia, Renata chega com um vaso miúdo nas mãos, de onde apontava uma pequena plantinha. Ela me entregou, dizendo que fora presente de um aluno carinhoso. E lá se foi a Coleus ocupar um caixote ainda vago.

Muitas regadas e alguns meses depois, a danadinha cresceu muito, encorpou, tá feliz da vida que não cabe no caixote. Aí pensei: quero ver como ela resolve essa pendenga com o caixote.

Desde menino, desenvolvi uma relação muito próxima com animais e plantas. Isso se deve ao fato de ter vivido num sítio a vida toda e ter a imensidão de Mata Atlântica nativa como a extensão do meu quintal. Sempre dialoguei e observei muitos animais, flores e árvores ao meu redor e me impressionava muito com a inteligência natural desses seres silenciosos.

Eles sempre resolviam seus problemas de forma muito simples e eficaz. Por exemplo: o João de Barro constrói sua casa com uma arquitetura elegante e funcional. É construída de uma forma onde vento e chuva nunca incomodam os moradores.

Outro exemplo fabuloso é o das orquídeas selvagens que não se sabe como se hospedam em troncos de árvores maiores como jacarandá e em pontos estratégicos, onde o sol vara por alguns minutos do dia. É suficiente para que a explosão de cores aconteça.

Hoje, estou eu a observar a Coleus como nos tempos de menino. E ela, com uma inteligência natural, começou a driblar o caixote numa dança sutil, envergando o tronco e desviando do obstáculo rumo ao céu. Um espetáculo!

Assim, aprendo com a Coleus. Envergar o tronco, às vezes, é a saída que requer inteligência quando o óbvio seria confrontar o caixote.

terça-feira, 7 de março de 2017

O clássico violento



Marcus Vinicius Batista


Eu estava sem adversários. Passava as férias na casa da minha avó e levei comigo o estrelão – apelido do campo, da marca Estrela – e alguns times de futebol de botão.

Depois de alguns dias, eu estava cansado de jogar contra mim mesmo. É como jogar xadrez contra si próprio. A diferença – talvez – esteja no movimento do jogador. No xadrez, você roda o tabuleiro. No botão, você precisa dar a volta no campo, fácil quando ele mede menos de um metro de comprimento. A semelhança é que, com o tempo, a probabilidade de empate se torna real, diante do jogador que conhece bem os truques do adversário interno. Zero a zero é a morte em vida do futebol.

Eu jogava no quarto de costura da minha avó Norvina. Ali, conversávamos de vez em quando e o barulho da máquina me distraía. Às vezes, ela contava com a presença da Beatriz, a assistente uruguaia que era uma simpatia e educação únicas.

Numa das manhãs, minha avó deve ter percebido meu tédio diante do estrelão. Imagino eu, pois ela parou o serviço e se ofereceu para jogar uma partida comigo. Por que não, vó?

Escolhemos os times, com jogadores de plástico, comprados em banca de jornal. Eu tinha dezenas de equipes, pois trocava o adesivo original – em cartela – por decalques de uma papelaria. Ainda os guardo numa caixa de madeira, feita pelo meu pai, onde ficam os 12 grandes brasileiros, em um mini-armário para pregos, parafusos e afins, onde estão os times médios e pequenos brasileiros, e um pote de sorvete, onde permanecem os clubes estrangeiros.

Fiquei com o Corinthians. Minha avó – não me lembro o motivo – optou pelo Santos. Expliquei as regras básicas mais os movimentos com a palheta para usar os jogadores. No par ou ímpar, ganhei o direito de começar a partida.

Assim que dei a saída, parti para o ataque. Dois ou três toques na bola e estava na intermediária adversária. Pedi para chutar com o habitual “tá lá?”

Minha avó me olhou com espanto, como se perguntasse: “O quê?”

— Vó, tá lá significa que quero chutar. Arruma o goleiro e tenta defender.

Ela concordou com a cabeça, arrumou o goleiro e me deu autorização. Sócrates, um dos sujeitos que me fizeram escolher o Corinthians como time de coração, ajeitou o corpo e bateu, sem defesa para o goleiro do Santos, na época, Marola. 1 a 0.

Sorri com o gol marcado, mas não fiz festa. Na petulância de criança, enxergava minha avó como café com leite. A goleada era questão de tempo e, antes disso, não poderia me esquecer que estava ali para ensiná-la. Era uma companhia, claro, mas não me lembro se pensei neste fator motivacional para a realização do clássico.

Ajudei-a a arrumar os jogadores para dar a saída e reiniciar a partida. Ela pegou errado na palheta e corrigi o movimento. Repassei o que deveria ser feito e alertei para a dosagem da força. Um movimento forte e a bola – na verdade, um disco semelhante ao de hóquei – estaria perdida pela linha de fundo.

Minha avó tentou uma vez. O jogador do Santos não se mexeu. Pedi que ela fizesse de novo. Nada do sujeito sair do lugar. “Vó, outra vez. Tudo bem!”

Ela encostou a palheta novamente no atacante santista – cujo nome é melhor manter em segredo – e fez o movimento. A precisão e a força nos dedos de costureira foram fatais. Crac!!!! O jogador do Santos quebrou no meio. Partiu-se em dois. A bola permaneceu intacta.

Eu e minha avó nos olhamos sem saber o que fazer. Ambos surpresos. Ambos chocados diante da violência do futebol, que fizera a primeira vítima naquele apartamento do Gonzaga.

Eu não disse palavra. Ela se desculpou e se levantou. Deu uma justificativa qualquer para retornar ao trabalho. Eu aceitei, guardei os times, apanhei outros e voltei para meu próprio campeonato.

Minha avó me deu incontáveis times de botão na vida. Mas, como adversária, nós nunca nos demos a honra de um jogo de volta, ainda que o clássico entre Santos e Corinthians tenha durado um chute a gol e um atleta sem condições de voltar a campo.

Anos depois, o time do Santos foi substituído pelo São Paulo, de uniforme branco e adesivo novo. De vez em quando, o tricolor entra em campo para enfrentar o Santos, da minha filha Mariana. Até hoje, atua com um homem a menos. Anos atrás, preguiça de contratar alguém. Hoje, uma lembrança afetiva da oponente que nunca tive.

segunda-feira, 6 de março de 2017

O macho na minha cama



Marcus Vinicius Batista

Não sei a data precisa. Acho até melhor porque seria mais uma forma de cristalização na memória, com chances reais de traumas. Numa noite dessas, eu e minha mulher Beth tínhamos acabado de deitar, estávamos naquele sono inicial, com o sinal de alerta no botão mínimo, quando senti os pelos dele roçarem na minha perna.

Minha mulher não era. Beth nunca precisou depilar as pernas. Levei alguns segundos para processar a informação. Meu filho não era também. Vini não estava em casa e, com sete anos, seria impossível que eu não tivesse notado um garoto-lobisomem como herdeiro. Vini ainda tem aquela pele de nenê.

O sujeito subiu mais um pouco na cama. Esfregou-se em mim e se encaixou ao lado do meu quadril. Tentava achar um canto entre eu e Beth. Criança entre os pais a esta altura da paternidade? Eu e Beth não tivemos filhos. Meus dois eram grandes já, e não gostavam de dormir entre a gente. Ainda bem. Preferiam o espaço deles.

Uns minutos depois, o visitante resolveu se deitar em cima da minha mulher. Sem autorização. Sem jantar e cinema antes. Sem respeitar o marido deitado ao lado. Sem proposta indecente.

Dormir a três nunca foi preferência nossa. Gostamos de exclusividade a dois no nosso quarto. Em qualquer endereço, para ser franco. Mas o amigo era persistente. Tentei enxotá-lo e ganhei arranhões e uma mordida. Puxa, o sujeito é fora do padrão, gosta de uma relação mais violenta. Seria sadomasoquismo clássico? Assim, como ficariam os papéis de dominador e dominado?

Ele queria mesmo minha mulher, percebi logo depois. O terceiro elemento ficou ali, deitado sobre ela, como se fosse uma situação cotidiana, previsível e metódica. Virou-se para um lado, jogou a cabeça para outro. Colou na barriga dela e pediu carinho. Um amante latino, sensível e melancólico? Mas e o macho violento de minutos atrás?

