quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O sonhador e a sensata



Marcus Vinicius Batista

Ele chora feito criança quando se lembra de quando era menino. Ele sorri tal fosse moleque ao receber algum amigo, antigo ou daquela hora, em sua casa, onde voa baixo 10, 12 horas ao dia. Ele vibra como se tivesse 10 anos, depois de contar uma história que esbarra na mentira, flerta com a fantasia, namora com a verdade e engana a todas.

Ela observa os saltos dele. Pensa antes de andar, reflete depois de chegar, pondera ao repousar. Ela desconfia do sorriso fácil de quem chega, sem que o visitante perceba. Ela sorri ao natural nas vezes que se sente estrangeira numa terra que lhe passa segurança.

Ele sonha em espalhar o amor, semear a arte, cultivar a convivência. Ela o segue de punhado em punhado, a cada buraco onde ele planta, cúmplice no arado e na fertilização de segunda à sábado, com amanhecer às 9 horas e alvorecer, oficialmente, dez horas depois.

O sonhador não deseja o que é dos outros. Deseja que os outros venham. Ele descansa com os olhos abertos, e mantém o gingado depois de horas em pé, conversando, ouvindo, falando ao pé de ouvido, explodindo por gente, até que os olhos avermelhados de exaustão são desmentidos pelo sorriso e pelas palavras de pontapé inicial.

Ela é objetiva para criar. Não devaneia, toma o giz em seu poder e decora uma das paredes da casa. Assim como o sonhador, a sensata ensina pelo exemplo, nada de teorias.

A árvore de Natal, traçada enquanto o café alcança a mesa, se faz de convidada ao lado do cardápio, recebidos pelo anfitrião gramofone que sussurra aos 106 anos. Como sapatos, livros de todos os jeitos, sem gêneros, sem épocas, sem estrelinhas do caderno cultural de final de semana.

O sonhador sequestra o giz da sensata e impõem o motim na calçada. Nela, um cavalete conta histórias de efeitos para clientes e caminhantes passageiros. O poema cai para a ressurreição do slogan, que desaparece para a frase do dia, desatualizada pelo chá mate com hortelã ou a torta de banana ou o queijo da Serra da Canastra. Todos apontam o dedo e recitam: seja bem-vindo. Sentado paga a mesma coisa.

O cavalete é o alerta de que o dia recomeçou, com a renovação dos votos ao pão de queijo, com o café enamorado pela torta, o refrigerante orgânico que faz escada à cerveja artesanal, ambos coadjuvantes de uma ciranda de chup-chup, feito caixa de lápis de cor na geladeira que tornou o picolé da marca mais famosa um figurante de luxo.

O sonhador sabe ser sensato. Não cai na esparrela de tratar todos como padrão. Abre a vida para os de sempre, que já desfiaram biografias antes dele. Serve um café, batiza o freguês com pão de queijo, mesmo que ele venha com o golpe da nota de cem reais para fugir da conta do expresso e sua fumaça.

Quebrado nos pés protegidos e esmagados pelas botas de algum canto das Minas, o sonhador se senta e se descalça para, em vias de sensatez, enfrentar a matemática que assegura o retorno no dia seguinte, na próxima segunda-feira e assim por diante. É o mesmo sujeito que se debruça para estudar o rótulo de um produto, procurar por um fornecedor de chocolate no interior gaúcho ou só para experimentar o suco de laranja do concorrente da semana.

A sensata também conhece os caminhos do sonho. Lado a lado, ela assina embaixo dos pecados de quem camufla delirar ou alucinar, consciente de que foram os sonhos que os empurraram para o alto da ladeira, entre ranhuras de barro, deslizes de pedregulhos e lágrimas que pediam para desistir na próxima manhã.

O sonhador e a sensata entrelaçaram as mãos e escaparam dos palpiteiros, driblaram os oportunistas e decidiram erguer a vida à beira do mar, às margens do canal e na nascente de novos amigos, alguns com título de família.

A insanidade de chutar para o alto e agarrar com os próprios braços deu a eles um garoto. Iago, o menino com nome-sufixo de santo, traz os olhos do pai e as feições da mãe. Mas ele é filho de quem diz ser pela capacidade de correr em ritmo de sonho a ponto do pai rezar por sensatez e por desligar a fonte de energia no fechar dos olhos, que fazem brotar o amor materno, desintegrado de quaisquer traços de racionalidade.

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