sábado, 10 de dezembro de 2016

Feliz aniversário, Yoda!



Marcus Vinicius Batista

Quando seu filho me abraçou, na frente de centenas de pessoas, no Mendes Convention, segurei as lágrimas no limite. Ele estava aos prantos enquanto recebia a colação de grau em seu nome. Eu só consegui dizer a ele, durante o abraço: “seu pai era brilhante! Excelente! Um orgulho ser amigo dele!”

Você sabe disso, pois tenho certeza de que nos observava de algum canto. Quem sabe ao lado? O que você não sabe é que levei 11 meses para conseguir te escrever. Sei que me atrasei. Nós havíamos combinado uma crônica (pode ser carta?), logo depois de você ter visto a pré-estreia de Star Wars, em São Paulo.

Você me deu suas impressões sobre o filme, com pedido de sigilo, exigência da produtora. Eu prometi a você que faria uma adaptação e publicaria um texto. Não consegui. Não tenho explicação. Qualquer argumento seria mais do que uma desculpa esfarrapada, uma mentira.

Travei. Paralisei. Nunca contei a ninguém. Apenas protelei o que se transformou numa dívida entre amigos, daquelas que ambos perdoam. Nunca um fardo. Jamais uma obrigação.

Desconfio que seja uma das artimanhas que usamos, na esperança de congelar uma pessoa querida em vida. Evitando mexer em certos guardados, acreditamos que eles nos manterão próximos de um passado que o tempo se encara de distanciar bem devagar. Simplesmente, não escrevi, logo eu, que estudo luto e curso Psicologia.

Como hoje é seu aniversário de 46 anos, matei dois coelhos. Te dou parabéns por escrito (o registro fica em qualquer plano, com perdão da piada wagneriana) e acerto as contas comigo. Sei que você jamais reclamaria do atraso deste texto.

A primeira lembrança – não a mais antiga – é quando você entrou na sala de aula da Unisanta para cursar Introdução ao Telejornalismo. Só pude perguntar: “o que você está fazendo aqui?” Você sorriu e disse que sempre tinha algo a aprender. Logo você, um dos que me ensinaram TV lá na primeira metade dos anos 90.

No ano seguinte, você estava preocupado com o que a escola passava ao seu filho. Temia pelo futuro dele, pela qualidade do ensino. No meio da conversa, fez um dos maiores elogios que poderia receber como professor e colega de profissão. Tarde de um sábado, esquina das ruas Oswaldo Cruz e Bento de Abreu, no Boqueirão, em Santos, para te lembrar.

Você me contou que estava cansado de tirar 10. Não falou com empáfia, mas com uma sinceridade cortante, digna de um ateu de carteirinha, comprometido com suas ideias até o final. Você me falou: “Prefiro seu oito e meio. Você exige mais de mim, nas aulas e nas provas.”



Sempre lembrarei de ti como um cara insatisfeito. Nada de reclamação. A dedicação era nítida. Você se formou como melhor aluno da sala, sendo que enfrentou uma doença durante quase todo o curso. Não há argumento melhor para sua forma de levar a vida.

Você era de um realismo cortante, tão duro às vezes, que me levava a desconfiar de uma forma de proteção. Justo. Você precisava lutar com as armas que estivessem à mão ou dentro de ti. Expor a doença, dialogar com quem quer que fosse, pesquisar a fundo, dar entrevistas, escrever, chiar, pular o muro que se desenhava à frente, tudo o que foi possível para permanecer ao lado da esposa e do seu filho.

Mais do que se formar, você queria vê-lo formado. Estudava não apenas para aprender, mas para servir como exemplo para ele. Percebi isso e falei em uma de nossas conversas. Você confirmou.

As queixas nas redações, dentro e fora da universidade, eram parte do personagem, eu sei, mas também serviam para sacudir a molecada, eventualmente chorando de barriga cheia e monitor de computador vazio. O sorriso de canto de boca e o sarcasmo completavam as características do Yoda, apelido que carregou como um sobrenome, que te marcou como um sábio oscilante entre as palavras doces e precisas e a agressividade com o sabre de luz quando cutucado. Só não falava ao contrário, o que daria trabalho para explicar as perspectivas para aqueles que sofriam de surdez seletiva.

Minha esposa chegou em casa e me perguntou sobre o que escrevia. Tentei explicar, mas falhei. Ela me abraçou. Um intervalo para respirar. Fiz um queijo quente para ela e outro para o Vini, que acabou de acordar.

Wagner, tento aceitar, mas é difícil entender sua mudança de endereço, ainda mais um sujeito cheio de vida, inquieto, disposto a aprender, disposto a ensinar, nunca negando a própria curiosidade, de braços abertos para se aperfeiçoar. Você poderia ter se acomodado atrás do câncer, vestido a fantasia de vítima, exigindo olhares de compaixão. A compaixão, por sinal, era o gatilho da tua irritação.

Fazer, produzir, lutar, verbos para derrubar a misericórdia. A informação médica para combater a pena. Concordo. A pena é um sentimento arrogante, mesmo que seja involuntário. Quem sente pena não consegue escapar do ar de superioridade.

Sinto saudades suas, meu amigo. Das conversas na redação, da cumplicidade para fechar um jornal laboratorial, tratado com o devido respeito de um veículo do mercado. Saudades das conversas como pais, sobre nossos filhos e nossas dificuldades para lidarmos com os problemas deles.

Preciso pagar esta dívida com você. Não era um débito que atormentava, mas uma justificativa para relembrar coisas boas, saudáveis, que nos empurram rumo ao adiante. Escrevo para amenizar a ausência, claro. Escrevo também para puxar conversa. Escrevo para dizer, meu amigo, até logo. Um abraço! Ah... e feliz aniversário, Yoda.


Obs.: Texto publicado no Juicy Santos, em 5 de dezembro de 2016.

            

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