Confesso que não conseguia dormir. Beth também, mas por outras razões, as quais temia pensar nelas. Testemunhar a própria traição me parecia um cenário extracurricular no contrato de matrimônio.

O sujeito era determinado e debochado, foi a forma que o compreendi. Olhava para mim. Os olhos lânguidos teimavam em me informar que dali não sairia, que bastava que aceitasse a nova ordem política, econômica e social daquela cama. Nunca mandei naquele terreno, mas agora passava à figuração com risco de dispensa sem vencimentos.

Minha sorte é que o parceiro - era o jeito de reconhecer a derrota, chamá-lo deste modo - era bem volúvel. Não que viesse para cima de mim. Em dez minutos, ele se cansou da minha mulher. Não agradeceu, não deu beijo de despedida, não disse que ligaria no dia seguinte. Ele saiu da cama e pronto.

O fulano era volúvel, porém metódico, se é possível combinar as duas características no mesmo ser. Fiquei de escanteio, na beirada da cama, suportando arranhões e eventuais mordidas - de vez em quando grunhidos - por uns dois meses. Sofri calado, mas salvei meu casamento.

Quando Lui se fartou de nós, levantei as mãos para os santos e agradeci pela paz conjugal. Até que a parceira dele optou por brincar a três. A única diferença entre eles é que Magriça (nome de guerra da danada) tem seus próprios métodos.

Ela sobe na cama pelo meu lado. O fetiche dela é passar pela parte do meu corpo que está vestida. Depois, deita-se sobre Beth e descansa de felicidade. Ameaça se relacionar com beijo, mas o máximo é uma fungada no queixo. No meu caso, só não sobe na cama se eu estiver nu.

Magriça, a gata, não gosta de machos. Assim como Lui, o macho que me arranha e morde.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Qual é a minha verdade?


Júnior Landim

Certa vez, no momento de fechar a loja num dia de aula particular de minha esposa, esqueci na mureta lateral, do lado de fora, uma lasanha bolonhesa artesanal (congelada) e um saco com alguns pães. A lasanha seria meu jantar e os pães, o café da manhã da minha família.

Naquela agitação de fechar as portas o mais rápido possível para a professora chegar no horário e lecionar para o aluno que mora em outra cidade, a refeição foi banida da minha memória em questão de minutos. Só daria conta uma hora mais tarde, quando já estava em casa e a lasanha surgiu no meu pensamento com sabor e aroma.

Pensei: "Já era! Alguém se deu bem hoje: lasanha artesanal e pão para chuchar no molho natural. Dormir e sonhar com a lasanha foi o que me restou naquela noite.

Dia seguinte, rotina. Acordar, preparar para sairmos, esposa lecionar, filho estudar e eu abrir a loja para mais um dia de muito trabalho. Por volta das 9 horas, estou levantando a segunda porta quando surge atrás de mim uma voz: "Acho que isso te pertence!"

Viro por instinto e me deparo com um senhor baixinho, cabelos brancos e um rosto marcado pela passagem do tempo. Mais de 70 anos, com certeza. Eu respondo:

"Bom dia, pode entrar!"

"Essa lasanha e esses pães são seus?"

Minha mente tirou a lasanha e os pães do esquecimento. Meus olhos vazaram e fiz com a cabeça que sim.

Seu Nelson, com muita simplicidade, se aproximou, me entregou as sacolas e disse:

"Guardei a lasanha no congelador. Pode comer que está boa."

Virou-se e não deu tempo de lhe oferecer um café. Partiu firme em passos curtos. Que profunda verdade naquele homem idoso, de chinelos de dedo e roupas surradas. Verdade de Cavaleiro Medieval, em armadura de Honra e Glória. Fazer o que é certo, e não o que é fácil.

Que sensação boa a de ter contato com essa essência tão pura, tão nobre. Com essa verdade!

No final do dia, sentei-me à mesa para, enfim, degustar a lasanha e refletir sobre o contato com o Seu Nelson. Um Cavaleiro Medieval, disfarçado de vovô de cidade do interior que me permitiu mergulhar numa reflexão profunda sobre:

Qual é a minha verdade?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Como ser um mano?


Júnior Landim

De onde venho, a palavra mano nos é apresentada ainda muito crianças. Ela aparece em situações como: "Ajude seu mano caçula a amarrar os sapatos. Frase dita por nossa mãe ou avó.

Com o passar dos anos, a palavra continua a aparecer com frequência, agora em situações onde o sangue não é o laço mais forte. Amigos da escola, da rua, mas um amigo próximo, querido do peito. Às vezes, chamado até de primo.

A gíria demonstra que aquele amigo é de fato da família. Hoje, a palavra mano foi absorvida em gíria urbana, está em trechos de Rap, literalmente na boca da moçada. É moderna. Mano, sinônimo de irmão.

Um belo dia, percebo dentro da palavra Humano o mesmo mano de tantas outras ocasiões. Aquilo me atordoa. Irmão, humano, mano, tudo junto e girando na minha cachola. Então, chego à conclusão que, lá atrás, quando aprendi o significado da palavra mano, ainda não tinha a maturidade para entender que a lição a se aprender era a de como Ser Humano.

Ser Humano no respeito e amor ao próximo. Ser Humano em zelar pelo bem estar daqueles que o cercam. E percebo como está cada vez mais raro estarmos com esse Ser Humano. O que me resta é perguntar:

"Mano, como ser humano?"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Escalando o Everest por empréstimo


Marcus Vinicius Batista

Passava o dia com Mariana, um bebê de seis meses, na sala do retiro, em Nazaré Paulista. À noite, dormíamos no Instituto Ipê, do outro lado da estrada de terra. Quando ela descansava durante a tarde, eu aproveitava para arrumar alguma distração, ali mesmo pela casa principal.

Os colegas só se encontravam para as refeições, numa cozinha comunitária, vegetariana, onde me acabei de comer carne de soja. Mais tarde, depois das 22 horas, professores de Educação Física contrabandeavam guaraná sem gelo para suprir as carências da cidade grande.

Descobri a biblioteca no andar de cima, uma espécie de marquise, durante um dos cochilos da Mari. Passei pelas estantes e achei uma preciosidade: “No ar rarefeito”, escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer.

Ele é um dos melhores repórteres da atualidade. Preciso, meticuloso, preocupado com o humano em suas narrativas. Krakauer é autor de “Na Natureza Selvagem”, que virou filme sob a direção de Sean Penn e concorreu a dois Oscars. No ano passado, ele publicou “Missoula”, nome de uma cidade nos Estados Unidos que simboliza a cultura do estupro e sua impunidade.

Comecei a ler “No ar rarefeito” na mesma hora. Aproveitava todos os sonos da Mari para devorar a história da expedição ao Everest, que resultou em 12 mortes, no caminho de volta, após alcançar o topo. Krakauer é um jornalista especializado em montanhismo, escreve para publicações como a revista Go Outside e, (in)felizmente), estava na expedição, contratado para escrever sobre a mercantilização das escaladas. O livro dele se tornou um clássico da literatura de aventura.

Por isso, o repórter pôde contar, com riqueza de detalhes, as disputas, as fragilidades, as fraquezas, a generosidade, a solidariedade e os medos dos alpinistas, todos vítimas – fatais ou não – de uma tempestade.

No domingo, a visita acabou e eu não tinha terminado o livro. O que deveria fazer? Devolver “No ar rarefeito” à biblioteca comunitária, administrada por todos, sem funcionários e viva pela confiança de seus frequentadores? Poderia levar o livro pra casa? Como devolver depois, se nunca mais voltaria à Nazaré Paulista, o que de fato aconteceu? Ou esperar para comprar a obra em Santos, com o risco de não encontrá-la? Essa história faz 14 anos, e não havia o hábito ou a estrutura para compras pela Internet.

Tentei localizar um responsável pela biblioteca, mas o espaço pertencia a todos, foi a explicação que ouvi. Não tinha com quem justificar o arrendamento literário. Escolhi o silêncio e tomei uma decisão.

