segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O tempo dos livros


Marcus Vinicius Batista

Após o almoço de domingo na casa de meu pai, resolvi abrir o armário de livros, que fica em um dos corredores do apartamento. As prateleiras são organizadas por assuntos (literatura estrangeira, nacional, jornalismo e futebol), rastros deixados por mim por conta de uma biblioteca lotada na minha própria residência.

Fui na terceira prateleira, de cima para baixo, onde ficam os títulos policiais, de suspense e de horror. Era a leitura que me interessava para ocupar parte daquela tarde. Entre Agatha Christie e Stephen King, peguei Sacramento, de Clive Barker.

Sacramento é um romance da década de 90, que oscila entre a fantasia e o horror. A história de um fotógrafo de animais que, ao ser atacado por um urso e entrar em coma, resolve retomar uma experiência misteriosa da infância, no interior dos Estados Unidos. Barker é um excelente autor e ficou conhecido pelas adaptações de Hellraiser para o cinema.

Ao abrir o livro e ver o selo da extinta Livraria Iporanga, em Santos, entendi porque aquela obra descansava ali, na casa de meu pai. Comprei Sacramento em 1996, quando tinha 22 anos. Queria experimentar o trabalho do autor, que me agradava com a série Hellraiser.

Lembrei-me também que havia lido as 50 primeiras páginas, mais ou menos, e que tinha detestado a história. Condenação sumária: 18 anos de reclusão na terceira prateleira. Não me recordo se houve transferência de presídio literário.

Resolvi, aos 40 anos, dar um indulto ao livro. Melhor decisão impossível! A obra é excelente, bem costurada, com personagens sólidos, com profundidade psicológica e com a permissão de várias interpretações por parte do leitor. Foram duas semanas agradáveis até terminar de percorrer as 550 páginas do romance.

Sacramento reforçou uma lição que hoje é cristalina para mim e nebulosa, quando eu tinha 22 anos. O problema não era o livro, e sim o leitor. Eu não estava pronto, talvez maduro o suficiente para compreender as nuances literárias de Clive Barker. Talvez, pela juventude, estivesse afobado em demasia para que o texto me desse informações e prazeres de uma só vez, e não em conta-gotas, no morde e assopra dos bons romances. 



Clive Barker me fez lembrar de dois autores brasileiros. Qual a relação entre o inglês e Carlos Drummond de Andrade e José de Alencar? Aos 20 anos, li em uma madrugada O Observador no Escritório, de Drummond. Adorei o livro, mas preciso relê-lo para saborear melhor as sutilezas dos ingredientes.

O Observador no Escritório me redimiu com o poeta mineiro. Três anos antes, às vésperas do vestibular, resolvi dissecar A Rosa do Povo, convidada frequente das listas de USP, Unicamp e Unesp. Era uma obra de poesia da década de 40, que – ingênuo, li no ritmo de prosa. Não entendi lhufas!

O tempo do leitor não é o tempo dos livros. Obras literárias existem para leitores imprevisíveis no tempo e no espaço. Depende do ambiente de leitura, da edição do livro, do estado emocional do leitor naquela ocasião, dos desejos e necessidades de quem se dispõe a virar a primeira página.

Na mesma época do vestibular, passeei de cabo a rabo por O Guarani, de José de Alencar. Um livro importante historicamente, mas que me chateou ao extremo, por conta das descrições intermináveis de cenários e personagens. Preferia – e assim prossigo – fã de um desafeto de Alencar, Machado de Assis, que o tempo se encarregou de eternizar como o melhor escritor brasileiro de todas as épocas.

Nunca mais voltei a dialogar com José de Alencar. E 20 anos não foram necessários para a redenção. Ele que me perdoe!

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