sábado, 31 de dezembro de 2016

Stranger Things e a volta da sessão da tarde

Marcus Vinicius Batista

Devorei, ao lado da minha mulher Beth, a primeira temporada de Stranger Things em dois dias. Os oito episódios da série produzida pelo Netflix foram consumidos madrugada adentro, com a ansiedade de conhecer o final provisório da história. Ansiedade foi apenas um dos sentimentos que compuseram um caldeirão de reações nossas, com conversas que incluíram amigos. E paralisação, claro, das outras séries que constituem nosso vício por este tipo de narrativa.

Stranger Things não é uma grande série, daquelas que mudam o rumo da TV pela técnica, pelo marketing ou pelo conjunto de produtos comercializados, como Breaking Bad ou Game of Thrones. E isso não significa demérito algum. A série não se coloca como ambiciosa. Não tem a pretensão de romper com modelos ou fórmulas narrativas. É diversão para marmanjos com vontade de reviver algo que ficou para trás pela idade que corre em sentido oposto.

A série se propõe a fazer uma homenagem, a aguçar a nostalgia de quem nasceu nas décadas de 70 ou 80 e respirou cultura pop dos Estados Unidos. É como se os irmãos Matt e Ross Duffer, os criadores de Stranger Things, falassem para eles mesmos, em audiência pública.

A série é rica em diversidade de referências. Os anos 80, para a indústria cultural, estão ali. Com uma pequena correção, se me permite, a década anterior flutua na questão temporal, pois aparece em cartazes, como Tubarão, ou no fanatismo no grupo de quatro crianças por Star Wars.

A nostalgia funcionou como motor para uma história bem contada. A série se passa nos anos 80 numa pequena cidade qualquer do interior. A guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética serve de cimento para as conspirações que os norte-americanos adoram e nós compramos, temperadas com monstros e alienígenas mais um governo que esconde informações.

No microcosmo de uma cidadezinha, o garoto Will desaparece. As linhas de investigação, da mãe dele, da polícia, de cientistas misteriosos e dos amigos de colégio, conduzem a história, os conflitos e a complexidade de muitos dos personagens.

As referências culturais, nem sempre explícitas, nos empolgavam quando descobertas. A cena nos trilhos de trem, em Conte Comigo, Carrie, as aventuras das crianças em Goonies, as bicicletas em ET, The Evil Dead, Dungeons & Dragons no tabuleiro por horas, He-Man na TV, formam uma lista de almanaque sobre o período. Mas, repito, nada disso adiantaria se não houvesse boa história, boas atuações, personagens interessantes e capricho técnico, do cenário à fotografia, da trilha sonora aos caracteres e nomes dos episódios.

A série é uma colcha de retalhos bem pensada e, por causa disso, escolhe transitar entre gêneros narrativos. Um de seus méritos é saltar do terror à comédia, do drama à ficção científica. A história se sobrepõe aos critérios classificatórios de gênero que, por vezes, engessam uma obra.

Stranger Things será lembrada também por recuperar a carreira de seus protagonistas. Winona Rider e Mathew Modine se encaixam nos papéis de mãe do garoto desaparecido e de cientista-chefe, respectivamente. Eles nos fazem esquecer que a indústria cultural os esqueceu por motivos variados. Como uma boa série não sobrevive sem um bom elenco de apoio, Stranger Things nos fascina pelo grupo de crianças que roubam a costura interior da história.

Os garotos e Eleven, à procura de Will

Os cinco são como nós e nossos amigos, aos 10, 12 anos, quando criamos um mundo à parte, inclusive como sobrevivência na escola. Os quatro garotos mais Eleven, a menina que fala pouco e possui poderes telepáticos, uma personagem que foi abduzida de um livro de Stephen King.

Eu e Beth devoramos a série porque ela nos empurrou para a infância e adolescência, adormecidas pelo clichê de quem envelheceu e sucumbiu ao conforto de dizer: "no meu tempo era melhor". A passagem da história nos anos 80 não apaga sua atualidade, principalmente por causa dos valores mais tradicionais, com relação entre pais e filhos, a construção de amizades, as fugas e perseguições por status, a dependência das convenções sociais e a prática da criação de estigmas.

A lista é nova? Não é e não precisa ser. Basta nos lembrarmos de que muito do que somos brotou e se moldou lá, nos tempos da infância e da adolescência. Lembranças divertidas e recorrentes na imaginação dos personagens da série. Atos, como pactos de amizade, que fizemos e hoje vemos como coisas de criança, sem enxergarmos que repetimos a atitude com pretensa sofisticação, encharcando de verniz que nos fazem parecer adultos.

Stranger Things é sessão da tarde e das boas, do tempo que valia a pena ver TV aberta depois do almoço. Hoje, envelhecemos em formol, mas cientes de que a série nos disse, em oito doses: "seu tempo é hoje!"

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