Entre a curiosidade sobre o restante da história e o empréstimo sem autorização, entre o amor aos livros e a irritação de quem soube do sumiço, entre a promessa de achar um jeito de devolvê-lo e a acusação de furto, preferi levar o livro comigo. Coloquei na mala e, no dia seguinte, retomei a leitura sem remorso, culpa ou dúvida.

A reportagem de Krakauer é brilhante. Não me arrependo. Conclui a leitura em mais dois dias. Fui ao Gonzaga para tirar a prova de consciência. Nenhuma das três livrarias tinha o livro no estoque. Uma encomenda poderia levar mais um mês.

Resolvi devolver o livro pelo Correio. Colocá-lo numa caixa e despachá-lo seria impessoal, grosseiro, contrário aos princípios de igualdade e respeito pregados pelo retiro em Nazaré Paulista. Tinha certeza de que não perceberam o sequestro, mas ficaria com a consciência pesada. Sempre cuidei muito bem dos livros emprestados, assim como reclamo de quem desaparece com obras minhas.

Escrevi uma carta para o pessoal do retiro. Não sabia a quem endereçar, mas procurava explicar a situação. Agradeci pelo empréstimo, disse que me senti acolhido naquele final de semana, pedi desculpas pela falta de aviso prévio e descrevi, sem delongas, minhas impressões sobre o livro, que recomendava com veemência.

Dobrei a carta, envelopei e coloquei dentro da caixa de Sedex. Mandei o pacote para o retiro e esperei. Recebi o aviso de envio e esperei. Confirmei a entrega e esperei. Esperei.

Sempre tive curiosidade de saber se “No ar rarefeito” escalou a serra e as estantes do retiro, em Nazaré Paulista. Assim como eles nunca me responderam, eu nunca voltei lá.

Ao ler os novos livros do Krakauer ou reler “Na Natureza Selvagem”, penso na devolução pelo Correio. Outro dia, vi um exemplar numa livraria do Gonzaga. Deu vontade de comprá-lo.

Em tempo: ganhei de minha mulher, Beth, o livro de presente, na antevéspera do Dia dos Pais. A releitura, desta vez, durou uma semana.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Uma crônica para o século XXI


"Podemos estar errados, o interlocutor pode estar tão errado quanto nós, mas, de qualquer forma, o fato de supor que o interlocutor tem razão é um bom prelúdio para o diálogo". (Jorge Luis Borges)

Alessandro Atanes


Em suas entrevistas para a Rádio Municipal de Buenos Aires nos anos 80, Jorge Luis Borges creditava o valor do diálogo à presunção de que o outro possa ter razão. Tempos de gritaria como os de hoje só mostram o quanto estamos afastados desta prática tão antiga da humanidade.

Essa dificuldade para o diálogo foi assumida no título do livro do jornalista, historiador e professor universitário Marcus Vinicius Batista “Quando os mudos conversam” (Realejo Edições), lançado em fevereiro. Quem são esses mudos do título? O próprio livro responde nos títulos das três seções em que estão organizadas as crônicas: EU, TU e ELES. Se há NÓS, o pronome que reúne a todos, ele surge mais como uma esperança do que uma realidade. Essa busca por NÓS – que reconhece a importância do diálogo – é que conduz a obra.

A primeira seção, EU, reúne experiências pessoais do autor: um velório, uma viagem de trem, testemunhos de cenas cotidianas, e parece ter um duplo sentido: de um lado, é o espaço da crônica canônica. Sem comparar as qualidades deste ou daquele texto de Marcus Vinícius Batista com os mestres brasileiros da crônica do século passado, ele se põe aqui como herdeiro dessa tradição literária brasileira marcada pela atuação de escritores no Jornalismo, cuja principal referência talvez seja a “Flor de maio”, de Rubem Braga, a crônica das crônicas.

Mas o que teria ainda a dizer esse gênero típico do século XX, ligado à experiência individual do escritor frente ao mundo, quando, na pós-modernidade do século XXI, tudo é experiência individual, quando qualquer um pode dizer o que quiser e todos os discursos se equivalem, que tudo é relativo?

Aí surge o outro aspecto do duplo sentido, ao nomear de “EU” essa primeira parte, o autor também limita este mesmo “EU”. Intuitiva ou reflexiva – tal divisão não mais importa –, essa limitação do “EU” libera o autor para sair de si mesmo e, a partir da segunda parte, TU, buscar refletir sobre a experiência do outro mais do que expressar a experiência individual. Ainda estamos próximos à crônica canônica, mas já em outro registro, a serviço da reflexão sobre a sociedade.

Mas esse TU não é apenas a pessoa com quem se fala na língua portuguesa, é uma marca local da fala santista (sem esquecer que de outros lugares também, pois não devemos alimentar o bairrismo): aqui fala-se “tu vai”, “tu viu”. Então, além de ser um direcionamento ao outro, a 2ª pessoa do singular, esse “TU” da segunda seção é também um indício geográfico, uma pista do território que passa a ser tratado nas crônicas, como explica o próprio autor na apresentação do livro: “A segunda parte, intitulada Tu, envolve personagens da minha cidade e de outras regiões. Personagens, leiam-se, gente e lugares, todos eles com alguma afetividade, seja por memória, seja por atualidade”.

E o afeto pelas coisas da cidade não significa exatamente um olhar doce, pelo contrário. Crônica após crônica, Marcus Vinicius Batista vai apontando mazelas próprias da cidade e as articula com as mazelas próprias dos tempos atuais como a especulação imobiliária e o trânsito infernal.

A cidade engarrafada no tráfego é tema da crônica “O filho do trânsito”, sobre um amigo motorista: “Os Homo trafegus não dirigem apenas táxis. Seria uma injustiça generalizar o olhar particular. Estes espécimes conduzem ônibus em jornadas semiescravas de trabalho. Pilotam motocicletas castigadas com entregas multiplicadas pelo tempo curto. Arrotam status quando passeiam com seus carrões de novos ricos nas portas das escolas. Um ecossistema rico em diversidade e perversidade, pronto para estudos científicos”.

Em “A rua que divide o tempo”, as transformações promovidas pelo avanço imobiliário sobre o território da cidade são vistas a partir da perspectiva de uma pequena rua da Ponta da Praia, a Francisco Hayden, que separa dois terrenos vinculados a clubes históricos da cidade: de um lado, o terreno vazio onde um dia esteve o Clube de Regatas Santista, demolido recentemente; do outro, o Clube Internacional de Regatas, com muros de tijolos vermelhos, ainda em pé.

“… O grupo que abriu a porteira para a boiada de concreto e ferro tem na rua Francisco Heyden um cartão postal macabro que escancara o estrago, fruto da ansiedade por progresso. Do outro lado, o gigante vermelho deve se preparar para a própria pequenez. Para a luz que será trocada por uma parede de dezenas de andares. Para entender que o morador de hoje é um sujeito com outras formas de lazer em mente. Sujeito que pode desejar o velho clube Internacional, mas que flerta com outros espaços fechados, com vitrines, praças de alimentação e outros atrativos à base de cifrões.”

Em “Os escombros da Pompéia”, o cronista trata da demolição sintomática dos prédios das faculdades de Comunicação e de Filosofia, Ciências e Letras na Rua Euclides da Cunha, cujo território muda de função de local de produção de conhecimento para moradia de alta renda:

“Os prédios morreram pelas mãos do crescimento imobiliário paranoico. Tornaram-se peças descartáveis. No lugar, serão três torres, de 42 andares. Os edifícios, um dia imponentes, eram apenas formigas diante dos elefantes que se aproximam. O passado enterrado deu vez à ilusão dos que se julgam mais próximos do céu.”

Ex-aluno e também professor da Universidade Católica de Santos, o autor não esconde a tristeza pessoal, mas, além dela, busca traçar a perda coletiva: “Parte da história da Pompéia são escombros, prestes a encher as caçambas de caminhões. As experiências são entulhos de um passado que merecia melhor valor. A nova história, por enquanto, é reescrita pelas máquinas pesadas, nascidas para desconstruir, borrachas que eliminam símbolos da cultura local, gravados nas paredes que abrigaram milhares de estudantes, visitantes e funcionários”.

