quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Quando Tim Burton encontra Romero Britto





Beth Soares e Marcus Vinicius Batista

Acabamos de assistir a “Grandes Olhos”, filme de Tim Burton. É um Tim Burton que não estamos muito acostumados a ver, uma história baseada em fatos reais. O filme conta a história do casal Walter (Christoph Waltz) e Margareth Keane (Amy Adams). Ele, um corretor de imóveis que se passa por artista. Ela, uma pintora que chega a São Francisco no final da década de 50 após escapar de um primeiro casamento.

A história se tornou famosa pelo fato de que ele assumia a autoria dos quadros pintados por ela. Quando o casamento acabou, as obras se transformaram em disputa judicial. O filme, ainda que se passe na década de 60, coloca questões atuais que envolvem a cultura pop e a relação com a arte.

O filme nos empurrou para duas leituras. A primeira seria frankfurtiana (Escola de Frankfurt) e o conceito de indústria cultural. Keane, por exemplo, percebe – com a justificativa de que o público deseja se emocionar – que pôsteres vendem mais do que quadros. Nas palavras dele, “por que vender um quadro de 500 dólares se podemos vender um milhão de pôsteres a um dólar?”

Quando pensamos neste caminho do filme, lembramos das tradicionais camisas de Che Guevara, hoje relegadas ao fundo das prateleiras em detrimento de camisetas dos Ramones, Johnny Walker e outros “ícones” esvaziados de significados. Os quadros de Margareth Walker, que retratavam em seus olhos grandes as tristezas das crianças – e talvez dela mesma, ingênua como elas -, ganham novos contornos ficcionais e mais interessantes para lotar galerias e gôndolas de supermercados.

Margareth Keane, em foto recente

Até que ponto a arte pode ser definida como tal? Quem estabelece o que é arte e o que merece o anonimato? As questões são tão complexas quanto ausentes de respostas, mas nos conduzem à segunda camada do filme de Tim Burton.

Walter Keane surge para o mundo da arte no início da década de 60, quando a TV começa a se transformar no veículo de comunicação mais popular dos Estados Unidos. E as práticas do falso artista se encaixam perfeitamente no que Guy Debord classificaria como Sociedade do Espetáculo.

Keane se relaciona com celebridades, prioriza oportunidades entre políticos e grandes eventos e está mais preocupado com as colunas de fofocas e as revistas de variedades do que com os críticos e os debates técnicos sobre os quadros. Enquanto isso, Margareth desejava o mínimo: o reconhecimento pela criação artística, independentemente do valor de mercado.

Somos, atualmente, um exército de Keanes. Procuramos o prazer do que atrai multidões, do conforto que nos remete ao pensamento único, da explicação superficial que talvez não tenha a ver com a realidade. O contexto é adequado aos ouvidos e olhos dispostos a digerir um discurso comovente e, ao mesmo tempo, improvável. Dane-se a probabilidade, prevalece a história que choca, que sensibiliza, que envolve pelo prazer de pertencer a um novo sabor comercialmente acessível. 

Tim Burton, em foto de 2012
Tim Burton costura, nas entrelinhas, aquilo que tanto abomina e explora de maneira simultânea. A trajetória cinematográfica dele nos transmite a impressão de que é possível flertar com a produção em série, sem deixar de ter uma marca própria, de se construir sinais autorais sem sucumbir às pressões das ditas tendências. Neste sentido, Burton fez um filme a la Woody Allen, para poucos na sala de cinema. E não deveria ser assim!

A obra de Keane (ou da esposa) se torna coadjuvante diante dos atos artificiais construídos por ele. Mentiroso patológico, Walter constrói e reconstrói histórias para justificar as criações artísticas, dramatizando personagens e cenários fictícios, porém funcionalmente emocionais. A imagem cresce de tal maneira que a origem dela, o objeto que a originou, não existe. A imagem passa a ser a única realidade necessária para que variações sobre o mesmo tema tenham sempre aparência de inéditas.

Margareth, quando descobre que tudo que pintou virou atração promocional em um supermercado, vê fregueses e funcionários com os mesmos olhos grandes e perturbadoramente penetrantes que retrata nas suas obras. É a pitada de fantasia sombria, a assinatura de Burton. Mas também indica o quanto sua alma de artista sofre com a banalização de algo tão pessoal e precioso, nascido dela para ser único. Ao olhar para o espelho e se ver com os mesmos grandes olhos, dá ao espectador a impressão de que também se deixou banalizar, ao ceder às vontades de um marido vaidoso e opressor.

Não cabe a nós entrar no mérito artístico de Margareth Keane. O próprio filme evita tocar a fundo nesta ferida. Com coerência, Burton coloca em discussão quem determina o real valor artístico de uma obra. Mais: até que ponto, na fugacidade das imagens, qualidade se tornou relevante?

Pensar sobre “Grandes Olhos” nos remeteu a uma comparação curiosa. Na verdade, uma analogia que nasceu dentro da sala de cinema. Saímos de lá discutindo porque a história nos remetia a Romero Britto e seus cadernos, lápis, canecas, camisetas, carros e, eventualmente, quadros. Tim Burton também teria pensado nele?

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