domingo, 18 de dezembro de 2016

Santos, a gata borralheira



Marcus Vinicius Batista

Era uma vez ... uma moça de mais de quatro séculos que caiu no conto da carochinha. Ela ganhou um convite para o baile mais importante da vida dela. Era o reconhecimento para quem trabalhava todos dias, via seus amigos sem trabalho, ganhava um salário abaixo da média do mercado fora dali, mas pagava todos os impostos. Com ou sem a desculpa da crise.

O baile tinha data marcada: 2 de outubro. Todos estariam lá. Vestiu a melhor roupa, na esperança de encontrar o príncipe. O homem encantado pelo marketing político a encontrou. Estava montado num cavalo branco de nome VLT.

Os dois dançaram a valsa no meio do salão. Ela, conhecida como terra da caridade e da liberdade, esperava pelo beijo que a tornaria a número 1 para se viver. No meio do salão, lembrou-se da recomendação daquela velha, a política. Corra para casa quando começarem as 12 badaladas da urna eletrônica. E jamais, jamais, aperte o botão sem pensar em todos os caminhos que esta história, que a sua história pode tomar.

Quando ela ouviu a primeira badalada do sino, despediu-se do príncipe e tentou correr. Na pressa, esqueceu-se de um sapato, feito de cristal, de grife quatro anos. Aos tropeções, alcançou a carruagem, que havia virado abóbora. O feitiço começava a fazer efeito.

O cocheiro estava ali parado, perdido. “Não sei onde estou. Meu partido me indicou para levar uma moça, mas ...”. Machucada pelas quedas, a gata borralheira pediu que a levasse ao hospital mais próximo. “Não posso, ele ainda não abriu. E, se abrir, só terá maternidade. Você está grávida, moça?”

Chorando na calçada, ela testemunhava o fim do encanto. As luzes que deixavam o castelo colorido desapareceram. O Natal seria sombrio. Os fogos de artifício, que traziam barulho e contemplação, deram lugar ao breu da meia noite.

Os convidados, que saíam do baile sem entender, não vestiam mais roupas de gala. Usavam trapos de segunda mão, sem dinheiro para viver aquela noite carnavalesca. As roupas teriam caído no grande rio que passa ao lado do castelo?

O buffet recolhia as travessas, copos e pratos. Antes, de prata. Agora, de papel e plástico. Também estava sem dinheiro. O resultado da festa, que entupia os latões de lixo, talvez ficasse por ali mesmo. Amanhecesse nos cantos do salão e do castelo. Depois da meia-noite, junto com a abóbora, vieram as notícias de que muita gente estava sem receber.

As irmãs e a madrasta faziam caras de horror. Fingiam não saber o que acontecia. Tudo havia se transformado. Quem seria a bruxa que as enganara? Como a irmã delas, tão experiente quanto, caíra no conto do vigário (que não é desta história) e mordera a maçã envenenada (que também não pertence a esta fábula)?

O final feliz não existe nesta história. 77% das crianças compraram a versão da Disney pela TV, rádio e Internet. Era, bem verdade, só o trailer bem editado e exibido no Horário Eleitoral Gratuito.

Nas linhas pequenas do contrato, a explicação: esta versão do conto de fadas é baseada nas histórias europeias do século 19, transmitidas à beira da fogueira, no meio da floresta. Nelas, o final é sempre para aterrorizar as criancinhas sobre os perigos do mundo. Não 77% das criancinhas. Todas!

Um comentário:

Depassagempelosnossosestúdios disse...

Sensacional essa crônica!Parabéns Marcus