“Escombros” e “entulhos do passado” apontam para uma cidade de ruínas geridas pela especulação imobiliária, cuja sanha transformadora atinge até mesmo um pequeno farol a dezenas de metros da praia na altura do Canal 6, já sem valor de navegação, mas ponto de mergulho de centenas de crianças e jovens ao longo das últimas décadas. E acabou derrubado mesmo sem que nada possa ser construído em seu lugar: “O farol tem destino traçado, o da insignificância coletiva, o da ausência de vontade política de quem administra dinheiro público”, escreveu antes da demolição programada.

Sem comparar os talentos do autor e de um clássico como Rubem Braga, tomo “A morte do farol” como a “Flor de maio” do livro. Nela, a voz individual e a voz coletiva (EU, TU e ELES) imbricam-se em torno de uma pequena construção, quase insignificante, metáfora para as ruínas de toda a cidade.

Reflexo do impacto das transformações urbanas na vida de todos, o tema da especulação avança da seção TU, voltada para Santos, e se instala também na seção ELES, em que descreve uma visita a uma destas torres-godzila que vêm sendo construídas pela cidade:

“O edifício era uma fortaleza. Para alcançar o elevador, três portões e a identificação junto a dois funcionários. Imaginei que, em instantes, pediriam carteira de identidade, CPF e comprovante de residência. O nome das torres misturava idiomas, mezzo francês, mezzo inglês. […] O apartamento segue a tendência: possui limite de capacidade humana, como os elevadores. De tão pequeno, o apartamento lota com meia dúzia de testemunhas. Mas o dono garante que a piscina e a pista de skate foram atrações que pesaram na compra. A piscina permanece como sonho de consumo. Por enquanto, só água quente de chuveiro. E o filho, este não é fã de esportes radicais.”

O tom e o texto

Esses textos fazem parte de um projeto (ou de uma esperança) de valorização da escrita jornalística no qual o exercício da crônica exerce uma resistência contra a pausterização do texto. Encontramos por todo o livro sentenças – como os trechos acima que tratam da pequena rua, das torres em construção ou dos escombros – que provavelmente não leríamos nas páginas de notícias, conformadas em textos concisos, telegráficos e escritos com o intuito de hierarquizar os assuntos de maneira que qualquer parágrafo possa ser descartado para que o texto caiba no espaço que restou na página após a aprovação do anúncio.

Essa aposta do autor no jornalismo com texto de qualidade chega a seus melhores momentos quando é estimulada pela revolta do autor contra a naturalidade com que são tomadas as ações mais abjetas contra as pessoas, sintomas de uma sociedade “doente”, com “instituições apodrecidas”. O bom texto a serviço da revolta e da indignação, como em “A Rosa sem nome”, da seção “ELES”, sobre uma adolescente presa há alguns anos pelo Poder Judiciário do Pará em uma cela junto com homens:

“A garota, fragilizada fisicamente, deteriorada na própria autoestima, caiu na teia do processo inquisitório. Julgamento foi peça ficcional. A punição foi rápída e, certamente, com danos definitivos para a ré-vítima.

No entanto, a menina de corpo franzino, marginal e miserável não foi ‘curada’ de seus males na fogueira acesa antes do amanhecer. Seu destino foi uma cela de prisão, dividida com 20 homens por 24 dias. As labaredas não eram extintas assim que o corpo se queimava. As chamas se realimentavam a cada refeição, ressuscitavam a cada violência contra um corpo feminino que insistia em permanecer incomodando o sistema medieval.

[…]

Como no universo totalitário, as autoridades jamais têm ou podem assumir responsabilidades. A culpa é da adolescente de 15 anos, pecadora por ser menor, transgressora por ter retardamento mental, segundo o ex-delegado-geral do Pará. A responsabilidade dela se eleva se considerarmos que a adolescente provocava sexualmente os presos, conforme a constatação da corregedora da Polícia Civil do Pará, Liane Paulino, afastada da investigação por essa ‘conclusão civilizada’.”

Ao final do texto, uma nota em itálico informa sobre o destino das investigações durante o intervalo entre a crônica original e sua publicação em livro, o que faz indagar se não seria mais proveitoso que houvesse a data original de cada crônica ao fim de cada uma, não apenas como utilidade, porém como mais um estímulo (a lembrança de uma data) para o leitor entrar na conversa.

Marcus Vinicius Batista não está sozinho nessa empreitada de valorização do texto jornalístico, como mostram sites como o Jornalirismo e a própria multiplicação de cronistas na grande imprensa, sites e blogs. A grande questão é: esses espaços ficarão como ilhas em meio a notícias sem graça e sem vigor como os tópicos de uma apresentação de power point ou terão força para levar o bom texto de volta para o noticiário?

Minha desilusão com a atividade jornalística me faz pender para o primeiro cenário; minha leitura de “Quando os mudos conversam” me faz ter um fundinho de esperança no segundo.

Referências

BATISTA, Marcus Vinicius. Quando os mudos conversam. Santos: Realejo Livros, 2015.

BORGES, Jorge Luiz. Sobre a filosofia e outros diálogos. Organização e tradução: John O’Kuinghttons. São Paulo: Hedra, 2009.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Há braços!



Júnior Landim

É difícil traduzir para o papel o significado de um abraço. Acredito ser um gesto tão antigo quanto sorrir ou chorar. É a intenção mais pura de dizer ao outro o quanto gostamos dele ou o quanto sentimos sua falta ou iremos sentir.

Em vários momentos da vida, tudo o que precisamos ou queremos é um demorado abraço. Mas nem sempre nos permitimos pedi-lo. O ato, se avaliado com razão e frieza, é um tanto estranho. Dois corpos que se encontram e se apertam por alguns segundos.

Funciona para tudo e com todos. Crianças com crianças. Adultos com crianças. Adultos com adultos. Homens com homens e mulheres com mulheres. É universal!

Abraço. Acontece com braços e o ponto alto é o coração com coração. Troca de energia ou reposição dela. Abraço, talvez um derivado de cuidar, bem querência.

Abraço, Para acontecer, precisa do fator mais importante, gente, ou não existe. Abraço, talvez a melhor maneira de dizer "eu te amo", em silêncio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A senhora pede respeito

Museu de Pesca, em Santos. Foto: Juicy Santos

Marcus Vinicius Batista

A senhora não passou da idade. É esbelta, bem conservada, pra frentex, como dizia minha avó. Com a experiência e a maturidade, ela parou de reclamar de qualquer coisa. Mas também não fica calada para que abusem da sua biografia. Ela tem suas manias provincianas, contradições em quem viveu sempre na fronteira entre o ar de cidade pequena e o mundo cosmopolita da capital.

A senhora Santos anda preocupada com o futuro. É um passo enorme, olhar para frente, sem se agarrar no saudosismo de quem poderia ter sido ou do que viu, em dimensões menores, pelo retrovisor. A preocupação - e ela se aborrece - renasce de tempos em tempos, fruto dos falsos profetas que tentam iludi-la com promessas de enriquecimento rápido, de glamour internacional.

A senhora, depois de uma certa fase da vida, cristalizou a ideia de que andar para frente significa caminhar em ritmo próprio, sem saltos megalomaníacos que não a tiram do lugar ou a derrubam no chão, com risco de fratura exposta. Ela não é mais criança para ignorar a noção do perigo.

Santos já ouviu os aventureiros que juravam vislumbrar o turismo de negócios como a salvação da maré. Depois, conheceu os gurus do desenvolvimento sustentável, vestidos de cinza, com sorriso verde, e palavras da moda que se anulam a cada livro de autoajuda.

Com paciência, a senhora teve contato com os astronautas do pré-sal, que prometiam oceanos de óleo negro e, como Midas, asseguravam que a cidade seria pintada de ouro.

A idade a obrigou a colocar os pés no chão. Caso contrário, queda e beijo no solo. O equilíbrio não é daqueles tempos. Lúcida, ela pede por sanidade. Dos outros. Dos meninos que resolveram prometer Barcelona antes de outubro.

Santos confidenciou que teme pelo dia de amanhã. Se ficar doente, não pode ir ao hospital. Ela pode ser barrada por uma porta fechada e salas ocas. Sentiu-se envergonhada em ver a inauguração dos Estivadores, que não tem condições de beneficiar as pessoas.

