domingo, 4 de dezembro de 2016

Mudança de casa



Marcus Vinicius Batista

Estamos em endereço novo há três meses. Estamos porque, claro, não me mudei sozinho. Estamos porque, claro, uma mudança de endereço não é apenas um novo CEP, novas chaves, novos vizinhos. Mudança é, sem escolha, balanço. Mudança é abandonar um pedaço, agarrar outro, incorporar uma terceira fatia.

Quando deixamos um lugar, carregamos o trecho da narrativa que nos interessa. Escolhemos a melhor forma de contar a história, bem editada, dependendo do abraço que damos às queixas ou do afago nas lembranças sorridentes.

A limpeza auxilia no caminho a seguir. Por qual porta sairemos? Mudança representa enxugar espaços, dispensar tralhas, redescobrir fantasmas impregnados em objetos. Arrastamos aqueles móveis que viraram monumentos e descobrimos, como arqueólogos, o passado de coisas que um dia mereceram o status de essenciais. Como nunca o foram, resta o sepultamento em uma lata de lixo, sem direito à ritual. É mais honesto do que a mentira-promessa de que um dia vamos usar.

Fingimos acreditar que os objetos são parte de nossa identidade e, por conveniência, esquecemos de mencionar a parte de que seriam. Se estivessem em nosso cotidiano, jamais morariam no fundo da gaveta de um criado-mudo qualquer.

Mudar de casa também permite revalorizar os sobreviventes. Aquelas roupas, livros, esculturas, os que nos acompanham se materializam como filtros de quem merecia ocupar uma menção no livro daquela etapa da vida. Essa revalorização integra a nossa própria purificação, a esperança em melhorar aspectos internos – mais até do que redecorar a casa.

Antes de sairmos, avaliamos quem fomos, projetamos quem seremos, prometemos mudar mais do que trocar de apartamento. A antiga moradia nos entregou, como despedida, a conta com nossos erros, com nossos sucessos.

Optar por uma das trajetórias? Interpretar que ambos se completam? Mentir para nós mesmos e zerar o caixa? Sair para uma morada inédita e compreender que o carreto e as caixas carregam uma vida editada sim, porém com a oportunidade de reescrever a trilha.

Em três meses, deixamos a casa nova como queríamos. Gastamos o que não podíamos. Adaptamos o que sonhávamos. Reorganizamos o que eram falhas e, com novas janelas, viraram virtudes. Admitimos que tudo é processual.

Um endereço novo traz a motivação de jamais engolir a ilusão de que a mudança começa quando se tranca a porta nova pela primeira vez. Não se apaga um velho imóvel. Apenas o insere – com o devido valor – no mundo novo.

Até que se demarque o território, somos gatos em vida transitória. Mudar é procurar o essencial, enxugar as gorduras que abraçamos pelo conforto, pela preguiça, pelo desespero de ser amado. Muda-se para ser outro, dentro dos limites do outro que nos faz cúmplice.

Eu e Beth somos unânimes no quórum de duas pessoas, duas crianças... e dois gatos. Esta é, pela primeira vez, a nossa casa.

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