segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O alquimista e a missa




Marcus Vinicius Batista

Uma amizade não tem endereço combinado ou hora marcada. O sujeito vira amigo e você só descobre a origem do relacionamento nas conversas tempos depois, daquelas que podem gerar risadas ou lágrimas. Ou ambas.

Cid Marcos Lima virou meu amigo numa missa. Foi meu colega de empresa, depois virou meu aluno, tornou-se meu vizinho de laboratório e colega de docência. Os cinco anos que passaram por um banho de emoções em 20 minutos de ritual religioso.

Cheguei atrasado na missa de sétimo dia da mãe dele. Fora um dia de relógio contado, de compromissos encaixados, de pressa e pouca reflexão. Entrei na Igreja Nossa Senhora dos Passos e desacelerei. Morte proposital do celular, concentração num ponto adiante, o altar, mais alguns minutos de meditação e solidariedade a um colega.

Via-me de certa forma nele, pois minha mãe morrera dois anos e meio antes, mas entendia que não estava lá por isso. Não estabelecera uma conexão entre nós por este motivo. Era um gesto de respeito a um colega de trabalho.

Quando a missa terminou, fui à primeira fileira, como todas as pessoas, para prestar condolências. Quando Cid me viu, nos abraçamos. Ele começou a chorar e a agradecer minha presença. Só consegui dizer: “era o mínimo, era o mínimo”. Os olhos ficaram marejados, eu o abracei novamente e me despedi. Tinha que ir à faculdade dar aula. O dia seguia no morde e assopra.

Na mesma semana, começamos a conversar sobre nossas vidas, nos intervalos na sala dos professores. É o melhor remédio para fugir dos colegas que ficaram viciados em tagarelar sobre provas, notas e comportamentos (ruins, quase sempre, na visão catedrática) dos alunos.

A amizade começou a se construir pela ausência de nossas mães. Conversamos sobre a morte – é difícil achar um interlocutor que queira mexer nesse tema-tabu -, sobre os sentimentos que a envolvem. O primeiro passo estava dado.

Com o tempo, as conversas e os encontros se estenderam às nossas esposas. A amizade cresceu em progressão geométrica, fizemos amigos em comum, incluímos meus filhos, e as histórias de vida se cruzaram com naturalidade. As encruzilhadas com outros personagens, os enredos com subtramas semelhantes, intersecções de tombos e poeiras sacudidas.

Da missa, me tornei amigo de um alquimista. Cid transforma pessoas pela convivência. O artificialismo que mora nele reside sozinho nos cabelos pintados de amarelo. A naturalidade ocupa todo o resto do território. As camisetas são tão coloridas quanto o sorriso antes do boa noite.

O tênis All Star calça a alma jovem, que contradiz os 49 anos da carteira de identidade. Qualquer desafinada de avaliação desmorona quando o músico sobe no palco de boné para trás. A imitação perfeita da voz de Dinho Ouro Preto ou o timbre bem parecido com o de Herbert Vianna. Tocar é uma desculpa para manter vivo o humor, que disputa vaga com a disciplina diante da arte, em qualquer das duas bandas, Discover ou Insistentes, ou no violão e voz.

Cid é tão disciplinado quanto fã de tecnologia. Admiro quem se dispõe a passar horas esmiuçando (o verbo que ele usa é outro, mais comprometedor, como um papel de seda) um manual para melhorar seu desempenho como fotógrafo. Ou para melhorar um equipamento auxiliar de show. Ou para sofisticar a edição de um vídeo.

A seriedade se apossa do fotógrafo. O riso retoma a liderança entre os cliques. Artista não tem a ver com boca mole. Artista é busca pela perfeição, pelo auge da expressão de uma ideia maturada por longo tempo. A imagem de um leão cansado, de uma escultura africana ou de crianças saltando na piscina do sítio têm valor idêntico, que perdem apenas para a convivência de fotografar entre amigos, pelos amigos e para eles.

Cid Marcos Lima não é Midas; caso contrário, estaria longe daqui, mas tem a habilidade de transformar o que toca em arte, sem alarde, sem empáfia, sem marketing pessoal (até demais), sem a soberba dos charlatães da cultura. 

Costumo me divertir quando conversamos sobre tecnologia. Ele fala de termos técnicos como se batesse papo sobre ingredientes de uma pizza. A naturalidade dele se contrapõe à minha cara de paisagem e o balançar de cabeça positivamente, feito bonequinho canino de traseira de carro.

As palavras em inglês, de nomes de equipamentos a expressões do idioma, pertencem ao repertório dele, tão divertidos no meio das frases, como as gírias e as caretas que descrevem os personagens alheios. Na lição involuntária deste professor, aprendi a imitá-lo em seu trejeitos.

Ser multiverso está na biografia dele. Trabalhou com joias, em turno de fábrica em Cubatão, em setor de fotocópia de universidade, como técnico de estúdio. Na música, tocou em casas noturnas para 1300 pessoas. Noites de Carnaval lotadas como cordão de abadá na Bahia. Por outro lado, testemunhou na carne o esvaziamento da força dos músicos na cidade.

Cid é meu professor mais recente na cozinha. Na lapidação específica do churrasco. Picanha de forno, pernil, maminha, carne de porco. “Vamos matar o bicho”, ele brinca. Cid, por exemplo, aprendeu a amolar as facas com o cunhado de origem japonesa. Ele as carrega em cases, como faz com os instrumentos musicais. Comer é a lição do compartilhar.

No último encontro nosso, Cid transformou a água dos bifes em um saboroso molho madeira. Quatro dias antes, tornei-me – graças à pedagogia do mestre – mais preciso no preparo do vinagrete. E para 30 pessoas!

Nossas mães se foram, inclusive, para nos aproximar. A missa mudou nossa liturgia. A Cultura encontrou na afinidade o empurrão para criarmos juntos. A arte e a tecnologia me deram um professor além dos muros da escola, daqueles em que as conversas fora da sala trazem as melhores lições.

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