A senhora também se preocupa em sair de casa. Uma confusão no transporte coletivo. VLT a passos de tartaruga. Ônibus caro demais. Motoristas legais e ilegais que brigam por passageiros, exaustos por pagar muito e ter tão pouco. Andar a pé? O fôlego ficou preso nas fotos amareladas do álbum de família.

Quando pensa em sua história, aquele comportamento comum de quem faz aniversário, ela se encolhe com o que os homens de gravata fazem com partes de sua trajetória. A senhora, ao avaliar o passado recente, chora pela Cadeia Velha, que prendeu gente politizada e hoje deseja os políticos fora dela.

Quando se ultrapassa a barreira dos quatrocentões, aniversários deixam de ser exercícios de ufanismo, de bajulação da beleza. Aniversários, para uma senhora como Santos, mostram também as rugas, as cicatrizes, as marcas da travessia pela vida. Identidade também.

É o "parabéns" pelo ontem, o "obrigado" pelo hoje, o "cuidado comigo, por favor", para amanhã.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sexo combina com solidão




Marcus Vinicius Batista


Acabei de ler Parafilias (Editora Record), primeiro livro do contista Alexandre Marques Rodrigues. Eu o conheci há cerca de um mês, quando pudemos conversar dentro da Tarrafa Literária, festival anual que acontece em Santos, cidade onde ambos moramos.

O livro de estreia cobriu Alexandre de responsabilidades como escritor. A publicação da obra é o resultado do Prêmio Sesc de Literatura, em 2014, concurso nacional voltado para autores estreantes. Depois do lançamento, Parafilias se tornou finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Oceanos (antigo Portugal Telecom).

A vida mudou, ao menos na literatura, para Alexandre. Ele ainda demonstra dificuldades em se adaptar ao mundo literário contemporâneo, marcado por sucessivos festivais, conversas semanais com leitores para quem entra no circuito, viagens e entrevistas.

Alexandre é tímido, fala baixo, pensa com cuidado nas respostas e reafirma que não possui carisma ou interesse sólido nas tertúlias da comunidade literária. É como se perguntasse: o que estou fazendo aqui? Vocês têm certeza?

Alexandre é um operário do texto, que compreende com clareza o ofício de escritor. Não há glamour, há trabalho e dedicação. Ele é formado em Psicologia, mas exerceu a profissão por poucos anos. Preferiu a segurança de um concurso público e se tornou bancário. Acorda diariamente às 6 horas para escrever. Trabalha no apartamento onde mora com a esposa, no bairro do Embaré. Lapida um texto à exaustão, até se sentir satisfeito.

Alexandre é sinônimo de discrição. Até a publicação de Parafilias, quase nenhum colega de trabalho sabia que ele era escritor. Chefes só o “descobriram” por conta dos pedidos de folgas para viagens, consequência de ter vencido o Prêmio Sesc de Literatura.

Parafilias trouxe uma segunda surpresa. Alexandre Marques Rodrigues passou a ser classificado como um autor de literatura erótica. Muitos dos convites são para falar sobre livros e sexo. Não há tema para deixá-lo mais envergonhado, tema para que ele reforce a ideia de que “é sem graça”. Mentira dele! Alexandre apenas é avesso ao mundo da eterna felicidade aparente que permeia – de vez em quase sempre – o mundo da literatura. Aquele mundo onde escritores escrevem para escritores e celebram os livros pelas vendas, e não pelos leitores.

A palavra Parafilias significa perversões, desvios sexuais. É um livro com 24 contos, todos eles com sexo como pano de fundo. No entanto, engana-se quem aposta que uma literatura que desfila posições sexuais ou que busca agradar mamães comportadas em 50 tons.

A obra dele é, categoricamente, sobre solidão. Defesa irredutível do próprio autor. Concordo, sem petulância. Sexo, neste caso, é dissociado de amor, e os personagens procuram, paliativamente, curar com parceiros sexuais suas próprias lacunas. O sexo, nos contos, preenche tempo, solidifica máscaras, esconde o vazio de um cotidiano fútil e – aí sim – sem graça.

A escolha de Alexandre me pareceu consistente ao esquadrinhar, com sutileza, pequenas e profundas histórias sobre indivíduos que se sentem deslocados no mundo, enquanto confundem muitas vezes relacionamento sexual com a concretude de um sentimento. É um olhar coerente com a atualidade, onde se fala de sexo como se come um sanduíche na padaria. Onde se mistura, do estelionato à ilusão, quantidade, qualidade e prática.

Outro engano é achar que, embora o livro seja sobre a solidão humana, Alexandre alivia no tom erótico da narrativa. Ele domina a linguagem literária. Sabe escrever sobre sexo, sem ser vulgar. Sabe camuflar o que é necessário, escapa da pieguice e consegue criar o ambiente onde os personagens ficarão nus, literal e simbolicamente. Isso acontece no conto Seios, em que órgãos sexuais masculinos e femininos se confundem na opção sexual de duas amantes.

Alexandre também aproveita para inserir o próprio ofício de escritor e a literatura em alguns dos contos. Em Livros, por exemplo, uma mulher procura excitação com o amante por meio dos livros da biblioteca do marido. Em Palavras, um escritor em bloqueio criativo sofre com um relacionamento sem amor.

Alexandre Marques Rodrigues é, num primeiro encontro, um sujeito discreto, que facilmente se misturaria à plateia. Mas sua imaginação o contradiz, ao expor com sabedoria o quanto público e privado são bem diferentes. Ao menos, na literatura.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Malucos-beleza


O elenco de "A Terra pode ser chamada de chão"
Foto: Rafaella Martinez

O texto abaixo foi escrito, em 2014. Optei por republicar na íntegra, sem alterações. 

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O projeto Tam Tam completa 25 anos, com estreia de peça, reativação de programa de rádio e trabalhos com dança e literatura. Um quarto de século para um projeto que começou na extinta Casa de Saúde Anchieta, um manicômio conhecido como Casa dos Horrores. Este é o sexto e último texto da série sobre o projeto.


Marcus Vinicius Batista


O Teatro do Sesc, em Santos, estava lotado. Cerca de 800 pessoas, de políticos a jornalistas, de familiares a simpatizantes, assistiram à estreia da peça “A Terra pode ser chamada de chão.” Era o primeiro capítulo de uma série de eventos que comemoram 25 anos do projeto Tam Tam, trabalho que nasceu nos corredores da extinta Casa de Saúde Anchieta, o famoso manicômio do litoral de São Paulo, pelas mãos do arte-educador Renato di Renzo.

Durante uma hora, o palco foi preenchido por cerca de 60 atores e atrizes, entre pessoas ditas normais e deficientes das mais variadas origens. Depois de seis meses entre concepção da peça e ensaios, todos se misturavam para denunciar os problemas sociais e ambientais que nos envolvem no mundo contemporâneo.

Di Renzo nunca dirigiu tanta gente ao mesmo tempo, assim como o projeto Tam Tam jamais havia recebido tantos recursos para colocar um espetáculo em cartaz. Foram R$ 60 mil por meio da Secretaria do Estado da Cultura. A peça será reapresentada, em 16 de julho, no mesmo teatro.

O casamento de Renato com a arte começou na década de 60. Na família di Renzo, é famosa a história de que, quando tinha três anos, Renato se recusou a vestir uma roupa de festa junina porque a calça era formada de retalhos.

A relação com a saúde mental veio por meio de uma profecia. Ainda criança, ele morava na Vila Belmiro e brincava perto da Casa de Saúde Anchieta, quando ouviu de um dos colegas: “se você continuar desse jeito, vai acabar aí dentro.”

A profecia levaria cerca de 25 anos para se concretizar. Antes, Renato teve que sair da cidade. Em 1969, ele se mudou para São Paulo a fim de estudar artes. Primeiro, se matriculou no extinto Instituto de Artes e Decoração (IAD). Teve de aulas com Naum Alves de Souza e com o arquiteto Ruy Othake, entre outros craques da área cultural.

