quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Salvando as joias da Espanha



Marcus Vinicius Batista


Lauro desceu do ônibus cantando após duas horas de estrada. Na voz, pedaços da música “Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira. Ajudou a retirar as bagagens do ônibus, que levara e trouxera 20 pessoas da confraternização de final de ano, num sítio em Pedro de Toledo, no limite entre o Vale do Ribeira e a Baixada Santista.

Depois de tudo no chão, ali no Canal 5, começou a divisão do que sobrou do churrasco. Picanha, maminha, linguiça com queijo, presunto, sucos. Lauro, que voltaria a pé para casa, numa caminhada de 20, 25 minutos, escolheu umas dez latas de cerveja. Tinha experimentado a marca de origem espanhola no churrasco. Adorou.

As latinhas caberiam numa sacola de supermercado. De bagagem, só uma sacolinha de loja de cosméticos, que abrigava uma camiseta sobressalente. A neta e a sobrinha-neta dormiriam na casa da filha e do genro. Voltaria sozinho. Era a receita para abrir mais uma latinha e seguir assobiando o refrão de “Tocando em frente”.

Lauro se despediu de todo mundo, disse que estava “tudo na moral, camarada”, não precisava de carona. Andou três quadras e começou a pingar mais forte. “Dá pra chegar em casa”, pensou.

Mais uma quadra e caiu o pé d’água, daqueles que os pingos machucam, feito chuveiro de jato forte. Lauro decidiu se abrigar embaixo da primeira árvore. A decisão não parecia eficiente, já que escapava do volume de água, mas recebia os pingos selecionados pelas folhas e galhos na cabeça. A camiseta começava a grudar.

Ele decidiu que era melhor continuar a caminhada. Molhado estava. O apartamento seria a linha de chegada. Banho quente e cama. A chuvarada colocaria para fora o restante da últimas latinhas consumidas no churrasco.

Na quadra seguinte, a chuva deu o sinal de que não pararia por reza, macumba ou decreto. A sacola de supermercado se rompeu. Como Lauro já tinha tomado a latinha debaixo da árvore, ele estava com um dos braços livres para encurralar as fujonas no muro. As latinhas insistiam em rolar rumo ao meio-fio. Medidas urgentes para um instante de emergência.

Se estava na chuva, era para não se preservar. Lauro foi para o sacrifício. A sacola menor, com a camiseta sobressalente, estava encharcada. Ele a enrolou até que coubesse no maior bolso da bermuda. E as cervejas? Ele tirou a camiseta, colada ao corpo, transformou-a numa trouxa e salvou as dez latas de cerveja. Deu um nó em cada ponta, jogou a trouxa no ombro e apertou o passo na chuva.

Quinze minutos depois, o telefone tocou na casa da filha. “Lila, cheguei em casa. Não sabe o que aconteceu. Salvei todas as latas de cerveja.” Lauro ria e pensava no aniversário de 71 anos, que faria em dois dias.

Na noite do aniversário, as cervejas estavam lá, trincando de geladas na cozinha. Faziam companhia à concorrente alemã, que o marido da outra filha comprou para a festa.

Só depois do bolo, Lauro confessou: aos 71 anos, a caminhada como anfíbio para salvar as preciosidades espanholas tinha dado a ele uma gripe. Uma febre que o deixou de cama o dia anterior todo, prostrado no sofá diante da TV. Aí todos entenderam porque tamanha quietude no próprio aniversário, mas com o presente estocado no cofre que gela, ali do lado, na cozinha.

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