Depois, Renato se formou em Artes Plásticas, na Faap. Durante o curso, ele se aproximou da discussão em torno das políticas de saúde mental, período em que brotava uma visão antimanicomial e que predominavam os manicômios como depósitos de gente. Pessoas eram internadas por doenças mentais, mas também por alcoolismo, consumo de maconha e outros comportamentos considerados socialmente desviantes. Uma perspectiva que remete ao século XIX, quando D. Pedro II inaugura, em 1850, o primeiro hospício, no Rio de Janeiro.

Além de se envolver no debate sobre o assunto, Renato fez várias visitas ao Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, em 1971, com um amigo que trabalhava na Editora Abril. O local abrigava aproximadamente quatro mil internos. Quando desceu a Serra do Mar em definitivo, o então arte-educador percebeu que a Casa de Saúde Anchieta era o palco para intervenções sociais e artísticas.

Renato confessa que não tinha ideia do que poderia fazer quando entrou pela primeira vez no Anchieta, em 25 de agosto de 1989. O hospital era um caldeirão por conta da superlotação, mas também pela iminente intervenção da Prefeitura de Santos, que fecharia o lugar e descentralizaria o atendimento aos pacientes de saúde mental por meio dos Núcleos de Apoio Psicossocial (Naps). O Anchieta tinha capacidade para 180 internos, mas abrigava 700 pacientes.

Ao entrar no Anchieta, ele viu o mundo cinza. Paredes, corredores, profissionais de saúde no piloto automático de uma instituição que agonizava. Lonas separavam pacientes de visitantes. Aliás, lonas que seriam transformadas menos de dois meses depois em material para peças teatrais.

Sala onde aconteciam as oficinas

Renato se aproximou dos pacientes, que não reagiam. Até que um jovem negro, de quase 1,90 metros, perguntou a ele o que fazia ali. Renato respondeu: “ teatro”. “O que é isso?”, perguntou Ercílio, hoje funcionário do programa municipal de reciclagem de lixo, o Lixo Limpo.

Segundo Renato, “ele ficou me olhando com cara de quem não tinha entendido. Aí, vi uma TV e disse: vim fazer novela.” Todos compreenderam e daí nasceram os primeiros personagens.

Não foram necessários 15 minutos de conversa para que Ercílio escolhesse ser um papa. Outro paciente, tão branco quanto a roupa de um médico, queria ser um pirata. Surgia a primeira peça, na qual um papa se aliava a piratas para roubar o Vaticano e dividir o produto do assalto meio a meio.

Um mês depois, em setembro de 1989, o trabalho já se estendia a outros pacientes, e Renato passava vários dias da semana dentro do Anchieta. Numa reunião com eles, apareceu a ideia de se criar um nome. Tam Tam, doidões, malucos-beleza, pirados; a lista girava em torno de expressões associadas, é claro, à loucura.

O grupo fechou em torno do nome TamTam. Renato explicou que o nome representava um gongo chinês, que ecoa para todos os lados. Daí, bastava entrar um médico ou enfermeiro para que os pacientes perguntassem o significado da expressão TamTam. Diante da resposta óbvia, associada à loucura, os internos retrucavam com a definição dada pelo arte-educador.

Intervenção cênica - rádio TamTam

O teatro se expandiu para o rádio. O programa TamTam nasceu em 1990 dentro do Anchieta, a partir de um aparelho de som 3 em 1, fornecido pela Prefeitura. 32 caixas de som espalhavam o programa pelas dependências do hospital psiquiátrico. Todos trabalhavam sob pseudônimos. O slogan resumia a ideia: “um programa do tamanho da sua loucura.”

Depois, o programa foi para a rádio Cacique AM e cresceu com a criação do jornal TamTam. Quando passou para a rádio Universal, a duração se fixou em meia hora por semana. Dois telefones não davam conta de atender aos ouvintes. A última parada foi na extinta Rádio Clube, também em Santos. No total, foram oito anos no ar.

Uma das propostas do aniversário de 25 anos é a retomada do programa de rádio. Ainda faltam definir o formato e acertar com uma emissora. Veicular o programa via Internet é também uma possibilidade.

Em 1990, Renato e Claudia Alonso se conheceram em uma das salas da Casa de Saúde Anchieta. Claudia era recém-formada em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Dançarina de formação clássica, ela dirigia uma escola de dança, mas nunca se sentira totalmente encaixada entre barras e sapatilhas. O motivo era que Claudia não atendia aos rígidos padrões estéticos que cercam as bailarinas.

Com o Trabalho de Conclusão de Curso embaixo do braço, ela conseguiu uma audiência com o então secretário de Saúde David Capistrano. Ele folheou o projeto e foi taxativo: “vá procurar o Renato di Renzo.”

Claudia nunca havia visitado uma instituição psiquiátrica. “Achava que louco babava e mordia.” Ela se lembra até da hora em que entrou no Anchieta: “Dez e meia da manhã”. Apavorada, atravessou corredores e entrou numa sala com paredes coloridas e pacientes em diversas atividades artísticas. Ela teve a sensação de que Renato a julgara como uma nova paciente, pois foi incorporada ao trabalho sem apresentações. “Ele beijou a todos. Ele pensou que eu era uma louca nova.”

Cláudia não suportou o ambiente, foi ao banheiro e vomitou. Na volta, conversou com Renato. Naquela época, o arte-educador já era funcionário da Prefeitura e trabalhava diariamente na instituição. No final da conversa, ele fez a pergunta que mudou os rumos da vida profissional de Claudia. “O que é mais importante para você? A dança ou a psicologia?”

Cláudia Alonso (à esquerda), em uma das edições da rádio TamTam

Ao se envolver com os pacientes do Anchieta, Claudia não poderia imaginar que seu grupo de dança, o Orgone, se transformaria, em 1993, em um grupo de teatro. Ela fechou a academia de dança e prestou concurso para a Prefeitura, onde trabalha até hoje com deficientes na Secretaria de Assistência Social.

A mudança de trajeto do Orgone foi um salto artístico hoje simbolizado em mais de cem prêmios e 20 espetáculos. O nome não seria mais apropriado. Orgone é a união das palavras orgon (órgão) e one (energia, pulsão, vida). O grupo teve mais de 5 mil alunos desde a fundação.

O projeto TamTam saiu dos corredores da Casa de Saúde Anchieta e ganhou outros palcos a partir de 1993. É quando Renato di Renzo dirige o primeiro espetáculo para o grupo: “Na sala de espera do Dr. Sigmund”. O espetáculo, que unia teatro e dança, faturou prêmios e bagunçou as definições em torno do trabalho deles. Para uns, teatro-dança. Para outros, dança-teatro. Estas categorias não existiam nos festivais, na época. Uma terceira via os classificava como teatro físico.

No mesmo ano, os trabalhos dos pacientes – inclusive o programa de rádio – foram expostos no Sesc, em Santos. Era o começo de um caminho que os levou a programas como Jô Soares Onze e Meia (o nome na época) e a reportagens de jornais e revistas do país e do exterior, como o The New York Times. Um ano antes, em 1992, o projeto se transformara na ONG Associação Projeto TamTam e se estendia a outros projetos de inclusão social. 

Bastidores da gravação com Renato di Renzo, no programa
Jô Soares Onze e Meia 

Em 1996, o TamTam se desmembra em dois outros filhos. A Rádio Moleke era um programa semanal que envolvia crianças e adolescentes de abrigos municipais. E o Zazah´Bar, que ocupava o terceiro andar do Teatro Municipal de Santos. “Todo teatro precisa de um bar”, explica Renato.

A partir de 1997, com o término da gestão David Capistrano, vieram as vacas magras. O TamTam perdeu espaço na administração Beto Mansur. Foram dois anos de vida itinerante. Os ensaios e demais projetos sociais aconteciam em casas antigas emprestadas por simpatizantes e amigos.

O trabalho também aconteceu em galpões e, em 1999, o Orgone passou a ensaiar no Colégio Universitas, na Ponta da Praia. Foi nesta fase que di Renzo solidificou o que atores chamam de “Pedagogia diRenziana”.

O grupo permaneceu no Universitas até 2003, quando o foyer (terceiro andar) do Teatro Municipal foi devolvido ao projeto. Nascia o Café Teatro Rolidei, hoje sede de todos os trabalhos que envolvem o TamTam.

Parte dos cenários vem de doações

Logo na entrada, o Café Teatro Rolidei parece um picadeiro. À esquerda, uma arquibancada com três degraus, usada para debates, espetáculos e aulas. À direita, um espaço que serve de palco e de cenário para a exibição de filmes. O Café abriga, todos os anos, o Ciclo de Cinema de Saúde Mental.

As paredes são uma bagunça organizada. A decoração é fruto de cenários abandonados no fosso do Teatro Municipal, além de doações e objetos encontrados pelos integrantes do grupo nas ruas de Santos.

O segundo ambiente, após uma cortina vermelha, tem o balcão do bar, uma biblioteca com dois mil títulos, outra minibiblioteca sobre rodas para crianças, com 200 exemplares, e uma infinidade de quinquilharias, como chapéus antigos e brinquedos, que transforma o espaço em um cenário múltiplo, a ser reconstruído pela imaginação do visitante.

Nos fundos, fica o banheiro, com três cabines, uma cadeira de barbeiro, azulejos em preto e branco e uma exposição de fotos pelas paredes com a história do projeto TamTam. O banheiro é chamado de bissexual. “Mas as cabines são individuais”, ressalta Claudia. Na janela, uma foto que simula a vista da cidade de São Paulo.

Duas vezes por mês, em média, acontece uma balada no Café Teatro Rolidei. A balada, por segurança, tem hora para acabar: duas horas da manhã. Nos variados espaços, famílias – inclusive com crianças – dançam, pois há sempre uma banda convidada, assistem a performances teatrais, leem e comem petiscos. Houve até celebração de noivado no local.

Ao final de cada balada, todos são convidados a limpar a casa. “É uma forma de cultivar pertencimento, cidadania. O bar é um lugar terapêutico”, afirma Claudia Alonso. Os frequentadores podem deixar mensagens em um dos cadernos do Café. Ao total, são 100 volumes. Uma das mensagens que indicam o espírito das baladas, deixada por um visitante. “Adeus Prozac. Olá, Rolidei.”

Cenário - Café Rolidei
Thays Ayres, de 33 anos, representa os braços direito e esquerdo de Renato e Claudia e conhece o Café Teatro Rolidei desde o trabalho de parto. Ela produz espetáculos, cuida da parte administrativa, do relacionamento com a imprensa, trabalha como assistente de direção e preparadora de elenco e, duas vezes por semana, dá aulas de teatro. Nas baladas do Café Rolidei, fica no caixa e interpreta uma detetive.

Ao simbolizar a versatilidade dos integrantes do grupo, Thays acredita que o teatro praticado pelo Orgone é alimento para o dia a dia. “O teatro serve para desmontar, sair do eixo.” Ela conheceu o projeto quando tinha 17 anos e fazia teatro no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. As aulas eram dadas por Renato di Renzo. Ela o seguiu para o Colégio Universitas e injetou a arte em definitivo na vida ao entrar para o Grupo Orgone.

Thays se formou em Psicologia e chegou a passar em concurso no Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, mas preferiu a arte. Ela entende que o teatro a permitiu não apenas aplicar o que aprende no mundo acadêmico, mas também a sobreviver como alguém que decidiu caminhar fora dos padrões.

Depois de 16 anos, a família, embora acompanhe os espetáculos, ainda torce o nariz para a troca do consultório pelo palco. “Não sou rica, não tenho carro e minha casa, mas tenho outros ganhos. É um investimento maior, um pouco do que deveria ter em cada escola. Eu fui escolhida pelo teatro.”

Fotos: Beth Soares
Felipe Domingues, por sua vez, está há cinco anos no grupo. Entrou com 16 anos e hoje é o garçom, um dos personagens que compõem as performances nas baladas do Café Rolidei. Disléxico, ele atua como voluntário cinco noites na semana. “Eu sou ótima pessoa e péssimo aluno. Ninguém me entendia.” Além disso, ele foi diagnosticado com hiperatividade. A terapia são as múltiplas atividades que exerce na rotina do Café Rolidei. De jardinagem à limpeza do espaço.

Felipe é formado em Gastronomia e com pós-graduação em Gestão de Negócios da Alimentação. (Felipe mora, atualmente, na Irlanda) No Rolidei, Felipe intepreta Adolf, um garçom alemão que chegou no Brasil em um porão de navio e que aprendeu português com um argentino. “Hoje, consigo ficar concentrado. A questão não é inserir pessoas diferentes na sociedade, mas que todos possam conviver juntos”. 

O projeto TamTam, depois de 25 anos, conta com 185 alunos e dezenas de voluntários. As baladas recebem mil pessoas por mês. A casa está sempre lotada, com filas na porta. Na prática, todos ali rezam a mesma cartilha, do teatro e da arte como libertação. Como ensina di Renzo, parafraseando Grotowski, “o trabalho destrói o cansaço, destrói o corpo cheio de máscaras, corpo pré-estabelecido.”

Assim é desde 25 de agosto de 1989, quando ele atravessou pela primeira vez o portão da Casa de Saúde Anchieta, a “Casa dos Horrores”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Psicose: salvo pelo Hitchcock





Marcus Vinicius Batista

Costumamos acreditar que livros, quando nos permitem abrir mão do sono madrugada adentro, são bons. A história seria envolvente a tal ponto que a curiosidade é o remédio preventivo para as dores físicas do dia seguinte.

Pensei que isso aconteceria comigo enquanto lia Psicose, de Robert Bloch (editora Darkside). Devorei a obra em 24 horas, como há muitos anos não o fazia. Mas a curiosidade não se traduziu em excelência literária.

O romance policial ficou conhecido depois que se transformou em um dos clássicos do cinema, sob a direção de Alfred Hitchcock, além de marcar a carreira de Anthony Perkins, como intérprete do assassino Norman Bates.

O livro é de 1959 e foi comprado pelo diretor no mesmo ano. O filme saiu em 1960. Hitchcock arriscou a reputação para adaptar a história do homem solitário e dono de um motel de beira de estrada. O diretor chegou a comprar – anonimamente - a tiragem completa, com 3 mil exemplares, para evitar que a história fosse divulgada.

Ele também brigou com o estúdio com quem tinha contrato e chegou a hipotecar a própria casa durante a produção. O resultado foi a bilheteria de US$ 50 milhões, diante de um investimento de US$ 800 mil e a solidificação da alcunha de mestre do suspense.

O filme deu a visibilidade que o livro e o autor precisavam. Robert Bloch entrou na indústria do cinema e ficou mais conhecido como roteirista, embora tivesse sido pupilo de H.P. Lovecraft e publicado dezenas de contos em revistas de horror e fantasia. Escreveu dez episódios para o programa Alfred Hitchcock Apresenta, no ar entre 1962 e 1965, e roteirizou três filmes da série Star Trek, na mesma década.

O livro Psicose é superestimado por causa do filme. Na prática, a obra atende ao que se propõe: um romance daqueles de papel barato (os pulp fictions), com uma história de fácil digestão, regada a pitadas de suspense. Não há arroubos psicológicos ou maiores aprofundamentos da psiquê de Norman Bates ou um grande mistério a ser resolvido. O Norman da literatura, por sinal, é o oposto fisicamente do ator Anthony Perkins, magro e alto.

As semelhanças com o filme são grandes. Hitchcock foi bem fiel à obra, o que justifica a ansiedade em sumir com o romance do mercado norte-americano. Mas há uma diferença essencial: a cena do chuveiro, em que Norman Bates mata Jane. No livro, o assassinato é bem mais selvagem e rápido. A cena é descrita em apenas três parágrafos.

A diferença se explica pelos bastidores. Hitchcock sofreu pressões da censura – os Estados Unidos atravessavam uma fase de profundo conservadorismo, vide a segregação e o McCarthismo – e teve que mascarar a sequência para que o filme fosse aprovado. A trilha sonora, decidida após a primeira montagem, deu o toque que faltava ao assassinato mais famoso da história do cinema. E olha que, inicialmente, o diretor era contra a música incidental.

Psicose foi lançado no mercado editorial brasileiro em 1959 e em 1964. Ficou quase 50 anos na geladeira até que a editora DarkSide o recolocou nas prateleiras há dois anos. A edição é muito cuidadosa – há a versão capa dura - e valoriza o livro como relíquia histórica e ícone da cultura pop.

Discutir se o filme é melhor do que o livro e vice-versa funciona como tempero para a pizza ou como aperitivo para a cerveja no boteco. Nada mais estéril comparar bananas com maçãs, ainda que a semente venha da mesma lavoura. No caso de Psicose, Robert Bloch deveria agradecer por ter plantado ideias na horta do mestre do suspense.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O livro-surpresa


Marcus Vinicius Batista

Devorei "O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, em dois dias. Para ser honesto, em um dia e meio. Utilizei todos os intervalos, dormi menos para chegar ao final da história de Christopher Boone, adolescente de 15 anos com Síndrome de Aspenger, uma forma de autismo.

O livro caiu nas minhas mãos no domingo, no final da tarde. Estava na casa do meu amigo André e conversávamos sobre literatura diante da estante de livros dele. Num instante da conversa, ele pegou o livro, me deu e disse: "Você vai gostar!" Levei emprestado mais um quadrinho do Demolidor e não questionei a decisão. É quase um pacto entre leitores-irmãos. De uma recomendação, não se duvida. Cumpre-se!

Resolvi olhar o livro assim que cheguei em casa. Que achado! A história é narrada pelo personagem principal. Não que o autor, Mark Haddon, tenha essa idade ou sofra da síndrome. O maior mérito da obra dele é fazer com que acreditemos que o narrador é realmente um adolescente de 15 anos, com Aspenger.

O garoto é incapaz de demonstrar emoções, domina matemática como poucos adultos, não pode ser tocado, conhece todas as capitais de todos os países do mundo e adora números primos, mas não compreende simbolismos, como metáforas. E, por causa disso, jamais mente.

Esse mosaico comportamental, vamos dizer assim, torna difícil a relação do personagem com seus pais, vizinhos, professores e colegas da escola especial em que frequenta numa pequena cidade da Inglaterra.

Christopher Boone é fã das histórias de Sherlock Holmes. E resolve aplicar os ensinamentos do detetive-mestre ao descobrir que Wellington, o cachorro da vizinha, foi assassinado no jardim com um forcado. E escrever um livro a partir das investigação, esta aí "O estranho caso do cachorro livro". Será que Christopher entenderia o significado de metalinguagem?

O adolescente, com o método sherlockiano, descobrirá não apenas o assassino do cachorro, como uma série de fatos que envolvem todas as pessoas próximas a ele, de maneira a levá-lo a ações inimagináveis para alguém que sempre dispensou "pensar sobre aquilo que não aconteceu".

Acompanhar as reações de Christopher é um exercício de controle da angústia. Ele sofre, física e mentalmente, com as relações humanas, suas sutilezas, seus jogos, suas aborrecidas previsibilidades da vida ordinária. A força do narrador te arrasta para o sofrimento contínuo de quem não consegue entender o que acontece em volta, assim como ninguém sabe lidar com ele e com a doença. O que varia são os níveis de paciência.

Christopher toma decisões definitivas num mundo de humanos transitórios, incompletos, abstratos como são os sentimentos e emoções. Christopher tem, a seu lado, somente a matemática e a física, áreas inábeis para diagnosticar as contradições psicológicas de qualquer humano, inclusive o adolescente, que sofre ainda mais por não enxergar a si mesmo em situações-limite daquele universo de difícil controle. Fechar-se e isolar-se seriam soluções, por exemplo, em uma estação de metrô lotada?

"O estranho caso do cachorro morto", de Mark Haddon, aponta com clareza como a maioria das pessoas não sabem como lidar com quem apresenta diferenças de comportamento, ainda mais se não apresentam sinais do ponto de vista físico. No reino da incompreensão, Christopher funciona com um imã, que coloca todos a volta dele, mas pela incapacidade de ser igual, os fazem acreditar que ele seria incapaz também de ver os outros.

Christopher percebe os comportamentos que optamos por tornar menos importantes, camuflados por vernizes que banharam as máscaras sociais. E ele sofre com isso, justamente pelo rigor que o impede de ser flexível no contato das pequenas (ou grandes, para ele sem diferença) mentiras e dos perdões silenciosos (para ele, sempre seria um grito). Ora, as armas que também usamos para levar a vida adiante.

"O estranho caso do cachorro morto" caminhou comigo na segunda-feira. Cheguei a me perguntar por que não conhecia o livro, por que nunca tinha ouvido falar dele. À noite, encontrei com André no trabalho e comentei: "Sensacional o livro. Estou quase no final."

Ele me disse: "Também achei. E acredita a surpresa? Achei esse livro na rua."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Game over literário

Marcus Vinicius Batista

Não jogo videogames. Minha história com eles começou aos 13 anos, quando ganhei um Atari do meu pai e terminou aos 17, quando arriscava cestas de três pontos na NBA, no Master System de um amigo, o Alfredo. Preferia os campeonatos de botão ou tentar ser jogador de futebol mesmo.

Daí em diante, tornei-me um espectador eventual e um leitor sobre o assunto. O espectador se manifesta quando estou na casa do amigo André Rittes. Lá, meus filhos e os filhos dele se juntam para disputar horas de batalhas. Hoje, como pai, e como pai, jogo algumas fases em versões diferentes de Lego, com Vini, meu filho de sete anos.

Leio sobre videogames por ser professor da área de Comunicação. É obrigatório me informar sobre as novidades de um mercado maior do que o de cinema. Os exemplos deste universo também ajudam a demonstrar a aplicabilidade de teorias e estudos sobre o impacto da mídia no cotidiano.

O preâmbulo sobre games tem o objetivo de explicar que ler um livro baseado neles me parece ser uma vantagem para quem não é fã do jogo, para quem está isento do purismo que normalmente ataca os crentes, por vezes mais preocupados com a fidelidade do que com a criatividade em torno de uma adaptação.

Terminei de ler, nos últimos dias, o livro Renascença, de Oliver Bowden. Quem me emprestou a obra me garantiu que não havia uma necessidade umbilical de ter lido as demais histórias da série Assassin’s Creed. Ele tinha razão. O maior mérito do texto – escrito por um historiador sob pseudônimo – é possibilitar uma trama fechada, de fácil passeio para leigos e diversão para os iniciados.

Por outro lado, o livro sofre do mais grave sintoma para as franquias que se alimentam de seguidas adaptações, em diversas mídias. A prisão ao modelo original, seja a história, seja o suporte tecnológico, limita o desenvolvimento de características da obra-filhote, que não consegue andar com a própria linguagem.

No caso de Renascença, sobrou aventura, faltou literatura. A impressão é que a trajetória de Enzo Auditore, a entrada dele na facção de Assassinos e a perseguição religiosa funcionam como uma introdução ao universo do jogo eletrônico. Esta estratégia me soa arriscada demais, pois a perda de qualidade de uma linguagem não significa o sucesso de outra, ainda mais a original, consolidada como marca neste mercado.

O livro caminha como se fosse a máscara de um roteiro de jogo. Talvez seja mesmo a função dele, preparar o espectador-leitor para o produto principal. Neste caso, personagens são descartados como moscas, cenários ficam para trás em descrições simples, e falta profundidade psicológica ao grupo principal de personagens.

A pesquisa histórica funciona como cortina de fumaça para as deficiências (ou a pressa) literária. Cortina de fumaça porque explora personagens históricos, mas não os fatos. Leonardo Da Vinci, Nicolau Maquiavel e Salvanarola são elementos importantes na construção da narrativa. Os dois primeiros, a serviços dos mocinhos.

O maniqueísmo, por sinal, é sintoma decisivo para que as últimas 50 páginas transmitam a sensação de que Renascença poderia ser menor. Como num videogame, lutas e mais lutas se repetem, com trocas de cenários, mas o mesmo objetivo de justiça e execução pelas próprias mãos.

Devolvi o livro ao meu amigo e, com gosto, comprei a ele mais uma obra da série, como presente de aniversário. É preciso respeitar o prazer dele, tanto com o console como com as páginas nas mãos. Para mim, ficou a sensação de passar de fase. E para outro jogo literário!